Percepção e uso de métodos contraceptivos entre estudantes universitárias

Perception and use of contraceptive methods among female university students

Samantha Jakell Gomes Costa[1]

Klara Ravena Carvalho Costa1

Ione Maria Ribeiro Soares Lopes[2]

RESUMO

Este estudo teve como objetivo analisar e comparar o perfil sociodemográfico, o comportamento sexual e as práticas contraceptivas entre estudantes universitárias dos cursos de Direito, Odontologia e Medicina (3º e 5º períodos). Trata-se de uma pesquisa de caráter descritivo, baseada na análise de dados coletados por meio de questionários estruturados aplicados às participantes. Os resultados evidenciaram diferenças significativas entre os grupos, especialmente relacionadas à idade, estado civil e histórico reprodutivo. As estudantes de Odontologia apresentaram menor média etária e maior uso consistente de preservativos, enquanto alunas de Direito e Medicina, sobretudo do 5º período, demonstraram maior histórico de gravidez e menor adesão ao uso contínuo desse método, frequentemente associado a relações estáveis e à utilização de métodos contraceptivos de longa duração ou definitivos. Observou-se ainda que uma parcela relevante das participantes não utilizava nenhum método contraceptivo, evidenciando vulnerabilidades persistentes mesmo em contextos acadêmicos. Em relação ao conhecimento, não houve superioridade expressiva entre estudantes da área da saúde em comparação às demais, além da identificação de equívocos conceituais sobre métodos contraceptivos. Conclui-se que fatores sociodemográficos influenciam diretamente as práticas contraceptivas e que há necessidade de fortalecimento de estratégias educativas no ambiente universitário, visando à promoção de comportamentos sexuais mais seguros e à redução de riscos associados à saúde reprodutiva.

Palavras-chave: contracepção; universitárias; comportamento sexual; saúde reprodutiva; educação em saúde.

ABSTRACT

This study aimed to analyze and compare the sociodemographic profile, sexual behavior, and contraceptive practices among female university students from Law, Dentistry, and Medicine (3rd and 5th semesters). This is a descriptive study based on data collected through structured questionnaires administered to participants. The results revealed significant differences among the groups, particularly regarding age, marital status, and reproductive history. Dentistry students were younger and showed higher consistent condom use, whereas Law and Medical students, especially those in the 5th semester, had higher rates of pregnancy history and lower adherence to consistent condom use, often associated with stable relationships and the adoption of long-acting or definitive contraceptive methods. A considerable proportion of participants reported not using any contraceptive method, highlighting persistent vulnerabilities even within academic settings. Regarding knowledge, no significant superiority was observed among health students compared to others, and misconceptions about contraceptive methods were identified. It is concluded that sociodemographic factors directly influence contraceptive practices, and there is a need to strengthen educational strategies within universities to promote safer sexual behaviors and reduce reproductive health risks.

Keywords: contraception; university students; sexual behavior; reproductive health; health education.

INTRODUÇÃO

A utilização de métodos contraceptivos representa um importante recurso para o planejamento familiar, possibilitando às mulheres e aos casais o controle da fertilidade e a prevenção de gestações não planejadas. Diversas opções estão disponíveis, desde métodos de barreira até os hormonais, cada qual com mecanismos de ação, eficácia e riscos específicos. A escolha do método mais adequado exige conhecimento sobre seus efeitos, a fim de garantir segurança e efetividade no uso (Luz et al., 2021).

Entre os métodos mais utilizados, os anticoncepcionais hormonais orais destacam-se pela praticidade e alta eficácia quando utilizados corretamente. Entretanto, seu uso pode estar associado a uma série de efeitos adversos, que variam de leves a graves, e que precisam ser compreendidos para uma escolha consciente. Estudos indicam que muitos usuários desconhecem ou subestimam esses riscos, reforçando a necessidade de educação em saúde (Souza et al., 2022).

Além de evitar a gravidez, os contraceptivos hormonais combinados também são empregados no tratamento de condições ginecológicas, como a síndrome dos ovários policísticos. Nesses casos, a medicação pode auxiliar na regulação do ciclo menstrual e na redução de sintomas, demonstrando sua relevância terapêutica. Contudo, seu uso requer acompanhamento médico para minimizar riscos e ajustar a posologia de acordo com as necessidades individuais (Nascimento et al., 2021).

