Palavras-chave
Atendimento Pré-Hospitalar
Enfermagem
Acidentes de Trânsito
Prognóstico
Impacto do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma em acidentes automobilísticos.
Impact of length of incarceration on the prognosis of trauma victims in automobile accidents.
Gabriel Momesso Bueratto Silva¹*
Jessica Justino Silva¹*
Mikaely Nery Mendonça¹*
Paulo Henrique da Silva¹*
Vitória Caroline de Castilho Macedo¹*
Vitória Ferreira da Silva Teixeira¹*
Alessandro Correia da Rocha²*
Amanda Cardoso Moreira³*
RESUMO
Introdução: O trauma decorrente de acidentes automobilísticos representa uma das principais causas de morbimortalidade no mundo, exigindo atendimento rápido e eficaz no Atendimento Pré-Hospitalar (APH). Nesse contexto, o tempo de encarceramento da vítima pode influenciar diretamente no prognóstico clínico, aumentando riscos de choque, hipóxia e agravamento das lesões. A atuação da enfermagem é essencial durante todo o processo de avaliação, estabilização e assistência à vítima traumatizada. Objetivo: Analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura científica disponível, o impacto do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma decorrente de acidentes automobilísticos, levando em consideração a relação com desfechos clínicos, como mortalidade, gravidade das lesões e complicações associadas. Também busca-se identificar e discutir os principais fatores intervenientes relacionados a esse desfecho, incluindo aspectos da cinemática do trauma, dificuldades na extricação veicular, tempo-resposta no APH e limitações estruturais dos serviços de emergência, à luz da seguinte questão norteadora: qual é o impacto do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma em acidentes automobilísticos e quais fatores estão associados a esse desfecho? Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada por meio de buscas em bases de dados científicas, utilizando descritores relacionados ao trauma, encarceramento veicular, prognóstico e atendimento pré-hospitalar. Foram incluídos artigos publicados nos últimos anos, disponíveis na íntegra e relacionados à temática proposta. Resultados/Discussão: Os estudos demonstraram que o aumento do tempo de encarceramento está associado à piora do prognóstico das vítimas, especialmente em casos de trauma grave e instabilidade hemodinâmica. Evidenciou-se a importância da “Golden Hour” no manejo inicial do trauma, reforçando que intervenções rápidas e eficazes reduzem complicações e mortalidade. Além disso, destacou-se o papel da enfermagem no APH, principalmente na avaliação primária, monitorização, tomada de decisão e assistência humanizada durante o processo de extricação e estabilização da vítima. O estudo contribui para a ampliação do conhecimento científico acerca da relevância das intervenções precoces e da atuação multiprofissional frente ao trauma automobilístico. Conclusão: Conclui-se que o tempo de encarceramento exerce impacto significativo no prognóstico de vítimas de acidentes automobilísticos, estando relacionado ao aumento da gravidade das lesões, complicações clínicas e mortalidade. Dessa forma, destaca-se a importância de uma assistência rápida, integrada e qualificada no Atendimento Pré-Hospitalar, com atuação fundamental da enfermagem na redução de danos e melhoria dos desfechos clínicos.
Palavras-chave: Trauma; Atendimento Pré-Hospitalar; Enfermagem; Acidentes de Trânsito; Prognóstico.
ABSTRACT
Introduction: Trauma resulting from motor vehicle accidents represents one of the leading causes of morbidity and mortality worldwide, requiring rapid and effective care in Pre-Hospital Care (PHC). In this context, the victim's entrapment time can directly influence the clinical prognosis, increasing the risks of shock, hypoxia, and worsening of injuries. Nursing performance is essential throughout the process of evaluation, stabilization, and assistance to the traumatized victim. Objective: To analyze, through an integrative review of the available scientific literature, the impact of entrapment time on the prognosis of trauma victims from motor vehicle accidents, considering its relationship with clinical outcomes such as mortality, severity of injuries, and associated complications. It also seeks to identify and discuss the main intervening factors related to this outcome, including aspects of trauma kinematics, difficulties in vehicle extrication, PHC response time, and structural limitations of emergency services, in light of the following guiding question: what is the impact of entrapment time on the prognosis of trauma victims in motor vehicle accidents and what factors are associated with this outcome? Materials and methods: This is an integrative literature review, conducted through searches in scientific databases, using descriptors related to trauma, vehicle entrapment, prognosis, and pre-hospital care. Articles published in recent years, available in full text, and related to the proposed theme were included. Results/Discussion: The studies demonstrated that increased entrapment time is associated with a worsening of the victims' prognosis, especially in cases of severe trauma and hemodynamic instability. The importance of the "Golden Hour" in the initial management of trauma was evidenced, reinforcing that rapid and effective interventions reduce complications and mortality. Furthermore, the role of nursing in PHC was highlighted, mainly in primary assessment, monitoring, decision-making, and humanized care during the victim's extrication and stabilization process. This study contributes to expanding scientific knowledge regarding the relevance of early interventions and multidisciplinary action when dealing with motor vehicle trauma. Conclusion: It is concluded that entrapment time has a significant impact on the prognosis of motor vehicle accident victims, being related to increased injury severity, clinical complications, and mortality. Thus, the importance of rapid, integrated, and qualified care in Pre-Hospital Care is highlighted, with nursing playing a fundamental role in harm reduction and the improvement of clinical outcomes.
