Feiras científicas e sua institucionalização como estratégia pedagógica contínua na educação básica: contribuições para a alfabetização científica, desenvolvimento socioemocional e implicações para o projeto de vida discente.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

As feiras científicas desempenham um papel fundamental na formação acadêmica e socioemocional dos estudantes ao promoverem experiências de aprendizagem prática, investigativa e interdisciplinar. Este artigo analisa a influência dessas iniciativas no contexto escolar, com ênfase no desenvolvimento de competências cognitivas e no fortalecimento de habilidades interpessoais, como a resiliência e a autogestão. A pesquisa fundamenta-se em uma revisão de literatura abrangente, compreendendo o período de 2018 a 2024, permitindo uma análise articulada entre os pressupostos teóricos e a prática educativa cotidiana. Os resultados evidenciam que a participação ativa em feiras científicas potencializa o engajamento escolar e consolida habilidades essenciais, como a comunicação científica, a resolução de problemas complexos e o pensamento crítico. O estudo identifica, adicionalmente, que o ambiente de experimentação atua como um fator decisivo na escolha profissional dos alunos, ao proporcionar o contato direto com o fazer científico e o despertar de vocações em diversas áreas do conhecimento. Simultaneamente, a análise aponta demandas por maior aporte de recursos materiais e pela estruturação de um suporte institucional sistemático para a plena consolidação dessas práticas. Nesse sentido, o trabalho ressalta a importância de investimentos contínuos e da formação docente especializada. Tais ações visam ao fortalecimento das feiras científicas como estratégias pedagógicas permanentes, capazes de transformar o ambiente escolar em um espaço de inovação, amadurecimento emocional e protagonismo juvenil, preparando os estudantes para os desafios contemporâneos e para a definição de suas trajetórias de carreira.

Palavras-chave: Feiras Científicas. Formação Socioemocional. Vocação. Prática Investigativa.

ABSTRACT

Science fairs play a fundamental role in students' academic and socio-emotional development by promoting practical, investigative, and interdisciplinary learning experiences. This article analyzes the influence of these initiatives within the school context, emphasizing the development of cognitive competencies and the strengthening of interpersonal skills, such as resilience and self-management. The research is based on a comprehensive literature review covering the period from 2018 to 2024, allowing for an articulated analysis between theoretical assumptions and everyday educational practice. The results demonstrate that active participation in science fairs enhances school engagement and consolidates essential skills, such as scientific communication, complex problem-solving, and critical thinking. Additionally, the study identifies that the experimental environment acts as a decisive factor in students' professional choices by providing direct contact with scientific practice and awakening vocations in various fields of knowledge. Simultaneously, the analysis points to demands for greater material resources and the structuring of systematic institutional support for the full consolidation of these practices. In this sense, the study highlights the importance of continuous investment and specialized teacher training. Such actions aim to strengthen science fairs as permanent pedagogical strategies capable of transforming the school environment into a space for innovation, emotional growth, and youth leadership, preparing students for contemporary challenges and the definition of their career trajectories.

Keywords: Science Fairs. Socio-emotional Development. Vocation. Investigative Practice.

1. INTRODUÇÃO

As feiras científicas desempenham um papel fundamental na formação acadêmica e socioemocional dos estudantes ao promoverem experiências de aprendizagem prática, investigativa e interdisciplinar. No cenário educacional brasileiro, essas iniciativas têm sido historicamente compreendidas como eventos culminantes e pontuais do calendário escolar, muitas vezes restritos a uma semana de exposição de resultados. Entretanto, estudos recentes conduzidos por Alves & Santos (2021) apontam a necessidade urgente de superação dessa perspectiva episódica, defendendo a institucionalização das feiras como uma estratégia pedagógica contínua e estruturante do currículo. Essas práticas representam oportunidades ímpares para que os discentes deixem de ser apenas ouvintes passivos e passem a atuar como criadores de seu próprio conhecimento, aproximando a ciência da realidade cotidiana e combatendo o ensino tradicional focado exclusivamente na memorização de fórmulas descontextualizadas.

