Impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal: um olhar sobre adesão, desfechos obstétricos e experiência materna.
Impacts of telemedicine on prenatal care: a look at adherence, obstetric outcomes and maternal experience.
Ana Leticia Oliveira Soares
Cibelle Rodrigues Teixeira Barbosa
Orientadora: Profa. Dra. Magda Rogeria Pereira Viana
RESUMO
Este estudo teve como objetivo analisar os impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal, com enfoque na adesão das gestantes, nos desfechos obstétricos e na experiência materna. Trata-se de uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa e descritiva, realizada a partir da análise de estudos publicados entre 2024 e 2026 em bases de dados científicas. Os resultados evidenciam que a telemedicina contribui para ampliar o acesso ao cuidado pré-natal, favorecendo a continuidade do acompanhamento gestacional e a identificação precoce de possíveis complicações. Observou-se também melhora na adesão das gestantes às consultas, associada à praticidade e à redução de barreiras de deslocamento. Em relação aos desfechos obstétricos, os estudos indicam que o uso de tecnologias digitais pode apresentar resultados semelhantes ao atendimento presencial quando aplicado de forma adequada. No que se refere à experiência materna, destaca-se o aumento da satisfação das gestantes, embora persistam desafios relacionados à qualidade da interação profissional-paciente e às desigualdades no acesso às tecnologias. Conclui-se que a telemedicina representa uma estratégia promissora no cuidado pré-natal, desde que utilizada de forma complementar ao atendimento presencial e acompanhada de políticas que garantam equidade no acesso.
Palavras-chave: telemedicina; pré-natal; saúde materna; tecnologias digitais; atenção à saúde.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the impacts of telemedicine on prenatal care, focusing on pregnant women’s adherence, obstetric outcomes, and maternal experience. It is a qualitative and descriptive bibliographic review based on studies published between 2024 and 2026 in scientific databases. The results indicate that telemedicine contributes to expanding access to prenatal care, promoting continuity of monitoring and early identification of potential complications. An improvement in adherence to consultations was also observed, associated with convenience and reduced mobility barriers. Regarding obstetric outcomes, studies suggest that digital health interventions can achieve results comparable to in-person care when properly implemented. Concerning maternal experience, increased patient satisfaction was identified, although challenges remain related to the quality of professional-patient interaction and inequalities in access to digital technologies. It is concluded that telemedicine is a promising strategy in prenatal care, provided that it is used as a complement to in-person care and supported by policies that ensure equitable access.
Keywords: telemedicine; prenatal care; maternal health; digital technologies; healthcare access.
A assistência pré-natal é uma das principais estratégias de promoção da saúde materna e neonatal, sendo essencial para a redução da morbimortalidade associada à gestação e ao parto. Entretanto, ainda há importantes desafios relacionados à adesão das gestantes ao acompanhamento, principalmente em regiões com desigualdades socioeconômicas, barreiras geográficas e escassez de profissionais de saúde. Com a pandemia de COVID-19, tais dificuldades se intensificaram, exigindo adaptações rápidas dos serviços de saúde e abrindo espaço para a incorporação de tecnologias digitais no cuidado obstétrico (Peahl et al., 2021; Almeida et al., 2022).
Nesse contexto, a telemedicina emergiu como uma alternativa estratégica para a continuidade do acompanhamento pré-natal, possibilitando a realização de consultas remotas, o monitoramento de sintomas e o fornecimento de orientações clínicas de forma segura. Estudos indicam que o uso da telemedicina durante a gestação pode contribuir para o aumento da adesão ao pré-natal, reduzir o número de faltas às consultas e favorecer uma comunicação mais constante entre gestante e equipe de saúde (Shmerling et al., 2022; Gao et al., 2022). Além disso, sua utilização permitiu minimizar riscos de exposição a infecções, especialmente durante o período pandêmico, e ampliar o acesso de mulheres residentes em áreas rurais ou com limitações de deslocamento (Santana; Amor; Gómez Pérez, 2021).
