Palavras-chave
Ração animal
Gestão contábil
Insumos pecuários
Comunidade de Beleza
Implantação de associação para aquisição de ração voltada ao apoio da produção animal na comunidade de
Beleza, São Desidério – BA: análise de viabilidade e atuação do contador
Implementation of an association for the acquisition of animal feed aimed at supporting livestock production in the Beleza community, São Desidério – BA: feasibility analysis and the role of the accountant
Eduardo Da Silva Santo
RESUMO
Este artigo analisa a viabilidade de implantação de uma associação voltada à aquisição coletiva de ração animal na Comunidade de Beleza, município de São Desidério–BA, bem como o papel do profissional de Ciências Contábeis na gestão dessa entidade. A pesquisa é de natureza aplicada, com abordagem quantitativa e qualitativa, caráter descritivo e exploratório. Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado aplicado a 240 moradores e produtores rurais da comunidade — sendo 173 produtores rurais ativos e 67 possíveis produtores com interesse em iniciar a atividade —, no período de janeiro a junho de 2025. Os resultados indicam que 78% dos entrevistados são favoráveis à criação da associação; que a maior demanda é por ração para bovinos (45%), seguida de aves (32%) e suínos (23%); e que os produtores pretendem adquirir entre 2 e 3 sacas mensais de cada insumo, com perspectiva de aumento caso o portfólio seja ampliado no futuro. O mix de insumos proposto inclui milho em grão, sorgo, milheto, casquinha de soja e farelo de gérmen de milho, com cotações de referência para o Oeste Baiano que totalizam entre R$ 51.968,00 e R$ 59.594,00 para lotes de 200 sacas de cada item. O estudo apresenta um modelo de gestão associativa com destaque para as atribuições do contador e um mecanismo de descontos progressivos de 5% a 22%. Conclui-se que a criação da associação é economicamente viável e que a atuação do contador é condição essencial para sua sustentabilidade e para a orientação dos associados.
Palavras-chave: Associativismo rural. Ração animal. Gestão contábil. Insumos pecuários. Comunidade de Beleza.
ABSTRACT
This article analyzes the feasibility of establishing an association for the collective acquisition of animal feed in the Beleza Community, São Desidério–BA, and examines the role of the accounting professional in managing such an entity. A field research was conducted with 240 residents and rural producers (173 active producers and 67 potential producers) between January and June 2025. Results show that 78% of respondents favor the association; producers intend to purchase 2 to 3 bags per month of each input, with prospects of increasing volume if the product portfolio expands in the future; the proposed input mix (corn, sorghum, millet, soybean hulls, and corn germ meal) totals between R$ 51,968.00 and R$ 59,594.00 for 200-bag lots. A progressive discount mechanism of 5% to 22% for members is also proposed. It is concluded that the association is economically viable and that the accountant's role is essential for its sustainability and member guidance.
Keywords: Rural associativism. Animal feed. Accounting management. Livestock inputs. Beleza Community.
1 INTRODUÇÃO
São Desidério, município do Extremo Oeste da Bahia, ocupa posição de destaque no cenário agropecuário nacional. Dados do IBGE (2022) apontam que a agropecuária responde por cerca de 69,2% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, que supera R$ 3,5 bilhões, o maior valor agropecuário entre todos os municípios brasileiros. Nesse território, a Comunidade de Beleza reúne famílias de pequenos e médios produtores cuja renda está diretamente vinculada à criação de bovinos, aves e suínos.
Segundo a EMBRAPA (2021, p. 34), “a alimentação animal representa o principal componente do custo de produção na pecuária, podendo comprometer entre 60% e 70% dos gastos totais em sistemas intensivos e semi extensivos”. Para os produtores da Comunidade de Beleza, que operam individualmente sem capacidade de barganha coletiva, isso se traduz em preços acima do mercado atacadista e margens de rentabilidade reduzidas. A criação de uma associação voltada à aquisição coletiva representa, portanto, uma via concreta para reduzir esse custo estrutural e fortalecer a competitividade local.
