Prevalência e fatores associados à baixa capacidade para o trabalho em profissionais de enfermagem de UTI.
Prevalence and factors associated with low work capacity in ICU nursing professionals.
Marcelle Machado Barbosa
Dayanne Gonçalves de Miranda
Ronaldo Antônio Tavares
Solange Aparecida Alves
Flávio da Silva
Cibele Ramaldes Nacif de Oliveira
Neuza Borges dos Reis
Débora Aparecida Costa Roza
Reginaldo Antônio Rocha
Maria Inês Gonçalves
RESUMO
Este estudo investigou a relação entre carga laboral, condições de trabalho e capacidade para o trabalho de enfermeiros atuantes em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), considerando evidências recentes da literatura nacional e internacional. Os resultados demonstram que a sobrecarga física, cognitiva e emocional constitui um dos principais fatores de risco para o adoecimento e a redução do desempenho profissional nesses ambientes de alta complexidade. Elementos como dimensionamento inadequado, ritmo acelerado, ausência de pausas, infraestrutura insuficiente e pressão constante por decisões rápidas estão diretamente associados ao aumento da fadiga, distúrbios musculoesqueléticos, burnout e queda na qualidade da assistência. Verificou-se que o impacto da pandemia de COVID-19 ainda repercute na saúde física e emocional dos profissionais, intensificando sintomas de estresse e desgaste persistente. Dessa forma, reforça-se que intervenções estruturais, ergonômicas e organizacionais são essenciais para promover ambientes mais seguros, saudáveis e sustentáveis. Os achados indicam que a melhoria das condições laborais não beneficia apenas os profissionais, mas representa um eixo estratégico para a segurança do paciente e para o desempenho global das unidades intensivas.
Palavras-chave: carga laboral; enfermagem em UTI; capacidade para o trabalho; condições de trabalho.
ABSTRACT
This study investigated the relationship between workload, working conditions, and work capacity of nurses working in Intensive Care Units (ICUs), considering recent evidence from national and international literature. The results demonstrate that physical, cognitive, and emotional overload constitutes one of the main risk factors for illness and reduced professional performance in these highly complex environments. Elements such as inadequate staffing levels, accelerated pace, lack of breaks, insufficient infrastructure, and constant pressure for quick decisions are directly associated with increased fatigue, musculoskeletal disorders, burnout, and a decline in the quality of care. It was found that the impact of the COVID-19 pandemic continues to affect the physical and emotional health of professionals, intensifying symptoms of stress and persistent burnout. Therefore, it is reinforced that structural, ergonomic, and organizational interventions are essential to promote safer, healthier, and more sustainable environments. The findings indicate that improving working conditions not only benefits professionals but also represents a strategic axis for patient safety and the overall performance of intensive care units.
Keywords: workload; ICU nursing; Capacity for work; working conditions.
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é atualmente um dos ambientes mais complexos e desafiadores da área da saúde, marcada por grandes demandas de cuidado, rapidez, alta carga emocional e a possibilidade de tomada de decisões rápidas e corretas. Os profissionais de enfermagem constituem a espinha dorsal do cuidado contínuo nesse ambiente, devido à responsabilidade direta pelo monitoramento, intervenção técnica especializada e suporte integral prestado a pacientes críticos.
No entanto, o alto grau de complexidade das atividades realizadas, aliado à alta demanda, tem sido identificado como um fator determinante no comprometimento da saúde física e mental desses profissionais. Estudos recentes mostram que o estresse ocupacional, a exposição a riscos ergonômicos e a alta sobrecarga física são fatores que se relacionam diretamente a baixos níveis de bem-estar e desempenho em enfermeiros de UTI (LAMB et al., 2024; CÓRDOVA HUACAYCO et al., 2023).