Evidências recentes demonstram que a implementação da telemedicina pode gerar benefícios não apenas em termos de acesso, mas também na qualidade do cuidado oferecido. Atkinson et al. (2023) observaram que gestantes acompanhadas por meio de teleconsultas relataram alto grau de satisfação, especialmente pela praticidade e pela percepção de maior apoio da equipe de saúde. Do ponto de vista clínico, estudos apontam que a telemedicina pode contribuir para melhores desfechos obstétricos, como redução de complicações hipertensivas, melhora no controle glicêmico de gestantes com diabetes e menor taxa de internações evitáveis (Montori et al., 2024; Elsheikh et al., 2024).
Apesar dos avanços, ainda existem desafios significativos relacionados à padronização, à equidade de acesso e à humanização do cuidado remoto. Pesquisas apontam que a falta de infraestrutura tecnológica, o baixo letramento digital e a desigualdade social podem limitar a efetividade dessa modalidade de acompanhamento (Perez; Oliveira; Reis, 2023). Além disso, aspectos subjetivos do atendimento presencial, como o vínculo entre gestante e profissional e o exame físico direto, ainda são considerados insubstituíveis por parte das usuárias (Collins et al., 2024; Novoa et al., 2024).
A satisfação materna com o acompanhamento pré-natal via telemedicina é um tema de destaque em estudos recentes. Gourevitch et al. (2023) mostraram que, embora a maioria das gestantes tenha considerado a experiência positiva, muitas apontaram limitações na comunicação e na avaliação clínica à distância. Esses resultados sugerem a necessidade de aperfeiçoar os protocolos e integrar a telemedicina de forma complementar, e não substitutiva, às consultas presenciais. Em consonância, Silva et al. (2024) destacam que o modelo híbrido — que combina encontros presenciais com acompanhamento remoto — tende a proporcionar melhores resultados tanto para os profissionais quanto para as pacientes.
A literatura, portanto, evidencia que o uso da telemedicina no pré-natal apresenta grande potencial para aprimorar o cuidado materno, mas requer uma avaliação cuidadosa de seus impactos sobre a adesão, os desfechos obstétricos e a experiência das gestantes. Diante disso, torna-se essencial reunir e analisar criticamente as evidências disponíveis nos últimos anos para compreender como essa ferramenta tem sido aplicada e quais resultados concretos têm sido observados.
Além disso, é preciso considerar que a telemedicina não representa apenas uma inovação técnica, mas também uma transformação profunda na relação médico-paciente e na organização dos serviços de saúde. Seu uso demanda uma abordagem ética e humanizada, pautada na privacidade das informações, na equidade de acesso e na manutenção do vínculo entre profissionais e gestantes. De acordo com a Society for Maternal-Fetal Medicine (2023), a implementação adequada da telemedicina deve estar inserida em políticas públicas que garantam infraestrutura digital, capacitação dos profissionais e acompanhamento contínuo da qualidade assistencial. Assim, a expansão dessa modalidade pode contribuir para a consolidação de um sistema de saúde mais acessível, resolutivo e centrado nas necessidades das mulheres.
A assistência pré-natal constitui um dos pilares fundamentais da atenção à saúde materno-infantil, sendo essencial para a promoção do bem-estar da gestante e do desenvolvimento fetal saudável. No entanto, em diferentes contextos regionais brasileiros, especialmente em áreas com limitações de acesso aos serviços de saúde, ainda persistem dificuldades relacionadas à distância geográfica, à escassez de profissionais e às barreiras socioeconômicas que comprometem a continuidade do cuidado durante a gestação. Nesse cenário, a telemedicina emerge como uma alternativa estratégica para ampliar o alcance da assistência pré-natal, possibilitando o acompanhamento remoto, a orientação contínua e a redução de desigualdades no acesso aos serviços de saúde, sobretudo em localidades onde o deslocamento até unidades de atendimento representa um obstáculo significativo.
A relevância deste estudo está diretamente relacionada à necessidade de compreender, de forma aprofundada, os impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também a adesão das gestantes e sua experiência durante o cuidado. Tal investigação mostra-se pertinente tanto para a sociedade, ao contribuir para a melhoria da qualidade da assistência ofertada às mulheres, quanto para a comunidade científica, ao ampliar o conhecimento sobre a efetividade dessa modalidade de atendimento. Além disso, o estudo apresenta importância prática ao subsidiar a formulação de estratégias mais acessíveis, humanizadas e eficientes no cuidado pré-natal, fortalecendo políticas públicas voltadas à saúde materna e promovendo melhores desfechos obstétricos.