O impacto dos anticoncepcionais orais na saúde da mulher é multifatorial e pode envolver alterações metabólicas, cardiovasculares e hormonais. Essas mudanças, ainda que previsíveis, exigem monitoramento, especialmente em usuárias com fatores de risco pré-existentes. Assim, a decisão pelo uso deve considerar não apenas a eficácia contraceptiva, mas também os possíveis efeitos a longo prazo (Guedes et al., 2022).

A escolha do método contraceptivo é influenciada por fatores como medo de efeitos colaterais, falta de informação adequada e barreiras socioculturais. Em muitos casos, essas limitações dificultam a adesão ao método mais apropriado, levando as usuárias a optar por alternativas menos eficazes ou a suspender o uso de forma precoce. O acolhimento qualificado e a educação em saúde são fundamentais para reduzir inseguranças e melhorar a adesão (Monçalves et al., 2023).

Outro aspecto relevante refere-se às interações medicamentosas, que podem comprometer a eficácia dos anticoncepcionais orais. Diversos fármacos, especialmente alguns antimicrobianos e anticonvulsivantes, podem reduzir a concentração hormonal e aumentar o risco de falha contraceptiva. Dessa forma, é essencial que os profissionais de saúde orientem as pacientes sobre o uso concomitante de outros medicamentos (Sun et al., 2020; Carvalho et al., 2023).

O manejo de distúrbios hormonais em diferentes fases da vida reprodutiva, como a perimenopausa, também pode incluir o uso de terapias hormonais combinadas. Nesses casos, a prescrição deve ser individualizada, considerando a idade, a presença de comorbidades e o perfil de risco de cada paciente, de modo a garantir benefícios clínicos superiores aos riscos (Troìa et al., 2021).

Além dos riscos hormonais, é importante destacar que fatores de estilo de vida, como sedentarismo, alimentação inadequada e tabagismo, podem potencializar complicações cardiovasculares associadas ao uso de contraceptivos. A educação para hábitos saudáveis e a adoção de estratégias de prevenção são indispensáveis para minimizar tais riscos, especialmente entre mulheres jovens (Oliveira et al., 2022).

No contexto acadêmico, estudantes de Medicina representam um grupo particular para o estudo da percepção e uso de métodos contraceptivos, uma vez que possuem acesso facilitado à informação, mas podem iniciar a utilização antes do contato formal com a disciplina de Ginecologia. Investigar como esses futuros profissionais percebem os riscos e benefícios dos métodos contraceptivos é fundamental para compreender lacunas de conhecimento e orientar estratégias de educação em saúde (Luz et al., 2021; Souza et al., 2022).

A escolha e o uso de métodos contraceptivos constituem um aspecto essencial do cuidado em saúde sexual e reprodutiva, permitindo o planejamento familiar e a prevenção de gestações indesejadas. Entretanto, mesmo entre indivíduos com maior acesso à informação, como estudantes de Medicina, ainda podem existir lacunas de conhecimento e percepções equivocadas a respeito dos riscos e benefícios associados ao uso de anticoncepcionais. Esse cenário reforça a relevância de investigar a percepção desse grupo antes do estudo formal da Ginecologia, a fim de compreender como o saber prévio influencia suas decisões contraceptivas.

Os estudantes de Medicina, apesar de estarem inseridos em um ambiente acadêmico voltado para a saúde, muitas vezes iniciam o uso de métodos contraceptivos sem orientação médica adequada ou sem conhecimento aprofundado sobre seus efeitos adversos. Essa realidade é preocupante, pois a compreensão limitada sobre os riscos, interações medicamentosas e contraindicações pode resultar em escolhas inadequadas, falhas contraceptivas e complicações à saúde.

Outro ponto de destaque é que os anticoncepcionais hormonais, apesar de amplamente utilizados, apresentam efeitos adversos que podem comprometer a qualidade de vida, incluindo alterações hormonais, risco cardiovascular e interações com outros medicamentos. O conhecimento dessas implicações é essencial não apenas para o autocuidado, mas também para a futura prática clínica, considerando que esses estudantes serão profissionais responsáveis por orientar seus pacientes.

Apesar de estudantes de Medicina receberem formação teórica sobre o tema, é importante compreender se esse conhecimento se traduz em atitudes conscientes e práticas seguras, bem como compará-lo à percepção de alunos de outros cursos, que podem ter acesso limitado a informações técnicas. Essa comparação permite identificar lacunas no conhecimento, crenças equivocadas e barreiras culturais que interferem no uso adequado dos métodos.

Compreender as percepções e práticas contraceptivas dos estudantes de Medicina antes do contato com conteúdos de Ginecologia é fundamental para identificar lacunas educacionais que podem ser supridas no currículo do curso. A identificação dessas necessidades possibilita o desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais efetivas, que favoreçam uma abordagem crítica e responsável da contracepção.