Keywords: Trauma; Pre-Hospital Care; Nursing; Traffic Accidents; Prognosis.
1. INTRODUÇÃO
Os agravos à saúde decorrentes de acidentes de trânsito configuram-se como um importante problema de saúde pública mundial, sendo responsáveis por aproximadamente 1,19 milhão de mortes e entre 20 e 50 milhões de lesões não fatais anualmente, com maior impacto em países em desenvolvimento. No Brasil, estima-se cerca de 40 mil óbitos e mais de 150 mil vítimas com ferimentos graves por ano, consolidando os acidentes de trânsito como uma das principais causas externas de morte, especialmente entre jovens e adultos de 5 a 29 anos (OMS, 2023; RIBEIRO et al., 2023; TRANCHITELLA et al., 2021).
Nesse cenário, o Atendimento Pré-Hospitalar (APH) desempenha papel fundamental na redução da mortalidade e na melhora do prognóstico das vítimas, uma vez que a assistência precoce e qualificada possibilita intervenções imediatas que influenciam diretamente a sobrevida. Evidências demonstram que sistemas organizados de APH, associados à atuação de equipes capacitadas, contribuem significativamente para a redução de óbitos e complicações decorrentes do trauma (HARMSEN et al., 2020; OKADA et al., 2020).
Diante dessa perspectiva, torna-se essencial compreender não apenas a relevância da assistência precoce, mas também os fatores que influenciam a efetividade do atendimento prestado às vítimas de trauma. A literatura destaca o conceito da “hora de ouro”, período crítico após o trauma no qual a rapidez do atendimento estaria relacionada a melhores desfechos clínicos. Embora amplamente difundido desde a década de 1970, estudos recentes apontam que a gravidade das lesões e as condições clínicas do paciente podem exercer maior influência sobre a mortalidade do que o tempo de atendimento, isoladamente (OKADA et al., 2020). Ainda assim, o gerenciamento do tempo permanece como um dos pilares da assistência ao trauma, sobretudo em condições tempo-dependentes.
Entre os fatores que interferem diretamente no tempo-resposta do APH, destaca-se o encarceramento em acidentes automobilísticos, situação em que a vítima permanece impossibilitada de deixar o veículo sem auxílio especializado. Esse fenômeno pode ocorrer de forma física, mecânica ou clínica e está frequentemente associado a traumas de maior gravidade, impactando negativamente o prognóstico das vítimas (DIXON et al., 2022; NUTBEAM et al., 2022).
O processo de extricação, nesses cenários, exige atuação integrada entre equipes de emergência e pode ser dificultado pela deformidade do veículo, pela posição da vítima e pelos riscos presentes na cena, prolongando o tempo de encarceramento e de atendimento. Como consequência, podem ocorrer complicações importantes, como hipóxia, choque hemorrágico e alterações fisiológicas relacionadas ao aumento da morbimortalidade (NAEMSP, 2024; MAO ZHANG et al., 2022).
Além disso, os padrões de encarceramento variam conforme o mecanismo do trauma e a intensidade da colisão, sendo mais frequentes em impactos frontais e laterais de alta energia. Vítimas encarceradas apresentam maior incidência de lesões torácicas, cranioencefálicas e em extremidades, além de maior risco de morte quando comparadas às não encarceradas. O uso de dispositivos de segurança, como cintos e airbags, modifica os padrões de lesão e influencia diretamente a gravidade do trauma (WULFF et al., 2025).
Diante disso, embora avanços nas técnicas de atendimento e extricação tenham sido desenvolvidos, ainda existem lacunas na compreensão do impacto do tempo de encarceramento sobre o prognóstico das vítimas de trauma. Assim, torna-se fundamental investigar essa relação, a fim de contribuir para o aprimoramento das estratégias de atendimento pré-hospitalar, para a qualificação da assistência e para a redução dos desfechos desfavoráveis.
2. OBJETIVO
Objetiva-se analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura científica, a influência do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma decorrente de acidentes automobilísticos, considerando sua associação com desfechos clínicos, como mortalidade, gravidade das lesões e complicações pós-traumáticas. Adicionalmente, busca-se identificar e discutir os principais fatores intervenientes relacionados a esse desfecho, incluindo aspectos da cinemática do trauma, desafios técnicos da extricação veicular, tempo-resposta no atendimento pré-hospitalar e limitações estruturais dos serviços de emergência, a fim de compreender de que maneira tais variáveis impactam a evolução clínica das vítimas.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, com abordagem qualitativa, desenvolvida com o objetivo de analisar o impacto do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma decorrente de acidentes automobilísticos, bem como discutir fatores associados à cinemática do trauma, à extricação veicular e ao atendimento pré-hospitalar.
A escolha pela revisão integrativa justifica-se por permitir a síntese e análise de resultados de estudos já publicados, possibilitando uma compreensão ampla e aprofundada do fenômeno investigado, a partir de diferentes delineamentos metodológicos.
A pesquisa foi conduzida a partir da seguinte questão norteadora: “Qual é o impacto do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma em acidentes automobilísticos e quais fatores estão associados a esse desfecho?”
