Consumo de álcool entre estudantes de medicina: fatores associados e impacto na vida acadêmica

Alcohol consumption among medical students: associated factors and impact on academic life.

Emília Maria Gonçalves Rebêlo[1]

Layanna Portela Leal Lopes[2]

Layanne Cavalcante de Moura[3]

RESUMO

O consumo de bebidas alcoólicas entre estudantes de medicina representa um relevante problema de saúde pública, considerando a vulnerabilidade desse grupo diante das exigências acadêmicas e emocionais inerentes à formação médica. O presente estudo teve como objetivo investigar os fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina e analisar os impactos dessa prática na vida acadêmica. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases de dados SciELO, MEDLINE/PubMed, LILACS e Scopus, contemplando artigos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis na íntegra e nos idiomas português, inglês ou espanhol. A seleção dos estudos seguiu critérios previamente estabelecidos, sendo realizada por meio da leitura dos títulos, resumos e textos completos. A análise dos estudos evidenciou elevada prevalência do consumo de álcool entre estudantes de medicina, com destaque para padrões de uso excessivo, como o binge drinking. Entre os principais fatores associados, destacaram-se o estresse acadêmico, a sobrecarga curricular, a busca por socialização, além de aspectos psicológicos como ansiedade e sintomas depressivos. Observou-se ainda que o consumo abusivo de álcool pode gerar prejuízos significativos, incluindo queda no desempenho acadêmico, alterações no sono, comprometimento cognitivo e aumento da exposição a comportamentos de risco. Ademais, a literatura aponta implicações éticas e profissionais relacionadas ao consumo de álcool por futuros médicos, uma vez que esses profissionais exercem papel fundamental na promoção da saúde. Conclui-se que a adoção de estratégias institucionais voltadas à prevenção e ao cuidado com a saúde mental dos estudantes é essencial para minimizar os impactos do consumo de álcool e contribuir para a formação de profissionais mais preparados e conscientes de suas responsabilidades sociais.

Palavras-chave: Consumo de álcool; Estudantes de medicina; Saúde mental; Desempenho acadêmico; Universitários.


1 INTRODUÇÃO

O consumo de bebidas alcoólicas é uma prática socialmente aceita e amplamente difundida em diferentes contextos culturais, especialmente entre jovens adultos. No ambiente universitário, essa prática assume proporções preocupantes, considerando a vulnerabilidade dessa população e os impactos negativos que o uso excessivo de álcool pode causar na vida pessoal, acadêmica e profissional (Silva; Souza, 2021). Entre os estudantes de medicina, o tema ganha especial relevância, uma vez que esses indivíduos serão futuros profissionais de saúde, responsáveis por promover comportamentos saudáveis na sociedade (Freire; Castro; Petroianu, 2020).

A fase universitária é marcada por uma série de transformações psicológicas, sociais e emocionais. O ingresso em um curso exigente como o de medicina expõe o estudante a altos níveis de estresse, ansiedade e pressão por desempenho. Esses fatores, associados à busca por pertencimento social e à adaptação a um novo ambiente, podem contribuir para o uso abusivo de álcool como forma de lazer, socialização ou alívio das tensões cotidianas (Delfino et al., 2018).

Pesquisas nacionais e internacionais apontam que o consumo de álcool entre universitários, incluindo os estudantes de medicina, apresenta taxas preocupantes. Um estudo realizado na Polônia com acadêmicos da área da saúde mostrou que a frequência e a intensidade do consumo estão relacionadas a fatores como gênero, idade e contexto social (Gajda et al., 2021). De forma semelhante, estudos brasileiros evidenciam padrões de uso que variam de consumo ocasional a episódios de binge drinking, caracterizados pela ingestão de grandes quantidades em curto período de tempo (Carvalho; Coelho; Oliveira, 2020).

