Palavras-chave
Odontologia
Violência Infantil
Lesões Orofaciais
Cirurgião-Dentista
Inteligência artificial como ferramenta de apoio ao cirurgião-dentista na identificação precoce de lesões orofaciais sugestivas de violência infantil.
Artificial intelligence as a tool to support dentists in the early identification of orofacial lesions suggestive of child abuse.
Ana Beatriz Machado Patrício[1]; Beatriz Gomes da Rosa[2]; Hudson André Cabral Sicçu[3]; Jaine dos Santos Seles[4]; Karina Cardozo Coimbra[5]; Kaylane Farias Barbosa Costa[6]; Lucas Lacerda Siqueira[7]; Rúvia Carla Rodrigues Gonçalves Bélo[8]; Thaís Aparecida Oliveira da Cunha[9]; Wagner Silva Santos[10]; Orientadora: Profª Lorraine Cristina Bezerra Pereira[11]
RESUMO
A violência infantil representa uma grave violação dos direitos de crianças e adolescentes e pode apresentar sinais físicos, comportamentais e orofaciais observáveis durante o atendimento odontológico. Nesse contexto, o cirurgiãodentista possui papel relevante na identificação precoce de lesões sugestivas de maus-tratos, negligência, agressão física ou abuso sexual. Este estudo teve como objetivo analisar a inteligência artificial como ferramenta de apoio ao cirurgião-dentista na identificação precoce de lesões orofaciais sugestivas de violência infantil. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, realizada a partir de publicações em português e inglês, disponíveis nas bases Google Acadêmico e PubMed. Os estudos analisados indicam que a inteligência artificial pode auxiliar na análise de imagens, na organização de dados clínicos e no reconhecimento de padrões ou alterações incompatíveis com o relato apresentado. Contudo, essa tecnologia não substitui a avaliação profissional, sendo responsabilidade do cirurgião-dentista interpretar os achados, documentar, notificar e encaminhar os casos suspeitos. Conclui-se que a inteligência artificial pode fortalecer a prática odontológica quando utilizada de forma ética, criteriosa e associada ao preparo técnico e à atuação interdisciplinar.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Odontologia; Violência Infantil; Lesões Orofaciais; Cirurgião-Dentista.
ABSTRACT
Child abuse is a serious violation of the rights of children and adolescents and may present physical, behavioral, and orofacial signs during dental care. In this context, dentists play an important role in the early identification of lesions suggestive of maltreatment, neglect, physical aggression, or sexual abuse. This study aimed to analyze artificial intelligence as a support tool for dentists in the early identification of orofacial lesions suggestive of child abuse. This is a narrative literature review based on publications in Portuguese and English, available in Google Scholar and PubMed databases. The studies analyzed indicate that artificial intelligence may assist in image analysis, organization of clinical data, and recognition of patterns or changes incompatible with the reported history. However, this technology does not replace professional evaluation, since dentists remain responsible for interpreting findings, documenting, notifying, and referring to suspected cases. The study concludes that artificial intelligence can strengthen dental practice when used ethically and carefully, in association with technical training and interdisciplinary action.
Keywords: Artificial Intelligence; Dentistry; Child Abuse; Orofacial Lesions; Dentist.
1. INTRODUÇÃO
Os cirurgiões-dentistas podem ser os primeiros profissionais da área da saúde a atender crianças e/ou adolescentes vítimas de maus-tratos, uma vez que a maioria das agressões físicas ocorre nas regiões da face, cabeça e pescoço. Diante disso, torna-se essencial que esses profissionais saibam reconhecer indícios de violência contra esses menores e, sobretudo, adotar as medidas cabíveis diante de tais situações (Graça, 2025).
No campo da odontologia, sistemas baseados em inteligência artificial têm sido utilizados como instrumentos de suporte à decisão clínica, facilitando os cirurgiões-dentistas na análise de dados e na realização de diagnósticos mais precisos. Essas tecnologias permitem processar informações clínicas e imagens, contribuindo para o planejamento terapêutico, a previsão de prognósticos e a identificação de alterações na cavidade oral (Bonny, 2023). Sob essa perspectiva, a utilização da inteligência artificial pode representar um importante auxílio ao cirurgião-dentista na identificação de lesões orofaciais que possam indicar possíveis situações de violência infantil.