Diante disso, este artigo busca responder: é viável a implantação de uma associação de aquisição de ração animal na Comunidade de Beleza, e qual o papel do contador na sua gestão? Os objetivos específicos são: (a) verificar a percepção dos moradores quanto à criação da associação; (b) identificar a demanda por tipo de ração; (c) apresentar o mix de insumos e as cotações de referência para a região; (d) detalhar as atribuições do contador na gestão associativa; e (e) propor um mecanismo de descontos progressivos para os associados.
A relevância do estudo se justifica pelo potencial de impacto econômico direto sobre os produtores locais, pela contribuição à literatura sobre contabilidade aplicada ao associativismo rural e pelo papel estratégico do contador como agente de sustentabilidade de entidades coletivas no campo.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Associativismo Rural
O associativismo rural é uma forma de organização socioeconômica pela qual produtores rurais se unem voluntariamente para alcançar objetivos comuns de produção, comercialização e aquisição de insumos. No Brasil, associações rurais são regidas pelo Código Civil (BRASIL, 2002) como entidades sem fins lucrativos. Diferem das cooperativas — disciplinadas pela Lei n.º 5.764/1971 (BRASIL, 1971) — Conforme MEIRELLES (2021, p. 423), as associações constituem “pessoas jurídicas de direito privado sem fins econômicos ou lucrativos, cujo traço fundamental é a união de pessoas em torno de objetivos comuns, excluída qualquer finalidade de lucro”. Diferem das cooperativas — disciplinadas pela Lei n.º 5.764/1971 (BRASIL, 1971) — por não realizarem atividade econômica em nome próprio para distribuição de sobras.
Estudo multicaso conduzido por COSTA et al. (2020) em municípios baianos apurou reduções de até 25% nos custos com insumos entre produtores que migraram para o modelo associativo de compras. Paralelamente, a CNA (2022) registrou expansão de 34% no número de associações rurais no Nordeste entre 2015 e 2022, sinalizando tendência consolidada de organização coletiva no campo. Para os produtores da Comunidade de Beleza, esse movimento abre ainda a possibilidade de acessar linhas de crédito do PRONAF, do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e do Banco do Nordeste (BNB), direcionadas exclusivamente a entidades coletivas formalizadas.
2.2 Insumos para Produção Animal e Valor Nutricional
O milho em grão é o principal componente energético das rações para bovinos, aves e suínos, participando com mais de 60% do volume destinado à alimentação animal no Brasil (EMBRAPA, 2021). O sorgo, cereal de menor custo, apresenta valor energético de 5% a 10% abaixo do milho e é amplamente empregado como substituto parcial, sobretudo em regiões semiáridas, como o Oeste Baiano (EMBRAPA, 2021). Já o milheto se destaca pela resistência à seca e pela adaptação ao Cerrado nordestino, com composição nutricional próxima à do milho e ampla utilização em sistemas de pastejo e confinamento.
A casquinha de soja — subproduto da extração de óleo de soja — é classificada como co produto energético, com teor de proteína bruta em torno de 13% a 14% e Nutrientes Digestíveis Totais (NDT) superiores a 67% na matéria seca (NRC, 2001 apud MILKPOINT, 2020). THIAGO et al. (2000, apud CPTCURSOS, 2018) demonstraram que a substituição parcial do milho pela casquinha de soja, em bovinos confinados, reduziu os custos de alimentação em até 44% sem comprometer o ganho de peso. A casquinha pode ainda substituir até 25% da dieta bovina sem prejuízo ao desempenho produtivo (MILKPOINT, 2020). O farelo de gérmen de milho, por sua vez, é subproduto do processamento úmido do milho, com teor proteico de 20% a 28% na matéria seca e alta digestibilidade, sendo recomendado tanto para ruminantes quanto para aves e suínos (EMBRAPA, 2021).
A seleção criteriosa desses insumos encontra respaldo técnico nas recomendações da EMBRAPA (2021, p. 67):
A combinação de fontes energéticas e proteicas de origem diversa — cereais, coprodutos agroindustriais e subprodutos do processamento de oleaginosas — é a estratégia mais eficiente para reduzir o custo da dieta sem comprometer o desempenho produtivo dos rebanhos. Associações e grupos de compra coletiva que operam com mix diversificado de insumos obtêm, além das vantagens de escala, maior flexibilidade para ajustar as rações conforme a disponibilidade e os preços sazonais do mercado regional (EMBRAPA, 2021, p. 67).
