Care provided to patients diagnosed with Alzheimer’s disease
Ana Lívia Aparecida do Espírito Santo Vicente[1]
Grazielle Miranda Freitas[2]
RESUMO
A Doença de Alzheimer (DA) configura-se como a forma mais prevalente de demência na população idosa, caracterizando-se por alterações progressivas da memória, linguagem, julgamento e orientação, impactando significativamente a autonomia e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. Diante do envelhecimento populacional e do aumento das doenças crônicas, torna-se fundamental compreender a atuação da enfermagem no cuidado a pessoas idosas com DA no âmbito da Atenção Primária à Saúde, especialmente na Estratégia Saúde da Família (ESF). Este estudo teve como objetivo analisar as formas de cuidado prestadas pelos profissionais de enfermagem à pessoa idosa com Doença de Alzheimer, enfatizando as condutas adotadas após o diagnóstico, as estratégias de cuidado conforme os estágios da doença, as orientações fornecidas aos cuidadores e o acompanhamento realizado pelas equipes de enfermagem. Trata-se de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de pesquisa de campo em unidades da ESF do município de Machado, Minas Gerais. A amostra foi composta por profissionais de enfermagem, selecionados por conveniência, que atuam há pelo menos seis meses na ESF. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas e posteriormente transcritas para análise. Espera-se que o estudo contribua para a compreensão das práticas de enfermagem no cuidado à pessoa com Doença de Alzheimer na Atenção Primária, evidenciando desafios, fragilidades e potencialidades da assistência, além de subsidiar a melhoria das estratégias de cuidado, qualificação profissional e fortalecimento das ações voltadas à promoção da qualidade de vida do paciente e de seus cuidadores.
Palavras-chave: Doença de Alzheimer. Atenção Primária à Saúde. Cuidados de Enfermagem.
ABSTRACT
Alzheimer's Disease (AD) is the most prevalent form of dementia in the elderly population, characterized by progressive changes in memory, language, judgment, and orientation, significantly impacting the autonomy and quality of life of affected individuals. Given the aging population and the increase in chronic diseases, it is essential to understand the role of nursing in the care of elderly people with AD within the scope of Primary Health Care, especially in the Family Health Strategy (FHS). This study aimed to analyze the forms of care provided by nursing professionals to elderly people with Alzheimer's Disease, emphasizing the actions taken after diagnosis, care strategies according to the stages of the disease, guidance provided to caregivers, and the follow-up carried out by nursing teams. This is a descriptive study with a qualitative approach, developed through field research in FHS units in the municipality of Machado, Minas Gerais. The sample consisted of nursing professionals, selected by convenience, who have been working in the FHS for at least six months. Data collection was carried out through semi-structured interviews, which were recorded and subsequently transcribed for analysis. It is expected that the study will contribute to the understanding of nursing practices in the care of people with Alzheimer's Disease in Primary Care, highlighting challenges, weaknesses and potential of care, in addition to supporting the improvement of care strategies, professional qualification and strengthening of actions aimed at promoting the quality of life of the patient and their caregivers.
Keywords: Alzheimer's Disease. Primary Health Care. Nursing Care.
1 INTRODUÇÃO
A doença Alzheimer (DA) atinge grande parte do grupo de pessoas pertencentes à terceira idade, essa doença está relacionada ao envelhecimento, tem como característica alterações progressivas da memória, da linguagem, do julgamento e da orientação (SILVA et al., 2020). O Alzheimer é o tipo mais frequente de demência, trata-se de uma condição crônica, progressiva, não contagiosa, irreversível e de caráter degenerativo. Apesar de não haver cura, com acompanhamento médico e cuidados adequados, é possível controlar os sintomas e desacelerar o avanço da doença, promovendo uma melhor qualidade de vida para o paciente (Costa e Santos, 2025).
No que se refere aos cuidados prestados ao paciente diagnosticado com Alzheimer, é possível afirmar que a Atenção Primária à Saúde tem papel fundamental na assistência às pessoas acometidas por essa doença, tendo em vista não somente prestar orientações ao cuidador para que haja qualidade no tratamento, mas também proporcionar integralidade ao cuidado, para que seja possível obter autonomia e melhores condições de vida. Estudos demonstram que ainda há muitas fragilidades na assistência oferecida, como a carência de profissionais devidamente capacitados, a falta de protocolos padronizados e a dificuldade na comunicação e coordenação entre os diversos níveis de atenção à saúde Jesus et al, ( 2024).