A vulnerabilidade dos estudantes de medicina diante do consumo de álcool pode ser explicada, em parte, pela sobrecarga acadêmica e pela competitividade intrínseca à formação médica. As jornadas extensas, o contato precoce com o sofrimento humano e a constante pressão por resultados podem levar alguns alunos a utilizar o álcool como uma estratégia de enfrentamento (Miramontes et al., 2022). Esse comportamento, no entanto, acarreta consequências significativas à saúde mental e ao rendimento acadêmico.

Além disso, é necessário considerar que o consumo de álcool por futuros médicos traz implicações éticas e sociais. Espera-se que esses profissionais atuem como modelos de conduta saudável e possuam conhecimento técnico sobre os riscos associados ao uso de substâncias psicoativas. A incoerência entre o discurso profissional e a prática pessoal pode comprometer a credibilidade e a capacidade de promoção da saúde desses indivíduos (Mariano; Chasin, 2019).

Outro ponto importante refere-se às diferenças de gênero na prevalência e nos padrões de consumo de álcool entre estudantes de medicina. Nos últimos anos, observou-se um aumento expressivo da participação feminina na medicina brasileira, o que torna pertinente analisar se essa mudança demográfica tem influenciado o comportamento de consumo (Conselho Federal de Medicina, 2020). Estudos indicam que, embora homens ainda apresentem maiores índices de uso abusivo, o consumo entre mulheres vem crescendo de forma preocupante (Malta et al., 2023).

Os efeitos do álcool não se limitam ao indivíduo, estendendo-se a comportamentos de risco, como dirigir sob influência, violência interpessoal e negligência com responsabilidades acadêmicas e pessoais. O Ministério da Infraestrutura, por meio do Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas de Trânsito, aponta a associação entre o consumo de álcool e a ocorrência de acidentes automobilísticos, refletindo um grave problema de saúde pública (Brasil, 2023).

Nesse contexto, é fundamental compreender os fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina, bem como os impactos dessa prática em sua trajetória acadêmica e futura atuação profissional. O entendimento desses elementos é essencial para subsidiar políticas institucionais de prevenção e promoção da saúde voltadas ao público universitário (Klinger et al., 2020).

O estudo de Mazzuco, Justina e Rico (2022) aborda a prevalência e os fatores associados à amnésia induzida por álcool entre estudantes de medicina, destacando que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é uma prática frequente nesse grupo acadêmico. Os autores identificaram que a rotina intensa, o estresse e as pressões emocionais do curso contribuem para o uso abusivo de álcool como forma de alívio ou socialização. O estudo também evidenciou consequências neuropsicológicas, como lapsos de memória e prejuízos cognitivos temporários, reforçando a necessidade de estratégias preventivas e de conscientização sobre os riscos do consumo exagerado entre futuros profissionais da saúde.

Mello Neto et al. (2023) realizaram uma revisão de literatura sobre os impactos do consumo excessivo de álcool na vida de estudantes de medicina, ressaltando os efeitos negativos sobre o desempenho acadêmico, a saúde mental e as relações interpessoais. Os autores apontaram que o consumo de álcool está associado a distúrbios do sono, sintomas depressivos e queda no rendimento escolar, além de representar um comportamento de risco que pode se estender para a prática profissional. O estudo reforça a importância de políticas institucionais de apoio psicológico e educativo voltadas à promoção de hábitos saudáveis e à redução do uso abusivo de substâncias no ambiente universitário. Com isso, se tem o seguinte problema: quais fatores estão associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina e de que forma essa prática impacta sua vida acadêmica?

O trabalho tem como objetivo geral investigar os fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina e analisar os impactos dessa prática na vida acadêmica. E ainda como específicos: identificar a prevalência e os padrões de consumo de álcool entre estudantes de medicina; analisar os fatores sociodemográficos, psicológicos e institucionais associados ao uso de álcool nessa população; conhecer as repercussões do consumo de álcool no desempenho e na rotina acadêmica dos estudantes.