A presente pesquisa objetiva realizar uma revisão bibliográfica para analisar o papel da inteligência artificial como ferramenta de apoio ao cirurgião-dentista na identificação precoce de lesões orofaciais, compreendidas como alterações ou traumas que acometem a região da boca e da face sugestivas de violência infantil, enfatizando, de forma breve, o papel desse profissional de saúde diante dessas violações de direitos, no que tange à identificação inicial ao acolhimento e ao encaminhamento desses casos no âmbito da saúde coletiva.
Embora a literatura demonstre avanços significativos na utilização da inteligência artificial no ramo da odontologia, é notória a carência de estudos específicos que explorem essa ferramenta tecnológica como apoio ao cirurgião-dentista no reconhecimento precoce de lesões orofaciais vinculadas à violência contra crianças e adolescentes, demonstrando uma lacuna na pesquisa científica que demanda ampliação e aprofundamento deste assunto.
Essa escassez não representa uma limitação para o desenvolvimento de estudos nessa área, pois a violência contra menores constitui uma grave realidade presente em diferentes contextos sociais, e o uso da inteligência artificial na área da saúde tende a crescer a cada ano. Diante disso, destaca-se a oportunidade de enfatizar a grandeza da temática e de fortalecer o papel do cirurgião-dentista como agente de saúde e de proteção social.
Ao abordar a questão sob a ótica odontológica, este trabalho busca contribuir para a sensibilização da categoria profissional, bem como para a formação acadêmica na odontologia e para a ampliação do debate científico, reforçando a importância de práticas interdisciplinares voltadas à proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e ao uso de tecnologias como mecanismo de suporte na identificação e enfrentamento desses casos.
2. METODOLOGIA
O presente estudo caracterizou-se como uma revisão bibliográfica narrativa, consistindo na análise e interpretação de estudos previamente publicados, permitindo a compreensão e discussão crítica acerca da temática proposta. A construção do trabalho foi desenvolvida em quatro etapas metodológicas: definição do tema e dos objetivos, estruturação da problemática, estabelecimento dos critérios de seleção dos estudos e realização de pesquisa nas principais bases científicas.
Inicialmente, foram selecionados 61 (sessenta e um) trabalhos para compor a etapa inicial da pesquisa. Após análise criteriosa dos materiais achados nos repositórios científicos, 11 (onze) artigos de cunho científico foram escolhidos para análise detalhada, considerando sua relevância e colaboração significativa para o tema de estudo.
A seleção contemplou publicações nos idiomas português e inglês, disponíveis na íntegra e com acesso gratuito, que abordassem a atuação do cirurgião-dentista na identificação e intervenção de maus-tratos infantis, bem como a aplicação da inteligência artificial na odontologia como apoio diagnóstico em saúde. Foram deletadas as pesquisas que tratavam exclusivamente de populações adultas e/ou idosos, assim como aqueles que não estavam disponíveis nos idiomas especificados.
Figura 1 - Fluxograma de seleção dos estudos incluídos na revisão
TEMA
DEFINIDO
Fonte: Autoria Própria (2026)
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para melhor apresentação do referido estudo, foi construído um quadro constando uma compilação das pesquisas mais significativas relacionadas ao tema, conforme exibido a seguir. O quadro reúne de modo estruturado, os autores dos artigos, o ano, o tipo de estudo, conclusões identificadas e base de dados de cada trabalho, abrangendo o ano de 2018 a 2025. Esse formato permite uma visualização objetiva e organizada dos dados, favorecendo a compreensão de tendências e lacunas sobre o tema abordado.
