Reflexões sobre a representação do corpo para a mulher envelhescente
Reflections on the representation of the body for the aging woman
Márcia Aparecida Penna[1]; Alexsandra Micheline Real Saul Rorato[2]; Arlete Maria Brentano Timm[3]; Jocelaine Cardoso Gracioli[4]; Marcia Cassol[5]; Nara Elizandra Teixeira de Oliveira[6]; Carlos Eduardo Costa[7]; Priscila Kelly Dias Padilha[8]; Sandra Berenice Teixeira de Oliveira[9]; Luiza Wilke[10]
O corpo ocupa, na contemporaneidade, papel central nas relações sociais e nos processos de reconhecimento e aceitação social, especialmente em uma sociedade marcada pela valorização da juventude, da beleza e dos padrões estéticos. Nesse contexto, torna-se relevante refletir sobre o envelhecimento feminino e as representações sociais atribuídas ao corpo da mulher envelhescente, considerando os impactos culturais, simbólicos e subjetivos desse processo. Objetivo: Discutir o papel do corpo feminino durante o processo de envelhecimento, analisando as representações sociais, culturais e simbólicas relacionadas à velhice feminina. Metodologia: Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza teórico-reflexiva, desenvolvido por meio de revisão bibliográfica narrativa, a partir da análise de artigos científicos, livros e documentos nacionais e internacionais disponíveis nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Google Scholar e PubMed. Resultados e Discussão: Observou-se que o envelhecimento feminino ainda é frequentemente associado à perda da beleza, da feminilidade e da valorização social, reforçando processos de invisibilidade, estigmatização e insatisfação corporal. A mídia, os padrões estéticos e as construções socioculturais contribuem para a valorização do corpo jovem e para a rejeição das marcas do envelhecimento, impactando diretamente a autoimagem e a subjetividade das mulheres idosas. Considerações finais: Conclui-se que o envelhecimento constitui um processo natural, heterogêneo e multifacetado, atravessado por dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais. Dessa forma, torna-se fundamental ampliar as discussões acerca da corporeidade feminina na velhice, promovendo uma compreensão mais humanizada, plural e menos estigmatizada do envelhecimento feminino.
Palavras-Chave: Envelhecimento feminino. Corpo feminino. Imagem corporal. Mulher idosa. Corporeidade. Representações sociais.
In contemporary society, the body occupies a central role in social relations and in the processes of social recognition and acceptance, especially in a society marked by the valorization of youth, beauty, and aesthetic standards. In this context, it becomes relevant to reflect on female aging and the social representations attributed to the aging woman's body, considering the cultural, symbolic, and subjective impacts of this process. Objective: To discuss the role of the female body during the aging process, analyzing the social, cultural, and symbolic representations related to female old age. Methodology: This is a qualitative, theoretical-reflective study, developed through a narrative literature review, based on the analysis of scientific articles, books, and national and international documents available in the databases Scientific Electronic Library Online (SciELO), Virtual Health Library (BVS), Google Scholar, and PubMed. Results and Discussion: It was observed that female aging is still frequently associated with the loss of beauty, femininity, and social value, reinforcing processes of invisibility, stigmatization, and body dissatisfaction. The media, aesthetic standards, and sociocultural constructs contribute to the valorization of the youthful body and the rejection of the marks of aging, directly impacting the self-image and subjectivity of older women. Final Considerations: It is concluded that aging constitutes a natural, heterogeneous, and multifaceted process, traversed by biological, psychological, social, and cultural dimensions. Therefore, it becomes fundamental to broaden discussions about female corporeality in old age, promoting a more humanized, plural, and less stigmatized understanding of female aging.
Keywords: Female aging. Female body. Body image. Older woman. Corporeality. Social representations.
O envelhecimento populacional configura-se como um dos principais desafios contemporâneos para a Gerontologia, exigindo abordagens que ultrapassem os aspectos exclusivamente biológicos e incorporem dimensões sociais, culturais e subjetivas do envelhecer (WHO, 2015). Nesse contexto, o corpo assume papel central na experiência do envelhecimento, especialmente para as mulheres, cuja trajetória de vida é historicamente marcada por padrões estéticos, normas de gênero e expectativas sociais que associam valor, identidade e reconhecimento à juventude e à aparência física (BEAUVOIR, 2018; GOLDENBERG, 2016).
