Palavras-chave
Educação infantil
Prevenção de acidentes
Saúde escolar
A escola como espaço de educação em primeiros socorros na infância.
The school as a space for education in first aid for children.
Andréa Rodrigues Pessoa¹*
Giovanna Cardoso Pingaro¹*
Sérgio Rodrigues da Silva¹*
Ticiane Amorim Camargo¹*
Yohana Sayuri Yamashita Silva¹*
Orientador: Silvana Flora de Melo²*
Coorientador : Henrique Almeida Assis Costa³*
RESUMO
Introdução: Este artigo tem como objetivo analisar o papel da escola como espaço estratégico para a educação em primeiros socorros na infância, considerando a importância dessa formação para a promoção da saúde e prevenção de acidentes no ambiente escolar. A infância é uma fase em que as crianças estão mais vulneráveis a situações de risco devido à curiosidade, imaturidade motora e emocional, o que torna imprescindível a presença de adultos capacitados e, ao mesmo tempo, a inserção de conteúdos de primeiros socorros de forma lúdica, acessível e pedagógica. Objetivo: Analisar o papel da escola como espaço estratégico para a educação em primeiros socorros na infância, considerando sua contribuição para a promoção da saúde e prevenção de acidentes no ambiente escolar, bem como a importância da inserção dessa temática de forma lúdica e pedagógica no contexto escolar. Materiais e métodos: A pesquisa, de natureza qualitativa, foi desenvolvida por meio de uma revisão bibliográfica, contemplando produções científicas dos últimos anos que tratam da temática, com ênfase na atuação de professores, educadores físicos, profissionais da saúde e demais atores do contexto escolar. Resultados/Discussão: Os resultados apontam que há lacunas na formação dos docentes no que se refere à abordagem de primeiros socorros, apesar das legislações vigentes que já exigem essa capacitação em algumas redes de ensino. Também se constatou que ações educativas, oficinas, simulações e atividades práticas voltadas às crianças podem ser eficazes na disseminação de conhecimentos e atitudes preventivas. Conclusão: Conclui-se que a escola deve assumir uma posição ativa na formação integral do aluno, incluindo a educação em saúde e a preparação para situações emergenciais como parte do currículo.
Palavras-chave: Primeiros socorros; Educação infantil; Prevenção de acidentes; Saúde escolar.
ABSTRACT
This article aims to analyze the role of the school as a strategic space for first aid education in childhood, considering the importance of such training for health promotion and accident prevention within the school environment. Childhood is a stage in which children are more vulnerable to risk situations due to curiosity and motor and emotional immaturity, making the presence of trained adults essential. At the same time, it is important to include first aid content in a playful, accessible, and pedagogical way. This qualitative research was developed through a bibliographic review, including recent scientific publications on the subject, with emphasis on the role of teachers, physical education professionals, health workers, and other actors within the school context. The results indicate gaps in teacher training regarding first aid approaches, despite existing legislation that already requires such training in some educational systems. It was also found that educational actions, workshops, simulations, and practical activities aimed at children can be effective in disseminating knowledge and encouraging preventive attitudes. It is concluded that schools must take an active role in the integral development of students, including health education and emergency preparedness as part of the curriculum.
Keywords: First aid; Early childhood education; Accident prevention; School health.
A escola desempenha um papel fundamental na formação global das crianças, não apenas nos aspectos cognitivos, mas também no desenvolvimento de competências para a vida. Dentre essas competências, destaca-se a importância da educação em saúde, especialmente no que diz respeito aos primeiros socorros, por ser uma área que pode contribuir diretamente para a preservação da vida em situações emergenciais. Situações de risco como quedas, engasgos, convulsões ou ferimentos são comuns no ambiente escolar e exigem respostas rápidas e eficazes. Nesse contexto, torna-se relevante incorporar o ensino de primeiros socorros à rotina escolar, valorizando a prevenção e a capacitação da comunidade escolar como um todo para agir de maneira assertiva em situações de urgência (DANTAS et al., 2018; GRIMALDI et al., 2020).
