Uso irracional de tadalafila entre jovens: riscos da automedicação e a atuação do farmacêutico
Irrational use of tadalafil among young people: risks of self-medication and the role of the pharmacist
Geisiane Ferreira Brito¹
Edgar Lima Falcão²
Elineia Teixeira Santos³
Kleiton de Cerqueira Araujo4
Luana Santos Bastos5
Lorena Silva Matos Andrade6
Resumo
O uso irracional de medicamentos configura-se como um relevante problema de saúde pública, especialmente entre jovens, destacando-se a tadalafila como um dos fármacos frequentemente utilizados de forma indiscriminada. Este estudo teve como objetivo analisar o uso irracional da tadalafila entre jovens, com ênfase nos riscos da automedicação e na atuação do farmacêutico. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, na qual foram inicialmente identificados 265 estudos em bases de dados científicas; após a remoção de duplicidades e aplicação dos critérios de elegibilidade, bem como triagem por títulos, resumos e leitura na íntegra, foram selecionados 18 artigos para análise, sendo 12 em português e 6 em inglês, publicados no período de 2020 a 2025. Os resultados evidenciam que, embora indicada para o tratamento da disfunção erétil, a tadalafila tem sido utilizada sem indicação clínica, motivada principalmente pela busca por melhor desempenho sexual e físico, além da influência das mídias sociais, pressão social e padrões de masculinidade. Observa-se ainda o uso concomitante com álcool e outras substâncias psicoativas, o que potencializa riscos à saúde e favorece comportamentos sexuais de risco. O uso inadequado está associado a efeitos adversos, interações medicamentosas e possíveis complicações cardiovasculares, além de impactos psicossociais. Diante desse cenário, destaca-se a importância da atuação do farmacêutico na promoção do uso racional de medicamentos, por meio de orientação e ações educativas, sendo fundamental a implementação de estratégias de conscientização e atuação multiprofissional para redução da automedicação e promoção da segurança do paciente.
Palavras–Chaves: Tadalafila; Automedicação; Atenção farmacêutica.
Abstract
The irrational use of medications represents a significant public health issue, particularly among young individuals, with tadalafil standing out as one of the drugs frequently used indiscriminately. This study aimed to analyze the irrational use of tadalafil among young people, with an emphasis on the risks of self-medication and the role of the pharmacist. This is a narrative literature review, in which 265 studies were initially identified in scientific databases; after removing duplicates and applying eligibility criteria, as well as screening titles, abstracts, and full texts, 18 articles were selected for analysis, including 12 in Portuguese and 6 in English, published between 2020 and 2025. The findings indicate that, although indicated for the treatment of erectile dysfunction, tadalafil has been used without clinical necessity, mainly driven by the pursuit of improved sexual and physical performance, as well as the influence of social media, social pressure, and prevailing standards of masculinity. The concurrent use of tadalafil with alcohol and other psychoactive substances was also observed, increasing health risks and contributing to risky sexual behaviors. Inappropriate use is associated with adverse effects, drug interactions, and potential cardiovascular complications, in addition to psychosocial impacts. In this context, the pharmacist plays a crucial role in promoting the rational use of medications through proper guidance and educational actions. Therefore, the implementation of awareness strategies and multiprofessional collaboration is essential to reduce self-medication and enhance patient safety.
Keywords: Tadalafil; Self-medication; Pharmaceutical care.
Introdução
A disfunção erétil (DE) corresponde à dificuldade contínua ou recorrente, total ou parcial, de alcançar ou manter uma ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório, mesmo na presença de estímulo erótico adequado. Esse termo passou a ser utilizado em substituição à antiga expressão “impotência”, por ser mais técnico e menos estigmatizante (Safa; Waked; Waked SR, 2025).
A DE apresenta etiologia multifatorial, podendo estar associada a causas orgânicas, psicológicas, fatores relacionados ao estilo de vida, bem como ao uso de determinadas substâncias ou medicamentos. Além disso, configura-se como uma das condições crônicas mais comuns, exercendo impacto negativo na qualidade de vida dos homens e de suas parceiras. Sua incidência tem aumentado progressivamente em diferentes faixas etárias, não se restringindo apenas aos indivíduos idosos (Safa; Waked; Waked SR, 2025; Dos Santos et al., 2025).
