Neurodesenvolvimento e dinâmica familiar: o clima emocional como arquitetura da identidade infantil
Neurodevelopment and family dynamics: the emotional climate as the architecture of child identity
Flavia Moraes Marzullo
Objetivo: Identificar e sintetizar evidências científicas acerca da influência do clima emocional familiar sobre o neurodesenvolvimento e a construção da identidade na infância. Método: Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, de abordagem qualitativa, conduzida conforme as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). A questão norteadora foi estruturada a partir do modelo PEO (Population, Exposure, Outcome). A busca foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Google Scholar, SciELO, LILACS e ERIC, contemplando publicações entre 2015 e 2025, nos idiomas português e inglês. Após aplicação dos critérios de elegibilidade e das etapas de triagem, leitura de resumos e avaliação dos textos completos, foram incluídos 11 estudos para análise. A síntese dos dados ocorreu por meio de análise narrativa temática. Resultados: Os achados evidenciaram que o clima emocional familiar exerce influência multidimensional sobre o desenvolvimento infantil, incidindo sobre a regulação emocional, o funcionamento cognitivo, o comportamento e a formação do autoconceito. Ambientes familiares caracterizados por vínculos afetivos seguros, responsividade parental e estabilidade emocional associaram-se a desfechos desenvolvimentais mais favoráveis, enquanto contextos marcados por adversidades, práticas parentais inadequadas e estresse crônico relacionaram-se a maior vulnerabilidade socioemocional e cognitiva. Foram identificados quatro eixos analíticos: regulação emocional e vínculos afetivos; estresse tóxico e plasticidade neural; práticas parentais e construção da identidade; e fatores de proteção e resiliência. Conclusão: Conclui-se que o clima emocional familiar constitui variável determinante para a promoção do neurodesenvolvimento saudável e da consolidação identitária na infância, reforçando a necessidade de intervenções intersetoriais voltadas ao fortalecimento das práticas parentais sensíveis e à redução do estresse familiar.
Palavras-chave: Neurodesenvolvimento; Desenvolvimento infantil; Clima emocional familiar; Relações familiares; Identidade.
ABSTRACT
Objective: To identify and synthesize scientific evidence on the influence of the family emotional climate on neurodevelopment and identity construction in childhood. Method: This is a qualitative systematic literature review conducted in accordance with the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) guidelines. The guiding research question was structured using the PEO (Population, Exposure, Outcome) model. Searches were carried out in the PubMed/MEDLINE, Google Scholar, SciELO, LILACS, and ERIC databases, including publications from 2015 to 2025 in Portuguese and English. After applying eligibility criteria and completing the stages of screening, abstract review, and full-text assessment, 11 studies were included in the analysis. Data synthesis was performed through thematic narrative analysis. Results: The findings indicate that the family emotional climate exerts a multidimensional influence on child development, affecting emotional regulation, cognitive functioning, behavior, and self-concept formation. Family environments characterized by secure emotional bonds, parental responsiveness, and emotional stability were associated with more favorable developmental outcomes, whereas contexts marked by adversity, inadequate parenting practices, and chronic stress were related to greater socioemotional and cognitive vulnerability. Four analytical axes were identified: emotional regulation and affective bonds; toxic stress and neural plasticity; parenting practices and identity construction; and protective factors and resilience. Conclusion: The family emotional climate is a determining variable in promoting healthy neurodevelopment and identity consolidation in childhood, reinforcing the need for intersectoral interventions aimed at strengthening sensitive parenting practices and reducing family stress.
Keywords: Neurodevelopment; Child development; Family emotional climate; Family relations; Identity.
O neurodesenvolvimento infantil configura-se como um processo cumulativo e sensível às experiências precoces, no qual a maturação neurobiológica se articula, de maneira indissociável, às condições relacionais e afetivas que circundam a criança desde os primeiros anos de vida (Tabachnick et al., 2022; Bush et al., 2020; Michael et al., 2024).