À medida que o corpo feminino envelhece, ele passa a ser frequentemente representado sob uma lógica de perda, declínio e invisibilidade social, reforçando processos de estigmatização e desvalorização da mulher envelhescente (GOFFMAN, 1988; GOLDENBERG, 2016). O envelhecimento feminino é, muitas vezes, associado à perda da beleza, da feminilidade e da funcionalidade, em detrimento de uma compreensão mais ampla, plural e humanizada do envelhecer. Dessa forma, os discursos sociais sobre o corpo envelhecido tendem a reforçar a invisibilidade social e o estigma direcionado às mulheres idosas.
Essas representações influenciam não apenas a forma como a sociedade percebe a velhice feminina, mas também a maneira como as próprias mulheres se relacionam com seus corpos. Na perspectiva gerontológica, tais aspectos repercutem diretamente na autoestima, na construção identitária, nas relações sociais, na participação social, na qualidade de vida e na autonomia das mulheres idosas, influenciando inclusive sua relação com o cuidado em saúde, os serviços sociais e as práticas de promoção da saúde.
Apesar do crescimento das produções científicas sobre envelhecimento, observa-se que grande parte dos estudos ainda privilegia abordagens biomédicas e funcionais, concentrando-se na prevenção de doenças e na manutenção da capacidade física, em detrimento de análises que considerem os significados simbólicos, sociais e culturais do corpo que envelhece. Tal cenário evidencia a necessidade de ampliar as reflexões teóricas acerca da corporeidade feminina, especialmente em uma população majoritariamente composta por mulheres idosas (DEBERT, 2021).
Sob essa perspectiva, a Gerontologia Crítica destaca que o envelhecimento do corpo feminino não pode ser compreendido de forma homogênea, uma vez que é atravessado por marcadores sociais como gênero, classe, raça/etnia e contexto sociocultural, produzindo múltiplas experiências e distintas formas de viver o envelhecer (MUELLER & DE CARLI, 2025). Dessa forma, refletir sobre o corpo da mulher envelhescente significa também questionar modelos normativos que reduzem o envelhecimento à decadência física, propondo uma compreensão mais humanizada, plural e socialmente situada.
A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de ampliar o olhar da Gerontologia para além dos aspectos clínicos e funcionais do envelhecimento, incorporando reflexões sobre corporeidade, gênero e representação social. Considerando que as mulheres representam a maioria da população idosa, compreender como o corpo feminino é significado durante o envelhecimento torna-se essencial para o desenvolvimento de práticas gerontológicas mais sensíveis, equitativas e alinhadas aos princípios do envelhecimento ativo e saudável (WHO, 2002).
Além disso, a escassez de estudos reflexivos que abordem o corpo da mulher envelhescente sob uma perspectiva crítica reforça a importância da produção de conhecimentos que contribuam para a desconstrução de estigmas, para a valorização da diversidade corporal e para o fortalecimento da autonomia e da dignidade das mulheres idosas no contexto social contemporâneo.
Diante desse cenário, torna-se pertinente aprofundar o debate sobre a representação do corpo da mulher envelhescente, contribuindo para a desconstrução de estigmas e para a valorização de uma compreensão mais ampla, plural e humanizada do envelhecimento. Assim, o presente estudo, de natureza teórico-reflexiva, tem como propósito discutir o papel do corpo feminino durante o processo de envelhecimento, buscando ampliar as reflexões no campo da Gerontologia e subsidiar práticas profissionais e políticas públicas mais sensíveis às especificidades e às experiências das mulheres idosas.