No contexto das disfunções sexuais masculinas, essa condição integra um conjunto mais amplo de alterações que podem ocorrer ao longo das diferentes fases da resposta sexual. Entre essas, destacam-se o desejo sexual hipoativo, na fase do desejo; a dificuldade de ereção, na fase da excitação; e a ejaculação precoce, na fase do orgasmo, podendo tais alterações apresentar origem psicogênica, orgânica ou mista (Ciaccio; Giacomo, 2022).
Ciaccio e Giacomo (2022) e Conora (2022) relatam que em indivíduos jovens, há maior predominância de fatores psicológicos associados a essa disfunção, cuja presença pode impactar negativamente a saúde mental, especialmente durante a adolescência, período caracterizado pela construção da identidade sexual, contexto no qual aspectos socioculturais também exercem influência significativa.
Entre as abordagens terapêuticas disponíveis para essa DE, destacam-se os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (iPDE-5), como a tadalafila. Esse fármaco atua promovendo o aumento do fluxo sanguíneo peniano, favorecendo a ereção. No entanto, seu uso apresenta contraindicações importantes, especialmente em indivíduos com doenças cardiovasculares, alterações da pressão arterial ou comprometimentos sistêmicos relevantes (Mostafa, Alghobary, 2022; Dias et al., 2024).
Embora esses medicamentos tenham sido desenvolvidos para o tratamento dessa condição, observa-se um crescimento preocupante do uso irracional dessas substâncias. Fatores como curiosidade, busca por melhor desempenho sexual, estresse e envolvimento com novos parceiros estão entre os principais motivadores desse uso inadequado (Andrade et al., 2024).
Os iPDE-5 não são recomendados para indivíduos que não apresentam a disfunção. Contudo, seu uso recreativo tem se tornado cada vez mais frequente e, esse consumo, geralmente realizado sem prescrição ou orientação adequada, ocorre muitas vezes de forma indiscriminada e associado ao uso concomitante de álcool e outras substâncias psicoativas, sendo esses fármacos percebidos, equivocadamente, como facilitadores do bem-estar e da satisfação sexual (Da Silva Ramos, 2025; De Castro Rodrigues et al., 2025; Do Couto, Favretto, Gregório, 2023).
Diante desse contexto, destaca-se o papel fundamental do profissional farmacêutico na promoção do uso racional de medicamentos, por meio da orientação adequada aos pacientes. A atuação farmacêutica é essencial para alertar sobre possíveis efeitos adversos, prevenir a automedicação e reduzir o uso recreativo desses fármacos (Do Couto; Favretto; Gregório, 2023).
Apesar da relevância e atualidade do tema, observa-se uma lacuna significativa na produção científica acerca do uso recreativo da tadalafila. Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo realizar uma revisão bibliográfica da literatura sobre o uso irracional da tadalafila entre jovens, com ênfase nos riscos associados à automedicação e na atuação do farmacêutico frente a essa problemática.
Metodologia
A metodologia adotada para a elaboração deste estudo consistiu em uma revisão bibliográfica, sendo selecionada, dentre suas categorias, a revisão narrativa. Esse tipo de revisão tem como principal objetivo apresentar uma síntese descritiva da literatura, permitindo a integração de conhecimentos provenientes de diferentes estudos. Dessa forma, possibilita ao leitor uma compreensão ampla do tema, sem a obrigatoriedade de explicitar detalhadamente todos os critérios de seleção e análise das obras incluídas, podendo abranger diferentes abordagens e resultados de pesquisas (De Sousa et al., 2018; Dos Santos; Kumada, 2021).
A revisão bibliográfica baseia-se no levantamento e na análise de produções científicas previamente publicadas, das quais são extraídas informações relevantes acerca do tema investigado, contribuindo para o embasamento teórico e o desenvolvimento da pesquisa (De Souza; De Oliveira; Alvez, 2021). Nesse contexto, o presente estudo aborda o uso irracional da tadalafila entre jovens, com ênfase nos riscos associados à automedicação e na importância da atuação do farmacêutico.