Além dos aspectos emocionais e organizacionais, a sobrecarga mecânica está entre os principais fatores resultantes de posturas inadequadas, manuseio de pacientes e longos períodos em pé, associados ao desenvolvimento de distúrbios musculoesqueléticos nessa população. A literatura demonstra que a dor na região lombar, cervical, torácica e nos membros superiores e inferiores é uma das principais queixas dos profissionais de enfermagem em UTI, impactando a capacidade funcional e a qualidade do desempenho no trabalho. Essas condições, em casos crônicos, podem levar a uma redução significativa da capacidade laboral, principalmente quando associadas a fatores organizacionais desfavoráveis, como níveis inadequados de pessoal, ritmo de trabalho intenso e pausas insuficientes durante os turnos (OU et al., 2021; REVISTA ENFERMERÍA GLOBAL, 2024).
Nesse contexto, o Índice de Capacidade Laboral (ICL) tornou-se uma das ferramentas essenciais para avaliar a relação entre as demandas do trabalho, as condições de saúde e a capacidade do trabalhador de desempenhar suas atividades de forma eficiente e segura. Pesquisas realizadas em diversos países revelam prevalências alarmantes de baixa capacidade laboral entre enfermeiros atuantes em unidades de terapia intensiva, especialmente durante e após a pandemia de COVID-19, período que intensificou ainda mais as demandas físicas e emocionais exigidas da equipe de enfermagem. Estudos nacionais e internacionais demonstraram que profissionais expostos à sobrecarga física, fatores psicossociais adversos e condições de trabalho inadequadas apresentam maior risco de redução da capacidade laboral, impactando diretamente a produtividade, o absenteísmo e o tempo de permanência no ambiente hospitalar (GARCIA et al., 2023; MAGNAVITA; MERAGLIA; VITI; BORGESE, 2024; SMREKAR et al., 2024).
Diante desse cenário, o problema reside no fato de que as altas demandas físicas, aliadas à sobrecarga emocional e, por vezes, às condições de trabalho precárias, podem ser as principais responsáveis pela baixa capacidade laboral entre profissionais de enfermagem que atuam em UTIs. Embora existam algumas evidências na literatura sobre tais fatores, estudos sobre a prevalência de baixa capacidade laboral e seus fatores associados nesse contexto de alta exigência ainda são escassos. Portanto, a seguinte questão norteadora se propõe: Qual a prevalência e os fatores associados à baixa capacidade laboral entre profissionais de enfermagem que atuam em UTI? (ALVES; COSTA, 2025; PRUNA GUANOLUISA et al., 2022).
Com base nesse problema, este estudo busca analisar a prevalência e os fatores associados à redução da capacidade laboral entre profissionais de enfermagem em UTI. Especificamente, visa: 1) identificar os níveis de capacidade laboral entre profissionais de enfermagem em UTI; 2) descrever os fatores sociodemográficos, ocupacionais e clínicos associados à redução da capacidade laboral; e 3) analisar a relação entre distúrbios musculoesqueléticos e a capacidade laboral desses profissionais. Esses objetivos visam aprofundar a compreensão dos determinantes que influenciam a saúde ocupacional e o desempenho desses trabalhadores fundamentais (LIMA et al., 2022; SOUZA et al., 2024).
A justificativa para esta pesquisa reside na relevância social e científica do tema, uma vez que a manutenção da saúde e da capacidade laboral é essencial para a qualidade da assistência e a segurança do paciente, bem como para a sustentabilidade dos serviços hospitalares. Trabalhadores com capacidade reduzida tendem a apresentar maior absenteísmo, menor desempenho e maior propensão a erros, o que interfere diretamente na assistência prestada nas unidades de terapia intensiva. O conhecimento dos fatores que intervêm na capacidade de trabalho desses trabalhadores permite o estabelecimento de estratégias preventivas e intervenções voltadas para a promoção da saúde e a melhoria das condições de trabalho (CARVALHO et al., 2023; ACOSTA-ROMO et al., 2020).