Nesse sentido formativo, a família constitui o primeiro, e mais persistente, microssistema de socialização, oferecendo, ou negando, contornos de previsibilidade, segurança, acolhimento e co-regulação emocional, elementos que incidem sobre a organização do comportamento, sobre a aprendizagem e, em termos mais amplos, sobre a consolidação progressiva do autoconceito e da identidade (Bush et al., 2020; Michael et al., 2024).
Nessa perspectiva, o clima emocional familiar pode ser compreendido como a parte qualitativa das interações cotidianas no lar, abrangendo responsividade parental, vínculos afetivos, estilos educativos, padrões comunicacionais, disponibilidade emocional dos cuidadores, presença de estressores crônicos e estabilidade das rotinas. Esse clima conforma experiências reiteradas de regulação e significado, por meio das quais a criança aprende a nomear emoções, tolerar frustrações, modular impulsos e interpretar a si mesma e ao outro (Lindblom et al., 2016; Tabachnick et al., 2022).
Ambientes familiares calorosos e consistentes tendem a favorecer a aquisição de competências socioemocionais e cognitivas, ao passo que contextos marcados por hostilidade, imprevisibilidade, negligência ou sobrecarga emocional associam-se, recorrentemente, a trajetórias desenvolvimentais menos favoráveis (Lanjekar et al., 2022).
A literatura evidencia que exposições prolongadas a adversidades no contexto familiar podem interferir nos sistemas neurobiológicos de resposta ao estresse, repercutindo na arquitetura funcional do cérebro, na autorregulação emocional e no desempenho cognitivo. Por outro lado, a elevada plasticidade neural própria da infância indica que experiências protetivas diminuir impactos deletérios e favorecer processos de resiliência (Lanjekar et al., 2022; Lindblom et al., 2016; Tabachnick et al., 2022).
Neste contexto, impõe-se a necessidade de sistematizar as evidências disponíveis, a fim de identificar convergências empíricas, lacunas e implicações práticas acerca do tema. Isto posto, a presente investigação estrutura-se a partir da seguinte pergunta de pesquisa, formulada com base no modelo PEO (Population, Exposure, Outcome):
De que maneira o clima emocional familiar, compreendido pelas dinâmicas relacionais, práticas parentais e qualidade dos vínculos afetivos, influencia o neurodesenvolvimento e a construção da identidade na infância?
A partir dessa questão norteadora, o estudo tem como objetivo identificar, analisar e sintetizar as evidências científicas recentes (2015–2025) que abordam a relação entre ambiente familiar e desfechos cognitivos, socioemocionais e identitários na infância, organizando os achados em eixos analíticos capazes de sustentar uma leitura contextualizada da produção acadêmica.
A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão sistemática da literatura, de abordagem qualitativa, desenvolvida em conformidade com as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), com o propósito de identificar, selecionar, avaliar e sintetizar as evidências científicas disponíveis acerca da influência do clima emocional familiar sobre o neurodesenvolvimento e a construção da identidade infantil.
A formulação da questão norteadora fundamentou-se no modelo PEO (Population, Exposure, Outcome). Definiu-se como população de interesse crianças na faixa etária de zero a doze anos, como exposição ao clima emocional familiar, compreendido pelas dinâmicas relacionais, práticas parentais, vínculos afetivos e qualidade das interações intrafamiliares, e como desfecho o neurodesenvolvimento.
A busca bibliográfica foi realizada de forma sistemática nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Google Scholar, SciELO, LILACS e ERIC, selecionadas por sua abrangência interdisciplinar e relevância para a temática investigada. Foram utilizados descritores controlados provenientes dos vocabulários DeCS e MeSH, combinados com palavras-chave não controladas, de modo a ampliar a sensibilidade da estratégia de busca e reduzir possíveis vieses de indexação.