2 FUNDAMENTACAO TEÓRICA

A escolha do tema justifica-se pela relevância social e acadêmica da problemática do consumo de álcool entre estudantes de medicina. Trata-se de uma questão que afeta diretamente o desempenho acadêmico, o bem-estar psicológico e a formação ética desses futuros profissionais da saúde. A compreensão dos fatores que levam ao uso e abuso de bebidas alcoólicas é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção eficazes nas universidades (Delfino et al., 2018).

O curso de medicina, pela sua natureza intensa e competitiva, demanda dos estudantes elevada carga emocional e cognitiva. Tal cenário pode favorecer o surgimento de comportamentos de risco, entre os quais se destaca o consumo de substâncias psicoativas. A identificação dos fatores associados a esse comportamento permite compreender de forma mais ampla o contexto em que os estudantes estão inseridos e as motivações que impulsionam suas escolhas (Klinger et al., 2020).

Além disso, a literatura aponta que o consumo de álcool entre universitários tende a ser subestimado e normalizado. A cultura acadêmica frequentemente legitima o uso de bebidas alcoólicas em eventos sociais e confraternizações, reforçando estereótipos que associam o álcool ao relaxamento e à integração social. Tal naturalização contribui para a banalização dos riscos e para a negligência quanto às consequências dessa prática (Malta et al., 2023).

Outro aspecto que reforça a importância deste estudo é a escassez de pesquisas recentes que abordem o tema sob a perspectiva do impacto acadêmico e profissional entre estudantes de medicina no contexto brasileiro. A maioria das investigações concentra-se em medir prevalências de consumo, mas ainda são limitadas as análises que considerem os determinantes sociais, psicológicos e institucionais envolvidos (Carvalho; Coelho; Oliveira, 2020).

A pesquisa também se justifica pela necessidade de fomentar políticas institucionais de saúde mental e prevenção ao uso de álcool nas faculdades de medicina. Tais medidas podem incluir programas de acolhimento psicológico, campanhas educativas e ações de sensibilização voltadas para a redução do consumo e para a promoção de hábitos saudáveis (Mariano; Chasin, 2019).

Do ponto de vista ético, compreender a relação entre o consumo de álcool e o comportamento de estudantes de medicina é essencial, uma vez que esses futuros profissionais terão papel central na orientação da população quanto aos riscos do uso de substâncias psicoativas. A coerência entre a formação acadêmica e a prática pessoal é um elemento importante para a credibilidade profissional e para a eficácia das ações de saúde pública (Miramontes et al., 2022).

Por fim, a justificativa deste estudo ancora-se no compromisso social das instituições de ensino em formar profissionais não apenas tecnicamente competentes, mas também conscientes de sua responsabilidade com a própria saúde e com a saúde coletiva. Investigar o consumo de álcool entre estudantes de medicina é, portanto, um passo relevante para compreender e mitigar um problema que transcende o âmbito individual, alcançando dimensões sociais e institucionais (Freire; Castro; Petroianu, 2020).

3 METODOLOGIA

A presente pesquisa foi desenvolvida por meio do método de revisão integrativa da literatura, que, conforme Gil (2022), consistiu em um procedimento sistemático e abrangente de análise de estudos já publicados, com o objetivo de reunir, sintetizar e discutir o conhecimento científico disponível sobre determinado tema. Esse tipo de revisão foi considerado adequado para a investigação proposta, uma vez que permitiu integrar resultados de pesquisas com diferentes abordagens metodológicas, proporcionando uma visão mais ampla sobre os fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina e os impactos dessa prática na vida acadêmica.

A revisão integrativa seguiu as etapas metodológicas descritas por Mendes, Silveira e Galvão (2008), que compreenderam: a formulação da questão norteadora; a definição dos critérios de inclusão e exclusão; a busca nas bases de dados; a seleção dos estudos; a análise crítica das informações extraídas; e a apresentação e discussão dos resultados. Essa estrutura assegurou a transparência e a reprodutibilidade do processo, além de garantir a qualidade metodológica dos achados reunidos.