Ao considerar a criança como sujeito ativo no processo de construção do conhecimento, incluir conteúdos de primeiros socorros desde os primeiros anos escolares estimula a autonomia, a responsabilidade social e o cuidado com o outro. Além disso, educadores e demais profissionais da escola, ao estarem capacitados para agir diante de emergências, fortalecem a segurança no ambiente escolar e contribuem para a formação de uma cultura de cuidado. A implementação da Lei nº 13.722/2018, conhecida como “Lei Lucas”, evidencia a urgência dessa temática ao tornar obrigatória a capacitação em primeiros socorros para profissionais da educação básica, reforçando o papel da escola como espaço de proteção e promoção da saúde (DE CAMPOS et al., 2026).
A inserção de programas educativos voltados à educação em primeiros socorros pode utilizar métodos lúdicos, oficinas práticas e simulações para envolver as crianças de forma significativa e participativa. Essas estratégias têm mostrado bons resultados na assimilação de conhecimentos e no preparo para enfrentar situações emergenciais do cotidiano. Projetos escolares que promovem ações interdisciplinares e participativas favorecem não apenas o aprendizado, mas também a criação de vínculos entre teoria e prática, mostrando que o espaço escolar vai além da transmissão de conteúdos curriculares tradicionais, promovendo também a cidadania e a empatia (BERNARDINO et al., 2025; BATISTA et al., 2025).
Apesar das evidências que apontam a eficácia da educação em primeiros socorros na infância, observa-se uma lacuna significativa na formação dos profissionais da educação, muitos dos quais não se sentem preparados para agir em situações de emergência. Isso evidencia a fragilidade de políticas públicas que assegurem formação continuada e suporte técnico adequado aos educadores. Diante desse cenário, surge a seguinte questão: de que forma a escola pode se consolidar como um espaço efetivo de educação em primeiros socorros durante a infância, assegurando conhecimento prático e prevenção de riscos no ambiente escolar?
Este artigo tem como objetivo geral analisar a escola como um espaço potencial para a educação em primeiros socorros durante a infância. Para isso, propõe-se: (1) compreender o papel do educador na mediação do conhecimento sobre primeiros socorros; (2) identificar estratégias pedagógicas eficazes para o ensino de primeiros socorros a crianças; e (3) analisar as políticas públicas e legislações relacionadas à obrigatoriedade da formação em primeiros socorros no ambiente escolar.
A escolha desta temática justifica-se pela alta incidência de acidentes envolvendo crianças em idade escolar e pela vulnerabilidade presente nesse público, que ainda está em processo de maturação física e cognitiva. A escola, por ser um ambiente onde a criança passa grande parte do seu dia, torna-se um local estratégico para o desenvolvimento de ações educativas em saúde, especialmente em primeiros socorros. Ao qualificar professores e envolver os alunos no processo, fortalece-se o vínculo entre conhecimento e prática, contribuindo para a construção de ambientes mais seguros e preparados para agir diante de adversidades (DE SOUZA NEVES et al., 2022; ASCOLI; SILVA, 2018).
Além disso, pesquisas recentes demonstram que programas de capacitação voltados para profissionais da educação têm um impacto direto na redução de sequelas e até na mortalidade infantil em casos de emergência. Dessa forma, investir na formação de professores, no desenvolvimento de materiais didáticos apropriados e na inclusão dos primeiros socorros como conteúdo transversal do currículo é um caminho viável e necessário para garantir o direito das crianças à proteção e ao cuidado integral (CASADEVALL et al., 2020; PEREIRA, 2024; ROCHA et al., 2020).
METODOLOGIA
Este estudo se fundamenta em uma abordagem qualitativa, do tipo revisão bibliográfica, com o objetivo de analisar a escola como espaço de educação em primeiros socorros na infância. A opção pela revisão bibliográfica qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender as múltiplas dimensões sociais, pedagógicas e legais que envolvem a temática, a partir da análise de produções científicas já publicadas. Segundo Gil (2015), esse tipo de investigação é apropriado quando se busca examinar criticamente um corpo de conhecimentos já estabelecido, propondo articulações e novas leituras a partir do referencial teórico existente. Nesse sentido, a metodologia adotada neste artigo possibilita a identificação de tendências, lacunas e potencialidades sobre o tema em fontes acadêmicas confiáveis.