A contextualização desse tema deve-se embasar no entendimento de que a ciência não é um produto estático, mas um processo de construção social. Pesquisas já realizadas na área, como as de Nogueira & Ramos (1987) e Araújo, Nogueira & Ramos (1997), demonstram que o engajamento em projetos de pesquisa escolar fomenta o desenvolvimento de competências cognitivas superiores. Contudo, apesar dos benefícios documentados no que tange à autonomia e à liderança, como destacado por Costa (2019), ainda persistem preocupações e incertezas sobre a sustentabilidade dessas ações. A principal incerteza envolve a transição de um "evento festivo" para um suporte sistemático ao projeto de vida do aluno. Autores como Sedano & Carvalho (2017) e Siqueira & Malheiro (2020) ressaltam que a investigação auxilia na construção da "autonomia moral", porém, a carência de recursos materiais e a falta de um suporte institucional sistemático tendem a limitar o potencial emancipatório dessas mostras científicas.

A problematização que dá origem a esta pesquisa surge da observação de que muitos talentos científicos são perdidos devido à falta de continuidade pedagógica. O problema de pesquisa, delimitado e de alta aplicabilidade social, reflete a vivência do pesquisador ao identificar que o entusiasmo gerado pela feira muitas vezes se dissipa por não haver um nexo causal com as escolhas profissionais futuras. Diante disso, questiona-se: Em que medida a institucionalização das feiras científicas, enquanto estratégia pedagógica perene e integrada ao currículo, contribui para a alfabetização científica e para a estruturação do projeto de vida discente na Educação Básica?. Este problema busca não apenas descrever o fenômeno, mas servir como instrumento para a obtenção de novos conhecimentos sobre a permanência do impacto educacional.

Justifica-se a relevância desta pesquisa pela necessidade premente de compreender como as feiras de ciências podem auxiliar o estudante a aprimorar o autoconhecimento e a escolha da carreira com maior confiança. Justificar este projeto de pesquisa é mostrar de que forma a organização perene dessas atividades contribui para a solução da desmotivação escolar e da incerteza vocacional, especialmente em contextos de vulnerabilidade social onde o acesso à cultura científica é restrito. Os motivos que levaram a buscar respostas para este problema reside na crença de que a pesquisa escolar é significativa tanto em termos teóricos — ao consolidar o pensamento crítico e a comunicação científica — quanto práticos, ao oferecer subsídios para que gestores escolares transformem o fazer científico em uma política de estado dentro das unidades de ensino.

O objetivo geral deste trabalho é analisar as contribuições das feiras científicas institucionalizadas para a alfabetização científica, o desenvolvimento socioemocional e as implicações para o projeto de vida discente. De forma específica, o estudo pretende identificar na literatura as evidências de impactos vocacionais, descrever o papel do professor orientador nesse processo e apontar os principais desafios institucionais que impedem a consolidação dessas práticas como estratégias permanentes. Ao fluir do contexto geral da educação científica para o objeto específico da institucionalização, este artigo espera convencer o leitor sobre a urgência de reformas metodológicas que privilegiem a investigação. O presente texto organiza-se, a partir daqui, na exposição da fundamentação teórica, detalhamento metodológico e a análise crítica dos dados coletados na literatura especializada.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A fundamentação teórica deste estudo busca estabelecer uma base conceitual sólida e articulada, analisando as feiras científicas não meramente como eventos isolados ou festividades escolares, mas como poderosos dispositivos pedagógicos que integram o rigor do método científico ao desenvolvimento humano multidimensional. Este referencial percorre um caminho analítico que vai desde a mudança de postura do discente frente ao conhecimento técnico até a complexa definição de trajetórias profissionais, sustentando a premissa de que a prática investigativa contínua e institucionalizada é o verdadeiro alicerce para um ensino emancipatório e transformador. A literatura contemporânea reforça que, para que os objetivos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) sejam atingidos, é imperativo que a escola ofereça espaços onde o conhecimento seja construído de forma ativa e colaborativa.

