A importância da leitura em todos os segmentos educacionais e a constituição de bibliotecas nas escolas: uma revisão integrativa.
The importance of reading in all educational segments and the creation of libraries in schools: an integrative review.
Orientadora: Mariana Marcelino Silva[1]
Maria de Fátima Lessa Matos[2]
Irislene Aparecida Silva Cornelio[3]
Maria dos Reis de Jesus Soares[4]
Nalva Brito Pacheco[5]
Érica da Silva Sales Tavares[6]
Natália Gonçalves Sousa[7]
Débora Cailyandra de Oliveira Costa[8]
Josafá Neto Pereira da Silva[9]
Andréia Silva da Silveira[10]
Rosângela Ferreira da Hora[11]
Adriana Figueredo dos Santos Cardozo[12]
RESUMO
A leitura é reconhecida como um processo fundamental para o desenvolvimento humano, abrangendo dimensões cognitivas, emocionais, sociais e culturais. Este artigo consiste em uma revisão integrativa que analisa a importância da leitura em todos os níveis da educação, desde a educação infantil até o ensino superior, e discute o papel estratégico das bibliotecas escolares como espaços essenciais para a promoção do hábito leitor e para a consolidação de práticas educativas de qualidade. A pesquisa foi realizada por meio de levantamento bibliográfico em bases de dados científicas, abrangendo estudos publicados entre 2010 e 2025, além de obras teóricas de referência na área de educação e ciência da informação. Os resultados indicam que a leitura contribui para o enriquecimento do vocabulário, o desenvolvimento do pensamento crítico, a ampliação da visão de mundo e a formação de cidadãos autônomos e conscientes. Verifica-se, também, que as bibliotecas escolares, quando estruturadas adequadamente e geridas por profissionais qualificados, atuam como centros de aprendizagem, apoio ao currículo e democratização do acesso ao conhecimento. No entanto, são identificados desafios como a insuficiência de recursos, a falta de formação de profissionais e a visão reducionista da biblioteca como simples depósito de livros. Conclui-se que a promoção da leitura e a constituição de bibliotecas escolares são ações indissociáveis e fundamentais para a construção de uma educação inclusiva, crítica e transformadora.
Palavras-chave: Leitura. Educação. Biblioteca Escolar. Formação de Leitores. Políticas Educacionais.
ABSTRACT
Reading is recognized as a fundamental process for human development, encompassing cognitive, emotional, social and cultural dimensions. This article is an integrative review that analyzes the importance of reading at all levels of education, from early childhood education to higher education, and discusses the strategic role of school libraries as essential spaces for promoting reading habits and consolidating quality educational practices. The research was carried out through a bibliographic survey in scientific databases, covering studies published between 2010 and 2025, as well as theoretical reference works in the area of education and information science. The results indicate that reading contributes to vocabulary enrichment, the development of critical thinking, the expansion of worldviews and the formation of autonomous and conscious citizens. It is also verified that school libraries, when properly structured and managed by qualified professionals, act as learning centers, support for the curriculum and democratization of access to knowledge. However, challenges are identified such as insufficient resources, lack of professional training and the reductionist view of the library as a simple book repository. It is concluded that the promotion of reading and the establishment of school libraries are inseparable and fundamental actions for the construction of an inclusive, critical and transforming education.
Keywords: Reading. Education. School Library. Reader Formation. Educational Policies.
1. INTRODUÇÃO
A leitura é um dos processos mais importantes da experiência humana, pois permite não apenas o acesso ao conhecimento acumulado ao longo da história, mas também a construção de significados, a expressão de ideias e a compreensão do mundo e de si mesmo. Segundo Freire (2014, p. 11), “a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. Essa afirmação ressalta que ler não é apenas decodificar sinais gráficos, mas sim um ato de compreensão crítica, que se desenvolve ao longo da vida e está intrinsecamente ligado à formação da identidade e da consciência social.
No contexto educacional, a leitura ocupa um lugar central, sendo considerada tanto um objetivo quanto um meio para alcançar outros aprendizados. Em todos os níveis de ensino, desde a educação infantil até a educação superior, a habilidade de ler de forma proficiente e crítica é determinante para o sucesso acadêmico e para a participação ativa na sociedade. No entanto, dados de avaliações educacionais nacionais e internacionais revelam que muitos estudantes brasileiros apresentam dificuldades significativas em compreender e interpretar textos, o que reflete desafios na formação de leitores e na promoção de práticas leitoras eficazes.
