A religião como resposta ao desamparo humano: uma interpretação freudiana

Religion as a response to human helplessness: a Freudian interpretation

Daniel Andrade da Silva[1]

Resumo - O presente artigo tem como objetivo analisar as interfaces contemporâneas entre religião, normatividade e desamparo humano, articulando contribuições da sociologia, da filosofia e da psicanálise. Justifica-se a relevância do estudo diante do papel historicamente atribuído às instituições religiosas como instâncias de amparo simbólico, ético e emocional, sobretudo em contextos marcados por sofrimento psíquico, exclusão social e crises existenciais. A problemática central reside na tensão entre normas religiosas tradicionais e as demandas sociais contemporâneas, que frequentemente produzem contradições entre discurso institucional e práticas concretas de acolhimento, intensificando experiências de desamparo subjetivo e social. Metodologicamente, trata-se de um estudo teórico-reflexivo, fundamentado em autores clássicos e contemporâneos, como Freud, Durkheim, Weber, Berger, Bauman e Safatle. Os resultados indicam que, embora a religião possa funcionar como espaço de sentido, pertencimento e suporte emocional, ela também pode operar como instância normativa excludente, especialmente quando sustenta verdades rígidas dissociadas das realidades vividas pelos sujeitos. Observa-se que o desamparo humano não se restringe à vulnerabilidade biológica ou social, mas constitui uma condição estrutural da existência, atravessada por conflitos psíquicos, familiares, culturais e institucionais. Conclui-se que o enfrentamento do desamparo humano exige uma revisão crítica das práticas religiosas e familiares, de modo a privilegiar ações inclusivas, dialógicas e humanizadoras. O reconhecimento do desamparo como condição ontológica, e não apenas como falha individual, amplia as possibilidades de cuidado, solidariedade e transformação social, recolocando a religião como potencial espaço de acolhimento ético e subjetivo no mundo contemporâneo.

Palavras-chave: Religião; Desamparo humano; Normatividade; Psicanálise; Laço social.

Abstract - This article aims to analyze the contemporary interfaces between religion, normativity, and human helplessness, drawing on contributions from sociology, philosophy, and psychoanalysis. The study is justified by the historical role of religious institutions as sources of symbolic, ethical, and emotional support, especially in contexts marked by psychological suffering, social exclusion, and existential crises. The central problem concerns the tension between traditional religious norms and contemporary social demands, which often generate contradictions between institutional discourse and concrete practices of care, thereby intensifying experiences of subjective and social helplessness. Methodologically, this is a theoretical and reflective study grounded in classical and contemporary authors such as Freud, Durkheim, Weber, Berger, Bauman, and Safatle. The results indicate that while religion may function as a space of meaning, belonging, and emotional support, it can also operate as an exclusionary normative system, particularly when it sustains rigid truths disconnected from individual’s lived realities. Human helplessness is shown not to be limited to biological or social vulnerability, but rather to constitute a structural condition of existence, shaped by psychological, familial, cultural, and institutional conflicts. The study concludes that addressing human helplessness requires a critical reassessment of religious and family practices, emphasizing inclusive, dialogical, and humanizing actions. Recognizing helplessness as an ontological condition rather than an individual failure expands possibilities for care, solidarity, and social transformation, repositioning religion as a potential space for ethical and subjective support in contemporary society.

Keywords: Religion; Human helplessness; Normativity; Psychoanalysis; Social bonds.

Introdução

Religião, normatividade e desamparo humano: interfaces contemporâneas. A religião tem exercido, ao longo da história, um papel central como fonte de amparo diante do sofrimento humano, oferecendo sentidos associados à misericórdia, à clemência e à esperança de salvação. Contudo, à medida que as sociedades se transformaram cultural e historicamente, também se diversificaram as interpretações das escrituras sagradas e dos mandamentos religiosos, dando origem a normas específicas em cada denominação. Nesse contexto, temas como o casamento após o divórcio — ainda não reconhecido pela Igreja Católica — e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, aceito por algumas tradições religiosas, evidenciam tensões entre dogmas tradicionais e demandas sociais contemporâneas (BOFF, 2012; BERGER, 2017).

