Relações entre clínica e o fazer literário: entre fantasmas e fantasias.
Relationships between clinic and literary work: between ghosts and fantasies.
Thiago Belei Silva De Lorenci[1]
Gerson Carlos Rigoni Bonfá Junior[2]
RESUMO
A gradativa falência do self até a perda total de si mesmo vem a ser um problema existencial e também humanitário quando associado às crescentes estatísticas de suicidio no mundo. O objetivo deste trabalho consistiu em explorar, nos campos da filosofia, arte e psicanálise, a prática artística-terapêutica da sublimação como manejo clínico em casos de melancolia, quando já não há sentido para a vida e ocorre uma falência dos investimentos de energia psíquica. Foram utilizadas as bases de buscas como o Google Scholar, PePSIC, e a biblioteca científica digital Scielo, usando descritores tais como “Sublimação para psicanálise”, “Luto e melancolia em Freud”, “Arte e saúde mental”, entre outros, com o critério de inclusão sendo a compatibilidade com o tema e os principais autores acerca do assunto. Relacionando os modos composição da arte e as superfícies de sentido da clínica, o processo da sublimação é encontrado como um mecanismo de intelectualização que reaviva os fluxos desejantes do Eu. A energia psíquica escoada pela ferida identitária se reinveste no corpo ficcional, de modo que o fazer literário aliado ao fazer clínico torna possível inscrever os traumas na narrativa existencial. Conclui-se que o processo de sublimação pode ser uma ferramenta artística-clínica para cicatrizar feridas existenciais e estancar a perda libidinal, fazendo circular novamente a energia psíquica que reintegra os movimentos do Eu.
Palavras-chave: Melancolia; Literatura; Sublimação; Fantasia.
ABSTRACT
The gradual failure of the self until the total loss of oneself becomes an existential and also a humanitarian problem when associated with the growing suicide statistics in the world. The objective of this work was to explore, in the fields of philosophy, art and psychoanalysis, the artistic-therapeutic practice of sublimation as a clinical management in cases of melancholy, when there is no longer any meaning to life and there is a failure of psychic energy investments. Search bases such as Google Scholar, PePSIC, and the digital scientific library Scielo were used, using descriptors such as “Sublimation for psychoanalysis”, “Mourning and melancholy in Freud”, “Art and mental health”, among others, with the inclusion criterion being compatibility with the theme and the main authors on the subject. Relating the compositional modes of art and the surfaces of meaning of the clinic, the process of sublimation is found as a mechanism of intellectualization that revives the desiring flows of the Self. The psychic energy drained by the identity wound is reinvested in the fictional body, so that the Literary work combined with clinical practice makes it possible to inscribe traumas in the existential narrative. It is concluded that the sublimation process can be an artistic-clinical tool to heal existential wounds and stop libidinal loss, circulating again the psychic energy that reintegrates the movements of the Self.
Keywords: Melancholy; Literature; Sublimation; Fantasy.
1 INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho consistiu em encontrar uma resolução do enigma imposto por Sigmund Freud, psiquiatra e neurologista austriáco responsável por criar a psicanálise, com o processo da sublimação, e como a produção artística - especialmente literária - pode fazer parte da prática terapêutica clínica, e o como tal processo pode influenciar no estado de melhora do sujeito melancólico. Pelo adoecimento melancólico vemos um esvaziamento gradual do Eu, sendo este formado pela influência do mundo externo - identificações e cortes narcísicos -, e que é uma instância essencialmente narrativa sobre si próprio, o que dá delimitação ao que a pessoa é. Por esvaziamento do Eu[3], entende-se uma perda de si, acompanhado de inibições que podem ser sintomáticas ou não, de tal forma em que o vivo se torna morto e inanimado. Então, como restaurar e tornar coeso e sólido uma psique ferida que perdeu suas fronteiras e seus investimentos narcísicos?
Desta forma, entende-se a sublimação como um processo que busca encontrar uma satisfação parcial para um desejo impossível de ser realizado, conseguindo através da intelectualização encontrar parcialmente a satisfação. Sendo assim, por intelectualização, no caso deste trabalho, veremos o fazer e escrita literário e artístico como forma de intelectualizar o sofrimento interno, de dar forma a algo sombrio, sem nitidez e contornos, que fora esquecido ou não inscrito pela consciência através do mecanismo da repressão ou recalque[4].
Por arte podemos entender o “sangrar no papel”, deixar vir à tona a trama inconsciente, dentro da clínica psicoterápica, com o objetivo de não só entender o que está sendo sentido como utilizar de tal mecanismo como forma de dar vazão às pulsões e ao desejo, aliviando gradativamente o sofrimento. Vale ressaltar que para Freud sublimação é um processo, não resultado, uma vez que esse alcança parcialmente o desejo, voltando então eventualmente ao sofrimento, como visto “o sintoma é indício e substituto de uma satisfação instintual que não aconteceu, é consequência do processo de repressão” (FREUD, 1926/2022, p. 19-20).
Não obstante, o processo clínico atrelado ao mecanismo de sublimação é uma junção promovida pela arte como forma de reintegrar o Eu do sujeito e revitalizar o que foi adoecido. Portanto, abre-se o questionamento deste projeto: seria um método apropriado para a psicoterapia o uso da literatura como forma de canalizar a melancolia e trazer à tona estes fantasmas inconscientes? Bem como outras perguntas que giram em torno desse problema de pesquisa, tais como: Como trabalhar em um campo cultural e artístico, mas também dentro da intervenção do analista? Como esse processo acontece? Como ultrapassar as barreiras do recalque e trazer à superfície o trauma? Como intelectualizar o que foi cognitivamente empobrecido? Como desinibir o Eu?
2 ARTE E SAÚDE MENTAL
Para Freud, a melancolia é uma psiconeurose narcísica, afirmando - então - que o luto é o afeto diretamente ligado à melancolia, sendo o luto de algo que se tinha e perdeu, o desejo de restaurar algo que foi-se ao oblívio[5], como vemos em Freud, “se o objeto não tiver para o Eu uma importância tão grande, reforçada por milhares de conexões, sua perda não será adequada para causar um luto ou uma melancolia” (1917/2022, p. 116). Sendo assim, compreende-se que a melancolia é, além de uma perda narcísica (imagem de si), também uma perda sensorial, pulsional, uma falta de libido[6]. Por Freud, “[...] o Eu provavelmente sucumbe na melancolia [...]” (FREUD, 1917/2022, p. 113).
Dessa forma, uma pulsão se acharia sublimada ao ressignificar uma pulsão sexual para um objeto não-sexual - seja ele socialmente valorizado, por exemplo -, encontrando-se então em atividades sublimadoras de cunho artístico, intelectual e etc. Pode-se compreender sublimar, do termo sublimis vindo do latim, algo a ser elevado, levando à maior altura e perfeição. (COUTINHO JORGE, 2005). Para Coutinho, a “sublimação é um desvio de sexual para o não-sexual - elemento que, por si só, remete à própria concepção freudiana da sexualidade” (COUTINHO JORGE, 2005, p. 151).
Compreendemos através da literatura o potencial artístico que a melancolia carrega, utilizando, dessa forma, de personagens ficcionais e tramas fantásticas como ferramenta de sublimação e projeção de sentimentos reprimidos ou sentidos ao extremo, como Freud afirma a melancolia é o "próprio eu". Não obstante, será possível analisar a tênue diferença entre luto e melancolia, sendo estes, respectivamente, uma perda objetiva de uma instância existencial, e uma perda de algo na própria consciência do sujeito em questão. Desta forma, através do assombro de fantasmas inconscientes sendo impressos na projeção literária, conseguimos construir e simbolizar bem estas perdas da consciência.
