Palavras-chave
atenção primária à saúde
educação em saúde
uso racional
assistência farmacêutica
A importância da atuação do farmacêutico na educação em saúde sobre o uso racional de plantas medicinais na Atenção Primária: relato de experiência
The importance of the pharmacist’s role in health education on the rational use of medicinal plants in primary care: experience report
Sara Santana Odwyer Brito; Robson Dias de Souza; Carla Jaqueline Costa Freitas; Ana Luísa Alves de Jesus Cruz; Kauê Evangelista dos Santos; Lavínia Rocha da Cruz; Leila Alves Conceição Lima; Monique Brito Cardoso; Yasmin Rios Almeida; Valmicleide Souza da Hora Costa
Resumo
O uso de plantas medicinais é uma prática tradicional amplamente difundida no Brasil, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde, sendo frequentemente utilizado como complemento terapêutico no tratamento de diversas condições clínicas. Entretanto, o uso inadequado dessas plantas, muitas vezes sem orientação profissional, pode acarretar riscos à saúde, incluindo efeitos adversos e interações medicamentosas. Nesse contexto, destaca-se a importância da atuação do farmacêutico como agente promotor do uso racional e seguro desses recursos terapêuticos. O presente trabalho trata-se de um relato de experiência desenvolvido por estudantes do curso de Farmácia da Universidade Salvador (UNIFACS), durante o Estágio Supervisionado I, no município de Feira de Santana–BA, no ano de 2026. A atividade consistiu na realização de ações educativas em saúde voltadas a usuários da Unidade Básica de Saúde Irmã Dulce, especialmente participantes do Programa Hiperdia e demais usuários atendidos na unidade. As intervenções ocorreram por meio de palestras expositivas dialogadas abordando benefícios, riscos, formas corretas de preparo e possíveis interações entre plantas medicinais e medicamentos alopáticos. Observou-se participação ativa dos usuários, com troca de experiências e esclarecimento de dúvidas frequentes relacionadas ao uso de chás medicinais. As ações contribuíram para a conscientização sobre o uso racional das plantas medicinais e reforçaram o papel do farmacêutico na promoção da educação em saúde. Conclui-se que intervenções educativas simples e contextualizadas são estratégias eficazes para fortalecer o uso seguro e responsável das plantas medicinais na Atenção Primária à Saúde.
Palavras-chave: plantas medicinais; atenção primária à saúde; educação em saúde; uso racional; assistência farmacêutica.
Abstract
The use of medicinal plants is a traditional practice widely disseminated in Brazil, especially within the context of Primary Health Care, and is often used as a complementary therapeutic resource for the treatment of several clinical conditions. However, the inappropriate use of these plants, frequently without professional guidance, may pose health risks, including adverse effects and drug interactions. In this context, the pharmacist plays an important role as a health promoter in encouraging the rational and safe use of these therapeutic resources. This study is an experience report developed by Pharmacy students from Universidade Salvador (UNIFACS) during Supervised Internship I, carried out in the municipality of Feira de Santana, Bahia, Brazil, in 2026. The activity consisted of health education actions directed to users of the Irmã Dulce Primary Health Care Unit, especially participants of the Hiperdia Program and other assisted users. The interventions were conducted through dialogued lectures addressing benefits, risks, correct preparation methods, and possible interactions between medicinal plants and conventional medicines. Active participation of users was observed, promoting exchange of experiences and clarification of common doubts related to the use of medicinal teas. The educational actions contributed to increasing awareness about the rational use of medicinal plants and reinforced the role of the pharmacist in health education activities. It is concluded that simple and contextualized educational interventions are effective strategies to strengthen the safe and responsible use of medicinal plants in Primary Health Care.
Keywords: medicinal plants; primary health care; health education; rational use; pharmaceutical care.