Para a construção deste trabalho, foram estabelecidos critérios de elegibilidade. Como critérios de inclusão, consideraram-se: artigos publicados em periódicos científicos, disponíveis na íntegra, que abordassem o uso de tadalafila, os inibidores da fosfodiesterase tipo 5, automedicação, uso irracional de medicamentos e/ou aspectos relacionados à saúde de jovens; publicações no período de 2020 a 2025, devido à necessidade de contemplar evidências mais recentes; e estudos nos idiomas português e inglês. Durante o processo de seleção dos estudos, foi realizada inicialmente a triagem dos títulos, seguida da leitura dos resumos para verificação da relevância em relação ao tema proposto. Posteriormente, os artigos considerados pertinentes foram analisados na íntegra, possibilitando a extração e organização das informações mais relevantes para a construção do referencial teórico.
Como critérios de exclusão, foram desconsiderados: artigos duplicados nas bases de dados; estudos que não apresentavam relação direta com o tema proposto; publicações incompletas ou indisponíveis na íntegra; trabalhos fora do recorte temporal estabelecido; além de revisões que não contribuíam de forma relevante para os objetivos desta pesquisa.
A busca foi realizada nas seguintes bases de dados eletrônicas: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), bem como em fontes institucionais, como o site do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Durante o processo de pesquisa, foram utilizados os seguintes descritores: ("tadalafila" OR "PDE5 inhibitors") AND ("automedicação" OR "self-medication") AND ("uso irracional de medicamentos" OR "irrational use of medicines") AND ("jovens" OR "young adults") AND ("atenção farmacêutica" OR "pharmaceutical care").
Resultados e Discussão
O presente estudo foi desenvolvido com base na análise de 18 artigos científicos que abordaram o tema. Inicialmente, foram identificadas 265 publicações nas bases de dados consultadas. Após a remoção de estudos duplicados e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, realizou-se a triagem por meio da leitura dos títulos e resumos, seguida da análise dos textos na íntegra, resultando na seleção final de 18 estudos. Desses, 12 foram publicados em língua portuguesa e 6 em língua inglesa. Os artigos selecionados permitiram discutir aspectos relacionados aos fatores que influenciam o uso indiscriminado da tadalafila, os riscos associados à automedicação, bem como o papel fundamental do farmacêutico na promoção do uso racional de medicamentos.
Tadalafila: aspectos farmacológicos, eficácia e uso no tratamento da disfunção erétil
Os inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5) constituem a principal opção terapêutica para o tratamento da disfunção erétil. Seu mecanismo de ação está diretamente relacionado ao processo fisiológico da ereção, que se inicia a partir de estímulos nervosos nos corpos cavernosos, desencadeando a liberação de óxido nítrico (NO) pelo endotélio vascular. Esse mediador promove o relaxamento da musculatura lisa ao ativar a enzima guanilato ciclase, responsável por converter o trifosfato de guanosina (GTP) em monofosfato de guanosina cíclico (GMPc) (Gadelha; Carvalho Júnior, 2024).
O aumento dos níveis de GMPc favorece a vasodilatação e o maior influxo sanguíneo nos corpos cavernosos, condição essencial para a ereção. Entretanto, a enzima fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5) atua degradando o GMPc em GMP, reduzindo esse efeito. Dessa forma, os fármacos dessa classe atuam bloqueando a ação da PDE-5, prolongando a disponibilidade de GMPc e, consequentemente, mantendo a vasodilatação e a ereção por mais tempo (Gadelha; Carvalho Júnior, 2024).
Nos Estados Unidos, a tadalafila foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA) em dezembro de 2003, sendo considerada a terceira opção oral para o tratamento da disfunção erétil, após o sildenafila e o vardenafila. Devido à sua longa duração de ação, é popularmente conhecida como “pílula do fim de semana” (Rezende; Da Silva Coimbra, 2021). Sua ação se inicia em cerca de 30 minutos, atinge pico em aproximadamente 2 horas e mantém sua eficácia por até 36 horas, sem interferência da alimentação (Lima et al., 2021).
A tadalafila é um medicamento que apresenta bons resultados no tratamento da disfunção erétil. De acordo com o estudo de Lima et al., (2021) 83% dos homens que utilizaram o fármaco relataram melhora na ereção, em comparação com 20% do grupo placebo, sendo os melhores efeitos observados entre 4 e 36 horas após o uso.