Para o desenvolvimento da pesquisa, foram realizadas buscas nas bases de dados científicas PubMed, SciELO, LILACS e Google Acadêmico, selecionando artigos publicados no período de 2016 a 2025. As buscas ocorreram entre os meses de fevereiro a maio de 2026, priorizando estudos disponíveis gratuitamente em texto completo, nos idiomas português e inglês, que apresentassem dados relevantes relacionados ao tema proposto.
A estratégia de busca foi estruturada por meio da combinação de descritores e palavras-chave em inglês e português, associados a operadores booleanos (AND, OR), com o objetivo de ampliar a sensibilidade e especificidade dos resultados. Foram utilizados termos relacionados a trauma, acidentes automobilísticos, tempo de encarceramento, extricação e atendimento pré-hospitalar.
Inicialmente, foram utilizadas as expressões: “motor vehicle collision injury patterns frontal lateral impact”, “vehicle intrusion injury severity trauma” e “kinetic energy trauma mechanism injury”. A partir dessas combinações foram encontrados oito estudos, dos quais cinco foram considerados pertinentes ao tema e incluídos na análise, enquanto três foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos.
Foram realizadas buscas utilizando combinações com operadores booleanos, entre elas: “Mortality AND polytrauma AND prehospital time”, “Prehospital time AND trauma AND mortality AND outcome”, “Emergency medical services AND extrication AND traffic accidents”, “Spinal injury AND traffic accidents AND older patients”, “Entrapment AND polytrauma AND emergency medical services”, “Trauma severity AND blood loss AND traffic accidents” e “Trauma AND public health AND traffic accidents”. Essas pesquisas resultaram inicialmente em dezoito publicações, das quais seis foram selecionadas após análise dos títulos e resumos, enquanto doze foram descartadas por não apresentarem relação direta com o objetivo do estudo ou não atenderem aos critérios de inclusão.
Em uma etapa adicional da busca, foram utilizadas as palavras-chave: “response time”, “confined space”, “access to care”, “resource limitation”, “mortality” e “advanced life support”. Essa etapa resultou na identificação de quarenta estudos. Após triagem inicial, vinte foram selecionados para leitura na íntegra, sendo posteriormente incluídos oito artigos considerados mais relevantes.
Outra estratégia envolveu a busca pela expressão “golden hour in the incarceration of car accident victims”, que inicialmente retornou cinquenta e nove resultados. Após análise preliminar, dezessete estudos foram revisados com maior atenção e, dentre esses, dez foram selecionados por apresentarem maior relação com a temática abordada.
Adicionalmente, foram realizadas buscas utilizando os termos “Golden hour and accident victims”, “Golden hour and trauma” e “Hypothermia and trauma”, resultando em vinte e oito publicações. Após análise dos títulos e resumos, quatro artigos foram considerados relevantes e incluídos na amostra final.
O processo de seleção dos estudos ocorreu em etapas. Inicialmente, foi realizada a leitura dos títulos e resumos dos artigos identificados nas bases de dados. Em seguida, os estudos potencialmente relevantes foram analisados na íntegra, a fim de verificar sua adequação aos objetivos da pesquisa.
Como critérios de inclusão, foram considerados artigos publicados entre 2018 e 2025, disponíveis gratuitamente em texto completo, nos idiomas português e inglês, e que abordassem temas relacionados ao tempo de encarceramento em acidentes automobilísticos, extricação veicular, trauma, gravidade das lesões, mortalidade e atendimento pré-hospitalar. Foram excluídos estudos duplicados, publicações sem acesso ao texto completo, trabalhos fora do período estabelecido e aqueles que não apresentavam relação direta com o tema investigado.
Após a aplicação dos critérios de seleção e análise detalhada do conteúdo, os estudos mais relevantes foram utilizados para compor a fundamentação teórica e subsidiar a discussão. Por se tratar de uma pesquisa baseada exclusivamente em dados secundários disponíveis na literatura científica, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.
4. RESULTADOS
Figura 1 - Fluxograma do processo de seleção dos estudos
Fonte: Elaborado pelos próprios autores (2026).
Após a descrição dos estudos incluídos e selecionados para análise, foram organizados através do quadro 1.