2.3 O Papel do Contador na Gestão de Associações
O profissional de Ciências Contábeis exerce função estratégica e técnica indispensável na gestão de associações. MARION (2019, p. 78) sustenta que:
A contabilidade aplicada às entidades sem fins lucrativos deve observar os princípios fundamentais de contabilidade e as normas específicas editadas pelo Conselho Federal de Contabilidade, especialmente no que tange ao reconhecimento de receitas, despesas e à constituição de fundos de reserva, assegurando a transparência das informações aos usuários internos e externos.
A NBC ITG 2002 (R1), editada pelo CFC (2020), disciplina os critérios de escrituração, elaboração de demonstrações financeiras e notas explicativas aplicáveis a entidades sem fins lucrativos. Na prática associativa, o contador responde pela estruturação do plano de contas, pelo registro fidedigno de todas as operações, pela produção anual do Balanço Patrimonial, da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), da Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC) e da Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL), além do planejamento tributário e do controle gerencial de estoques e fluxo de caixa. Pesquisa do SEBRAE (2020) identificou correlação direta entre a presença de contador habilitado e a sustentabilidade financeira de associações rurais no médio e longo prazo.
3 METODOLOGIA
Do ponto de vista metodológico, o estudo é de natureza aplicada e adota abordagem mista: quantitativa na tabulação e análise estatística dos dados coletados, e qualitativa na interpretação das respostas abertas e no contexto socioeconômico investigado. Quanto ao nível de aprofundamento, o trabalho é descritivo e exploratório. Para GIL (2022, p. 26), a pesquisa descritiva “tem como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis”. Já MARCONI e LAKATOS (2022, p. 47) pontuam que a pesquisa exploratória “tem por finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores”. O procedimento técnico central é a pesquisa de campo, apoiado por revisão bibliográfica e documental.
O universo abrangeu os moradores e produtores rurais da Comunidade de Beleza que desenvolvem ou pretendem desenvolver atividades de criação de animais. Segundo a SECRETARIA MUNICIPAL DE AGRICULTURA DE SÃO DESIDÉRIO (2024), a comunidade conta com aproximadamente 230 famílias produtoras cadastradas, além de um contingente de moradores com interesse declarado em iniciar a atividade pecuária. A amostra, definida de forma intencional e por conveniência, totalizou 240 respondentes, distribuídos em dois grupos: 173 produtores rurais ativos — que já criam animais e adquirem ração regularmente — e 67 possíveis produtores — moradores com interesse em iniciar a criação e que participavam da associação como futuros associados. Esse total representa uma cobertura expressiva da população local com vínculo pecuário, com nível de confiança de 95% e margem de erro estimada de 6,3%.
O instrumento de coleta foi um questionário estruturado com 18 questões distribuídas em três blocos: (I) perfil socioeconômico; (II) atividade produtiva e demanda por ração; e (III) percepção sobre a criação da associação. O instrumento foi pré-testado com 10 produtores não incluídos na amostra final. A coleta ocorreu entre janeiro e junho de 2025, mediante visitas diretas às propriedades. Os dados foram tabulados em planilha eletrônica e analisados por estatística descritiva. Durante a coleta, os entrevistados informaram ainda a intenção de consumo mensal: a estimativa declarada variou entre 2 e 3 sacas por mês de cada um dos insumos propostos, dado que passou a integrar a análise de demanda agregada da pesquisa. As cotações de insumos foram levantadas junto à AIBA (2025), MF Rural (2025) e Grão Direto (2025), com referência para abril de 2025.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Perfil dos Entrevistados
Dos 240 entrevistados, 173 (72,1%) eram produtores rurais ativos e 67 (27,9%) possíveis produtores com interesse em iniciar a criação de animais. Quanto ao sexo, 70% eram do sexo masculino e 30% do feminino. A faixa etária predominante situa-se entre 31 e 60 anos (72%). Quanto à escolaridade, 65% possuíam o Ensino Fundamental e 35% o Ensino Médio incompleto, não havendo produtores com formação de Ensino Superior na amostra. Em relação ao tamanho das propriedades, 42% tinham até 50 hectares, 35% entre 51 e 200 ha e 23% acima de 200 ha. As atividades pecuárias mais praticadas entre os produtores ativos foram bovinocultura (67%), avicultura (54%) e suinocultura (38%), sendo comum o exercício simultâneo de mais de uma atividade.
