Aprendizagem significativa e construção da identidade profissional na formação em enfermagem: Reflexões sobre o estágio supervisionado
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

Este artigo discute a relação entre aprendizagem significativa e construção da identidade profissional na formação em enfermagem, com ênfase no papel do estágio supervisionado nesse processo formativo. Trata-se de um ensaio teórico de natureza reflexiva, fundamentado em revisão narrativa da literatura da área da educação e da educação em saúde. A análise dos referenciais teóricos evidencia que a aprendizagem significativa favorece a integração entre conhecimentos prévios e novos conteúdos, contribuindo para a consolidação do raciocínio clínico e para a compreensão das práticas de cuidado. As experiências vivenciadas no estágio supervisionado também se mostram relevantes para o desenvolvimento de competências profissionais e para a internalização de valores e responsabilidades da profissão. Conclui-se que a articulação entre teoria, prática e reflexão crítica constitui elemento central para o fortalecimento da formação e para a construção da identidade profissional do estudante de enfermagem.

Palavras-chave: Aprendizagem significativa. Formação em enfermagem. Identidade profissional. Estágio supervisionado.

Abstract

This article discusses the relationship between meaningful learning and the construction of professional identity in nursing education, with an emphasis on the role of supervised internships in this formative process. It is a reflective theoretical essay based on a narrative review of the literature in the fields of education and health education. The analysis of the theoretical frameworks shows that meaningful learning favors the integration of prior knowledge and new content, contributing to the consolidation of clinical reasoning and the understanding of care practices. The experiences gained during supervised internships are also relevant for the development of professional competencies and the internalization of the values ​​and responsibilities of the profession. It concludes that the articulation between theory, practice, and critical reflection constitutes a central element for strengthening training and for the construction of the professional identity of nursing students.

Keywords: Meaningful learning. Nursing education. Professional identity. Supervised internship.

1. INTRODUÇÃO

A formação em enfermagem caracteriza-se por um processo educativo complexo que envolve não apenas a aquisição de conhecimentos técnicos e científicos, mas também o desenvolvimento de competências cognitivas, práticas e éticas necessárias ao exercício profissional. Nesse contexto, a educação em saúde tem buscado compreender de que maneira as estratégias pedagógicas adotadas nos cursos de graduação podem favorecer uma aprendizagem mais consistente e significativa, capaz de preparar os estudantes para lidar com situações diversas e frequentemente complexas presentes no cotidiano do cuidado em saúde.

Entre os referenciais teóricos utilizados para compreender os processos de aprendizagem em contextos educacionais, destaca-se a teoria da aprendizagem significativa. De acordo com essa perspectiva, o aprendizado ocorre de maneira mais consistente quando novos conhecimentos se relacionam de forma substantiva com conceitos previamente existentes na estrutura cognitiva do estudante (Ausubel, 2003). Assim, a aprendizagem deixa de ser compreendida como simples memorização de conteúdos e passa a ser entendida como um processo ativo de construção de significados, no qual o sujeito estabelece relações entre aquilo que já sabe e as novas informações apresentadas no processo educativo. No campo da educação em enfermagem, essa abordagem revela-se particularmente relevante, pois a prática profissional exige constante articulação entre fundamentos teóricos, habilidades técnicas e capacidade de análise crítica das situações de cuidado (Moreira, 2011).

Nesse cenário formativo, o estágio supervisionado assume papel central na consolidação da aprendizagem. Ao ingressar nos cenários de prática, o estudante passa a vivenciar situações reais de cuidado, interagir com equipes multiprofissionais e participar de atividades relacionadas à assistência em saúde. Essas experiências favorecem a articulação entre conhecimentos adquiridos no ambiente acadêmico e as demandas concretas da prática clínica, contribuindo para o desenvolvimento de competências profissionais e para a consolidação do raciocínio clínico (Agra et al., 2019).

Além de contribuir para a integração entre teoria e prática, o estágio supervisionado também desempenha papel relevante na construção da identidade profissional do estudante. Esse processo envolve a internalização progressiva de valores, normas e responsabilidades associados ao exercício da enfermagem, sendo fortemente influenciado pelas experiências vivenciadas durante a formação e pelas interações estabelecidas com professores, preceptores e profissionais da área (Cruess, Cruess & Steinert, 2019).