Para muitos fiéis, a participação em instituições religiosas assume significados distintos, oscilando entre a simples presença física e uma vivência mais profunda de comunhão e consagração ao sagrado. Essa distinção revela que a religiosidade não se restringe a práticas externas, mas envolve dimensões subjetivas, éticas e espirituais. Conforme Durkheim (2008), a religião opera como um sistema simbólico que orienta condutas, valores e formas de pertencimento coletivo, sendo a interiorização dessas normas um elemento fundamental para a coesão social e individual.

Entretanto, a adesão religiosa nem sempre se traduz em transformação ética ou espiritual. Em determinados contextos, observa-se que a identificação formal como cristão pode coexistir com práticas contraditórias aos princípios defendidos, produzindo danos a terceiros e reforçando relações instrumentalizadas com o sagrado. Tal fenômeno pode ser compreendido à luz da crítica de Weber (2004), ao destacar a possibilidade de racionalização da fé, na qual práticas religiosas passam a ser utilizadas como meios para obtenção de benefícios simbólicos, sociais ou econômicos, distanciando-se de seu caráter transcendental.

Essa tensão entre o sagrado e o material revela-se ainda mais evidente quando se reconhece que o ser humano, no âmbito do cristianismo, é compreendido como sujeito histórico, inserido em realidades múltiplas e heterogêneas. Cada indivíduo carrega trajetórias de vida singulares, marcadas por condicionantes sociais, culturais e econômicas, que influenciam sua forma de vivenciar a fé. Nesse sentido, a noção de verdade religiosa passa a coexistir com diferentes percepções de realidade, muitas vezes atravessadas por conflitos morais, sociais e existenciais (GEERTZ, 2008).

Para alguns indivíduos, a religiosidade pode representar um caminho autêntico de ressignificação da vida; para outros, pode assumir contornos de estratégia de adaptação social, busca por aceitação, proteção ou retorno simbólico e material. Essa vivência marcada pela aparência, e não pela interiorização, tende a produzir um esvaziamento subjetivo, mantendo estruturas de sofrimento psíquico e conflitos internos não elaborados (FRANKL, 2011).

No que se refere ao desamparo humano, este pode ser compreendido não apenas como isolamento social, familiar ou profissional, mas também como um processo subjetivo de afastamento emocional e existencial. Tal condição é atravessada por múltiplos fatores, como comorbidades físicas e psíquicas, estilo de vida, herança genética, hábitos de consumo e experiências relacionais marcadas por violência e exclusão. Conforme Freud (2010), o mal-estar na civilização decorre justamente da tensão entre os impulsos individuais e as exigências normativas da vida em sociedade.

O ser humano, ao longo de seu desenvolvimento, constrói sua personalidade, manifesta emoções e estabelece vínculos sociais, estando permanentemente em busca de sentido e reconhecimento. Entre o consciente e o inconsciente, transita por universos de certezas e incertezas que exigem, em algum momento, o enfrentamento de fragilidades e conflitos internos. Esse processo implica reconhecer limites, aceitar o cuidado do outro e inserir-se de forma autêntica em sua própria realidade, compreendida como uma construção social permeada por valores, crenças, opiniões e representações simbólicas. Quando tais diferenças não são acolhidas, podem gerar constrangimento, exclusão e danos significativos ao indivíduo, tanto no plano psíquico quanto social.

As críticas dirigidas às ações das instituições religiosas, especialmente no que se refere à postura de suas lideranças e ao enfrentamento do desamparo humano, estendem-se tanto aos dirigentes quanto aos membros das comunidades de fé. Tais críticas emergem em contextos históricos e sociais marcados por disputas de poder, divergências doutrinárias e conflitos de interpretação, os quais, muitas vezes, resultam em fragmentações internas e no surgimento de novos grupos religiosos com finalidades distintas. Esse processo não é recente, uma vez que, desde os primórdios das divisões do cristianismo, especialmente a partir das rupturas no catolicismo, desencontros de opiniões entre lideranças contribuíram para a formação de novas denominações, acolhendo sujeitos que se sentiam deslocados ou não representados pelas estruturas religiosas vigentes (BERGER, 2017; WEBER, 2004).