Ao analisarmos o conceito de fantasma dentro da literatura, Bonfá Junior (2020) nos sugere que: "O que está escondido sob nossa fantasia dá-se a entrever, mas não sem antes testar nossa coragem sob o rosto desfigurado de fantasmas a rondar nosso pensamento". Não obstante, contestamos que o luto seria a melancolia pela perda de outro alguém, imutavelmente e de forma que não se tenha como recuperar o que foi perdido. Então é compreendido que logo a melancolia do eu de Freud se encontra como o luto dele mesmo - do próprio indivíduo, embora este seja passível de "ressuscitar", de atualizar, auto-regular, através da fantasia intelectualizada, que revela a feria em vez de esconder - exatamente onde os fantasmas podem deixar de ser amorfos e encarnar visceralmente o desejo inconsciente do ser.
Seguindo essa linha de pensamento, Nas palavras de Freud (1908/2021, p. 54), “[…] a partir da irrealidade do mundo poético, se seguem importantes consequências para a técnica artística, pois muitas coisas que não poderiam causar gozo como reais podem fazê-lo no jogo da fantasia [...]”. Desta forma, entendemos que estes fantasmas em questão são, ou podem, ser trazidos à tona através de um mecanismo de vazão, dada em questão a melancolia acarretada por vivências. De modo similar a Freud, para o crítico literário Roland Barthes o processo de escrita seria uma forma ambivalente que transforma a realidade do autor e da sociedade a qual o envolve e a "magia", um mundo fantástico, que o leva ao morfismo da criação da arte.
É entendido para Sigmund Freud que a melancolia é um estado de pré-morte em que o indivíduo sente a todo custo um desinteresse generalizado, não apenas na vida, mas em tudo que rodeia uma pulsão de vida[7], levando - então - a perder seu investimento libidinal nas mais comuns, ordinárias e mundanas situações cotidianas do ser humano, do devir[8], como - por exemplo - trabalhar, sair, qualquer atividade adjacente como hobbies, e até mesmo a família.
Sendo assim, o sujeito se encontra em uma sintomatização extrema de sua enfermidade, ou melhor, de sua melancolia, caindo cada vez mais de cabeça em uma pulsão de morte[9] inconsequente e impulsiva, levando então à uma morte conceitual do sujeito, à dissociação[10], à uma despersonalização[11] do self. Afinal, “ao apresentar-se como libido dessexualizada[12], a sublimação tiraria de si exatamente aquilo que a definiria como pulsão de vida (ou pulsão sexual)” (NETO, 2007, p. 54).
Por sublimação podemos compreender como uma construção ao resgate de conceitos, de simbolismos, ressignificando o sofrimento - o pathos – para além do caráter de doença. Grande exemplo de sublimação seria o “caso da Vinci”, como Freud dialogou em seu texto, “Uma recordação de infância de da Vinci”. Vemos o fazer literário, entre outras vertentes das sete artes, embora a literatura seja o alvo de estudo de caso deste trabalho. Sendo assim, como a sublimação artística associada à clínica pode ser de fazer terapêutica? Como através de poiesis pode ser encontrado um final para tamanho pathos? Pathos significando a palavra grega para sofrimento e afeto. Através da simbolização, da ressignificação e da reconceituação isso será evidenciado, tendo essa pulsão desviada, sublimada, na direção da arte.
3 OS MITOS E AS PULSÕES
Para a mitologia grega, os irmãos gêmeos Eros e Thanatos são vistos como os dois princípios da vida humana, sendo o primeiro a vida - o deus do amor e da criação - e o segundo a morte - deus da morte e do destino. Freud se apropriou dos nomes para melhor exemplificar sua teoria da dualidade pulsional em Além do princípio do prazer[13] (1920), correspondendo, consequentemente, ao desejo erótico e à atração da morte, sendo “a meta de toda vida é a morte e, retrocedendo, que o inanimado estava aí antes das coisas vivas” (FREUD, 1920/2016, p. 101).
Exemplificando, “Eros é uma palavra que vem do latim, Éros, e seu significado expressa o amor, o desejo e atração sensual”, e também “Na mitologia grega, Thanatos (uma palavra que vem do grego) era a personificação da morte” (OLIVEIRA, 2010, p. 1). Dessa forma, pode ser bem compreendida então a analogia entre Eros e Thanatos com as duas pulsões, de vida e de morte. “Em sua segunda teoria, propôs a pulsão de morte, que seria voltada à decatexização[14], à inanição, à diminuição da excitação; e a pulsão de vida, que buscava o investimento e a unificação” (AZEVEDO; NETO, p. 68). Também, para Oliveira (2010, p. 2), “[...] possui a pulsão de vida e a pulsão de morte. A pulsão de vida faz com que o indivíduo sinta vontade de satisfazer suas vontades, buscar o prazer e satisfação da libido”.
Caso a pulsão de vida não seja atendida, sendo subvertida pela frustração do moralismo social e impossibilidade de continuar em sua funcionalidade, pode tornar-se em pulsão de morte por uma desvalorização do Eu, como visto para Oliveira (2010, p. 26) e “com isso se a pulsão de vida, no indivíduo, não é bem sucedida, segundo Freud, ela é convertida para a pulsão de morte (Thanatos)”.
Conceito de pulsão de vida passou a reunir pulsão libidinal e autopreservação do Ego, já a pulsão de morte compreende a castração libidinal, a não autopreservação do Eu, o que corresponde à loucura, a pulsão da exclusão, a não aceitação social e cultural do indivíduo na sociedade, ou a morte em seu real significado, é assim a pulsão de desunião e destrutividade (OLIVEIRA, 2010, p. 26).
Eros representaria a satisfação na vida, na carne, de forma visceral e agressiva, aos modos de Dionísio o embriagado, e Diógenes o cão; enquanto Thanatos a melancolia freudiana, a falta de vida, a falta do desejo pelo novo, a eliminação da estimulação do organismo, a satisfação na dor. “[...] aluda-se com poucas palavras à possibilidade de o empenho de Eros a fim de reunir o orgânico em unidades cada vez maiores fornecendo um substituto para o “impulso de aperfeiçoamento” que não podemos reconhecer” (FREUD, 1920/2016, p. 109).
Então através de Thanatos, através da melancolia e o oblívio de uma vontade de lutar e amar e ser, enquanto através de Eros uma satisfação de energia psíquica seria encontrada na carne, em duas formas diferentes de sentir e de ter o pathos, onde assim diria Freud (1920/2016, p. 129), “Desde sempre reconhecemos um componente sádico do impulso sexual; como sabemos, ele pode se tornar independente e, sob a forma de perversão, dominar a aspiração sexual inteira da pessoa”, e ainda “Tanto mais precisamos acentuar agora o caráter libidinal dos impulsos de autoconservação” (FREUD, 1920/2016, p. 127).
Pela existência dessa dualidade existiria esse mal-estar da civilização, onde Freud propõe o conceito do sentimento de culpa, exatamente por essa tensão entre o ego e o superego, alimentando uma tensão entre as pulsões e entre as bases psíquicas, como visto na trindade id, ego e superego. Nada diferente se vê entre Eros e Thanatos, evidente onde a pulsão de vida se contradiz na pulsão de morte, e onde a pulsão de morte se contradiz na pulsão de vida. Através da vida é objetificada a morte, e através da morte se é valorizada a vida como energia psíquica relacionada a algo, em si próprio, no self, no ego - as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo (FREUD, 1920/2016).
