Religiosidade, cultura e mal-estar psíquico: contribuições da psicanálise para a compreensão do sujeito contemporâneo

Religiosity, culture, and psychological distress: contributions of psychoanalysis to the understanding of the contemporary subject

Daniel Andrade da Silva[1]

Resumo

O presente artigo analisa a relação entre religião, cultura e mal-estar psíquico do período antigo ao contemporâneo, considerando as transformações históricas, sociais e subjetivas que atravessam a constituição do sujeito. A justificativa do estudo fundamenta-se na relevância do tema para as Ciências Humanas e para a Psicanálise, diante do aumento do sofrimento psíquico e das tensões sociais observadas na contemporaneidade. A problemática central investiga de que modo as estruturas religiosas, culturais e normativas, ao longo da história, contribuem tanto para a produção de sentido quanto para o agravamento do mal-estar psíquico. O objetivo consiste em compreender o sofrimento psíquico como fenômeno multifatorial, resultante da interação entre pulsões individuais, exigências civilizatórias e discursos sociais. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza teórica, baseada em revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos da Psicanálise, da Sociologia e da Filosofia, como Freud, Lacan, Zimerman, Bauman e Eliade. Os resultados indicam que, embora a religião e a cultura tenham historicamente exercido funções organizadoras e simbólicas, também operam como instâncias normativas que impõem renúncias pulsionais, favorecendo conflitos intrapsíquicos, sentimento de culpa e exclusão social. A discussão evidencia que, na contemporaneidade, marcada pela fragilização dos vínculos e pela lógica do desempenho, tais conflitos se intensificam, exigindo uma escuta clínica e social sensível à singularidade do sujeito. Conclui-se que a Psicanálise oferece importante contribuição para a compreensão do mal-estar psíquico, ao articular dimensões históricas, culturais e subjetivas, promovendo possibilidades de elaboração simbólica e ressignificação do sofrimento humano.

Palavras-chave: Psicanálise; Mal-estar Psíquico; Religião; Cultura Contemporânea; Subjetividade.

Abstract

This article analyzes the relationship between religion, culture, and psychic malaise from ancient to contemporary periods, considering the historical, social, and subjective transformations that shape the constitution of the subject. The justification for this study is grounded in the relevance of the theme to the Human Sciences and Psychoanalysis, particularly in light of the growing prevalence of psychological suffering and social tensions in contemporary society. The central research problem investigates how religious, cultural, and normative structures throughout history have contributed both to the production of meaning and to the intensification of psychic malaise. The objective is to understand psychological suffering as a multifactorial phenomenon resulting from the interaction between individual drives, civilizational demands, and social discourses. Methodologically, this is a qualitative, theoretical study based on a literature review of classical and contemporary authors in Psychoanalysis, Sociology, and Philosophy, such as Freud, Lacan, Zimerman, Bauman, and Eliade. The results indicate that although religion and culture have historically played organizing and symbolic roles, they also function as normative instances that impose drive renunciations, fostering intrapsychic conflicts, feelings of guilt, and social exclusion. The discussion highlights that, in contemporaneity—marked by the weakening of social bonds and the logic of performance—these conflicts are intensified, requiring clinical and social listening sensitive to the subject’s singularity. It is concluded that Psychoanalysis offers an important contribution to the understanding of psychic malaise by articulating historical, cultural, and subjective dimensions, promoting possibilities for symbolic elaboration and the resignification of human suffering.

Keywords: Psychoanalysis; Psychic Malaise; Religion; Contemporary Culture; Subjectivity.

Introdução

Do antigo ao contemporâneo, religião, cultura e mal estar psíquico caminham juntos, mesmo que diante de denominações, diversidades sociais ou demais fatores que separam uns dos outros conforme normas criadas e não legalizadas. Quem manda e quem recebe ordens continuam se conflituando, demandando, dentro de cenários onde uma autoridade ou sujeito capaz busca dirimir o conflito.