A seleção das fontes bibliográficas foi realizada entre os meses de dezembro de 2025 e janeiro de 2026, em plataformas como Google Scholar, SciELO, Redalyc, DOAJ, além de portais de revistas brasileiras com Qualis Capes relevantes nas áreas de educação, saúde e ciências sociais aplicadas. Foram utilizados os seguintes descritores: “primeiros socorros na escola”, “educação infantil e saúde”, “formação docente em emergências” e “Lei Lucas”. Os critérios de inclusão abrangeram artigos científicos, relatos de experiência, revisões integrativas e publicações técnico-científicas dos últimos dez anos (2016-2026), redigidos em português, que abordassem a relação entre o ambiente escolar e a educação em primeiros socorros. Após a triagem inicial, foram selecionadas 16 publicações que atendiam aos critérios propostos e cujos textos estavam integralmente disponíveis em acesso aberto. Foram excluídas produções que não abordavam diretamente o contexto da infância ou que tratavam exclusivamente de conteúdos técnicos médicos, sem conexão com a dimensão educativa.
A análise dos dados foi conduzida com base na técnica de análise de conteúdo, proposta por Bardin (2011), permitindo a categorização temática das contribuições encontradas. As fontes foram agrupadas segundo três eixos principais: (1) formação dos profissionais da educação para o atendimento de emergências escolares; (2) estratégias pedagógicas e lúdicas para o ensino de primeiros socorros às crianças; e (3) políticas públicas e diretrizes legais que regulam a temática, com destaque para a implementação da Lei nº 13.722/2018 (Lei Lucas).
A abordagem qualitativa possibilitou não apenas descrever os conteúdos presentes nas obras analisadas, mas também interpretar suas implicações para a prática pedagógica e para a construção de ambientes escolares mais seguros. Dessa forma, a metodologia empregada permitiu desenvolver um olhar crítico-reflexivo, integrando os aportes teóricos à realidade educacional brasileira, conforme orientações metodológicas de Gil (2015), que ressalta a importância da análise crítica e interpretativa no processo de revisão bibliográfica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A educação em primeiros socorros no ambiente escolar representa uma das estratégias mais promissoras para a formação de cidadãos conscientes, preparados e solidários desde a infância. A escola, além de ser um espaço de transmissão de conteúdos acadêmicos, assume a função de fomentar valores, habilidades e competências fundamentais para a vida em sociedade. Dentre essas competências, o conhecimento sobre primeiros socorros tem ganhado destaque, sobretudo diante de situações emergenciais que podem ocorrer no cotidiano escolar e que demandam uma ação rápida e eficaz por parte de professores, funcionários e até mesmo dos próprios alunos. A inserção desse conhecimento no currículo escolar e em projetos pedagógicos integra a formação integral do educando, reforçando o protagonismo infantojuvenil e promovendo a cultura da prevenção, cuidado e respeito à vida. Estudos têm evidenciado que o conhecimento sobre primeiros socorros, mesmo que básico, pode significar a diferença entre a vida e a morte em casos de acidentes ou mal súbito, o que justifica o crescente interesse da comunidade científica e educativa em torno desse tema.
3.1 A escola como espaço estratégico para educação em primeiros socorros
A escola é um espaço privilegiado de aprendizagem e socialização, onde crianças e adolescentes passam grande parte do seu tempo em atividades coletivas, o que aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de acidentes. Diante desse cenário, torna-se imprescindível que o ambiente escolar seja preparado para lidar com situações emergenciais, promovendo não apenas ações reativas, mas sobretudo, práticas preventivas por meio da educação em saúde. Conforme apontado por Grimaldi et al. (2020), a escola configura-se como um espaço propício para o desenvolvimento de atividades educativas sobre primeiros socorros, uma vez que favorece o acesso contínuo à informação e a construção de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida.
Além disso, a legislação brasileira tem avançado no reconhecimento da importância da formação em primeiros socorros no contexto escolar, especialmente após a promulgação da Lei nº 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, que tornou obrigatória a capacitação de professores e funcionários da educação básica em noções de primeiros socorros. Casadevall et al. (2020) destacam que essa medida legal foi fundamental para impulsionar iniciativas de formação e conscientização, ainda que muitos desafios persistam, sobretudo no que se refere à implementação efetiva e sistemática dessas formações nas redes públicas de ensino.