Apesar da importância atribuída ao estágio supervisionado na formação em enfermagem, ainda se fazem necessários estudos que discutam de que maneira as experiências vivenciadas nesses contextos contribuem para a construção de significados sobre a prática profissional e para o desenvolvimento da identidade do futuro enfermeiro. Diante dessas considerações, este estudo tem como objetivo refletir sobre a relação entre aprendizagem significativa e construção da identidade profissional na formação em enfermagem, com especial atenção às experiências de estágio supervisionado nesse processo formativo.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A compreensão do processo de formação profissional em enfermagem exige um referencial teórico capaz de explicar como o conhecimento é construído e transformado ao longo da trajetória formativa. Nesse sentido, a teoria da aprendizagem significativa, desenvolvida por David Ausubel, constitui um dos marcos conceituais mais relevantes para compreender a aquisição e a consolidação do conhecimento em contextos educacionais complexos. Segundo Ausubel, a aprendizagem ocorre de maneira significativa quando novas informações se relacionam de forma substantiva e não arbitrária com conhecimentos previamente existentes na estrutura cognitiva do aprendiz. Tal interação produz reorganização conceitual e amplia a capacidade de interpretação da realidade (Ausubel, 2003).

Ao discutir os fundamentos desse processo, Ausubel, Novak & Hanesian (1980) enfatizam que o fator isolado mais importante que influencia a aprendizagem é aquilo que o estudante já sabe. Essa afirmação desloca o foco das práticas pedagógicas centradas na transmissão de conteúdos para a valorização das experiências e conhecimentos prévios do aprendiz. A aprendizagem significativa depende, portanto, de três condições fundamentais: a existência de conceitos subsunçores adequados na estrutura cognitiva do estudante, a apresentação de conteúdos potencialmente significativos e a disposição do sujeito para estabelecer relações substantivas entre o novo conhecimento e aquilo que já conhece. Não se trata, portanto, de simples memorização. Desse modo, segundo Ausubel (2003):

[...] na aprendizagem por memorização ocorre uma ligação simples, arbitrária e não integradora com a estrutura cognitiva preexistente. Na aprendizagem significativa, o mesmo processo de aquisição de informações resulta numa alteração quer das informações recentemente adquiridas, quer do aspecto especificamente relevante da estrutura cognitiva, à qual estão ligadas às novas informações (Ausubel, 2003, p. 3).

No campo da educação em saúde, essa perspectiva adquire particular relevância, uma vez que a formação profissional envolve a articulação entre conhecimentos teóricos, habilidades técnicas e experiências práticas. Conforme argumenta Moreira (2011), a aprendizagem significativa possibilita que conceitos científicos sejam integrados de maneira hierárquica e relacional na estrutura cognitiva do sujeito, favorecendo retenção duradoura e maior capacidade de aplicação do conhecimento em situações novas. Esse processo é essencial em profissões que lidam com contextos complexos e imprevisíveis, como ocorre na prática clínica em enfermagem.

Agra et al. (2019) destacam em seu estudo que a aprendizagem significativa favorece a aquisição de novos significados de forma organizada e integrada, permitindo que o estudante atribua sentido ao conhecimento adquirido e o utilize em diferentes situações da prática profissional. De acordo com os autores, quando os conteúdos são relacionados às experiências do aprendiz e contextualizados em situações reais de cuidado, aumenta-se a probabilidade de consolidação de estruturas cognitivas mais complexas e duradouras.

Nesse contexto, a aprendizagem significativa não se limita à assimilação de informações, mas envolve transformação da própria estrutura cognitiva do sujeito. Ausubel (2003) explica que, ao estabelecer relações entre novos conteúdos e conhecimentos prévios, ocorre um processo de diferenciação progressiva, no qual conceitos mais gerais se tornam progressivamente mais específicos e articulados. Paralelamente, a reconciliação integradora permite superar inconsistências entre ideias previamente aprendidas, produzindo reorganização conceitual e maior coerência cognitiva.

