Uso de psicoestimulantes para desempenho acadêmico entre estudantes de medicina: prevalência e motivações

Use of psychostimulants for academic performance among medical students: prevalence and motivations

Paola Moro Passos

Saandra Dias de Oliveira

Bárbara Luiza Oliveira da Silva

RESUMO

Introdução. O uso de psicoestimulantes para melhorar o desempenho acadêmico entre estudantes de medicina tem se tornado um fenômeno crescente, representando um desafio para a saúde pública e para a formação acadêmica. Essa prática está relacionada a múltiplos determinantes, incluindo pressão por altas notas, carga intensa de estudos, disponibilidade de medicamentos e aspectos psicossociais, o que evidencia a necessidade de compreender sua prevalência, riscos e motivações. Objetivos. Identificar a frequência do uso de psicoestimulantes para fins acadêmicos entre estudantes de medicina e analisar os principais fatores associados a essa prática, incluindo motivações, fontes de obtenção e possíveis consequências para a saúde. Justificativa. O estudo justifica-se pela crescente utilização de psicoestimulantes nesse grupo populacional e pelos potenciais efeitos adversos à saúde física e mental, além das implicações éticas e acadêmicas. Metodologia. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura em bases de dados científicas, incluindo PubMed e SciELO, contemplando artigos publicados entre 2018 e 2025. Os descritores utilizados foram relacionados a “psicoestimulantes”, “desempenho acadêmico”, “uso recreativo”, “estudantes de medicina” e “prevalência”. Foram selecionados estudos que apresentassem dados epidemiológicos, motivacionais e análises dos determinantes do uso desses medicamentos. Resultados e discussão. Os achados indicam que a prevalência do uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina varia conforme país, ano de estudo e contexto acadêmico. As motivações frequentes incluem aumento da concentração, melhora da memória, prolongamento do tempo de estudo e pressão por desempenho. A disponibilidade de medicamentos prescritos, a influência de colegas e a percepção de baixo risco são fatores que contribuem para essa prática. Além disso, efeitos adversos como insônia, ansiedade, dependência e prejuízo cardiovascular foram relatados, evidenciando riscos importantes. Conclusão. Conclui-se que o uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina é multifatorial e apresenta implicações significativas para a saúde e para o contexto acadêmico. Estratégias integradas de prevenção, educação sobre riscos e suporte psicológico são essenciais para reduzir essa prática e promover hábitos de estudo mais saudáveis.

Palavras-chave: Psicoestimulantes. Desempenho acadêmico. Estudantes de medicina. Saúde.

ABSTRACT

Introduction. The use of psychostimulants to enhance academic performance among medical students has become an increasing phenomenon, representing a challenge for public health and academic training. This practice is associated with multiple determinants, including pressure for high grades, intensive study workload, medication availability, and psychosocial factors, highlighting the need to understand its prevalence, risks, and motivations. Objectives. To identify the frequency of psychostimulant use for academic purposes among medical students and to analyze the main factors associated with this practice, including motivations, sources of acquisition, and potential health consequences.Justification. This study is justified by the growing use of psychostimulants within this population group and the potential adverse effects on physical and mental health, as well as ethical and academic implications. Methodology. A systematic literature review was conducted using scientific databases, including PubMed and SciELO, covering articles published between 2018 and 2025. The descriptors used were related to “psychostimulants,” “academic performance,” “recreational use,” “medical students,” and “prevalence.” Studies presenting epidemiological data, motivational factors, and analyses of determinants associated with the use of these medications were selected. Results and Discussion. Findings indicate that the prevalence of psychostimulant use among medical students varies according to country, academic year, and educational context. Frequent motivations include increased concentration, memory enhancement, extended study time, and performance pressure. The availability of prescribed medications, peer influence, and the perception of low risk contribute to this practice. Additionally, adverse effects such as insomnia, anxiety, dependence, and cardiovascular impairment were reported, highlighting significant health risks. Conclusion. Psychostimulant use among medical students is multifactorial and presents significant implications for both health and the academic environment. Integrated prevention strategies, risk education, and psychological support are essential to reduce this practice and promote healthier study habits.

Keywords: Psychostimulants. Academic performance. Medical students. Health.