A formação de professores e educadores em primeiros socorros exige uma abordagem multidisciplinar que considere aspectos técnicos, emocionais e pedagógicos. De acordo com De Souza Neves et al. (2022), muitos profissionais da educação ainda se sentem inseguros e despreparados para lidar com emergências médicas simples, o que reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à capacitação contínua desses agentes escolares. Essa capacitação, quando bem conduzida, aumenta a confiança dos educadores, reduz o tempo de resposta em situações críticas e promove maior segurança no ambiente escolar.
É importante também considerar o papel da escola como promotora de saúde, indo além da prevenção de acidentes e alcançando uma dimensão educativa transformadora. Pereira (2024) ressalta que o ensino de primeiros socorros nas escolas contribui para a formação de crianças mais empáticas e preparadas para agir de forma responsável diante de situações de risco, estimulando o senso de coletividade e a cidadania ativa. A formação em primeiros socorros, assim, não se limita a uma aprendizagem técnica, mas se insere em um processo formativo mais amplo, voltado à humanização das relações escolares.
As ações de educação em saúde no espaço escolar também se articulam com a promoção de ambientes seguros e acolhedores. De Campos et al. (2026) argumentam que a cultura escolar precisa incorporar a ideia de que o cuidado com a vida deve estar presente em todos os aspectos da rotina escolar, desde a elaboração do projeto político-pedagógico até a formação continuada dos profissionais. Nesse sentido, a inclusão sistemática do tema “primeiros socorros” nos currículos escolares contribui para o fortalecimento de uma cultura institucional voltada à prevenção e à proteção dos estudantes.
As evidências demonstram que crianças e adolescentes são capazes de aprender e aplicar técnicas básicas de primeiros socorros quando essas são ensinadas de forma adequada, lúdica e interativa. Bernardino et al. (2025) demonstram, em sua experiência com atividades lúdicas, que estratégias pedagógicas baseadas em jogos, dramatizações e simulações são altamente eficazes para o ensino dessa temática, despertando o interesse dos estudantes e facilitando a assimilação dos conteúdos. Essas estratégias também ajudam a reduzir o medo e a ansiedade frente a situações de emergência, tornando os alunos agentes ativos de cuidados e prevenção.
A atuação da equipe pedagógica na disseminação de conhecimentos sobre primeiros socorros deve ser sistematicamente planejada, com base em diretrizes claras, conteúdos atualizados e metodologias participativas. Dantas et al. (2018) apontam que, para além de capacitar os educadores, é necessário estruturar um plano pedagógico que integre a educação em saúde ao cotidiano escolar, com ações regulares, avaliações de impacto e envolvimento da comunidade escolar como um todo. Isso inclui parcerias com profissionais da saúde, familiares e gestores escolares.
Outro aspecto relevante diz respeito à responsabilidade institucional das escolas em garantir ambientes preparados para acolher emergências. Batista et al. (2025) defendem que a gestão escolar deve incorporar protocolos de primeiros socorros, adquirir materiais básicos e promover treinamentos periódicos como parte integrante da gestão da segurança escolar. Essas ações não apenas previnem danos mais graves em casos de acidente, mas também comunicam aos alunos e às famílias o compromisso da escola com o bem-estar e a segurança de todos.
A escola, portanto, assume um papel educativo que transcende o ensino formal, sendo um espaço onde valores de solidariedade, responsabilidade e cuidado mútuo podem ser aprendidos e vivenciados. Ascoli e Silva (2018) afirmam que a inserção de conteúdos sobre primeiros socorros na educação infantil, por exemplo, favorece o desenvolvimento da empatia, da atenção e da responsabilidade desde os primeiros anos escolares, o que tem impacto direto na formação do caráter e nas atitudes sociais dos estudantes.
Deve-se destacar que a formação em primeiros socorros no ambiente escolar não deve ser tratada como ação pontual ou isolada, mas como parte de uma política educacional contínua e articulada com os objetivos da educação em saúde. Como afirma Sousa et al. (2025), é necessário reconhecer o potencial da escola como protagonista na construção de uma cultura de prevenção, capaz de salvar vidas, reduzir riscos e promover um ambiente escolar mais humano, seguro e saudável.