4.2 Percepção sobre a Criação da Associação
A questão central investigou o posicionamento dos entrevistados quanto à criação de uma associação para aquisição coletiva de ração na Comunidade de Beleza. Os resultados, apresentados no Gráfico 1, demonstram expressiva aprovação: 78% favoráveis, 13% indiferentes e apenas 9% contrários.
Gráfico 1 – Posicionamento dos Entrevistados quanto à Criação da Associação
Nota: n = 240 (173 produtores ativos e 67 possíveis produtores). Pesquisa de campo – Comunidade de Beleza, São Desidério–BA, jan.–jun./2025. Fonte: SANTOS (2025).
Entre os favoráveis, os principais benefícios esperados foram: redução de preços (89%), maior poder de negociação (72%), acesso a produtos de melhor qualidade (58%) e acesso a crédito rural (44%). Esses resultados convergem com os achados de COSTA et al. (2020) e MEIRELLES (2021) sobre os principais motivadores do associativismo de insumos no campo. Os indiferentes (13%) representam público potencialmente convertível mediante esclarecimentos sobre os descontos propostos. Os contrários (9%) justificaram sua posição por desconfiança na gestão coletiva. Quanto à taxa de associação, 81% dos favoráveis declararam disposição para pagar entre R$ 50,00 e R$ 150,00/mês. Considerando que 78% dos 240 entrevistados são favoráveis (aproximadamente 187 pessoas), e projetando uma adesão inicial conservadora de 100 associados, a associação poderia arrecadar entre R$ 5.000,00 e R$ 15.000,00 mensais apenas com as taxas — montante suficiente para cobrir os custos operacionais básicos da entidade.
4.3 Demanda por Tipo de Ração
O Gráfico 2 apresenta a distribuição da demanda por tipo de ração entre os entrevistados, dado fundamental para o planejamento do mix de produtos da associação.
Gráfico 2 – Distribuição da Demanda por Tipo de Ração Animal
Nota: n = 240 (173 produtores ativos e 67 possíveis produtores). Percentuais referem-se ao tipo de ração de maior demanda declarada por entrevistado. Fonte: SANTOS (2025).
A predominância de ração para bovinos (45%) é coerente com o perfil histórico da bovinocultura na região. A demanda avícola (32%) reflete a expansão da avicultura como fonte de renda complementar — tendência confirmada pelo IBGE (2022) para a mesorregião do Oeste Baiano. A ração suína (23%) aponta o segmento em crescimento. Bovinos e aves juntos representam 77% da demanda, indicando as prioridades de negociação para a fase inicial da associação. Quanto à intenção de compra, os entrevistados informaram pretender adquirir entre 2 e 3 sacas mensais de cada insumo proposto na fase inicial da associação. Considerando a embalagem de 60 kg para milho, sorgo e milheto, e de 50 kg para casquinha de soja e farelo de gérmen de milho, esse volume por associado corresponde a aproximadamente 280 kg a 420 kg de insumos por mês. Projetado para os 173 produtores ativos que compõem o núcleo da amostra, chega-se a uma demanda agregada estimada entre 49 e 73 toneladas mensais — volume suficiente para enquadrar a associação no patamar de atacado intermediário da região e garantir condições diferenciadas junto aos fornecedores (AIBA, 2025). Os próprios entrevistados sinalizaram ainda que, caso o portfólio de produtos da associação seja ampliado futuramente com novos tipos de ração e outros insumos pecuários, tendem a aumentar o volume de compras, o que representa um potencial expressivo de crescimento da demanda agregada.
5 PROPOSTA DE ESTRUTURA DA ASSOCIAÇÃO
5.1 Mix de Insumos e Análise de Preços
Com base na demanda identificada na pesquisa de campo e no perfil nutricional dos rebanhos da Comunidade de Beleza, propõe-se que a associação opere com cinco insumos na fase inicial de suas atividades: milho em grão, sorgo, milheto, casquinha de soja e farelo de gérmen de milho. Cada produto atende a uma função específica na dieta dos animais — o milho e o sorgo como fontes primárias de energia, o milheto como alternativa energética adaptada ao Cerrado nordestino, a casquinha de soja como coproduto fibroso-energético de baixo custo para ruminantes e o farelo de gérmen de milho como complemento proteico para todas as espécies criadas na comunidade (EMBRAPA, 2021; MILKPOINT, 2020).
