A criança com transtorno espectro autista e sua comunicação.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.

Palavras-chave

Aquisição de linguagem
esenvolvimento infantil
comunicação
aprendizagem
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A criança com transtorno espectro autista e sua comunicação.

The child with autism spectrum disorder and their communication.

Thays Cristina Vieira Portes dos Passos

RESUMO

A linguagem pode ser concebida como a ferramenta cognitiva que possibilita a constituição da pessoa, um ser que pode agir e se expressar como um todo. Para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) está função frequentemente apresenta alterações ou atrasos. De uma maneira geral, as crianças com TEA são descritas como crianças que apresentam importantes dificuldades em se engajar em atividades colaborativas, nas quais precisam compartilhar percepções em cenas de atenção conjunta. Essas dificuldades parecem afetar o engajamento social, a apropriação das práticas culturais humanas e a comunicação. Levando em conta a importância desses aspectos para o desenvolvimento infantil, o objetivo desta pesquisa é analisar a comunicação de uma criança com TEA. As análises mostram que, apesar da criança apresentar interesses e motivações restritos, e por isso, participar de um modo limitado em muitas atividades esperadas para a sua idade, ele se engaja em atividades didáticas, estabelece e mantém atenção conjunta e participa de atividades e atribui sentido aos objetos, pessoas e situações; se comunica através do choro, do grito, da birra, do sorriso, do olhar, dos gestos e da fala, expressando suas vontades ou informando algum fato ao outro. Além disso, as suas possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento cultural podem ser ampliadas e potencializadas nas ocasiões em que os adultos investem na interação, na linguagem e no sentido das situações e das atividades propostas.

Palavras-chave: Aquisição de linguagem, desenvolvimento infantil, comunicação, aprendizagem.

ABSTRACT

Language can be conceived as the cognitive tool that enables the constitution of the person—a being who can act and express themselves as a whole. For children with Autism Spectrum Disorder (ASD), this function frequently presents alterations or delays. Generally speaking, children with ASD are described as individuals who experience significant difficulties in engaging in collaborative activities where they need to share perceptions in scenes of joint attention. These difficulties seem to affect social engagement, the appropriation of human cultural practices, and communication. Taking into account the importance of these aspects for child development, the objective of this research is to analyze the communication of a child with ASD. The analyses show that, although the child presents restricted interests and motivations and, therefore, participates in a limited manner in many activities expected for his age, he engages in didactic activities, establishes and maintains joint attention, participates in activities, and attributes meaning to objects, people, and situations; he communicates through crying, screaming, tantrums, smiling, gazing, gestures, and speech, expressing his desires or informing others of facts. Furthermore, his possibilities for learning and cultural development can be expanded and enhanced on occasions when adults invest in interaction, language, and the meaning of situations and proposed activities.

Keywords: Language acquisition, child development, communication, learning.

Introdução

A partir do que estudei ao longo dos meses me interessei ainda mais pelas particularidades da criança com transtorno espectro autista e como no ambiente escolar em que trabalho convivi com crianças com TEA, resolvi saber mais sobre como se comunicam, como devemos mediar está comunicação enquanto adulto. Portanto, nesta pesquisa tento apreender aspectos da comunicação, da linguagem e da significação presentes nas relações da criança com TEA com seu meio social. Trata-se de uma tentativa de ir além do preconizado pelas classificações diagnósticas, de buscar mais do que as características esperadas e os comportamentos considerados como sintomas de uma doença, buscando analisar os contextos em que a criança se insere, os modos como ela participa e se comunica nesses contextos e, também, observar como os outros acolhem e interpretam a sua participação nas interações sociais.

Questões e suspeitas.

A comunicação de uma criança com TEA, sua participação nas interações sociais e a maneira como ela se apropria dos modos humanos de produzir significado.No início da vida, as crianças com desenvolvimento típico aprendem os aspectos sensório motores dos objetos. Por isso, é comum observar crianças muito pequenas olhando para suas mãos, dedos, tateando, cheirando, chacoalhando e derrubando objetos repetidamente, tudo a serviço da exploração e da aprendizagem. À medida que se desenvolvem, elas aprendem as potencialidades intencionais dos objetos que são construídas culturalmente. É esse aprendizado que, de acordo com as pesquisas, costuma estar prejudicado nas crianças com TEA. Alguns autores relatam que o comportamento peculiar das crianças com o transtorno, ao explorar objetos, persiste por um longo tempo se comparado às crianças sem o TEA, e sugerem relações com a atenção visual que costuma ser orientada para aspectos específicos do objeto e não para a sua função.Aspectos relacionados à atenção e ao processamento visual de informações sociais são pesquisados em bebês com alto risco para o desenvolvimento do TEA – aqueles que possuem irmãos com o transtorno. Essas pesquisas costumam acompanhar o desenvolvimento desses bebês para observar as possíveis alterações que se apresentam já no primeiro ano de vida. Vários trabalhos apontam para o fato de que aos 12 meses já é possível observar que os bebês com TEA se engajam menos do que os bebês com desenvolvimento típico em interações face a face com o outro, olham para regiões diferentes do rosto, são menos propensos a olhar quando chamados pelos seus nomes e a seguir o olhar do outro nas interações. Esse modo particular de olhar para o outro parece influenciar o desenvolvimento social e comunicativo dos bebês que apresentam dificuldades em imitar, reagir, se interessar e demonstrar afeto ao outro. Como sabemos, o comportamento visual tem um forte efeito sobre o desenvolvimento social e, consequentemente, sobre as interações entre as crianças e o mundo físico e social. Por isso, as peculiaridades no comportamento visual são consideradas características importantes do TEA, que podem ser indicadores precoces do transtorno. Entendemos que, no que se refere à dimensão social, a noção de comportamento é insuficiente para abranger os aspectos simbólicos que, do nosso ponto de vista, estão no cerne das possibilidades de engajamento cultural, objetivo principal do desenvolvimento humano.