INTRODUÇÃO
As plantas medicinais são utilizadas há séculos no cuidado com a saúde, com base na observação de seus efeitos terapêuticos e na transmissão desse conhecimento entre gerações. No Brasil, essa prática é amplamente difundida devido à grande biodiversidade vegetal e à forte presença da cultura popular, estando presente tanto em comunidades tradicionais quanto no cotidiano de muitas famílias. Atualmente, seu uso no tratamento complementar de doenças crônicas tem ganhado destaque como área relevante de pesquisa, reforçando sua importância como recurso terapêutico natural (PA FERRARI, 2022).
Esse uso pode ser facilmente observado em feiras livres, mercados e até mesmo em quintais residenciais, onde plantas medicinais são comercializadas ou cultivadas para tratar diversos problemas de saúde. Frequentemente, as orientações sobre o modo de utilização dessas plantas são transmitidas por familiares, vizinhos ou conhecidos, sem acompanhamento de profissionais de saúde. Essa prática reforça a ideia equivocada de que, por serem naturais, essas plantas não apresentam riscos, o que pode levar ao uso inadequado ou excessivo (OMS, 2020).
Entretanto, mesmo sendo naturais, as plantas medicinais possuem substâncias químicas biologicamente ativas que podem causar efeitos adversos quando utilizadas de forma incorreta. O preparo inadequado, a dosagem incorreta, o tempo prolongado de uso e a confusão entre espécies com o mesmo nome popular são fatores que podem comprometer a segurança do tratamento. Além disso, o uso concomitante com medicamentos alopáticos pode resultar em interações medicamentosas prejudiciais à saúde. (ENIOUTINA et al., 2017)
Nesse contexto, o farmacêutico desempenha papel fundamental na orientação quanto às indicações terapêuticas e ao uso racional das plantas medicinais e fitoterápicos. Esse profissional atua como agente promotor da saúde ao avaliar a real necessidade de intervenção, identificar possíveis interações medicamentosas e orientar sobre preparo, dose, tempo de uso e cuidados necessários, contribuindo para maior segurança e eficácia do tratamento (MATTOS et al., 2018).
Assim, a educação em saúde realizada pelo farmacêutico contribui para integrar o conhecimento popular ao conhecimento científico, respeitando aspectos culturais da população e promovendo o uso seguro das plantas medicinais. Diante disso, este trabalho tem como objetivo demonstrar a importância da atuação do farmacêutico na orientação da população quanto ao uso consciente, seguro e responsável das plantas medicinais no cuidado com a saúde.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência, conforme descrito por Dantas et al. (2024), caracterizado como uma estratégia metodológica que possibilita a descrição sistematizada e detalhada de situações didáticas previamente planejadas e organizadas por meio de uma sequência de ensino estruturada. Esse tipo de abordagem fundamenta-se na análise crítica e reflexiva das ações desenvolvidas no contexto da prática, permitindo compreender os processos de planejamento, execução e avaliação das atividades realizadas.
O presente estudo refere-se à descrição analítica das etapas de planejamento e desenvolvimento de uma atividade de educação em saúde sobre plantas medicinais, conduzida por estudantes do curso de Farmácia da Universidade Salvador (UNIFACS), no âmbito da disciplina Estágio Supervisionado I, durante o ano de 2026.
A construção da atividade baseou-se em levantamento bibliográfico prévio, associado à observação direta dos processos de trabalho e da rotina dos serviços da Atenção Primária à Saúde no município de Feira de Santana, Bahia.
Inicialmente, foi realizado um momento de discussão entre os discentes acerca do potencial terapêutico das plantas medicinais e suas possibilidades de utilização na promoção da saúde, com base em evidências científicas disponíveis. O público-alvo da atividade foi constituído por usuá´rios acompanhados pela Unidade Básica de Saúde Irmã Dulce, especialmente participantes do Programa Hiperdia, voltado ao acompanhamento de pessoas com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus, além de usuários atendidos nas ações relacionadas ao planejamento familiar e à saúde do homem.
