Uso de indicadores físicos, técnicos e comportamentais no planejamento pedagógico da ginástica artística para crianças de 3 a 5 anos.

Use of physical, technical and behavioral indicators in the pedagogical planning of artistic gymnastics for children aged 3 to 5 years.

Lara Leandro Ferreira[1]

Samanta Garcia de Souza[2]

RESUMO

O presente estudo teve como objetivo analisar o uso de indicadores físicos, técnicos e comportamentais no planejamento pedagógico da ginástica artística para crianças de 3 a 5 anos. Trata-se de pesquisa de natureza aplicada, abordagem quantitativa e qualitativa, delineamento descritivo e documental, realizada a partir da análise de fichas internas de avaliação utilizadas em programa de iniciação esportiva da MS Ginástica Artística, categoria Baby. Foram examinados indicadores relacionados às capacidades físicas, flexibilidade, autonomia, disciplina e habilidades técnicas nos aparelhos solo, salto, trave e paralelas. Os resultados evidenciaram predominância de conceitos satisfatórios nas dimensões avaliadas, especialmente em autonomia, disciplina, rolamentos, deslocamentos básicos e saltos iniciais. As maiores dificuldades concentraram-se em tarefas que exigiam maior força relativa, sustentação corporal e coordenação bilateral mais complexa. Verificou-se que o uso sistemático das avaliações possibilitou identificar necessidades individuais, organizar progressões pedagógicas e direcionar intervenções mais seguras e compatíveis com o desenvolvimento infantil. Conclui-se que indicadores físicos, técnicos e comportamentais constituem ferramentas relevantes para qualificar o planejamento pedagógico da ginástica artística na primeira infância, favorecendo acompanhamento evolutivo, individualização do ensino e experiências motoras positivas.

Palavras-chave: ginástica artística; infância; desenvolvimento motor; avaliação pedagógica; iniciação esportiva.

ABSTRACT

This study aimed to analyze the use of physical, technical and behavioral indicators in the pedagogical planning of artistic gymnastics for children aged 3 to 5 years. This is an applied research study with quantitative and qualitative approach, descriptive and documental design, based on the analysis of internal assessment forms used in a beginner gymnastics program at MS Ginástica Artística, Baby category. Indicators related to physical capacities, flexibility, autonomy, discipline and technical skills on floor, vault, balance beam and uneven bars were examined. The results showed predominance of satisfactory ratings in the evaluated dimensions, especially autonomy, discipline, forward rolls, basic displacements and initial jumps. Greater difficulties were observed in tasks requiring higher relative strength, body support and more complex bilateral coordination. The systematic use of assessments made it possible to identify individual needs, organize pedagogical progressions and guide safer interventions compatible with child development. It was concluded that physical, technical and behavioral indicators are relevant tools to improve pedagogical planning in artistic gymnastics during early childhood, favoring developmental monitoring, individualized teaching and positive motor experiences.

Keywords: artistic gymnastics; childhood; motor development; pedagogical assessment; sport initiation.

1 INTRODUÇÃO

A primeira infância constitui período decisivo para o desenvolvimento humano, sendo marcada por intensas transformações motoras, cognitivas, emocionais e sociais. Entre os 3 e 5 anos de idade, observa-se fase sensível para aquisição e refinamento de habilidades motoras fundamentais, como correr, saltar, equilibrar-se, rolar, apoiar-se e coordenar movimentos em diferentes contextos. Essas competências representam a base para aprendizagens motoras mais complexas e para a participação em práticas corporais ao longo da vida (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013).

O desenvolvimento motor nessa fase não ocorre de forma automática ou linear, mas resulta da interação entre fatores biológicos, ambientais e experiências vivenciadas pela criança. Nesse sentido, o movimento desempenha papel central, uma vez que é por meio das experiências corporais que a criança constrói noções de espaço, tempo, equilíbrio, coordenação e controle corporal (SOUZA et al., 2016). Assim, contextos ricos em estímulos motores tendem a favorecer trajetórias mais consistentes de desenvolvimento.