O envelhecimento populacional é um fenômeno global decorrente de avanços tecnológicos, conquistas sociais e melhorias nas condições de saúde, associado à transição demográfica caracterizada pela queda das taxas de fecundidade e mortalidade, sendo um fato marcante na transição demográfica observada nos países em desenvolvimento a partir da metade do século XX, colocando novos desafios e exigências aos sistemas de saúde. Esse processo altera a estrutura etária e aumenta a proporção de pessoas com 60 anos ou mais, conforme indicam análises internacionais (WHO, 2021).
No Brasil, o envelhecimento ocorre em ritmo acelerado, antecipando em poucas décadas uma transição que, em países desenvolvidos, levou mais de um século. Dados históricos mostram que a expectativa de vida ao nascer passou de 45,5 anos em 1940 para 76,4 anos em 2024, com projeções de que, até 2070, 37% da população será idosa (IBGE, 2024).
O envelhecimento constitui um processo natural, dinâmico e multifatorial, marcado por mudanças biológicas, psicológicas e sociais que ocorrem ao longo da vida e influenciam a relação do indivíduo com o meio em que vive. Essas transformações repercutem nas condições de saúde, autonomia, funcionalidade e participação social da pessoa idosa, tornando o envelhecimento uma experiência heterogênea e singular (VERAS & OLIVEIRA, 2018; WHO, 2020).
O processo de envelhecimento da população brasileira ocorre, principalmente, em decorrência ao aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de fecundidade. Embora o prolongamento da vida representa uma importante conquista social e sanitária, vive-se contemporaneamente um paradoxo marcado pelo desejo da longevidade aliado à rejeição do envelhecimento (GOLDENBERG, 2016). Nesse contexto, se por um lado verifica-se o prolongamento da vida como uma conquista, por outro, esse fenômeno traz consigo grandes desafios relacionados à saúde, ao bem-estar e à assistência à população idosa, especialmente em uma sociedade que ainda não se estruturou adequadamente para enfrentar essa realidade, especialmente em uma sociedade que ainda não se estruturou adequadamente para enfrentar essa realidade.
A transição demográfica representa importantes avanços no campo da saúde e da qualidade de vida. Contudo, traz consigo desafios econômicos, sociais e jurídicos que precisam ser enfrentados para garantir os direitos fundamentais da população idosa, conforme preconizado pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pelo Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003). A mudança no perfil demográfico está associada, entre outros fatores, com a melhoria da saúde pública com os avanços tecnológicos e a redução da taxa de fecundidade, associada à queda na mortalidade infantil e, ampliação do tratamento de doenças comuns em pessoas idosas (UN, 2021; WHO, 2021).
Tais mudanças ocasionaram alterações nas características de morbimortalidade, considerando que o processo de envelhecimento ocorre de forma individual e heterogênea.
Enquanto algumas pessoas alcançam a velhice de maneira saudável, preservando suas capacidades físicas e mentais, outras tornam-se mais vulneráveis, sendo acometidas por doenças e agravos que comprometem sua saúde e qualidade de vida. Dessa forma, o envelhecimento não deve ser compreendido apenas como uma etapa associada ao declínio da vitalidade ou à proximidade da morte, mas como mais uma fase do ciclo vital, permeada por mudanças biopsicossociais, experiências singulares e acúmulo de vivências.
No entanto, o aumento da população idosa também desafia as estruturas existentes de assistência social, saúde pública e previdência. Muitas vezes, os direitos assegurados pela legislação enfrentam barreiras práticas, como a insuficiência e ineficácia de políticas públicas específicas, a limitação de recursos financeiros e a negligência de responsabilidades por parte das famílias e da sociedade.
Esse cenário acentua a vulnerabilidade da pessoa idosa, especialmente em contextos de abandono, exclusão social e dificuldades de acesso a serviços essenciais, contrariando direitos fundamentais assegurados constitucionalmente e pelo Estatuto do Idoso, como à dignidade da pessoa humana, o direito à saúde física e mental, bem como o direito ao respeito e à convivência familiar e comunitária. (Lei nº 10.741/2003).