No campo das Ciências Humanas, o termo antigo refere-se a períodos históricos caracterizados por formas tradicionais de organização social, cultural, simbólica e religiosa, nas quais o tempo, a autoridade e o conhecimento eram compreendidos como heranças transmitidas entre gerações. Segundo Le Goff (2015), o mundo antigo é marcado por uma concepção de tempo vinculada à memória coletiva, à tradição e à permanência dos costumes, sendo o passado um elemento estruturante da identidade social. Nesse sentido, o antigo não se define apenas cronologicamente, mas também por sua lógica simbólica, na qual os mitos, os ritos e as crenças religiosas ocupam papel central na organização da vida social e psíquica.

Do ponto de vista cultural, Eliade (1992) destaca que, nas sociedades antigas, o sagrado estruturava a realidade, conferindo sentido à existência humana e orientando as práticas sociais. O antigo, portanto, caracteriza-se por uma forte integração entre religião, cultura e vida cotidiana, na qual o indivíduo se reconhecia como parte de uma ordem cósmica e simbólica mais ampla.

O termo contemporâneo refere-se ao período histórico marcado por profundas transformações sociais, culturais e subjetivas, especialmente a partir da modernidade tardia e do advento da globalização. Para Agamben (2009), o contemporâneo é aquele que pertence ao seu tempo, mas que também mantém uma relação crítica com ele, sendo capaz de perceber suas rupturas, contradições e zonas de obscuridade. Assim, o contemporâneo não se define apenas pela atualidade cronológica, mas pela experiência de viver em um tempo caracterizado pela fragmentação, pela aceleração e pela instabilidade das referências simbólicas.

Na cultura contemporânea, observa-se o enfraquecimento das tradições e das narrativas totalizantes, incluindo as religiosas, ao mesmo tempo em que emergem novas formas de subjetivação e de busca de sentido. Bauman (2007) aponta que a contemporaneidade é marcada pela fluidez das relações, pela precarização dos vínculos e pela intensificação do individualismo, fatores que impactam diretamente a constituição psíquica do sujeito e sua relação com o sofrimento. Nesse contexto, a religião passa a ocupar um lugar ambivalente, podendo funcionar tanto como fonte de sentido quanto como espaço de conflito subjetivo.

A religiosidade pode ser compreendida como um sistema simbólico e normativo que orienta crenças, valores e práticas, exercendo influência significativa sobre a conduta individual e coletiva. Para além da promessa de salvação da alma, a experiência religiosa envolve a articulação entre discurso e prática, exigindo que os princípios espirituais se traduzam em atitudes éticas, ações solidárias e gestos concretos no cotidiano (ELIADE, 1992; JAMES, 2002). Nesse sentido, o sagrado não se restringe a uma dimensão transcendental, mas manifesta-se no campo do real, orientando comportamentos e formas de relação com o outro.

As normas sociais e jurídicas, por sua vez, possuem caráter regulatório e buscam organizar a convivência humana por meio de princípios como a não violência e a preservação da vida. Todavia, a aplicação das leis revela-se permeada por conflitos interpretativos, gerando ansiedade, insegurança e tensões emocionais nos sujeitos envolvidos em disputas judiciais ou sociais (FOUCAULT, 2014). A distância entre a normatividade legal e a vivência subjetiva evidencia que a simples existência de regras não garante, por si só, a internalização ética ou o equilíbrio psíquico dos indivíduos.

A cultura, entendida como um conjunto de práticas, valores e significados historicamente construídos, também participa da produção do mal-estar psíquico, tanto no interior quanto fora das instituições religiosas. Freud (2010) já apontava que a vida em sociedade impõe renúncias pulsionais que geram conflitos internos inevitáveis. No campo religioso, observa-se a formação de grupos, subgrupos e denominações que compartilham objetivos comuns, vínculos afetivos e identificações simbólicas, mas que também podem produzir rivalidades, disputas de poder e fragmentações internas, refletindo a pluralidade cultural e subjetiva dos fiéis.