A literatura contemporânea tem destacado que níveis adequados de atividade física na infância estão associados a melhores indicadores de saúde física, desenvolvimento cognitivo, bem-estar psicológico e desempenho motor. Por outro lado, a redução das oportunidades de movimento, associada ao aumento do comportamento sedentário e do tempo de tela, tem sido apontada como fator de risco para atrasos no desenvolvimento motor e menor adesão à prática de atividade física ao longo da vida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020; ROBINSON et al., 2022).

Nesse contexto, programas de iniciação esportiva assumem papel relevante, desde que estruturados de forma adequada às características da infância. Modelos baseados em especialização precoce, repetição mecanizada e cobrança técnica antecipada são considerados inadequados para crianças pequenas. Em contrapartida, recomenda-se abordagem pedagógica centrada na criança, priorizando ludicidade, diversidade motora, experiências significativas e progressões compatíveis com o desenvolvimento (CÔTÉ; BAKER; ABERNETHY, 2007).

Entre as diferentes modalidades esportivas, a ginástica artística destaca-se como ambiente privilegiado para o desenvolvimento motor infantil. A modalidade envolve ampla variedade de ações motoras, como saltos, apoios, suspensões, rotações, equilíbrios e deslocamentos, proporcionando estímulos importantes para o desenvolvimento da coordenação motora, força relativa, flexibilidade, consciência corporal e orientação espacial (NUNOMURA; TSUKAMOTO, 2009). Além disso, quando pedagogicamente adaptada, a ginástica pode favorecer experiências positivas com o movimento, contribuindo para motivação e permanência na prática.

Entretanto, a iniciação à ginástica artística na primeira infância apresenta desafios específicos. Crianças da mesma faixa etária podem apresentar diferentes níveis de desenvolvimento motor, autonomia, atenção e controle postural, o que exige intervenções pedagógicas individualizadas e cuidadosamente planejadas. Nesse cenário, a ausência de critérios objetivos de acompanhamento pode dificultar a organização das aulas e comprometer a progressão segura das habilidades.

Diante dessa complexidade, a avaliação assume papel central no processo pedagógico. Avaliar, na infância, não significa classificar ou selecionar, mas compreender o estágio de desenvolvimento da criança, identificar necessidades individuais e orientar intervenções adequadas. Nesse sentido, a utilização de indicadores físicos, técnicos e comportamentais pode contribuir significativamente para qualificar o planejamento pedagógico, permitindo organizar conteúdos, ajustar progressões e monitorar a evolução das crianças ao longo do tempo (PAYNE; ISAACS, 2017).

Apesar da relevância prática dessa abordagem, ainda são escassos estudos brasileiros que investiguem o uso sistemático de indicadores físicos e técnicos no planejamento pedagógico da ginástica artística para crianças de 3 a 5 anos, especialmente em contextos reais de prática. Grande parte da literatura concentra-se em categorias competitivas ou em faixas etárias mais avançadas, evidenciando lacuna científica na compreensão da iniciação esportiva na primeira infância.

Dessa forma, o presente estudo contribui para a área ao investigar, em contexto real de prática, a utilização de indicadores como ferramenta pedagógica na iniciação à ginástica artística, ampliando a compreensão sobre intervenções estruturadas na primeira infância.

2 METODOLOGIA

2.1 Tipo de estudo

Trata-se de uma pesquisa de abordagem quantitativa e qualitativa, de natureza aplicada, com delineamento descritivo, documental e longitudinal. O estudo analisa o uso de indicadores físicos, técnicos e comportamentais no planejamento pedagógico da ginástica artística infantil, a partir de dados provenientes de instrumentos avaliativos institucionais.

A pesquisa também apresenta caráter interventivo indireto, uma vez que os dados analisados são utilizados como base para organização pedagógica das aulas, progressão por níveis e definição de conteúdos técnicos ao longo do período de acompanhamento.

2.2 Local do estudo

O estudo foi realizado na MS Ginástica Artística, instituição especializada no ensino da modalidade, localizada no município de Goiânia-GO.

A estrutura física da instituição conta com aparelhos oficiais e adaptados para a iniciação esportiva infantil, incluindo solo, trave, mini-trampolim, paralelas assimétricas, colchões pedagógicos e materiais auxiliares, proporcionando ambiente adequado para o desenvolvimento motor de crianças.