Além disso, o presente estudo se justifica dada a escassez de estudos brasileiros recentes que abordaram, simultaneamente, a prevalência, os fatores ergonômicos, psicossociais e organizacionais, e sua relação direta com as TIC em unidades de terapia intensiva. Com isso, ao aprofundar esse conhecimento, espera-se contribuir para o desenvolvimento de políticas institucionais e públicas voltadas à melhoria da qualidade de vida no trabalho e ao fortalecimento da força de trabalho de enfermagem, especialmente em um setor tão crítico quanto a UTI (GARCIA J. C. et al., 2024; QUESADA-PUGA et al., 2024).
A presente revisão bibliográfica sistemática qualitativa foi conduzida de acordo com as recomendações internacionais para revisões sistemáticas, seguindo rigor metodológico para garantir transparência, reprodutibilidade e validade científica. O objetivo central foi identificar, analisar e sintetizar evidências recentes sobre condições de trabalho, capacidade laboral, saúde ocupacional e fatores psicossociais que afetam profissionais de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Para isso, foram consultadas três bases de dados de ampla relevância internacional: PubMed, CINAHL e Elsevier (ScienceDirect), selecionadas por sua abrangência e forte indexação de literatura científica em saúde, enfermagem e áreas correlatas.
A busca foi realizada considerando publicações dos últimos cinco anos, abrangendo o período de 2020 a 2025, com o intuito de reunir estudos atuais e alinhados às mudanças contemporâneas no ambiente hospitalar, especialmente após o impacto da pandemia de COVID-19 sobre as UTIs. As estratégias de busca utilizaram descritores controlados e não controlados em inglês, português e espanhol, incluindo combinações como: “workload”, “nurse working conditions”, “intensive care units”, “work ability”, “burnout”, “job satisfaction”, “nursing staff”, “enfermagem”, “carga de trabalho”, “UTI”, entre outros. Foi empregado o operador booleano AND para refinamento temático e OR para ampliação da busca.
Os critérios de inclusão adotados foram: (a) artigos completos disponíveis online; (b) estudos empíricos qualitativos, quantitativos ou mistos com resultados aplicáveis à síntese qualitativa; (c) pesquisas envolvendo enfermeiros(as) atuantes em UTI adulta; (d) estudos que analisassem condições de trabalho, carga laboral, saúde física ou mental, satisfação profissional ou capacidade para o trabalho. Foram excluídos: revisões prévias, editoriais, cartas ao editor, estudos em pediatria ou neonatal, duplicatas, artigos fora do recorte temporal e estudos sem relação direta com o tema. Após a remoção de duplicatas, títulos e resumos foram analisados por duas revisoras independentes, sendo resolvidas divergências por consenso.
Na etapa final, os estudos selecionados passaram por leitura integral e extração sistemática de informações-chave: autores, ano, país, objetivo, metodologia, população, principais achados e implicações para a prática de enfermagem. Para dar suporte à síntese integrativa, empregou-se análise temática qualitativa, permitindo a identificação de padrões recorrentes, divergências e lacunas na literatura. O processo de seleção dos estudos está representado no diagrama PRISMA, que evidencia de forma transparente o fluxo de triagem, exclusões e quantificação final dos artigos incluídos (figura 1).
Figura 1: Diagrama PRISMA
Fonte: o autor.
A tabela 1 de artigos selecionados sintetiza os principais achados da revisão sistemática realizada nas bases PubMed, CINAHL, Elsevier e periódicos complementares, contemplando o recorte temporal definido entre 2020 e 2025 e os critérios de elegibilidade estabelecidos. Cada estudo incluído apresenta contribuições relevantes para a compreensão das condições laborais, capacidade para o trabalho, bem-estar físico e emocional, satisfação profissional e impactos do ambiente de terapia intensiva sobre enfermeiros.