Não se pode pressupor que, dentro de um mesmo grupo religioso, exista homogeneidade de compreensão ou concordância plena quanto às normas, dogmas e práticas. Os sujeitos que compõem esses grupos são atravessados por histórias singulares, formações culturais diversas e diferentes níveis de apropriação do discurso religioso. Essa diversidade favorece processos de migração religiosa, desmembramentos institucionais e a emergência de novas denominações, frequentemente impulsionadas pela busca individual por sentido, pertencimento e verdade existencial (BERGER, 2012).

Na contemporaneidade, tais dinâmicas tornam-se ainda mais complexas diante da globalização e da fragilização das referências simbólicas tradicionais. Observa-se, em alguns contextos, a dificuldade de lideranças religiosas em exercer uma escuta ética e acolhedora, o que pode intensificar conflitos intrapsíquicos, tensões familiares e sofrimento comunitário. A incapacidade de reconhecer o outro em sua alteridade compromete o bem-estar nos âmbitos familiar, social e religioso, contrariando os próprios princípios éticos que sustentam o discurso do sagrado (FROMM, 2006).

A passagem de uma lógica retributiva — expressa simbolicamente no período em que a vingança era privada e se aplicava a pena “olho por olho, dente por dente” — para uma ética do perdão e da alteridade representa um marco fundamental na tradição cristã. A narrativa bíblica da relação entre Jesus e Judas ilustra uma ética que prioriza o perdão, a responsabilidade subjetiva e o reconhecimento da fragilidade humana, em oposição à vingança e à punição imediata (RICOEUR, 2008). Sob a ótica psicanalítica, tal postura aponta para a possibilidade de elaboração simbólica do conflito, em vez de sua repetição violenta.

No campo jurídico e social, embora o direito à vida seja amplamente defendido, persiste o debate sobre os limites da liberdade individual e a responsabilização de sujeitos cujas ações causam danos a terceiros. A tensão entre a sacralidade da vida e a necessidade de proteção coletiva evidencia o caráter ambíguo das instituições humanas, que oscilam entre princípios éticos universais e práticas punitivas (AGAMBEN, 2010). Essa ambivalência também se reflete no campo religioso, onde a vivência do sagrado não imuniza o sujeito contra falhas morais.

Práticas como roubo e corrupção permanecem presentes na sociedade contemporânea, demonstrando que a proximidade com o sagrado não elimina a possibilidade do erro, do desejo de apropriação ou da transgressão. Do ponto de vista psicanalítico, tais condutas podem ser compreendidas como expressões do conflito entre desejo, lei e culpa, reafirmando que o sujeito religioso continua atravessado pelas mesmas tensões psíquicas que estruturam a condição humana (FREUD, 2010). Assim, a religião deve ser analisada criticamente, reconhecendo tanto seu potencial ético quanto seus limites na regulação do comportamento e do sofrimento psíquico.

O mal-estar psíquico pode ser compreendido como um fenômeno produzido na intersecção entre a vida pulsional do sujeito e as exigências impostas pela organização social. Freud (2010) já apontava que a civilização se sustenta à custa da renúncia pulsional, gerando sentimento de revolta, indignação e sofrimento subjetivo. Nesse contexto, as dinâmicas sociais tendem a estruturar relações marcadas pela oposição entre vitimização e vitimados, bem como entre agressores e vítimas, revelando conflitos que ultrapassam o âmbito individual e se inscrevem no campo cultural.

A partir da psicanálise social, autores como Fromm (2006) e Marcuse (1975) destacam que o sistema capitalista contribui para a intensificação do sofrimento psíquico ao promover relações baseadas na competição, no desempenho e na dominação, reforçando a lógica da lei do mais forte. Tal configuração social favorece processos de alienação, desamparo e perda de sentido, nos quais o sujeito se vê capturado por estruturas que perpetuam desigualdades e formas sutis de violência simbólica.