3.2 Capacitação docente e segurança escolar
A capacitação dos profissionais da educação para atuação em situações de emergência é um elemento essencial na construção de um ambiente escolar seguro. Com a implementação da Lei Lucas, que torna obrigatória a formação em primeiros socorros para professores e funcionários da educação básica, tornou-se evidente a necessidade de ações sistemáticas de formação continuada, voltadas à preparação desses profissionais para intervir com rapidez e segurança em casos de acidentes escolares. Casadevall et al. (2020) enfatizam que a capacitação adequada não apenas prepara o educador para agir em emergências, mas também fortalece sua autonomia e segurança profissional diante de situações críticas.
Muitos professores, no entanto, relatam não se sentirem suficientemente preparados para lidar com emergências, o que pode gerar sentimentos de impotência e insegurança. De Souza Neves et al. (2022) identificaram, em seu estudo, que uma parcela significativa dos profissionais da educação infantil desconhece procedimentos básicos de primeiros socorros, o que compromete a eficácia da resposta imediata em situações como quedas, engasgos, convulsões ou desmaios. A ausência de formação específica ainda é um desafio persistente em muitas redes de ensino, especialmente nas públicas, onde o acesso a treinamentos pode ser mais limitado.
Nesse contexto, a capacitação deve ir além da mera transmissão de técnicas, sendo fundamental que ela considere aspectos emocionais e psicológicos do educador ao lidar com situações potencialmente traumáticas. Sousa et al. (2025) reforçam que os programas de formação precisam incluir simulações, dinâmicas práticas e acompanhamento psicológico, pois o enfrentamento de emergências exige, além de conhecimento técnico, equilíbrio emocional e tomada de decisão rápida. A capacitação torna-se, assim, um processo contínuo, que deve ser renovado e atualizado periodicamente.
A integração da temática dos primeiros socorros nos currículos de formação inicial dos professores também é um fator relevante, ainda pouco explorado pelas instituições de ensino superior. Pereira (2024) destaca que a inclusão desse conteúdo nos cursos de licenciatura em pedagogia, educação física e outras áreas afins contribuiria para formar profissionais mais preparados desde o início de sua carreira docente. Essa integração curricular promove uma cultura preventiva e garante que o tema seja abordado com propriedade dentro do planejamento pedagógico escolar.
Outro fator relevante é o envolvimento da gestão escolar nos processos de capacitação, que deve ser entendida como uma política institucional prioritária. Batista et al. (2025) argumentam que o comprometimento da gestão em promover a formação dos professores impacta diretamente na construção de um ambiente seguro, organizado e preparado para lidar com riscos. Cabe às escolas, portanto, criar planos de ação, investir em parcerias com profissionais da saúde e monitorar o nível de preparo de sua equipe para intervenções em primeiros socorros.
A criação de protocolos escolares de emergência é uma das estratégias apontadas como eficaz para estruturar a atuação dos profissionais em casos de acidentes. De Campos et al. (2026) enfatizam que a definição clara de procedimentos, papéis e responsabilidades é fundamental para evitar improvisações e garantir uma resposta eficaz. Esses protocolos devem ser amplamente divulgados, testados por meio de simulações e atualizados regularmente, considerando a realidade e as necessidades específicas de cada escola.
A segurança no ambiente escolar está diretamente relacionada à formação e capacitação dos seus profissionais, mas também à disponibilidade de materiais e equipamentos básicos para primeiros socorros. Dantas et al. (2018) apontam que a simples presença de kits de primeiros socorros bem equipados, em locais acessíveis e com responsáveis treinados, pode reduzir significativamente os riscos decorrentes de acidentes. A estrutura física da escola, nesse sentido, precisa estar adaptada para facilitar intervenções rápidas e eficazes.
A capacitação docente também deve considerar a diversidade de situações possíveis no cotidiano escolar, inclusive aquelas que envolvem alunos com necessidades específicas. Ascoli e Silva (2018) destacam a importância de formar educadores físicos, por exemplo, para lidar com situações emergenciais que podem ocorrer durante atividades motoras, recreações e práticas esportivas. Esse preparo contribui para ampliar a segurança durante o desenvolvimento das atividades, evitando agravamentos e proporcionando uma resposta imediata mais eficaz.