2.3 Participantes

A amostra foi constituída por conveniência, incluindo crianças matriculadas na categoria Baby da MS Ginástica Artística. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram analisadas 32 participantes, totalizando 64 fichas de avaliação, considerando registros referentes às dimensões física, flexibilidade, cognitivo-comportamental e técnica.

As crianças estavam organizadas em níveis pedagógicos internos definidos pela instituição:

Esses níveis representam diferentes estágios de desenvolvimento motor e domínio técnico inicial.

2.4 Critérios de inclusão e exclusão

Critérios de inclusão:

Critérios de exclusão:

2.5 Instrumentos de coleta de dados

Foram utilizados instrumentos institucionais padronizados, compostos por fichas de avaliação física, flexibilidade, aspectos cognitivo-comportamentais e habilidades técnicas específicas da ginástica artística.

2.5.1 Avaliação física

Incluiu indicadores relacionados à força e sustentação corporal:

2.5.2 Avaliação de flexibilidade

Foram considerados:

2.5.3 Avaliação cognitivo-comportamental

Contemplou indicadores pedagógicos relevantes para a faixa etária:

2.5.4 Avaliação técnica por aparelhos

Solo:

Trave:

Salto:

Paralelas:

2.6 Sistema de classificação

Os indicadores foram classificados de forma qualitativa, utilizando escala ordinal representada por conceitos:

Para fins de análise estatística, os conceitos foram convertidos em escores numéricos:

2.7 Procedimentos metodológicos

O estudo foi desenvolvido em três etapas:

Etapa 1 – Diagnóstico inicial

Aplicação das fichas de avaliação no início do período de acompanhamento, contemplando dimensões física, técnica e comportamental.

Etapa 2 – Intervenção pedagógica

Desenvolvimento das aulas de ginástica artística com base em planejamento estruturado, incluindo:

O planejamento foi organizado de forma progressiva, considerando resultados das avaliações e características do grupo.

Etapa 3 – Reavaliação

Aplicação de nova avaliação ao final do período (aproximadamente 4 a 6 meses), permitindo análise evolutiva das participantes.

2.8 Variáveis analisadas

Variáveis físicas:

Variáveis técnicas:

Variáveis comportamentais:

2.9 Tratamento e análise dos dados

Os dados foram organizados em planilha eletrônica e analisados por meio de estatística descritiva, incluindo:

Para análise da evolução entre momentos avaliativos, foram considerados os escores médios e a variação percentual entre as avaliações.

Quando aplicável, testes inferenciais como teste t pareado ou teste de Wilcoxon foram utilizados, adotando-se nível de significância de p ≤ 0,05.

2.10 Aspectos éticos

O estudo respeitou os princípios éticos estabelecidos para pesquisas com seres humanos, conforme a Resolução nº 674/2022 do Conselho Nacional de Saúde.

Os responsáveis legais pelas crianças foram informados sobre os objetivos da pesquisa e autorizaram a utilização dos dados por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A identidade das participantes foi preservada, garantindo anonimato e confidencialidade das informações.

3 RESULTADOS

Foram analisadas fichas avaliativas de crianças matriculadas na categoria Baby da MS Ginástica Artística, com idades entre 3 e 5 anos, contemplando indicadores físicos, flexibilidade, aspectos cognitivo-comportamentais e habilidades técnicas específicas da modalidade. As avaliações foram classificadas por meio de conceitos qualitativos (A, B, C e D), posteriormente convertidos em escores numéricos para análise.

De forma geral, observou-se predominância de conceitos A e B em todas as dimensões avaliadas, indicando desempenho satisfatório das participantes nas habilidades propostas para a faixa etária.

A Figura 1 apresenta o perfil geral de desempenho das crianças nas diferentes dimensões avaliadas, evidenciando maior concentração de conceitos A e B nas dimensões cognitivo-comportamental e técnica de solo, indicando melhor domínio dessas habilidades. Em contrapartida, observa-se maior dispersão dos resultados nas habilidades de paralela, com aumento da frequência de conceitos C e D, sugerindo maior nível de complexidade e necessidade de progressões pedagógicas específicas.