Tabela 1: Artigos incluídos na revisão
Autor e Ano | Título | Objetivo | Metodologia | Resultados | Conclusão |
|---|---|---|---|---|---|
ACOSTA-ROMO et al., 2020 | Competencias clínicas y carga laboral de enfermería en UCI adulto | Avaliar competências clínicas e carga laboral. | Quantitativo, descritivo. | Sobrecarga elevada e déficits de competência. | Necessidade de capacitação contínua. |
ALVES & COSTA, 2025 | Sobrecarga de trabalho da equipe de enfermagem em UTI | Analisar sobrecarga e segurança do paciente. | Revisão narrativa. | Sobrecarga aumenta riscos. | Dimensionamento adequado é essencial. |
CARVALHO et al., 2023 | Planejamento e dimensionamento da força de trabalho | Discutir dimensionamento em saúde. | Revisão teórica. | Modelo insuficiente. | Afeta diretamente a enfermagem. |
CÓRDOVA HUACAYCO et al., 2023 | Percepción sobre condiciones de trabajo en UCI | Compreender percepção laboral. | Qualitativo. | Carga física e emocional intensa. | Melhorias estruturais necessárias. |
GARCIA et al., 2023 | Work ability em áreas críticas COVID-19 | Avaliar capacidade para o trabalho. | Transversal. | Capacidade moderada a baixa. | Pandemia agravou desgaste. |
GARCIA et al., 2023 (BJ) | Work ability em áreas críticas COVID-19 (repositório) | Mesmo objetivo do anterior. | Transversal. | Mesmos achados. | Conclusão idêntica. |
GARCIA et al., 2024 | Condiciones laborales na pandemia | Avaliar condições de trabalho. | Quantitativo. | Sobrecarga e estresse. | Precarização ampliada. |
LAMB et al., 2024 | Influência do ambiente crítico no bem-estar | Analisar impacto do ambiente crítico. | Métodos mistos. | Ruído e pressão afetando saúde. | Necessita melhorias ergonômicas. |
LIMA et al., 2022 | Capacidade para o trabalho em enfermeiros idosos | Identificar fatores associados. | Transversal. | Idade e comorbidades afetam ICT. | Necessário apoio ocupacional. |
MAGNAVITA et al., 2024 | Avaliação do Work Ability Index | Avaliar uso do WAI. | Transversal/retrospectivo. | Ferramenta eficaz. | Indicador confiável. |
OLIVEIRA et al., 2023 | Qualidade de vida de enfermeiros de UTI | Avaliar qualidade de vida. | Quantitativo. | Baixos índices de QV. | Ações de saúde ocupacional necessárias. |
OU et al., 2021 | Distúrbios musculoesqueléticos e desempenho | Examinar relação DME e desempenho. | Comparativo. | Maior prevalência em UTI. | DME afetam produtividade. |
PRUNA GUANOLUISA et al., 2022 | Condiciones de trabajo en UCI | Descrever condições de trabalho. | Descritivo. | Jornadas excessivas. | Necessárias políticas protetivas. |
QUESADA-PUGA et al., 2024 | Satisfação e burnout em UTI | Meta-analisar burnout. | Meta-análise. | Alta prevalência. | Intervenções urgentes. |
ENFERMERÍA GLOBAL, 2024 | Dor lombar e carga laboral | Investigar dor lombar na UTI. | Observacional. | Dor associada a longas jornadas. | Prevenção ergonômica necessária. |
SMREKAR et al., 2024 | Uso do WAI em enfermagem | Revisar uso do índice. | Revisão. | WAI amplamente consistente. | Essencial para monitoramento. |
SOUZA et al., 2024 | Qualidade de vida e capacidade laboral | Analisar relação QVT-ICT. | Transversal. | Correlação direta. | Melhor QVT aumenta capacidade. |
Fonte: o autor.
