Resumo
O comportamento de morder é uma manifestação recorrente na primeira infância, especialmente entre crianças de um a três anos de idade, período marcado pelo desenvolvimento da linguagem, das habilidades sociais e da autorregulação emocional. Embora seja frequentemente interpretado como um comportamento agressivo, estudos apontam que sua ocorrência está relacionada às limitações comunicativas e emocionais características dessa fase do desenvolvimento. O presente artigo tem como objetivo analisar a contribuição de estratégias pedagógicas voltadas para a redução do comportamento de mordidas em crianças da Educação Infantil, promovendo formas adequadas de comunicação, expressão emocional e convivência social. Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, caracterizado como relato de experiência pedagógica, realizado em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) do município de Palmas, Paraná, envolvendo cinco turmas de Berçário, totalizando 50 crianças. As intervenções envolveram atividades de reconhecimento das emoções, mediação de conflitos, utilização de recursos visuais, reforço positivo e orientação às famílias. Os resultados evidenciam que práticas pedagógicas planejadas e fundamentadas no desenvolvimento infantil favorecem a redução dos episódios de mordidas e contribuem para o fortalecimento das habilidades socioemocionais. Conclui-se que a atuação intencional dos educadores desempenha papel fundamental na construção de relações mais respeitosas e no desenvolvimento integral da criança.
Palavras-chave: Educação Infantil; Desenvolvimento Socioemocional; Mordidas; Regulação Emocional; Habilidades Sociais.
Abstract
Biting behavior is a recurrent manifestation in early childhood, particularly among children between one and three years of age, a developmental stage characterized by the acquisition of language, social skills, and emotional self-regulation. Although it is often interpreted as aggressive behavior, studies indicate that its occurrence is associated with the communicative and emotional limitations typical of this stage of development. This article aims to analyze the contribution of pedagogical strategies designed to reduce biting behavior among children in early childhood education by promoting appropriate forms of communication, emotional expression, and social interaction. This qualitative study is characterized as a pedagogical experience report conducted at a Municipal Early Childhood Education Center (CMEI) in the municipality of Palmas, Paraná, Brazil, involving five nursery classes with a total of 50 children. The interventions included activities focused on emotional awareness, conflict mediation, the use of visual resources, positive reinforcement, and family guidance. The results demonstrate that planned pedagogical practices grounded in child development contribute to reducing biting episodes and strengthening children's socioemotional skills. It is concluded that the intentional actions of educators play a fundamental role in fostering more respectful relationships and promoting children's holistic development.
Keywords: Early childhood education; Socioemotional development; Biting behavior; Emotional regulation; Social skills.
1. Introdução
A Educação Infantil constitui a primeira etapa da Educação Básica e tem como finalidade promover o desenvolvimento integral da criança em seus aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais. Nesse contexto, o ambiente escolar representa um espaço privilegiado para a construção das primeiras experiências de convivência coletiva, exigindo da criança o desenvolvimento gradual de habilidades relacionadas à comunicação, à empatia, ao autocontrole e à resolução de conflitos.
Entre os desafios enfrentados pelos profissionais da Educação Infantil destaca-se o comportamento de morder, frequentemente observado em crianças pequenas. Tal comportamento costuma gerar preocupação entre educadores e familiares, especialmente por envolver situações de conflito entre pares.
Contudo, a literatura especializada aponta que as mordidas não devem ser compreendidas exclusivamente como manifestações de agressividade. Em muitos casos, representam tentativas de comunicação diante das limitações linguísticas e emocionais próprias da primeira infância. Dessa forma, torna-se necessário que a escola desenvolva intervenções pedagógicas que auxiliem a criança na construção de formas socialmente adequadas de expressar sentimentos, desejos e necessidades.
Diante desse cenário, este estudo busca responder à seguinte questão de pesquisa: Como as intervenções pedagógicas voltadas ao desenvolvimento sócio emocional podem contribuir para a redução do comportamento de mordidas na Educação Infantil?