Para Freud, então o princípio do prazer se dá pela busca do prazer na mesma intensidade que se evita a morte, a tensão, o conflito, o sofrimento, o adoecimento, mas nada mais controverso do que uma tensão não plena e incerta entre a melancolia e a vida, este devir entre as duas pulsões e as duas funcionalidades mentais, uma vez que, visto pelo olhar das produções e das escritas de si. Assim, “a libido de nossos impulsos sexuais coincidiria com o eros dos poetas e filósofos, que mantêm coeso tudo o que é vivo” (FREUD, 1920/2016, p. 124)
Vemos então a consolidação do homem a partir do sofrimento (pathos), a partir da melancolia no objetivo de fortalecer o ego a partir da sublimação e da transvaloração, como a ser visto, se consolidando através dos princípios éticos - ethos [15]- e simbolização para ressignificação de sentimentos e valores (logos[16]), assim, “[...] reconhecer o impulso sexual como sendo eros, que tudo mantém, e derivar a libido narcísica do eu a partir das contribuições de libido [...]” (FREUD, 1920/2016, p. 127).
Similar contradição é notada em A Lógica do Sentido, de Deleuze, em que exprime a contradição entre os tempos - Cronos e Aion -, sendo Cronos o movimento regulado dos presentes profundos e vastos, enquanto para Aion apenas o passado e futuro insistem e subsistem no tempo. Para Deleuze (2009, p.168), “não há uma perturbação fundamental do presente, isto é, um fundo que derruba e subverte toda medida, um devir[17]-louco das profundidades que se furta ao presente?”. Analogamente à teoria freudiana, é visto que o conflito da profundidade - pulsões do inconsciente -, os fantasmas, seriam insuportáveis ao ego, resultando em um contra investimento com resultado de um conflito e adoecimento. Dessa forma, “o devir puro e desmesurado das qualidades ameaça de dentro a ordem dos corpos qualificados. Os corpos perdem sua medida e não são mais do que simulacros[18]” (DELEUZE, 2009, p.168).
Cronos seria derrubado de sua apoteose[19] pelo devir-louco, no qual Aion “(...) o devir-louco das profundidades subia à superfície, os simulacros convertiam-se por sua vez em fantasmas, o corte profundo aparecia como fenda da superfície” (DELEUZE, 2009, p. 169). Sendo esta então uma forma de sublimar esses simulacros, mesmo mudando sua natureza ao subir à superfície. Nas palavras de Deleuze (2009, p. 170), “ (...) nada sobe à superfície sem mudar de natureza”. Para concluir e amarrando com a teoria freudiana, “eis por que Freud tem razão de manter os direitos da realidade na produção dos fantasmas, no momento mesmo em que reconhece estes como produtos que ultrapassam a realidade” (DELEUZE, 2009, p. 217). Aion ao libertar o devir da profundidade mata o simbólico, mata a castração e dá sentido ao fantasma, subverte o simbólico e dá forma ao amorfo, a fim de gozar essa pulsão - a fim de derrubar o que o negou, castrou, em primeiro lugar.
Não obstante, a caverna - em analogia - seria o lugar desses fantasmas vagantes no porão da psique, conturbados pelo real e pelo trauma que o circundam, precisando ser positivados para alcançar a superfície, onde para Bonfá Júnior:
(...) como a arte em sua relação com o sonho constituem um meio mítico privilegiado para atravessar a fantasia e trazer para a superfície o fluxo de criação, isto é, a restauração da imanência e manutenção de sua atualização saudável (BONFA JUNIOR, 2022, p. 68).
Em Deleuze veremos como se efetua o convívio com o fantasma e como trazer à superfície - consciência - sua libertação recalcada pelo ego e imposta pela moral exterior (BONFA JUNIOR, 2022). Dessa forma, se trata de validar e viabilizar o conteúdo deixado ao esquecimento, para que retorne de forma mudada e que possa servir de uso ao ego, onde vemos também para Bonfá Júnior (2022, p. 69-70) que “[...] o começo do fantasma, tentamos determiná-lo como sendo o ferimento narcísico ou o traçado da castração. Castração é uma proibição, um corte (...)”.
Então através do corte narcísico, como veremos mais à frente, os fantasmas foram excluídos da memória, esquecendo que foram esquecidos, pela lei que os inviabilizou em primeiro lugar, sendo este aquilo que foi escondido, a diferenciação do ídolo e da lei vigente e determinante, como visto em Aion contra o tempo objetivo de Cronos. Sendo ídolo então referenciado como a apoteose, como o topo do pedestal e as representações identitárias que o sujeito gostaria de ser, em contrapartida ao fantasma que são as características opostas ao imposto pelo ídolo, pela moral, pelo corte.
Logo então, esse processo de libertar os fantasmas e positivar seu conteúdo que fora recalcado se dá pela queda do pedestal do ídolo, da representação onipotente e cicatrizar o corte pela destituição do que o abriu em primeiro lugar. “De todo modo, o processo de singularização que estamos buscando fazer a manutenção está mais próximo do fantasma do que do ídolo” (BONFA JUNIOR, 2022, p. 71).
Pela arte, como foco deste trabalho, podemos trazer à superfície os fantasmas e realizar sua positivação, de modo que quebre a estátua de mármore idealizada pelo ego pelas exigências do ídolo. Um “modo de levantar o fantasma em seu potencial de simulação é a dos estóicos com a atuação de Aion” (BONFA JUNIOR, 2022, p. 75). Através do corte na superfície, o devir da profundidade, como já mencionado, venha à tona com Aion e o recurso da intelectualização através da arte, transformando em uma comédia a tragédia, sendo uma simulação artística do que o castrou. Então, para concluir, Bonfá Júnior também menciona que:
As singularidades sobem com o fantasma, pairam como devires potenciais, e através da atuação ou contra efetuação de Aion ou artista frente aos acidentes da vida, elas tornam-se sentidos e se atualizam, assim, no plano de imanência do sujeito (BONFA JUNIOR,2022, p. 76).
Para concluir, ao trazer os fantasmas à superfície - como Aion - seria a forma de armar o devir da profundidade e matar o simbólico, subvertendo o ídolo, subvertendo o simbólico, dando forma ao fantasma amorfo a fim de gozar essa pulsão renegada. Então, trazer da profundidade da fenda, do esquecimento, - do corte - à superfície, a fim de derrotar o simbólico - castração, proibição - e fortalecer o ego com o que lhe foi proibido, embora de forma positiva agora. Assim, para Deleuze e Guattari, “Escrever é talvez trazer à luz esse agenciamento do inconsciente, selecionar as vozes sussurrantes, convocar as tribos e os idiomas secretos, de onde extraio algo que denomino Eu (...)” (DELEUZE; GUATTARI, p. 25).