2.1. As Feiras de Ciências e a Alfabetização Científica

A alfabetização científica constitui o eixo central na formação da cidadania no século XXI. Quando inseridas no currículo escolar como uma prática contínua, as feiras científicas possibilitam a aplicação real do método científico, permitindo que o aluno compreenda a função social da ciência e a importância da evidência. Sobre a mudança de postura que esse ambiente exige do estudante, transicionando da passividade para a ação, Dell Asem & Oliveira (2025, p. 8) pontuam:

"As Feiras de Ciências (FC) constituem-se em oportunidades de estimular o gosto pela pesquisa e afastar as pessoas estudantes da postura de meros recebedores do conhecimento, partindo da investigação para torná-las protagonistas de seu aprendizado."

Essa alfabetização não se resume ao domínio de nomenclaturas, fórmulas ou classificações biológicas, mas sim à capacidade intrínseca de ler e interpretar o mundo através da lente da investigação. Ao reconstruir um conceito para explicá-lo ao público visitante durante a feira, o aluno transforma a informação passiva em conhecimento aplicado. Esse movimento é essencial para o desenvolvimento de um pensamento crítico capaz de questionar dogmas e diferenciar fatos científicos de desinformações, garantindo uma formação intelectual autônoma.

2.2. Interdisciplinaridade e a Cultura da Investigação

A prática da investigação científica na Educação Básica rompe com a fragmentação do conhecimento. Para além de uma disciplina isolada, a feira de ciências deve ser o ponto de convergência onde diferentes áreas do saber se encontram para solucionar problemas reais. Costa (2019) enfatiza que, ao adotar metodologias com eixos norteadores e interdisciplinares, a escola viabiliza a aquisição de cultura e estimula o espírito empreendedor e criativo do jovem. O Programa Nacional de Apoio às Feiras de Ciências (FENACEB) reforça essa visão em suas diretrizes normativas:

"As feiras de ciências constituem-se em atividades culturais e científicas, onde são apresentados os resultados de projetos de investigação científica, desenvolvidos por estudantes, sob orientação de professores, com o intuito de despertar vocações e incentivar a curiosidade científica." (BRASIL, 2006, p. 11).

Essa cultura da investigação transforma profundamente a relação hierárquica tradicional entre professor e aluno. O docente deixa de ser o único detentor do saber para tornar-se um orientador e mediador que instiga a dúvida, orienta a busca por fontes confiáveis e, acima de tudo, celebra o "erro" como uma etapa didática e necessária da descoberta científica.

2.3 Interações Sociais e a Construção da Autonomia Moral

No campo do desenvolvimento socioemocional, as atividades investigativas favorecem a cooperação e a gestão ética de conflitos. Ao trabalharem em grupos para resolver um problema ou testar uma hipótese, os estudantes exercitam a descentração e o respeito mútuo. Sedano & Carvalho (2017) argumentam que o ensino por investigação é o ambiente ideal para o florescimento de habilidades interpessoais. Siqueira & Malheiro (2020, p. 165) aprofundam essa análise ao destacar o impacto moral:

"O ambiente das atividades investigativas proporciona aos alunos momentos de interação social, fundamentais para a construção da autonomia moral, uma vez que o trabalho em grupo exige cooperação, respeito mútuo e a capacidade de lidar com diferentes opiniões e resultados."

Diferente de uma aula tradicional centrada no desempenho individual e competitivo, a feira exige a pactuação de regras internas, divisão de tarefas e responsabilidade compartilhada pelo resultado final. Esse exercício cotidiano fortalece a autogestão e a resiliência emocional, permitindo que o aluno transite da heteronomia (dependência do comando do mestre) para uma postura de autonomia intelectual e moral, essencial para a vida em sociedade.

2.4. O Impacto Vocacional e o Projeto de Vida

Por fim, a feira de ciências atua como um laboratório de experiências práticas que auxilia o jovem a vislumbrar e planejar o seu futuro profissional. Em muitos casos, especialmente na escola pública, a feira é o primeiro contato real que o estudante tem com o "fazer científico" e acadêmico. Pantoja et al. (2021, p. 4349) afirmam categoricamente que o engajamento nessas atividades é decisivo para a estruturação do projeto de vida discente:

"A participação nessas feiras é um fator relevante na decisão vocacional, pois permite ao discente o contato direto com as diversas áreas de atuação, auxiliando no despertar de vocações e na construção de um projeto de vida mais seguro e consciente das possibilidades acadêmicas."