Nesse cenário, as bibliotecas escolares surgem como espaços potenciais para enfrentar esses desafios. Ao oferecer acesso a diferentes tipos de materiais, promover atividades de mediação da leitura e apoiar o trabalho pedagógico dos professores, as bibliotecas têm o potencial de transformar a relação dos estudantes com os livros e com o conhecimento. A Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, reconhece essa importância e estabelece que cada escola deve possuir uma biblioteca com acervo adequado e profissional qualificado (BRASIL, 2010). No entanto, a implementação dessa legislação ainda encontra obstáculos, e muitas escolas não contam com estruturas adequadas ou com condições para que a biblioteca cumpra suas funções educativas e culturais.
Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre a importância da leitura em todos os segmentos educacionais e sobre o papel das bibliotecas escolares na promoção do hábito leitor e na melhoria da qualidade da educação. Os objetivos específicos são: analisar as contribuições da leitura para o desenvolvimento integral dos estudantes em cada nível de ensino; discutir as funções e os desafios das bibliotecas escolares no cenário educacional brasileiro; e identificar estratégias eficazes para a promoção da leitura e para a consolidação das bibliotecas escolares como espaços de aprendizagem.
A revisão integrativa é um método de pesquisa que permite reunir, analisar e sintetizar resultados de estudos realizados em diferentes períodos e abordagens, com o objetivo de construir um conhecimento amplo e consistente sobre um determinado tema. Para a realização deste estudo, foram seguidas as etapas propostas por Souza, Silva e Carvalho (2010): elaboração da pergunta de pesquisa, busca na literatura, seleção dos estudos, análise dos dados, interpretação dos resultados e apresentação da revisão.
2. METODOLOGIA
Trata-se de pesquisa por revisão integrativa da literatura, método definido por Ganong (1987, p. 1) como aquele que “reúne e sintetiza resultados de pesquisas sobre um tema ou questão de maneira sistemática e ordenada, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento sobre o assunto”. Essa escolha justifica-se por permitir uma visão abrangente do tema, articulando contribuições de diferentes áreas do conhecimento e tipos de estudo.
A pesquisa foi norteada pela seguinte pergunta: “Qual a importância da leitura em cada segmento educacional e qual o papel das bibliotecas escolares na promoção do hábito leitor e na melhoria da qualidade da educação?”. Para responder a essa questão, o levantamento bibliográfico foi conduzido nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Base de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), Google Acadêmico e repositórios institucionais de universidades brasileiras. Também foram consultadas obras teóricas de autores referência nas áreas de educação e ciência da informação, além de documentos oficiais como leis, diretrizes e relatórios de avaliação educacional.
Foram adotados como critérios de inclusão: estudos publicados entre 2010 e 2025; materiais disponíveis em língua portuguesa, espanhola ou inglesa; trabalhos que abordassem diretamente a leitura nos diferentes níveis de ensino e/ou a função das bibliotecas escolares; e produções científicas classificadas como artigos, teses, dissertações, livros ou relatórios de pesquisa. Por outro lado, foram excluídos trabalhos que não respondessem à pergunta norteadora, trabalhos de conclusão de curso de graduação — em razão da menor profundidade teórica e metodológica em relação a outras publicações — e materiais duplicados ou com conteúdo idêntico a outros já selecionados.
A estratégia de busca combinou os descritores: leitura, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação superior, biblioteca escolar, formação de leitores, incentivo à leitura, políticas de leitura, resultando em um total de 187 trabalhos recuperados. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, 62 estudos foram selecionados para composição desta revisão. Os dados foram analisados qualitativamente, por meio de leitura e interpretação dos textos, organizando os conceitos, resultados e conclusões em categorias temáticas que estruturam a discussão apresentada a seguir.
3. DESENVOLVIMENTO
3.1 A IMPORTÂNCIA DA LEITURA NOS DIFERENTES SEGMENTOS EDUCACIONAIS
A leitura é um processo contínuo e progressivo, que se desenvolve ao longo de toda a vida e assume características e funções diferentes em cada etapa da educação. A seguir, analisa-se sua importância em cada nível de ensino, com base na produção científica e teórica da área.