Analisar os impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal, com base em evidências científicas recentes (2023–2026), considerando a adesão das gestantes, os desfechos obstétricos e a experiência materna.
Este estudo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de abordagem qualitativa e descritiva, sendo escolhida por possibilitar uma análise ampla e crítica dos resultados provenientes de estudos já publicados sobre o tema investigado. Essa modalidade permite a síntese de evidências científicas e a identificação de lacunas no conhecimento existente, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada do objeto de estudo. No presente trabalho, a revisão teve como finalidade reunir e analisar produções científicas recentes que abordam os impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal, considerando aspectos relacionados à adesão das gestantes, aos desfechos obstétricos e à experiência materna durante o cuidado (Gil, 2019).
A questão norteadora da pesquisa foi elaborada com base na estratégia PICO, utilizada para estruturar a formulação de perguntas de investigação a partir de quatro componentes: população, intervenção, comparação e desfecho. Dessa forma, definiu-se a seguinte pergunta orientadora: os impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal em relação à adesão das gestantes, aos desfechos obstétricos e à experiência materna, conforme evidenciado nas produções científicas publicadas entre 2024 e 2026?
Foram incluídos artigos científicos primários e secundários, como ensaios clínicos, estudos de coorte, revisões sistemáticas e metanálises, publicados entre janeiro de 2024 e março de 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol. Consideraram-se elegíveis os estudos que abordaram diretamente o uso da telemedicina ou de ferramentas digitais voltadas ao acompanhamento pré-natal. Foram excluídas pesquisas que trataram de outras etapas do ciclo gravídico-puerperal, como parto ou puerpério, além de revisões narrativas, editoriais, relatos de caso, dissertações, teses e publicações que não apresentaram acesso ao texto completo.
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados PubMed (National Library of Medicine – NLM), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval System Online), Scopus (base de dados multidisciplinar da Elsevier), SciELO (Scientific Electronic Library Online) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Os descritores foram definidos a partir dos termos MeSH (Medical Subject Headings) e DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), os quais foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Entre as principais expressões utilizadas no processo de busca destacaram-se: “telemedicine” AND “prenatal care”, “digital health” AND “maternal health”, “telehealth” AND “pregnancy outcomes” e “virtual prenatal care” AND “patient satisfaction”.
A seleção dos artigos ocorreu em três etapas sequenciais: leitura dos títulos, análise dos resumos e leitura integral dos textos potencialmente elegíveis. Dois revisores realizaram a triagem de forma independente, e eventuais divergências foram resolvidas por meio de consenso. Após a seleção final, os estudos incluídos foram organizados em uma planilha contendo informações referentes aos autores, ano de publicação, país de realização do estudo, delineamento metodológico, características da amostra investigada, forma de utilização da telemedicina, variáveis analisadas e principais resultados observados.
A análise dos dados foi conduzida de maneira qualitativa e interpretativa, priorizando a identificação de convergências e divergências entre os achados das pesquisas selecionadas. Os resultados foram organizados em três eixos temáticos principais: adesão ao acompanhamento pré-natal, desfechos obstétricos e experiência materna. A síntese das evidências foi apresentada de forma narrativa, destacando-se as implicações clínicas dos achados, as limitações metodológicas identificadas e as recomendações direcionadas à prática médica e à gestão dos serviços de saúde. Por se tratar de um estudo fundamentado exclusivamente em dados secundários de acesso público, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelecido pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
A seleção dos estudos foi sistematizada por meio do fluxograma PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), instrumento amplamente utilizado para garantir transparência e rigor metodológico em revisões da literatura. Esse modelo permite descrever de forma organizada todas as etapas do processo de busca e seleção dos artigos, desde a identificação inicial nas bases de dados até a inclusão final dos estudos que compõem a análise. No presente trabalho, o fluxograma evidencia o quantitativo de registros encontrados, os critérios de exclusão aplicados e o número de estudos selecionados para análise, assegurando a rastreabilidade das decisões metodológicas adotadas e fortalecendo a confiabilidade dos resultados obtidos (Figura 1).