Entre os principais descritores empregados destacaram-se, em língua portuguesa, neurodesenvolvimento, desenvolvimento infantil, relações familiares, ambiente familiar, emoções, vínculo afetivo e identidade, e, em língua inglesa, neurodevelopment, child development, family environment, family relations, attachment, emotional climate e identity. As estratégias de busca foram estruturadas por meio de operadores booleanos AND e OR, adaptadas às especificidades de cada base, e aplicadas ao recorte temporal compreendido entre 2015 e 2025, visando contemplar evidências atualizadas.
Foram considerados elegíveis para inclusão artigos originais, empíricos, de natureza quantitativa, qualitativa ou mista, que abordassem explicitamente a relação entre o ambiente ou a dinâmica familiar e aspectos do desenvolvimento neuropsicológico, emocional ou identitário de crianças, com texto completo disponível nos idiomas português e inglês.
Foram excluídos estudos de revisão, editoriais, cartas ao editor, dissertações e teses, pesquisas centradas exclusivamente em adolescentes, investigações cujo foco principal fosse restrito a aspectos genéticos ou farmacológicos sem interface com o contexto familiar, bem como trabalhos com amostras excessivamente específicas que limitassem a generalização analítica dos resultados.
As referências recuperadas nas bases de dados foram exportadas para um gerenciador bibliográfico, procedendo-se à remoção de duplicatas. A seleção dos estudos ocorreu em três etapas sucessivas, a saber: leitura dos títulos, análise dos resumos e avaliação do texto completo, sendo conduzida por dois revisores independentes, com resolução de eventuais divergências por consenso. Todo o processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão foi documentado por meio do fluxograma PRISMA, assegurando transparência metodológica e rastreabilidade das decisões analíticas.
A síntese dos dados ocorreu por meio de análise narrativa temática, com organização dos resultados em eixos analíticos que contemplaram, entre outros aspectos, a regulação emocional e os vínculos afetivos, os efeitos do estresse tóxico e da plasticidade neural, as práticas parentais e seus impactos na construção identitária, bem como os fatores de proteção e resiliência no desenvolvimento infantil.
A interpretação dos achados foi orientada por referenciais teóricos da neurociência do desenvolvimento, da psicologia socioemocional e das abordagens sistêmicas da família, permitindo uma leitura integrada, crítica e contextualizada da produção científica analisada.
A estratégia de busca nas bases PubMed/MEDLINE, Google Scholar, SciELO, LILACS e ERIC resultou na identificação inicial de 14.932 registros potencialmente relevantes. Após a exportação das referências para o gerenciador bibliográfico e a remoção de duplicatas, permaneceram 12.487 estudos para a etapa de triagem. Na leitura dos títulos, foram excluídos 11.903 registros por não atenderem aos critérios temáticos, populacionais ou metodológicos previamente estabelecidos. Em seguida, procedeu-se à análise dos resumos de 584 estudos, dos quais 536 foram excluídos por não abordarem diretamente a relação entre o clima emocional familiar e o neurodesenvolvimento infantil, por se tratarem de revisões, editoriais ou por apresentarem amostras incompatíveis com o recorte etário definido. Assim, 48 artigos foram avaliados na íntegra, sendo 37 excluídos por não apresentarem dados empíricos suficientes, por focalizarem exclusivamente determinantes genéticos ou farmacológicos, ou por não disponibilizarem texto completo em português ou inglês. Ao final do processo de elegibilidade, 11 estudos atenderam integralmente aos critérios de inclusão e compuseram o corpus final da revisão sistemática
Foram incluídos 11 estudos publicados entre 2015 e 2025, os quais investigaram diferentes aspectos da relação entre o clima emocional familiar e o desenvolvimento infantil. Em conjunto, esses artigos confirmam que o ambiente familiar exerce influência multidimensional sobre o neurodesenvolvimento da criança, abrangendo desde a regulação emocional e comportamental até as habilidades cognitivas e a formação da autoimagem.
A análise temática dos estudos permitiu identificar quatro eixos principais, discutidos a seguir, sendo: regulação emocional e vínculos afetivos, estresse tóxico e plasticidade neural, práticas parentais e construção da identidade, e fatores de proteção e resiliência no desenvolvimento.