Essa vivência ajuda a desmistificar a figura do cientista como alguém "inalcançável" e torna a universidade um destino possível e tangível no imaginário do estudante. Assim, a institucionalização das feiras como uma estratégia contínua e não apenas um evento esporádico garante que esse despertar vocacional seja sustentado por uma base sólida de competências, permitindo que o jovem faça escolhas de carreira baseadas em suas aptidões reais descobertas durante o processo de pesquisa.

3. METODOLOGIA

O percurso metodológico de uma pesquisa é o que garante a validade e a replicabilidade dos seus resultados. Este trabalho caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa e de natureza básica. A opção pela abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de compreender processos subjetivos e complexos, como o desenvolvimento socioemocional e a construção de projetos de vida, que não podem ser plenamente quantificados. De natureza básica, o estudo objetiva gerar novos conhecimentos e perspectivas teóricas sobre a institucionalização das feiras científicas, sem a obrigatoriedade imediata de aplicação prática de intervenção, embora forneça subsídios para tal.

A estratégia de investigação adotada foi a revisão bibliográfica sistematizada. Diferente de uma revisão simples, a sistematizada exige um rigoroso protocolo de busca e seleção para evitar vieses de confirmação. O corpus documental desta pesquisa foi constituído por nove estudos científicos selecionados criteriosamente. As fontes de dados primárias foram o Portal de Periódicos da CAPES, o Google Acadêmico e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). O recorte temporal foi estabelecido entre os anos de 2018 e 2024, visando capturar a produção intelectual mais recente e alinhada às diretrizes educacionais vigentes no Brasil, como a implementação da BNCC. Adicionalmente, foram incluídos documentos históricos e normativos de relevância ímpar, com destaque para o Programa Nacional de Apoio às Feiras de Ciências da Educação Básica — FENACEB (2006), essencial para a compreensão das políticas de fomento no país.

Para a operacionalização da busca nas bases de dados, foram utilizadas as seguintes palavras-chave, combinadas através de operadores booleanos: "Feiras de Ciências", "Desenvolvimento Socioemocional", "Ensino por Investigação" e "Escolha Profissional". O processo de seleção dos artigos obedeceu a critérios de inclusão (textos completos, em língua portuguesa e que tratassem especificamente da Educação Básica) e exclusão (estudos repetidos, resumos de eventos ou que abordassem apenas o ensino superior).

A análise dos dados coletados seguiu a técnica de Análise de Conteúdo, conforme proposto pela literatura clássica da metodologia científica. Esta técnica foi estruturada em três fases fundamentais e sucessivas:

  1. Pré-análise: Realizou-se a leitura flutuante de todo o material selecionado para verificar a aderência dos textos ao problema de pesquisa, organizando o material de forma a constituir o corpus definitivo.
  2. Exploração do material: Nesta etapa, procedeu-se à codificação e categorização, onde foram identificados os conceitos-chave e as unidades de registro que se repetiam nos diferentes autores, especialmente no que tange aos impactos vocacionais e sociais.
  3. Interpretação temática: Consistiu no cruzamento das ideias e no tratamento dos resultados, onde as inferências foram realizadas à luz do referencial teórico estabelecido na seção anterior.

Para assegurar o rigor acadêmico e a transparência do processo analítico, a sistematização das informações utilizou quadros comparativos. Esse recurso metodológico permitiu a organização visual das convergências e divergências entre os autores consultados, garantindo a rastreabilidade das interpretações e fundamentando de forma sólida as discussões que serão apresentadas a seguir.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos nove estudos selecionados, em conjunto com o referencial normativo do Programa FENACEB (2006), permitiu identificar que o impacto das feiras de ciências é diretamente proporcional ao grau de sua integração no currículo escolar. Os resultados foram organizados em três dimensões de análise: Acadêmica (Alfabetização Científica), Socioemocional (Autonomia) e Vocacional (Projeto de Vida), evidenciando que a institucionalização é o fator divisor entre uma atividade recreativa e uma estratégia pedagógica transformadora.