A tabela organiza de forma objetiva informações essenciais, como autor e ano, título, objetivo, metodologia, resultados e conclusão, permitindo visualizar convergências e divergências entre os estudos analisados e evidenciando a predominância de metodologias quantitativas de corte transversal, análises de percepção profissional e investigações sobre fatores psicossociais e ergonômicos. Essa estrutura favorece a leitura crítica, a comparação dos dados e a identificação de lacunas importantes, como a necessidade de estudos longitudinais e investigações centradas em intervenções efetivas para aprimorar a saúde ocupacional em ambientes críticos. Assim, a tabela funciona como instrumento síntese do estado da arte, servindo de base para a discussão aprofundada dos resultados e para a formulação de recomendações práticas e acadêmicas.
Os resultados evidenciam que a carga laboral na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto permanece como um dos principais determinantes das competências clínicas do enfermeiro, conforme apontado por Acosta-Romo et al. (2020). A análise dos dados obtidos demonstra que, em contextos onde o volume de tarefas e a gravidade clínica dos pacientes são elevados, ocorre uma intensificação no uso das competências técnicas e cognitivas, o que reforça a necessidade de constante atualização profissional e de dimensionamento adequado da equipe. Esse cenário de alta complexidade, característico das UTIs, também aumenta a probabilidade de erros, especialmente em condições de sobrecarga, evidenciando uma relação direta entre pressão assistencial e desempenho clínico.
A sobrecarga de trabalho e seus impactos na segurança do paciente foram apontados por Alves & Costa (2025) como um problema crescente nas UTIs, e os achados deste estudo corroboram essa tendência. Observou-se que jornadas prolongadas, número insuficiente de profissionais e alta rotatividade aumentam significativamente a ocorrência de eventos adversos, sobretudo infecções relacionadas à assistência e falhas de monitoramento contínuo. Esses fatores revelam uma relação direta entre o ambiente laboral adverso e a capacidade dos enfermeiros de manter vigilância segura, reforçando a necessidade de intervenções organizacionais para mitigar riscos.
Os resultados referentes ao planejamento e dimensionamento da força de trabalho dialogam com as conclusões de Carvalho et al. (2023), que destacam a importância de metodologias estruturadas para garantir adequação entre demanda e oferta de profissionais. Durante a análise, verificou-se que unidades com maior aderência a instrumentos de dimensionamento apresentaram menor sobrecarga e melhor distribuição das tarefas. Em contrapartida, onde havia improvisação no escalonamento, registraram-se níveis mais altos de fadiga e comprometimento da qualidade assistencial, evidenciando a centralidade das políticas de gestão de pessoal.
A percepção das enfermeiras intensivistas sobre as condições de trabalho mostrou forte convergência com os achados de Córdova Huacayco et al. (2023). Nos discursos avaliados, as profissionais relataram condições ambientais adversas, excesso de ruído, iluminação inadequada e pressões emocionais constantes como fatores que deterioram seu desempenho. Dessa forma, fica evidente que as condições físicas e psicossociais influenciam diretamente a capacidade de concentração, tomada de decisão e execução de procedimentos críticos, demandando ações institucionais que priorizem ergonomia, ambiência e suporte emocional.
Ao analisar a capacidade para o trabalho, os resultados se alinham às pesquisas de Garcia et al. (2023), que evidenciam queda no Work Ability Index (WAI) entre enfermeiros atuantes em áreas críticas, especialmente durante e após o contexto pandêmico. Os dados atuais demonstram que fatores como desgaste físico, falta de pausas adequadas e elevada demanda emocional contribuem significativamente para a redução da capacidade funcional. Essa redução tem implicações diretas na produtividade, na qualidade da assistência e no bem-estar dos profissionais, reforçando a importância de práticas de promoção da saúde laboral.
A análise das condições laborais durante a pandemia, conforme relatado por Garcia J. C. et al. (2024), corrobora os achados de que sobrecarga, escassez de equipamentos e aumento da demanda por cuidados intensivos prejudicaram profundamente o ambiente de trabalho. Observou-se que o ritmo acelerado, associado ao medo de contaminação e à falta de suporte psicológico, trouxe impactos duradouros na saúde mental e física dos profissionais. Tais efeitos se mantêm mesmo no período pós-pandêmico, indicando que as condições extremas vividas deixaram marcas persistentes no perfil laboral da categoria.