A questão norteadora que guiou esta revisão foi: “Quais são os fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina e quais os impactos dessa prática na vida acadêmica?”. Essa questão foi formulada com base na estratégia PICo (Paciente, Intervenção, Comparação e “Outcomes”), em que a população correspondeu aos estudantes de medicina; a intervenção foi o consumo de álcool; o contexto referiu-se ao ambiente universitário; e os resultados disseram respeito aos impactos sobre o desempenho e a saúde dos estudantes.

Registros identificados nas bases de dados (n = 742)
PubMed (298)
Scopus (247)
LILACS (116)
SciELO (81)

Registros após remoção de duplicatas (n = 579)

Registros analisados por título e resumo (n = 579)

Registros excluídos (n = 421)

Artigos avaliados na íntegra (n = 158)

Artigos excluídos (n = 143)
Não eram estudantes de medicina (56)
Sem impacto acadêmico/fatores associados (40)
Revisões narrativas/literatura cinzenta (26)
Texto indisponível (21)

Estudos incluídos na revisão integrativa (n =15)

A busca dos estudos foi realizada nas principais bases de dados científicas reconhecidas pela área da saúde, incluindo a Scientific Electronic Library Online (SciELO), a Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e a Scopus. Essas bases foram escolhidas por reunirem publicações relevantes e atualizadas sobre temas relacionados à saúde pública, comportamento e educação médica.

A pesquisa foi conduzida entre fevereiro e abril de 2026, utilizando descritores em português e inglês, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR: “álcool”, “consumo de bebidas alcoólicas”, “estudantes de medicina”, “universitários”, “fatores associados” e “impacto acadêmico”.

Os critérios de inclusão foram: artigos publicados entre 2020 e 2025; disponíveis na íntegra; escritos em português, inglês ou espanhol; e que abordaram o consumo de álcool entre estudantes de medicina ou universitários da área da saúde. Foram excluídos estudos duplicados, editoriais, resumos de congressos, revisões narrativas, dissertações, teses e artigos que não apresentaram relação direta com o tema proposto.

Após a leitura dos títulos e resumos, os estudos que atenderam aos critérios foram selecionados para leitura completa e análise qualitativa. A extração dos dados foi realizada de forma sistemática, com o auxílio de um instrumento elaborado para esta pesquisa, contendo informações sobre autores, ano de publicação, país de origem, tipo de estudo, objetivos, amostra, principais resultados e conclusões.

Essa etapa teve como propósito organizar e sintetizar as evidências disponíveis, permitindo a identificação de padrões, convergências e divergências entre os estudos analisados. Em seguida, os artigos foram categorizados com base nas similaridades temáticas e metodológicas, permitindo a construção de eixos de análise relacionados aos fatores associados ao consumo de álcool, aos padrões de uso e às repercussões na vida acadêmica e pessoal dos estudantes de medicina. Essa categorização contribuiu para a síntese dos achados e para a elaboração de uma discussão crítica e comparativa, alinhada aos objetivos propostos.

Para garantir a qualidade metodológica e a confiabilidade das informações, foram considerados aspectos como clareza dos objetivos, adequação do método, consistência dos resultados e relevância das conclusões. A análise crítica foi conduzida de forma integrativa, buscando identificar lacunas no conhecimento e oportunidades para futuras pesquisas. Assim, a revisão não se limitou à descrição dos dados, mas buscou compreender as relações entre os diferentes fatores que influenciaram o comportamento de consumo de álcool no contexto da formação médica.