Nessa direção, para Benner (2005), a aquisição de competência profissional em enfermagem ocorre de forma progressiva, à medida que o estudante acumula experiências e aprende a interpretar situações clínicas com maior profundidade. Nesse processo, a prática supervisionada é essencial, pois permite ao estudante relacionar conhecimentos teóricos a situações concretas de cuidado.

Silva et al. (2023), por sua vez, argumentam que a participação ativa do estudante em cenários assistenciais contribui para consolidar conhecimentos previamente adquiridos, ao mesmo tempo em que estimula a reflexão crítica sobre a prática profissional. Segundo os autores, “O processo reflexivo é enunciado como uma estratégia eficaz para a promoção do PC [pensamento crítico], visto que refletir sobre as prioridades nos cuidados promove o desenvolvimento da confiança, da autonomia e das habilidades de comunicação” (Silva et al., 2023, p. 6).

Além da aquisição de conhecimentos e habilidades técnicas, a formação em enfermagem envolve um processo gradual de construção da identidade profissional. Esse conceito refere-se à maneira pela qual o indivíduo passa a compreender a si mesmo como membro de uma determinada profissão, internalizando valores, normas e responsabilidades associadas ao exercício profissional.

Segundo Cruess, Cruess & Steinert (2019), a identidade profissional se desenvolve ao longo da formação por meio da interação entre experiências educacionais, práticas clínicas e relações estabelecidas com professores, preceptores e colegas. Esse processo envolve desde a aprendizagem de competências técnicas até a incorporação de princípios éticos, atitudes profissionais e formas de atuação características da profissão.

No campo da enfermagem, a construção da identidade profissional está profundamente vinculada às experiências vivenciadas nos cenários de prática. Durante o estágio supervisionado, o estudante observa e participa das atividades realizadas pela equipe de saúde, entrando em contato com rotinas assistenciais, processos decisórios e relações interprofissionais. Essas experiências contribuem para a formação de referências profissionais que orientam o desenvolvimento de atitudes e comportamentos no exercício da profissão (Johnson et al., 2012).

A literatura também destaca o papel da socialização profissional nesse processo. Conforme assevera Fagermoen (1997), a identidade profissional se constrói por meio da integração entre conhecimentos acadêmicos e experiências vividas nos contextos de trabalho. Ao participar das práticas assistenciais e interagir com profissionais mais experientes, o estudante passa a compreender as expectativas e responsabilidades associadas à prática profissional do enfermeiro.

Esse processo torna-se particularmente significativo em cenários de alta complexidade, como os serviços de urgência e emergência. Nessas unidades, o cuidado em saúde envolve decisões rápidas, trabalho em equipe e responsabilidade direta sobre a vida dos pacientes. A inserção do estudante nesse ambiente contribui para o desenvolvimento de competências clínicas e também para a consolidação de valores profissionais relacionados à responsabilidade, à ética e ao compromisso com o cuidado (Lima et al., 2020). Em seu estudo, os autores concluem que:

A construção da identidade profissional dos alunos é influenciada pela trajetória de vida e circunscrita às condições materiais da existência de cada sujeito. Percorre um caminho que traduz a apropriação para o âmbito intrapsíquico de elementos que se dão, primeiramente, no espaço interpsicológico, e depreendem-se das interações, sobretudo daquelas oportunizadas pela formação, com destaque para aquelas entre professor enfermeiro e aluno (Lima et al., 2020, p. 8).

A construção da identidade profissional, portanto, não ocorre de forma isolada ou exclusivamente cognitiva. Trata-se de um processo social e experiencial, no qual o estudante aprende a agir, pensar e se posicionar como profissional da saúde. A integração entre aprendizagem significativa, experiências clínicas e interação com profissionais experientes constitui um dos principais mecanismos que sustentam esse processo formativo.

3. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como um ensaio teórico de natureza reflexiva, fundamentado em revisão narrativa da literatura sobre aprendizagem significativa, formação em enfermagem e construção da identidade profissional no contexto do estágio supervisionado. O ensaio acadêmico constitui uma modalidade de produção científica que se orienta pela análise crítica e pela interpretação conceitual de determinado fenômeno, a partir do diálogo com a literatura especializada, permitindo ao autor desenvolver argumentos e reflexões fundamentadas sobre o tema investigado.