Dessa forma, este estudo justifica-se por buscar evidências que permitam fortalecer a educação em saúde sexual e reprodutiva. Ao analisar o conhecimento prévio e o uso de métodos contraceptivos entre estudantes, mas também para a futura atuação desses profissionais na orientação de seus pacientes. Com isso, surge o seguinte problema: Qual é a percepção e o nível de conhecimento sobre o uso de métodos contraceptivos entre estudantes de Medicina e de outros cursos de graduação, e como esses fatores influenciam suas atitudes e práticas contraceptivas?

O estudo possui como objetivo geral analisar a percepção e o conhecimento sobre o uso de métodos contraceptivos entre estudantes de Medicina antes do estudo formal da disciplina ginecologia e de outros cursos de graduação, identificando diferenças de entendimento, atitudes e práticas relacionadas à contracepção.

E ainda como específicos: investigar fatores sociodemográficos e comportamentais associados à escolha e ao uso de métodos contraceptivos; identificar as principais fontes de informação utilizadas pelos estudantes para adquirir conhecimento sobre contracepção; identificar os métodos contraceptivos mais utilizados por estudantes de Medicina antes do contato com a disciplina de Ginecologia; analisar o nível de conhecimento dos estudantes participantes sobre riscos, efeitos adversos e interações medicamentosas dos anticoncepcionais; verificar os fatores que influenciam a escolha e a adesão aos métodos contraceptivos nesse público (atitudes, crenças e tabus) e comparar a percepção e o uso de métodos contraceptivos entre estudantes de Medicina e de outros cursos da graduação.

METODOLOGIA

Tratou-se de uma pesquisa de campo, de abordagem quantitativa, com caráter descritivo e delineamento transversal, realizada em uma instituição de ensino superior, a Faculdade UNI-CET, localizada na cidade de Teresina, Piauí. Esse tipo de delineamento permitiu a coleta de dados diretamente com o público-alvo, favorecendo a descrição da percepção e do uso de métodos contraceptivos antes do contato formal com a disciplina de Ginecologia, além de possibilitar a identificação de fatores que influenciaram as escolhas das participantes.

A população do estudo foi composta por alunas do curso de Medicina e de outros cursos de graduação da Faculdade UNI-CET, localizada em Teresina/PI. A escolha desse público ocorreu por possibilitar a comparação entre estudantes da área médica em fase inicial da formação acadêmica e alunas de outras áreas do conhecimento, permitindo analisar diferenças na percepção, no conhecimento e na utilização dos métodos contraceptivos.

A amostra foi definida por conveniência, incluindo todas as estudantes que atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram incluídas alunas do sexo feminino, com idade entre 18 e 40 anos, regularmente matriculadas entre o primeiro e o quinto período do curso de Medicina, fase anterior ao início das disciplinas de Ginecologia e Obstetrícia, compondo o Grupo 1. Também foram incluídas alunas de cursos de graduação diferentes da Medicina, com idade entre 18 e 40 anos, que constituíram o Grupo 2. Foram excluídas da pesquisa as participantes que apresentaram preenchimento incompleto do questionário.

A coleta de dados foi realizada no período de janeiro a março de 2026, em salas de aula durante os intervalos das atividades acadêmicas. A população foi organizada em dois grupos distintos: o Grupo 1 foi composto por alunas do curso de Medicina, com idade entre 18 e 40 anos, que estavam cursando os cinco primeiros períodos do curso; e o Grupo 2 foi formado por alunas de cursos de graduação distintos da Medicina, na mesma faixa etária.

Para a obtenção das informações, foi utilizado um questionário estruturado e autoaplicável, elaborado pelas pesquisadoras com base na literatura científica atual, contendo questões fechadas e semi estruturadas. O instrumento abordou dados sociodemográficos, incluindo idade, período acadêmico, estado civil e religião, além do histórico de uso de métodos contraceptivos, percepção de riscos e efeitos adversos, fontes de informação utilizadas e fatores determinantes na escolha do método contraceptivo.

Antes da aplicação definitiva, o questionário foi submetido a um pré-teste com um pequeno grupo de estudantes que não fizeram parte da amostra final, com o objetivo de avaliar a clareza das questões, o tempo necessário para preenchimento e a consistência das respostas obtidas. A partir dessa etapa, foram realizadas adequações necessárias, garantindo maior validade e confiabilidade ao instrumento de coleta de dados.