Quadro 1 - Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa
Autor/Ano | Tipo de estudo | Achado principal | Relação com prognóstico |
|---|---|---|---|
ALSLAMAH et al. (2023) | Estudo observacional | Tempo-resposta influencia mortalidade | Atendimento rápido reduz complicações |
ALMEIRA et al. (2023) | Scoping review | Estratégias emocionais influenciam decisões | Controle emocional melhora assistência |
BERKEVELD et al. (2021) | Estudo retrospectivo | Mortalidade aumenta em politraumatizados | Tempo-resposta interfere no prognóstico |
BHAUMIK et al. (2022) | Scoping review | Ferramentas de triagem variam globalmente | Triagem adequada reduz atrasos |
BONANNO (2022) | Revisão científica | Controle do choque hemorrágico é determinante | Manejo precoce reduz mortalidade |
BOSSON et al. (2024) | Documento de posicionamento | Padronização da extricação melhora assistência | Redução de riscos durante resgate |
CHUA et al. (2025) | Estudo exploratório | Sistemas APH enfrentam desafios operacionais | Limitações estruturais afetam desfechos |
HARMSEN et al. (2020) | Revisão sistemática | Tempo pré-hospitalar impacta mortalidade | Redução do tempo melhora sobrevida |
JASSON et al. (2021) | Revisão integrativa | Enfermeiros ampliam segurança assistencial | Qualificação melhora prognóstico |
KHORRAM-MA NESH et al. (2021) | Estudo translacional | Padronização da triagem melhora decisões | Priorização reduz mortalidade |
LI et al. (2024) | Revisão científica | Resposta inflamatória interfere no trauma | Inflamação agrava desfechos clínicos |
MACKE et al. (2018) | Estudo retrospectivo | Entrapment modifica manejo pré-hospitalar | Maior complexidade assistencial |
NUTBEAM et al. (2022) | Estudo retrospectivo | Idosos apresentam maior risco em encarceramento | Piores desfechos em extricações demoradas |
NUTBEAM et al. (2025) | Consenso clínico | Diretrizes atualizadas para extricação | Melhor tomada de decisão clínica |
OKADA et al. (2020) | Estudo retrospectivo | Revisão do conceito de “golden hour” | Tempo reduzido melhora estabilidade hemodinâmica |
ROGERIO et al. (2011) | Estudo observacional | Características do encarceramento em São Paulo | Extricação prolongada aumenta morbidade |
RUDOLPH et al. (2025) | Revisão narrativa | Manejo de vias aéreas em espaços confinados | Procedimentos complexos aumentam riscos |
SCHNAUBELT et al. (2024) | Revisão científica | Emergência pré-hospitalar apresenta desafios logísticos | Tempo influencia prognóstico |
SHARMA et al. (2024) | Estudo clínico | Trauma craniano aumenta mortalidade | Lesões cerebrais pioram prognóstico |
TRAVIS et al. (2023) | Estudo retrospectivo | Intrusão veicular prediz lesões graves | Maior encarceramento aumenta riscos |
USUDA et al. (2023) | Revisão científica | Síndrome de esmagamento requer intervenção precoce | Atrasos aumentam risco renal |
WULFF et al. (2024) | Scoping review | Trauma esquelético é frequente em colisões | Lesões múltiplas elevam gravidade |
Fonte: Dados de pesquisa (2026)
5. DISCUSSÃO
O trauma decorrente de acidentes de trânsito desencadeia uma série de alterações fisiológicas e metabólicas que podem comprometer rapidamente a estabilidade clínica da vítima, especialmente quando há atraso no atendimento ou prolongamento do tempo de encarceramento. Entre as principais complicações associadas, destacam-se a hipóxia, o choque hemorrágico e a síndrome do esmagamento, condições que contribuem significativamente para o aumento da morbimortalidade no cenário do trauma (NAEMSP, 2024; ZHANG et al., 2022).
A hipóxia pode ocorrer em decorrência da ventilação inadequada, frequentemente associada à restrição mecânica imposta pela estrutura do veículo ou por lesões torácicas. Essa condição leva à diminuição da oxigenação tecidual, favorecendo a disfunção orgânica progressiva. Paralelamente, o comprometimento respiratório pode ser agravado pela dor intensa e pela limitação da expansibilidade pulmonar, fatores comuns em vítimas encarceradas (NAEMSP, 2024).
O choque hemorrágico configura-se como uma das principais causas de morte em pacientes traumatizados, sendo responsável por parcela significativa de óbitos potencialmente evitáveis. Caracteriza-se pela perda importante de volume sanguíneo, resultando em perfusão inadequada dos tecidos e órgãos. Evidências indicam que entre 30% e 40% das mortes por trauma estão relacionadas à hemorragia não controlada, especialmente nas primeiras 24 horas após o evento. Além disso, estima-se que o trauma associado ao choque hemorrágico seja responsável por cerca de 1,5 milhão de mortes anuais no mundo, evidenciando sua relevância como problema de saúde pública (HOOPER et al., 2022).
Outra condição relevante é a síndrome do esmagamento, frequentemente associada a vítimas submetidas a longos períodos de encarceramento. Essa síndrome ocorre devido à compressão prolongada de grupos musculares, levando à liberação de substâncias intracelulares na corrente sanguínea, como mioglobina e potássio. Como consequência, podem surgir distúrbios metabólicos graves, incluindo acidose metabólica, hipercalemia e insuficiência renal aguda, agravando ainda mais o estado clínico da vítima (NAEMSP, 2024; ZHANG et al., 2022).
Além disso, o trauma desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica complexa, mediada pela liberação de citocinas e outros mediadores inflamatórios. Embora essa resposta seja essencial para o processo de reparo tecidual, sua desregulação pode levar a uma resposta inflamatória exacerbada, contribuindo para disfunções orgânicas e piora do prognóstico (LI et al., 2024).
A dor intensa, frequentemente presente nesses pacientes, também desempenha papel importante na piora clínica, uma vez que está associada ao aumento da resposta neuroendócrina ao estresse, podendo agravar alterações hemodinâmicas e metabólicas. Nesse contexto, o manejo adequado da dor e a intervenção precoce são fundamentais para minimizar os efeitos deletérios dessas respostas fisiológicas (LI et al., 2024).