Questões de linguagem

A fala é uma das realizações humanas mais valorizadas em nossa sociedade. É o que nos diferencia dos outros animais e nos proporciona inúmeras conquistas que não são possíveis para nenhuma outra espécie. De acordo com a abordagem histórico-cultural, a conquista da fala é o que marca definitivamente a apropriação dos modos humanos de viver e significar o mundo. No decorrer dos dois primeiros anos de vida, a conquista das primeiras palavras provoca uma mudança qualitativa no desenvolvimento da criança. Como toda função social, a aquisição da linguagem oral representa a apropriação de uma função que é social e, assim como o gesto de apontar, a linguagem do outro funciona como uma espécie de indicação de objetos e eventos do mundo, importante para orientar a atenção da criança, que futuramente poderá usar a fala para orientar a atenção do adulto e se auto-orientar.Na perspectiva Vigotskiana considera-se que o aspecto fundamental da fala humana é a comunicação. A fala como função social liberta o ser humano das percepções imediatas do ambiente e lhe garante as condições para agir simbolicamente, para planejar as suas ações e para se comunicar eficientemente, garantindo a preservação, transmissão e apropriação de experiências acumuladas no processo histórico da humanidade. Todas essas ações se

configuram como atividades práticas e cognitivas que instauram a dimensão histórica e cultural que distingue a espécie humana das outras espécies. As pessoas que podem dispor do discurso falado, bem articulado e com clareza de ideias, de um modo geral, têm mais chances de se tornarem figuras de prestígio e influencia social ser humano e a imagem de um bom comunicador é tão valorizada em nossa sociedade, como ficam aquelas pessoas que apresentam problemas importantes na organização, elaboração e/ou produção do discurso, principalmente por meio da fala? São sujeitos de linguagem, porque interpretam o mundo e agem com sentido, mas geralmente enfrentam as dificuldades de não serem interpretadas e compreendidas e consequentemente, de não serem levadas em consideração enquanto sujeitos que pensam, se comunicam e são capazes de expressar desejos próprios. O linguista Michael Halliday é um autor clássico interessado em descrever as funções da linguagem que, teoricamente, permitem à criança a aquisição de sua língua materna. A sua análise descritiva está registrada em seu livro Learning HowtoMean, no qual considera que a criança passa por três fases durante a aquisição da linguagem. A primeira fase é das origens funcionais, na qual ele propõe as funções da linguagem: instrumental, regulatória, interpessoal, pessoal, heurística, imaginativa e informativa. A segunda fase é marcada pela transição do período funcional da linguagem para o sistema adulto. Há um grande avanço em termos do vocabulário, da estrutura da linguagem e do diálogo. A terceira fase é marcada pelo avanço da criança em relação ao sistema ideacional, no qual a linguagem representa o mundo real; e o interpessoal, em que a linguagem é usada para a comunicação com o outro, nas relações sociais. Há, ainda, um terceiro sistema, o textual. Esse sistema opera conjuntamente com os

outros dois e permite à pessoa criar diferentes discursos e mensagens, faladas ou escritas.Sobre as possibilidades das crianças com TEA, Tomasello afirma que, de modo geral, essas crianças usam os gestos com fins imperativos, porque têm certa compreensão da intencionalidade do outro, tanto que recorrem a este outro para auxílio em diferentes tarefas. No entanto, elas não apontam declarativamente, provavelmente, porque têm pobres habilidades de manter atenção conjunta e de colaborar com o outro .

Conclusão

Este trabalho permitiu identificar os modos como a criança se engaja nas interações e como ele usa as funções superiores na apreensão dos sentidos presentes no mundo. No início, nos perguntávamos se haveria sentido nas manifestações vocais, gestuais e comportamentais da criança. Logo a pergunta mudou para: como se produzem os sentidos na comunicação da criança? Notamos que as possibilidades de produzir sentidos e pela linguagem de nosso sujeito vão muito além do que a literatura descreve para crianças com TEA. De um modo geral, os autores pontuam as pobres condições dessas crianças para se apropriar das práticas culturais e agir simbolicamente, enquanto que os dados da criança estudada revelam que ela age com sentido nas interações sociais.

Referências

Halliday M. Leraning how to mean: explorations in the development of

language North-Holand: Elsevier; 1977.

Tomasello M, Carpenter M, Call J, Bahne T, Moll H. Understanding and sharing intentions: The origins of cultural cognition. Behavioral and brain sciences. [online] 2005 [acesso em 02 set 2013]: p. 675-735. Disponível em:

URL: http://www.eva.mpg.de/psycho/staff/moll/pdf/Tomasello_et_alll.pdf.

Vigotski L. Obras Escogidas III: Problemas del Desarollo de la Psique

Madrid: Visor Distribuciones; 1995.

Vigotski L. A Formação Social da Mente São Paulo: Martins Fontes; 1988.

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