Pancreatite aguda e agonistas do receptor GLP-1: panorama do quadro em território brasileiro.
Acute pancreatitis and GLP-1 receptor agonists: overview of the situation in Brazilian territory.
Pancreatitis aguda y agonistas del receptor GLP-1: panorama de la situación en territorio brasileño.
Daniely Ribeiro[1]
Luan Victor Silva Ribeiro[2]
Gustavo Pinheiro Monteiro[3]
Bárbara Begot de Freitas Rodrigues[4]
Ricardo Ferreira Silva[5]
Anna Clara Costa Hiraide[6]
Thiago Cunha da Cunha[7]
Dirceu José de Freitas Cardoso[8]
Resumo
Objetivo: Analisar o panorama das notificações de pancreatite aguda associadas ao uso de agonistas do receptor de GLP-1 no Brasil, correlacionando-as com o perfil de consumo nacional no período de 2021 a 2026. Método: Estudo de revisão integrativa com abordagem quanti-qualitativa. Foram utilizados dados bibliográficos das bases SciELO e LILACS, cruzados com dados secundários de farmacovigilância do sistema
VigiMed/Anvisa e relatórios de mercado farmacêutico (IQVIA). Resultados: Observou-se um crescimento superior a 300% no consumo varejista de análogos de GLP-1 em território brasileiro. Em paralelo, as notificações de suspeita de pancreatite aguda apresentaram uma curva ascendente, atingindo picos significativos a partir de 2024. A análise sugere que o uso off-label e a automedicação são fatores que exacerbam o risco de eventos adversos graves, especialmente em pacientes sem triagem clínica adequada. Conclusão: O panorama atual revela que o benefício clínico dessas terapias deve ser equilibrado com um monitoramento rigoroso e políticas de educação em saúde para mitigar riscos pancreáticos evitáveis.
Palavras-chave: Pancreatite aguda; Agonistas do Receptor de Peptídeo 1 Semelhante ao Glucagon; Farmacovigilância; Brasil.
Objective: To analyze the overview of acute pancreatitis reports associated with the use of GLP-1 receptor agonists in Brazil, correlating them with the national consumption profile from 2021 to 2026. Method: Integrative review study with a quantitative-qualitative approach. Bibliographic data from the SciELO and LILACS databases were used, crossed with secondary pharmacovigilance data from the VigiMed/Anvisa system and pharmaceutical market reports (IQVIA). Results: A growth of over 300% in retail consumption of GLP-1 analogues in Brazilian territory was observed. In parallel, reports of suspected acute pancreatitis showed an upward curve, reaching significant peaks from 2024 onwards. The analysis suggests that off-label use and self-medication are factors that exacerbate the risk of serious adverse events, especially in patients without proper clinical screening. Conclusion: The current panorama reveals that the clinical benefit of these therapies must be balanced with strict monitoring and health education policies to mitigate avoidable pancreatic risks.
Keywords: Acute pancreatitis; Glucagon-like Peptide 1 Receptor Agonists; Pharmacovigilance; Brazil.
O cenário terapêutico da obesidade e do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) sofreu uma mudança de paradigma com a introdução dos agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1 RA). No Brasil, o uso dessas medicações, popularmente conhecidas como "canetas emagrecedoras", apresentou um crescimento exponencial, impulsionado tanto por prescrições clínicas quanto pelo uso off-label disseminado em redes sociais1. No entanto, a rápida adesão a essas terapias trouxe à tona preocupações críticas de segurança, especificamente no que tange à saúde pancreática2.
A pancreatite aguda é uma condição inflamatória potencialmente grave e sua associação com os análogos de GLP-1 tem sido objeto de vigilância contínua. O mecanismo proposto envolve a proliferação de células ductais e alterações na massa pancreática, o que pode predispor ao quadro inflamatório3. Embora ensaios clínicos iniciais tenham mostrado riscos baixos, o uso em larga escala na população brasileira revela um cenário complexo, onde fatores como automedicação e falta de monitoramento clínico podem exacerbar a incidência de notificações4.