4 CORTE NARCÍSICO, TRAUMAS E FANTASMAS
Pela aniquilação do ego, pela perda subjetiva do self, pela formação traumática através do corte vindo da castração, é incorporada a reatividade, a ausência de potência, dessa forma seria vinculado então o conceito de perda ao redirecionamento literário e artístico, de jeito a dar forma e sentido ao fantasma, como em um “herói”, trazendo à mnese[20] o que foi abandonado à amnésia, tornando tolerável o intolerável - fazendo uma comédia da tragédia, como visto em Aion. Dunker discorre sobre esses heróis não como estátuas de mármore, não como um símbolo ereto, mas sim uma sublimação pessoal baseada no corte, na melancolia, como visto em: “mas a soma destas virtudes clássicas é insuficiente para representá-los, uma vez que aquilo que os define é a própria divisão subjetiva reconhecida como perda, falta, corte ou vazio” (DUNKER, 2011, p. 119). E continua:
Eles são expressões do paradigma mórbido, que caracteriza a subjetividade moderna como um inventário de desencontros, falsas restituições, promessas irrealizadas e elaborações melancólicas (cf. Matos, 1989). São ao mesmo tempo senhores de suas histórias de vida apresentadas como obras de autodeterminação, mas também escravos do luto por uma experiência que não conseguem lembrar, reconhecer ou incorporar. (DUNKER, 2011, p. 119).
Dessa forma, é visto que a vontade de potência e esse fazer, uma intelectualização da pulsão sexual selvagem, do devir louco da profundidade de Aion, seria uma forma de liberar esses fantasmas e trazê-los à superfície, tirando-os das garras do passado e trazendo ao presente de forma a aspirar o futuro, de forma a dar vivência ao ideal do eu, como visto em Nietzsche (2018, p. 18) “(...) a vontade de potência em seu aspecto mais intelectual, a vontade de "criar o mundo" e implantar nele a causa primeira”.
O gozo dessa pulsão, desse devir, seria encontrado através do fantasma, através da aniquilação, através da pulsão de morte como visto em Thanatos, “essa questão nos permitirá formular a hipótese de que o fantasma é uma função que torna possível o conhecimento no campo do gozo” (SILVA, M. L., 2014, p. 07). Este gozo, essa satisfação da pulsão, esse objetivo, poderia ser encontrado então através da fantasia, como o poeta e o fantasiar, pela articulação intelectual, dando imagem ao esquecido, também visto em Silva (2014, p. 41) “o termo fantasia se refere à articulação entre a criação imaginativa e aquilo que aparece, entre aparência e imagem”.
Entende-se então que o termo fantasia está vinculado ao fantasma no cenário em que se faz útil, usado pelo ego para alcançar o prazer, para alcançar o gozo, de forma que a fantasia esteja à serviço do princípio de prazer proposto por Freud, no cerne da teoria psicanalítica. Também para Silva (2014, p. 43), “o que significa dizer que a fantasia teria, no mínimo, uma dupla função, entrecruzando linguagem e satisfação (Freud), ou como enodamento entre significante[21] e gozo (Lacan)”.
Não obstante, o fazer fantástico é visto como uma forma de proteger o ego do desprazer, em contrapartida da impossibilidade de lidar com o que foi esquecido, com a pulsão, com o real do gozo, sendo uma forma de representar o trauma, de trazer à superfície o fantasma através da sublimação e dar outro objetivo - aqui intelectualizado - que converge tanto o ideal do eu - e o gozo - e o eu ideal imposto pelo mundo exterior (SILVA, 2014), sendo eu ideal o herdeiro da castração, a necessidade de atender a demanda imposta pelo mundo externo, e ideal do eu o que o próprio ego aspira para si com base em suas vontades e inspirações externas e culturais - semelhante ao dito de Deleuze sobre os fantasmas e os ídolos. O simulacro que simula a imagem do ídolo sendo o eu ideal imposto pelo simbólico, enquanto o ideal do eu seria os fantasmas positivados que subvertem o simbólico, que subvertem o ídolo.
Pelo princípio de prazer, ao conceito de integração psíquica ao narcisismo, é visto a introjeção e projeção, em que a introjeção vê o que o ego, propriamente, introjeta o que lhe é prazeroso, onde já na projeção lhe é expulsado o que o desagrada (FREUD, 1914/2010). Assim, pelas exigências do mundo exterior e a impossibilidade do gozo pelo Outro[22], se dá o corte narcísico, a castração simbólica, onde o real que assombra continuamente, que é forçadamente jogado à profundidade, só é tolerado pela fantasia, tendo então os fantasmas - como dito anteriormente - a uso da fantasia. Não obstante, “[...] a rudeza da realidade externa, só é possível de ser suportada com o recurso da fantasia” (SILVA, 2014, p. 47).
Por fantasia entende-se gozar com o desejo como uma forma de recordar o esquecido, de deslocar o objetivo, então Freud teve de considerar o processo de fantasiar, seja a fantasia consciente ou inconsciente - já que operam no mesmo parâmetro -, a função de “(...) satisfazer algum desejo insatisfeito no passado” (COUTINHO JORGE, 2022, p. 55). Diferenciamos então fantasma e fantasia, embora soem similarmente, como uma brutalidade linguística, uma vez que fantasia designaria, para Freud, o princípio de prazer, sendo introjetado e idealizado pelo ego, enquanto fantasma referencia um material desprazeroso afastado do ego pelo corte narcísico da castração simbólica e trancafiado no inconsciente pelo recalque, como visto em Aion, trancando os fantasmas em um calabouço subterrâneo e jogando a chave fora, ou melhor, até se esquecendo onde reside o calabouço.
Freud então parte do pressuposto de que o sujeito contente e estável não fantasia, apenas o sujeito empobrecido e insatisfeito, o sujeito castrado - ao menos em maioria. Entende-se que a fantasia é usada para representar um desejo, assim como a criança brinca de “lutinha” e o poeta sangra pelos versos. Para Coutinho Jorge (2022, p. 56), “(...) são os desejos insatisfeitos que constituem as forças motivadoras das fantasias, por isso Freud utiliza frequentemente a expressão fantasia de desejo”.
Castrado então, com uma fenda sobre sua cabeça no fundo do calabouço, separando profundidade, superfície e altitude apoteótica, o escritor através do fantasiar desperta memórias há muito esquecidas pelo corte, e assim se vê o desejo que encontra satisfação na obra.
5 NIILISMO, TRANSVALORAÇÃO E TRANSMUTAÇÃO: QUEBRA E RESTAURAÇÃO DO SENTIDO DA VIDA
Por niilismo se é compreendido, seguindo Friedrich Nietzsche, uma perda do interesse pela vida, uma inexistência da pulsão de vida, um anagapesis[23], uma completa indiferença patológica a tudo que se detém e ocorre ao redor do indivíduo, um mal civilizatório, causando então, de acordo com a teoria de Freud, uma melancolia. Desta forma, Nietzsche em suas obras, especialmente em “A Genealogia da Moral” e “Assim Falou Zaratustra”, trata do niilismo - ou isso a que Freud veio chamar melancolia - como um consequente do adoecimento do homem. (NIETZSCHE, 2018). “O niilismo é, em todas as suas múltiplas formas, uma redução do mundo a nada, ou seja, a algo que, em si mesmo, não tem qualquer valor e não devia ser” (CONSTÂNCIO, 2013, p. 22).
A filosofia de Nietzsche então busca ir contra o niilismo, contra a perda de sentido e amor pelo mundo e os arredores, de modo que “Pode dizer‑se que ela pretende ser não‑niilista e até pós‑niilista, pois nela se trata de recriar uma relação de desejo e de amor pelo mundo que o salve das perspectivas que o concebem como um nada (...)” (CONSTÂNCIO, 2013, p. 22).