4.1. Dimensão Acadêmica: A Consolidação da Alfabetização Científica

Os dados evidenciam que a feira de ciências institucionalizada funciona como um laboratório de literacia científica. Verificou-se que, em escolas onde a investigação é um processo contínuo, a resistência dos alunos a disciplinas consideradas "complexas", como Física e Química, diminui drasticamente. Segundo Alves & Santos (2021), a prática de comunicar a ciência para um público diversificado obriga o discente a uma transposição didática, o que consolida o aprendizado de forma profunda.

A discussão dos resultados aponta que o método científico deixa de ser um conjunto de regras abstratas e passa a ser uma ferramenta de resolução de problemas. Na visão de Silva, Veit & Araujo (2023), o diferencial de feiras permanentes é a valorização do percurso investigativo em detrimento apenas do produto final. Isso corrobora a tese de que a institucionalização permite que o erro seja discutido e ressignificado ao longo do ano letivo, transformando a dúvida em motor da aprendizagem crítica.

4.2. Dimensão Socioemocional: Autonomia e Interação Social

Um dos achados mais significativos desta revisão refere-se ao amadurecimento das competências socioemocionais. Os estudos de Siqueira & Malheiro (2020) demonstram que a feira de ciências é um dos poucos espaços escolares onde a "cooperação" supera a competição. A análise dos textos indica que o trabalho em grupo, quando orientado sob uma cultura de investigação, promove a autonomia moral.

Nas discussões, percebeu-se que o ambiente de exposição exige do aluno resiliência e autogestão. Sedano & Carvalho (2017) ressaltam que as interações sociais estabelecidas durante o processo de pesquisa são fundamentais para que o jovem aprenda a lidar com opiniões divergentes e com a frustração de resultados inesperados. Portanto, a feira institucionalizada não forma apenas pequenos cientistas, mas cidadãos emocionalmente mais preparados para o convívio social e para a tomada de decisões éticas.

4.3. Dimensão Vocacional: O Despertar para o Projeto de Vida

No que tange à dimensão vocacional, os resultados são reveladores. A participação em feiras de ciências atua como um divisor de águas na percepção do aluno sobre o seu futuro. Pantoja et al. (2021) destacam que essa vivência prática desmistifica o ambiente acadêmico, especialmente para o aluno da escola pública que, muitas vezes, não se enxerga como um potencial universitário.

A discussão revela que o "fazer científico" proporciona um senso de autoeficácia. Ao concluir um projeto e apresentá-lo com sucesso, o estudante reconstrói a sua imagem de capacidade intelectual. Conforme as diretrizes do Programa FENACEB (2006), o despertar de vocações é um dos pilares dessas mostras. No entanto, a discussão aqui proposta avança ao sugerir que apenas a feira institucionalizada — aquela que acompanha o aluno durante todo o Ensino Médio — consegue oferecer a segurança necessária para que a escolha profissional seja uma construção consciente dentro do seu projeto de vida, e não uma decisão tomada sob pressão ou desinformação.

4.4. Síntese dos Achados e Desafios Institucionais

A convergência dos dados coletados permite inferir que a eficácia das feiras de ciências não reside na sua grandiosidade como evento, mas na sua continuidade como processo. Ao explorar os artigos de Alves & Santos (2021) e Silva, Veit & Araujo (2023), percebe-se que a alfabetização científica é um "músculo intelectual" que requer exercício constante; quando a feira é institucionalizada, o aluno mantém o hábito da dúvida metódica e da investigação durante todo o ano letivo, e não apenas nas semanas que antecedem a exposição.

No que concerne aos aspectos socioemocionais, a análise aprofundada de Siqueira & Malheiro (2020) e Sedano & Carvalho (2017) revela que a autonomia moral é construída nas fricções do trabalho em grupo. A institucionalização garante que essas interações não sejam superficiais, permitindo que os conflitos naturais da pesquisa sejam mediados pedagogicamente ao longo do tempo. Já na dimensão vocacional, Pantoja et al. (2021) deixam claro que o despertar para o projeto de vida ocorre quando o estudante se vê "fazendo ciência" repetidamente, o que gera a segurança necessária para transitar da Educação Básica para o Ensino Superior com um propósito definido.