Este trabalho foi elaborado no âmbito das reflexões teóricas desenvolvidas durante a elaboração da tese de doutorado do autor, ainda em andamento, cujo foco de investigação envolve os processos formativos relacionados ao estágio supervisionado na formação em enfermagem. Nesse sentido, o ensaio busca articular contribuições teóricas provenientes da literatura educacional e da educação em saúde, a fim de discutir a relação entre aprendizagem significativa e as experiências de estágio na construção da identidade profissional do estudante de enfermagem.

Para subsidiar a discussão teórica, foi realizado um levantamento bibliográfico em bases de dados acadêmicas amplamente utilizadas na área das ciências da saúde e da educação. As buscas foram conduzidas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e no Google Acadêmico, considerando publicações em português, inglês e espanhol. Foram utilizados descritores e combinações de termos relacionados ao tema do estudo, tais como “aprendizagem significativa”, “formação em enfermagem”, “identidade profissional”, “estágio supervisionado”, “educação em enfermagem” e “aprendizagem experiencial”.

Inicialmente, foram identificadas publicações potencialmente relevantes a partir da leitura dos títulos e resumos. Em seguida, procedeu-se à seleção das obras consideradas mais pertinentes ao objetivo do ensaio, priorizando artigos científicos, livros e capítulos de livros que abordassem os fundamentos teóricos da aprendizagem significativa, os processos de aprendizagem em contextos clínicos e a construção da identidade profissional na formação em enfermagem. Também foram considerados estudos clássicos e referenciais teóricos amplamente reconhecidos na literatura educacional e na área da educação em saúde.

Após a seleção das fontes, realizou-se a leitura analítica dos textos, com o objetivo de identificar conceitos, argumentos e categorias teóricas relevantes para a discussão proposta. A análise das obras permitiu organizar a fundamentação teórica em eixos temáticos que articulam a teoria da aprendizagem significativa, as contribuições da aprendizagem experiencial e os processos de socialização profissional vivenciados durante o estágio supervisionado. Esses referenciais foram mobilizados para sustentar a reflexão desenvolvida ao longo do ensaio.

Dessa forma, a metodologia adotada neste estudo fundamenta-se na análise crítica da literatura científica, buscando integrar diferentes perspectivas teóricas para discutir a relação entre aprendizagem significativa e construção da identidade profissional na formação em enfermagem, especialmente no contexto das experiências de estágio supervisionado.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Ao analisarmos os processos formativos na enfermagem, torna-se evidente que a aprendizagem não pode ser compreendida apenas como assimilação de conteúdos técnicos ou científicos. A formação do enfermeiro envolve a construção progressiva de significados acerca do cuidado, da prática clínica e das responsabilidades inerentes à profissão. Nessa perspectiva, a teoria da aprendizagem significativa oferece uma base interpretativa consistente para compreender como o estudante integra novos conhecimentos às estruturas cognitivas previamente construídas ao longo de sua trajetória formativa.

A perspectiva ausubeliana sustenta que a aprendizagem ocorre de maneira mais consistente quando novos conteúdos se relacionam de forma substantiva com conhecimentos já existentes na estrutura cognitiva do sujeito (Ausubel, 2003). Essa premissa permite compreender por que experiências pedagógicas que aproximam teoria e prática tendem a produzir maior consolidação do conhecimento. No campo da formação em enfermagem, esse princípio assume particular relevância, uma vez que o exercício profissional exige constante articulação entre fundamentos científicos, habilidades técnicas e interpretação contextual das situações de cuidado.

Sob esse prisma, consideramos que a aprendizagem significativa contribui para transformar informações teóricas em instrumentos cognitivos capazes de orientar a tomada de decisão clínica. Quando o estudante consegue relacionar conceitos aprendidos em disciplinas teóricas com situações concretas vivenciadas nos cenários de prática, ocorre um processo de ressignificação do conhecimento. Movimento esse que favorece a retenção de conteúdos e, além disso, também amplia a capacidade de análise crítica diante de situações complexas do cuidado em saúde.