No entanto, há alguns desafios enfrentados pelas equipes de ESFs no que diz respeito às ações de promoção e prevenção da doença, visto que nem sempre há materiais e condições de serviço disponíveis na unidade. Além disso, nem sempre ocorre um acompanhamento regular em relação às famílias.
As doenças crônicas estão crescendo com o passar dos anos entre a população da terceira idade, sendo a doença abordada nessa temática a mais recorrente, portanto é necessário compreender como a enfermagem garante assistência a esses pacientes, para que eles possam ter boa qualidade de vida diante dos sintomas da Doença de Alzheimer. O cuidado prestado pelos profissionais de enfermagem às pessoas idosas diagnosticadas com Doença de Alzheimer na Estratégia Saúde da Família ocorre de forma heterogênea e, em muitos casos, sem sistematização baseada nos estágios clínicos da doença, podendo haver lacunas nas orientações fornecidas aos cuidadores e no acompanhamento longitudinal desses pacientes pela equipe de enfermagem.
Diante do exposto, o objeto da pesquisa consiste na análise das formas de cuidado prestadas pelos profissionais de enfermagem à pessoa idosa com Doença de Alzheimer no âmbito da Estratégia Saúde da Família, com ênfase nas condutas adotadas após o diagnóstico, nas estratégias de cuidado conforme os estágios da doença, nas orientações oferecidas aos cuidadores e no acompanhamento realizado pelas equipes de enfermagem. Assim, foi possível compreender as práticas de enfermagem voltadas ao cuidado da pessoa idosa com DA, favorecendo a identificação de fragilidades e potencialidades na assistência prestada pelas equipes da Estratégia Saúde da Família. Os resultados poderão subsidiar a qualificação do cuidado de enfermagem, aprimorar as orientações oferecidas aos cuidadores e fortalecer o acompanhamento longitudinal dos pacientes, contribuindo para a promoção da autonomia e bem-estar da pessoa idosa.
Além disso, o interesse no desenvolvimento deste projeto surge da necessidade de aprofundar o conhecimento sobre o cuidado gerontológico e sobre a atuação da enfermagem na rede de atenção à saúde. A investigação deste tema contribui para a formação acadêmica e profissional, estimulando a reflexão crítica sobre o papel da enfermagem no cuidado integral ao paciente com Doença de Alzheimer e no apoio às famílias, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde, que constitui a porta de entrada preferencial do sistema de saúde brasileiro.
Dessa forma, este estudo busca contribuir para a produção de conhecimento na área da enfermagem e da saúde coletiva, além de subsidiar reflexões que possam fortalecer práticas assistenciais mais qualificadas, humanizadas e centradas nas necessidades do paciente e de sua rede de apoio.
2 METODOLOGIA
2.1 Plano de estudo
Este estudo caracteriza-se como descritivo, com abordagem qualitativa, tendo como finalidade compreender a atuação dos profissionais de saúde nos cuidados diários a pessoas com Doença de Alzheimer (DA). Os estudos descritivos têm como objetivo principal identificar e apresentar as características de uma população, reunindo opiniões, atitudes e possíveis relações entre variáveis. A abordagem qualitativa foi escolhida por possibilitar a análise das percepções, práticas e dificuldades enfrentadas pelos profissionais de enfermagem, especialmente no contexto da Estratégia Saúde da Família (ESF). Para isso, foi realizada pesquisa de campo, com entrevistas aplicadas junto às equipes das unidades de ESF (Cordeiro et al, 2023).