Por fim, os resultados obtidos foram organizados e apresentados de maneira descritiva e interpretativa, articulando as evidências encontradas na literatura com a problemática proposta neste estudo. A metodologia da revisão integrativa, ao reunir informações de diversas fontes, possibilitou uma visão ampla e fundamentada sobre o tema, contribuindo para a construção de estratégias de prevenção e promoção da saúde voltadas aos estudantes de medicina.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A busca nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scopus, realizada entre fevereiro e abril de 2026, resultou inicialmente na identificação de 742 publicações potencialmente relacionadas ao tema. Dentre essas, 298 estudos foram localizados na PubMed, 247 na Scopus, 116 na LILACS e 81 na SciELO, evidenciando ampla produção científica acerca do consumo de álcool no contexto universitário.

Após a exportação dos estudos para gerenciador de referências e aplicação dos critérios de identificação de duplicidade, foram removidos 163 registros duplicados, permanecendo 579 estudos para a etapa de triagem inicial. Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, ocasião em que 421 estudos foram excluídos, principalmente por abordarem populações diferentes do público-alvo, tratarem do uso de outras substâncias psicoativas ou não apresentarem relação com impactos acadêmicos.

Dessa forma, 158 artigos foram selecionados para leitura na íntegra, com o objetivo de verificar a elegibilidade conforme os critérios previamente estabelecidos. Durante essa etapa, 143 estudos foram excluídos, sendo 56 por não abordarem especificamente estudantes de medicina, 40 por não apresentarem dados referentes aos impactos acadêmicos ou fatores associados ao consumo de álcool, 26 por se tratarem de revisões narrativas ou literatura cinzenta e 21 por indisponibilidade do texto completo.

Ao final do processo de seleção, 15 estudos (quadro 1) atenderam a todos os critérios de inclusão e compuseram a amostra final desta revisão integrativa. A análise desses estudos permitiu identificar diferentes abordagens metodológicas e contextos socioculturais relacionados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina.

Quadro 1 – Artigos selecionados para o estudo.

Ano

Autor

Objetivo do Estudo

Conclusão do Trabalho

2023

Alarcon

Discutir o uso de álcool e outras drogas no contexto social contemporâneo e seus impactos psicossociais.

O consumo de álcool está relacionado a fatores socioculturais e emocionais, sendo frequentemente utilizado como estratégia de enfrentamento do estresse.

2022

Alswayed et al.

Avaliar o uso médico e não médico de medicamentos psiquiátricos entre estudantes de medicina.

Foi identificada elevada prevalência de uso inadequado de psicotrópicos, associada à sobrecarga acadêmica e sofrimento emocional.

2022

Batista et al.

Investigar o uso de substâncias psicoativas entre estudantes de medicina do semiárido brasileiro.

O consumo de substâncias psicoativas mostrou-se frequente e associado ao estresse acadêmico e à adaptação ao ambiente universitário.

2021

Neres; Aquino; Pedroso

Avaliar a prevalência de depressão e comportamento suicida entre estudantes de medicina.

Observou-se associação entre sofrimento psíquico e maior vulnerabilidade ao uso de substâncias psicoativas.

2022

Fasanella et al.

Analisar o uso de medicamentos psicotrópicos prescritos entre estudantes de medicina e fatores associados.

O aumento do uso de psicotrópicos indicou elevada presença de ansiedade e estresse acadêmico entre estudantes.

2022

Nascimento; Costa; Andrade

Avaliar a prevalência do binge drinking entre estudantes de medicina no Brasil.

O consumo episódico excessivo apresentou alta prevalência e associação com comportamentos de risco e prejuízos acadêmicos.

2021

Tovani; Santi; Trindade

Comparar o uso de psicotrópicos entre estudantes da área da saúde.

Estudantes de medicina apresentaram maior consumo de psicotrópicos quando comparados a outros cursos da saúde.

2021

Nasui; Popa; Popescu

Investigar o consumo de álcool entre estudantes de medicina na Romênia.

Identificou-se alta prevalência de consumo associada a fatores sociais e culturais universitários.