Para além do aspecto técnico, a formação em primeiros socorros favorece a construção de um ambiente educativo mais solidário, em que professores e demais membros da comunidade escolar compartilham a responsabilidade pela vida e pelo bem-estar coletivo. Navarro et al. (2024) apontam que a cultura de segurança deve ser disseminada entre todos os atores da escola, professores, alunos, famílias e gestores, estimulando o compromisso coletivo com a prevenção e a atuação diante de emergências.
Ainda que a obrigatoriedade da capacitação em primeiros socorros tenha avançado com legislações como a Lei Lucas, sua efetiva implementação nas escolas ainda encontra entraves diversos, como a ausência de investimentos financeiros, escassez de profissionais qualificados para ministrar formações e a falta de políticas públicas articuladas entre os setores da saúde e da educação. De acordo com De Brito et al. (2024), muitos educadores apontam que a capacitação recebida é pontual e superficial, não sendo suficiente para garantir segurança nas ações práticas em casos reais. Esses relatos revelam a urgência de se institucionalizar políticas de formação continuada e de qualidade, que não apenas cumpram a exigência legal, mas que sejam eficazes na promoção de ambientes verdadeiramente preparados para lidar com situações emergenciais.
Outro aspecto fundamental é a sensibilização da comunidade escolar como um todo sobre a importância do preparo em primeiros socorros. A formação dos professores deve ser acompanhada de uma conscientização coletiva que envolva todos os profissionais da escola – merendeiras, porteiros, auxiliares, coordenadores – e também os próprios estudantes. Conforme apontam Pina, Martelli e Delbim (2022), a construção de um espaço educacional seguro passa pela corresponsabilidade e pelo engajamento de todos os agentes escolares, o que só é possível com uma abordagem participativa e integrada nas ações de prevenção e resposta. A escola, nesse sentido, não deve ser vista apenas como espaço de aplicação do conhecimento, mas também como um local de construção de uma cultura de cuidado mútuo e responsabilidade coletiva.
A abordagem pedagógica também precisa considerar os diferentes contextos em que a escola está inserida. Em regiões com maior vulnerabilidade social, por exemplo, os riscos de acidentes são potencializados por fatores como infraestrutura precária, superlotação e ausência de serviços de saúde de pronto atendimento nas proximidades. Nessas realidades, o papel do educador capacitado em primeiros socorros torna-se ainda mais relevante, pois ele pode representar o primeiro e único socorro imediato à criança em situação crítica. Conforme afirmam De Campos et al. (2026), as políticas de capacitação devem considerar essas disparidades regionais, garantindo equidade no acesso à formação e na construção de ambientes escolares seguros, independentemente da localização ou condição socioeconômica da comunidade atendida.
Ademais, os processos formativos devem contemplar uma avaliação constante de suas metodologias e resultados. Não basta ofertar cursos e treinamentos; é necessário investigar se os conteúdos abordados estão sendo efetivamente apropriados pelos docentes e aplicados no cotidiano escolar. Segundo Casadevall et al. (2020), uma das maiores fragilidades nas formações em primeiros socorros é a ausência de estratégias de acompanhamento e monitoramento das competências adquiridas. Isso compromete a sustentabilidade dos resultados e a eficácia da capacitação a médio e longo prazo. Portanto, as ações formativas devem estar articuladas a práticas reflexivas, momentos de atualização e experiências práticas, assegurando que os professores estejam permanentemente preparados para intervir de forma segura, ética e eficiente.
É necessário destacar que a formação continuada em primeiros socorros contribui não apenas para a segurança, mas também para o fortalecimento da autoridade pedagógica do educador. Ao demonstrar conhecimento e habilidade para lidar com situações adversas, o professor reforça sua imagem como líder e referência dentro do ambiente escolar. Grimaldi et al. (2020) observam que essa confiança reverbera positivamente no clima escolar, favorecendo relações de confiança entre alunos, professores e famílias.