3.1.1 Educação Infantil
A educação infantil é considerada a fase fundamental para a formação do hábito leitor, pois é nesse período que se estabelecem as primeiras relações com os livros e com a linguagem. Segundo Manguel (2004, p. 17), “o gosto pela leitura não é um dom natural, mas uma habilidade que se aprende e se desenvolve, e a infância é o momento ideal para que esse aprendizado comece”.
Estudos demonstram que a exposição à leitura desde os primeiros anos de vida traz benefícios significativos para o desenvolvimento cognitivo, linguístico, emocional e social das crianças. No âmbito cognitivo, a leitura estimula a imaginação, a criatividade, a memória e a capacidade de concentração. Ao entrar em contato com histórias, personagens e mundos imaginários, as crianças são levadas a criar representações mentais, fazer associações e desenvolver o pensamento abstrato (RICOUER, 1995).
Em relação ao desenvolvimento linguístico, a leitura contribui para o enriquecimento do vocabulário, a compreensão de estruturas gramaticais e o desenvolvimento da oralidade. Para Ferreiro e Teberosky (2008, p. 45), “a leitura na educação infantil não se restringe à decodificação de palavras, mas envolve a compreensão de diferentes formas de linguagem, como imagens, sons e textos, preparando as crianças para a alfabetização formal”.
Do ponto de vista emocional e social, a leitura ajuda as crianças a reconhecer, expressar e regular suas emoções, além de desenvolver a empatia e a capacidade de se colocar no lugar do outro. Ao se identificar com personagens e situações apresentadas nos livros, as crianças aprendem a lidar com sentimentos como alegria, tristeza, medo e raiva, e a compreender diferentes perspectivas e realidades (MUNITA; RIQUELME, 2013).
Apesar da importância reconhecida, a leitura na educação infantil ainda enfrenta desafios, como a falta de materiais adequados, a formação insuficiente dos professores e a visão de que a leitura é apenas preparação para a alfabetização, e não atividade com valor em si mesma. Para superá-los, é fundamental que as escolas ofereçam ambientes estimulantes, com acesso a livros de qualidade, e que os educadores sejam capacitados para realizar mediações que respeitem as características e interesses das crianças.
3.1.2 Ensino Fundamental
O ensino fundamental é o período em que se consolida a alfabetização e se amplia a capacidade de leitura e compreensão de textos. Nessa fase, a leitura deixa de ser apenas um objetivo e passa a ser instrumento essencial para o aprendizado de todas as áreas do conhecimento. Conforme Libâneo (2019, p. 213), “a leitura é a base de todo o processo educativo, pois é por meio dela que os estudantes acessam informações, compreendem conceitos, resolvem problemas e desenvolvem o pensamento crítico”.
Na primeira fase (anos iniciais), o foco principal é a consolidação da habilidade de ler e escrever, mas também se deve manter o estímulo ao gosto pela leitura. Nesse período, os estudantes transitam da leitura guiada para a leitura autônoma, sendo fundamental o acesso a diferentes tipos de textos, gêneros e níveis de complexidade (LIBÂNEO, 2019).
Já na segunda fase (anos finais), a leitura assume papel ainda mais central, pois os conteúdos curriculares tornam-se mais complexos e exigem maior capacidade de análise, interpretação e síntese. Deve-se, então, trabalhar a leitura crítica, compreendida como a capacidade de questionar, avaliar e relacionar informações com conhecimentos prévios e com a realidade (LIBÂNEO, 2019).
Estudos indicam que estudantes que leem regularmente apresentam melhor desempenho em todas as disciplinas, além de maior capacidade de comunicação, argumentação e criatividade. No entanto, dados da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) mostram que muitos concluem essa etapa sem dominar habilidades básicas de compreensão leitora, comprometendo seu percurso acadêmico e sua participação social.
Entre os fatores que contribuem para esse quadro, destacam-se a falta de incentivo fora da escola, o acesso limitado a materiais de qualidade e práticas que reduzem a leitura a atividade mecânica e obrigatória, desvinculada dos interesses dos alunos. Para reverter o cenário, é necessário adotar estratégias que tornem a leitura prazerosa e significativa: clubes de leitura, rodas de conversa, projetos literários e uso de diferentes suportes, como livros, revistas, jornais e materiais digitais.