No que tange a regulação emocional e vínculos afetivos, estudos ressaltaram o papel dos vínculos afetivos seguros e de interações familiares positivas na capacidade da criança de regular emoções e desenvolver respostas psicológicas saudáveis.
Por exemplo, Lindblom et al. (2016) verificaram que relacionamentos familiares funcionais nos primeiros meses de vida (com níveis adequados de intimidade e autonomia entre os cuidadores e o bebê) predisseram melhor regulação emocional aos 7-8 anos de idade, enquanto dinâmicas familiares disfuncionais se associaram ao uso mais frequente de mecanismos defensivos desadaptativos.
De forma semelhante, Tabachnick et al. (2022) observaram, em uma amostra de crianças em risco, que aquelas classificadas com apego seguro na primeira infância exibiam, aos 9 anos, expressões emocionais mais adequadas ao contexto e maior flexibilidade em alternar entre afetos negativos e positivos durante interações com os pais, em comparação com crianças de apego inseguro.
Esses autores reforçam que um clima emocional familiar caloroso, caracterizado por laços afetivos seguros, responsividade parental e suporte emocional, favorece o desenvolvimento de estratégias saudáveis de regulação emocional e um senso de segurança psicológica na criança.
Nessa direção, Lanjekar et al. (2022) reforçam que a parentalidade sensível constitui um dos principais mecanismos pelos quais o ambiente familiar organiza precocemente a regulação emocional e sustenta a maturação cognitiva. Segundo os autores, quando cuidadores oferecem suporte afetivo consistente em situações estressoras e, simultaneamente, mantêm orientação e previsibilidade em contextos não estressantes, a criança tende a desenvolver segurança, confiança e maior capacidade de autorregulação, o que repercute no ajustamento socioemocional e na disponibilidade para explorar e aprender.
Em contrapartida, práticas parentais intrusivas, agressivas ou hostis aparecem associadas a maior frequência de sintomas internalizantes, como tristeza, ansiedade e isolamento, e externalizantes, impulsividade, agressividade e não conformidade, indicando que a qualidade do vínculo e da responsividade não é apenas “contexto”, mas um componente ativo na modelagem do funcionamento emocional infantil (Lanjekar et al., 2022).
De maneira complementar, estudos também evidenciaram que um clima familiar adverso ou caótico, marcado por estresse tóxico, pode prejudicar o neurodesenvolvimento infantil ao alterar sistemas biológicos de resposta ao estresse e processos neurais em fases críticas do desenvolvimento.
Suor et al. (2015) conduziram um estudo longitudinal com crianças de 2 a 4 anos em famílias de baixa renda e descobriram que maiores níveis de adversidade familiar, incluindo instabilidade no lar e baixa responsividade materna, previam perfis atípicos de cortisol basal, tanto elevado quanto suprimido, os quais por sua vez se associaram a pior desempenho cognitivo aos 4 anos. Esse resultado sugere que o estresse crônico no ambiente familiar pode “reprogramar” o eixo de estresse da criança, comprometendo funções cognitivas emergentes.
De fato, uma revisão de Guinosso, Johnson e Riley (2016) apontou que múltiplas experiências adversas na infância tendem a resultar em piores desfechos cognitivos, evidenciando efeitos cumulativos do estresse familiar sobre o desenvolvimento cerebral.
Por outro lado, estudos de neuroimagem têm demonstrado a plasticidade do cérebro infantil em resposta às interações familiares, tanto positivas quanto negativas. Por exemplo, um estudo de coorte publicado por Michael et al (2022) indicou que práticas parentais hostis nos primeiros anos de vida podem levar a alterações na arquitetura funcional do cérebro, como na conectividade entre a amígdala e o córtex pré-frontal, durante a infância, associadas a maior reatividade emocional e risco de problemas psicológicos.