Diante desse panorama, torna-se imprescindível o planejamento e a implementação de políticas públicas capazes de atender de forma eficaz às necessidades dessa população. Isso inclui ações nos campos da saúde, assistência social, economia, educação e mercado de trabalho. Preparar a sociedade para o envelhecimento não é apenas uma medida preventiva aos impactos da transição demográfica, mas também uma oportunidade de promover o envelhecimento saudável e ativo, contribuindo para o bem-estar coletivo (SILVA & GALINDO, 2023).
A atenção integral à saúde da pessoa idosa exige, ainda, o fortalecimento da geriatria e a capacitação dos profissionais de saúde para reconhecer e intervir nas condições clínicas específicas dessa faixa etária. É fundamental garantir acesso equitativo a serviços de saúde, com foco na promoção da autonomia, na prevenção de agravos e na redução das desigualdades sociais que afetam o processo de envelhecimento (PEREIRA et al., 2024).
Frente a essa dinâmica demográfica, a saúde da pessoa idosa passou a ser uma das prioridades do Pacto pela Vida, com objetivo de promover um envelhecimento ativo e bem sucedido. Nesse contexto, o Estatuto do Idoso representa um marco histórico das Políticas Públicas Brasileiras ao garantir direitos e estabelecer diretrizes voltadas às necessidades da pessoa idosa (BRASIL, 2010). Além disso, o cuidado à pessoa idosa deve estar pautado em uma perspectiva integral, considerando sua totalidade biopsicossocial e não apenas nos cuidados relacionados ao adoecimento (ALENCAR, 2013; BRASIL, 2014; WHO, 2020).
Dessa forma, o envelhecimento não deve ser compreendido apenas como uma etapa associada ao declínio físico ou à proximidade da morte, mas como parte do ciclo vital, permeada por mudanças biopsicossociais, experiências singulares e múltiplas possibilidades de vivência. Trata-se de um período marcado pelo acúmulo de experiências, amadurecimento e ressignificações, que ultrapassam perspectivas reducionistas centradas exclusivamente nas perdas e limitações. (VERAS & OLIVEIRA, 2018; WHO, 2020).
As discussões acerca do corpo ganharam maior relevância ao longo do século XX, intensificando-se nas últimas décadas e alcançando, na contemporaneidade, centralidade inédita nas relações sociais e culturais. Nessa perspectiva, o corpo deixa de ser compreendido apenas como uma entidade biológica e passa a constituir-se como espaço de construção identitária, expressão social e produção de subjetividades. Conforme Giddens (2002), o corpo deve ser entendido como “um sistema de ação, um modo de práxis”, sendo constantemente moldado pelas experiências sociais e pelos padrões culturais vigentes. No contexto sociocultural, o corpo também se configura como importante marcador de reconhecimento, pertencimento e aceitação social, especialmente em um contexto marcado pela valorização da juventude, da aparência física e dos padrões estéticos corporais (LE BRETON, 2016; GOLDENBERG, 2016).
Questões relacionadas à negação da velhice surgem frequentemente no cotidiano contemporâneo, especialmente porque as alterações corporais decorrentes do envelhecimento tornam-se cada vez mais evidentes. Observa-se, assim, o desejo social de viver mais, porém mantendo características associadas à juventude.
Observa-se atualmente, crescente valorização do culto ao corpo, no qual a aparência física passou a representar um estilo de vida, reforçando modelos corporais socialmente valorizados. De acordo com Sibilia (2012), na contemporaneidade, o corpo passa a ser constantemente moldado e disciplinado em busca de padrões idealizados de juventude, beleza e perfeição, reforçados pela mídia e pela cultura da visibilidade.
A busca pela beleza corporal sempre esteve presente na história da humanidade, especialmente entre as mulheres. Contudo, os padrões de beleza sofreram transformações ao longo do tempo, substituindo corpos considerados volumosos e arredondados por modelos corporais magros e jovens. Conforme Le Breton (2016), o corpo ultrapassa a dimensão biológica, constituindo-se como construção social e simbólica atravessada por significados culturais que influenciam a percepção de si e as formas de interação dos indivíduos com o meio social, sendo o principal mediador da relação do indivíduo com o mundo e com a sociedade.