A tadalafila é comercializada em diferentes apresentações e indicações, sendo as doses de 2,5 mg e 5 mg utilizadas no tratamento contínuo da disfunção erétil e da hiperplasia prostática benigna (HPB) (Rezende; Da Silva Coimbra, 2021). As doses mais utilizadas são de 10 mg e 20 mg, sendo a dose inicial recomendada de 10 mg, ajustada conforme a resposta do paciente. Após 12 semanas de uso, a melhora foi observada em 67% dos pacientes que utilizaram 10 mg e em 81% dos que utilizaram 20 mg, em comparação com 35% no grupo placebo (Lima et al., 2021).
Características dos usuários e motivações para o consumo recreativo
Embora a disfunção erétil (DE) não acometa predominantemente a população jovem, estudos indicam que indivíduos entre 17 e 30 anos têm utilizado medicamentos destinados a esse fim, muitas vezes sem necessidade clínica. Esse uso ocorre, em geral, de forma indiscriminada, com o objetivo de prolongar o prazer e potencializar o desempenho sexual (Costa, E; Costa, L; Paiva, 2021; Ciaccio e Giacomo, 2022; Conora, 2022).
Observa-se que, com frequência, jovens recorrem a esses fármacos não para tratar uma condição diagnosticada, mas para aumentar o número de ereções durante a relação sexual. A adolescência e o início da vida adulta são fases marcadas por intensas transformações biológicas, psicológicas e sociais, sendo um período heterogêneo no qual ocorrem mudanças significativas nas relações familiares, na construção de papéis sociais e na definição de projetos de vida (Costa, E; Costa, L; Paiva, 2021; Ciaccio e Giacomo, 2022).
Ao abordar a sexualidade nessa faixa etária, é importante considerar que se trata de um período marcado por descobertas, questionamentos e construção da identidade, tornando os indivíduos mais suscetíveis a influências da família, escola, amigos e, principalmente, da internet (Costa, E; Costa, L; Paiva, 2021; Ciaccio e Giacomo, 2022).
De acordo com o estudo de Costa, E; Costa, L e Paiva (2021) muitos jovens utilizam esses medicamentos como forma de impressionar parceiros ou até mesmo seus pares sociais. Esse comportamento está frequentemente associado a sentimento de insegurança e à necessidade de validação, levando ao uso de fármacos para garantir desempenho sexual satisfatório.
Mesmo diante das constantes transformações nas relações de gênero, ainda predomina, sobretudo em contextos marcados pelo machismo e pelo patriarcado, como em grande parte das sociedades, a construção do homem como alguém forte, autônomo e imune a fragilidades. Nesse cenário, a vivência da sexualidade assume um papel central como símbolo de afirmação da masculinidade (Almeida et al., 2025)
Desde cedo, os meninos são inseridos em um processo de socialização que impõe, de forma recorrente, a necessidade de corresponder a padrões de uma masculinidade hegemônica e de demonstrar virilidade. Essa pressão, muitas vezes, os expõe a comportamentos e situações de risco, que podem impactar negativamente sua qualidade de vida e contribuir para a redução da sua expectativa de vida (Almeida et al., 2025).
A influência das mídias sociais tem se consolidado como um dos principais fatores associados ao uso indiscriminado de medicamentos, especialmente entre jovens. Plataformas digitais e outros meios de comunicação difundem conteúdos atrativos que, muitas vezes, banalizam o consumo de fármacos e incentivam práticas sem orientação profissional. Nesse contexto, observa-se que o aumento do uso de tadalafila não está relacionado apenas à busca por melhora do desempenho sexual, mas também à sua adoção como suposto recurso para aprimoramento físico, impulsionada pela circulação de conteúdos nas redes sociais e pelo surgimento de novas formas de apresentação do produto, como versões em formato de gomas, posteriormente proibidas por órgãos reguladores (Lee et al., 2022; Chaves et al., 2025; Kucharczuk; Oliver; Dowdell, 2022; Conselho Federal de Farmácia, 2025).