2.2 Local de estudo
O local de estudo consistiu-se de uma cidade do Sul de Minas Gerais, sendo que a pesquisa foi desenvolvida nas unidades Estratégia de Saúde da Família (ESF). A cidade de Machado tem 144 anos, possui uma população estimada de aproximadamente 37.684 pessoas, considerada o núcleo urbano de bastante importância na região sul-mineira, tradicionalmente, agropastoril e grande centro produtor de café. O município conta com 10 Equipes de Saúde da Família (1 rural e 9 urbanas) e uma Unidades de Saúde (Ambulatórios Policlínica), que atende na área da Atenção Básica e mais algumas especialidades, como por exemplo, dermatologia, neurologia, ortopedia, oftalmologia, pneumologia, ginecologia, pediatria, clínica médica e otorrinolaringologia. Contudo, é importante mencionar que o número de Estratégia de Saúde da Família (ESF) no referido município ainda é insuficiente para atender toda a população. O Hospital Santa Casa de Caridade é um hospital do município que atende à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), outros convênios e particular (CNES, 2796392). Na perspectiva de diminuir os danos à saúde da pessoa vivendo com Alzheimer, a Atenção Primária à Saúde (APS) representa a principal porta de entrada e coordenação do cuidado no SUS. Nesse nível de atenção, profissionais de saúde, especialmente médicos de família, enfermeiros e equipes multiprofissionais, desempenham atividades essenciais que envolvem a identificação precoce dos sinais e sintomas de demência, o manejo clínico contínuo monitorando a progressão da doença, a orientação familiar e a coordenação da rede assistencial. Tais ações contribuem para a estabilização dos sintomas cognitivos e comportamentais, além de possibilitar o ajuste terapêutico de acordo com as necessidades individuais (SILVA; SANTOS; PASSOS, 2025).
2.3 População de estudo
A amostra foi composta por profissionais de enfermagem (enfermeiros e técnicos de enfermagem) atuantes em unidades da Estratégia Saúde da Família (ESF) do município de Machado/MG.
A amostragem foi não probabilística, por conveniência, considerando a disponibilidade e o interesse dos profissionais em participar da pesquisa. Os critérios de inclusão foram:
Os critérios de exclusão foram:
A pesquisa foi desenvolvida nas próprias unidades de ESF, em ambiente reservado, com data e horário previamente agendados com os participantes.
2.4 Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas, com perguntas elaboradas previamente, com base em estudos da área. As entrevistas abordaram temas como:
As entrevistas foram gravadas em áudio, com a autorização dos participantes, e posteriormente transcritas integralmente para análise. Foi utilizado um roteiro de entrevista como instrumento de coleta de dados.
A pesquisa foi conduzida de acordo com os princípios éticos que regem as pesquisas envolvendo seres humanos, conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O estudo foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) antes do início da coleta de dados. A participação foi voluntária, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando aos participantes o direito de recusa ou desistência a qualquer momento, sem qualquer prejuízo.
A pesquisa apresenta riscos mínimos, relacionados ao possível desconforto emocional, constrangimento ou insegurança ao relatar experiências profissionais e dificuldades vivenciadas no cuidado à pessoa idosa com Doença de Alzheimer. Podendo também ter insegurança voltada para o risco de divulgação de dados confidenciais (registrados no TCLE) e dúvidas relacionadas ao tempo do sujeito ao responder ao questionário /entrevista. Para minimizar esses riscos, as entrevistas foram realizadas em ambiente reservado, garantindo privacidade, respeito e confidencialidade. Os participantes puderam optar por não responder a perguntas que causem desconforto e interromper sua participação a qualquer momento.
Espera-se que o estudo contribua para ampliar a produção de conhecimento na área da enfermagem e da atenção à saúde da pessoa idosa, especialmente no que se refere ao cuidado de pacientes com Doença de Alzheimer no âmbito da Atenção Primária à Saúde. A investigação das práticas adotadas pelos profissionais de enfermagem puderam evidenciar lacunas existentes no cuidado, bem como identificar estratégias exitosas utilizadas na prática assistencial. Dessa forma, os resultados poderão subsidiar futuras pesquisas e contribuir para o desenvolvimento de protocolos e diretrizes que orientem a assistência de enfermagem a esses pacientes. Além disso, os resultados do estudo poderão favorecer a reflexão crítica dos profissionais de enfermagem sobre suas práticas de cuidado, estimulando a adoção de abordagens mais sistematizadas e baseadas nos diferentes estágios da doença. Espera-se que a identificação de fragilidades no acompanhamento e nas orientações oferecidas aos cuidadores possibilite o aprimoramento das estratégias de educação em saúde, fortalecendo o papel da enfermagem no cuidado integral ao paciente com Doença de Alzheimer.
2.6 Análise de Dados
Nesta pesquisa, os dados qualitativos obtidos por meio de entrevistas com profissionais da Atenção Primária à Saúde foram analisados utilizando o método de Análise de Conteúdo, uma técnica sistemática que permite organizar e interpretar o significado dos discursos considerando seu contexto e frequência temática (FERREIRA, 2023). A Análise de Conteúdo é amplamente reconhecida na pesquisa qualitativa por sua capacidade de extrair categorias significativas de forma rigorosa a partir de dados textuais (PEREIRA, 2025).