3.1.3 Ensino Médio
O ensino médio é a etapa final da educação básica, com objetivo de formar integralmente os estudantes, preparando-os para a educação superior, o mundo do trabalho e a vida cidadã. Nesse contexto, a leitura é estratégica, pois permite aos jovens desenvolver habilidades para compreender questões complexas, tomar decisões e participar criticamente da sociedade.
Conforme Dias e Dalvi (2021, p. 89), “no ensino médio, a leitura deve ser trabalhada como uma ferramenta de formação humana e de construção de identidade, permitindo que os jovens explorem diferentes visões de mundo, questionem valores e desenvolvam sua própria voz”. Nessa fase, os estudantes compreendem textos mais longos e complexos, devendo ter acesso a materiais diversificados: obras literárias, textos científicos, artigos de opinião, documentos históricos e conteúdos midiáticos.
A leitura no ensino médio desenvolve análise crítica, argumentação, síntese e reflexão — competências essenciais para a continuidade dos estudos, a atuação profissional e a cidadania. Além disso, a leitura literária contribui para a formação da sensibilidade, da imaginação e da capacidade de compreensão do outro, promovendo valores e atitudes éticas.
Contudo, a realidade brasileira apresenta desafios expressivos. Muitos jovens chegam a essa etapa com lacunas na formação, incapazes de realizar leituras aprofundadas ou interpretar textos que exigem abstração. A estrutura curricular, frequentemente fragmentada e sobrecarregada, deixa pouco espaço para a leitura como prática reflexiva ou prazerosa, sendo vista apenas como tarefa vinculada a provas e exames.
Para Zilberman (2018), nessa etapa da vida os jovens buscam identificação, autonomia e diálogo com temas de seu interesse. Quando a escola não oferece materiais que dialoguem com suas vivências ou espaços para troca de ideias, a leitura perde sentido e os estudantes se afastam dos livros e das fontes de informação. Assim, é necessário repensar as práticas pedagógicas, articulando conteúdos curriculares aos interesses dos alunos e promovendo uma leitura crítica, reflexiva e prazerosa.
3.1.4 Educação Superior
Na educação superior, a leitura assume contornos e funções específicas, tornando-se instrumento indispensável para a formação profissional e intelectual, para a produção de conhecimento e para o exercício da cidadania. Para Chartier (2001, p. 12), “a universidade é, antes de tudo, um espaço de leitura e de escrita, no qual o conhecimento é construído, debatido e transmitido por meio de textos de diferentes naturezas e complexidades”.
Nesse nível, a leitura deixa de ser apenas meio de acesso à informação e passa a ser atividade de investigação, análise e produção de saberes. Os estudantes são convidados a ler textos acadêmicos, científicos .
Científicos, artigos, teses, dissertações, relatórios e documentos normativos, exigindo habilidades avançadas: compreensão de linguagem técnica, análise crítica, comparação de argumentos, síntese e articulação de ideias. Diferente dos níveis anteriores, a leitura na educação superior é autônoma, especializada e voltada para a construção do conhecimento específico de cada área de formação (CHARTIER, 2001).
Além de sua função acadêmica, a leitura na universidade desempenha papel central na formação humana e cultural. Ao entrar em contato com diferentes correntes de pensamento, teorias e visões de mundo, os estudantes ampliam sua capacidade de refletir sobre a realidade, de questionar práticas estabelecidas e de propor transformações na sociedade. Nesse sentido, a leitura contribui para a formação de profissionais competentes, mas também de cidadãos conscientes, capazes de atuar com ética e responsabilidade social (LOUREIRO, 2017).
No entanto, também há desafios específicos. Muitos estudantes ingressam no ensino superior sem domínio suficiente das habilidades de leitura crítica e interpretativa, resultado de lacunas acumuladas nas etapas anteriores da educação. Essa dificuldade compromete o aproveitamento das disciplinas, a elaboração de trabalhos acadêmicos e o desenvolvimento de pesquisas. Somam-se a isso a carga excessiva de conteúdos, o uso de textos altamente técnicos e, em muitos casos, a ausência de mediação pedagógica que ajude o aluno a compreender e problematizar o que lê (MARTINS; SILVA, 2020).