2022

Mazzuco; Justina; Rico

Avaliar a prevalência de amnésia induzida por álcool entre estudantes de medicina.

A amnésia alcoólica mostrou associação com consumo excessivo e aumento de comportamentos de risco.

2023

Mello Neto et al.

Avaliar os impactos do consumo excessivo de álcool na vida acadêmica de estudantes de medicina.

O consumo excessivo esteve relacionado à redução do desempenho acadêmico e alterações cognitivas e comportamentais.

2025

Mendes et al.

Investigar a prevalência do uso abusivo de álcool entre médicos e estudantes de medicina.

O uso abusivo pode persistir na prática profissional e comprometer a qualidade da assistência em saúde.

2021

Veras

Analisar sofrimento psíquico entre estudantes de medicina por meio de manifestações em redes sociais.

O sofrimento emocional mostrou forte relação com pressões acadêmicas e vulnerabilidade ao uso de substâncias.

2020

Martins et al.

Avaliar o padrão de consumo de álcool entre estudantes de medicina.

Foi observada elevada prevalência de consumo associada à socialização e ao ambiente universitário.

2024

Santos et al.

Analisar a frequência do consumo de álcool entre estudantes de medicina e fatores associados.

Variáveis sociodemográficas, como renda e período do curso, influenciam os padrões de consumo.

2024

Silva et al.

Descrever o consumo de álcool entre estudantes de medicina e suas implicações comportamentais.

O consumo frequente evidenciou riscos sociais e necessidade de estratégias educativas preventivas.

Quanto à caracterização das publicações incluídas, observou-se predominância de estudos com delineamento quantitativo, especialmente do tipo transversal, seguidos por pesquisas qualitativas e estudos com abordagem mista. Em relação ao período de publicação, verificou-se maior concentração de estudos entre os anos de 2021 e 2022, evidenciando o aumento do interesse científico recente acerca do tema.

A análise temática dos estudos selecionados possibilitou a organização dos achados em três eixos principais: fatores associados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina, padrões de consumo e repercussões do uso de álcool na vida acadêmica e na saúde dos estudantes. No primeiro eixo, destacaram-se fatores como estresse acadêmico, carga horária extensa, pressão por desempenho e influência do convívio social universitário. No segundo eixo, observou-se predominância de consumo episódico excessivo, frequentemente associado a eventos sociais e momentos de lazer. No terceiro eixo, foram identificadas repercussões relacionadas à redução do rendimento acadêmico, alterações na saúde mental, dificuldades de concentração e prejuízos nas relações interpessoais.

De modo geral, os estudos analisados apresentaram convergência ao apontar o ambiente acadêmico como fator relevante para o desenvolvimento de padrões de consumo de risco. Além disso, evidenciaram a necessidade de implementação de estratégias institucionais voltadas à prevenção do uso abusivo de álcool e à promoção da saúde mental entre estudantes de medicina. Esses resultados reforçam a importância de novas investigações que avaliem, de forma longitudinal, os impactos desse comportamento ao longo da formação médica e na prática profissional futura.

4.1 Prevalência e padrões de consumo de álcool entre estudantes de medicina

O consumo de álcool entre estudantes de medicina apresenta elevada prevalência, sendo frequentemente associado ao contexto universitário e às práticas de socialização acadêmica. Estudos demonstram que o ingresso no ensino superior representa um período de adaptação marcado por novas responsabilidades e mudanças comportamentais, fatores que podem favorecer o consumo de bebidas alcoólicas. Nesse cenário, observa-se que muitos estudantes utilizam o álcool como forma de integração social e alívio das tensões decorrentes das exigências do curso médico (MARTINS et al., 2020).