Quadro 1 – Descrição resumida dos artigos selecionados para este estudo
Autor | Ano | Tipo de Estudo | Conclusões | Base de dados |
|---|---|---|---|---|
CARDOSO et al. | 2025 | Revisão Integrativa | Embora os cirurgiões-dentistas ocupem uma posição estratégica na detecção precoce de maus-tratos infantis, persistem lacunas significativas em sua formação, preparo técnico e segurança para atuar de forma eficaz nesses contextos. | Acadêmico |
OLIVEIRA
| 2024 | Estudo Observacional e Descritivo | A inteligência artificial pode melhorar os tratamentos odontológicos. Mas, para garantir a confiabilidade dos pacientes é preciso que sejam definidos, introduzidos e trabalhados com os discentes a necessidade de uma conduta ética para utilização dessas ferramentas. | Google Acadêmico |
TOLEDO | 2024 | Revisão de Literatura | IA pode, de fato, otimizar diagnósticos e tratamentos, promover a personalização dos cuidados bucais e melhorar a gestão da saúde pública odontológica. No entanto, a implementação dessa tecnologia ainda enfrenta questões éticas, privacidade de dados e | Google Acadêmico |
Autor | Ano | Tipo de Estudo | Conclusões | Base de dados |
|---|---|---|---|---|
a necessidade de uma maior qualificação dos profissionais para lidar com esses sistemas avançados. | ||||
DE PAULA et al. | 2019 | Revisão Bibliográfica | Com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, o cirurgião-dentista é obrigado a identificar e a notificar casos suspeitos de maus tratos, encaminhados para o Conselho Tutelar. No entanto, a inabilidade de cirurgiões-dentistas com relação ao diagnóstico e à notificação de maus tratos contra crianças e adolescentes é um problema internacional. | Acadêmico |
LACERDA et al. | 2024 | Revisão Integrativa da Literatura | Os profissionais e acadêmicos da Odontologia mundial ainda necessitam de maior preparo teórico e prático para exercer sua legítima função como identificadores e denunciantes do abuso infantil. A falta de confiança e o despreparo para diagnosticar corretamente o abuso a partir de seus sinais e sintomas é o achado de maior relevância desta revisão. | Google Acadêmico |
SAVEGNAGO et al. | 2024 | Revisão de Literatura | A IA tem desempenhado um papel cada vez mais significativo na área da odontologia, com potencial para revolucionar a maneira como os profissionais de odontologia abordam o diagnóstico, planejamento e tratamento de seus pacientes. No entanto, é fundamental lembrar que embora a IA possa aprimorar a precisão e eficiência no atendimento clínico, ela não substitui a experiência e | Google Acadêmico |
Autor | Ano | Tipo de Estudo | Conclusões | Base de dados |
|---|---|---|---|---|
julgamento dos profissionais de saúde. | ||||
AGRAWAL et al. | 2022 | Revisão Bibliográfica | Ao complementar e, por vezes, atenuar as dificuldades enfrentadas pelos dentistas, a IA deve ser vista como uma ferramenta de aprimoramento que os auxilia na execução de tarefas mais úteis, como a integração de informações do paciente e o fortalecimento do relacionamento profissional. | PubMed |
PATIL et al. | 2022 | Revisão Sistemática | A IA baseada em dados é confiável, transparente e, em certos casos, superior ao diagnóstico humano. | PubMed |
BONNY et al. | 2023 | Revisão Bibliográfica | Embora os sistemas de IA sejam de grande auxílio na odontologia e no ensino odontológico, os processos biológicos são muito mais complexos, e os sistemas de IA jamais serão capazes de substituir o conhecimento, a competência e a capacidade de tomada de decisão humana. | PubMed |
THORAT et al. | 2024 | Revisão Bibliográfica | Persistem preocupações com a dependência excessiva, a precisão, os custos de implementação, a aceitação do paciente, a privacidade e a conformidade regulatória. | PubMed |
GRAÇA et al. | 2025 | Revisão Narrativa de Literatura | O cirurgião-dentista, bem como todo profissional da área de saúde, deve estar atento para a possibilidade de se ver diante de casos de maus tratos a crianças ou adolescentes, e deve além de realizar os procedimentos | Acadêmico
|
Autor | Ano | Tipo de Estudo | Conclusões | Base de dados |
terapêuticos indicados, denunciar os casos às autoridades competentes. | ||||
SILVA | 2018 | Revisão Bibliográfica | As principais manifestações orofaciais incluem fratura do crânio, hematomas subdurais, hemorragia retiniana, hematomas, queimaduras, abrasões ou lacerações da língua, lábios, mucosa oral, palato duro e mole, gengiva, mucosa alveolar, frênulo, fraturas dentárias, luxações dentárias, avulsões dentárias; fraturas maxilar e mandibular; de abuso sexual incluem o eritema, úlcera, vesícula com drenagem purulenta ou pseudomembrana e lesões condilomatosas dos lábios, língua, palato e nariz-faringe. | Acadêmico
|
MELE et al. | 2023 | Revisão Bibliográfica | Quando surgirem dúvidas ou for necessária uma consulta, um odontopediatra ou um dentista com formação específica em odontologia forense pode garantir os testes, diagnóstico e o tratamento adequado. | PubMed |
ZERMAN et al. | 2024 | Estudo Descritivo | Para aprimorar a triagem de trauma orofacial e potenciais casos de abuso, questionários sobre trauma dentário devem ser disponibilizados em serviços de emergência hospitalar e clínicas particulares. Essa abordagem garante dados epidemiológicos mais precisos e a identificação de indivíduos em risco de abuso | PubMed |
Fonte: Autoria própria (2026).