3.3 A criança como agente de prevenção e resposta
Historicamente, as crianças foram vistas apenas como receptoras de cuidados, excluídas do protagonismo em ações de segurança e prevenção. Contudo, essa perspectiva tem mudado significativamente à medida que estudos demonstram que, quando bem orientadas, crianças da educação infantil e do ensino fundamental são capazes de aprender, compreender e aplicar técnicas básicas de primeiros socorros. Segundo Bernardino et al. (2025), ao vivenciarem atividades lúdicas e interativas voltadas ao ensino de primeiros socorros, as crianças não apenas assimilam os conteúdos, mas também os incorporam ao seu cotidiano, desenvolvendo senso de responsabilidade e empatia diante de emergências.
Essa capacidade de assimilação e ação está diretamente relacionada às metodologias utilizadas no processo educativo. As abordagens que combinam dramatizações, jogos pedagógicos, simulações e músicas são mais eficazes na fixação do conhecimento. De acordo com Batista et al. (2025), quando os conteúdos de primeiros socorros são trabalhados de maneira acessível e contextualizada, considerando a linguagem e os interesses das crianças, os resultados são extremamente positivos. Os autores relatam que, após oficinas educativas, as crianças demonstraram comportamentos mais prudentes, sabiam acionar o serviço de emergência e até realizar procedimentos simples como posicionamento lateral de segurança e compressão em sangramentos leves.
O envolvimento ativo da criança no processo educativo amplia o impacto das ações de saúde dentro da comunidade escolar. Crianças bem instruídas tornam-se multiplicadoras do conhecimento, levando para casa informações essenciais que podem, inclusive, salvar vidas em seus círculos familiares. Estudos como o de Grimaldi et al. (2020) apontam que, após intervenções escolares voltadas aos primeiros socorros, os alunos passaram a compartilhar com seus familiares as orientações recebidas, demonstrando protagonismo e autonomia em situações simuladas. Essa transposição do conhecimento do espaço escolar para o ambiente doméstico evidencia a potência transformadora da educação em saúde quando centrada na infância.
Entretanto, é importante reconhecer que a promoção da criança como agente de prevenção e resposta requer um compromisso pedagógico sólido e contínuo. Não se trata apenas de uma ação pontual ou de campanhas eventuais, mas da inserção efetiva desses conteúdos no currículo escolar. Do Nascimento Matos, De Souza e Alves (2016) defendem a inclusão permanente da disciplina de primeiros socorros no ensino básico, argumentando que, ao longo da formação escolar, as crianças podem desenvolver competências progressivas, apropriadas a cada faixa etária, fortalecendo uma cultura de segurança e cidadania desde os primeiros anos de vida.
O papel do educador, nesse processo, é fundamental para criar um ambiente acolhedor, seguro e estimulante, no qual a criança possa aprender sem medo, compreender a importância das ações preventivas e se sentir valorizada como parte ativa do cuidado coletivo. Pereira (2024) ressalta que os profissionais da educação infantil e fundamental devem ser capacitados não apenas tecnicamente, mas também didaticamente, para que possam adaptar os conteúdos e torná-los compreensíveis e significativos às crianças. A atuação do professor como mediador consciente e sensível contribui para a formação de sujeitos críticos, cooperativos e preparados para agir em situações adversas.
Outro fator relevante é a adaptação das estratégias de ensino aos diferentes contextos socioculturais nos quais a escola está inserida. A diversidade de experiências, saberes prévios e vivências familiares das crianças deve ser considerada para garantir que o aprendizado seja realmente inclusivo e efetivo. Conforme Navarro et al. (2024), as intervenções educativas em primeiros socorros que respeitam e dialogam com a realidade das crianças apresentam maior adesão e eficácia, promovendo um vínculo mais forte entre teoria e prática, entre escola e comunidade.
O reconhecimento da criança como sujeito ativo na promoção da saúde exige também o fortalecimento das políticas públicas educacionais. A escola precisa de respaldo institucional para integrar de forma sistemática conteúdos de primeiros socorros ao seu projeto pedagógico. Segundo De Campos et al. (2026), a Lei Lucas representa um marco importante nesse sentido, mas sua efetividade depende da articulação entre gestores escolares, professores, famílias e órgãos de saúde e educação. As crianças não podem ser formadas em isolamento, mas como parte de um sistema educacional comprometido com sua segurança e desenvolvimento integral.