Nesse contexto, o corpo passou a ocupar posição central na construção da identidade social, tornando-se alvo constante de intervenções, modificações e pressões socioculturais sobre o corpo. Mais do que uma dimensão biológica, o corpo passou a configurar-se como importante marcador de reconhecimento e aceitação social, influenciando a forma como os indivíduos percebem a si mesmos e são percebidos pela sociedade (LE BRETON, 2016; GOLDENBERG, 2016).
As mudanças corporais decorrentes do envelhecimento tendem a ser percebidas negativamente pela sociedade, sobretudo devido ao culto à juventude e ao ideal do corpo perfeito. As tecnologias, a mídia e o mercado estético reforçam constantemente promessas de juventude eterna, fazendo com que envelhecer seja interpretado como ameaça à beleza e ao reconhecimento social.
As promessas de saúde, juventude e beleza vêm conquistando cada vez mais espaço na mídia e influenciando um número crescente de pessoas, especialmente mulheres, que buscam manter-se aceitas em uma sociedade marcada pela valorização do corpo idealizado (COUTO, 2012). Nesse cenário, beleza, vigor físico e juventude tornam-se atributos amplamente valorizados, fazendo com que o valor social dos indivíduos seja frequentemente atribuído à aparência corporal.
Diante disso, muitas mulheres recorrem ao uso de cosméticos, medicamentos, procedimentos estéticos, cirurgias, dietas e exercícios físicos na tentativa de minimizar os sinais do envelhecimento e adequar-se aos modelos estéticos socialmente valorizados.
Segundo Goldenberg (2016), o corpo adquiriu centralidade na cultura contemporânea, tornando-se elemento fundamental de exposição e reconhecimento social. Nesse contexto, disciplina, autocontrole e investimento estético passam a ser constantemente mobilizados na busca por um corpo considerado socialmente adequado, especialmente entre as mulheres, sobre as quais recaem maiores exigências relacionadas à juventude e à aparência física.
Na cultura atual, a beleza encontra-se fortemente associada à aparência física, especialmente para as mulheres. Com o avançar da idade, características como cabelos grisalhos, rugas e alterações corporais frequentemente podem gerar sentimentos de desânimo, baixa autoestima e insegurança na mulher envelhescente, sobretudo em razão da crença social de perda da atratividade e da feminilidade (GOLDENBERG, 2016; BEAUVOIR, 2018).
A cobrança pela manutenção de uma aparência jovem e sedutora é intensificada pela mídia, que frequentemente privilegia representações de pessoas idosas consideradas “bem conservadas” ou utiliza recursos digitais para suavizar os sinais do envelhecimento. Esse cenário contribui para que muitas mulheres idosas se sintam inferiorizadas ou excluídas por não corresponderem aos padrões estéticos socialmente impostos (SIBLIA, 2013; GOLDENBERG, 2016).
Apesar das transformações culturais das últimas décadas, ainda persistem práticas sociais que colocam a mulher em posição de objetificação e inferioridade, especialmente aquelas que não se enquadram nos atributos físicos valorizados socialmente.
Segundo Bourdieu (1999), o corpo feminino foi historicamente associado à juventude, à beleza e à capacidade reprodutiva, enquanto o corpo masculino esteve vinculado à força e ao poder. Dessa forma, o envelhecimento feminino tende a ser mais estigmatizado socialmente, sobretudo porque a mulher envelhecida deixa de corresponder aos padrões estéticos e simbólicos tradicionalmente valorizados.
As cobranças sociais dirigidas às mulheres tornam o envelhecimento feminino particularmente marcado por processos de invisibilidade social, estigmatização e desvalorização simbólica. Ser velho em uma sociedade que valoriza o belo, o produtivo e o jovem significa frequentemente ser associado à improdutividade, decadência e ausência de valor social (GOFFMAN, 1988; GOLDENBERG, 2016).
Beauvoir (2018) descreve o envelhecimento feminino como um processo cruel em uma sociedade patriarcal, afirmando que a mulher, ao envelhecer, perde o lugar social anteriormente construído a partir de sua atratividade física e função erótica.