Tabela 1 – Distribuição geral dos conceitos por dimensão avaliativa

Dimensão

A (%)

B (%)

C (%)

D (%)

Física

48,2

32,5

14,3

5,0

Flexibilidade

45,7

34,1

15,2

5,0

Comportamental

62,8

25,6

8,9

2,7

Técnica – Solo

55,3

28,7

12,4

3,6

Técnica – Trave

39,6

35,8

18,9

5,7

Técnica – Paralela

34,2

33,6

22,8

9,4

Técnica – Salto

52,1

30,4

13,5

4,0

Fonte: Elaborado pelas autoras.

Observa-se que os melhores desempenhos foram registrados na dimensão comportamental (A = 62,8%), seguida pelas habilidades técnicas de solo (A = 55,3%) e salto (A = 52,1%). Em contrapartida, as maiores frequências de conceitos C e D foram identificadas nas habilidades de paralela, indicando maior dificuldade nessa dimensão.

3.1 Indicadores físicos e flexibilidade

Os indicadores físicos apresentaram predominância de conceitos A e B (80,7%), evidenciando que a maioria das crianças apresenta base motora adequada para a faixa etária. As maiores dificuldades foram observadas em tarefas que exigem sustentação corporal, especialmente na barra pronada.

Na flexibilidade, os resultados também foram satisfatórios (79,8% entre A e B), com melhor desempenho em exercícios de ponte e afastamento, enquanto o carpado apresentou maior variabilidade entre as participantes.

3.2 Indicadores cognitivo-comportamentais

A dimensão comportamental apresentou os melhores resultados gerais, com 88,4% das crianças classificadas entre A e B. Destacaram-se indicadores como autonomia, disciplina e respeito aos combinados.

Tabela 2 – Principais indicadores com melhor desempenho

Indicador

Predominância

Autonomia

A

Disciplina

A

Rolamento à frente

A

Aranha na parede

A

Salto grupado

A

Ponte

A

Fonte: Elaborado pelas autoras.

3.3 Indicadores técnicos

Solo

As habilidades de solo apresentaram os melhores resultados entre os aparelhos, com destaque para rolamento à frente, aranha na parede e salto grupado.

Trave

Na trave, as habilidades de deslocamento e equilíbrio apresentaram desempenho satisfatório, enquanto cavalgada e saída com salto demonstraram maior necessidade de consolidação.

Paralelas

As paralelas apresentaram maior concentração de conceitos C e D, especialmente em tarefas que exigem sustentação e coordenação dinâmica, como a oitavinha com auxílio.

Salto

O salto apresentou desempenho satisfatório, com predominância de conceitos A e B, indicando boa capacidade de impulsão e aterrissagem inicial.

Tabela 3 – Indicadores com maior necessidade de intervenção

Indicador

Interpretação

Sustentação na barra

Déficit de força relativa

Carpado

Limitação de flexibilidade

Estrela

Coordenação bilateral em desenvolvimento

Cavalgada na trave

Equilíbrio dinâmico em consolidação

Oitavinha

Alta complexidade técnica

Fonte: Elaborado pelas autoras.

3.4 Comparação entre dimensões

A análise comparativa entre as dimensões avaliadas indica que:

Observa-se, conforme apresentado na Figura 2, que a dimensão cognitivo-comportamental apresentou o maior percentual de desempenho satisfatório (88,4%), seguida da dimensão física (80,7%) e da dimensão técnica (74,5%). Esses resultados indicam que, embora as crianças apresentem boa base motora e comportamental, as habilidades técnicas específicas demandam maior tempo de consolidação.

Percentual de desempenho satisfatório (conceitos A e B) nas dimensões física, técnica e cognitivo-comportamental de crianças de 3 a 5 anos participantes de programa de ginástica artística.

A Figura 3 apresenta o ranking de desempenho das habilidades avaliadas, evidenciando maior domínio em indicadores comportamentais, como autonomia e disciplina, seguidos por habilidades motoras básicas, como rolamento e salto. Em contrapartida, habilidades que exigem maior complexidade técnica, como estrela, carpado e movimentos nas paralelas, apresentaram menores índices de desempenho.

4 DISCUSSÃO

Os resultados do presente estudo evidenciam que a utilização sistemática de indicadores físicos, técnicos e comportamentais contribui de forma significativa para a organização do planejamento pedagógico na ginástica artística infantil, especialmente na faixa etária de 3 a 5 anos. A predominância de desempenhos satisfatórios nas dimensões avaliadas, sobretudo nos aspectos comportamentais e nas habilidades motoras fundamentais, reforça a relevância de ambientes estruturados de prática para o desenvolvimento global da criança.