1 INTRODUÇÃO

O uso de psicoestimulantes para potencialização do desempenho acadêmico tem se configurado como um fenômeno crescente no contexto universitário, especialmente entre estudantes de medicina, grupo exposto a elevada carga horária, alta competitividade e intensa pressão por rendimento. Essas substâncias, como o metilfenidato e as anfetaminas, atuam no sistema nervoso central promovendo aumento da concentração, da vigília e da disposição, sendo indicadas, do ponto de vista clínico, principalmente para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Contudo, seu uso tem extrapolado as indicações terapêuticas, passando a ser empregado de forma não prescrita com finalidade de melhorar o desempenho acadêmico (Chagas et al., 2025).

Apesar de inicialmente associados ao tratamento de condições neuropsiquiátricas específicas, os psicoestimulantes passaram a ser utilizados por estudantes sem diagnóstico formal, motivados pela busca por maior produtividade, melhor rendimento em provas e manutenção do estado de alerta durante longos períodos de estudo. A prevalência desse consumo varia amplamente entre diferentes instituições e países, podendo alcançar percentuais expressivos entre acadêmicos da área da saúde (Moreira et al., 2022).

A crescente competitividade nos cursos de medicina, aliada à extensa carga de conteúdos e à cobrança por excelência acadêmica, contribui para a adoção de estratégias consideradas facilitadoras do desempenho. Nesse cenário, fatores como privação de sono, ansiedade relacionada a avaliações, comparação constante entre colegas e preocupação com o futuro profissional funcionam como elementos impulsionadores do uso dessas substâncias (Alvarenga et al., 2023).

Entretanto, o consumo não supervisionado de psicoestimulantes está associado a potenciais riscos à saúde, incluindo efeitos adversos cardiovasculares, alterações do humor, dependência e prejuízos cognitivos a longo prazo. Além disso, a prática levanta importantes discussões éticas relacionadas à medicalização do desempenho, à equidade acadêmica e à banalização do uso de medicamentos controlados (Fernandes et al., 2024).

Do ponto de vista da saúde coletiva, compreender a magnitude desse fenômeno e os fatores que motivam o uso é fundamental para subsidiar estratégias educativas, ações de promoção da saúde mental e políticas institucionais voltadas à prevenção do uso indiscriminado de substâncias psicoativas no ambiente universitário.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a prevalência do uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina, bem como identificar as principais motivações associadas a essa prática, contribuindo para o debate acadêmico e para a formulação de intervenções que promovam um ambiente educacional mais saudável e equilibrado.

2 MATERIAIS E MÉTODOS

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, método que permite a síntese ampla e sistematizada de produções científicas sobre determinado tema, possibilitando a identificação de lacunas do conhecimento e a compreensão de diferentes abordagens metodológicas acerca do fenômeno investigado. Optou-se por esse delineamento por permitir a inclusão de estudos com variados desenhos metodológicos, favorecendo uma análise abrangente da prevalência e das motivações relacionadas ao uso de psicoestimulantes para desempenho acadêmico entre estudantes de medicina.

A elaboração da pergunta norteadora seguiu a estratégia PICO, considerando como população os estudantes de medicina, como interesse o uso de psicoestimulantes, como comparação não aplicável e como desfecho a prevalência e motivações associadas ao uso para melhora do desempenho acadêmico. A partir dessa estrutura, definiu-se a seguinte pergunta de pesquisa: qual é a prevalência do uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina e quais são as principais motivações associadas a essa prática?

A estratégia de busca foi elaborada com base em descritores padronizados extraídos dos vocabulários controlados Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH). Foram utilizados os seguintes termos em português: Psicoestimulantes, Estudantes de Medicina, Desempenho Acadêmico, Prevalência e Motivação, bem como seus correspondentes em inglês: Psychostimulants, Medical Students, Academic Performance, Prevalence e Motivation. Os descritores foram combinados por meio de operadores booleanos, especialmente AND e OR, com o objetivo de ampliar e refinar os resultados obtidos. A string de busca completa utilizada na base PubMed foi: ("Psychostimulants"[MeSH] OR "Psicoestimulantes") AND ("Medical Students"[MeSH] OR "Estudantes de Medicina") AND ("Academic Performance"[MeSH] OR "Desempenho Acadêmico") AND ("Prevalence"[MeSH] OR "Prevalência") AND ("Motivation"[MeSH] OR "Motivação").