Nesse cenário, a tadalafila passou a ser amplamente divulgada como um “pré-treino”, associada à promessa de aumento da circulação sanguínea e melhora do desempenho durante atividades físicas. Tal percepção favoreceu sua popularização entre jovens e praticantes de academia, mesmo na ausência de evidências científicas que sustentem esses benefícios (Conselho Federal de Farmácia, 2025). Além disso, destacam-se estratégias de marketing apelativas, como o uso de expressões populares a exemplo de “Tadala do amor” e paródias musicais, empregadas por estabelecimentos farmacêuticos para estimular o consumo de tadalafila, um medicamento de prescrição obrigatória (Lee et al., 2022; Chaves et al., 2025; Kucharczuk; Oliver; Dowdell, 2022).
Evidências indicam que cerca de 67,6% dos indivíduos que se automedicam relatam influência direta da publicidade na escolha de medicamentos, sendo a internet e a televisão os principais meios de disseminação, e que a exposição a esses conteúdos aumenta em aproximadamente 1,6 vezes o risco de automedicação. Além disso, amigos, familiares e mídias tradicionais exercem maior influência na escolha de medicamentos isentos de prescrição, enquanto a internet se destaca como fonte mais relevante para medicamentos prescritos (Lee et al., 2022; Chaves et al., 2025).
Nesse contexto, tanto as interações sociais quanto os meios de comunicação atuam como importantes agentes formadores, influenciando a maneira como os indivíduos percebem, avaliam e adotam práticas de consumo. Assim, a atuação conjunta desses agentes contribui para a intensificação da medicalização do cotidiano, favorecendo o consumo recreativo e a adesão a práticas desnecessárias, com potenciais riscos à saúde, como a ocorrência de efeitos adversos e o desenvolvimento de resistência medicamentosa (Lee et al., 2022; Chaves et al., 2025).
Riscos decorrentes da utilização incorreta de IPDE5
Em 2005, o FDA alertou que a tadalafila, assim como outros inibidores da PDE5, pode estar associada à perda visual em alguns pacientes. Além disso, seu uso concomitante com nitratos, como a nitroglicerina, é contraindicado por até 48 horas devido ao risco de hipotensão grave (Rezende; Da Silva Coimbra, 2021; Lui et al., 2023).
Também é contraindicado em pacientes com hipersensibilidade ao fármaco ou com condições cardiovasculares em que a atividade sexual não é recomendada, como infarto recente, angina instável, insuficiência cardíaca grave, arritmias severas, hipotensão persistente ou AVC recente (Rezende; Da Silva Coimbra, 2021; Ghantous et al., 2025).
Entre os efeitos adversos mais comuns estão cefaleia, dispepsia, dores musculares e lombares, rubor facial e congestão nasal. Esses sintomas geralmente são transitórios. As dores musculares podem surgir entre 12 e 24 horas após o uso e desaparecer em até dois dias (Rezende; Da Silva Coimbra, 2021; Lui et al., 2023).
Embora pouco frequentes, algumas reações adversas graves têm sido associadas ao uso de inibidores orais da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5), ainda com limitada compreensão sobre sua real prevalência. Entre essas, destacam-se o priapismo e o melanoma maligno, cujas possíveis relações com essa classe de fármacos têm sido investigadas recentemente. Apesar da dificuldade em estabelecer a magnitude desses eventos, sua ocorrência reforça a necessidade de reconhecimento precoce e manejo adequado (Lui et al., 2023).
A utilização concomitante desses fármacos com outras substâncias pode aumentar significativamente os riscos à saúde, favorecendo a ocorrência de efeitos como tonturas, desmaios e episódios de ereção prolongada, que podem causar danos ao tecido peniano. Além disso, essa associação pode intensificar reações adversas, como dores de cabeça persistentes e desconforto durante a ereção, evidenciando os perigos do uso recreativo e inadequado desses medicamentos (Couto, 2024; Da Silva Ramos, 2025)).
O consumo de inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (iPDE-5) muitas vezes ocorre em associação com substâncias psicoativas, sendo o álcool o mais frequentemente utilizado, além de outras drogas como maconha e ecstasy. Essa associação pode contribuir para a adoção de comportamentos sexuais de risco, favorecendo o aumento da transmissão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) (Couto, 2024).