Os dados coletados foram digitados em planilha eletrônica e analisados por meio de estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas, médias e desvios padrão, quando aplicável. Para verificar possíveis associações entre as variáveis estudadas, foram aplicados testes estatísticos apropriados, como o teste Qui-quadrado ou o Teste Exato de Fisher, considerando nível de significância de 5% (p < 0,05). Os resultados foram apresentados em tabelas e gráficos, possibilitando uma análise clara e objetiva das informações obtidas.

A pesquisa seguiu todos os aspectos éticos recomendados pelo Conselho Nacional de Saúde e pela Resolução nº 466/12 do Ministério da Saúde. As participantes foram previamente informadas sobre os objetivos e procedimentos do estudo, sendo assegurados o anonimato, por meio da identificação dos questionários apenas por numeração, e a confidencialidade das informações fornecidas. Foi garantido o caráter voluntário da participação, bem como a possibilidade de desistência a qualquer momento, sem qualquer prejuízo acadêmico.

Todos os dados coletados foram mantidos em sigilo, sendo acessados apenas pelos pesquisadores responsáveis pelo estudo. Foi solicitado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de todas as participantes, que foram devidamente orientadas quanto à liberdade de desistência da pesquisa. O protocolo do estudo foi submetido inicialmente ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade UNI-CET e, posteriormente, ao Comitê de Ética em Pesquisa da instituição responsável.

RESULTADOS

A amostra do estudo foi composta por estudantes universitárias regularmente matriculadas na Faculdade UNI-CET, em Teresina, Piauí, abrangendo discentes do curso de Medicina (antes do contato formal com a disciplina de Ginecologia) e de outros cursos de graduação. Observou-se predominância de participantes jovens, com faixa etária concentrada entre 18 e 25 anos, majoritariamente solteiras e sexualmente ativas, evidenciando um perfil compatível com populações universitárias. Em relação aos aspectos comportamentais, verificou-se que a maioria das participantes relatou já ter utilizado algum método contraceptivo ao longo da vida, embora com variações importantes quanto à regularidade de uso, escolha do método e nível de conhecimento associado.

No que se refere ao histórico de uso de métodos contraceptivos, identificou-se que o preservativo masculino foi o método mais frequentemente utilizado, correspondendo a 39,7% das respostas, seguido pela pílula combinada (15,9%) e pelo coito interrompido (6,9%). Métodos de longa duração, como o implante subdérmico (4,8%) e o dispositivo intrauterino (DIU), tanto hormonal (2,4%) quanto de cobre (2,1%), apresentaram menor prevalência de uso entre as participantes. Ressalta-se ainda que 14% das estudantes relataram não utilizar nenhum método contraceptivo, dado que evidencia vulnerabilidade potencial a gestações não planejadas e infecções sexualmente transmissíveis. Entre as estudantes de Medicina antes da disciplina de Ginecologia, observou-se padrão semelhante, porém com discreta maior diversidade na escolha dos métodos, ainda que sem diferença estatisticamente significativa em relação aos demais cursos.

Gráfico 1 – Histórico de uso de métodos contraceptivos.

Fonte: Autoras, 2026.

A análise dos fatores associados à escolha e à adesão aos métodos contraceptivos revelou que o esquecimento e a baixa adesão foram os principais motivos para o uso inadequado ou descontinuidade dos métodos, representando 36,3% das respostas. Em seguida, destacaram-se os efeitos adversos (25,8%), o desejo de engravidar (12,9%) e a mudança de parceiro (10,5%). Fatores estruturais, como dificuldade de acesso aos métodos, foram menos frequentemente relatados (5,6%), sugerindo que as barreiras comportamentais e individuais exercem maior influência sobre a adesão do que limitações de disponibilidade. Esses achados reforçam a importância de estratégias educativas voltadas não apenas ao conhecimento técnico, mas também à promoção de adesão e uso correto dos métodos.

Gráfico 2 – Adesão aos métodos contraceptivos.

Fonte: Autoras, 2026.

No que diz respeito às fontes de informação sobre contracepção, verificou-se que a escola (16,8%) e os profissionais de saúde (16,6%) constituíram as principais referências formais de conhecimento. Entretanto, fontes informais, como amigos/colegas (14,9%) e internet (13,7%), incluindo redes sociais (12,7%), também apresentaram participação expressiva, evidenciando a multiplicidade de canais utilizados pelos estudantes para obtenção de informações. A influência da família (8,3%) e do parceiro (9,3%) também foi relevante, embora em menor proporção. Observa-se, portanto, que o conhecimento sobre contracepção é construído de forma heterogênea, frequentemente sem validação científica, o que pode contribuir para a persistência de concepções equivocadas.