Como estratégia metodológica de intervenção educativa, optou-se pela realização de uma palestra expositiva dialogada abordando aspectos relacionados à importância do uso racional das plantas medicinais, seus benefícios terapêuticos, formas adequadas de preparo e possíveis riscos associados ao uso incorreto.
Dessa forma, definiu-se como temática central da atividade educativa a importância e a eficácia das plantas medicinais no tratamento complementar de diferentes condições de saúde, enfatizando seu uso seguro e orientado. As plantas medicinais são tradicionalmente utilizadas de acordo com sua disponibilidade regional, apresentando baixo custo, ampla acessibilidade e relevância terapêutica, além de constituírem a base para o desenvolvimento de diversos medicamentos industrializados, reforçando sua importância no contexto da atenção primária à saúde.
DISCUSSÃO E RESULTADOS
Na atualidade, ainda é comum a utilização de plantas medicinais, especialmente na forma de chás, para o alívio de sintomas. No entanto, observa-se que muitas vezes esse uso ocorre sem orientação adequada, baseado na crença de que produtos naturais não apresentam riscos à saúde, o que favorece o uso incorreto e aumenta a possibilidade de interações medicamentosas. ( FEITOSA,2016)
Inicialmente, os discentes reuniram-se na Unidade Básica de Saúde para discutir possíveis temáticas educativas, considerando a realidade social, as vulnerabilidades e o perfil da população atendida. Após a discussão, definiu-se que as ações educativas seriam realizadas em dois dias da semana, escolhidos estrategicamente por apresentarem maior fluxo de usuários na unidade.
No primeiro dia de intervenção, foi realizada uma apresentação abordando conceitos básicos sobre plantas medicinais, aspectos históricos e culturais relacionados ao uso de chás e seus efeitos no organismo. Ao final da atividade, foram propostas perguntas como: o uso frequente de chá de boldo em casos de dor de estômago; a utilização de chás por gestantes para controle da ansiedade; a administração de chás em bebês com cólicas; e as condutas recomendadas diante de reações adversas após o consumo de plantas medicinais. Essas questões estimularam a reflexão e a participação ativa dos participantes.
No segundo dia de intervenção, foram discutidos aspectos relacionados ao uso cauteloso de chás medicinais, abordando dúvidas frequentes da população, como a utilização do chá de hibisco na retenção de líquidos, o uso do chá de erva-cidreira em casos de dor de cabeça, os efeitos calmantes da camomila e o uso do chá de boldo em cólicas intestinais. A partir dessas discussões, promoveu-se um espaço de diálogo com troca de experiências entre os participantes e esclarecimento de dúvidas com base em evidências científicas, contribuindo para a desconstrução de crenças populares.(FRANÇA,2008)
Na sequência, destacou-se a importância da utilização correta dos medicamentos prescritos e os possíveis riscos da interação entre plantas medicinais e medicamentos alopáticos. Foi enfatizado que, diante de qualquer reação adversa, o uso deve ser suspenso e o paciente deve procurar orientação de um profissional de saúde.
As ações educativas tiveram como objetivo sensibilizar os participantes quanto à importância do uso racional das plantas medicinais, promovendo maior conscientização sobre riscos, benefícios e formas adequadas de utilização, contribuindo para a autonomia e cuidado seguro em saúde. (CANTARELLI,2012)
Além disso, durante as atividades educativas, também foram abordados aspectos relacionados à promoção da saúde e prevenção de doenças, destacando a importância da adoção de hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de exercícios físicos, reconhecendo que o estilo de vida influencia diretamente a saúde e o bem-estar da população.
A abordagem de bem-estar discutida na atividade considera aspectos que vão além da simples ausência ou presença de doença. Conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (1986), a promoção da saúde envolve capacitar indivíduos e comunidades para aumentar o controle sobre sua própria saúde. Portanto, deve-se estimular os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) a compreenderem melhor sobre suas condições de saúde para uma atuação mais participativa no autocuidado.