No cenário contemporâneo, a humanidade enfrenta crises profundas relacionadas à fome, à miséria, à exclusão social e à intensificação do sofrimento psíquico. Diante desse contexto, a busca pela religião permanece contínua, configurando-se como uma tentativa de encontrar sentido, acolhimento e suporte emocional. As diversas expressões religiosas oferecem formas de acolhida que dialogam com dimensões humanitárias, sociais e emocionais, atendendo, em maior ou menor grau, às necessidades dos indivíduos. Contudo, esse acolhimento não se dá de maneira homogênea, pois está condicionado às possibilidades institucionais, aos recursos disponíveis e às concepções de verdade e realidade que orientam cada tradição religiosa (BOFF, 2012; FRANKL, 2011).

Essas concepções de verdade e realidade constituem parâmetros centrais na tomada de decisões por parte das lideranças religiosas. Entretanto, quando há discrepâncias entre o discurso institucional e as práticas efetivas, emergem críticas que evidenciam tensões entre o que é proclamado e o que é vivenciado no cotidiano das comunidades de fé. Tal contradição pode comprometer a credibilidade das instituições religiosas e aprofundar sentimentos de frustração, exclusão e desamparo entre os fiéis, sobretudo aqueles em situação de vulnerabilidade social e emocional (DURKHEIM, 2008).

Além disso, observa-se que o ser humano, inserido em contextos culturais historicamente construídos, tende a buscar status, reconhecimento social e continuidade de valores materiais e simbólicos. Elementos como nome, sobrenome e linhagem familiar, tradicionalmente valorizados em determinadas culturas religiosas, funcionam como sustentáculos de paradigmas seculares que, muitas vezes, entram em conflito com as demandas do mundo globalizado. Nesse cenário, as necessidades humanas fundamentais — como dignidade, acolhimento e pertencimento — passam a disputar espaço com valores subjetivos e estruturas simbólicas que nem sempre correspondem às reais urgências da vida contemporânea (GEERTZ, 2008; BAUMAN, 2001).

Assim, torna-se imprescindível que as instituições religiosas revisitam suas práticas e discursos, de modo a alinhar suas ações aos princípios humanitários que fundamentam sua existência. O enfrentamento do desamparo humano exige não apenas respostas doutrinárias, mas também ações concretas que considerem a complexidade das realidades sociais, emocionais e culturais dos indivíduos, promovendo inclusão, solidariedade e cuidado integral.

Sob uma perspectiva filosófica, sociológica e cristã, o desamparo humano pode ter origem no âmbito familiar, espaço primordial de socialização e construção de valores. É na família que se estabelecem os primeiros referenciais de reconhecimento, aceitação, limites e expectativas. Contudo, quando tais referenciais se organizam a partir de normas rígidas, tradições inflexíveis e ideais idealizados de “família perfeita”, frequentemente desvinculados de processos comunicacionais efetivos, podem produzir efeitos de exclusão subjetiva e sofrimento psíquico. Nesses casos, a imposição de condutas e regramentos — sejam familiares ou religiosos — tende a suprimir a liberdade, o desejo e a singularidade dos sujeitos, gerando experiências de desajuste e desamparo diante de modelos que não se moldam à realidade concreta da vida cotidiana (BAUMAN, 2001; FREUD, 2011).

Tais imposições costumam apoiar-se em uma “verdade formal”, construída social e historicamente, que se apresenta como universal e imutável, mas que, na prática, reflete valores elaborados pelo próprio ser humano em contextos específicos. Essa dissociação entre verdade normativa e realidade vivida pode intensificar conflitos intrafamiliares, sobretudo quando as normas não consideram as limitações, desejos e trajetórias individuais. Do ponto de vista cristão, essa lógica contrasta com princípios fundamentais como o acolhimento, a misericórdia e o respeito à dignidade humana, amplamente discutidos na tradição teológica contemporânea (BOFF, 2012).