Sob a perspectiva lacaniana, o mal-estar contemporâneo pode ser entendido como efeito do discurso social que regula o desejo e organiza as relações de poder. Para Lacan (1998), os discursos dominantes produzem posições subjetivas específicas, nas quais o sujeito oscila entre a identificação com o lugar de vítima e a reprodução inconsciente de práticas agressivas e opressoras. Assim, o sofrimento psíquico não se reduz a uma experiência individual, mas emerge como sintoma de um laço social atravessado por contradições estruturais.

Dessa forma, o mal-estar psíquico revela-se como expressão de conflitos históricos e culturais que se perpetuam nas civilizações, alimentando revoltas sociais, tensões coletivas e agravamentos do sofrimento mental.

A psicanálise contribui ao evidenciar que tais manifestações não podem ser compreendidas apenas em termos morais ou jurídicos, mas como efeitos de uma organização social que impõe limites ao desejo e, simultaneamente, produz sujeitos marcados pelo desamparo e pela angústia (FREUD, 2010; LACAN, 1998). Zimerman (2010) destaca que a constituição do sujeito ocorre no campo relacional, sendo profundamente influenciada pelos vínculos primários e pelos modelos identificatórios oferecidos pela cultura. Em sociedades estruturadas sob a lógica da competitividade e da dominação — como observado no sistema capitalista contemporâneo —, tende a prevalecer a chamada lei do mais forte, o que favorece a cristalização de posições subjetivas rígidas, nas quais indivíduos alternam entre os papéis de vítimas, agressores ou perpetuadores inconscientes do sistema. Essas dinâmicas contribuem significativamente para o agravamento do sofrimento psíquico.

Do ponto de vista psicanalítico, Zimerman (2010) enfatiza que o mal-estar não deve ser reduzido a um diagnóstico psicopatológico isolado, mas compreendido como expressão de conflitos intrapsíquicos associados ao laço social. Tal compreensão dialoga com Freud (2010), ao afirmar que a civilização impõe renúncias pulsionais que, quando excessivas ou mal elaboradas, produzem angústia, ressentimento e sintomas psíquicos. Assim, o sofrimento emerge tanto da repressão quanto da impossibilidade de dar sentido às experiências emocionais vividas no contexto social.

Dessa forma, o mal-estar psíquico revela-se como um fenômeno multifatorial, atravessado por determinantes históricos, culturais e relacionais. A contribuição de Zimerman amplia essa compreensão ao ressaltar a importância da escuta clínica e da elaboração simbólica como caminhos fundamentais para a transformação do sofrimento, permitindo ao sujeito ressignificar suas experiências e construir formas mais saudáveis de inserção no mundo social (ZIMERMAN, 2010).

Como mal estar psicológico, menção às diversidades sociais, culturais, familiares, religiosas dentro de um contexto universal onde o “outro” é singular, não mudando o cenário de há séculos onde os portadores de qualquer tipo de deficiência eram afastados da sociedade.

Que não seja neste século o confinamento, mas a falta de zelo, de proteção do estado, da família e a própria rejeição social, em todos os âmbitos, acerca dos portadores de transtornos de qualquer natureza, física ou mental.

Quanto à sintomatologia psicológica, esta refere-se ao conjunto de sinais e sintomas emocionais, cognitivos, comportamentais e fisiológicos que indicam sofrimento psíquico ou alterações no funcionamento mental do indivíduo. De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5, os sintomas psicológicos são compreendidos como manifestações observáveis e/ou relatadas que causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do sujeito (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

O DSM-5 estabelece que tais sintomas não devem ser analisados de forma isolada, mas considerados dentro de um conjunto estruturado de critérios diagnósticos, levando em conta a duração, a intensidade, a frequência e o impacto funcional. Entre os sintomas psicológicos mais recorrentes descritos pelo manual estão alterações do humor, ansiedade excessiva, pensamentos intrusivos, distorções cognitivas, prejuízos na regulação emocional, comportamentos evitativos, alterações do sono e do apetite, além de sintomas somáticos associados ao sofrimento psíquico (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014).

