Palavras-chave
autismo
A eficácia da musicoterapia para pacientes portadores do transtorno do espectro autista
The effectiveness of music therapy for patients with autism
Camille Cristine Câmara Da Costa[1]
Ramon Fraga De Souza Lima[2]
RESUMO
A musicoterapia é uma prática terapêutica que utiliza a música e seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) para promover o bem estar físico, emocional, cognitivo e social. Diversos estudos sugerem que o uso da musicoterapia pode ser benéfica quando associada a intervenções tradicionais, principalmente a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), para crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA), condição que vem crescendo exponencialmente com os avanços no rastreio e diagnóstico em todo o mundo. O objetivo deste estudo foi descrever, através de uma revisão de literatura, a eficácia da musicoterapia para pacientes com TEA. Foram utilizadas as plataformas Biblioteca Virtual de Saúde Regional (BVS) e National Library of Medicine (PubMed), a busca pelos artigos foi realizada considerando os descritores “music therapy for autism”. Foram usados como critérios de inclusão artigos do tipo ensaio clínico controlado escritos entre 2009 e 2024. Os critérios de exclusão foram artigos que fugiam ao tema e artigos que se repetiam em ambas as plataformas. Após a leitura dos artigos e do uso dos critérios mantiveram-se 20 artigos. Os resultados obtidos a partir da leitura e análise desses artigos indicam que a musicoterapia auxiliou na expressão de sentimentos e melhora da interação social dos pacientes avaliados em 6 artigos, além disso, 5 relataram melhora da comunicação verbal, 2 descreveram melhora da coordenação motora associada ao uso de instrumentos, 1 descreveu melhora no contato visual com o examinador através dos estímulos musicais. Ademais, 5 artigos relataram que não houve mudança significativa nos padrões de comportamento dos pacientes avaliados e 1 foi inconclusivo. Dessa forma, observa-se que a musicoterapia tem benefícios, porém, necessita-se de estudos mais específicos para esse modelo de terapia, com padronização no método de aplicação.
Palavras chave: musicoterapia, autismo
ABSTRACT
Music therapy is a therapeutic practice that uses music and its elements (sound, rhythm, melody, and harmony) to promote physical, emotional, cognitive, and social well-being. Several studies suggest that music therapy can be beneficial when combined with traditional interventions, particularly Cognitive Behavioral Therapy (CBT), for children with Autism Spectrum Disorder (ASD), a condition that has been increasing exponentially due to advancements in screening and diagnosis worldwide. The aim of this study was to describe, through a literature review, the effectiveness of music therapy for patients with ASD. The platforms Regional Virtual Health Library (BVS) and the National Library of Medicine (PubMed) were used. The search for articles was conducted using the descriptors "music therapy for autism." Inclusion criteria consisted of controlled clinical trial articles written between 2009 and 2024. Exclusion criteria were articles unrelated to the theme and duplicate articles across both platforms. After reading the articles and applying the criteria, 20 articles were selected. The results obtained from the analysis of these articles indicate that music therapy assisted in the expression of feelings and improved social interaction in 6 articles. Additionally, 5 reported improvements in verbal communication, 2 described better motor coordination associated with the use of instruments, and 1 described improved eye contact with the examiner through musical stimuli. Furthermore, 5 articles reported no significant changes in the behavior patterns of the evaluated patients, and 1 was inconclusive. Thus, it is observed that music therapy has benefits; however, more specific studies are needed for this therapy model, with standardization in its application methods.
Keywords: music therapy, autism
INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), é uma condição neurológica complexa caracterizada por dificuldades na comunicação social verbal e não verbal, comportamentos repetitivos e interesses restritos que foi registrada pela primeira vez em em 1908 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler. Atualmente, segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) 1 a cada 36 crianças está no espectro autista, dessa forma observa-se a necessidade de estratégias terapêuticas eficazes que possam melhorar a qualidade de vida e o desenvolvimento interpessoal, cognitivo e verbal desses indivíduos. A musicoterapia tem emergido como uma abordagem terapêutica alternativa de grande importância, oferecendo uma forma não farmacológica de intervenção que se baseia na utilização da música para promover o desenvolvimento social, emocional e cognitivo.
A musicoterapia foi descrita pela primeira vez em 1944, nos EUA, embora evidências em papiros médicos egípcios datados de 1500 a.C., encontrados pelo antropólogo francês Vlande Petkie no século 19, mencionaram os efeitos benéficos da música para o tratamento de diversas enfermidades. Essa modalidade terapêutica utiliza a interação musical como um meio de comunicação e expressão, permitindo aos pacientes explorar sentimentos e comportamentos de maneiras que dificilmente se observam em métodos tradicionais. Através dos instrumentos musicais a criança desenvolveria a capacidade de distinguir diferentes sons, maior interação com o mundo e com o próprio ser, além de maior habilidade na comunicação verbal através de cantigas.
