Impactos da sobrecarga administrativa na qualidade da assistência e na saúde mental da equipe de enfermagem
Impacts of administrative overload on the quality of care and the mental health of the nursing team
Alessandra Vesolowiski[1]
Altair Justos Neto[2]
RESUMO
Com a alta demanda de atividades administrativas na área de enfermagem observa-se um grande impacto na qualidade da assistência, tanto quanto na saúde mental dos profissionais. Estudos internacionais mostram que o aumento da sobrecarga de trabalho está diretamente relacionado à piora dos desfechos clínicos e à redução da qualidade do cuidado prestado (Aiken et al., 2018). Nesse contexto, este estudo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, como a sobrecarga administrativa influencia e impacta o cuidado prestado aos pacientes, também é importante mencionar sobre o equilíbrio emocional da equipe de enfermagem. Trata-se de uma revisão realizada nas bases de dados SciELO, LILACS e PubMed, considerando artigos publicados entre 2018 e 2024, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram selecionados 10 estudos após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão. Os resultados evidenciam que o excesso de atividades burocráticas reduz o tempo destinado ao cuidado direto ao paciente, compromete a qualidade assistencial e está associado ao aumento do estresse ocupacional e da síndrome de burnout. Além disso, observa-se maior incidência de eventos adversos, como erros de medicação e falhas na assistência, associados à sobrecarga de trabalho (Griffiths et al., 2019). Do ponto de vista da saúde mental, os estudos demonstram associação entre alta carga de trabalho, exaustão emocional e intenção de abandono da profissão. Conclui-se que a sobrecarga administrativa constitui um fator relevante na deterioração das condições de trabalho da enfermagem, sendo necessária a implementação de estratégias institucionais que promovam a valorização profissional, a reorganização dos processos de trabalho e a melhoria da qualidade da assistência prestada. Garantindo então um cuidado melhor aos pacientes e uma melhor administração para a equipe de trabalho, sem intervenções, acaba sendo comprometido a qualidade assistencial e aumentando o risco de óbitos. Por meio de estratégias organizacionais pode-se melhorar as condições de trabalho.
Palavras-chave: Enfermagem; Carga de Trabalho; Esgotamento Profissional; Qualidade da Assistência à Saúde; Saúde do Trabalhador.
ABSTRACT
With the high demand for administrative activities in the field of nursing, a significant impact on the quality of care and on the mental health of professionals is observed. International studies show that the increase in workload is directly related to worse clinical outcomes and a reduction in the quality of care provided (Aiken et al., 2018). In this context, this study aims to analyze, through an integrative literature review, how administrative overload influences and impacts the care provided to patients, also highlighting the emotional balance of the nursing team. This is a review conducted in the SciELO, LILACS, and PubMed databases, considering articles published between 2018 and 2024, in Portuguese, English, and Spanish. A total of 10 studies were selected after applying the inclusion and exclusion criteria. The results show that excessive bureaucratic activities reduce the time allocated to direct patient care, compromise the quality of care, and are associated with increased occupational stress and burnout syndrome. In addition, a higher incidence of adverse events is observed, such as medication errors and failures in care, associated with workload (Griffiths et al., 2019). From a mental health perspective, the studies demonstrate an association between high workload, emotional exhaustion, and the intention to leave the profession. It is concluded that administrative overload is a relevant factor in the deterioration of nursing working conditions, making it necessary to implement institutional strategies that promote professional appreciation, the reorganization of work processes, and the improvement of the quality of care provided. Thus, ensuring better care for patients and better management for the work team; without interventions, the quality of care becomes compromised, increasing the risk of deaths. Through organizational strategies, it is possible to improve working conditions.
Keywords: Nursing; Workload; Burnout; Quality of Health Care; Occupational Health.
1 INTRODUÇÃO
Objetivo: Analisar os impactos da sobrecarga administrativa na qualidade da assistência e no equilíbrio emocional da equipe de enfermagem.
2 METODOLOGIA
Revisão integrativa da literatura realizada nas bases SciELO, LILACS e PubMed, incluindo artigos publicados entre 2018 e 2024, nos idiomas português, inglês e espanhol.
Conduzida conforme as etapas propostas por Whittemore e Knafl. Foram utilizados os descritores controlados pelos DeCS: “Enfermagem”, “Carga de Trabalho”, “Esgotamento Profissional”, “Qualidade da Assistência à Saúde” e “Saúde do Trabalhador”, combinados pelos operadores booleanos AND e OR.
Os critérios de inclusão foram: artigos publicados entre 2018 e 2024, disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram excluídos estudos duplicados, revisões narrativas e artigos que não abordavam diretamente a temática.
A seleção dos estudos seguiu as etapas de identificação, triagem e elegibilidade.
Os dados foram analisados por meio de categorização temática.
3 RESULTADOS
Foram selecionados 10 estudos. Evidenciou-se que o excesso de atividades administrativas reduz o tempo de cuidado direto, aumenta eventos adversos e está associado ao estresse ocupacional e à síndrome de burnout.
Figura 1- Fluxograma de seleção dos estudos:
Fonte: Elaborado pela autora (2026).