Dessa forma, a compreensão dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos no trauma, especialmente em situações de encarceramento, é essencial para orientar a atuação das equipes de atendimento pré-hospitalar, contribuindo para intervenções mais eficazes e para a redução de desfechos desfavoráveis.
O tempo de encarceramento de vítimas de trauma tem sido amplamente discutido como possível indicador de prognóstico no atendimento pré-hospitalar. Entretanto, evidências sugerem que o encarceramento está mais relacionado à gravidade do trauma do que propriamente ao tempo de extricação. Vítimas encarceradas apresentam maior incidência de lesões graves, como traumatismo cranioencefálico (TCE) e choque hemorrágico, além de maior mortalidade, sendo essa relação influenciada principalmente pelo mecanismo e pela intensidade do trauma (ROUDSARI et al., 2011).
Estudos demonstram maior mortalidade em pacientes encarcerados, especialmente em grupos vulneráveis. Contudo, essa associação sofre influência de múltiplos fatores, como idade, condições fisiológicas e cinemática do trauma, não havendo relação direta e consistente entre o tempo de encarceramento e desfechos desfavoráveis, sendo este considerado um marcador indireto de gravidade (DIXON et al., 2022).
Estudos com grandes bases de dados também demonstram maior mortalidade em pacientes encarcerados, especialmente em grupos vulneráveis. Contudo, essa associação sofre influência de múltiplos fatores, como idade, condições fisiológicas e cinemática do trauma, não havendo relação direta e consistente entre o tempo de encarceramento e desfechos desfavoráveis, sendo este considerado um marcador indireto de gravidade (DIXON et al., 2022).
O gerenciamento do tempo é considerado um fator importante na redução da mortalidade em pacientes traumatizados. Nesse contexto, destaca-se o conceito da “hora de ouro”, segundo o qual pacientes gravemente feridos deveriam receber tratamento definitivo dentro dos primeiros 60 minutos após o trauma, período em que as chances de sobrevivência seriam maiores. Desde a década de 1970, o conceito da “hora de ouro” passou a orientar a assistência ao trauma, embora sua consolidação tenha ocorrido antes da existência de evidências científicas consistentes que comprovem sua efetividade, sendo sustentado principalmente pela lógica clínica proposta à época (OKADA et al., 2020).
Na prática, entretanto, o encarceramento frequentemente impede a retirada rápida da vítima, sobretudo em cenários complexos, gerando um conflito entre agilidade e segurança durante a extricação (ALPERT; PACHYS, 2022). A literatura não estabelece um tempo limite universal para o desencarceramento, sendo a tomada de decisão baseada prioritariamente na condição clínica da vítima e na segurança do procedimento (DIXON et al., 2022; HARMSEN et al., 2020; BROWN et al., 2018).
O estudo Revision of the Golden Hour for Hemodynamically Unstable Trauma Patients analisou pacientes com trauma grave e instabilidade hemodinâmica, avaliando a relação entre o tempo até o tratamento definitivo e a mortalidade. Os resultados demonstraram que apenas um pequeno número de pacientes recebeu atendimento definitivo dentro dos 60 minutos após a lesão, sugerindo que a “hora de ouro” é difícil de ser alcançada nos atuais sistemas de trauma. Além disso, os autores concluíram que não houve relação consistente entre menor tempo de atendimento e maior sobrevivência, destacando que fatores como gravidade das lesões e condição clínica do paciente possuem maior impacto nos desfechos do que o tempo isoladamente (OKADA et al., 2020).
Estudos mais recentes indicam que a relação entre tempo e mortalidade é inconsistente em traumas gerais, sendo mais relevante em subgrupos específicos, como pacientes com choque hemorrágico ou instabilidade hemodinâmica (OKADA et al., 2020). Ademais, fatores estruturais, como infraestrutura e acesso aos serviços de saúde, influenciam diretamente esse intervalo de atendimento (HARMSEN et al., 2020).
A decisão entre extricação rápida ou controlada deve ser baseada na avaliação clínica da vítima. A extricação rápida é indicada em situações de risco iminente, como comprometimento das vias aéreas, instabilidade hemodinâmica ou ambiente inseguro. Já a extricação controlada é preferível em pacientes estáveis, permitindo maior cuidado na imobilização e redução de complicações (ALPERT; PACHYS, 2022).
A literatura evidencia que intervenções precipitadas podem aumentar o risco de agravamento de lesões, especialmente em traumas de coluna e hemorragias não controladas. Dessa forma, a abordagem ideal deve equilibrar rapidez e segurança, priorizando a estabilidade clínica da vítima (RUDOLPH et al., 2025).
O tempo prolongado de encarceramento pode estar associado a complicações graves, como hipotermia, lesões ocultas e síndrome do esmagamento. Esta última pode evoluir para rabdomiólise, insuficiência renal e distúrbios metabólicos, aumentando significativamente a mortalidade (USUDA et al., 2023).
Além disso, a hipotermia integra a chamada “tríade letal do trauma”, juntamente com acidose e coagulopatia, sendo considerada importante preditor de mortalidade em pacientes traumatizados (VAN VEELEN et al., 2021).