2. Objetivos
2.1 Objetivo Geral
Analisar a contribuição das intervenções pedagógicas no desenvolvimento da comunicação, da regulação emocional e da convivência social, visando à redução do comportamento de mordidas em crianças da Educação Infantil.
2.2 Objetivos Específicos
- Compreender os fatores relacionados ao comportamento de morder na primeira infância;
- Desenvolver estratégias que favoreçam a expressão adequada das emoções;
- Promover habilidades de comunicação verbal e não verbal;
- Incentivar a resolução pacífica de conflitos;
- Fortalecer a parceria entre escola e família no acompanhamento do comportamento infantil.
3. Referencial Teórico
3.1 O Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Histórico-Cultural
A teoria histórico-cultural de Vygotsky (2007) compreende o desenvolvimento humano como resultado das interações sociais estabelecidas entre o indivíduo e o meio em que vive. Segundo o autor, a aprendizagem ocorre inicialmente no plano social para, posteriormente, ser internalizada pela criança.
Nesse sentido, o papel do educador torna-se fundamental na mediação das experiências e na construção de competências relacionadas ao convívio social e à regulação emocional.
3.2 A Mordida como Manifestação do Desenvolvimento
Durante os primeiros anos de vida, a linguagem ainda se encontra em processo de desenvolvimento. De acordo com Bee (2011), comportamentos impulsivos podem surgir quando a criança não dispõe de recursos comunicativos suficientes para expressar suas necessidades.
A mordida pode representar diferentes funções, como demonstrar frustração, buscar atenção, defender-se de situações percebidas como ameaçadoras ou simplesmente explorar sensorialmente o ambiente.
Assim, compreender a função desse comportamento é fundamental para o planejamento de intervenções educativas eficazes.
3.3 Educação Emocional na Primeira Infância
A educação emocional tem sido apontada como importante ferramenta para o desenvolvimento das competências socioemocionais. Papalia e Feldman (2013) destacam que a capacidade de reconhecer e regular emoções é construída gradualmente e depende das experiências vivenciadas pela criança.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reforça a importância de práticas pedagógicas que promovam o autoconhecimento, a convivência e a participação das crianças em situações de interação social.
4. Metodologia
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, do tipo relato de experiência pedagógica, desenvolvida em um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) localizado no município de Palmas, Paraná.
A intervenção foi realizada no período de março a junho de 2026, envolvendo cinco turmas de Berçário, compostas por 10 crianças cada, totalizando 50 participantes. As crianças atendidas encontravam-se na faixa etária de 2 anos, período em que comportamentos relacionados à dificuldade de comunicação e autorregulação emocional são frequentemente observados.
O projeto foi desenvolvido durante a rotina escolar, com foco na promoção das habilidades socioemocionais, na ampliação das formas de comunicação e na prevenção dos episódios de mordidas entre as crianças.
Foram utilizadas as seguintes estratégias pedagógicas:
- Cartões ilustrados de emoções;
- Rotina visual;
- Rodas de conversa;
- Atividades com espelhos;
- Músicas relacionadas aos sentimentos;
- Brincadeiras cooperativas;
- Mediação de conflitos;
- Reforço positivo de comportamentos adequados;
- Orientação e acompanhamento das famílias.
A avaliação dos resultados ocorreu por meio da observação sistemática dos comportamentos das crianças ao longo do período de intervenção, considerando aspectos relacionados à frequência dos episódios de mordidas, à interação social, à comunicação de necessidades e à capacidade de regulação emocional. Os registros realizados pelos professores e equipe pedagógica serviram como instrumento para acompanhamento e análise dos avanços observados durante a execução do projeto.
5. Resultados e Discussão
Os resultados apresentados referem-se às observações realizadas durante o período de março a junho de 2026, junto às cinco turmas de Berçário e uma turma de Maternal participantes do projeto. Ao longo desse período, foram registradas mudanças progressivas nos comportamentos relacionados à comunicação, interação social e resolução de conflitos, indicando impactos positivos das intervenções pedagógicas desenvolvidas.