Frente a esse empobrecimento da vitalidade existencial, Nietzsche propõe uma transvaloração dos valores, trazer para a vida uma nova condição por meio da qual a mesma seja potente, trazer potência à existência, causando então um poiesis[24], ou seja - na Psicanálise freudiana -, vir à tona uma sublimação. Por poiesis podemos compreender uma criação, uma produção, o contrário de anagapesis - este sendo uma perda de amor ou crença em algo ou alguém, até mesmo uma forma de processo de luto e morte e morrer como a própria melancolia -, sendo então a forma de sublimação.
Qual seria, desta forma, uma espécie de cura para o niilismo? Nietzsche detém essa resposta em suas obras, sendo esta a transvaloração dos valores, alterando, permutando e transmutando valores fracassados e em pré-morte e tornando-os em algo mais, trazendo-os à luz, gerando poiesis e cessando a prorrogação do sofrimento. Sendo, então, para o filósofo, “Moral como pusilanimidade” (NIETZSCHE, 2005, p. 84).
Vincula-se o nihilismo de Nietzsche à melancolía de Freud pela etimologia do primeiro termo, o nada, ou seja, essa morte dos valores, esse apodrecimento da moral, essa perda de energia no próprio sujeito, empobrecimento do Eu, essa existência de uma pulsão de morte, a perda dos significantes[25], esse adoecimento do homem se tornando como forma de luto da própria singularidade. Estar morto dentro de si é o que caracteriza essa melancolia, essa dor de existir, e transvalorar os valores morais fracassados seria justamente dar uma nova simbolização à vida, erigir um novo significante, e assim reconhecer a mesma como vontade de poder.
Nas palavras de Nietzsche, (2018, p. 111) “(...) escrever para mim é uma necessidade imperiosa (...) B: Mas por que você escreve então? A: Cá entre nós, meu caro, eu ainda não descobri outra maneira de me livrar de meus pensamentos”. Trazer o poiesis (devir/caos organizado artisticamente) em evidência como força motora de produção artística dentro de clínica, através da capacidade intelectual e sentimental da sublimação, como amenização desta quebra do sentido da vida, e restauração do mesmo.
O filósofo Nietzsche entendia que a arte torna toda a existência mais sublime. As obras artísticas, nesse caso as literárias, preenchem o vazio do homem e o dá vida, afastando então de si os pensamentos abissais, clareando o abismo depois de encará-lo, trazendo luz à escuridão. A superpotência de devires compõe a arte em todo o seu poder dionisíaco de trazer sentido à vida, de restaurar sentido e restaurar potência, não sendo apenas um revitalizador ou uma anestesia, como funcionaria a morfina, mas sim um super estimulante restaurador, sim um salva-vidas ao se afogar, um impulso por ar e respiração pura após perder o fôlego. “[...] Não se pode ficar tanto tempo na profundidade querendo entender tudo de uma vez, pois corre-se aí o risco do afogamento subjetivo [...]” (BONFA JUNIOR, 2022, p. 71).
Pela comédia que é a tragédia, o adoecido pode abaixar suas máscaras melancólicas e transformar seu pathos em uma potência de vida, ressignificando seu sofrimento em vontade de ser, em devir, em vir a ser e se transformar, onde esse afeto seria uma mudança simultânea entre corpo e mente, entre bio e psico. Para Nietzsche, o niilismo seria o adoecimento do homem, e nada mais adoecido do que um ego fragilizado e impotente, que pode ser restaurado através da transvaloração de todos os seus valores (NIETZSCHE, 2018), através da ressignificação do sentimento - através da intelectualização.
6 DEPRESSÃO OU FONTE? QUANTO MAIS SUPORTAR SEM AR, MAIS FUNDO SE PODE MERGULHAR
Pela teoria de Freud, entende-se que quão mais profundo e real e visceral for o sentimento humano, mais ofegante o mesmo pode ser para o enfermo, para o sujeito, embora cada vez mais singular sua individualidade pode se tornar. Desta forma, entendemos do ponto de vista artístico que o “fundo do poço” pode vir a ser positivo em clínica.
Quando trata-se de melancolia, Freud diz (1917/2010, p.173) “O exame de realidade mostrou que o objeto amado não mais existe, e então exige que toda libido seja retirada de suas conexões com esse objeto”, sabendo que esta oposição pode ter um valor tão significativo e profundo que, segundo Freud (1917/2010, p. 173-174), “(...) produz um afastamento da realidade e um apego ao objeto mediante uma psicose de desejo alucinatória”, levando o sujeito à uma estruturação psicótica dentro do real, voltando das neuroses e do narcisismo à perda do sentido, a um delírio não sistematizado, como visto no diagrama de Coutinho Jorge na página 177 de Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan - Volume 2: A clínica da fantasia.
Figura 1 - tabela das estruturas
Fonte: COUTINHO JORGE, Marco A. Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan Volume 2: A clínica da fantasia. 2º Ed. RJ: Zahar, 2022, p. 177.
Essa perda causada na melancolia se relaciona à uma subtração da perda de objeto da consciência. Desta forma, no melancólico existe “(...) um enorme empobrecimento do Eu” (1917/2010, p. 175), como se a perda de objeto fosse, também, uma perda do próprio ego, um empobrecimento do self. Vê-se essa constatação também na passagem de Freud (1917/2010, p. 175-176), “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio Eu”.
Dentro do quadro melancólico acontece um marco de autoconhecimento, uma espécie de verdade antes vetada pelos investimentos no próprio ego, agora revelada pela natureza despedaçada da melancolia; como vemos, “(...) que sempre buscou apenas ocultar as fraquezas do seu ser, pode ocorrer (...) que tenha se aproximado bastante do autoconhecimento (...)” (FREUD, 1917/2010, p. 176-177); ou também, “No melancólico talvez possamos destacar um traço oposto, uma insistente comunicabilidade que acha satisfação no desnudamento de si próprio” (FREUD, 1917/2010, p. 177).
Quão mais profundo o poço se torna, mais desastrosa se torna a sanidade e saúde mental do indivíduo, embora mais puro seja o sofrimento e mais pura se torna - consequentemente - a sublimação deste indivíduo. Sendo assim, como mensurar um limite entre depressão e fonte, entre melancolia e arte? A melancolia torna-se uma linha tênue entre genialidade artística, entre produção útil e depressão constante e a perda do ser, ou seja, duas faces da mesma moeda, uma dualidade como tanto vemos no estudo da psicanálise. Quão mais fundo se torna o sentimento, quanto mais dentro da caverna platônica se está, quanto mais baixo no vale de Zaratustra se chega, mais facilmente o sujeito se perde de si, causando uma queda do pedestal e uma perda do self, uma perda de si. “O complexo da melancolia se comporta como uma ferida aberta, de todos os lados atrai energias de investimento (...) e esvazia o Eu até o completo empobrecimento” (FREUD, 1917/2010, p. 186).
Através deste autoconhecimento adquirido às custas do mergulho à profundidade pode-se então realizar, através do mecanismo da sublimação, uma produção artística relacionada a esta melancolia, uma forma de deslocar o objeto da pulsão, e temporariamente reerguer o ego. Em suma, “Bem como não se pode ficar tanto tempo na profundidade querendo entender tudo de uma vez, pois corre-se aí o risco do afogamento subjetivo, da depressão profunda, é preciso saber mergulhar e voltar à tona para tomar ar” (BONFA JUNIOR, 2022, p. 71).