As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE e SciELO, contemplando artigos publicados entre 2018 e 2025, nos idiomas português e inglês. Foram incluídos estudos originais disponíveis na íntegra que abordassem a utilização de psicoestimulantes por estudantes de medicina, apresentando dados relacionados à frequência de uso, perfil dos usuários ou motivações associadas. Foram excluídas publicações duplicadas, estudos que abordassem exclusivamente o uso terapêutico em indivíduos com diagnóstico clínico formal sem relação com desempenho acadêmico, revisões narrativas, editoriais e artigos que não apresentassem relação direta com a temática proposta.

A seleção dos estudos ocorreu em etapas, iniciando-se com a leitura dos títulos, seguida da análise dos resumos e, posteriormente, da leitura integral dos artigos elegíveis. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, procedeu-se à extração e organização dos dados relevantes para síntese e discussão dos achados.

A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada utilizando listas de verificação específicas para estudos, considerando clareza do objetivo do estudo, descrição adequada da população, rigor na coleta e análise de dados, transparência na apresentação de resultados e identificação de possíveis vieses.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão e a leitura completa dos estudos elegíveis, a amostra final foi constituída por 10 artigos científicos, conforme figura 1.

Figura 1. Aplicação da busca metodológica, PRISMA.

Fonte: Acervo pessoal dos autores (2026).

Esses estudos foram organizados e sintetizados na Tabela 01, permitindo a visualização sistemática das principais características metodológicas e dos achados encontrados. A análise dos artigos possibilitou a identificação da frequência do uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina, bem como das motivações mais frequentemente relatadas para essa prática, incluindo fatores acadêmicos, emocionais e contextuais.

Tabela 01. Descrição dos artigos selecionados para composição da discussão temática.

Autor (Ano)

Título

Desfecho

Prescrição Médica vs Automedicação

Observações/Relevância

ALVARENGA, J.V. et al. (2023)

O uso de psicoestimulantes entre estudantes de uma faculdade de medicina: prevalência e fatores associados

Prevalência de 22%; 74% relataram aumento da concentração; maior uso no 3º e 4º ano; mulheres representaram 55% dos usuários; associação com privação de sono e carga horária >8h

68% automedicação

Uso mais intenso em anos intermediários; risco de insônia e sobrecarga cognitiva; mulheres mais vulneráveis a efeitos adversos; lacuna sobre prescrição formal; destaca necessidade de políticas de orientação sobre uso seguro.

FELIZARDO, P.R. et al. (2025)

Prevalência do uso de psicoestimulantes entre acadêmicos de medicina de uma universidade do extremo sul catarinense

Prevalência de 27%; uso mais frequente no internato; homens apresentaram uso ligeiramente maior (52%); 65% motivados por desempenho em provas

Principalmente automedicação

Motivação acadêmica como fator-chave; evidência de maior pressão no internato; lacuna sobre prescrição formal; necessidade de estratégias de educação sobre riscos e alternativas de desempenho acadêmico saudável.

FERNANDES, N.P. et al. (2024)

Automedicação de psicoestimulantes por estudantes de medicina e o impacto a longo prazo

31% usaram; efeitos: insônia (46%), ansiedade (38%), palpitações (21%); maior uso no 2º e 3º anos; mulheres relataram mais efeitos adversos (60%)

Predominantemente automedicação (72%)

Evidencia riscos cardiovasculares e psicológicos; maior vulnerabilidade feminina; destaca necessidade de orientação sobre uso seguro e acompanhamento médico; uso precoce nos anos iniciais sugere padrão de experimentação e risco progressivo.

LOPES, J.A.

et al. (2024)

Metilfenidato e Venvanse: o impacto na qualidade de vida dos estudantes de Medicina

24% usaram; 63% perceberam melhora da concentração; redução na qualidade de vida; uso mais intenso no 4º e 5º ano; homens e mulheres usaram em proporção semelhante

Prescrição não detalhada

Mostra impacto negativo na qualidade de vida; uso intenso em fases finais do curso; risco de dependência; lacuna sobre análise de diferenças por sexo; sugere necessidade de acompanhamento psicológico e acadêmico.