O papel do farmacêutico e os desafios na atuação multiprofissional em saúde
Diversos fatores têm sido associados à prática do uso de medicamento sem prescrição. Entre os principais, destacam-se a facilidade de acesso aos medicamentos, incluindo sua venda indiscriminada; as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, especialmente no sistema público; os custos relacionados a consultas médicas e planos de saúde; e a busca por alívio imediato de sintomas. Soma-se a isso a influência da publicidade de medicamentos isentos de prescrição em diferentes meios de comunicação, além da cultura de armazenamento de medicamentos no domicílio e da crença de que esses produtos são capazes de solucionar diversos problemas de saúde de forma rápida e eficaz (Ruiz, 2022).
A atuação do farmacêutico na farmácia comunitária ultrapassa a simples orientação pontual durante a dispensação de medicamentos. Esse profissional está diretamente envolvido em ações de promoção da saúde, desenvolvendo atividades educativas que visam conscientizar a população sobre os riscos associados ao uso indiscriminado de medicamentos. Evidências demonstram que programas educativos conduzidos por farmacêuticos são eficazes na redução da automedicação (Da Mota, Dos Santos, De Souza, 2024).
Além disso, a presença constante do farmacêutico nas farmácias comunitárias favorece a construção de uma relação de confiança com os pacientes, aspecto fundamental para a efetividade das orientações relacionadas ao uso racional de medicamentos. Nesse contexto, a automedicação, apesar de frequentemente ser percebida como uma forma de autocuidado, pode acarretar consequências negativas à saúde, incluindo a ocorrência de reações adversas e o mascaramento de doenças mais graves, o que pode atrasar o diagnóstico e a implementação de tratamentos adequados (Da Mota, Dos Santos, De Souza, 2024).
A ampla disseminação desses medicamentos evidencia a necessidade de uma atuação mais ativa dos profissionais de saúde, especialmente do farmacêutico, na orientação quanto ao uso correto e aos riscos associados ao consumo inadequado. O farmacêutico desempenha papel essencial na educação em saúde, esclarecendo dúvidas, orientando sobre efeitos adversos e promovendo o uso racional dos inibidores da iPDE-5 (Da Silva et al., 2024).
Essa atuação torna-se ainda mais relevante entre usuários recreativos, que frequentemente desconhecem os riscos associados ao uso indiscriminado desses medicamentos (Da Silva et al., 2024). Nesse cenário, o farmacêutico também enfrenta desafios na atuação multiprofissional, como a necessidade de integração com outros profissionais de saúde, identificação de uso inadequado, prevenção da automedicação e combate à circulação de medicamentos falsificados, contribuindo diretamente para a segurança do paciente e a efetividade do tratamento.
Conclusão
O presente estudo evidenciou que o uso irracional da tadalafila entre jovens configura um problema crescente de saúde pública, impulsionado principalmente pela automedicação e pela busca por melhora do desempenho sexual, muitas vezes sem indicação clínica. Observou-se que fatores como insegurança, influência social e facilidade de acesso aos medicamentos contribuem significativamente para o consumo recreativo dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5.
Apesar de sua eficácia comprovada no tratamento da disfunção erétil, o uso inadequado da tadalafila pode acarretar diversos riscos à saúde, incluindo efeitos adversos, interações medicamentosas e complicações cardiovasculares, além de impactos psicossociais, como dependência psicológica e construção de expectativas irreais sobre o desempenho sexual. Nesse contexto, destaca-se a importância da atuação do farmacêutico, especialmente na farmácia comunitária, como agente fundamental na promoção do uso racional de medicamentos. Por meio de ações educativas, orientação adequada e estabelecimento de vínculo com os pacientes, esse profissional contribui para a redução da automedicação e para a conscientização acerca dos riscos do uso indiscriminado desses fármacos.
Adicionalmente, a atuação multiprofissional em saúde mostra-se essencial para o enfrentamento desse cenário, exigindo integração entre diferentes áreas, identificação precoce do uso inadequado e implementação de estratégias de educação em saúde voltadas, especialmente, ao público jovem. Dessa forma, conclui-se que o enfrentamento do uso irracional da tadalafila requer não apenas a conscientização individual, mas também ações educativas contínuas e a valorização do papel do farmacêutico, visando à promoção da saúde, à segurança do paciente e à prevenção de danos associados à automedicação.
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