Para fins de planejamento financeiro, as cotações de referência foram levantadas junto à AIBA (2025), MF Rural (2025) e Grão Direto (2025) com base nos preços praticados no Oeste Baiano em abril de 2025. A Tabela 2 apresenta os valores unitários e os totais estimados para lotes de 200 sacas de cada item — volume considerado limiar de atacado intermediário na região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, a partir do qual os fornecedores costumam praticar condições diferenciadas de preço e logística.
Tabela 2 – Cotações de Referência para os Insumos da Associação
Oeste Baiano (Região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras), abr./2025
Insumo | Embalagem | Preço Médio Unitário* | Total (200 sacas)* |
|---|---|---|---|
Milho em grão | 60 kg | R$ 60,67 – R$ 63,47 | R$ 12.134,00 – R$ 12.694,00 |
Sorgo | 60 kg | R$ 42,67 | R$ 8.534,00 |
Milheto | 60 kg | R$ 46,50 – R$ 52,00 | R$ 9.300,00 – R$ 10.400,00 |
Casquinha de soja | 50 kg | R$ 45,00 – R$ 55,00 | R$ 9.000,00 – R$ 11.000,00 |
Farelo de gérmen de milho | 50 kg | R$ 65,00 – R$ 75,00 | R$ 13.000,00 – R$ 15.000,00 |
* Preços de referência baseados em cotações da AIBA, MF Rural e Grão Direto (abr./2025). Casquinha de soja e farelo de gérmen de milho: estimativas com base em subprodutos da soja e do milho na região. Fonte: Elaboração própria, SANTOS (2025).
Somados os valores medianos de cada item, o investimento total em um lote de 200 sacas de cada insumo situa-se entre R$ 51.968,00 e R$ 59.594,00. Esse volume enquadra a associação no patamar de "carga fechada" ou atacado intermediário praticado na região, o que costuma gerar entre 3% e 7% de redução sobre o valor de balcão (AIBA, 2025), além da possibilidade de frete gratuito para entregas em raio de até 50 km ou de preço reduzido na retirada direta no fornecedor. Para volumes acima de 1.000 kg, parte dos distribuidores oferece condições ainda mais favoráveis quando a compra é feita em big bags, reduzindo o custo operacional de manuseio. Cabe registrar que, conforme apurado na pesquisa de campo, os produtores da Comunidade de Beleza pretendem adquirir, individualmente, entre 2 e 3 sacas mensais de cada insumo proposto nesta fase inicial. Projetado sobre uma base inicial de 100 associados — estimativa conservadora frente aos 187 favoráveis identificados na pesquisa —, isso representa entre 200 e 300 sacas mensais por produto — volume plenamente alinhado ao patamar de atacado intermediário e que valida a viabilidade operacional da associação já no primeiro ano de funcionamento. A perspectiva de crescimento é igualmente positiva: os entrevistados indicaram que, caso a associação amplie futuramente seu portfólio com novos tipos de ração e outros insumos pecuários, tendem a aumentar seu volume de compras, o que poderá elevar a demanda agregada e melhorar ainda mais as condições negociadas com os fornecedores. O papel do contador nesta etapa é calcular o custo médio ponderado de cada insumo, confrontar cotações, controlar os estoques em sistema informatizado e elaborar relatórios de viabilidade que embasam as decisões de compra da diretoria.
5.2 Modelo de Gestão e Atuação do Contador
Os resultados da pesquisa sustentam a viabilidade de constituição de uma associação de produtores rurais focada na aquisição coletiva de ração animal na Comunidade de Beleza, nos termos da Lei n.º 10.406/2002 (BRASIL, 2002). A governança proposta contempla quatro instâncias: (a) Assembleia Geral de Associados, com poder deliberativo máximo sobre orçamento, estatuto e eleições; (b) Diretoria Executiva formada por Presidente, Vice-Presidente, Secretário e Tesoureiro, eleitos por sufrágio direto para mandatos bianuais; (c) Conselho Fiscal, composto por três titulares e três suplentes; e (d) Assessoria Técnico-Contábil, conduzida por contador com registro ativo no Conselho Regional de Contabilidade (CRC).