Em contraste, experiências de cuidado caloroso no meio da infância correlacionaram-se com padrões cerebrais ligados à melhor regulação emocional, incluindo maior conectividade em circuitos fronto-amigdalares, os quais predisseram menores níveis de ansiedade e depressão (Michael et al., 2022). Adicionalmente, níveis elevados de estresse materno, mesmo abaixo de eventos traumáticos, têm sido ligados a maior reatividade emocional do bebê, dificuldades de autorregulação e diferenças estruturais e funcionais cerebrais observadas já na infância (Bush et al., 2020).
Em conjunto, esses artigos sustentam a ideia de que o estresse tóxico no ambiente familiar pode ter efeitos duradouros sobre o cérebro em desenvolvimento, aumentando o risco de atrasos cognitivos e problemas socioemocionais. Por outro lado, graças à alta plasticidade neural na primeira infância, um ambiente familiar positivo pode modular os circuitos neurais em formação de modo a promover adaptações mais saudáveis mesmo frente a adversidades (Bush et al., 2020; Michael et al., 2022).
Sendo assim, no que se refere às práticas parentais e construção da identidade, têm-se que o modo como os pais exercem práticas educativas e se relacionam com os filhos também despontou como fator na formação da identidade e do autoconceito infantil.
Krauss, Orth e Robins (2019) realizaram um estudo longitudinal com 674 famílias e verificaram que múltiplos aspectos do ambiente familiar influenciam diretamente a trajetória de autoestima da criança. Entre os fatores familiares com impacto positivo no desenvolvimento de uma autoimagem saudável estavam as demonstrações de afeto e apoio, o monitoramento e envolvimento dos pais na vida da criança, a presença de valores familiares positivos compartilhados e a ausência de psicopatologias parentais, especialmente depressão materna.
Crianças expostas a altos níveis de carinho, interesse e comunicação aberta por parte dos pais tendiam a construir um senso de valor pessoal maior, enquanto aquelas em ambientes marcados por hostilidade, negligência ou instabilidade econômica apresentavam maior vulnerabilidade a baixa autoestima e sentimentos de inadequação (Krauss; Orth; Robins, 2019).
O exposto sugere que a dinâmica familiar afeta quem a criança entende que ela é, isto é, sua identidade emergente, ao fornecer, ou não, um contexto de validação, segurança e pertencimento. Em outras palavras, práticas parentais consistentes, acolhedoras e ajustadas às necessidades da criança contribuem para interiorizar crenças positivas sobre si mesma, ao passo que um clima emocional familiar negativo ou imprevisível pode dificultar o desenvolvimento identitário, levando a sentimentos de insegurança e inferioridade (Krauss; Orth; Robins, 2019).
Complementarmente, Lanjekar et al. (2022) contribuem para esse eixo ao sistematizar como estilos parentais, a saber, autoritativo, autoritário, permissivo e negligente, relacionam-se a perfis distintos de ajustamento e desenvolvimento. No estilo autoritativo, a combinação entre calor afetivo e estabelecimento de limites tende a favorecer autonomia com segurança, comunicação e engajamento, condições que sustentam o refinamento de competências cognitivas e a formação de um autoconceito mais estável.
Em contraste, padrões autoritários, com alto controle e baixa escuta, ou negligentes, com baixo envolvimento e baixa responsividade, aparecem vinculados a maior risco de dificuldades comportamentais e emocionais, bem como a experiências relacionais que fragilizam a percepção de valor pessoal.
Assim, as práticas educativas não incidem apenas na “conduta” da criança, mas também na maneira como ela internaliza expectativas, interpreta questões sociais e constrói sentidos sobre si, dimensões diretamente implicadas na constituição identitária (Lanjekar et al., 2022).
Vale ressaltar que, segundo os estudos incluídos, esses efeitos mostraram-se em grande medida independentes do sexo da criança ou da faixa etária dentro do recorte estudado, sugerindo que tanto meninos quanto meninas se beneficiam de ambientes familiares favoráveis durante a infância para consolidar uma identidade positiva (Krauss; Orth; Robins, 2019).