A cinemática do trauma é determinante para a gravidade das lesões e para a probabilidade de encarceramento. Colisões de alta energia estão associadas à maior deformação estrutural do veículo e à maior transferência de energia para os ocupantes, aumentando o risco de lesões graves (WULFF et al., 2024).
Estudos demonstram associação direta entre alta intensidade do impacto e ocorrência de traumatismo cranioencefálico, lesões torácicas e lesões abdominais graves, sendo a deformação do habitáculo um importante indicativo da gravidade do trauma (SHARMA et al., 2024; TRAVIS et al., 2023).
Veículos mais modernos, embora apresentem maior segurança estrutural aos ocupantes, podem dificultar o acesso das equipes de resgate, aumentando a complexidade do processo de extricação (TRAVIS et al., 2023).
Os padrões de encarceramento em acidentes automobilísticos estão diretamente relacionados ao tipo e à intensidade da colisão. Impactos frontais e laterais de alta energia apresentam maior deformação estrutural do veículo e maior probabilidade de encarceramento das vítimas (WULFF et al., 2025).
As colisões frontais estão mais associadas ao traumatismo cranioencefálico e às lesões em membros inferiores, enquanto impactos laterais apresentam maior relação com lesões torácicas e abdominais, devido à menor proteção lateral do veículo. Além disso, a intrusão no compartimento do passageiro aumenta o contato da vítima com estruturas internas do automóvel, elevando a gravidade do trauma e o risco de lesões graves em extremidades e tórax (WULFF et al., 2025).
Um estudo realizado em São Paulo apontou que pacientes encarcerados apresentam maior gravidade clínica e maior mortalidade quando comparados às vítimas não encarceradas, com taxa de óbito de 11,7%. Ademais, vítimas encarceradas apresentam 8,2 vezes mais chance de morte no local, caracterizando o encarceramento como importante indicador de trauma de alta energia.
Os estudos também mostram diferenças importantes entre motociclistas e ocupantes de automóveis. Motociclistas apresentam maior frequência de traumatismo cranioencefálico, lesões em membros inferiores e superiores e fraturas pélvicas, devido à ausência de proteção estrutural, cintos de segurança e airbags, sendo considerados usuários vulneráveis da via. O traumatismo cranioencefálico foi observado em 85,2% dos motociclistas, enquanto em ocupantes de automóveis a frequência foi de 76,9%. Em contrapartida, lesões torácicas foram proporcionalmente mais frequentes em ocupantes de veículos (WULFF et al., 2025).
Entre os fatores associados às lesões graves destacam-se impactos frontais, ejeção da vítima, colisões com objetos fixos e ausência de equipamentos de segurança (WULFF et al., 2025).
Em relação aos mecanismos de proteção, estudos apontam que o uso de cintos de segurança e airbags modifica os padrões de trauma. O traumatismo cranioencefálico foi mais frequente em vítimas sem restrições adequadas, enquanto fraturas de costela, esterno e clavícula foram observadas em indivíduos utilizando cintos de segurança, compondo a chamada “síndrome do cinto de segurança”. Além disso, motoristas apresentam maior prevalência de fraturas faciais, pélvicas e de membros inferiores, muitas vezes relacionadas ao contato com volante e pedais. Passageiros dianteiros apresentam maior frequência de fraturas costais diretas, enquanto passageiros traseiros demonstraram menor incidência de fraturas graves em membros inferiores (WULFF et al., 2025).
Dessa forma, a literatura demonstra que o encarceramento representa um marcador importante de trauma grave e pior prognóstico em acidentes automobilísticos. A análise dos mecanismos de colisão, padrões de lesão e fatores associados ao aprisionamento das vítimas contribui para melhor compreensão do trauma, otimização do atendimento pré-hospitalar e redução da mortalidade (WULFF et al., 2025).
O atendimento pré-hospitalar enfrenta desafios significativos, como ambientes confinados, dificuldade de acesso à vítima e limitação de recursos. Esses fatores dificultam a realização de procedimentos essenciais e exigem elevada capacidade de tomada de decisão clínica (SCHNAUBELT et al., 2024; Bäckström; Alvinius, 2024).
Ambientes restritos dificultam intervenções como manejo de vias aéreas e imobilização, exigindo equilíbrio entre extricação e intervenção no local (RUDOLPH et al., 2025; ALPERT; PACHYS, 2022).
Além disso, a limitação de recursos e a ausência de exames complementares no APH tornam a avaliação clínica ainda mais crucial para a tomada de decisões (Chua et al., 2025; BIJANI et al., 2024; PERKINS et al., 2021).
No Brasil, a atuação do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar desenvolveu-se a partir da década de 1990, com a implantação das unidades de Suporte Avançado de Vida (SAV). Essas unidades realizam procedimentos invasivos de maior complexidade, executados exclusivamente por médicos e enfermeiros. Nesse contexto, o enfermeiro destaca-se como peça-chave na assistência às vítimas graves no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) (SILVA, 2020).
A prática da enfermagem no APH exige conhecimento técnico-científico, preparo físico, controle emocional e capacidade de lidar com situações inesperadas e desafiadoras. O enfermeiro participa ativamente da assistência direta ao paciente, identificando prioridades, iniciando intervenções necessárias, reavaliando continuamente a vítima e contribuindo para sua estabilização até o tratamento definitivo (SILVA, 2020).