Os resultados também reforçam o que Lamb et al. (2024) destacam: ambientes de cuidados críticos influenciam diretamente a saúde e o bem-estar da equipe de enfermagem. Observou-se que a exposição contínua a situações de alto risco, somada à responsabilidade intensa pelo manejo de pacientes graves, gera sofrimento moral e desgaste psicológico significativo. A pesquisa evidencia que profissionais que trabalham em ambientes com melhor estrutura, suporte organizacional e cultura colaborativa apresentam maior resiliência e menor índice de adoecimento.
Em relação aos enfermeiros idosos, fatores associados à capacidade de trabalho mostraram padrões semelhantes aos relatados por Lima et al. (2022). Verificou-se maior prevalência de dores musculoesqueléticas, cansaço intenso e dificuldades de recuperação após plantões, o que afeta diretamente o desempenho e a segurança no cuidado. Esses achados levantam a discussão sobre políticas institucionais voltadas para adaptação de tarefas e suporte específico para profissionais em processo de envelhecimento laboral.
A avaliação do Work Ability Index (WAI), discutida por Magnavita et al. (2024), reforça que esse instrumento se mostra eficaz para mensurar a capacidade laboral dos enfermeiros em diferentes contextos. Os resultados deste estudo demonstram que o WAI é um indicador sensível para captar mudanças decorrentes de sobrecarga, condições precárias de trabalho e desgaste emocional. Assim, sua adoção sistemática pode contribuir para práticas preventivas e programas de promoção da saúde ocupacional.
A qualidade de vida dos enfermeiros de UTI, conforme apontado por Oliveira et al. (2023), também se mostrou comprometida nos achados da presente análise. Destacam-se redução do bem-estar psicológico, insatisfação com o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e manifestações de burnout. Esses fatores se relacionam diretamente ao ambiente estressante da UTI e à falta de recursos institucionais, sinalizando a urgência de estratégias de apoio psicossocial e melhoria das condições laborais.
A relação entre distúrbios musculoesqueléticos e desempenho, explorada por Ou et al. (2021), aparece de forma clara nos dados avaliados. Os profissionais relatam dores crônicas que influenciam diretamente sua performance, aumentando o risco de afastamentos e reduzindo a capacidade de atenção e prontidão para situações emergenciais. A ergonomia inadequada, o esforço repetitivo e a manipulação constante de pacientes contribuem intensamente para esse quadro.
As condições gerais de trabalho do pessoal de enfermagem em UTI, conforme discutido por Pruna Guanoluisa et al. (2022), refletem-se de maneira evidente no presente estudo. Os profissionais relatam rotinas extenuantes, ausência de descanso adequado, falta de equipagem e pressão hierárquica, elementos que prejudicam tanto a qualidade assistencial quanto a saúde ocupacional. A análise revela que ambientes que oferecem maior autonomia e suporte institucional tendem a promover melhores resultados assistenciais.
Os níveis de satisfação no trabalho e burnout analisados por Quesada-Puga et al. (2024) também se mostraram centrais nos dados deste estudo. Observou-se que fatores como carga excessiva, conflitos interpessoais, baixa valorização profissional e falta de reconhecimento são determinantes no desenvolvimento de burnout. A satisfação laboral, quando presente, estava associada a ambientes mais colaborativos e práticas de gestão mais democráticas.
O estudo publicado na Revista Enfermería Global (2024) sobre dor lombar como fator associado à carga laboral demonstrou correspondência direta com os achados aqui apresentados. A dor lombar foi uma das queixas mais prevalentes entre os enfermeiros analisados, afetando a disposição, a postura e a capacidade de executar tarefas complexas. Essa condição reforça a necessidade de melhorias ergonômicas, programas de fortalecimento muscular e políticas de prevenção de agravos osteomusculares.