LUIZ, C.A. et al. (2025)

Uso de substâncias psicoestimulantes como potencializadores cognitivos por estudantes da área da saúde

Prevalência geral 29%, 26% em medicina; 70% uso para desempenho; maior início no 1º e 2º ano; homens representaram 53% dos usuários

Principalmente automedicação

Tendência crescente após ingresso no curso; início precoce sugere cultura de performance desde os primeiros anos; lacuna sobre prescrição formal; alerta para políticas preventivas e educação sobre efeitos adversos.

NASÁRIO, B.R. et al. (2022)

Uso não prescrito de metilfenidato e desempenho acadêmico de estudantes de medicina

18% usaram; percepção de melhora no foco; sem diferença significativa no desempenho acadêmico; maior uso no 3º ano; mulheres relataram mais efeitos adversos leves (57%)

Exclusivamente automedicação

Uso subjetivo mais relevante que objetivo; efeitos adversos leves mais frequentes em mulheres; alerta sobre percepção equivocada de benefícios; necessidade de orientação sobre riscos e acompanhamento médico.

OLIVEIRA, F.S. et al. (2023)

Consumo de psicoestimulantes por estudantes de medicina em um centro universitário privado

Prevalência 25%, maior nos últimos anos (33% no internato); uso associado a estresse; homens relataram maior frequência de uso em provas finais

Prescrição vs automedicação não detalhada

Relação entre uso e pressão acadêmica intensa; padrão crescente em anos avançados; lacuna sobre prescrição formal; necessidade de estratégias de manejo de estresse e educação sobre uso seguro.

RAMOS, M.F.

et al. (2025)

Percepções de estudantes de medicina sobre os efeitos colaterais do uso de psicoestimulantes sintéticos

23% usaram; 49% taquicardia; 42% ansiedade; maior relato de uso no 3º ano; mulheres mais afetadas por efeitos adversos (60%)

Prescrição não detalhada; provável automedicação

Contradição entre conhecimento teórico e prática; risco de efeitos adversos subestimados; maior vulnerabilidade feminina; evidencia necessidade de campanhas educativas e monitoramento de efeitos adversos.

SILVA, S.S. (2025)

Consequências do uso indiscriminado de psicoestimulantes por estudantes de medicina

30% usaram; 55% efeitos moderados; 17% sinais sugestivos de dependência; uso mais intenso no 2º e 3º ano; homens representaram 56% dos usuários

Principalmente automedicação

Destaca-se o risco de dependência; uso mais frequente em períodos de prova; vulnerabilidade de estudantes jovens; alerta para políticas de prevenção e acompanhamento psicológico.

SILVA, S.I.A.

et al. (2024)

Consumo de psicoestimulantes por acadêmicos de medicina em uma faculdade do centro sul baiano

Prevalência 28%; 73% uso para aumentar tempo de estudo; 62% para concentração; 12% interromperam por sintomas; uso mais frequente no internato; mulheres relataram maior interrupção devido a efeitos adversos

Prescrição não detalhada; provável automedicação

Evidencia efeitos adversos leves; mulheres interrompem uso com mais frequência; lacuna sobre prescrição formal; indica necessidade de orientação sobre riscos e alternativas não farmacológicas para aumento de desempenho.

Fonte: Acervo pessoal dos autores (2025).

O uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina revela-se uma prática relativamente frequente e multifacetada, motivada principalmente por demandas acadêmicas e pressão para desempenho elevado. Os dados indicam que a prevalência de uso varia entre 18% e 31% nos diferentes estudos analisados, com tendências de aumento nos anos mais avançados do curso e maior intensidade durante períodos de provas e internato (Alvarenga et al., 2023; Felizardo et al., 2025; Fernandes et al., 2024; Oliveira et al., 2023; Silva, S.I.A. et al., 2024). Essa frequência demonstra a disseminação de um comportamento que combina a busca por vantagem cognitiva com a automedicação, revelando lacunas significativas na orientação sobre o uso seguro de tais substâncias.