Apesar do volume crescente de vendas, há uma lacuna de conhecimento sobre a real dimensão dos casos notificados em território nacional nos últimos anos. A maioria dos dados disponíveis provém de coortes internacionais, invisibilizando as particularidades do perfil brasileiro5. Identificar esse panorama é fundamental para embasar protocolos de prescrição mais seguros e estratégias de farmacovigilância. Diante disso, o presente estudo tem como objetivo analisar o contexto dos casos de pancreatite aguda associados ao uso de análogos de GLP-1 notificados no Brasil, entre os anos de 2021 e 2026.
A fundamentação conceitual sobre a segurança pancreática dos análogos de GLP-1 baseia-se na forma como esses fármacos interagem com o pâncreas. Embora seu objetivo principal seja o controle glicêmico, observou-se que eles podem estimular o crescimento excessivo de células nos canais por onde passam as enzimas digestivas (hiperplasia ductal). Esse crescimento pode estreitar ou obstruir esses canais, impedindo que as enzimas sejam liberadas corretamente no intestino e fazendo com que elas se acumulem no próprio pâncreas, iniciando um processo de autodigestão do órgão que caracteriza a pancreatite aguda3,6. No cenário brasileiro, a popularização dessas medicações para fins estéticos e o uso sem o devido acompanhamento médico ampliam a exposição da população a esse risco, especialmente em pacientes que já possuem predisposição para inflamações pancreáticas 1,3.
Para monitorar essa relação em território nacional, o sistema VigiMed da Anvisa atua como a principal ferramenta de detecção de sinais de segurança após a comercialização dos fármacos. A farmacovigilância no Brasil utiliza as notificações de profissionais de saúde e pacientes para identificar eventos adversos que podem não ter aparecido de forma clara nos testes iniciais de laboratório2, 7. O cruzamento desses dados com um levantamento das vendas de fármacos da classe GLP-1 permite traçar um perfil de segurança atualizado acerca da realidade brasileira, sendo uma etapa essencial para avaliar o impacto do uso dessas terapias no cenário atual 2, 4, 5.
Trata-se de uma pesquisa de revisão integrativa da literatura, de natureza exploratória e descritiva, com abordagem quanti-qualitativa. O estudo foi delineado para traçar um panorama nacional sobre a segurança pancreática dos análogos de GLP-1, sendo a coleta de dados realizada em duas frentes complementares de busca no período compreendido entre 2021 e 2026.
A primeira etapa consistiu no levantamento bibliográfico sistematizado nas bases de dados SciELO (Scientific Electronic Library Online) e LILACS (Literatura
Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), via portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizados os “Descritores em Ciências da Saúde" (DeCS) em cruzamento booleano: "Pancreatite Aguda" AND "Agonistas do Receptor de GLP-1" AND "Brasil". Os critérios de inclusão selecionaram artigos originais, relatos de caso e revisões publicados em português e inglês que abordassem o quadro clínico, a fisiopatologia e os eventos adversos desses fármacos 1, 3, 6. Foram excluídos estudos que não apresentavam relação direta com o território brasileiro ou que focavam exclusivamente em outras classes de antidiabéticos.
A segunda etapa focou na obtenção de dados epidemiológicos e de consumo em território nacional para sustentar o panorama proposto. Para tanto, foram analisados dados secundários de farmacovigilância extraídos dos painéis públicos do sistema VigiMed, mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2,7.
Complementarmente, foram consultados relatórios de mercado farmacêutico e notas técnicas de órgãos de classe 8,9 para mensurar a curva de consumo e o impacto do uso off-label no varejo brasileiro. A análise dos resultados foi realizada por meio da triangulação de dados, permitindo correlacionar o aumento das notificações de suspeitas de pancreatite aguda com o fenômeno de expansão acelerada dessas terapias no Brasil 4, 5.
Os dados extraídos do sistema de farmacovigilância VigiMed/Anvisa e dos relatórios de mercado indicam uma correlação direta entre o volume de vendas e o registro de notificações no Brasil. Entre 2021 e o primeiro trimestre de 2026, o número de notificações de suspeitas de pancreatite aguda associadas aos análogos de GLP-1 apresentou um crescimento constante. No biênio 2021-2022, os registros oficiais somavam menos de 30 casos anuais; contudo, a partir de 2024, esse número ultrapassou a marca de 150 notificações anuais, atingindo o pico em 2025 2, 4.