CONCLUSÃO
O presente relato de experiência evidenciou a relevância das ações de educação em saúde voltadas ao uso racional de plantas medicinais no contexto da Atenção Primária à Saúde, destacando o papel fundamental do farmacêutico como agente promotor do uso seguro e orientado desses recursos terapêuticos. Observou-se que, embora o uso de plantas medicinais esteja fortemente presente no cotidiano da população, ainda persistem práticas baseadas exclusivamente no conhecimento popular, muitas vezes desvinculadas de orientações científicas e profissionais.
As atividades educativas realizadas possibilitaram a troca de conhecimentos entre discentes e usuários da Unidade Básica de Saúde, favorecendo a construção de saberes compartilhados e contribuindo para a conscientização sobre os benefícios, riscos e cuidados necessários no uso das plantas medicinais, especialmente quanto às formas de preparo e possíveis interações medicamentosas.
Além disso, as intervenções demonstraram que estratégias educativas simples, como palestras dialogadas e problematizações baseadas em situações do cotidiano, são eficazes para estimular a participação dos usuários e promover reflexão crítica acerca de práticas comuns relacionadas ao uso de chás e outras preparações caseiras. Essas ações reforçam a importância da inserção do farmacêutico nas atividades educativas da Atenção Primária, fortalecendo o vínculo com a comunidade e ampliando o acesso à informação qualificada em saúde.
Dessa forma, conclui-se que a atuação do farmacêutico em atividades de educação em saúde contribui significativamente para a promoção do uso consciente, seguro e responsável das plantas medicinais, valorizando o conhecimento tradicional, mas integrando-o às evidências científicas, com impacto positivo na qualidade do cuidado e na promoção da saúde da população.
REFERÊNCIAS
Carta de Ottawa para a promoção da saúde. In: CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE PROMOÇÃO DA SAÚDE, 1., 1986, Ottawa.
Anais… Ottawa: Organização Mundial da Saúde, 1986. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/carta_ottawa.pdf
Acesso em: 16 mar. 2026.
PEDRO AFONSO T, WALTER FERREIRA DA SILVA J. Medicamentos fitoterápicos utilizados no tratamento de doenças crônicas não transmissíveis. 2022;(agosto). Disponível em: https://doi.org/10.33448/rsd-v11i10.33036.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. (2020). Doenças não comunicáveis. Disponível em: https://www.who.int/westernpacific/health-topics/noncommunicable-diseases.
MATTOS, G. et. al. Plantas medicinais e fitoterápicos na Atenção Primária em Saúde: percepção dos profissionais. Ciência e Saúde Coletiva, v. 23, n. 11, p. 3735-3744, 2018.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE FÍSICA (SBF). Mestrado Nacional Profissional em Ensino de Física (MNPEF). Elaborado por: Claudio Rejane da Silva Dantas; Glauco Cohen Ferreira Pantoja. MNPE/SBF, 07 ago. 2024.
ENIOUTINA, Elena Y. et al. Herbal Medicines: challenges in the modern world. Part 5. status and current directions of complementary and alternative herbal medicine worldwide. Expert Review of Clinical Pharmacology, London, v. 10, n. 3, p. 327-338, Mar. 2017.
FEITOSA, Maria H.A. et al. Inserção do conteúdo fitoterapia em cursos da área de saúde. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 40, n. 2, p. 197-203, Apr.-Jun. 2016.
FRANÇA, Inácia S. X. D. et al. Medicina popular: benefícios e malefícios das plantas medicinais. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, v. 61, n. 2, p. 201-208, Mar.-Abr. 2008.
Cantarelli AP. Estudo da utilização de plantas medicinais pelos usuários do SUS e das práticas dos profissionais de saúde de Doutor Maurício Cardoso em relação à fitoterapia [dissertação] Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2012.

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