Para superar essas limitações, é fundamental que as instituições de ensino superior incluam a formação leitora como eixo transversal de todos os cursos, oferecendo disciplinas, oficinas e projetos que desenvolvam competências de leitura e produção textual. Da mesma forma, os professores devem assumir o papel de mediadores, orientando os estudantes sobre como ler, analisar e utilizar criticamente os materiais acadêmicos, evitando que a leitura se reduza à mera decoração ou reprodução de ideias alheias.
3.2 BIBLIOTECAS ESCOLARES: ESPAÇOS ESSENCIAIS PARA A FORMAÇÃO DE LEITORES
As bibliotecas escolares são definidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO (2021) como centros de recursos indispensáveis à educação de qualidade, responsáveis por oferecer acesso a diferentes tipos de materiais, apoiar o desenvolvimento do currículo e promover práticas de leitura, pesquisa e produção de conhecimento. No Brasil, a Lei nº 12.244/2010 regulamenta sua universalização, determinando que toda instituição de ensino, pública ou privada, conte com biblioteca estruturada, acervo atualizado e profissional qualificado (BRASIL, 2010).
Conforme Campello (2018, p. 42), “a biblioteca escolar não é apenas um espaço de guarda de livros, mas um ambiente educativo, dinâmico e estratégico, onde se articulam ações pedagógicas, culturais e informacionais que contribuem diretamente para a aprendizagem e para a formação integral do estudante”. Seu papel vai além do empréstimo de materiais: ela atua como parceira do trabalho docente, oferecendo suporte ao desenvolvimento de projetos, atividades de mediação da leitura, formação continuada de professores e espaços de pesquisa e estudo.
3.2.1 Funções e contribuições das bibliotecas escolares
Dentre suas principais funções, destacam-se: democratização do acesso à informação, apoio ao currículo escolar, incentivo à leitura, desenvolvimento de competências informacionais e formação cultural. Ao disponibilizar materiais variados — livros, revistas, jornais, vídeos, materiais digitais, jogos educativos — a biblioteca garante que todos os alunos, independentemente de sua condição social ou cultural, tenham contato com conhecimentos e manifestações artísticas que muitas vezes não estão disponíveis em outros espaços (SILVA; ALMEIDA, 2019).
Além disso, ela desempenha papel fundamental na mediação da leitura. Diferente da sala de aula, onde a leitura costuma estar vinculada a conteúdos programáticos e avaliações, a biblioteca oferece um ambiente livre, acolhedor e estimulante, no qual o estudante pode escolher o que ler, quando ler e como ler. Nesse espaço, as atividades como contação de histórias, clubes de leitura, encontros com autores, exposições e oficinas tornam a leitura uma experiência prazerosa, afetiva e significativa, contribuindo para a consolidação do hábito leitor (LARA, 2022).
Outra contribuição relevante é o desenvolvimento da competência informacional — capacidade de buscar, selecionar, avaliar, usar e compartilhar informações de forma crítica e ética. Em um contexto de grande volume de dados e conteúdos, muitas vezes não confiáveis, essa habilidade torna-se essencial para a formação de cidadãos capazes de se orientar e participar criticamente na sociedade da informação. A biblioteca escolar, mediada por profissional qualificado, ensina os estudantes a pesquisar, a identificar fontes confiáveis e a utilizar o conhecimento para resolver problemas e construir novos saberes (GOMES, 2020).
3.2.2 Desafios para a efetivação das bibliotecas escolares
Apesar de sua importância reconhecida e da existência de marco legal, a realidade das bibliotecas escolares brasileiras ainda é marcada por desafios estruturais, pedagógicos e políticos. Dados do Censo Escolar (INEP, 2024) mostram que, embora haja avanços nos últimos anos, cerca de 30% das escolas públicas ainda não contam com biblioteca instalada. Entre as que possuem, muitas funcionam em espaços inadequados, pequenos, mal iluminados ou compartilhados com outras funções, impossibilitando o desenvolvimento de atividades educativas e culturais.
Outro problema central é a falta de profissionais qualificados. A legislação determina que a biblioteca escolar seja gerida por profissional com formação específica em biblioteconomia ou ciência da informação, mas a realidade mostra que, na maioria dos casos, esses espaços são coordenados por professores, auxiliares administrativos ou funcionários sem preparo técnico ou pedagógico para exercer as funções de mediação, organização do acervo e apoio ao currículo (FERREIRA; SANTOS, 2023).