Essa interpretação encontra respaldo em estudos da área de educação em enfermagem, que destacam a importância de estratégias pedagógicas capazes de favorecer a integração entre teoria e prática (Agra et al., 2019). Ao estabelecer relações entre conteúdos acadêmicos e experiências clínicas, o estudante passa a atribuir significado ao conhecimento adquirido, transformando-o em ferramenta para compreensão e intervenção na realidade assistencial.

Nessa linha de raciocínio, o modelo de aprendizagem experiencial proposto por Kolb (1984) contribui para compreender esse processo ao descrever a aprendizagem como um ciclo que envolve experiência concreta, reflexão, elaboração conceitual e experimentação ativa. A participação do estudante em cenários clínicos reais possibilita percorrer essas etapas, transformando vivências práticas em conhecimento estruturado.

Ao analisarmos o estágio supervisionado sob essa perspectiva, percebemos que ele se configura como um espaço privilegiado para a construção de saberes profissionais. Durante a inserção nos serviços de saúde, o estudante passa a observar rotinas assistenciais, acompanhar processos decisórios e participar de atividades relacionadas ao cuidado. Essas experiências ampliam sua compreensão sobre o funcionamento das instituições de saúde e sobre a função do enfermeiro no contexto do trabalho em equipe.

No entanto, é importante reconhecer que a aprendizagem no estágio não ocorre de forma automática. A experiência, por si só, não garante a construção do conhecimento. Para que a vivência prática se transforme em aprendizagem significativa, torna-se necessário que seja acompanhada por processos de reflexão e mediação pedagógica. Nesse sentido, a atuação do professor supervisor e dos profissionais preceptores assume importância fundamental, pois são eles que auxiliam o estudante a interpretar criticamente as situações vivenciadas no cotidiano assistencial.

Além de favorecer a integração entre teoria e prática, o estágio supervisionado também é imperativo para o processo de construção da identidade profissional. Ao ingressar nos cenários de prática, o estudante passa a interagir diretamente com profissionais experientes, equipes multiprofissionais e pacientes, inserindo-se gradualmente no universo simbólico e cultural da profissão.

A identidade profissional pode ser compreendida como o conjunto de valores, crenças e percepções que orientam a maneira como o indivíduo se reconhece e atua em determinado campo profissional. No contexto da formação em saúde, esse processo ocorre por meio da chamada socialização profissional, na qual o estudante internaliza normas, responsabilidades e formas de atuação características da profissão (Cruess, Cruess & Steinert, 2019).

Ao refletirmos sobre isso, nos damos conta que a identidade profissional não é construída apenas por meio do ensino formal. Ela emerge sobretudo das experiências vividas nos contextos de prática, durante os quais o estudante observa e reproduz comportamentos profissionais, interpreta situações clínicas e aprende a lidar com as demandas éticas e emocionais do cuidado. Nesse ambiente, o estudante começa a compreender não apenas o que o enfermeiro faz, mas também o que significa ser enfermeiro.

Esse processo, entretanto, não ocorre de forma homogênea ou linear. Diferentes experiências de estágio podem produzir percepções distintas acerca da profissão. Ambientes de trabalho marcados por cooperação, acolhimento e compromisso com o cuidado tendem a fortalecer a identificação do estudante com a enfermagem. Por outro lado, contextos caracterizados por sobrecarga de trabalho, relações hierárquicas rígidas ou práticas assistenciais pouco reflexivas podem gerar tensões no processo de construção identitária.

Outro aspecto relevante no processo de construção da identidade profissional é o desenvolvimento da autonomia e do julgamento clínico. Ao longo da formação, o estudante passa gradualmente de uma posição predominantemente observadora para uma participação mais ativa nas atividades assistenciais, e isso implica assumir responsabilidades progressivas e desenvolver capacidade de tomada de decisão diante de situações reais de cuidado.

Nesse processo, a experiência do estágio contribui de forma decisiva. Ao participar de procedimentos, acompanhar a evolução clínica de pacientes e discutir condutas com profissionais da equipe, o estudante passa a desenvolver maior segurança em relação às suas competências. Essa vivência contribui para fortalecer a confiança em sua capacidade de atuar como profissional da área da saúde.

No entanto, a construção da autonomia profissional não se limita ao domínio de habilidades técnicas, pois envolve também a capacidade de interpretar situações complexas, reconhecer limites da própria atuação e tomar decisões fundamentadas em princípios éticos e científicos. Nessa direção, a aprendizagem significativa e a reflexão sobre a prática tornam-se elementos fundamentais para o desenvolvimento do julgamento clínico.