Além disso, o DSM-5 enfatiza a importância de uma avaliação clínica criteriosa que considere fatores culturais, sociais e contextuais, evitando a patologização de experiências humanas normativas. Nesse sentido, a sintomatologia psicológica deve ser compreendida como expressão de uma interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e ambientais, podendo variar significativamente de acordo com a história de vida e o contexto sociocultural do indivíduo (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014)

A Psicanálise, desde sua formulação inicial por Sigmund Freud, oferece contribuições fundamentais para a compreensão do mal-estar psíquico, ao considerar o sujeito como atravessado por conflitos inconscientes, desejos, pulsões e exigências impostas pela cultura. Para Freud (2010), o sofrimento psíquico não pode ser compreendido apenas como um fenômeno individual, mas como resultado das tensões entre as pulsões humanas e as normas civilizatórias, que exigem renúncias constantes. Nesse sentido, o mal-estar constitui uma condição estrutural da vida em sociedade, manifestando-se de diferentes formas ao longo do desenvolvimento humano, desde a infância até a vida adulta.

No contexto contemporâneo, marcado por transformações sociais aceleradas, hiperconectividade, precarização das relações e intensificação das demandas de desempenho, a Psicanálise mantém sua relevância ao oferecer instrumentos teóricos e clínicos para a leitura do sofrimento subjetivo. Autores como Birman (2012) destacam que o sujeito contemporâneo vivencia novas formas de sofrimento, como o vazio existencial, a ansiedade generalizada e os estados depressivos, frequentemente relacionados à fragilização dos vínculos sociais e à perda de referências simbólicas. Assim, o mal-estar psíquico assume configurações singulares, exigindo uma escuta clínica atenta às especificidades do tempo presente.

A partir da perspectiva psicanalítica, o sofrimento psíquico é compreendido como uma expressão simbólica de conflitos internos, muitas vezes relacionados às experiências precoces, às relações objetais e à constituição do aparelho psíquico. Winnicott (1975) ressalta a importância do ambiente e das relações primárias na formação do self, indicando que falhas ambientais podem gerar angústias profundas e dificuldades na capacidade de simbolização. Desse modo, a Psicanálise compreende o mal-estar não apenas como patologia, mas como sinal de um impasse subjetivo que demanda elaboração e ressignificação.

Por fim, a contribuição da Psicanálise diante do mal-estar psíquico estende-se para além do setting clínico, alcançando campos como a educação, a saúde, a cultura e as políticas públicas. Ao reconhecer o sujeito em sua singularidade e historicidade, a abordagem psicanalítica possibilita uma compreensão ampliada das formas de sofrimento que atravessam a vida contemporânea. Conforme aponta Roudinesco (2000), a Psicanálise permanece atual justamente por sua capacidade de interrogar o humano em suas contradições, oferecendo um espaço de escuta e reflexão frente às exigências e impasses da civilização.

A Psicanálise constitui um campo teórico-clínico fundamental para a compreensão do sujeito contemporâneo, ao conceber o indivíduo como resultado de processos inconscientes, históricos e relacionais. Desde Freud, a subjetividade é entendida como atravessada por conflitos entre desejos pulsionais e as exigências da cultura, o que coloca o sofrimento psíquico como elemento constitutivo da condição humana (FREUD, 2010). Na contemporaneidade, marcada por rápidas transformações sociais, tecnológicas e culturais, esses conflitos tendem a se intensificar, produzindo novas formas de mal-estar e demandando leituras clínicas sensíveis às mudanças do laço social.

As transformações culturais e econômicas contemporâneas têm impactado diretamente a constituição psíquica do sujeito. Autores como Bauman (2007) e Birman (2012) apontam que a fragilização dos vínculos, a lógica do consumo e a exigência de desempenho permanente contribuem para o aumento de sintomas como ansiedade, depressão e sensação de vazio existencial. A Psicanálise, ao privilegiar a escuta do sujeito e a singularidade de sua história, oferece instrumentos para compreender como esses fatores socioculturais são internalizados e elaborados no aparelho psíquico, produzindo formas específicas de sofrimento.