As motivações para o consumo são predominantemente acadêmicas, com estudantes relatando aumento da concentração, extensão do tempo de estudo e melhora no desempenho em provas como fatores centrais (Luiz et al., 2025; Nasário et al., 2022; Silva, S.I.A. et al., 2024). Estudos indicam que aproximadamente 70% dos usuários buscam os psicoestimulantes com objetivos cognitivos ou de desempenho, refletindo a cultura de alta competitividade presente nos cursos de medicina (Lopes et al., 2024; Felizardo et al., 2025). Embora alguns estudantes percebam benefícios subjetivos no foco e na produtividade, essas melhorias não se traduzem necessariamente em aumento objetivo do desempenho acadêmico (Nasário et al., 2022).

Quanto às fontes de obtenção, observa-se que a automedicação é predominante, variando de 68% a 100% nos estudos analisados (Alvarenga et al., 2023; Fernandes et al., 2024; Nasário et al., 2022; Silva, S.S., 2025). A prescrição médica formal é rara ou não detalhada, indicando uma tendência de uso não supervisionado, com riscos associados a doses inadequadas e falta de acompanhamento clínico (Ramos et al., 2025; Lopes et al., 2024). Essa prática evidencia uma lacuna importante no conhecimento sobre efeitos adversos e na cultura de busca por performance rápida sem monitoramento médico.

Os efeitos adversos relatados são consistentes entre os estudos e incluem insônia, ansiedade, taquicardia, palpitações e sintomas de dependência, sendo mulheres mais frequentemente afetadas por efeitos psicológicos e físicos (Fernandes et al., 2024; Ramos et al., 2025; Silva, S.S., 2025). A literatura também destaca que, embora a percepção de aumento de concentração seja comum, o uso contínuo está associado à redução da qualidade de vida e risco de sobrecarga cognitiva, especialmente nos anos mais avançados do curso (Lopes et al., 2024; Alvarenga et al., 2023).

As análises como o de Luiz et al. (2025) demonstram que o início precoce do uso no 1º e 2º anos sugere uma normalização da prática desde fases iniciais da formação, potencializando riscos acumulativos ao longo do curso. Analisando padrões por ano do curso, observa-se maior frequência de uso nos anos intermediários e no internato, momentos em que a pressão acadêmica é intensificada, provas e estágios demandam alto desempenho, e o tempo de estudo aumenta significativamente (Alvarenga et al., 2023; Felizardo et al., 2025; Oliveira et al., 2023).

Nesse aspecto, homens e mulheres apresentam diferenças sutis no padrão de uso: homens tendem a relatar uso ligeiramente maior em número de usuários, enquanto mulheres apresentam maior sensibilidade a efeitos adversos e maior probabilidade de interrupção devido a sintomas (Nasário et al., 2022; Silva, S.I.A. et al., 2024; Fernandes et al., 2024).

As evidências indicam que o uso de psicoestimulantes em estudantes de medicina não é apenas uma questão de desempenho acadêmico, mas também um reflexo da cultura de pressão e competitividade que permeia a formação médica. Além disso, destaca-se a necessidade urgente de políticas educativas e preventivas que incluam orientação sobre riscos, alternativas não farmacológicas para otimização do desempenho acadêmico e acompanhamento médico adequado (Silva, S.S., 2025; Ramos et al., 2025; Luiz et al., 2025).

Em síntese, o panorama apresentado pelos estudos revisados evidencia que, embora o uso de psicoestimulantes possa proporcionar ganhos subjetivos de concentração e foco, os riscos à saúde física e mental, aliados à predominância da automedicação e à ausência de acompanhamento médico, representam um problema relevante para a formação acadêmica segura e saudável. A abordagem integrada envolvendo educação, monitoramento e suporte psicológico é essencial para mitigar os impactos negativos desta prática (Alvarenga et al., 2023; Lopes et al., 2024; Silva, S.I.A. et al., 2024).

Adicionalmente, estudos futuros poderiam avaliar intervenções educativas e alternativas não farmacológicas em novos artigos publicados, como técnicas de gestão do tempo, mindfulness e hábitos de estudo, visando reduzir a dependência de psicoestimulantes e o uso não supervisionado. Por fim, pesquisas de campo multicêntricas ou comparativas entre diferentes universidades e regiões poderiam contribuir para compreender fatores culturais e acadêmicos que influenciam essa prática, permitindo o desenvolvimento de recomendações mais amplas e contextualizadas.