Ao pôrmos esse processo sob escrutínio, percebemos que a formação em enfermagem exige equilíbrio entre orientação pedagógica e espaço para experimentação. À supervisão docente, cabe o importante papel de oferecer suporte e segurança ao estudante para que desenvolva suas competências sem comprometer a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.

Diante dessas considerações, compreendemos que o estágio supervisionado representa um momento decisivo na formação do enfermeiro. Mais do que consolidar conhecimentos técnicos, ele contribui para a construção de uma identidade profissional pautada na responsabilidade, na reflexão crítica e no compromisso com o cuidado em saúde.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo deste ensaio, buscamos refletir sobre a relação entre aprendizagem significativa e construção da identidade profissional na formação em enfermagem, com especial atenção ao papel desempenhado pelo estágio supervisionado nesse processo. Partimos do pressuposto de que a formação do enfermeiro não se restringe à aquisição de conhecimentos técnicos ou científicos, mas envolve também a construção progressiva de significados acerca da prática profissional, das responsabilidades do cuidado e da própria inserção no campo da saúde.

A análise da literatura permitiu compreender que a teoria da aprendizagem significativa oferece um referencial consistente para interpretar os processos formativos vivenciados pelos estudantes. Ao relacionar novos conhecimentos às estruturas cognitivas previamente construídas, o estudante passa a atribuir sentido ao conteúdo aprendido, favorecendo sua aplicação em situações concretas do cuidado em saúde. Nesse contexto, a integração entre teoria e prática revela-se fundamental para que o conhecimento acadêmico se transforme em instrumento de compreensão e intervenção na realidade assistencial.

Nesse percurso formativo, o estágio supervisionado emerge como um espaço privilegiado de aprendizagem e socialização profissional. É nesse ambiente que o estudante vivencia situações reais de cuidado, interage com equipes multiprofissionais e confronta os desafios cotidianos da prática clínica. Tais experiências contribuem para o desenvolvimento de competências técnicas, para o fortalecimento do raciocínio clínico e para a construção da identidade profissional do futuro enfermeiro.

Ao refletirmos sobre esse processo, observamos que a identidade profissional se constitui de forma gradual, por meio da interação entre conhecimentos teóricos, experiências práticas e relações estabelecidas nos cenários de formação. Dessarte, o estágio supervisionado favorece a transição progressiva do estudante de uma posição de aprendiz para uma atuação mais autônoma e responsável no cuidado em saúde.

Diante dessas considerações, entendemos que fortalecer estratégias pedagógicas que promovam a articulação entre aprendizagem significativa, reflexão sobre a prática e experiências clínicas qualificadas constitui um desafio permanente para a formação em enfermagem. Investigações futuras poderão aprofundar a compreensão desse processo, especialmente no que se refere às condições institucionais e pedagógicas que favorecem a construção de identidades profissionais críticas, reflexivas e comprometidas com a qualidade do cuidado.

REFERÊNCIAS

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  1. Docente da Graduação em Enfermagem do Centro Universitário de Sete Lagoas / MG. Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Educação - Universidad Internacional Tres Fronteras (Uninter/PY). email: claudineygomespereira@yahoo.com.br

  2. Coordenadora da Graduação em Enfermagem do Centro Universitário de Sete Lagoas / MG. Mestranda em Biotecnologia pelo Centro Universitário de Sete Lagoas (UNIFEMM). email: thatigm@yahoo.com.br

  3. Docente da Graduação em Enfermagem do Centro Universitário de Sete Lagoas / MG. Mestrando em Biotecnologia pelo Centro Universitário de Sete Lagoas (UNIFEMM). email: agnaldoadm2@gmail.com

  4. Orientador: Doutor em Ciências da Educação pela Universidad Americana – Py. Docente do Programa de Pós-Graduação Strico Sensu em Ciências da Educação - Universidad Internacional Tres Fronteras (Uninter/PY). Diretor do Centro de Inteligência Aplicada (CIA). email: analistadodiscurso.bandeira.pe@gmail.com

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