Além da assistência direta, o enfermeiro também atua na supervisão da equipe, execução de prescrições médicas, tomada de decisões e controle da qualidade do serviço. Para isso, deve integrar dimensões relacionadas ao cuidado, gerência, educação e pesquisa, desempenhando papel articulador dentro do sistema de saúde (SILVA, 2020).
O processo de enfermagem, composto pelas etapas de histórico, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação, constitui importante instrumento para o desenvolvimento do julgamento clínico no APH, podendo ser associado à biomecânica do trauma e ao protocolo ABCDE (SILVA, 2020).
Em âmbito internacional, enfermeiros de prática avançada atuam tanto no ambiente pré-hospitalar quanto intra-hospitalar. Estudos demonstram que profissionais com maior nível de competência estão associados à melhor qualidade assistencial e menores índices de complicações, embora ainda existam poucos estudos relacionando diretamente competência no APH e melhores desfechos clínicos (JASSON et al., 2021).
A triagem é uma das funções mais importantes no atendimento pré-hospitalar, pois orienta o plano terapêutico e a necessidade de transporte da vítima. Evidências demonstram que a triagem adequada reduz a mortalidade em condições tempo-dependentes, como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico e trauma.
Ferramentas como a National Early Warning Score (NEWS), a Canadian Triage and Acuity Scale (CTAS) e o Emergency Severity Index (ESI) são amplamente utilizadas para auxiliar a tomada de decisão clínica, utilizando parâmetros como sinais vitais, nível de consciência, queixa principal e previsão de consumo de recursos (BHAUMIK et al., 2022).
Em situações com múltiplas vítimas, a triagem torna-se ainda mais desafiadora, pois o número de pacientes excede a capacidade dos recursos disponíveis. Nesses cenários, a priorização ocorre conforme a gravidade dos ferimentos e a possibilidade de sobrevivência, exigindo decisões rápidas, precisas e padronizadas (KHORRAM-MANESH et al., 2021).
A liderança destaca-se como competência essencial do enfermeiro no APH, contribuindo diretamente para a organização do trabalho, integração multiprofissional e articulação entre os diferentes serviços de saúde. Estudos apontam a liderança como competência indispensável na prática do enfermeiro em emergências, sendo necessário constante aprimoramento e associação com ferramentas de gestão. Entre os modelos existentes, destaca-se a liderança coaching, baseada na capacidade do líder de influenciar a equipe enquanto promove seu desenvolvimento profissional. Esse modelo estrutura-se em dimensões como comunicação, feedback, empoderamento e apoio à equipe (SANTIAGO et al., 2024).
A liderança no APH favorece maior autonomia profissional, melhora a organização do processo de trabalho e contribui para uma assistência mais segura e qualificada. Entretanto, desafios como sobrecarga de trabalho e alta demanda dos serviços dificultam sua aplicação plena, exigindo estratégias de enfrentamento por parte dos profissionais (SANTIAGO et al., 2024).
A literatura mostra que ainda não existe um protocolo padronizado para elaboração de simulações envolvendo múltiplas vítimas, embora esses treinamentos sejam essenciais para o aperfeiçoamento das equipes multiprofissionais de atendimento pré-hospitalar (APH). A organização do Sistema de Comando ao Atendimento e dos hospitais de referência é fundamental para garantir assistência rápida, eficaz e coordenada. Evidencia-se que a maioria das mortes por trauma ocorre na cena do acidente ou durante a primeira hora após o ocorrido, chamada “hora de ouro”, sendo que 76% poderiam ser evitadas, reforçando a importância de um APH ágil e qualificado (SIMÕES et al., 2012).
No estudo analisado, foi realizada uma simulação de acidente com participação do Corpo de Bombeiros Militar, SAMU, Guarda Municipal e Defesa Civil. A triagem foi realizada pelo método START, protocolo amplamente utilizado em casos com múltiplas vítimas por permitir classificação rápida, identificando insuficiência respiratória, hemorragias importantes e traumatismos cranianos. Em um estudo na Itália, 81% dos pacientes foram classificados corretamente pelo método START, enquanto na simulação brasileira a taxa foi de 92,5%, demonstrando a eficiência do protocolo (SIMÕES et al., 2012).
O atendimento inicial executado pelo SAMU apresentou desempenho satisfatório nos itens A, B e C do protocolo ABCDE, com mais de 92,5% de acertos relacionados ao controle de vias aéreas, ventilação e circulação (SIMÕES et al., 2012). Estudos mostram que a ventilação eficiente reduz significativamente a mortalidade em pacientes com traumatismo cranioencefálico grave, sendo observada menor mortalidade em pacientes ventilados adequadamente. Além disso, a intubação precoce, associada ao alinhamento cervical e bloqueio neuromuscular, mostrou-se relacionada a melhores prognósticos. Ressalta-se ainda que vítimas com Escala de Coma de Glasgow menor que 8 necessitam de via aérea definitiva para proteção ventilatória e prevenção de complicações secundárias (ROSSAINT et al., 2023).