Quadro 1: Matriz de Impacto da Institucionalização das Feiras

Dimensão Analisada

Impacto da Institucionalização (Processo)

Autores de Referência

Académica

Alfabetização científica consolidada e domínio do método.

Alves & Santos (2021); Silva et al. (2023)

Socioemocional

Construção da autonomia moral e resiliência coletiva.

Siqueira & Malheiro (2020); Sedano & Carvalho (2017)

Vocacional

Segurança na escolha profissional e Projeto de Vida.

Pantoja et al. (2021); Brasil (2006)

Fonte: Elaborado pelo autor (2024).

Entretanto, a literatura também é unânime em apontar os "gargalos" que impedem essa sistematização. Os estudos apontam que a falta de tempo remunerado para a orientação docente e a ausência de um orçamento próprio nas escolas para materiais de consumo são os principais motivos que fazem as feiras retrocederem ao modelo de "evento isolado". Para que as feiras deixem de ser um esforço heróico de poucos professores e se tornem uma política institucional, é necessário que o planejamento pedagógico anual (PPA) as preveja como eixos transversais. A síntese dos resultados aponta, portanto, que a institucionalização é o caminho para transformar o potencial latente do estudante em competências reais e duradouras.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

As feiras de ciências consolidam-se como dispositivos pedagógicos eficazes para a superação do ensino tradicionalista, promovendo uma alfabetização científica que integra teoria e prática. A presente pesquisa confirma que a participação nessas mostras estimula o protagonismo discente e a construção de conhecimentos significativos, atendendo ao objetivo de analisar o papel desses eventos na formação acadêmica básica. O erro e a dúvida, dentro do processo investigativo, deixam de ser punitivos e passam a ser motores do aprendizado crítico.

O estudo comprova que as feiras desenvolvem competências socioemocionais essenciais, como a autonomia moral, a resiliência e a cooperação. As interações sociais estabelecidas durante o trabalho em grupo fortalecem a maturidade emocional e a capacidade de resolução de conflitos, confirmando a hipótese de que a investigação científica é um terreno fértil para a formação cidadã. Além disso, a vivência prática atua como um laboratório vocacional determinante, conferindo ao estudante maior segurança e clareza na construção de seu projeto de vida e na escolha de sua futura carreira profissional.

Os objetivos gerais e específicos deste trabalho são plenamente atingidos, demonstrando que o impacto das feiras de ciências é multidimensional e transformador. Como contribuição prática, o estudo indica a necessidade de institucionalizar as feiras como processos curriculares contínuos e não apenas eventos isolados. As limitações desta pesquisa residem na natureza teórica da revisão bibliográfica, sugerindo-se para estudos futuros a realização de pesquisas de campo longitudinais que acompanhem o egresso das feiras até o ingresso no ensino superior, visando mensurar o impacto vocacional em longo prazo.

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  1. Especialização em Metodologia do Ensino de Matemática e Física
    Faculdade Venda Nova do Imigrante (FAVENI) – Cascavel – CE/Brasil

    rafael.bento@prof.ce.gov.br

  2. Especialização em Pensamento Computacional na Educação Integral

    Universidade Federal do Ceará (UFC) – Cascavel – CE/Brasil

    robson.palhano@prof.ce.gov.br

  3. Especialização em Educação Ambiental

    Universidade FAEL (UNIFAEL) – Cascavel – CE/Brasil

    Ozeiasoliveira052@gmail.com

  4. Mestrado em Química

    Universidade Federal do Ceará (UFC) – Cascavel – CE/Brasil

    silvajfl@yahoo.com.br

  5. Especialização psicopedagogia e educação infantil

    Centro Universitário Única – Cascavel – CE/Brasil

    deyseconradoo@gmail.com

  6. Especialização em Metodologia no Ensino de Química e Biologia

    Centro Universitário FACOL (FACOL) – Cascavel – CE/Brasil

    igorcajaty@hotmail.com

  7. Especialização em Educação Física, Treinamento Desportivo e Fitness

    Faculdade do Vale do Jaguaribe no Aracati (FVJ) – Cascavel – CE/Brasil

    natalicesilvacle@gmail.com

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