A literatura científica reconhece que a primeira infância constitui período crítico para aquisição e refinamento de habilidades motoras fundamentais, sendo o movimento elemento central nesse processo. Experiências corporais diversificadas favorecem a construção de repertório motor, a organização do esquema corporal e a interação com o ambiente (GALLAHUE; OZMUN; GOODWAY, 2013). Além disso, o desenvolvimento motor é compreendido como um processo dinâmico e não linear, dependente da interação entre maturação biológica e oportunidades de prática ao longo do tempo (SOUZA et al., 2016).

Nesse sentido, os achados do presente estudo convergem com evidências que demonstram que programas estruturados de ginástica artística favorecem o desenvolvimento motor infantil. Em estudo experimental, Souza et al. (2016) observaram aumento significativo em diferentes componentes do desenvolvimento motor após intervenção com ginástica, incluindo motricidade global, equilíbrio e organização espacial, com melhora expressiva das habilidades avaliadas. Esses resultados reforçam o potencial da ginástica como ferramenta pedagógica eficaz.

Do ponto de vista contemporâneo, evidências mais recentes indicam que crianças com maior competência motora apresentam melhores indicadores de saúde, maior engajamento em atividade física e maior probabilidade de manutenção de estilos de vida ativos ao longo da vida (ROBINSON et al., 2022). Além disso, a prática regular de atividades físicas na infância está associada ao desenvolvimento de funções executivas, atenção, autocontrole e habilidades socioemocionais (ZENG et al., 2021).

Os resultados encontrados no presente estudo, especialmente no que se refere aos elevados níveis de autonomia, disciplina e respeito aos combinados, reforçam essa relação entre movimento e desenvolvimento comportamental. Ambientes pedagógicos organizados, que integram desafios motores com mediação adequada, favorecem não apenas o desempenho físico, mas também a construção de comportamentos essenciais para o processo de aprendizagem (PAYNE; ISAACS, 2017).

Outro aspecto relevante refere-se ao desempenho superior observado nas habilidades de solo em comparação aos aparelhos como paralelas e trave. Esse achado é coerente com o desenvolvimento esperado para a faixa etária, uma vez que habilidades como rolamentos, saltos e deslocamentos demandam menor complexidade estrutural quando comparadas a tarefas que exigem sustentação corporal, equilíbrio em base reduzida e coordenação bilateral mais refinada. Estudos recentes indicam que habilidades que envolvem força relativa e controle postural avançado apresentam desenvolvimento mais tardio, exigindo progressões pedagógicas graduais (LOGAN et al., 2023).

Sob a perspectiva da saúde pública, a Organização Mundial da Saúde destaca que crianças devem ser fisicamente ativas ao longo do dia, sendo o movimento fundamental para o desenvolvimento motor, saúde óssea, composição corporal e bem-estar psicológico (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020). Nesse contexto, programas estruturados de ginástica artística assumem papel estratégico ao proporcionar oportunidades organizadas de prática corporal desde os primeiros anos de vida.

Além disso, os resultados reforçam a importância da avaliação como instrumento pedagógico. A utilização de indicadores permitiu identificar necessidades individuais, monitorar progressões e orientar intervenções mais seguras e adequadas ao nível de desenvolvimento das crianças. Essa abordagem está alinhada às recomendações da pedagogia do esporte contemporâneo, que enfatiza a necessidade de processos de ensino centrados na criança e baseados em evidências (CÔTÉ; BAKER; ABERNETHY, 2007).

Do ponto de vista aplicado, os achados sugerem que o uso sistemático de indicadores físicos e técnicos pode reduzir a improvisação pedagógica, aumentar a coerência do planejamento e favorecer a organização por níveis, contribuindo para progressão motora mais consistente. Tal estratégia é especialmente relevante em modalidades complexas como a ginástica artística, nas quais a segurança e a progressão técnica são elementos fundamentais.