A religião, nesse contexto, frequentemente se apresenta como uma extensão da base familiar, oferecendo um sistema de valores que promete sentido, pertencimento, solidariedade e compromisso ético-cristão. No entanto, a adesão a uma denominação religiosa nem sempre resulta de uma escolha autônoma e consciente, sendo, muitas vezes, definida de forma unilateral, seja por herança familiar, seja pela decisão de um dos membros da família. Essa dinâmica evidencia a existência de subdivisões de valores no interior da própria família e revela fragilidades nos processos comunicacionais, os quais dificultam o diálogo e o reconhecimento das diferenças (BERGER, 2017).

À luz da psicanálise, as relações familiares não se estruturam a partir de padrões únicos e universais, mas constituem-se como um conjunto de sujeitos singulares, portadores de sonhos, expectativas e conflitos. Dessa forma, não é possível conceber a família como uma instituição homogênea ou isenta de tensões, tampouco conduzi-la sem referenciais éticos, morais e, em muitos casos, religiosos. As transformações familiares, marcadas por entradas e saídas de seus membros ao longo do tempo, reforçam a ideia de que a família é uma construção dinâmica e histórica (LACAN, 2003).

Nesse sentido, o conceito clássico de família, conforme apresentado por Fustel de Coulanges, permite compreender como a reorganização familiar, especialmente por meio do casamento, pode resultar na convivência de diferentes pertenças religiosas dentro de um mesmo núcleo familiar. O casamento, enquanto instituição social, remodela a família de origem e dá lugar à constituição de uma nova configuração familiar, que passa a negociar padrões, valores e práticas aceitas ou rejeitadas pelos grupos familiares dos nubentes. Tais negociações, quando permeadas por rigidez normativa, podem aprofundar conflitos e intensificar experiências de desamparo, sobretudo quando não há espaço para o diálogo e o reconhecimento da alteridade (COULANGES, 2009; GIDDENS, 2000).

Dessa forma, compreender o desamparo humano a partir das relações entre família e religião exige uma abordagem interdisciplinar, capaz de articular dimensões subjetivas, sociais e espirituais. Tal compreensão possibilita refletir criticamente sobre práticas familiares e religiosas que, ao invés de promoverem acolhimento e cuidado, acabam por reforçar normas excludentes e distanciadas das realidades vividas pelos sujeitos.

Freud localiza o desamparo primordial no momento do nascimento e nos primeiros anos de vida, relacionando-o diretamente à prematuridade biológica do ser humano. Diferentemente de outras espécies, o bebê humano nasce incapaz de garantir sua própria sobrevivência, dependendo integralmente de um outro — geralmente representado pela função materna — para a satisfação de suas necessidades vitais (FREUD, 1895/1969; 1926/1969). Essa dependência absoluta constitui o que Freud descreve como a marca mais antiga da fragilidade humana, uma “cicatriz” estrutural que inscreve o desamparo como condição originária da existência psíquica.

É a partir dessa necessidade de amparo que se inicia o processo de constituição do sujeito. A relação com o outro não apenas garante a sobrevivência física, mas inaugura a entrada na linguagem e na vida psíquica. O primeiro vínculo estabelecido é simultaneamente uma experiência de amor, dependência e satisfação, tornando-se o modelo primário de todas as relações posteriores. Assim, o desamparo não é apenas uma condição biológica, mas um fator determinante na organização do aparelho psíquico e na formação do laço social (FREUD, 1905/1969; LAPLANCHE; PONTALIS, 2001).

Freud argumenta que o desamparo não se limita à infância, persistindo ao longo da vida sob diferentes formas. Trata-se de uma condição estrutural que se atualiza diante das ameaças do mundo externo, das forças da natureza e, sobretudo, da certeza da finitude humana. A consciência da morte e da vulnerabilidade frente ao acaso reforça a experiência de desamparo, revelando a fragilidade do sujeito diante de fatores que escapam ao seu controle (FREUD, 1930/2010).