Diversos estudos e práticas clínicas têm sugerido que a musicoterapia pode ajudar a melhorar habilidades sociais, comunicação, e redução de comportamentos estereotipados em pacientes com TEA com melhora significativa nos padrões de comportamento dos pacientes avaliados 1 . No entanto, há divergência em sua eficácia relatada em estudos que demonstram que essa abordagem terapêutica não obteve um resultado significativo quando comparada a outros métodos ².
Esta revisão de literatura visa examinar a eficácia da musicoterapia em pacientes autistas, explorando os resultados de estudos empíricos que investigam a influência da intervenção musical nos diferentes sintomas associados aos indivíduos com TEA. Através dessa análise, espera-se contribuir para um melhor entendimento do papel da musicoterapia como uma ferramenta terapêutica no manejo do autismo e promover diretrizes para futuras pesquisas e práticas clínicas.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa e transversal executado por meio de uma revisão integrativa da literatura. As bases de dados utilizadas foram a Biblioteca Virtual de Saúde Regional (BVS) e National Library of Medicine (PubMed). A busca pelos artigos foi realizada considerando os descritores “music therapy for autism”. A revisão de literatura foi realizada seguindo as seguintes etapas: estabelecimento do tema; definição dos parâmetros de elegibilidade; definição dos critérios de inclusão e exclusão; verificação das publicações nas bases de dados; exame das informações encontradas; análise dos estudos encontrados e exposição dos resultados. Foram incluídos no estudo artigos publicados nos últimos 15 anos (2009-2024) e artigos cujos estudos eram do tipo ensaio clínico controlado. Foram excluídos os artigos fora do tema abordado e os artigos que se repetiam em ambas as bases.
RESULTADOS
A busca resultou em um total de 467 trabalhos. Foram encontrados 260 artigos na base de dados PubMed e 207 artigos na base de dados Biblioteca Virtual de Saúde. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão foram selecionados 16 artigos na base de dados PubMed, 6 artigos na base de dados Biblioteca Virtual de Saúde, sendo que 2 artigos foram retirados por estarem duplicados entre as plataformas, conforme apresentado na Figura 1.
Figura 1 - fluxograma
Fonte: autor (2024)
Dos 20 estudos selecionados todos são ensaios clínicos controlados. Dos artigos selecionados, foi relatado em 6 deles que a musicoterapia auxiliou na expressão de sentimentos e melhora da interação social dos pacientes avaliados, 5 deles relataram melhora da comunicação verbal, 2 descreveram melhora da coordenação motora associada ao uso de instrumentos, 1 descreveu melhora no contato visual com o examinador através dos estímulos musicais. Além disso 5 artigos relataram que não houve mudança significante nos padrões de comportamento dos pacientes avaliados e um artigo obteve resultado inconclusivo devido a baixa adesão e dificuldade de implantação da metodologia
Tabela 1 - principais conclusões de cada artigo
Fonte: Autor (2024)
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo mostraram que, dos 20 artigos analisados nesta revisão de literatura, 14 mostram uma correlação direta entre a musicoterapia e o alívio dos sintomas dos pacientes portadores do Transtorno do Espectro Autista, isso pode ser explicado pois a música atua como um mediador sensorial, facilitando a interação e o engajamento de pacientes autistas, especialmente aqueles com dificuldade de expressão verbal. Entretanto, embora a musicoterapia seja amplamente utilizada como uma intervenção para pessoas com TEA, ainda não há consenso na literatura científica sobre sua eficácia. Enquanto muitos estudos destacam benefícios significativos, como melhorias na comunicação, habilidades sociais e redução de comportamentos desafiadores, outros apontam limitações metodológicas, como tamanhos de amostra reduzidos e falta de padronização.
Dos estudos analisados neste trabalho, 6 deles demonstraram melhora na expressão das emoções e melhora na interação social (1), isso se deve principalmente ao fato de a música ativar o sistema límbico do cérebro humano, evocando sentimentos e regulando emoções, pois estimula regiões como a amígdala, responsável pela memória emocional e pelo processamento de emoções. Além disso, essa melhora se explica devido a música desencadear a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa e regular a produção de cortisol, o hormônio do estresse, ajudando a reduzir a ansiedade e melhorar o humor, isso pode promover relaxamento e bem-estar. Esses fatores associados reduzem o número e a intensidade das crises relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista, sintoma frequente principalmente em crianças com altos níveis de suporte.