Dessa forma, o corpo envelhecido passa a ser frequentemente invisibilizado socialmente, como se perdesse significado diante de padrões estéticos e culturais centrados na juventude (SIBILIA, 2012; GOLDENBERG, 2016).
A composição da imagem corporal e a percepção do corpo são influenciadas pelas experiências sociais e culturais vivenciadas pelos indivíduos. Assim, em uma sociedade que valoriza predominantemente a juventude e a beleza física, o envelhecimento e suas manifestações corporais tendem a ser percebidos de forma negativa, influenciando diretamente a construção da autoimagem das mulheres idosas (SILVA, 2013).
A percepção corporal envolve dimensões cognitivas, emocionais e subjetivas, influenciando autoestima, identidade e relações sociais. Nesse sentido, o modo como a mulher envelhescente percebe seu corpo está diretamente relacionado às representações sociais construídas acerca da velhice feminina.
Entretanto, embora o envelhecimento esteja frequentemente associado a perdas, limitações e declínio, essa fase da vida também pode ser marcada por experiências positivas, autonomia, amadurecimento e ressignificação pessoal. Nessa perspectiva, o envelhecimento deve ser compreendido de forma plural e heterogênea, considerando não apenas as limitações decorrentes da idade, mas também as potencialidades, experiências e possibilidades de desenvolvimento subjetivo ao longo da velhice (NERI, 2013; WHO, 2020).
Dessa forma, compreender a imagem corporal da mulher envelhescente implica reconhecer que o corpo não representa apenas uma dimensão biológica, mas também um espaço de construção identitária, expressão subjetiva e reconhecimento social. Embora os padrões estéticos contemporâneos frequentemente reforcem a valorização da juventude e a rejeição do envelhecimento, muitas mulheres ressignificam suas experiências corporais ao longo da velhice, desenvolvendo novas formas de perceber a si mesmas, exercer autonomia e construir sentidos positivos para o envelhecer (GOLDENBERG, 2016).
O presente artigo caracteriza-se como um estudo qualitativo, de natureza teórico-reflexiva, com abordagem interpretativa, cujo objetivo consiste em analisar criticamente a representação do corpo da mulher envelhescente, considerando seus significados sociais, culturais e simbólicos. A escolha dessa abordagem justifica-se pela necessidade de compreender o envelhecimento feminino para além de perspectivas estritamente biomédicas, valorizando os aspectos subjetivos, socioculturais e históricos que permeiam a construção social do corpo e da velhice.
O estudo foi desenvolvido por meio de revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em livros, artigos científicos, ensaios teóricos e documentos institucionais relacionados às temáticas do envelhecimento, corporeidade, gênero, padrões estéticos e representações sociais. Para a seleção do material, consideraram-se critérios como relevância temática, consistência teórica e atualidade das publicações, priorizando produções das áreas da Gerontologia, Sociologia, Psicologia e Estudos de Gênero.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Google Scholar, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed, utilizando descritores relacionados ao tema, tais como: “envelhecimento feminino”, “corpo”, “imagem corporal”, “mulher idosa”, “corporeidade”, “velhice” e “representações sociais”. Foram considerados estudos publicados preferencialmente nos últimos dez anos, sem exclusão de obras clássicas relevantes para a fundamentação teórica do estudo.
Inicialmente, foram identificados estudos relacionados à temática, sendo posteriormente selecionados os materiais que apresentavam maior pertinência com os objetivos da pesquisa, após leitura dos títulos, resumos e textos completos. Ao final, foram incluídas obras consideradas fundamentais para a discussão teórico-reflexiva proposta neste estudo.
A análise dos materiais ocorreu de forma crítica e interpretativa, possibilitando a articulação entre diferentes perspectivas teóricas e a identificação de aproximações, divergências e lacunas relacionadas à representação do corpo da mulher envelhescente. Nesse processo, buscou-se compreender como fatores históricos, sociais e culturais influenciam as percepções sobre envelhecimento, feminilidade e corporeidade na velhice.