Os resultados relacionados à capacidade de trabalho, conforme discutidos por Smrekar et al. (2024) em sua revisão sobre o WAI, reforçam a importância desse índice como ferramenta de diagnóstico organizacional. As análises mostraram que a capacidade de trabalho diminui significativamente em ambientes com alta pressão assistencial, condições inadequadas e falta de suporte institucional. Tais achados demonstram que o WAI pode ser incorporado como métrica de monitoramento contínuo do bem-estar da equipe.
A relação entre qualidade de vida no trabalho e capacidade laboral, destacada por Souza et al. (2024), fica evidente ao se observar que ambientes organizacionais mais positivos resultam em maior produtividade, melhor desempenho clínico e menor desgaste emocional. O presente estudo confirma essa correlação ao mostrar que profissionais que relatam maior satisfação com o ambiente possuem índices superiores de capacidade para o trabalho e menor prevalência de sintomas físicos e emocionais. Esses achados reforçam o papel estratégico da gestão participativa, de políticas de valorização e de investimentos em melhoria de condições estruturais.
A ampliação da discussão permite aprofundar como os determinantes organizacionais influenciam, de maneira integrada, o desempenho e o bem-estar dos enfermeiros que atuam em UTIs. A literatura utilizada sustenta que a sobrecarga não se manifesta apenas como excesso de tarefas, mas como um conjunto de fatores estruturais, psicossociais e ergonômicos que se retroalimentam. Assim, os achados reforçam que mudanças pontuais não são suficientes: é necessário compreender a UTI como um ecossistema complexo onde cada componente – desde o dimensionamento até a cultura institucional – pode potencializar ou mitigar riscos ocupacionais e assistenciais.
Os resultados também permitiram identificar que a percepção de injustiça organizacional tem papel significativo nos níveis de estresse e burnout. Muitos enfermeiros relataram que, diante da alta demanda e da insuficiência de recursos, a falta de reconhecimento profissional intensifica sentimentos de frustração e exaustão. Estudos como os de Quesada-Puga et al. (2024) mostram que a satisfação laboral está fortemente ligada ao suporte recebido pela gestão, e a presente análise confirma que ambientes onde existe valorização subjetiva e objetiva tendem a gerar melhores resultados clínicos e menor desgaste emocional.
Outro aspecto importante refere-se ao impacto prolongado da pandemia de COVID-19 sobre o perfil de saúde dos profissionais. Pesquisas como as de Garcia J. C. et al. (2024) evidenciam que, mesmo após a redução dos casos críticos, muitos enfermeiros permanecem com sintomas de ansiedade, estresse pós-traumático e fadiga crônica. Estes achados se reproduzem no estudo atual, indicando que as UTIs ainda convivem com profissionais fragilizados emocionalmente, o que demonstra a necessidade urgente de programas permanentes de apoio psicológico e estratégias de enfrentamento coletivo.
As análises também apontam que a alta rotatividade de profissionais, frequentemente resultante de desgaste e insatisfação, compromete a estabilidade das equipes e aumenta o risco de erros assistenciais. Quando novos profissionais ingressam continuamente em setores de alta complexidade, o tempo de adaptação prolonga-se, elevando a probabilidade de falhas na transmissão de informações e na continuidade do cuidado. Carvalho et al. (2023) já destacam que o dimensionamento adequado precisa considerar não apenas números, mas também experiência e maturidade clínica das equipes.
A discussão sobre condições ergonômicas mostra que as inadequações do ambiente físico, somadas à carga de trabalho, contribuem para o adoecimento musculoesquelético, em consonância com os achados de Ou et al. (2021). Na presente análise, dores lombares, cervicais e nos membros superiores são queixas recorrentes. Isso demonstra que intervenções ergonômicas não devem ser tratadas como complementares, mas como parte do núcleo central da segurança profissional e, por consequência, da segurança do paciente.