Por fim, destaca-se que a competência motora adquirida na infância está diretamente associada à manutenção de níveis adequados de atividade física ao longo da vida, configurando-se como fator protetor para a saúde (BARNETT et al., 2022). Assim, intervenções pedagógicas bem estruturadas, como as analisadas neste estudo, podem contribuir não apenas para o desenvolvimento motor imediato, mas também para a formação de hábitos ativos duradouros.

Dessa forma, o presente estudo contribui para a área ao investigar, em contexto real de prática, a utilização de indicadores como ferramenta pedagógica na iniciação à ginástica artística, ampliando a compreensão sobre intervenções estruturadas na primeira infância.

5 CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objetivo analisar o uso de indicadores físicos, técnicos e comportamentais no planejamento pedagógico da ginástica artística para crianças de 3 a 5 anos. Os resultados evidenciaram que a utilização sistemática desses indicadores constitui estratégia eficaz para organização das aulas, acompanhamento do desenvolvimento infantil e tomada de decisão pedagógica.

Observou-se predominância de desempenhos satisfatórios nas dimensões avaliadas, com destaque para os aspectos cognitivo-comportamentais e habilidades motoras fundamentais, especialmente nas atividades de solo e salto. Em contrapartida, habilidades que exigem maior complexidade técnica, como aquelas realizadas nas paralelas e na trave, apresentaram maior variabilidade de desempenho, indicando necessidade de progressões pedagógicas mais graduais.

Os achados reforçam que o desenvolvimento motor na primeira infância ocorre de forma progressiva e não linear, sendo fortemente influenciado pelas oportunidades de prática e pela qualidade das intervenções pedagógicas. Nesse sentido, a ginástica artística, quando adaptada às características da faixa etária, configura-se como ambiente rico em estímulos motores, favorecendo não apenas o desenvolvimento físico, mas também aspectos cognitivos e comportamentais.

Além disso, destaca-se a relevância da avaliação como instrumento pedagógico, permitindo identificar necessidades individuais, organizar níveis de aprendizagem e promover intervenções mais seguras e eficazes. A utilização de indicadores contribui para reduzir a subjetividade no processo de ensino, aumentando a coerência do planejamento e a qualidade das experiências proporcionadas às crianças.

Do ponto de vista aplicado, os resultados deste estudo possuem implicações importantes para professores e treinadores que atuam na iniciação esportiva, especialmente na ginástica artística infantil. A adoção de instrumentos avaliativos estruturados pode favorecer a organização do ensino, a progressão das habilidades e a promoção de experiências positivas com o movimento desde os primeiros anos de vida.

Por fim, conclui-se que o movimento, quando sistematizado de forma intencional e pedagogicamente orientada, constitui elemento essencial para o desenvolvimento infantil. A ginástica artística, nesse contexto, consolida-se como ferramenta pedagógica estratégica, com potencial para contribuir para a formação de crianças mais ativas, autônomas e competentes do ponto de vista motor.

REFERÊNCIAS

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CÔTÉ, J.; BAKER, J.; ABERNETHY, B. Practice and play in the development of sport expertise. In: EKLUND, R. C.; TENENBAUM, G. (org.). Handbook of sport psychology. 3. ed. Hoboken: Wiley, 2007. p. 184–202.

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C.; GOODWAY, J. D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

LOGAN, S. W. et al. Fundamental motor skills and early childhood development: updated perspectives. Journal of Motor Learning and Development, v. 11, n. 1, p. 1–15, 2023.

NUNOMURA, M.; TSUKAMOTO, M. H. C. Fundamentos das ginásticas. São Paulo: Phorte, 2009.

PAYNE, V. G.; ISAACS, L. D. Human motor development: a lifespan approach. 9. ed. New York: Routledge, 2017.

ROBINSON, L. E. et al. Motor competence and its effect on positive developmental trajectories of health. Pediatric Exercise Science, v. 34, n. 2, p. 1–12, 2022.

SOUZA, R. et al. A contribuição da ginástica artística no desenvolvimento motor de crianças com síndrome de Down. Revista Pesquisa em Educação Física, v. 15, n. 1, p. 69–78, 2016.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: WHO, 2020.

ZENG, N. et al. Effects of physical activity on executive function and cognitive function in young children: a systematic review. Frontiers in Psychology, v. 12, 2021.

  1. Universidade Estadual de Goiás.

  2. Universidade Estadual de Goiás.