Quanto ao perfil de consumo, os relatórios de auditoria farmacêutica demonstram que o Brasil figura como um dos mercados de maior expansão global para essa classe de fármacos, com um incremento de vendas superior a 300% no período estudado 8. O comparativo entre a curva de ascensão do consumo varejista e o volume de notificações de pancreatite aguda em território nacional é apresentado na Figura 1*.
*Fonte: Elaborado pelo autor (2026), com base em dados de Anvisa/VigiMed e IQVIA ² ⁴ ⁸
A análise dos dados secundários também revelou que a maioria das notificações (aproximadamente 65%) concentra-se na faixa etária entre 25 e 50 anos, com predominância do sexo feminino. Além disso, os alertas emitidos pelos órgãos reguladores destacam que, em cerca de 40% dos casos graves notificados em 2025, houve evidência de uso sem prescrição médica adequada ou para fins exclusivamente
estéticos 1, 2, 9.
A ascensão das notificações de pancreatite aguda no Brasil apresenta matizes locais preocupantes. Os resultados deste estudo corroboram a tese de Silva e Santos 1, ao indicarem que o uso off-label e a automedicação podem estar subestimando o risco real, uma vez que a ausência de triagem médica impede a identificação de contraindicações clássicas. Embora o risco absoluto em ensaios clínicos controlados seja baixo 6, a realidade da farmacovigilância brasileira, conforme o Alerta 02/2026 da Anvisa 2, sugere que a exposição em larga escala amplia essa percepção.
Ao comparar com o cenário internacional descrito por Ferreira e Lima 5, observa-se que o rigor na retenção de receitas em outros países pode atuar como fator protetor. Um ponto crítico é a fisiopatologia proposta 3, onde a hiperplasia ductal sugere que o uso em doses crescentes pode ser o gatilho para a obstrução do fluxo enzimático. No entanto, é necessário reconhecer as limitações: os dados do VigiMed baseiam-se em notificações de suspeitas 4, 7. Contudo, a proximidade temporal do início do tratamento sugere uma relação causal que não pode ser ignorada.
O panorama traçado evidencia que a segurança pancreática dos análogos de GLP-1 no Brasil é um desafio de saúde pública ligado ao comportamento de consumo. A correlação entre as vendas e o incremento nas notificações reforça a necessidade de monitoramento clínico rigoroso. Conclui-se que o risco de eventos adversos graves é amplificado pela ausência de triagem adequada de fatores de risco preexistentes 2, 8, 10.
Para mitigar esse cenário, é imperativo que a prescrição seja acompanhada de orientações claras e estratificação de risco individualizada. O fortalecimento da farmacovigilância e a promoção da educação em saúde são fundamentais para combater a automedicação e garantir que benefícios terapêuticos não sejam sobrepostos por desfechos evitáveis 1, 11.
Autor - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: doutoraribeirodaniely@gmail.com
ORCID: 0009-0006-6855-794X. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Belém - Pará. Brasil. E-mail: luanvictorsilvaribeiro21@gmail.com
ORCID: 0009-0001-3873-3838. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: gustavopmonteiro@icloud.com
ORCID: 0009-0007-1186-1876. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Belém - Pará. Brasil. E-mail: begotbarbara@gmail.com
ORCID: 0000-0002-0467-3451. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina. Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: ricardosilvafr15@gmail.com
ORCID: 0009-0000-2689-8718 ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: annahiraide12@icloud.com
ORCID: 0009-0004-7066-0845. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: thiagocunhaadvmed@gmail.com
ORCID: 0000-0001-6381-2522. ↑
Coautor(a) - Titulação/ Formação: Discente de Medicina Instituição: Faculdade de Ciências Médicas - Afya Abaetetuba PA. Cidade/País: Abaetetuba - Pará. Brasil. E-mail: d.j.f.cardosoo@bol.com.br
ORCID: 0009-0009-4230-0507. ↑