O processo de análise seguiu três etapas centrais. A primeira etapa, denominada pré-análise, que consiste na organização do material empírico e na realização de leitura flutuante das transcrições, com o objetivo de promover a familiarização com os dados e a definição do corpus da pesquisa, sem qualquer identificação nominal dos participantes (FERREIRA, 2023). A segunda etapa, denominada exploração do material, envolveu a codificação dos dados, por meio da identificação de unidades de significado e posterior agrupamento em categorias temáticas, construídas a partir da recorrência e relevância dos conteúdos relacionados ao cuidado à pessoa com Doença de Alzheimer na Atenção Primária à Saúde. Essa etapa foi conduzida de forma rigorosa e sistemática, respeitando a integridade das falas e evitando interpretações que possam expor ou estigmatizar os participantes (PEREIRA, 2025). A terceira etapa corresponde ao tratamento dos resultados, inferência e interpretação, momento em que os dados categorizados foram analisados à luz do referencial teórico sobre a Doença de Alzheimer, Atenção Primária à Saúde e cuidado longitudinal, possibilitando a interpretação crítica dos achados e sua articulação com os objetivos do estudo (GIL, 2019).
Segundo Cavalcante, Calixto e Pinheiro (2020), a Análise de Conteúdo favorece a construção de inferências válidas, ao permitir a sistematização de dados subjetivos de forma rigorosa e transparente. Dessa forma, a utilização da Análise de Conteúdo mostrou-se adequada ao presente estudo por assegurar rigor metodológico, coerência analítica e consistência científica aos resultados, contribuindo para a compreensão aprofundada do papel da Atenção Primária à Saúde no cuidado à pessoa com Doença de Alzheimer (BARDIN, 2016; MINAYO, 2019). Sendo assim, espera-se como desfecho primário identificar e apresentar as características de uma população, reunindo opiniões, atitudes e possíveis relações entre variáveis. A abordagem qualitativa foi escolhida por possibilitar a análise das percepções, práticas e dificuldades enfrentadas pelos profissionais de enfermagem, especialmente no contexto da Estratégia Saúde da Família (ESF).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os participantes foram identificados pela letra “P” seguida de numeração (P1, P2, P3...), garantindo o anonimato. Foram convidados 20 profissionais de enfermagem atuantes na Estratégia Saúde da Família (ESF) do município de Machado/MG para participar do estudo. No entanto, 5 profissionais não participaram da pesquisa, sendo 3 por recusa em conceder a entrevista e 2 devido à ausência de profissionais fixos nos respectivos setores no momento da coleta de dados. Dessa forma, a amostra final foi composta por 15 participantes, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem.
A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de Análise de Conteúdo, possibilitando a organização das falas em cinco categorias temáticas: (1) compreensão sobre a Doença de Alzheimer, (2) cuidados prestados ao paciente e cuidador, (3) preparo profissional e protocolos, (4) dificuldades enfrentadas e (5) sugestões de melhorias.
Os achados deste estudo atenderam ao objetivo proposto, permitindo compreender a assistência de enfermagem ao paciente com Doença de Alzheimer na Atenção Primária, incluindo conhecimentos, práticas, dificuldades e possibilidades de melhoria.
Tabela 1 – Categorias temáticas identificadas na pesquisa
Categoria Temática | Descrição dos Achados |
|---|---|
Compreensão sobre a Doença de Alzheimer | Os profissionais demonstraram conhecimento geral sobre a doença, reconhecendo seu caráter progressivo e degenerativo, associado principalmente à perda de memória e alterações cognitivas. |
Cuidados prestados ao paciente e cuidador | Ênfase na segurança do paciente, prevenção de acidentes, supervisão contínua, administração de medicamentos e orientação aos familiares e cuidadores. |
Preparo profissional e protocolos | Os participantes relataram sentir-se parcialmente preparados, porém com limitações, destacando ausência de capacitação específica e falta de protocolos bem definidos. |
Dificuldades enfrentadas na assistência | Principais dificuldades relacionadas à baixa adesão familiar, falta de aceitação da doença, sobrecarga da equipe e limitações estruturais dos serviços de saúde. |
Sugestões de melhorias na assistência | Necessidade de capacitação profissional, fortalecimento da equipe multiprofissional, apoio aos familiares e ampliação do acesso a especialistas. |
Fonte: Elaborado pela autora (2026).