Além disso, há uma visão reducionista e equivocada que ainda persiste em muitas instituições: a de que a biblioteca é apenas um depósito de livros, devendo permanecer fechada, silenciosa e distante do trabalho pedagógico. Essa concepção limita seu potencial e impede que ela se transforme em espaço vivo, dinâmico e integrado ao projeto político-pedagógico da escola. Somam-se a isso a falta de investimentos para atualização do acervo, manutenção do espaço, aquisição de tecnologias e formação continuada dos profissionais, fatores que comprometem diretamente a qualidade dos serviços oferecidos (BRITO, 2021).
Há também desafios ligados às políticas públicas. Embora existam leis e programas como o Programa Biblioteca Escolar, muitas ações são pontuais, descontínuas e não chegam a todas as regiões e redes de ensino. A falta de continuidade das políticas, a ausência de avaliação sistemática e a desarticulação entre diferentes níveis de governo fazem com que a universalização e a qualificação das bibliotecas escolares ainda sejam metas distantes para grande parte do país (COSTA, 2019).
3.2.3 Estratégias para a consolidação das bibliotecas escolares
Para superar esses obstáculos e transformar as bibliotecas em espaços efetivos de aprendizagem, são necessárias ações articuladas em diferentes níveis. Primeiramente, é fundamental garantir o cumprimento da legislação, com investimentos contínuos para instalação, estruturação, manutenção e atualização dos espaços e acervos. É também imprescindível a contratação e valorização de profissionais qualificados, com formação específica e condições adequadas de trabalho, além de programas de formação continuada que lhes permitam desenvolver práticas inovadoras e alinhadas às demandas educacionais atuais (UNESCO, 2021).
Do ponto de vista pedagógico, é necessário integrar a biblioteca ao projeto político-pedagógico da escola, definindo claramente suas funções, objetivos e ações. Isso significa aproximar o trabalho do bibliotecário do trabalho dos professores, planejando atividades conjuntas, projetos interdisciplinares e ações que articulem o uso da biblioteca aos conteúdos curriculares e aos interesses dos alunos. Dessa forma, a biblioteca deixa de ser um espaço paralelo e passa a ser parte essencial do processo de ensino e aprendizagem (CAMPOS, 2020).
Outra estratégia importante é ampliar o conceito de acervo, incluindo não apenas livros, mas também revistas, jornais, materiais audiovisuais, recursos digitais, jogos educativos e produções da própria comunidade escolar. A diversidade e a atualização do acervo garantem que ele seja relevante, atraente e capaz de atender às diferentes necessidades, interesses e ritmos de aprendizagem dos estudantes. Além disso, é necessário adotar abordagens pedagógicas que tornem a leitura acessível, prazerosa e significativa, rompendo com práticas tradicionais que a tornam obrigatória e desinteressante (MARTINS, 2018).
Por fim, é fundamental fortalecer as políticas públicas, com programas nacionais, estaduais e municipais estruturados, contínuos e bem avaliados, que garantam recursos, suporte técnico e acompanhamento às escolas. A sociedade civil também tem papel importante, participando da gestão, do incentivo e da fiscalização para que as bibliotecas cumpram suas funções e se tornem espaços democráticos, inclusivos e transformadores.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo desta revisão integrativa confirma que a leitura constitui processo essencial e indissociável de todas as etapas da educação, assumindo características e funções específicas na educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação superior. Em cada um desses níveis, a leitura contribui para o desenvolvimento cognitivo, linguístico, emocional, social e cultural dos estudantes, sendo determinante para o sucesso acadêmico, para a formação do pensamento crítico e para a constituição de cidadãos autônomos, conscientes e participativos.
Evidencia-se, também, que a promoção da leitura não pode ser compreendida ou desenvolvida de forma isolada: ela depende, fundamentalmente, da existência de bibliotecas escolares estruturadas, qualificadas e integradas ao trabalho pedagógico. Quando organizadas como centros de recursos, mediação e cultura, essas instituições atuam como aliadas estratégicas da educação, ampliando o acesso ao conhecimento, apoiando o currículo, desenvolvendo competências informacionais e oferecendo condições para que todos os estudantes, independentemente de sua origem social, possam se apropriar do saber e da cultura.