CONCLUSÃO

O uso de psicoestimulantes entre estudantes de medicina apresenta-se como uma prática relativamente frequente, motivada principalmente por demandas acadêmicas, busca de aumento da concentração e pressão por desempenho em provas e estágios. A automedicação predomina, enquanto a prescrição médica formal é rara ou pouco detalhada, aumentando o risco de efeitos adversos físicos e psicológicos, como insônia, ansiedade, taquicardia e sinais de dependência. Observa-se maior sensibilidade feminina a efeitos adversos e maior probabilidade de interrupção do uso, enquanto homens tendem a relatar maior frequência de consumo.

A prática é mais intensa nos anos intermediários e no internato, refletindo a sobrecarga acadêmica desses períodos, e embora muitos estudantes percebam benefícios subjetivos no foco e na produtividade, os ganhos objetivos no desempenho acadêmico nem sempre são evidentes. Esse cenário evidencia a necessidade de orientação adequada, acompanhamento médico e estratégias preventivas que reduzam a dependência de substâncias e promovam alternativas não farmacológicas de melhoria do desempenho. O consumo de psicoestimulantes configura um fenômeno complexo, envolvendo fatores individuais, acadêmicos e culturais, com riscos significativos à saúde e à qualidade de vida.

Assim, a conscientização, a educação e políticas institucionais voltadas para o uso seguro dessas substâncias são essenciais, assim como pesquisas futuras que aprofundem a análise de efeitos, diferenças de gênero, padrões de uso e estratégias alternativas de desempenho acadêmico.

REFERÊNCIAS

ALVARENGA, J.V et al. O uso de psicoestimulantes entre estudantes de uma faculdade de medicina: prevalência e fatores associados. REVISTA FOCO, v. 16, n. 9, p. e3118-e3118, 2023.

CHAGAS, R.F et al. A prevalência do uso de lisdexanfetamina entre universitários do curso de medicina de uma Universidade no Sul do Tocantins. Observatório de la economía latinoamericana, v. 23, n. 1, p. e8844-e8844, 2025.

FELIZARDO, P.R et al. Prevalência do uso de psicoestimulantes entre acadêmicos de medicina de uma universidade do extremo sul catarinense. Inova Saúde, v. 15, n. 5, p. 149-162, 2025.

FERNANDES, N.P et al. Automedicação de psicoestimulantes por estudantes de medicina e o impacto a longo prazo. Revista Contemporânea, v. 4, n. 12, p. e6964-e6964, 2024.

LOPES, J.A et al. Metilfenidato e Venvanse: o impacto na qualidade de vida dos estudantes de Medicina. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 8, p. 1891-1906, 2024.

LUIZ, C.A et al. Uso de substâncias psicoestimulantes como potencializadores cognitivos por estudantes da área da saúde. Observatorio de la Economía Latinoamericana, v. 23, n. 4, p. 32, 2025.

MOREIRA, S.C et al. O uso do cloridrato de metilfenidato e seus fatores influenciadores na vida de jovens estudantes do curso de Medicina. Research, Society and Development, v. 11, n. 7, p. e9911729715-e9911729715, 2022.

NASÁRIO, B.R et al. Uso não prescrito de metilfenidato e desempenho acadêmico de estudantes de medicina. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 42, p. e235853, 2022.

OLIVEIRA, F.S et al. Consumo de psicoestimulantes por estudantes de medicina em um centro universitário privado. Rev. Cient. Esc. Estadual Saúde Pública de Goiás Cândido Santiago, 2023.

RAMOS, M.F et al. Percepções de estudantes de medicina sobre os efeitos colaterais do uso de psicoestimulantes sintéticos em uma instituição de ensino do nordeste brasileiro. 2025.

SILVA, S.S Consequências do uso indiscriminado de psicoestimulantes por estudantes de medicina. REVISTA VIXSCIENCE, p. 50.2025

SILVA, S.I.A et al. Consumo de psicoestimulantes por acadêmicos de medicina em uma faculdade do centro sul baiano. REVISTA DELOS, v. 17, n. 62, p. e3021-e3021, 2024.