7 A ESCRITA DE SI
Pelo termo e pensamento de escrita de si, o filósofo e psicólogo Michel Foucault pensa que a subjetividade é algo a ser permanentemente construído e constituído pela existência do homem, a vir a ser - a devir. Para o filósofo, o ato de narrar a si mesmo se diferencia do ato de ser narrado e ser visto, meramente falando, no limiar em que a narrativa de si pode ser encarada como um exame de consciência, uma forma de revisar seus conceitos e constantemente resgatar e restituir a subjetividade humana. (FOUCAULT, 2017). Também, “Ou seja, que fazia coincidir o olhar ou a forma de perceber as coisas com aquele que se lançava sobre si mesmo ao comparar suas ações cotidianas com as regras ou formas de compreensão da vida” (MACEDO; DIMENSTEIN, p. 163).
Não obstante, vemos como a arte de discorrer sobre si, mesmo que meramente uma forma de revisitar um dia corriqueiro e mundano, um dia comum e cotidiano, tem um poder de falar tanto pelo corpo como pela alma, como diria Foucault (FOUCAULT, 2017, p. 142) “[...] a escrita o exercerá na ordem dos movimentos interiores da alma [...]”, ou ainda “[...] revelando os movimentos do pensamento, ela dissipa a sombra interior onde se tecem as tramas do inimigo”. (FOUCAULT, 2017, p. 142).
Dessa forma, o cuidado de si leva o sujeito a um conhecimento mais profundo dentro da própria singularidade, dentro da própria subjetividade, além de postular maior governo sobre a própria psique, como visto também para Macedo e Dimenstein (2009, p. 163), “Em uma série de estudos sobre o uso dos prazeres e o cuidado de si na Antiguidade, Foucault, nesse mesmo texto, aponta a experiência da escrita como um elemento de treinamento ou governo de si(...)”. Ou também:
Nesse sentido, a escrita seria então uma ferramenta de si ou um exercício pessoal, que através dela se poderia transformar o que estava sendo visto, escutado, lido e experimentado, além de se separar o quê desses elementos poderia ser considerado um “bom alimento” para constituir para si novos componentes do nosso corpo e alma, ou como o próprio filósofo dizia: matéria-prima para a estilização de nossa existência (MACEDO; DIMENSTEIN, p. 163-164).
Contra-corrente à idealização de que a subjetividade do homem já está construída e a priori, Foucault pensava que o ato espontâneo da subjetividade é instantâneo ao ato de falar de si mesmo. Dessa forma, podemos compreender que “[...] esse exercício do pensamento sobre si mesmo que reactiva o que ele sabe [...], reflete sobre eles, assimila-os, e assim se prepara para encarar o real” (FOUCAULT, 2017, p. 143), tomando como consciência de si a própria consciência.
A escrita de si reavalia o sujeito que fala de si como em um sujeito que está se reconstituindo mediante à narrativa de si, buscando à realidade anímica e reescrevendo o próprio conceito do que é o real do sujeito, de tal forma a encarar este feito como um advento da introspecção, do olhar para dentro - ou até mesmo, ousa-se dizer, do inconsciente. “[...] recolher-se em si, atingir a si mesmo, viver consigo mesmo, bastar-se a si mesmo, aproveitar e gozar de si mesmo” (FOUCAULT, p. 146). Esta ética sendo lançada como um cuidado de si, e uma forma de estruturação do relacionamento com o próprio eu que seja tão adequada e completa quanto seja possível através da subjetivação e dessa idealização ao se narrar.
Assim, a escrita se torna o autor e o autor se torna a escrita, no limiar em que escreve sobre si, tornando-se um só corpo, em que segundo Foucault (2017, p. 148), “O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constituiu, um ‘corpo’“, sendo a própria alma que deve-se constituir e se instaurar no que se é escrito sobre ela, da mesma forma em que nossas semelhanças são identificadas pelo rosto, a alma deve ser identificado pelos textos escritos e obras produzidas de forma geral, de forma a “Recolher-se em si mesmo tanto quanto é possível”, (FOUCAULT, 2017, p. 150).
Não surpreende então que, através da narrativa de si como forma de dar janelas à alma e à subjetivação de sua própria existência, existam padrões tão similares ao conceito de sublimação para Freud. Pela sublimação, mesmo enquanto processo falho - como será tratado posteriormente -, podem ser encontrados e projetados em uma obra artística, ou de outro cunho intelectualizado, resquícios anímicos da subjetividade do eu, de tal forma que ao escrever sobre si também está escrevendo e produzindo de certa forma seus recalques, escrevendo seus fantasmas - sua tragédia.
É visto no caso de Leonardo da Vinci, “[...] um caso em que Leonardo falhou em suprimir seus afetos e algo havia muito escondido alcançou uma expressão distorcida” (FREUD, 1910/2013, p. 193-194), e que dessa forma buscou então, mesmo que através da arte pintada - como identificamos em outros autores -, escrever seus afetos suprimidos como uma forma de consciência de si, mesmo que inconsciente e nem sempre entendendo o porquê.
Da Vinci com seu processo sublimatório, dado como fracassado uma vez que, ao se sentir insatisfeito, pulava de competência à competência, da arte à engenharia e à matemática e à biologia, compreende-se então que a escrita de si avalia uma gama de competências, sempre sublimadoras ao trazer à superfície afetos suprimidos, inclusive a fantasia como vemos no caso dos poetas, artistas e - originariamente - nos infantes. “Produções fantásticas do jovem artista, criadas para sua própria diversão, nas quais ele talvez cedesse vazão aos desejos de ver o mundo e passar por aventuras” (FREUD, 2013, p. 206).
8 O PARADOXO DA SUBLIMAÇÃO
A partir da arte um processo de criação poderia evidenciar uma mudança de signo[26], trazendo então uma transformação de um excesso negativo em um excesso positivo. Essa alteração de signo acaba sendo proporcionada por adventos artísticos, fazendo-o deixar de ser signo e tornando-se significante. Para a física, o termo sublimação é usado para reverenciar uma mudança de estado, como é visto no redirecionamento de uma pulsão sexual para objetivos não-sexuais, assim como na arte - sendo uma forma magna de sublimação (NETO, 2007). Para Ribeiro (2015, p. 43) “(...) a arte funciona como um processo de sublimação. Isto é, um tipo de compensação para a insatisfação de desejos”.
O processo sublimatório parece estar intimamente ligado com o processo de dessexualização, assim podendo ser uma reabertura contínua da excitação e não uma canalização de energia preexistente. Se uma das principais características da sublimação seria o conceito dessexualizado, a diferença sexual da questão é exatamente através do desejo, da pulsão, do gozo como motor motriz. “O instinto sexual (...) por ser dotado da capacidade de sublimação, ou seja, pode trocar seu objetivo imediato por outros, possivelmente mais valorizados e não sexuais” (FREUD, 1909/2013, p. 136-137).
Se para sublimação pulsões, originalmente sexuais, são desviadas às finalidades não sexuais quanto à satisfação da pulsão, é seguro afirmar que seria - também - uma forma de escapar das presas do recalque, satisfazendo fracamente e temporariamente a pulsão. “Ou seja, se a satisfação da pulsão seria o gozo, a sublimação, que é desvio em relação ao gozo, não deixa de ser, paradoxalmente, satisfação da pulsão” (NETO, 2007, p. 22).