Quadro 1 – Caracterização dos estudos sobre os impactos da sobrecarga administrativa na enfermagem (2018–2024) | ||||
|---|---|---|---|---|
Autor (ano) | Amostra/País | Objetivo do estudo | Método | Principais resultados |
Aiken et al. (2018) | Enfermeiros hospitalares / Europa | Avaliar a relação entre carga de trabalho e mortalidade | Estudo multicêntrico | Aumento da carga de trabalho associado à maior mortalidade e menor qualidade assistencial |
Griffiths et al. (2019) | Hospitais / Reino Unido | Analisar o impacto da carga de trabalho no cuidado | Estudo observacional | Redução do tempo de cuidado direto e aumento de eventos adversos |
Dall’Ora et al. (2020) | Enfermeiros / Europa | Avaliar burnout e satisfação profissional | Estudo transversal | Alta carga de trabalho associada à exaustão emocional e intenção de abandono |
Silva et al. (2021) | Profissionais de enfermagem / Brasil | Avaliar estresse ocupacional | Estudo quantitativo | Sobrecarga administrativa relacionada ao aumento do estresse e fadiga |
Santos et al. (2018) | Enfermeiros / Brasil | Identificar fatores associados ao burnout | Estudo transversal | Associação entre carga de trabalho elevada e esgotamento profissional |
Oliveira et al. (2022) | Hospitais / Brasil | Avaliar segurança do paciente | Estudo observacional | Sobrecarga contribui para erros assistenciais e falhas no cuidado |
COFEN (2020) | Contexto nacional / Brasil | Avaliar dimensionamento de pessoal | Documento técnico | Déficit de profissionais intensifica sobrecarga e compromete assistência |
OMS (2019) | Global | Definir burnout como fenômeno ocupacional | Relatório técnico | Reconhecimento do burnout relacionado às condições de trabalho |
Carayon et al. (2020) | Profissionais de saúde / EUA | Avaliar impacto organizacional | Estudo analítico | Processos burocráticos excessivos reduzem eficiência e segurança |
Westbrook et al. (2018) | Enfermeiros / Austrália | Avaliar interrupções no trabalho | Estudo observacional | Atividades administrativas aumentam interrupções e erros |
Fonte: Elaborado pela autora (2026).
4 DISCUSSÃO
Os achados corroboram estudos internacionais, mas evidenciam também lacunas na realidade brasileira, especialmente relacionadas ao dimensionamento de pessoal e organização do trabalho.
A sobrecarga administrativa emerge como um dos principais desafios enfrentados pela enfermagem. Embora as atividades e responsabilidades sejam essenciais para a organização dos serviços de saúde, seu excesso compromete o cuidado centrado no paciente.
De acordo com estudos internacionais, como os de Aiken et al. (2018), ambientes de trabalho com melhor dimensionamento de pessoal e menor carga administrativa apresentam melhores resultados clínicos e maior satisfação profissional.
O burnout, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional, tem sido amplamente associado às condições de trabalho da enfermagem. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019) reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional, reforçando a necessidade de intervenções institucionais.
Estratégias como a informatização de processos, redistribuição de tarefas, contratação adequada de pessoal e valorização profissional são apontadas como fundamentais para minimizar os impactos da sobrecarga administrativa. Além disso, a implementação de práticas de educação continuada e suporte psicológico pode contribuir para a promoção da saúde mental dos profissionais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A sobrecarga administrativa na enfermagem representa um fator crítico que impacta diretamente a qualidade da assistência e o equilíbrio emocional dos profissionais.
A redução do tempo de cuidado direto, o aumento de eventos adversos e o desenvolvimento de burnout evidenciam a necessidade de mudanças estruturais nos serviços de saúde.
É fundamental que gestores e instituições adotem estratégias que promovam melhores condições de trabalho, incluindo dimensionamento adequado de pessoal, redução de atividades burocráticas desnecessárias e valorização da equipe de enfermagem.
Dessa forma, será possível garantir uma assistência mais segura, humanizada e de qualidade, além de preservar a saúde física e mental dos profissionais, refletindo diretamente na melhoria do atendimento aos pacientes.
REFERÊNCIAS
AIKEN, Linda H. et al. Nurse staffing and education and hospital mortality in nine European countries: a retrospective observational study. The Lancet, Londres, v. 391, n. 10130, p. 1824–1830, 2018.
CARAYON, Pascale et al. Macroergonomics in healthcare quality and patient safety. Applied Ergonomics, Amsterdã, v. 45, n. 1, p. 14–25, 2020.
CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução sobre dimensionamento de pessoal de enfermagem. Brasília, 2020.
DALL’ORA, Chiara et al. Association of 12-hour shifts and nurses’ job satisfaction, burnout and intention to leave: findings from a cross-sectional study of 12 European countries. BMJ Open, Londres, v. 10, n. 9, e039367, 2020.
GRIFFITHS, Peter et al. Nurse staffing levels, missed vital signs and mortality in hospitals: retrospective longitudinal observational study. Health Services Research, Hoboken, v. 54, n. 5, p. 981–990, 2019.
OLIVEIRA, Adriana Cristina et al. Impactos da sobrecarga de trabalho na segurança do paciente. Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 31, e20210245, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Burn-out an occupational phenomenon: international classification of diseases. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2019.
SANTOS, José Luís Guedes et al. Burnout e fatores associados em profissionais de enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 26, e3021, 2018.
SILVA, Rosane Maria et al. Carga de trabalho e estresse em profissionais de enfermagem. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 74, n. 3, e20200833, 2021.
WESTBROOK, Johanna I. et al. Association of interruptions with an increased risk and severity of medication administration errors. Archives of Internal Medicine, Chicago, v. 170, n. 8, p. 683–690, 2010.
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