O contador da associação exercerá papel central e multidimensional, atuando nas seguintes frentes:
- Escrituração contábil completa em livros Diário e Razão, conforme as normas do CFC (2020) e a legislação tributária;
- Elaboração anual de Balanço Patrimonial, DRE, DFC, DMPL e Notas Explicativas, submetidas ao Conselho Fiscal e, a partir do segundo ano, a auditoria independente;
- Planejamento tributário com orientação sobre isenções aplicáveis (art. 150, inciso VI, alínea 'c', da Constituição Federal; Lei n.º 9.532/1997) e cumprimento das obrigações acessórias (SPED Contábil, ECF);
- Controle gerencial de estoques de ração (NF-e de entrada/saída, validade e inventário periódico) e monitoramento semanal do fluxo de caixa;
- Assessoria técnica na elaboração de projetos para captação de recursos junto ao PRONAF, BNB, Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e demais fontes de fomento ao associativismo rural.
Essas funções posicionam o contador não apenas como executor de obrigações legais, mas como parceiro estratégico da diretoria na tomada de decisões de investimento e negociação com fornecedores — confirmando o que MARION (2019) e o SEBRAE (2020) apontam como fator determinante para a longevidade de associações rurais.
5.3 Mecanismo de Descontos para Associados
Para estimular a adesão e a fidelização, propõe-se um sistema de descontos progressivos calculado com base na categoria do associado e no volume mensal de compras, conforme a Tabela 3:
Tabela 3 – Mecanismo de Descontos para Associados
Comunidade de Beleza, São Desidério–BA, 2025
Categoria do Associado | Desconto | Condição |
|---|---|---|
Associado Pleno – adimplente | 15% | Pagamento à vista |
Associado Pleno – adimplente | 10% | Parcelado em até 3× |
Associado Júnior (até 12 meses) | 8% | Pagamento à vista |
Associado Júnior (até 12 meses) | 5% | Parcelado em até 3× |
Volume acima de 2 ton./mês | 18% | Desconto adicional por volume |
Volume acima de 5 ton./mês | 22% | Desconto máximo por volume |
Fonte: Elaboração própria, SANTOS (2025).
Para um associado que adquire mais de 5 toneladas/mês ao preço médio de R$ 2.200,00/ton., o desconto de 22% representa economia de R$ 2.420,00/mês (R$ 29.040,00/ano). A viabilidade do sistema depende de negociação eficiente com fornecedores e do rigoroso controle financeiro conduzido pelo contador, que deve calcular mensalmente a margem de contribuição de cada operação para assegurar o equilíbrio da entidade (SEBRAE, 2020).
5.4 Perspectivas do Papel do Contador na Associação e na Orientação aos Associados
Para além das funções técnicas já descritas, o contador da associação assume perspectivas de atuação mais amplas à medida que a entidade amadurece. Três dimensões prospectivas se destacam: a orientação direta aos associados, o papel educativo-financeiro e a função de conformidade e governança.
Na dimensão da orientação direta, o contador torna-se o principal interlocutor entre a diretoria e os produtores em temas financeiros. Cabe a ele explicar o funcionamento do mecanismo de descontos, os critérios de categorização, os prazos de pagamento e os reflexos do volume de compras sobre o percentual obtido. A transparência na comunicação das informações contábeis aos usuários internos é, segundo o CFC (2020), princípio fundamental da boa gestão de entidades sem fins lucrativos.
Na dimensão educativa, o contador tem a oportunidade de promover, junto aos produtores rurais, uma cultura de gestão financeira básica. Muitos pequenos produtores não possuem o hábito de registrar custos, controlar estoques ou planejar o fluxo de caixa em suas propriedades. Ao apresentar o Balanço Patrimonial de forma acessível nas assembleias anuais e ao orientar sobre o custo real de cada insumo em relação à produtividade animal, o contador contribui para elevar o nível de gestão de cada propriedade individualmente — efeito multiplicador que vai além dos limites da entidade. MARION (2019, p. 312) afirma que “a contabilidade rural, quando bem comunicada ao produtor, converte-se em ferramenta de empoderamento na tomada de decisões estratégicas de investimento e gestão da propriedade”.