3.1 Compreensão sobre a Doença de Alzheimer
Observou-se que os profissionais de enfermagem apresentam conhecimento geral sobre a Doença de Alzheimer, reconhecendo-a como uma condição degenerativa, progressiva e associada à perda de memória e alterações cognitivas. Esse entendimento está em consonância com a literatura, que descreve o Alzheimer como uma doença que afeta progressivamente as funções cognitivas, comprometendo a autonomia do paciente ao longo do tempo ILHA et al. (2022).
Como evidenciado nas falas:
“A pessoa vai perdendo a memória, uns perdem rápido outros vão perdendo lentamente” (P1).
“Ela é degenerativa, feita por etapas” (P2).
“É uma doença neurodegenerativa, ela afeta o cérebro” (P8).
Entretanto, algumas respostas demonstraram compreensão superficial ou incompleta sobre a doença, evidenciando a necessidade de aprofundamento teórico por parte dos profissionais.
3.2 Cuidados prestados ao paciente e ao cuidador
Os cuidados relatados pelos participantes concentram-se principalmente na segurança do paciente, prevenção de acidentes e supervisão contínua, além da orientação aos familiares e cuidadores.
Destacam-se medidas como evitar quedas, supervisão no uso de medicamentos, cuidado com objetos perigosos e necessidade de acompanhamento constante.
“Tem que tomar cuidado porque ele pode se machucar... mexe com fogo, faca” (P1).
“Tem que ter alguém junto, não podem ficar sozinhos” (P14).
“Orienta o familiar a observar bastante o paciente” (P9).
Além disso, foi recorrente a valorização do cuidado humanizado, com ênfase em paciência, atenção e carinho:
“Atenção e carinho é o que a gente pode oferecer pra eles” (P3).
Observou-se também que os profissionais reconhecem a importância do cuidador, destacando a necessidade de orientação e suporte à família. Esses achados corroboram com o estudo de (Dadalto e Cavalcante 2021), que evidenciam que o cuidado ao idoso com Alzheimer recai majoritariamente sobre a família, gerando desgaste significativo e impactando diretamente na qualidade da assistência.
3.3 Preparo profissional e protocolos
Em relação ao preparo profissional, a maioria dos participantes afirmou sentir-se apta para atender pacientes com Doença de Alzheimer. No entanto, muitas falas evidenciaram que esse preparo ocorre de forma limitada e baseada na prática cotidiana.
“Com limitações... a gente nunca sabe exatamente como lidar” (P5).
“Mesmo que eu não tenha conhecimento eu procuro saber” (P10).
Quanto à existência de protocolos, houve divergência nas respostas. Alguns profissionais relataram a existência de diretrizes gerais voltadas à saúde do idoso, enquanto outros afirmaram desconhecer protocolos específicos para o Alzheimer.
“Protocolo municipal não sei se tem”. (P1)
“Não existe nada específico para isso” (P7).
Apesar do desconhecimento relatado pelos profissionais, o Ministério da Saúde disponibiliza diretrizes que orientam o cuidado à pessoa com Doença de Alzheimer no âmbito do Sistema Único de Saúde, enfatizando a importância do acompanhamento longitudinal, da atuação multiprofissional e do suporte contínuo aos cuidadores.
3.4 Dificuldades enfrentadas na assistência
A principal dificuldade apontada pelos participantes refere-se à relação com a família do paciente, especialmente no que diz respeito à aceitação da doença e ao envolvimento no cuidado.
“A maior dificuldade é a família não aceitar” (P10).
“Tem família que demora muito pra cuidar” (P2).
“Muitas vezes o idoso fica abandonado” (P4).
Além disso, foram relatadas dificuldades relacionadas à sobrecarga da equipe, falta de profissionais e limitação no acompanhamento contínuo:
“Não tem como a gente dar assistência todos os dias” (P3).
Também foram mencionadas dificuldades no acesso a especialistas e serviços de saúde, como neurologistas e geriatras. A literatura reforça que o diagnóstico precoce e o acompanhamento contínuo são fundamentais para o manejo adequado da doença e para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes e familiares ILHA et al. (2022).
3.5 Sugestões de melhorias na assistência
Entre as principais sugestões apontadas pelos profissionais, destacam-se a necessidade de capacitação profissional, ampliação da equipe multiprofissional e maior suporte à família.
“Uma equipe bem preparada” (P2).
“Mais treinamento e capacitação” (P5).