O cirurgião-dentista pode contribuir de forma significativa para a identificação de situações suspeitas de violência infantil, pois o exame intra e extraoral odontológico permite a observação detalhada da cavidade oral, da face e de estruturas craniofaciais, regiões frequentemente acometidas em casos de agressões, negligência ou maus-tratos infantil.
Além dos sinais físicos, o contato clínico com a criança possibilita ao profissional perceber alterações comportamentais, como medo excessivo, retraimento, insegurança ou resistência ao atendimento. Apesar dessa possibilidade de atuação, ainda se observa que muitos profissionais apresentam dificuldades em reconhecer os indícios de violência. Esse cenário demonstra a importância de fortalecer a formação acadêmica e a capacitação continuada dos cirurgiões-dentistas sobre a proteção integral de crianças e adolescentes.
Considerando esse cenário, CARDOSO et al. (2025) alertam que, apesar da proximidade clínica com sinais potencialmente indicativos de violência contra crianças e adolescentes, persistem lacunas significativas na formação, no preparo técnico e na segurança dos cirurgiões-dentistas para atuar de forma eficaz nesses casos, comprometendo o diagnóstico inicial e a condução adequada dessas violações de direitos.
Esse entendimento também é reforçado por LACERDA et al. (2024), ao apontarem que profissionais e acadêmicos da odontologia em diferentes contextos, ainda necessitam de maior preparo teórico e prático para exercer seu papel na identificação e denúncia de casos sugestivos de violência contra menores. Segundo os autores, a insegurança e o despreparo para reconhecer adequadamente os sinais e sintomas associados a essas ocorrências, constituem importantes obstáculos para a atuação efetiva do cirurgião-dentista diante desse cenário.
De forma complementar, DE PAULA et al. (2019) reforçam que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, o cirurgião-dentista possui obrigação legal de identificar e notificar casos suspeitos de maus-tratos, encaminhando-os aos órgãos competentes, como o Conselho Tutelar. Contudo, a dificuldade relacionada ao diagnóstico e à notificação desses casos ainda constitui um problema observado em diferentes países.
Além da responsabilidade ética e legal, a relevância da atuação odontológica também se relaciona às manifestações clínicas presentes nas estruturas bucais e na região orofacial. Com isso, SILVA (2018) descreve que as manifestações orofaciais descritas em pesquisas demonstram que a cavidade oral e a região da face podem apresentar sinais relevantes em casos sugestivos de violência contra crianças e adolescentes. Entre os achados mais frequentes, observam-se hematomas, queimaduras, abrasões e lacerações em estruturas como língua, lábios, mucosa oral, palato duro e mole, gengiva, mucosa alveolar e frênulo. Além disso, alterações traumáticas, como fraturas dentárias, luxações, avulsões, fraturas maxilares e mandibulares, também podem estar associadas a episódios de agressão física, principalmente quando a explicação apresentada não é compatível com a gravidade ou com o padrão da lesão.
SILVA (2018) também aponta que, em caso de suspeita de abuso sexual, algumas alterações podem ser observadas na região oral e orofaríngea, como eritema, úlceras, vesículas com secreção purulenta, pseudomembranas e lesões condilomatosas em lábios, língua, palato e nasofaringe. Esses sinais exigem atenção criteriosa do cirurgião-dentista, pois podem indicar infecções, traumas ou outras condições relacionadas à violência sexual. Dessa forma, torna-se fundamental que o profissional realize uma avaliação clínica minuciosa, associando os achados bucais à anamnese, ao comportamento da criança e à coerência do relato apresentado pelos genitores e/ou responsáveis.
Diante da complexidade desses casos, alguns autores ressaltam a necessidade do suporte especializado e da utilização de estratégias que favoreçam a identificação precoce. MELE et al. (2023) sugerem que, diante da suspeita ou necessidade de avaliação mais criteriosa, a intervenção de odontopediatras ou profissionais com formação em odontologia forense pode contribuir para um diagnóstico mais preciso e para a condução adequada do caso. Essa perspectiva reforça que o atendimento a crianças e adolescentes em situação suspeita de violência não deve se limitar ao tratamento clínico imediato, mas também considerar a investigação adequada dos sinais encontrados, a documentação das lesões e o encaminhamento aos serviços competentes.