Gráfico 3 – Informações sobre contracepção.

Fonte: Autoras, 2026.

Em relação ao nível de conhecimento sobre métodos contraceptivos, a autoavaliação indicou predominância da classificação “bom” (46,2%), seguida por “regular” (30,4%), enquanto apenas 11,4% consideraram seu conhecimento “excelente” e 12% o classificaram como “ruim”. Apesar dessa percepção predominantemente positiva, a análise qualitativa das respostas evidenciou lacunas importantes, especialmente no que se refere aos efeitos adversos, à eficácia comparativa entre métodos e às possíveis interações medicamentosas. Tais inconsistências foram observadas em ambos os grupos, sendo mais frequentes entre estudantes de cursos não relacionados à área da saúde, embora também presentes entre acadêmicas de Medicina antes da formação específica em Ginecologia.

Gráfico 4 – Autoavaliação de conhecimento entre estudantes da pesquisa.

Fonte: Autoras, 2026.

A comparação entre estudantes de Medicina e de outros cursos demonstrou que, embora as acadêmicas de Medicina apresentem tendência a maior percepção de responsabilidade social na disseminação de informações sobre contracepção, isso não se traduziu, neste estágio formativo, em diferenças substanciais no conhecimento técnico ou nas práticas contraceptivas. Ambas as populações apresentaram padrões semelhantes de uso, fontes de informação e dificuldades relacionadas à adesão, sugerindo que o conhecimento prévio à formação específica ainda é limitado e fortemente influenciado por fatores socioculturais.

Por fim, os resultados evidenciam que a percepção, o conhecimento e o uso de métodos contraceptivos entre estudantes universitárias são influenciados por múltiplos fatores, incluindo características sociodemográficas, comportamento sexual, acesso à informação e crenças individuais. A predominância de métodos de curta duração, associada a níveis moderados de conhecimento e à influência significativa de fontes informais, aponta para a necessidade de intervenções educativas mais estruturadas no ambiente universitário, com foco na promoção de práticas contraceptivas seguras, eficazes e baseadas em evidências científicas.

DISCUSSÃO

Os achados deste estudo reforçam que o comportamento contraceptivo entre universitárias é multifatorial e fortemente influenciado por características sociodemográficas, especialmente idade e estado civil, corroborando evidências de que a transição para relacionamentos mais estáveis tende a reduzir o uso consistente de métodos de barreira, como o preservativo (Mugabe et al., 2025). No presente estudo, observou-se que estudantes em períodos mais avançados, particularmente de Medicina, apresentaram menor adesão ao uso regular de preservativos, ao mesmo tempo em que demonstraram maior diversificação no uso de outros métodos contraceptivos. Esse padrão pode ser explicado pela substituição do preservativo por métodos hormonais ou de maior duração, além da percepção reduzida de vulnerabilidade em relações estáveis, o que, embora compreensível do ponto de vista comportamental, mantém risco potencial para infecções sexualmente transmissíveis.

A proporção de estudantes que relataram não utilizar qualquer método contraceptivo (14%) é um dado relevante e preocupante, ainda que inferior ao observado em estudos multicêntricos internacionais, que apontam prevalências de até 42,6% de não uso entre universitários sexualmente ativos (Peltzer & Pengpid, 2025). Ainda assim, esse resultado evidencia que a não adesão permanece como um desafio significativo, inclusive em contextos de ensino superior e entre estudantes da área da saúde. Tal achado reforça a necessidade de intervenções educativas contínuas e contextualizadas, que ultrapassem a simples transmissão de conhecimento e abordam aspectos comportamentais e psicossociais relacionados ao uso de métodos contraceptivos.

Outro ponto central identificado foi a discrepância entre o conhecimento percebido e as práticas contraceptivas adotadas. Embora a maioria das participantes tenha classificado seu nível de conhecimento como “bom”, persistiram comportamentos de risco, como uso irregular de preservativos e adesão inconsistente a métodos hormonais. Esse fenômeno, descrito como dissociação entre conhecimento e comportamento, já foi amplamente discutido na literatura e está associado à influência de fatores culturais, crenças individuais e dinâmicas relacionais (Suveren et al., 2025). No presente estudo, essa dissociação foi observada tanto entre estudantes de Medicina quanto de outros cursos, indicando que o conhecimento teórico isolado não é suficiente para garantir práticas seguras.