Além disso, o desamparo manifesta-se na relação do sujeito com o próprio psiquismo. As pulsões — especialmente as de natureza agressiva e sexual — impõem exigências constantes ao Eu, que frequentemente se vê incapaz de dominá-las plenamente. Essa dificuldade em controlar as forças internas produz angústia e sofrimento, evidenciando que o desamparo não decorre apenas do mundo externo, mas também da economia pulsional que atravessa o sujeito (FREUD, 1923/1969; 1926/1969).

Em O mal-estar na civilização (1930), Freud articula o desamparo à vida cultural, indicando que a civilização se organiza como um conjunto de estratégias defensivas frente a essa condição estrutural. A religião, nesse contexto, é compreendida como uma tentativa de proteção contra o desamparo, funcionando como uma regressão a um estado infantil em que o sujeito busca amparo em uma figura paterna onipotente. Freud interpreta a religião como um “delírio de massas”, destinado a mitigar a angústia gerada pela pequenez humana diante do mundo e da morte (FREUD, 1930/2010).

Do mesmo modo, a ciência, a arte e as instituições sociais são concebidas como aparatos simbólicos que visam oferecer algum tipo de sustentação frente ao desamparo. Embora não eliminem o sofrimento, essas produções culturais permitem ao sujeito criar formas de mediação com a realidade, tornando a vida em sociedade possível, ainda que marcada por renúncias pulsionais e conflitos permanentes (FREUD, 1930/2010; SAFATLE, 2015).

O desamparo encontra-se intimamente ligado à angústia (Angst), especialmente àquela que emerge quando o Eu se vê ameaçado de fragmentação ou perda de coesão. Freud destaca que o medo da perda do amor do outro tem suas raízes na experiência primária de dependência absoluta, na qual a sobrevivência estava diretamente vinculada ao cuidado recebido. Assim, a angústia de abandono atualiza, no adulto, a vivência infantil de desamparo (FREUD, 1926/1969).

Por fim, Freud sugere que o reconhecimento do desamparo comum constitui um dos fundamentos do laço social. O sujeito é levado a amar o próximo não apenas por identificação narcísica, mas porque reconhece no outro um ser igualmente desamparado e, portanto, alguém que pode oferecer auxílio diante da vulnerabilidade estrutural da existência. O desamparo, nesse sentido, não apenas fragiliza, mas também funda a possibilidade de solidariedade, cuidado e construção de vínculos sociais (FREUD, 1930/2010; CECCARELLI, 2009).

A noção de desamparo, assim, deixa de ser compreendida apenas como vulnerabilidade biológica do recém-nascido e passa a ser entendida como condição ontológica do sujeito. Trata-se da ausência de respostas adequadas aos estímulos internos, que coloca o psiquismo em um estado de insegurança radical e de falta de orientação mínima. Para Freud, o desamparo não é um acidente do desenvolvimento, mas o fundamento que impulsiona a criação de soluções psíquicas, sendo a formação do Eu apenas uma entre várias respostas possíveis a essa condição estrutural (CECCARELLI, 2009).

Essa concepção é radicalizada com a introdução da pulsão de morte em Para além do princípio do prazer (Freud, 1920/1969). A partir da clínica das neuroses traumáticas e da compulsão à repetição, Freud reconhece uma força pulsional que não se submete ao princípio do prazer nem à lógica de preservação da vida promovida por Eros. A pulsão de morte passa a ser entendida como uma tendência ao desligamento, ao retorno ao inorgânico, mas também como condição para a transformação e a ruptura com formas fixas de subjetivação (OLIVEIRA et al., 2016).

Nessa perspectiva, a morte deixa de ser concebida apenas como aniquilação e passa a integrar o próprio processo da vida, funcionando como negatividade produtiva. Safatle (2007) interpreta a pulsão de morte como uma ontologia negativa, na qual o desabamento de formas estáveis de existência abre espaço para novas possibilidades de vida. Lacan (1966) aprofunda essa leitura ao conceber a morte como simbólica, afirmando que o processo analítico visa justamente à ruptura da unidade imaginária do Eu, permitindo ao sujeito reinventar seus modos de laço com o outro.