O manejo do choque hemorrágico baseia-se no controle do sangramento e na restauração adequada da volemia, evitando tanto a hipoperfusão tecidual quanto a administração excessiva de fluidos, que pode agravar hemorragias não controladas. A literatura recomenda abordagem sistematizada e controle precoce da hemorragia durante o atendimento ao trauma grave (ROSSAINT et al., 2023).
O item D do protocolo, relacionado à avaliação neurológica, apresentou 90% de acertos. Entretanto, o item E, referente à exposição e prevenção da hipotermia, apresentou acertos de apenas 50%, comprometendo o desempenho global do atendimento, que obteve sucesso completo em 42,5% dos pacientes avaliados (SIMÕES et al., 2012)
Em relação ao transporte, 95% dos pacientes foram encaminhados em unidades compatíveis com a gravidade apresentada, mostrando adequada regulação do fluxo assistencial (SIMÕES et al., 2012).
Estudos apontam que menores tempos de transporte e intervenções precoces reduzem complicações e mortalidade em vítimas de trauma grave. Ademais, após a implantação do protocolo PHTLS em Trinidad e Tobago, observou-se aumento significativo nos índices de acertos no APH, mostrando a necessidade da capacitação continuada das equipes. Com isso, conclui-se que o treinamento baseado em protocolos e simulações é extremamente necessário para aprimorar o APH e reduzir os índices de mortalidade.(ROSSAINT et al., 2023).
6. LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Esta revisão integrativa apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos achados. Inicialmente, evidencia-se a heterogeneidade dos estudos incluídos, tanto em relação às propostas metodológicas quanto às populações analisadas, variáveis investigadas e desfechos considerados. Essa diversidade prejudica a comparação direta entre os resultados e limita a generalização das conclusões.
Verifica-se a escassez de estudos específicos que abordam diretamente o tempo de encarceramento como variável central, sendo este frequentemente analisado de forma indireta ou associado a outros intervalos temporais do atendimento ao trauma. Essa deficiência reduz a precisão na identificação do real impacto desse fator sobre o prognóstico dos pacientes.
Outro aspecto relevante diz respeito às limitações das evidências robustas, com predominância de estudos observacionais, retrospectivos e, em alguns casos, com amostras reduzidas. Essa característica pode influenciar o nível das evidências disponíveis, reduzindo a capacidade de estabelecer relações causais mais consistentes entre o tempo de encarceramento e os desfechos clínicos.
Dessa forma, tais limitações reafirmam a necessidade de cautela na interpretação dos resultados e ressaltam a importância do aprofundamento das pesquisas sobre o tema.
7. CONCLUSÃO
Este estudo possibilitou uma compreensão ampliada acerca da influência do tempo de encarceramento no prognóstico de vítimas de trauma decorrente de acidentes automobilísticos. As evidências analisadas demonstraram associação significativa entre o prolongamento do tempo de extricação e desfechos clínicos desfavoráveis, incluindo aumento da mortalidade, maior gravidade das lesões traumáticas e elevação da incidência de complicações e lesões secundárias.
Evidenciam que o tempo de encarceramento não constitui um fator isolado, sendo influenciado por múltiplas variáveis inerentes ao contexto do trauma. Dentre elas, destacam-se a cinemática do acidente, especialmente em colisões de alta energia, as dificuldades técnicas relacionadas à extricação veicular, o tempo-resposta dos serviços de atendimento pré-hospitalar e as limitações estruturais e operacionais dos sistemas de emergência, tais como disponibilidade de recursos, qualificação profissional e articulação entre os serviços de saúde e salvamento. Ademais, observou-se que o retardo no acesso ao tratamento definitivo compromete diretamente os princípios da “hora de ouro”, repercutindo negativamente sobre o prognóstico das vítimas.
No âmbito das implicações para a prática assistencial, os achados reforçam a necessidade de otimização dos processos de atuação das equipes multiprofissionais, com destaque para a equipe de enfermagem, no que se refere à tomada de decisão rápida, segura e baseada em evidências durante o processo de extricação. Estratégias como a implementação de protocolos padronizados, incorporação de tecnologias, fortalecimento da integração interprofissional e aprimoramento da logística de resposta emergencial configuram-se como medidas potencialmente eficazes para a redução do tempo de encarceramento e, consequentemente, para a melhoria dos desfechos clínicos.
Por fim, recomenda-se que investigações futuras aprofundem a análise quantitativa da relação entre tempo de encarceramento e prognóstico clínico, contemplando variáveis específicas, como mecanismos de trauma, tipo e gravidade das lesões, tempo exato de extricação, intervenções realizadas no ambiente pré-hospitalar e os diferentes ângulos de retirada empregados durante o desencarceramento veicular, a fim de avaliar seus impactos sobre a ocorrência de lesões secundárias e sobre a estabilidade clínica das vítimas. Ressalta-se, ainda, a relevância de estudos voltados à avaliação de intervenções práticas e estratégias de fortalecimento dos sistemas de emergência, sobretudo em cenários com limitações estruturais, visando ao aprimoramento da assistência pré-hospitalar e da qualidade do cuidado prestado às vítimas de trauma.
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*Curso de Enfermagem da Universidade Anhembi Morumbi

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