Na dimensão de conformidade e governança, o contador atua como guardião da integridade institucional da associação. À medida que ela cresce e passa a movimentar volumes maiores de recursos, a governança associativa — entendida como o conjunto de práticas que asseguram prestação de contas, equidade entre associados e responsabilidade da diretoria — torna-se cada vez mais relevante. Ao estruturar controles internos, produzir relatórios gerenciais periódicos e apoiar o Conselho Fiscal, o contador constrói um ambiente de confiança que é pré-requisito para a longevidade da entidade e para a captação de recursos externos (SEBRAE, 2020; CNA, 2022).
Por fim, numa perspectiva de longo prazo, o contador poderá assessorar a diretoria na eventual transição da associação para um modelo cooperativo — processo altamente complexo do ponto de vista jurídico, tributário e contábil, que demanda profundo conhecimento da estrutura patrimonial e dos fluxos financeiros da entidade, só plenamente dominado pelo profissional que acompanhou sua trajetória desde a fundação.
6 CONCLUSÃO
Este artigo analisou a viabilidade de implantação de uma associação de produtores rurais para aquisição coletiva de ração animal na Comunidade de Beleza, São Desidério–BA, identificando a atuação do contador como eixo central de sua gestão. Os resultados confirmaram forte demanda social pela associação — 78% favoráveis, conforme o Gráfico 1 —, com prioridade para ração bovina (45%), avícola (32%) e suína (23%), o que orienta diretamente as negociações iniciais com fornecedores.
A pesquisa demonstrou que a criação da associação é economicamente viável. O mix de cinco insumos proposto — milho em grão, sorgo, milheto, casquinha de soja e farelo de gérmen de milho — é adequado ao perfil produtivo da comunidade e está sustentado por cotações de mercado do Oeste Baiano (AIBA, 2025; MF Rural, 2025; GRÃO DIRETO, 2025) que totalizam entre R$ 51.968,00 e R$ 59.594,00 para lotes de 200 sacas de cada item. A intenção de compra declarada pelos entrevistados — entre 2 e 3 sacas mensais por associado de cada insumo — equivale, para uma base inicial de 100 associados (estimativa conservadora diante dos 187 favoráveis identificados entre os 240 entrevistados), a uma demanda agregada de 200 a 300 sacas mensais por produto, consolidando o enquadramento da associação no patamar de atacado intermediário da região, com potencial de desconto de 3% a 7% sobre o preço de balcão. Os entrevistados indicaram ainda que pretendem ampliar o volume de compras caso o portfólio da associação seja expandido futuramente com novos tipos de ração e insumos, sinalizando um horizonte de crescimento consistente para a entidade. Somados os descontos progressivos propostos para os associados (5%–22%), os ganhos financeiros superam amplamente os custos de manutenção da entidade.
O estudo reforça que o profissional contábil não se limita ao registro de fatos passados: sua atuação estratégica na escrituração, no controle de preços e estoques, no planejamento tributário e na orientação financeira dos associados é condição indispensável para a sustentabilidade legal e financeira da associação (MARION, 2019; CFC, 2020). As perspectivas de atuação identificadas — orientação direta, educação financeira e governança — revelam que o contador exerce função multiplicadora cujos efeitos se estendem às próprias propriedades dos associados.
Como limitação, destaca-se o recorte amostral restrito à Comunidade de Beleza e o caráter declaratório dos dados. Recomenda-se, em pesquisas futuras, a elaboração do plano de negócios completo da associação, com projeções de fluxo de caixa de longo prazo, análise de ponto de equilíbrio e benchmarking com associações similares em operação no Nordeste.
REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO DOS IRRIGANTES E AGRICULTORES DA BAHIA (AIBA). Cotações de insumos agropecuários – Oeste Baiano. Luís Eduardo Magalhães: AIBA, abr. 2025.
BRASIL. Lei n.º 5.764, de 16 de dezembro de 1971. Define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas e dá outras providências. Brasília: Casa Civil, 1971.
BRASIL. Lei n.º 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Altera a legislação tributária federal e dá outras providências. Brasília: Casa Civil, 1997.
BRASIL. Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília: Casa Civil, 2002. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 10 mar. 2025.
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