Educação financeira no ensino médio: relato de experiência da aplicação do projeto “economizar para poupar e investir!” na EEMTI Liceu Vila Velha
Financial Education in High School: An Experience Report on the Implementation of the Project “Save to Save and Invest!” at EEMTI Liceu Vila Velha
Regina Maria Lima Rocha
Francisco Diego Moreira Oliveira
George Hudson Silva Santiago
Soraya Miranda de Lavôr
Italo Pessoa de Aguiar
Julio Cesar Lourenço Linhares
Osiel Gomes da Silva
Adriano Melo Araujo
Marcus Italo Tavares Holanda
Maria Daniela Silva
Resumo
Este artigo apresenta um relato de experiência sobre a aplicação do Economizar para poupar e investir! em uma turma de 1º ano do Ensino Médio da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Liceu Vila Velha, localizada no município de Fortaleza/CE. O projeto, originalmente elaborado para o 9º ano do Ensino Fundamental, foi adaptado para o Ensino Médio, contemplando uma sequência de oito aulas com foco na Educação Financeira. A turma participante, composta por 30 estudantes, vivenciou atividades práticas, discussões coletivas, resolução de problemas matemáticos, produção de cartazes e reflexões sobre hábitos de consumo, poupança e investimentos. O objetivo foi promover a compreensão de conceitos relacionados ao planejamento financeiro, ao consumo consciente e às formas de investimento. Os resultados observados indicaram que os estudantes desenvolveram maior consciência sobre a importância do controle financeiro, compreenderam conceitos de juros simples e compostos, aprenderam sobre modalidades de investimento além da poupança e mostraram mudanças de atitude no que se refere ao consumo e ao planejamento de gastos. O relato reafirma a relevância da Educação Financeira no Ensino Médio como prática pedagógica transversal, contribuindo para a formação integral e cidadã dos jovens.
Palavras-chave: Educação Financeira; Ensino Médio; Consumo Consciente; Poupança; Investimentos.
Abstract
This article presents an experience report on the implementation of the project “Saving to Save and Invest!” in a first-year high school class at the Full-Time High School (EEMTI) Liceu Vila Velha, located in the city of Fortaleza, Ceará, Brazil. The project, originally designed for the 9th grade of elementary education, was adapted for high school and consisted of a sequence of eight classes focused on Financial Education. The participating class, composed of 30 students, engaged in practical activities, collective discussions, mathematical problem-solving, poster production, and reflections on consumption habits, saving, and investments. The objective was to promote the understanding of concepts related to financial planning, conscious consumption, and different forms of investment. The observed results indicated that students developed greater awareness of the importance of financial control, understood the concepts of simple and compound interest, learned about investment modalities beyond traditional savings accounts, and demonstrated changes in attitudes regarding consumption and expense planning. The report reaffirms the relevance of Financial Education in high school as a transversal pedagogical practice, contributing to the comprehensive and civic education of young people.
Keywords: Financial Education; High School Education; Conscious Consumption; Savings; Investments.
1. Introdução
O contexto contemporâneo é marcado por um aumento significativo do acesso ao crédito, pelo consumo exacerbado e, em contrapartida, pelo crescente endividamento de famílias brasileiras, inclusive entre jovens. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC, 2023) revelam que o percentual de famílias endividadas alcançou mais de 78% em 2023, um recorde histórico. Esse cenário evidencia a urgência de se promover a Educação Financeira nas escolas, preparando os estudantes para lidar com escolhas econômicas e financeiras ao longo da vida.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) determina que a Educação Financeira deve estar presente de forma transversal no currículo, especialmente nas áreas de Matemática e Ciências Humanas, favorecendo a compreensão da função social do dinheiro, das práticas de consumo e do papel do planejamento (BRASIL, 2017).
Nesse contexto, este trabalho tem por objetivo relatar a aplicação do Projeto Economizar para poupar e investir! em uma turma de 1º ano do Ensino Médio da EEMTI Liceu Vila Velha, escola da rede estadual cearense. O projeto foi originalmente estruturado para o 9º ano do Ensino Fundamental, mas sua adaptação mostrou-se pertinente para o Ensino Médio, pois aborda questões centrais da vida financeira dos jovens, como hábitos de consumo, organização de orçamento, poupança e investimentos.
2. Fundamentação Teórica
2.1 Educação Financeira e cidadania
A Educação Financeira é definida como um processo pelo qual indivíduos e sociedades melhoram sua compreensão de conceitos e produtos financeiros, de forma a desenvolver valores e habilidades que permitam uma tomada de decisão consciente, visando o bem-estar financeiro (OECD, 2012).
2.2 Educação Financeira na BNCC
A BNCC (BRASIL, 2017) apresenta a Educação Financeira como competência interdisciplinar. Em Matemática, por exemplo, há habilidades como (EF09MA05), que prevê o ensino de problemas envolvendo porcentagens e juros compostos, e (EF05PLA04), que orienta o reconhecimento do orçamento como peça fundamental do planejamento financeiro.
2.3 Aspectos socioemocionais da Educação Financeira
O CASEL (2013) propõe cinco competências socioemocionais: autoconsciência, autogestão, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável. Todas elas estão diretamente ligadas à Educação Financeira, uma vez que administrar recursos financeiros exige disciplina, reflexão sobre escolhas e empatia em relação ao contexto social em que se está inserido.