No entanto, a realidade brasileira ainda está distante desse cenário ideal. A implementação da Lei nº 12.244/2010 e das diretrizes da UNESCO enfrenta obstáculos como infraestrutura inadequada, falta de profissionais qualificados, visão reducionista da biblioteca, investimentos insuficientes e políticas públicas descontínuas. Esses desafios revelam que, embora haja avanços, ainda é necessário um esforço coletivo e contínuo para garantir que a biblioteca escolar seja um direito e uma realidade em todas as instituições de ensino do país.
Conclui-se, portanto, que investir na formação de leitores e na consolidação das bibliotecas escolares é investir na qualidade, na equidade e na transformação da educação brasileira. Essas ações não são complementares ou opcionais: são centrais para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e capaz de garantir a todos o direito à educação, à informação e à cultura.
Por fim, ressalta-se que este estudo reuniu e sintetizou conhecimentos já produzidos, mas também aponta para a necessidade de novas pesquisas, especialmente estudos empíricos e avaliativos, que analisem a realidade das bibliotecas escolares, os impactos de suas ações e as formas mais eficazes de superar os desafios identificados.
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Orientadora. Mestrado em educação (ITS-Flórida USA-2018). Graduação em Letras ( CESB-2008). Licenciatura em Ciências Biológicas –(Única-2022).Professora Mestre no Centro Universitário de Desenvolvimento do Centro Oeste Unidesc-Luziânia-GO e Orientadora de Trabalhos acadêmicos no Iara Christian University. ↑
Formação acadêmica: Graduação Biblioteconomia –UNB; Função desempenhada: Bibliotecária na Biblioteca Central UnB-DF. — Instituição de formação : Absolute Christian University/ Iara Christian University - ( USA - 2026) Formação acadêmica: Doutorado em Educação. E-mail: fatima_lessa@hotmail.com ↑
Mestrado em Educação - Absolute Cristian University/Iara Christian University- (USA - 2026; Graduação em Pedagogia - UEG Formosa – GO. E-mail: irisleneaparecida1010@gmail.com ↑
Mestrado em Educação - Absolute Cristian University/Iara Christian University (USA – 2026. Graduação em Pedagogia - Faculdade UniCerto. email: mariadosreisdejesussoares@gmail.com ↑
Mestrado em Educação; Graduação em Letras - Faculdade UniCerto. Absolute Christian University/ Iara Christian University-( USA -2026) Mail: nalvabrico@gmail.com ↑
Graduação em Letras Faculdade CESB - Centro de Ensino Superior do Brasil Mestrado em Educação Absoulute Christian University/ Iara Crhistian University-( USA -2026) eMail: erica.ssupervisao@gmail.com ↑
Formação Superior: Letras- Francês(UNB) 2017; Pedagogia(ICSH) 2019; Licenciatura em Dança (IFB) 2024; Stricto Sensu Mestrado em Educação (Concluído em 2024) — Instituição de formação : Absolute Christian University/ Iara Christian University -2024. Local de trabalho: Secretaria de Educação (Escola Classe 12 de Sobradinho). Função acadêmica no trabalho/ profissão : Professora efetiva de Educação Básica( Anos iniciais). E-mail: nataliahan17@gmail.com ↑
Formação acadêmica mais atual e/ou função desempenhada: Pedagogia; Coordenadora Pedagógica - Instituição de formação: Unopar — Instituição de formação : Absolute Christian University/ Iara Christian University - ( USA - 2026)
E-mail: deboracailyandra92@gmail.com ↑
Graduação em Administração de Pequenas e Médias Empresas (Londrina/PA – 2008); Mestrado em Educação Absolute Cristian University/Iara Christian University- (Florida/USA – 2024); E-mail: josafa.silva1402@gmail.com ↑
Doutorado em Educação Absolute Christian University/ Iara Christian University( USA – 2026). Graduação em Pedagogia – 2012, e-mail: andreiasilva.df@gmail.com ↑
Graduação em Pedagogia ( Albert Einstein, 2013). Mestrado em Educação – Absolute Cristian University/Iara Christian University (USA – 2026). E-mail:assistentesocialrfhc@gmail.com ↑
Mestrado em Educação; Graduação em pedagogia -Faculdade UniCerto. Absoulute Christian University/ Iara Crhistian University-( USA -2026). E-mail: adrianafsreal@gmail.com ↑