A incorporação das crianças nas ações de primeiros socorros não substitui a responsabilidade dos adultos, mas complementa e fortalece a resposta em situações críticas. Como pontuam Sousa et al. (2025), crianças informadas e treinadas podem reconhecer sinais de emergência, chamar por ajuda, prestar informações precisas aos socorristas e, em alguns casos, iniciar ações básicas de suporte até que um adulto ou profissional capacitado assuma o atendimento. Trata-se de empoderamento e não de sobrecarga de responsabilidades, garantindo que os pequenos saibam como agir dentro de seus limites e capacidades.
Além disso, a educação em saúde desde a infância contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais como empatia, autocontrole, solidariedade e tomada de decisão. Essas competências, essenciais à formação cidadã, são favorecidas quando a criança participa de simulações e atividades colaborativas que envolvem cuidados e atitudes protetivas. De Brito et al. (2024) observam que alunos envolvidos em projetos de primeiros socorros demonstraram maior maturidade emocional e sensibilidade ao sofrimento do outro, aspectos que se refletem em uma convivência escolar mais respeitosa e harmônica.
Portanto, investir na formação da criança como agente de prevenção e resposta é investir na construção de uma sociedade mais preparada, solidária e resiliente. As escolas têm um papel estratégico nesse processo e devem ser vistas como espaços privilegiados de transformação social. Ao capacitarem as crianças para atuarem com responsabilidade e segurança diante de situações adversas, os educadores plantam as sementes de um futuro mais consciente e protetivo, no qual a vida e o bem-estar coletivo sejam valores fundamentais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa demonstrou a relevância e a urgência de se consolidar a escola como um espaço estruturado para o ensino de primeiros socorros na infância. Através da análise das práticas educativas existentes, das experiências relatadas por educadores e da implementação de estratégias pedagógicas voltadas à capacitação de crianças e professores, evidenciou-se que o ambiente escolar possui um potencial inegável na promoção da cultura da prevenção, da segurança e da valorização da vida desde os primeiros anos de escolarização.
Foi possível observar que, quando inserido no contexto pedagógico com metodologias adequadas à faixa etária e à realidade escolar, o ensino de primeiros socorros não apenas proporciona conhecimentos técnicos, mas também fortalece competências socioemocionais como empatia, cooperação, responsabilidade e autocontrole. Além disso, o envolvimento das crianças em atividades de simulação e orientação estimula sua autonomia e o senso de pertencimento à comunidade, tornando-as capazes de agir com mais segurança diante de situações emergenciais.
Dessa forma, conclui-se que o investimento em ações educativas de primeiros socorros na infância deve ser contínuo, sistematizado e respaldado por políticas públicas e formações docentes específicas. Ao reconhecer a criança como sujeito ativo no cuidado com o outro e com o ambiente, a escola não apenas ensina a salvar vidas, mas também cumpre seu papel formador de cidadãos conscientes, solidários e preparados para lidar com os desafios da vida cotidiana.
ASCOLI, Adriana de Moraes Barbosa; SILVA, Letícia Soares. O educador físico e os primeiros socorros na educação infantil. Revista Visão Universitária, v. 1, n. 1, 2018.Disponível em: http://www.visaouniversitaria.com.br/ojs/index.php/home/article/viewFile/141/110. Acesso em 05 de mar. de 2026.
BATISTA, Gabriel Campos Alves et al. Educação em saúde: lições de prevenção de acidentes e primeiros socorros nas escolas. Caderno Impacto em Extensão, v. 5, n. 1, 2025.Disponível em: https://revistas.editora.ufcg.edu.br/index.php/cite/article/download/6997/4892. Acesso em 05 de mar. de 2026.
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*Curso de Enfermagem da Universidade Anhembi Morumbi

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Copyright (c) 2026 Andréa Rodrigues Pessoa, Giovanna Cardoso Pingaro, Sérgio Rodrigues da Silva, Ticiane Amorim Camargo, Yohana Sayuri Yamashita Silva, Silvana Flora de Melo, Henrique Almeida Assis Costa (Autor)