3. Metodologia
3.1 Contexto da aplicação
O projeto foi aplicado em uma turma de 30 estudantes do 1º ano do Ensino Médio da EEMTI Liceu Vila Velha, escola da rede pública cearense que adota o modelo de tempo integral. A turma é composta majoritariamente por adolescentes entre 15 e 16 anos, oriundos de bairros populares da cidade de Fortaleza. Muitos estudantes relataram, na sondagem inicial, que já possuem alguma experiência com o uso de dinheiro próprio, seja por meio de mesadas, pequenos trabalhos informais ou auxílio financeiro familiar.
3.2 Estrutura do projeto
O projeto foi desenvolvido em oito encontros de 50 minutos cada, organizados nos seguintes eixos: 1) O que é poupar?; 2) Economia doméstica; 3) Alimentação saudável e economia; 4) Poupança e juros; 5) Modalidades de investimento; 6) Simulações de investimentos; 7) Orçamento pessoal e familiar; 8) Planejamento financeiro e sonhos.
3.3 Procedimentos
As aulas foram conduzidas com metodologias ativas, incluindo: discussões em grupo; leitura e interpretação de textos; resolução de problemas matemáticos contextualizados; elaboração de cartazes e glossários; uso de tecnologias digitais, como planilhas eletrônicas e a Calculadora do Cidadão. Os instrumentos avaliativos foram: observação da participação dos alunos, produções em grupo, cálculos realizados, apresentações orais e uma atividade final de planejamento financeiro individual.
4. Relato da Aplicação
Na primeira aula, foi realizada uma sondagem sobre o conceito de 'poupar'. As respostas variaram desde 'guardar dinheiro para comprar um celular' até 'economizar para quando acontecer uma emergência'. Muitos alunos declararam nunca ter refletido sobre planejamento financeiro a longo prazo. Um estudante comentou: 'Eu já tentei guardar dinheiro, mas sempre acabo gastando com besteira.'
Na segunda e terceira aulas, os alunos calcularam o consumo de energia elétrica em suas casas e compararam cardápios alimentares. Houve grande interesse quando perceberam o impacto de pequenas escolhas no orçamento. Uma aluna destacou: 'Lá em casa deixamos o ventilador ligado o dia todo. Não sabia que isso podia dar tanta diferença na conta.'
Na quarta aula, os estudantes simularam depósitos mensais em poupança. O cálculo de juros compostos gerou inicialmente dificuldade, mas o uso da Calculadora do Cidadão facilitou a compreensão. Alguns ficaram surpresos ao perceber que o dinheiro guardado aumenta ao longo do tempo.
Na quinta e sexta aulas, cada grupo pesquisou sobre um tipo de investimento (poupança, Tesouro Direto, CDB, LCI/LCA e ações). Os cartazes foram expostos no corredor da escola e visitados por outros alunos, ampliando o alcance da atividade. Um grupo comentou que, ao pesquisar sobre ações, perceberam que investir não é só coisa de rico, mas de quem estuda e tem paciência.
Nas últimas aulas, cada estudante elaborou um orçamento pessoal, listando receitas e despesas, e foi proposto que destinassem ao menos 10% do valor para poupança. Muitos disseram que pretendiam economizar para comprar um celular, uma moto ou ajudar nas despesas da família.
5. Resultados e Discussão
A aplicação do projeto possibilitou os seguintes resultados: 1) maior conscientização financeira: 80% dos estudantes declararam, ao final, que passaram a pensar mais antes de gastar; 2) aprendizado matemático: houve evolução significativa no cálculo de porcentagens e juros compostos; 3) mudança de hábitos: alguns estudantes relataram mudanças em casa, como desligar aparelhos elétricos e evitar gastos desnecessários; 4) conhecimento sobre investimentos: a maioria conhecia apenas a poupança; ao final, todos puderam diferenciar pelo menos três modalidades de investimento; 5) desenvolvimento socioemocional: os alunos demonstraram maior disciplina e consciência na tomada de decisões, além de valorizarem o trabalho em grupo.
6. Considerações Finais
A experiência relatada demonstra que a aplicação do projeto em uma turma do Ensino Médio é viável e altamente significativa. Os estudantes não apenas compreenderam conceitos matemáticos, mas também refletiram sobre seu papel como consumidores e futuros investidores. O trabalho desenvolvido na EEMTI Liceu Vila Velha reforça que a Educação Financeira deve ser parte integrante da formação escolar, não como disciplina isolada, mas como tema transversal capaz de dialogar com diferentes áreas do conhecimento. Diante dos resultados, recomenda-se a ampliação do projeto para outras turmas e escolas, fortalecendo a construção de uma cultura de planejamento e de consumo consciente entre os jovens.
Referências
ATKINSON, A.; MESSY, F. A. Measuring financial literacy: Results of the OECD/INFE pilot study. OECD Working Papers, n. 15, 2012.
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
CASEL – Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning. Core SEL Competencies. Chicago, 2013.
OECD. Financial Literacy and Inclusion: Results of OECD/INFE Survey. Paris: OECD, 2012.
SAVOIA, J. R. F.; SAITO, A. T.; SANTANA, F. A. Educação financeira no Brasil: situação atual e perspectivas. Revista de Administração Pública, v. 41, n. 5, 2007.
CNC – Confederação Nacional do Comércio. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor – 2023. Brasília: CNC, 2023.

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