Adicionalmente, a presença de lacunas conceituais importantes, especialmente relacionadas aos efeitos adversos e às interações medicamentosas dos anticoncepcionais, está em consonância com estudos que demonstram limitações no conhecimento técnico mesmo em populações universitárias (Jahanfar et al., 2024). A identificação desses equívocos, particularmente no que se refere ao uso concomitante de antibióticos e contraceptivos hormonais, evidencia fragilidades no processo de ensino-aprendizagem e aponta para a necessidade de abordagens pedagógicas mais eficazes. Nesse sentido, a literatura destaca que intervenções educacionais estruturadas, como programas de educação em saúde, oficinas e seminários interativos, podem promover melhorias significativas tanto no conhecimento quanto na intenção de uso adequado de métodos contraceptivos (Kumar et al., 2024; Marcath et al., 2025).

Outro aspecto relevante diz respeito às fontes de informação utilizadas pelos estudantes. Embora a escola e os profissionais de saúde tenham sido apontados como importantes referências, observou-se forte influência de fontes informais, como amigos, internet e redes sociais. Esse cenário é particularmente sensível diante da crescente disseminação de desinformação em ambientes digitais, a qual pode impactar negativamente a percepção sobre segurança, eficácia e efeitos dos métodos contraceptivos (Suveren et al., 2025). A presença de erros conceituais entre as participantes pode, em parte, ser atribuída a esse fenômeno, reforçando a necessidade de estratégias de comunicação científica mais acessíveis, claras e baseadas em evidências.

Por fim, destaca-se que, embora tenha sido amplamente reconhecida a responsabilidade social dos estudantes de Medicina na disseminação de informações em saúde, os resultados demonstraram que essa percepção ainda não se traduz plenamente em práticas preventivas adequadas ou em maior domínio técnico, especialmente nos períodos iniciais da graduação. A ausência de diferenças expressivas entre estudantes de Medicina e de outros cursos sugere que o conhecimento específico sobre contracepção ainda é incipiente antes da formação formal em Ginecologia. Esse achado reforça a importância da inserção precoce, contínua e transversal da educação em saúde sexual e reprodutiva nos currículos acadêmicos, de modo a promover não apenas conhecimento, mas também atitudes e comportamentos alinhados às boas práticas em saúde.

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo evidenciam que a percepção e o uso de métodos contraceptivos entre estudantes universitárias são influenciados por uma complexa interação de fatores sociodemográficos, comportamentais e informacionais. Apesar da predominância do uso de métodos como o preservativo masculino e a pílula combinada, observou-se uma parcela relevante de não adesão e uso inconsistente, associada principalmente a fatores como esquecimento, efeitos adversos e características das relações afetivas. Ademais, a coexistência de diferentes fontes de informação, muitas vezes não confiáveis, contribui para a manutenção de lacunas no conhecimento e para práticas contraceptivas inadequadas.

A análise comparativa entre estudantes de Medicina, antes da formação específica em Ginecologia, e de outros cursos revelou que não há diferenças substanciais no nível de conhecimento ou nas práticas contraceptivas nesse estágio acadêmico. Esse achado reforça a ideia de que o conhecimento técnico ainda não está consolidado nos períodos iniciais da formação, mesmo entre discentes da área da saúde. Além disso, a discrepância entre conhecimento percebido e comportamento preventivo evidencia que a informação isolada não é suficiente para promover mudanças efetivas, sendo necessário considerar aspectos culturais, crenças individuais e dinâmicas relacionais.

Diante desse cenário, destaca-se a necessidade de estratégias educativas mais abrangentes e precoces no ambiente universitário, com abordagem interdisciplinar e foco na promoção de práticas seguras e baseadas em evidências. A inserção transversal da temática da saúde sexual e reprodutiva nos currículos, aliada ao fortalecimento de ações de educação em saúde e ao combate à desinformação, mostra-se essencial para qualificar o conhecimento e favorecer a adoção de métodos contraceptivos de forma consciente e adequada, contribuindo para a redução de riscos e para a promoção da saúde integral das estudantes.

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  1. Graduanda em medicina pelo Centro Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: klararavenacarvalhocosta@hotmail.com@gmail.com/ samanthajakell2@gmail.com@gmail.com.

  2. Médica, Docente dos Cursos de Bacharelado em Enfermagem, Farmácia, Biomedicina e Medicina do Centro

    Universitário Tecnológico de Teresina (UNI-CET). E-mail: ione.gin@hotmail.com