Do ponto de vista clínico, a Psicanálise compreende o sintoma não apenas como um distúrbio a ser eliminado, mas como uma formação do inconsciente que expressa conflitos, desejos e impasses subjetivos. Conforme destaca Lacan (1998), o sujeito é constituído na e pela linguagem, sendo o sintoma uma tentativa de resposta ao mal-estar produzido pela relação com o Outro e com as normas sociais. Assim, a clínica psicanalítica contemporânea busca favorecer processos de simbolização e elaboração, permitindo ao sujeito construir novos sentidos para sua experiência psíquica.
Por fim, a relevância da Psicanálise na compreensão do sujeito contemporâneo estende-se para além do campo clínico, contribuindo para reflexões críticas sobre cultura, política, educação e saúde mental. Ao problematizar os efeitos subjetivos das exigências sociais e das transformações culturais, a Psicanálise mantém-se atual como um saber que interroga o humano em suas contradições e limites. Como afirma Roudinesco (2000), a Psicanálise permanece viva justamente por sua capacidade de dialogar com os impasses do tempo presente, oferecendo um espaço ético de escuta e compreensão do sofrimento psíquico.

Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza teórica, desenvolvida por meio de revisão de literatura, método amplamente utilizado nas Ciências Humanas para a análise crítica de conceitos, teorias e produções científicas já consolidadas sobre determinado tema (GIL, 2019). Essa abordagem possibilita a compreensão aprofundada dos fenômenos investigados, sem a pretensão de quantificação ou generalização estatística dos dados.

A revisão de literatura concentrou-se em obras clássicas e contemporâneas da Psicanálise, da Psicologia da Religião, da Sociologia e da Filosofia, contemplando autores como Freud, Lacan, Zimerman, Bauman, Eliade, Birman e Winnicott. A seleção do material bibliográfico considerou a relevância teórica, a consistência conceitual e a contribuição dos autores para a compreensão do mal-estar psíquico no contexto religioso e cultural.

As fontes consultadas incluíram livros, artigos científicos, documentos institucionais e manuais diagnósticos, como o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5. O levantamento bibliográfico foi realizado em bases de dados acadêmicas reconhecidas, priorizando produções que abordam a relação entre subjetividade, cultura, religião e sofrimento psíquico, especialmente no contexto contemporâneo.

A análise dos dados seguiu um procedimento interpretativo e crítico, fundamentado na articulação entre os referenciais teóricos selecionados. Buscou-se identificar convergências, divergências e contribuições dos autores no que se refere à constituição do sujeito e ao mal-estar psíquico, permitindo uma leitura interdisciplinar que integra dimensões históricas, culturais e subjetivas, conforme preconiza a tradição psicanalítica.

Resultados e discussão

A análise da literatura evidenciou que a religião e a cultura desempenham um papel ambivalente na constituição do sujeito e na experiência do mal-estar psíquico. Os resultados indicam que, historicamente, as estruturas religiosas atuaram como importantes organizadoras simbólicas da vida social, oferecendo sentido, pertencimento e formas de elaboração do sofrimento humano. Entretanto, quando vivenciadas de modo rígido, normativo ou dogmático, tais estruturas podem intensificar sentimento de culpa, submissão e exclusão, favorecendo conflitos intrapsíquicos e sofrimento psíquico, conforme apontado por Freud (2010) e Eliade (1992). Assim, a religião revela-se tanto como fator de proteção quanto como potencial elemento agravador do mal-estar.

No contexto contemporâneo, os estudos analisados demonstram que as transformações culturais, marcadas pela fragilização dos vínculos sociais, pela lógica do desempenho e pela fluidez das relações, intensificam as manifestações do sofrimento psíquico. Autores como Bauman (2007) e Birman (2012) destacam que o enfraquecimento das referências simbólicas tradicionais contribui para o aumento de quadros de ansiedade, depressão e sentimentos de vazio existencial. Nesse cenário, a religião passa a ocupar um lugar paradoxal: ao mesmo tempo em que pode oferecer sustentação emocional, também pode reforçar exigências normativas que ampliam a angústia e dificultam a elaboração subjetiva do sofrimento.