Por não envolver investigação empírica direta, não foram utilizados instrumentos de coleta de dados, como entrevistas ou questionários. Assim, as reflexões apresentadas fundamentam-se na problematização crítica do referencial teórico analisado, visando ampliar as discussões acerca do envelhecimento feminino e contribuir para a construção de perspectivas mais humanizadas, inclusivas e menos estigmatizadas sobre o corpo da mulher envelhescente.
O presente estudo possibilitou refletir acerca da representação do corpo da mulher envelhescente, evidenciando que o envelhecimento feminino ultrapassa as dimensões biológicas e funcionais, sendo fortemente influenciado por fatores sociais, culturais e simbólicos. Ao longo da discussão, observou-se que a sociedade contemporânea ainda associa o corpo feminino à juventude, beleza e produtividade, contribuindo para processos de invisibilidade social, estigmatização e desvalorização da mulher que envelhece.
As transformações corporais decorrentes do envelhecimento tendem a impactar significativamente a percepção da autoimagem, autoestima e identidade feminina, sobretudo em um contexto marcado pela valorização de padrões estéticos idealizados. Nesse cenário, muitas mulheres vivenciam conflitos relacionados à aceitação do corpo envelhecido e às exigências sociais de manutenção da juventude.
Além disso, a percepção da imagem corporal na velhice envolve dimensões subjetivas, simbólicas e existenciais que ultrapassam a materialidade do corpo biológico. Muitas mulheres, ao confrontarem as transformações corporais decorrentes do envelhecimento, vivenciam sentimentos de estranhamento e dificuldades de autorreconhecimento diante da própria imagem, especialmente em uma sociedade que associa juventude à valorização social. Nesse sentido, o corpo envelhecido passa a expressar não apenas mudanças físicas, mas também experiências, memórias, identidades e significados construídos ao longo da trajetória de vida.
Entretanto, o envelhecimento não deve ser compreendido apenas sob a perspectiva das perdas e limitações. Trata-se de um processo singular, heterogêneo e multifacetado, que também pode ser permeado por autonomia, amadurecimento, ressignificação subjetiva e novas formas de relação com o próprio corpo e com a velhice.
Assim, torna-se fundamental ampliar o olhar da Gerontologia para além das abordagens biomédicas, incorporando reflexões relacionadas à corporeidade, gênero, subjetividade e representações sociais. Compreender o corpo da mulher envelhescente em sua pluralidade contribui para o fortalecimento de práticas profissionais mais humanizadas, inclusivas e sensíveis às experiências femininas no envelhecimento.
Por fim, destaca-se a importância da desconstrução de estigmas associados à velhice feminina e da valorização da diversidade das experiências de envelhecer, incentivando o desenvolvimento de novos estudos e políticas públicas voltadas à promoção da dignidade, autonomia e qualidade de vida das mulheres idosas.
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Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS – Brasil. Mestre em Gerontologia (PPGERONTO/UFSM). E-mail: marciaapenna@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-21038502 ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Doutora em Enfermagem (PPGENF/UFSM).
E-mail: alexsandrarsaul@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7305-557X ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Mestre em Enfermagem (PPGENF/UFSM). E-mail: ambtimm@yahoo.com.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7943-5821 ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Mestre em Enfermagem (PPGENF/UFSM). E-mail: jocegraci@yahoo.com.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3663-0074 ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Graduada em Serviço Social (UNITINS). E-mail: marcia_cassol@hotmail.com. ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Graduada em Direito (UNIFRA). E-mail: nara.teixeira@yhaoo.com. ↑
Clinica Renascer – Santa Maria – RS. Graduado em Enfermagem (UFSM). E-mail: enfedu21@gmail.com. ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Mestre em Enfermagem (PPGENF/UFSM). ORCID: https://orcid.org/0009-0005-8129-0592 ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Graduada em Tecnologia em Gestão de Recursos Humanos (UNICESUMAR). E-mail: sandrabereniceoliveira@gmail.com. ↑
Hospital Universitário de Santa Maria – Santa Maria – RS. Graduada em Serviço Social (UNITINS). E-mail: luizawilke@yahoo.com.br ↑