“Ter assistente social, terapeuta, todos juntos” (P6).
Os participantes também destacaram a importância de ações educativas voltadas aos familiares e cuidadores, além da ampliação do acesso a especialistas e melhoria na estrutura dos serviços de saúde.
“Montar grupos educativos para a família” (P12).
De modo geral, as sugestões apontam para a necessidade de fortalecimento da assistência integral, com foco tanto no paciente quanto em sua rede de apoio. Essas demandas estão em consonância com a literatura, que enfatiza a importância de uma assistência interdisciplinar e do apoio contínuo aos cuidadores como estratégias essenciais para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes com Alzheimer NASCIMENTO et al. (2024).
Esta pesquisa teve como objetivo investigar a percepção e a atuação dos profissionais de saúde da Atenção Primária no cuidado de pacientes com Doença de Alzheimer. A análise dos resultados permitiu identificar que, embora exista um conhecimento básico sobre a patologia, ainda há lacunas significativas no entendimento da doença e na capacitação dos profissionais para o manejo adequado dos pacientes com Alzheimer.
Os profissionais reconhecem que a Doença de Alzheimer é uma condição progressiva e neurodegenerativa, que compromete a memória e a autonomia dos pacientes. No entanto, a assistência prestada, em sua maioria, se caracteriza por um atendimento reativo e dependente da demanda familiar, com foco nas orientações pontuais e na prevenção de riscos domésticos. Essa abordagem, embora importante, não se configura como uma assistência integral e contínua, o que reforça a necessidade de um cuidado mais sistemático e coordenado.
A pesquisa também evidenciou que os maiores desafios enfrentados estão relacionados ao envolvimento da família, que muitas vezes tem dificuldade em aceitar o diagnóstico e em lidar com as alterações comportamentais e emocionais do paciente. A falta de preparo e suporte para os cuidadores resultou em sobrecarga e, muitas vezes, em uma assistência limitada, o que compromete a qualidade de vida tanto do paciente quanto de seus familiares. Tais questões estão em linha com estudos anteriores que destacam o desgaste físico e emocional dos cuidadores e a necessidade de estratégias para o apoio contínuo ILHA et al. (2022).
Outro ponto relevante observado foi a carência de protocolos específicos para o acompanhamento de pacientes com Alzheimer na Atenção Primária, o que dificulta a continuidade e a organização do cuidado. A ausência de uma abordagem multidisciplinar também foi mencionada como um fator limitante, uma vez que muitos profissionais destacaram a necessidade de maior integração entre os serviços de saúde e o apoio psicológico, social e terapêutico, fundamentais para o cuidado integral do paciente.
Com base nesses achados, conclui-se que, apesar das iniciativas positivas observadas, a assistência ao paciente com Alzheimer ainda apresenta fragilidades significativas, principalmente no que diz respeito à capacitação profissional e à estruturação da rede de cuidados. Assim, é imprescindível que as políticas públicas de saúde invistam em programas de educação permanente para os profissionais, promovendo a formação contínua e especializada no manejo das demências. Além disso, é necessário que haja maior suporte e orientação para as famílias e cuidadores, para que possam lidar de forma mais eficaz com os desafios impostos pela doença.
Por fim, recomenda-se, ainda, que sejam implementadas diretrizes claras e protocolos específicos para o atendimento a pacientes com Alzheimer na Atenção Primária, com ênfase na atuação multidisciplinar. A inclusão de serviços especializados, como atendimento psicológico, terapia ocupacional e apoio social, é crucial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e de seus cuidadores.
REFERÊNCIAS
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 1. ed. São Paulo: Edições 70, 2016. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=lNkJaAEACAAJ. Acesso em: 15 mar. 2026.
BERNARDO, A. et al. Assistência de enfermagem aos pacientes portadores de Alzheimer: uma revisão integrativa.Revista Nursing, São Paulo, v. 23, n. 271, p. 4991-4994, set. 2020. DOI: https://doi.org/10.36489/nursing.2020v23i271p4991-4998. Disponível em: https://revistanursing.com.br/index.php/revistanursing/article/view/1047/1208. Acesso em: 15 mar. 2026.
BEVILAQUA, J. et al. Cuidados paliativos sobre a assistência de enfermagem aos pacientes idosos com a Doença de Alzheimer: uma revisão bibliográfica.Revista Foco, Curitiba, v. 17, n. 5, e5031, p. 1-21, 2024. DOI: https://doi.org/10.54751/revistafoco.v17n5-163. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/5031. Acesso em: 15 mar. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br. Acesso em: 11 abr. 2026.