Seguindo essa abordagem, ZERMAN et al. (2024) defendem que a utilização de questionários sobre trauma dentário em serviços de emergência hospitalar e clínicas odontológicas particulares pode favorecer a triagem de lesões orofaciais e de possíveis casos de abuso. Essa sugestão permite registrar informações mais completas sobre a origem, frequência e características do trauma, auxiliando o profissional a identificar situações incompatíveis com o relato apresentado. Além disso, o uso desses instrumentos contribui para a produção de dados epidemiológicos mais precisos e para o reconhecimento de crianças e adolescentes em maior risco de violência.
De forma complementar, o avanço das tecnologias digitais têm ampliado as possibilidades de apoio ao diagnóstico e ao planejamento terapêutico na Odontologia e na área da saúde em geral. Nesse cenário, a inteligência artificial tem sido apontada como uma ferramenta promissora para auxiliar os profissionais na análise de dados clínicos e na tomada de decisões.
OLIVEIRA (2024) evidencia que a inteligência artificial apresenta potencial para aperfeiçoar os tratamentos odontológicos, contribuindo para uma prática clínica mais moderna e eficiente. No entanto, o autor destaca que o uso dessas tecnologias deve estar associado à formação ética dos futuros profissionais, especialmente durante a graduação. Dessa forma, torna-se necessário que os discentes sejam orientados quanto aos limites, responsabilidades e cuidados no uso da inteligência artificial, garantindo maior segurança, confiabilidade e respeito ao paciente atendido.
Na mesma linha de pensamento, TOLEDO (2024) afirma que a inteligência artificial possui potencial para otimizar diagnósticos e tratamentos odontológicos, além de favorecer a personalização dos cuidados em saúde bucal e contribuir para uma melhor organização da saúde pública odontológica. No entanto, o autor também observa que a implementação dessa tecnologia ainda enfrenta desafios, especialmente relacionados à capacitação profissional, à infraestrutura necessária, à segurança dos dados e à necessidade de critérios éticos para sua utilização. Dessa forma, embora a inteligência artificial represente uma ferramenta promissora para a Odontologia, sua aplicação deve ocorrer de maneira planejada, responsável e integrada à atuação do cirurgião-dentista.
Outras pesquisas reforçam o potencial dessa tecnologia no campo odontológico. SAVEGNAGO et al. (2024) ressaltam que a inteligência artificial tem assumido um papel cada vez mais relevante na Odontologia, especialmente por sua capacidade de auxiliar no diagnóstico, no planejamento e na condução dos tratamentos odontológicos. Entretanto, os autores destacam que, apesar de essa tecnologia favorecer maior precisão e eficiência no atendimento clínico, ela não deve ser compreendida como substituta da experiência, do raciocínio clínico e do julgamento profissional do cirurgião-dentista. Dessa forma, a inteligência artificial deve ser utilizada como uma ferramenta de apoio, contribuindo para a tomada de decisão.
AGRAWAL et al. (2022) acrescentam que a inteligência artificial pode subsidiar os profissionais da odontologia ao integrar informações clínicas e apoiar a execução de tarefas relacionadas ao cuidado do paciente. De maneira convergente, PATIL et al. (2022) observam que sistemas baseados em dados apresentam elevado nível de confiabilidade e podem, em determinadas situações, apresentar desempenho comparável ou até superior ao diagnóstico humano.
Embora essas tecnologias apresentem inúmeras contribuições, a literatura também ressalta a necessidade de cautela na utilização dessas tecnologias. Deste modo, BONNY et al. (2023) sinalizam que, embora os sistemas de inteligência artificial representem importante ferramenta de apoio na prática odontológica e no ensino, eles não são capazes de substituir o conhecimento, a experiência e a capacidade de tomada de decisão dos profissionais de saúde. THORAT et al. (2024) agregam essa discussão ao destacar preocupações relacionadas à dependência excessiva da tecnologia, aos custos de implementação, à aceitação pelos pacientes, à privacidade de dados e às exigências regulatórias.
Com base nas discussões realizadas, reconhece-se que a atuação do cirurgião-dentista vai além do atendimento clínico convencional, pois envolve também a capacidade de observar sinais que possam indicar situações de violência contra crianças e adolescentes. As alterações bucais, faciais e comportamentais, quando avaliadas em conjunto com a anamnese e com a coerência do relato apresentado, podem contribuir para a suspeita inicial e para a adoção de condutas adequadas.