Ademais, 5 artigos relataram melhora na comunicação verbal (2), isso se deve, principalmente, devido a ritmos e melodias ativarem áreas relacionadas à fala, como a área de Broca que coordena a parte motora da fala como os músculos da língua, lábios e cordas vocais e a área de Wernicke que desempenha um papel crucial na compreensão da linguagem e na integração dos significados das palavras , facilitando a comunicação em pessoas com dificuldades de linguagem. O paciente portador do Transtorno do Espectro Autista muitas vezes requer acompanhamento fonoaudiológico por conta da dificuldade na fala, e a musicoterapia tem se mostrado como uma ferramenta útil para auxiliar na desenvoltura da fala pois no cantar músicas interativas
A melhora na coordenação motora também foi relatada em 2 artigos (3, 4) isso se explica principalmente pelo manuseio de instrumentos musicais, que requer controle fino da musculatura. A musicoterapia se mostrou uma ferramenta eficaz para o desenvolvimento da coordenação motora fina, que auxilia em tarefas práticas do cotidiano da criança. Além disso, a incorporação de danças e expressões com o corpo associadas ao processo de musicoterapia foi relatada que auxilia na capacidade de mobilidade e propriocepção dos pacientes envolvidos.
Pacientes com autismo podem evitar o contato visual devido à sobrecarga sensorial ou emocional que ele pode causar. Em 1 artigo foi relatado que a musicoterapia auxiliou na melhora do contato visual com o examinador (5), de maneira que melhorou também sua atenção aos comandos do mesmo e a relação da criança em ambientes sociais. Tal fato se explica pela música, especialmente quando adaptada às preferências do paciente, atuar como um estímulo altamente envolvente, capturando a atenção do indivíduo e, durante a interação musical, o terapeuta pode associar o som a ações específicas, como olhar para ele enquanto canta ou toca um instrumento, incentivando o paciente a direcionar sua atenção visual.
Apenas 5 não observaram associação entre a melhora dos sintomas associados ao Transtorno do Espectro Autista e a musicoterapia. Não parece haver consenso na literatura quanto a eficiência da musicoterapia quando associada a métodos tradicionais já bem estabelecidos, como a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Isso pode ser explicado pela dificuldade na padronização do método de aplicação dos estudos em vigor, há diversas formas de realização e aplicação da musicoterapia, dentre elas: musicoterapia ativa que é um método em que o próprio paciente participa ativamente do processo de criação musical através da vocalização, manipulação de instrumentos musicais, movimento ou dança. Também há a musicoterapia receptiva neste tipo de terapia, o paciente ouve música, ao invés de criar a música em andamento gerando modificação de estados emocionais, nisso pode-se incluir: audição de músicas terapêuticas, análise e discussão sobre músicas e visualização. Ainda há a musicoterapia combinada, o terapeuta pode combinar a musicoterapia ativa e receptiva. Isso pode envolver sessões que começam com a audição de música, seguidas de uma atividade de improvisação ou de expressão musical, criando um equilíbrio entre a experiência auditiva e a criação de músicas.
Os artigos revelam uma diferença entre os métodos de aplicação, o que explica os resultados discrepantes encontrados entre eles. Para sanar tal problemática devem-se formatar protocolos de aplicação da musicoterapia para a padronização de métodos mais robustos e bem consolidados para que fique evidente a real eficácia dessa terapia quando associada a métodos tradicionais. Vale a pena ressaltar também que outras variáveis podem ter sido responsáveis pelos resultados sem associação ou inconclusivos como amostras pequenas e baixa adesão dos pacientes e seus familiares à terapia. Novos protocolos devem surgir para sanar tal dificuldade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Transtorno do Espectro Autista é uma condição extremamente prevalente e que gera déficits na área social, verbal e motora. Este estudo reforça o potencial da musicoterapia como uma abordagem terapêutica para indivíduos com TEA, destacando seus benefícios em aspectos como comunicação, interação social e regulação emocional. Contudo, a análise da literatura revelou a ausência de um consenso definitivo sobre sua eficácia, devido a limitações metodológicas como falta de padronização nos protocolos de intervenção e variabilidade nos instrumentos de avaliação. Diante disso, torna-se evidente a necessidade de novos estudos, com amostras representativas e protocolos bem definidos, para validar os resultados encontrados e ampliar a compreensão sobre os mecanismos pelos quais a musicoterapia pode impactar positivamente a vida de pacientes com TEA. Além disso, o desenvolvimento de diretrizes práticas e protocolos clínicos padronizados é fundamental para garantir a aplicação eficaz e reprodutível desta abordagem em diferentes contextos. Assim, futuros avanços na pesquisa poderão consolidar ainda mais o papel da musicoterapia como ferramenta adicional na atenção integral a pacientes autistas.
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Graduanda na Universidade de Vassouras, Vassouras, Rio De Janeiro, Brasil. email: camille.costa9990@gmail.com ↑
Docente na Universidade de Vassouras, Vassouras, Rio De Janeiro, Brasil. Email: ramonlima2112@gmail.com , Orcid https://orcid.org/0000-0001-7508-4200 ↑

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Copyright (c) 2026 Camille Cristine Câmara Da Costa, Ramon Fraga De Souza Lima (Autor)