Em carta de 1912 de Freud a Jung, o pai da psicanálise acentuou o conceito de processo à sublimação, não de resultado, já que é um processo incompletável. Afinal, não seria a sublimação um processo fracassado de tirar o recalcado do inconsciente, atravessando a repressão e de fato ascendendo à altura, e carregá-lo através de uma mudança de estado de signo a significante pela arte, pela ciência ou pelo amor? Dessa forma, como poderia a satisfação da pulsão pela sublimação ser vitalícia e de fato provocar a resolução da mesma se o próprio processo sublimatório, além de fracassado e incompleto, é um ciclo vicioso caso não se resolva a origem da pulsão? Para Freud (1914/2010, p. 40), “A sublimação é um processo atinente à libido objetal e consiste em que o instinto se lança a outra meta, distante da satisfação sexual”, e ainda, “(...) a sublimação representa a saída para cumprir a exigência sem ocasionar repressão” (FREUD, 1914/2010, p. 41).
Se a sublimação é uma maneira de satisfazer as pulsões, as dadas formações reativas - sendo estes comportamentos e sentimentos diretamente opostos ao desejo e pulsão recalcados - seriam muralhas mentais de seccionar o real da satisfação. Como poderia então uma pulsão sexual se satisfazer e encontrar gozo de uma forma dessexualizada? (NETO, 2007). É da própria natureza da sublimação elevar uma pulsão à superfície de se satisfazer sem se satisfazer, defletindo fins sexuais a objetos não sexuais, como visto no caso Da Vinci através das ciências e das artes (NETO, 2007).
A idealização é tratada por Freud dentro do campo do narcisismo, propondo então que a sublimação transferiria as pulsões sexuais ao Eu, ao narcisismo, evidenciando então o caráter dessexualizado do processo sublimatório. Seria essa a questão, então, se todo o processo é formado através da mediação do ego ao transformar a pulsão sexual em narcísica, como idealização do eu, como o ideal do eu, mudando então as finalidades sexuais em não-sexuais, como já visto acima. “Não é difícil mostrar que o ideal do Eu satisfaz tudo o que se espera do algo elevado no ser humano” (FREUD, 1923/2011, p. 46).
É próprio dizer que o ideal do eu pode ser considerado uma espécie de sublimação, já que, se a idealização diz respeito ao objeto, o próprio ego, a sublimação diz respeito - então - à pulsão. É um processo que visa a libido objetal, evidenciando então que a pulsão se dirige ao propósito de um objetivo diferente, uma finalidade alternada, da satisfação sexual, tendo então esse objeto engrandecido na mente do indivíduo, da mesma forma que a idealização por estar fundo dentro do campo do simbólico e do narcísico acaba dependendo da identificação. Dessa forma, a sublimação se entende como uma saída fácil do recalcado sem sair do próprio recalque, uma maneira das pulsões sexuais serem atendidas sem envolver a repressão (NETO, 2007).
A dessexualização então leva Freud a acreditar que o próprio ideal do eu é fruto de sublimação, uma sublimação por si própria, encontrando curiosamente no processo alguma forma de satisfação das pulsões sexuais, sendo essa a finalidade do ciclo sublimatório, proporcionar mesmo com a influência do recalque um grau de satisfação pulsional. Tratando a sublimação dessa forma como um ciclo vicioso, como um processo interminável, não um resultado final e coerente em si próprio.
O processo sublimatório fracassado seria uma forma de deslocamento da pulsão e do traumático do inconsciente - do real -, atravessando as barreiras do recalque, até o consciente, momentaneamente, para ser expressa pelo simbólico, estruturada por um signo, apenas para fracassar e voltar sintomaticamente ao inconsciente. Então, a sublimação seria, em sua natureza repetitiva e interminável em seus significantes, um processo de trazer à superfície apenas para retornar em mácula à profundidade. Em conclusão, para Ribeiro “[...] a arte funciona como um processo de sublimação. Isto é, um tipo de compensação para a insatisfação de desejos” (2015, p. 43).
9 MATERIAIS E MÉTODOS
Este estudo foi elaborado através de uma abordagem metodológica que se fundamenta na sistematização bibliográfica qualitativa, enraizada teoria psicanalítica. O intuito primordial foi aprofundar a compreensão do tema em questão, segundo orientação de Cordeiro et al (2007). O artigo foi desenvolvido a partir de uma meticulosa coleta de materiais, todos em língua portuguesa, desde trabalhos contemporâneos e modernos até monografias, teses e a literatura psicanalítica clássica de Freud. Para acessar estes recursos, recorreu-se a plataformas de pesquisa renomadas, como o Google Scholar, PePSIC, e a biblioteca científica digital Scielo.
A estruturação do trabalho seguiu uma abordagem de revisão qualitativa sistemática, visando não apenas atingir com clareza e objetividade os objetivos da pesquisa, mas também fornecer um alicerce sólido para suas análises. O fenômeno da melancolia, compreendido como um processo que causa o esvaziamento do Eu e o empobrecimento do indivíduo, emergiu como núcleo central de investigação. Aprofundando-se na psicologia clínica, o estudo explorou a intersecção entre essa área e a expressão literária de artistas, ponderando se essa manifestação literária poderia contribuir para a cura ou atenuação dos sintomas em indivíduos melancólicos.
A seleção de dados e referências incorporados na pesquisa, bem como daqueles descartados, derivou da estratégia de aplicação de palavras-chaves relevantes, tais como “sublimação na psicanálise”, “fantasia em Freud”, “literatura na psicanálise”, “luto e melancolia em Freud” e “arte em Freud”. Autores que interpretam e comentam os conceitos de Sigmund Freud e seus conceitos abordados foram utilizados, como Christian Dunker, Marco Antônio Coutinho Jorge, Oswaldo França Neto, foram utilizados para enriquecer a discussão. A pesquisa, enraizada nos escritos de Freud, evoluiu para englobar as vertentes contemporâneas da temática, explorando conceitos como fantasia, sublimação e o paradoxo do desejo.
O processo de busca foi definido criteriosamente, envolvendo a avaliação do título de artigos e livros, bem como a identificação de autores mais relevantes, considerando sua metodologia e pertinência ao tema. A revisão crítica dos estudos selecionados resultou na síntese das informações e formulação de conclusões fundamentadas.
Alguns trabalhos e materiais de pesquisa foram excluídos devido à sua desconexão com os descritores, autores centrais e tópicos a serem abordados. Fichamentos e partes substanciais do artigo foram minuciosamente elaborados em torno de figuras da linguística, tanto psicanalítica quanto não, como Jacques Lacan, Lucia Santaella e Charles Sanders Peirce. Esses elementos, embora relevantes, tiveram sua importância reduzida em relação ao escopo da pesquisa e, eventualmente, foram excluídos.
A avaliação dos dados bibliográficos foi realizada de maneira qualitativa, viabilizando a comparação entre os escritos de Freud e os estudos contemporâneos no campo da sublimação e ciência psicanalítica. Essa avaliação levou em consideração as palavras-chave selecionadas e o enfoque da pesquisa, permitindo correlações pertinentes entre os tópicos abordados e os autores citados ao longo do texto.
10 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Através de análise e discernimento, é entendido o perigo da melancolia, o esvaziamento do Eu que leva ao niilismo ou, até mesmo, em casos extremos à morte. De acordo com a OMS, aproximadamente 800 mil pessoas se suicidam por ano, o que quer dizer pelo menos uma a cada cem mortes identificadas. Não obstante, segundo Silva e Marcolan “Nos últimos 10 anos (2010 a 2019), o Brasil registrou, em caráter ascendente, 112.166 óbitos por suicídio, denominadas lesões autoprovocadas intencionalmente” (2022, p. 3). Também, para o CFM, os casos de suicídio aumentaram no Brasil em 43% na última década, evidenciando a gravidade da questão.