Por fim, o desamparo, longe de constituir apenas uma condição de impotência, revela-se como potência de transformação subjetiva e política. Conforme argumenta Safatle (2015), estar desamparado significa suspender as garantias simbólicas que sustentam as formas hegemônicas de vida, abrindo-se à contingência e ao impossível. Nesse sentido, o desamparo pode ser compreendido como condição para a emancipação, pois desativa a demanda por figuras de autoridade e possibilita a emergência de novos modos de existência, de laço social e de ação política.

Conclusão

O presente estudo teve como objetivo analisar as interfaces contemporâneas entre religião, normatividade e desamparo humano, a partir de uma abordagem interdisciplinar que articulou contribuições da sociologia, da filosofia e da psicanálise. Ao longo da análise, evidenciou-se que o desamparo humano não pode ser compreendido de forma restrita à vulnerabilidade biológica, social ou econômica, mas deve ser reconhecido como uma condição estrutural da existência, constituinte da subjetividade e do laço social, conforme formulado por Freud e aprofundado por autores contemporâneos.

Os resultados permitiram demonstrar que as instituições religiosas ocupam historicamente um lugar ambíguo frente ao desamparo: ao mesmo tempo em que oferecem sentidos, pertencimento e suporte simbólico, podem também operar como instâncias normativas excludentes, sobretudo quando sustentam verdades rígidas dissociadas das realidades vividas pelos sujeitos. As tensões entre dogmas tradicionais e demandas sociais contemporâneas — como aquelas relacionadas às configurações familiares, à sexualidade e às transformações culturais — revelam contradições entre discurso institucional e práticas concretas de acolhimento, frequentemente intensificando experiências de sofrimento psíquico, exclusão e desamparo subjetivo.

A análise evidenciou, ainda, que o desamparo atravessa não apenas o campo religioso, mas também as relações familiares, sociais e culturais, sendo produzido e reproduzido por normas rígidas, ideais idealizados de família e modelos de subjetivação que não comportam a diversidade e a singularidade das trajetórias humanas. Nesse sentido, tanto a família quanto a religião, quando orientadas por lógicas autoritárias e pouco dialógicas, podem deixar de cumprir sua função de amparo, convertendo-se em espaços de silenciamento e sofrimento.

À luz da psicanálise, especialmente da obra freudiana, o desamparo foi compreendido como fundamento da constituição do sujeito e como motor da vida cultural, da religião e das instituições sociais. Longe de representar apenas fragilidade ou impotência, o desamparo mostrou-se também como condição de possibilidade para a criação de laços, para a solidariedade e para a transformação subjetiva e social. Conforme apontam Safatle e outros autores, reconhecer o desamparo como condição ontológica implica suspender garantias simbólicas absolutas e abrir espaço para práticas éticas mais inclusivas e humanizadoras.

Conclui-se, portanto, que o enfrentamento do desamparo humano no contexto contemporâneo exige uma revisão crítica das práticas religiosas, familiares e institucionais, de modo a privilegiar ações baseadas no diálogo, no reconhecimento da alteridade e no cuidado integral do sujeito. Ao deslocar o desamparo da lógica da falha individual para o campo da condição humana compartilhada, amplia-se a possibilidade de repensar o papel da religião como espaço ético de acolhimento, responsabilidade e compromisso com a dignidade humana, contribuindo para a construção de vínculos sociais mais solidários e menos excludentes.

Referências

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  1. Sargento da Policia Militar (Profissional em Segurança Pública no Estado de Rondônia) desde 2006. Bacharel em TEOLOGIA pela (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo – 2015. Docência do Ensino Superior (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo – 2017. Pós Graduado em Capelania (FAETEL) Faculdade de Educação Teológica e Ciências Sociais-LOGOS, São Paulo. São Paulo- 2017. Mestre em Teologia pela DARDAH FLORIDA UNIVERSITY – 2025. Doutorando em Teologia pela DARDAH FLORIDA UNIVERSITY. Doutorando em Psicanalise pelo Instituto de Formação Acadêmica FATEB. Autor de obras (SE TU QUISERES 2021; E FECHADA A PORTA 2025). Pastor da Igreja Assembleia de Deus-ADMES em Austin-Tx, USA. E-mail: danielandrade.texas@gmail.com.