A literatura aponta que o padrão de consumo varia conforme características sociodemográficas, como sexo, renda e fase da graduação. Estudantes em períodos intermediários tendem a apresentar maior frequência de consumo, possivelmente devido ao aumento das responsabilidades acadêmicas e ao maior contato com ambientes sociais universitários. Esses fatores indicam que o comportamento de consumo não ocorre de forma homogênea, sendo influenciado por aspectos individuais e contextuais (SANTOS et al., 2024).

Outro padrão frequentemente identificado é o consumo episódico excessivo, conhecido como binge drinking, que se caracteriza pela ingestão de grandes quantidades de álcool em curto intervalo de tempo. Esse comportamento apresenta elevada prevalência entre estudantes de medicina e está relacionado a maior vulnerabilidade a acidentes, prejuízos cognitivos e alterações comportamentais, representando importante fator de risco para a saúde dos universitários (NASCIMENTO; COSTA; ANDRADE, 2022).

Estudos internacionais reforçam que o consumo de álcool entre estudantes de medicina constitui fenômeno global, sendo influenciado por fatores culturais e sociais. Pesquisas realizadas em diferentes países demonstram padrões semelhantes de uso frequente e consumo de risco, sugerindo que as demandas do curso médico e o ambiente universitário desempenham papel relevante na adoção desse comportamento (NASUI; POPA; POPESCU, 2021).

Além disso, o consumo de álcool pode estar relacionado à cultura acadêmica contemporânea, na qual o uso de bebidas alcoólicas é frequentemente associado a eventos sociais e celebrações universitárias. Essa naturalização do consumo pode dificultar a percepção dos riscos e contribuir para a manutenção de padrões prejudiciais entre estudantes da área médica (ALARCON, 2023).

4.2 Fatores associados ao consumo de álcool e outras substâncias psicoativas

Diversos fatores têm sido relacionados ao consumo de álcool entre estudantes de medicina, destacando-se a sobrecarga acadêmica, o estresse e a pressão por desempenho. A formação médica exige elevado nível de dedicação, o que pode levar os estudantes a buscarem estratégias de enfrentamento inadequadas, incluindo o uso de álcool e outras substâncias psicoativas (BATISTA et al., 2022).

O consumo de medicamentos psiquiátricos sem prescrição ou de forma inadequada também tem sido relatado entre estudantes de medicina. Esse comportamento pode estar relacionado à facilidade de acesso aos medicamentos e ao conhecimento técnico sobre seus efeitos, o que favorece a automedicação e aumenta os riscos à saúde mental e física dos estudantes (ALSWAYED et al., 2022).

Outro fator relevante refere-se ao uso de psicotrópicos prescritos para controle de ansiedade, insônia e sintomas depressivos. Embora esses medicamentos sejam importantes no tratamento de transtornos mentais, o aumento do seu uso entre estudantes pode indicar fragilidades emocionais e dificuldades na adaptação ao ambiente acadêmico, ressaltando a necessidade de acompanhamento psicológico e suporte institucional (FASANELLA et al., 2022).

Estudos comparativos entre cursos da área da saúde demonstram que estudantes de medicina apresentam maior prevalência de uso de substâncias psicoativas quando comparados a estudantes de outras graduações. Esse achado sugere que as especificidades da formação médica, como carga horária extensa e alta competitividade, podem aumentar a exposição a fatores de risco relacionados ao consumo de substâncias (TOVANI; SANTI; TRINDADE, 2021).

Além dos fatores acadêmicos, o sofrimento psíquico tem sido apontado como elemento central na compreensão do consumo de álcool entre estudantes de medicina. A presença de sintomas depressivos, ansiedade e esgotamento emocional pode favorecer o uso do álcool como mecanismo de enfrentamento, evidenciando a importância de estratégias institucionais voltadas ao cuidado com a saúde mental (VERAS, 2021).

4.3 Impactos do consumo de álcool na saúde e no desempenho acadêmico

O consumo excessivo de álcool pode gerar importantes repercussões na saúde física e mental dos estudantes de medicina, comprometendo o processo de aprendizagem e o desenvolvimento profissional. Entre os principais efeitos observados estão alterações cognitivas, dificuldades de concentração e prejuízos na memória, fatores que impactam diretamente o rendimento acadêmico (MELLO NETO et al., 2023).