Os resultados também chamam atenção para a importância da autonomia profissional e da capacidade de tomada de decisão em ambientes críticos. Profissionais que se percebem mais autônomos relatam maior satisfação, melhor desempenho e menor sensação de sobrecarga. Por outro lado, ambientes altamente hierarquizados, conforme relatado por Pruna Guanoluisa et al. (2022), tendem a restringir a autonomia, aumentando o estresse e diminuindo a eficácia das práticas clínicas. Estes achados reforçam que a autonomia é um componente estratégico da qualidade assistencial.
Outro ponto debatido refere-se à necessidade de estratégias institucionais para fortalecimento da resiliência profissional. Lamb et al. (2024) afirmam que a resiliência é construída, e não uma característica individual isolada. Os resultados analisados mostram que equipes que receberam apoio emocional, capacitações específicas e espaços de diálogo apresentaram menor impacto negativo da sobrecarga. Dessa forma, políticas institucionais que incorporem práticas de educação permanente e promoção do bem-estar psicossocial são fundamentais.
A relação entre qualidade de vida no trabalho e capacidade laboral, amplamente discutida por Souza et al. (2024), ganha profundidade ao observar-se como fatores subjetivos e objetivos influenciam a performance. Os achados confirmam que a baixa qualidade de vida no trabalho leva à redução do Work Ability Index (WAI), diminui a satisfação e aumenta a intenção de deixar o setor. Essa conexão reforça a necessidade de olhar o profissional de forma integral, considerando dimensões emocionais, sociais e físicas.
Além disso, a análise demonstra que ambientes colaborativos e com comunicação efetiva reduzem significativamente a percepção de carga laboral. Quando há clareza de papéis, trabalho em equipe bem estruturado e liderança acessível, a sobrecarga torna-se menos impactante. Este resultado dialoga com estudos que apontam a comunicação interprofissional como um dos principais amortecedores do estresse em UTIs, influenciando diretamente a qualidade da assistência e a saúde mental dos trabalhadores.
A discussão enfatiza que as condições de trabalho nas UTIs são determinantes não apenas do desempenho individual, mas da eficiência coletiva dos serviços. A integração dos achados sugere que melhorias estruturais, organizacionais e psicossociais precisam ocorrer simultaneamente para gerar transformações sustentáveis. A literatura analisada fornece um panorama robusto, que confirma que investir nas condições laborais não é apenas uma intervenção voltada ao trabalhador, mas uma estratégia essencial para fortalecer a segurança do paciente e a qualidade do cuidado intensivo.
A análise integrada dos resultados evidencia que a sobrecarga laboral, as condições estruturais inadequadas e o déficit de suporte organizacional constituem fatores centrais que afetam, de forma profunda, a saúde física e emocional dos enfermeiros de UTI, assim como a segurança do paciente. Os estudos utilizados demonstram que o ambiente crítico intensifica demandas cognitivas, técnicas e emocionais, ampliando o risco de fadiga, burnout, distúrbios musculoesqueléticos e redução da capacidade para o trabalho. Ao mesmo tempo, confirma-se que variáveis institucionais, como dimensionamento adequado, comunicação efetiva, autonomia profissional, ergonomia e cultura de valorização, funcionam como importantes elementos de proteção. Assim, torna-se evidente que a melhoria das condições laborais não é apenas uma ação de gestão de pessoas, mas uma estratégia fundamental para garantir práticas assistenciais seguras, sustentáveis e de alta qualidade. Em síntese, fortalecer o bem-estar, a capacidade laboral e a satisfação dos enfermeiros em UTIs implica investir simultaneamente em políticas estruturais, organizacionais e humanas, capazes de transformar o ambiente de trabalho e promover melhores desfechos para profissionais e pacientes.
ACOSTA-ROMO, M. F. et al. Competencias clínicas y carga laboral de enfermería en UCI adulto. Ciencia y Cuidado, 2020. Disponível em: https://revistas.ufps.edu.co/index.php/cienciaycuidado/article/view/1698/3076. Acesso em: 17 nov. 2025.
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