Assim, pela pesquisa foi concluída a ligação entre arte e saúde mental, sendo a primeira então de grande meio à satisfação e bem estar, como forma de se reconciliar com o próprio Eu e dar significação à melancolia que faz afundar-se em si a ponto de não conseguir respirar. Além disso, como visto em Nietzsche, o adoecimento pode ser compreendido pelo niilismo, como a perda do sentido, como o esvaziamento de si, causado pela impossibilidade das pulsões e diminuição da autoconservação e aumento gradativo da autodestruição, levando a prejuízos pessoais, emocionais e sociais.
Dessa forma, vê-se a análise de pacientes enfermos e sua melhora através da palavra, através, neste caso, da literatura - como previsto por Freud através do conceito de sublimação. Vale dizer, que a sublimação é sim um processo - processo, não final - de cura e tratamento aos sintomas e inibições fomentadas pela melancolia e pela perda de si, que pode ser de ferramenta psicoterápica, intelectualizando a dor e dando sentido a mesma através da produção artística, amenizando gradativamente o desprazer.
Assim, a instauração dos traumas pelo corte narcísico, pela castração, dá direção ao sintoma e libera seu caráter pulsional em vez de inibí-lo, levando à parcial satisfação, como visto pela sublimação, de forma a intelectualizar a tragédia. Não obstante, é possível realizar esse processo pela autoconsciência e autocrítica de si, melhor entendendo os motivos e acontecimentos que levaram a tamanho empobrecimento, sendo então burlado e amenizado pelo processo interminável que é o mecanismo sublimatório.
Dessa forma, esse processo foi encontrado e descrito pelo mecanismo da sublimação, sendo esta a intelectualização do trauma, dessexualização da pulsão para poder alcançar parcialmente uma satisfação inalcançável, amenizando o sintoma - permitindo uma escrita de si através da fantasia que revela e suporta o real traumático em vez de escondê-lo. Compreende-se então que o adoecimento generalizado, seja de jovens ou adultos, pode ser amenizado pela compreensão da causa do esvaziamento de si e o como, através do advento da autoconsciência e pela direção analítica dentro da prática clínica, correlacionando então a arte e a saúde mental, sendo a arte uma supra ferramenta no processo da escrita e consciência de si e reintegração do trauma ao Eu de forma que seja tolerável e que não gere tamanho desprazer, conseguindo, então, alcançar satisfação às pulsões e tornando o sujeito menos enfermo, menos esvaziado de si e mais coeso e sólido dentro de seu self.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em conclusão ao caráter da pesquisa e sua revisão bibliográfica, entende-se que através da sublimação, trazer à superfície a trama inconsciente, liberar os fantasmas de Aion, pode-se alcançar uma dessexualização da libido - ou seja -, tornar parcialmente possível uma pulsão impossível. Através da sublimação, no caso deste trabalho mais especificamente o fazer literário, pulsões e desejos inviáveis que se vêem barrados pelo contrainvestimento podem ser vistos parcialmente realizados através da criação e do dote artístico, de forma terapêutica a buscar maior conhecimento do caso clínico do sujeito, dando mais pontos de vista ao analista, afinando o tecido entre a profundidade e a superfície.
Em contrapartida, é de se enfatizar o paradoxo dessa sublimação, o desvio - deslocamento - de uma pulsão a um objetivo ou objeto diferentes, de tratar do recalcado sem violar a jurisdição da repressão. Sendo assim, embora a sublimação traga uma maior imanência da subjetividade do analisando, deve-se entender que é um processo fracassado, alcançando, pelo desvio, parcialmente a satisfação da pulsão, apenas para retornar à ela mesma.
Dessa forma, o objetivo seria intelectualizar o sintoma, ou no conceito de Aion, trazer o devir da profundidade à superfície e se libertar da castração do simbólico, dando forma e sentido ao sofrimento, “uma comédia da tragédia”, como tratado. A relação entre a clínica e o fazer literário seria exatamente amenizar o sintoma, ressignificar o sofrimento, revitalizar e revalorizar o Eu do sujeito, de dar vida ao que tornou-se inanimado e morto, de ressuscitar a pulsão de vida e transformar a morte em algo valoroso.
Ao fantasiar, como postulado por Freud, o sujeito está expressando desejos inconscientes ou arquitetando em cima do trauma uma estrutura fantástica que o torne mais tolerável, como visto para o princípio de prazer e de realidade. Fantasiar então seria uma forma de se proteger do insuportável, podendo ser visto então como uma espécie de sintoma traumático - podendo ser amenizado pela sublimação, e guiado e direcionado pelo analista.
Para concluir, o fazer literário dentro da clínica é uma ferramenta de tratamento terapêutico de grande finalidade e valor, pouco explorada por suas complexidades, a fim de dar sentido e vida aos pacientes que se perderam de si. Ressaltando que a sublimação não é milagrosamente um estado de cura, mas sim um gancho, um processo interminável, que pode ajudar gradativamente o tratamento e deixar mais clara a etiologia dos sintomas.
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Graduando de Psicologia no Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC) ↑
Psicólogo Clínico, Professor de Psicologia no Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC) ↑
Ou Ego, é a consciência, compreensão e personalidade do sujeito. ↑
Recalque é o movimento psíquico que afasta da consciência ao inconsciente afetos, sentimentos e pulsões que são consideradas desagradáveis para o indivíduo e o princípio de realidade. ↑
Esquecimento ↑
Energia psíquica ↑
Tendência do aparelho psíquico de buscar a satisfação, a autoconservação, a integração. ↑
Vir a ser, fluxo, tornar-se, conceito filosófico que evidencia a passagem pelas mudanças. ↑
Ao contrário da pulsão de vida, a pulsão de morte promove a autodestruição, a morte por si só. ↑
Para o DSM/CID, dissociação é um transtorno caracterizado pela presença de dois ou mais estados de personalidade distintos, enquanto despersonificação é a sensação persistente de observar a si mesmo de fora do corpo ou ter a sensação de que seus arredores não são reais. ↑
Processo de degradação psíquica em que, não resolvido, pode levar à uma paralisia psico-emocional. ↑
Sexual no sentido de satisfação e prazer, não o ato sexual em si, mas as formas de gozo ou investimento narcísico. ↑
Obra de Freud onde se é citado o prazer ao lado do princípio da realidade como base dos acontecimentos psíquicos. ↑
Quando não há fixação de energia psíquica em uma representação, objeto ou ideia - quando não uma ciclagem dessa energia. ↑
Do grego, modo de ser e valores que ditam o comportamento do sujeito. ↑
A razão, a palavra, o verbo, a criação. ↑
Fluxo ininterrupto, vir a ser, transformação, tornar-se ↑
Representação, imitação, imagem enganosa ↑
Elevação à glória, exaltação, glorificação ↑
Ideia de memória. ↑
imagem acústica que é associada a um significado numa língua, para formar o signo linguístico ↑
O Outro é a cadeia de significantes, é o enunciado onde o sujeito aparece. ↑
Perda de qualquer sentimento por algo ou alguém que já amou. ↑
Palavra de origem grega que significa criação ou produção, e pensada pelo filósofo Martin Heidegger como iluminação. ↑
Para Jacques Lacan o significante é uma linha de representação que organiza um modo neurótico de existir. ↑
Representa o significado e significante de um conceito, ou, ainda para Charles Sanders Peirce, algo que representa algo para alguém. ↑