Nesse contexto, a inteligência artificial surge como um recurso de apoio, capaz de favorecer a organização das informações, a triagem dos casos e o reconhecimento de padrões clínicos que auxiliem o profissional na tomada de decisão. No entanto, sua utilização deve ser compreendida como complementar, e não substitutiva, uma vez que a interpretação final, a responsabilidade ética, a documentação, a notificação e o encaminhamento permanecem como atribuições do cirurgião-dentista. Assim, o enfrentamento da violência infantil na Odontologia depende da união entre preparo profissional, sensibilidade clínica, atuação interdisciplinar e uso responsável das tecnologias disponíveis.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a inteligência artificial pode atuar como recurso de apoio ao cirurgião-dentista na identificação precoce de lesões orofaciais sugestivas de violência infantil. Ao oferecer suporte à análise de imagens, à organização dos dados clínicos e à identificação de características recorrentes que possam sinalizar lesões incompatíveis com o relato apresentado, essa tecnologia pode contribuir para uma triagem mais cuidadosa e para uma conduta profissional mais segura.
Tendo em vista os resultados apresentados, a inteligência artificial não deve ser vista como capaz de confirmar, isoladamente, situações de violência, mas como uma ferramenta complementar à avaliação odontológica. Assim, permanece sob responsabilidade do cirurgião-dentista interpretar os achados clínicos, considerar a anamnese, observar o comportamento da criança, documentar adequadamente as lesões e realizar os encaminhamentos necessários às redes de proteção infantil.
Nesse sentido, o uso responsável da inteligência artificial, aliado ao preparo técnico, à sensibilidade clínica e à atuação interdisciplinar, pode fortalecer a prática odontológica diante de casos suspeitos de violência infantil e contribuir para a proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
Embora a inteligência artificial esteja cada vez mais presente na Odontologia, ainda há poucos estudos voltados especificamente à sua aplicação na identificação precoce de lesões orofaciais sugestivas de violência infantil. Essa limitação demonstra que o tema ainda precisa ser mais investigado, especialmente por envolver uma área sensível que relaciona tecnologia, cuidado odontológico e proteção infanto-juvenil. Assim, pesquisas futuras podem colaborar para o desenvolvimento de protocolos clínicos, estratégias de capacitação e formas mais seguras e éticas de utilização da inteligência artificial no apoio ao cirurgião-dentista.
5. REFERÊNCIAS
CARDOSO, Alessandra Kelle et al. A importância do cirurgião-dentista na identificação e intervenção de maus-tratos em crianças e adolescentes. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 7, n. 7, p. 1540-1559, 2025.
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OLIVEIRA, Lucas Lima. ASPECTOS ÉTICOS DO USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA ODONTOLOGIA. 2024.
LACERDA, Gabriella Pirro et al. O papel do cirurgião-dentista na identificação e conduta ética perante o abuso infantil. Revista de Cirurgia e Traumatologia BucoMaxilo-Facial, v. 24, n. 2, p. 23-33, 2024.
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Acadêmica do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: machadoaninha2004@gmail.com ↑
Acadêmica do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: ↑
Acadêmico do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: hudson.andre008@gmail.com ↑
Acadêmica do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: selesjaine18@gmail.com ↑
Acadêmico do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: Karinacoimbra29@gmail.com ↑
Acadêmico do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: fariaskaylane967@gmail.com ↑
Acadêmico do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: Lucaslacerdasiqueira@gmail.com ↑
Acadêmica do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: ruviacarla.23@gmail.com ↑
Acadêmica do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: thaisoliveira3313@gmail.com ↑
Acadêmico do curso de Odontologia pela Faculdade Serra dourada de Altamira- PA. 9° e 10º período. Artigo baseado no Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Odontologia – Faculdade Serra Dourada, Altamira – PA, 2026. E-mail: Wagnersantosilva17@gmail.com ↑
Graduada em Odontologia pela Universidade Metodista de São Paulo, Brasil (2017) Orientadora Educacional de Odontologia da Faculdade Serra Dourada – Altamira - PA, Brasil. E-mail: lorrainepereira@faculdadeserradourada.com.br ↑

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Copyright (c) 2026 Ana Beatriz Machado Patrício, Beatriz Gomes da Rosa, Hudson André Cabral Sicçu, Jaine dos Santos Seles, Karina Cardozo Coimbra, Kaylane Farias Barbosa Costa, Lucas Lacerda Siqueira, Rúvia Carla Rodrigues Gonçalves Bélo, Thaís Aparecida Oliveira da Cunha, Wagner Silva Santos, Lorraine Cristina Bezerra Pereira (Autor)