A discussão dos resultados aponta que a Psicanálise oferece uma contribuição fundamental para a compreensão do mal-estar psíquico ao articular dimensões históricas, culturais e subjetivas. A partir da perspectiva psicanalítica, o sofrimento não é reduzido a um fenômeno individual ou patológico, mas compreendido como expressão de conflitos inerentes à relação entre pulsões, cultura e discurso social (FREUD, 2010; LACAN, 1998). Dessa forma, evidencia-se a importância de uma escuta clínica e social que reconheça a singularidade do sujeito, promovendo possibilidades de simbolização e ressignificação do sofrimento, especialmente em contextos religiosos e culturais marcados por tensões normativas.

Conclusão

O presente estudo confirmou a relevância da temática proposta ao evidenciar que a relação entre religião, cultura e mal-estar psíquico permanece central para as Ciências Humanas e, especialmente, para a Psicanálise. A justificativa do trabalho mostrou-se pertinente diante do crescimento do sofrimento psíquico na contemporaneidade, marcado por intensas transformações sociais, fragilização dos vínculos e crise das referências simbólicas. A análise teórica demonstrou que tanto a religião quanto a cultura continuam exercendo influência significativa na constituição subjetiva, afetando diretamente as formas pelas quais os sujeitos elaboram o sofrimento e buscam sentido para a existência.

No que se refere à problemática de pesquisa, os resultados indicaram que as estruturas religiosas, culturais e normativas, ao longo da história, operam de maneira ambivalente: ao mesmo tempo em que oferecem sustentação simbólica, pertencimento e organização psíquica, também impõem renúncias pulsionais, normas rígidas e discursos moralizantes que podem intensificar conflitos intrapsíquicos, sentimento de culpa e exclusão social. Essa ambivalência torna-se ainda mais evidente na contemporaneidade, em que o enfraquecimento das tradições e o predomínio da lógica do desempenho ampliam o mal-estar psíquico e dificultam a elaboração subjetiva do sofrimento.

Quanto ao objetivo do estudo, conclui-se que o sofrimento psíquico deve ser compreendido como um fenômeno multifatorial, resultante da interação entre pulsões individuais, exigências civilizatórias e discursos sociais. A Psicanálise mostrou-se um referencial teórico fundamental para essa compreensão, ao possibilitar a articulação entre dimensões históricas, culturais e inconscientes da experiência humana. Ao reconhecer o sujeito em sua singularidade, a Psicanálise contribui para a ressignificação do sofrimento, tanto no âmbito clínico quanto social.

Por fim, conclui-se que a religião não deve ser analisada de forma reducionista ou exclusivamente normativa, mas como um fenômeno complexo que pode tanto favorecer a elaboração simbólica quanto produzir sofrimento quando associada à negação da escuta, da alteridade e do cuidado clínico. Defende-se, portanto, a necessidade de uma articulação ética entre fé, cultura e ciência, capaz de promover práticas de cuidado em saúde mental que respeitem a singularidade do sujeito e respondam de forma sensível aos impasses do mundo contemporâneo.

Referências

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  1. Sargento da Policia Militar (Profissional em Segurança Pública no Estado de Rondônia) desde 2006. Bacharel em TEOLOGIA pela (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo – 2015. Docência do Ensino Superior (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo – 2017. Pós Graduado em Capelania (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo- 2017. Mestre em Teologia pela DARDAH FLORIDA UNIVERSITY – 2025. Doutorando em Teologia pela DARDAH FLORIDA UNIVERSITY. Doutorando em Psicanalise pelo Instituto de Formação Acadêmica FATEB. Autor de obras (SE TU QUISERES 2021; E FECHADA A PORTA 2025). Pastor da Igreja Assembleia de Deus-ADMES em Austin-Tx, USA. E-mail: danielandrade.texas@gmail.com.