Por fim, emergiu dos resultados a importância de fatores de proteção no ambiente familiar que podem atenuar os efeitos de adversidades e promover a resiliência infantil. Alguns estudos enfocaram características específicas de pais, filhos ou interações que funcionam como amortecedores do estresse.
Por exemplo, Cabrera et al. (2021) acompanharam díades de mães, pais e bebês do 1º ao 30º mês de vida e identificaram que a sincronia diádica nas interações precoces, como responsividade e entrosamento positivo entre cuidador e criança, associou-se a menos problemas de comportamento na criança, enquanto o otimismo paterno correlacionou-se com melhores habilidades sociais aos 21 meses.
Interessantemente, alguns efeitos protetores mostraram-se condicionais ao nível de estresse dos pais, por exemplo, o otimismo do pai somente se traduziu em competência social elevada da criança quando os níveis de estresse paterno eram baixos. Isso indica que reduzir o estresse e o sofrimento psicológico dos cuidadores pode liberar o potencial de proteção de atributos positivos, tanto dos pais quanto da criança, como um temperamento infantil positivo, que, no estudo ,também predisse menos problemas comportamentais sob baixo estresse do pai.
Em consonância, a literatura sobre resiliência destaca que a presença de pelo menos um cuidador afetuoso, consistente e solidário é o fator protetivo mais comum entre crianças que superam adversidades. De fato, pesquisadores já mapearam diversos fatores familiares que favorecem a adaptação positiva, tais como: estabelecimento de vínculo seguro pai-filho, demonstrações de calor e carinho dos pais, clima familiar positivo com boa comunicação, baixos níveis de estresse parental e manutenção de rotinas e regras estáveis no lar (Durcan; Yavuz, 2025).
Esses elementos atuam como escudos que diminuem o impacto de eventos estressantes e ajudam a criança a desenvolver capacidades de enfrentamento e recuperação. Por outro lado, a ausência desses fatores de proteção aumenta significativamente o risco de atrasos no desenvolvimento e de problemas emocionais ou comportamentais (Scattolin; Resegue; Rosário, 2022).
Em suma, os resultados indicam que fortalecer as relações familiares positivas e o suporte psicossocial no contexto do lar é importante para promover a resiliência infantil. Intervenções que orientem os pais em práticas educativas sensíveis e no manejo do estresse familiar tendem a potencializar os fatores protetivos naturais, funcionando como estratégia preventiva para assegurar um desenvolvimento neuropsicológico saudável mesmo diante de desafios.
A presente revisão sistemática teve como objetivo identificar e sintetizar evidências científicas acerca da influência do clima emocional familiar sobre o neurodesenvolvimento e a construção da identidade na infância, respondendo à seguinte pergunta de pesquisa:
De que maneira o clima emocional familiar, compreendido pelas dinâmicas relacionais, práticas parentais e qualidade dos vínculos afetivos, influencia o neurodesenvolvimento e a construção da identidade infantil?
A análise dos 11 estudos incluídos demonstrou que a qualidade das interações intrafamiliares exerce influência sobre a regulação emocional, o funcionamento cognitivo, o comportamento e a formação do autoconceito.
Ambientes familiares afetivamente responsivos e estáveis associam-se a melhores desfechos desenvolvimentais, enquanto contextos marcados por adversidade, imprevisibilidade e práticas parentais inadequadas relacionam-se a maior vulnerabilidade emocional e cognitiva.
Ademais, os estudos evidenciam que a plasticidade neural na infância possibilita a diminuição de efeitos adversos quando há presença de fatores protetivos, como vínculos seguros, sincronia relacional e suporte emocional dos cuidadores.
Conclui-se, portanto, que o clima emocional familiar é uma variável determinante na promoção do desenvolvimento neuropsicológico saudável e da consolidação identitária na infância, reforçando a necessidade de intervenções voltadas ao fortalecimento das práticas parentais sensíveis e à redução do estresse familiar.
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