Figura 1 – Fluxograma do processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos, conforme as diretrizes PRISMA.
Fonte: Autora (2026)
O processo de seleção dos estudos seguiu rigorosamente as etapas do fluxograma PRISMA, iniciando-se com a identificação de 85 registros provenientes das bases de dados PubMed/MEDLINE (n = 35), Scopus (n = 28), SciELO (n = 12) e LILACS (n = 10). Após a remoção de 15 duplicatas, permaneceram 70 registros para a etapa de triagem, na qual todos foram analisados por meio de títulos e resumos. Nessa fase, 45 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios temáticos estabelecidos, restando 25 artigos para avaliação de elegibilidade por leitura na íntegra. Posteriormente, 15 artigos foram excluídos por não abordarem diretamente a temática da telemedicina no contexto pré-natal, por se tratarem de revisões narrativas, por indisponibilidade de acesso ao texto completo ou por não se enquadrarem no recorte temporal definido. Ao final do processo, 10 estudos atenderam integralmente aos critérios de inclusão e foram incorporados à síntese qualitativa da revisão.
O Quadro 1 apresenta a síntese dos 10 estudos selecionados para esta pesquisa, organizados de forma a evidenciar os principais elementos de cada produção científica, como autor e ano, título, tipo de estudo e contribuições para a temática investigada. Essa sistematização permite uma visualização comparativa dos achados, facilitando a identificação de convergências e divergências entre os estudos, bem como a compreensão das evidências disponíveis acerca dos impactos da telemedicina no acompanhamento pré-natal, especialmente no que se refere à adesão das gestantes, aos desfechos obstétricos e à experiência materna.
Quadro 1 – Síntese dos estudos selecionados
Autor/Ano | Título do estudo | Metodologia/Tipo de estudo | Contribuições do estudo |
|---|---|---|---|
Dalrymple et al., 2025 | The relationship between virtual antenatal care and pregnancy outcomes | Estudo observacional | Evidenciou que o pré-natal virtual apresenta desfechos semelhantes ao modelo presencial, com manutenção da segurança materno-fetal. |
Tormen et al., 2024 | Exploring the impact of integrating telehealth in obstetric care | Estudo descritivo | Demonstrou que a telemedicina melhora a organização do cuidado e amplia o acesso ao acompanhamento gestacional. |
Wang et al., 2025 | Association of digital health interventions with maternal and neonatal outcomes among pregnant women | Revisão sistemática | Indicou associação positiva entre tecnologias digitais e melhoria dos desfechos maternos e neonatais. |
Sabetrohanni et al., 2025 | Virtual-based prenatal care methods and their reported maternal and neonatal outcomes | Revisão sistemática | Apontou que o cuidado virtual contribui para monitoramento contínuo e redução de complicações gestacionais. |
Ali et al., 2026 | Telehealth in maternity care: benefits, barriers, and the future of digital maternity care | Revisão narrativa | Identificou benefícios, desafios e perspectivas futuras da telemedicina no cuidado materno. |
Silva et al., 2024 | Impacto da telemedicina na obstetrícia no contexto da atenção primária à saúde | Estudo descritivo | Evidenciou que a telemedicina fortalece a atenção primária e amplia o acesso ao pré-natal. |
Rabery et al., 2025 | Uso de tecnologias digitais para rastreio e acompanhamento de doenças no pré-natal | Revisão de escopo | Demonstrou eficácia das tecnologias digitais no rastreamento precoce de doenças gestacionais. |
Lima et al., 2025 | Improving maternal outcomes through prenatal telehealth services | Estudo aplicado | Indicou aumento da satisfação das gestantes e melhoria na adesão ao pré-natal. |
Albarqi et al., 2025 | The impact of prenatal care on the prevention of neonatal complications | Revisão sistemática e metanálise | Evidenciou que o acompanhamento adequado reduz complicações neonatais. |
Mendonça et al., 2024 | Uso da telemedicina e aplicativos móveis no cuidado pré-natal | Estudo descritivo | Apontou que aplicativos móveis aumentam a adesão e melhoram a experiência materna. |
Fonte: Autora (2026)
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