CAVALCANTE, R. B.; CALIXTO, P.; PINHEIRO, M. M. K. Análise de conteúdo: considerações gerais, relações com a pergunta de pesquisa, possibilidades e limitações do método.Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 24, n. 1, p. 13-18, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/ies/article/view/10000. Acesso em: 15 mar. 2026.
CECCON, R. F. et al. Atenção primária em saúde no cuidado ao idoso dependente e ao seu cuidador.Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, p. 99-108, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/1413-81232020261.30382020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/Jh377DRYXCQwKQnTVjxvVPp/?lang=pt. Acesso em: 15 mar. 2026.
CORDEIRO, R. et al. Estudos descritivos exploratórios qualitativos.Brazilian Journal of Health Review, v. 6, n. 3, p. 60412-60460, 2023.Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/download/60412/43660/146164. Acesso em: 15 mar. 2026.
COSTA, L. A.; SANTOS, C. R. I. Desafios da equipe de saúde da família no cuidado à pessoa idosa com doença de Alzheimer e ao cuidador.Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 28, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1981-22562025028.240137.pt. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/R85695NMFzJGTTw8ZMPDbnc/?lang=pt. Acesso em: 15 mar. 2026.
DADALTO, E. V.; CAVALCANTE, F. G. O papel dos cuidadores familiares de idosos com doença de Alzheimer: revisão de literatura. Ciência & Saúde Coletiva, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/i/2021.v26n1/. Acesso em: 09 abr. 2026.
FERREIRA, S. A análise de conteúdo: um método para a análise de dados em pesquisas qualitativas.Revista Pesquisa Qualitativa, v. 11, n. 26, p. 202-224, 2023. DOI: https://doi.org/10.33361/RPQ.2023.v.11.n.26.502. Acesso em: 09 abr. 2026.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
ILHA, S. et al. Doença de Alzheimer na pessoa idosa/família: potencialidades, fragilidades e estratégias. Texto & Contexto Enfermagem, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cenf/a/8N5pZryQ6nsgBVbbxLGJhyp/?lang=pt. Acesso em: 09 abr. 2026.
JESUS, M. et al. Cuidados paliativos à pessoa idosa com Doença de Alzheimer.Revista de Ciências da Saúde (REVIISA), Senhor do Bonfim, v. 13, n. 2, p. 392-405, abr./jun. 2024. DOI: https://doi.org/10.36239/revisa.v13.n2.p392a405.
NASCIMENTO, I. N. A. et al. Alzheimer: aspectos fisiopatológicos e o impacto na vida do cuidador familiar. Revista Extensão, 2024. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/extensao/article/view/9664. Acesso em: 09 abr. 2026.
OLIVEIRA, M. E. et al. Manejo da demência na atenção primária: desafios e perspectivas para o cuidado ao idoso. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/journal/rbgg/about/#editors
PEREIRA, Anderson de Carvalho. Abordagem qualitativa em Ciências Humanas e Sociais: análise de conteúdo, paradigma indiciário e análise discursiva.Semina: Ciências Sociais e Humanas, v. 46, n. 2, 2025. DOI: https://doi.org/10.5433/1679-0383.2025.v46n2e53542.
SCHENKER, M.; COSTA, D. H. Avanços e desafios da atenção à saúde da população idosa com doenças crônicas na atenção primária à saúde.Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, n. 4, p. 1369-1380, 2019. DOI: https://doi.org/10.1590/1413-81232018244.01222019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/fjgYFRhV7s4Tgqvdf5LKBDj/?lang=pt. Acesso em: 15 mar. 2026.
SILVA, A. et al. Assistência de enfermagem aos pacientes com Doença de Alzheimer em cuidados paliativos: revisão sistemática.Revista Eletrônica Acervo Saúde, supl. 38, e1984, 2020. DOI: https://doi.org/10.25248/reas.2020. Disponivel em: https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/1984. Acesso em: 09 abr.2026
SILVA, G. R.; SANTOS, W. L.; PASSOS, S. G. O papel da atenção básica no cuidado à pessoa com Doença de Alzheimer.Revista JRG de Estudos Acadêmicos, v. 8, n. 18, 2025. Disponível em: https://revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/2277. Acesso em: 15 mar. 2026.