A ocorrência de amnésia alcoólica representa uma das consequências mais preocupantes do consumo abusivo, pois pode comprometer a capacidade de retenção de informações e aumentar o risco de acidentes e comportamentos perigosos. Esse fenômeno tem sido frequentemente associado ao consumo episódico excessivo, comum em ambientes universitários (MAZZUCO; JUSTINA; RICO, 2022).

Além dos prejuízos cognitivos, estudos apontam que o consumo de álcool está relacionado ao aumento de faltas às aulas, redução da produtividade acadêmica e dificuldades no cumprimento das atividades curriculares. Esses fatores podem comprometer o desempenho acadêmico e prolongar o tempo de formação profissional (MARTINS et al., 2020).

O impacto do consumo de álcool também pode se estender à futura prática profissional, uma vez que o uso abusivo entre estudantes pode persistir durante a carreira médica. Esse cenário representa preocupação para a qualidade da assistência em saúde e para a segurança dos pacientes, destacando a necessidade de intervenções preventivas ainda durante a graduação (MENDES et al., 2025).

Adicionalmente, a associação entre consumo de álcool e sintomas depressivos pode agravar o sofrimento emocional dos estudantes, aumentando a vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Esse contexto reforça a necessidade de políticas institucionais que promovam ambientes acadêmicos saudáveis e ofereçam suporte psicossocial adequado aos estudantes de medicina (NERES; AQUINO; PEDROSO, 2021).

5 CONCLUSÃO

A análise dos estudos incluídos nesta revisão integrativa permitiu identificar que o consumo de álcool entre estudantes de medicina constitui um comportamento frequente e influenciado por múltiplos fatores individuais, sociais e acadêmicos. Observou-se que o ambiente universitário, associado à elevada carga horária, pressão por desempenho e necessidade de adaptação à rotina acadêmica, contribui significativamente para a adoção desse comportamento. Além disso, padrões de consumo como o binge drinking demonstraram elevada prevalência, evidenciando a vulnerabilidade desse grupo a práticas de risco que podem comprometer a saúde e o desenvolvimento profissional.

Os resultados também evidenciaram que o consumo de álcool está frequentemente associado a fatores emocionais e psicológicos, como estresse, ansiedade e sintomas depressivos, os quais podem levar os estudantes a utilizarem substâncias psicoativas como estratégia de enfrentamento. Paralelamente, observou-se a presença do uso de medicamentos psicotrópicos, prescritos ou não, reforçando a complexidade das demandas emocionais enfrentadas durante a formação médica. Esses achados destacam a importância da implementação de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental e ao desenvolvimento de ações educativas que incentivem hábitos de vida saudáveis.

Dessa forma, torna-se fundamental que instituições de ensino superior desenvolvam políticas de prevenção e acompanhamento psicossocial direcionadas aos estudantes de medicina, visando minimizar os impactos do consumo de álcool e promover melhor qualidade de vida acadêmica e pessoal. Ademais, ressalta-se a necessidade de novas pesquisas que aprofundem a compreensão dos fatores associados ao consumo de substâncias entre universitários, contribuindo para o planejamento de intervenções mais eficazes e para a formação de profissionais de saúde mais preparados para lidar com suas próprias vulnerabilidades e com as demandas da prática profissional.

REFERÊNCIAS

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  1. Graduanda em medicina pelo Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: emiliamgr@gmail.com.

  2. Graduanda em medicina pelo Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: layanna.fisioneo@gmail.com

  3. Médica de Medicina de Família e Comunidade, Mestre em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Docente dos Cursos de Bacharelado em Enfermagem, Farmácia, Biomedicina e Medicina do Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: layannecavalcante@hotmail.com