Inicialmente, verificava-se que os episódios de mordidas estavam frequentemente associados a situações de disputa por brinquedos, dificuldades de espera e limitações na expressão verbal. Após a implementação das estratégias propostas, observou-se aumento na utilização de gestos e palavras para comunicação de necessidades e sentimentos.
As atividades voltadas ao reconhecimento das emoções favoreceram o desenvolvimento do vocabulário emocional e contribuíram para que as crianças identificassem seus próprios sentimentos e os dos colegas.
A mediação constante dos conflitos permitiu a construção gradual de habilidades relacionadas ao compartilhamento, à negociação e ao respeito às regras de convivência.
Os resultados encontrados corroboram estudos que evidenciam a importância da educação emocional como ferramenta preventiva para comportamentos agressivos na primeira infância.
5.1 Análise das Intervenções Pedagógicas e seus Impactos no Desenvolvimento Infantil
A implementação das estratégias pedagógicas permitiu observar mudanças progressivas no comportamento das crianças, especialmente no que se refere à comunicação de necessidades, à expressão emocional e à interação com os pares.
Inicialmente, verificou-se que os episódios de mordidas ocorriam principalmente em situações de disputa por brinquedos, dificuldades em compartilhar materiais e momentos de espera. Tais comportamentos evidenciavam limitações típicas da faixa etária relacionadas à comunicação verbal e à regulação emocional.
Ao longo da intervenção, observou-se aumento gradual do uso de palavras, gestos e expressões faciais para comunicar desejos e sentimentos, reduzindo a necessidade de respostas impulsivas diante de situações de frustração. As rodas de conversa, os cartões de emoções e as atividades lúdicas favoreceram o desenvolvimento do vocabulário emocional, permitindo que as crianças identificassem e nomeassem sentimentos como alegria, tristeza, raiva e medo.
Outro aspecto relevante foi a melhoria das interações sociais. As brincadeiras mediadas e os momentos de resolução de conflitos contribuíram para o desenvolvimento de habilidades como compartilhamento, cooperação e respeito ao outro. As crianças passaram a demonstrar maior capacidade de aguardar sua vez e buscar auxílio do adulto antes de recorrer a comportamentos agressivos.
Esses resultados corroboram pesquisas que destacam a importância das habilidades sócio emocionais na Educação Infantil, especialmente no fortalecimento da empatia, da convivência social e da autorregulação emocional. A literatura evidencia que intervenções sistemáticas voltadas ao desenvolvimento dessas competências favorecem a adaptação escolar e contribuem para a prevenção de comportamentos externalizantes.
Além disso, verificou-se que a participação das famílias potencializou os efeitos das intervenções. Quando os responsáveis adotavam estratégias semelhantes às utilizadas na escola, observava-se maior consistência na aprendizagem dos comportamentos socialmente adequados.
Dessa forma, os resultados sugerem que a redução do comportamento de morder não está relacionada apenas à interrupção da conduta inadequada, mas principalmente ao ensino de habilidades alternativas de comunicação, interação social e expressão emocional.
6. Considerações Finais
O comportamento de morder constitui uma manifestação comum do desenvolvimento infantil e deve ser compreendido a partir das necessidades comunicativas e emocionais da criança.
A experiência apresentada demonstra que intervenções pedagógicas planejadas, fundamentadas na mediação, no acolhimento e no desenvolvimento das habilidades socioemocionais, podem contribuir significativamente para a redução desse comportamento.
Considerando a participação de 50 crianças distribuídas entre cinco turmas de Berçário, os resultados obtidos evidenciaram avanços na comunicação, na convivência social e na autorregulação emocional, reforçando a importância de práticas educativas preventivas e intencionais no contexto da Educação Infantil.
Conclui-se que a atuação integrada entre educadores e famílias favorece a construção de formas mais adequadas de comunicação e convivência, promovendo o desenvolvimento integral da criança e fortalecendo a qualidade das relações estabelecidas no ambiente escolar. Além disso, destaca-se a necessidade de que ações voltadas à educação emocional façam parte do planejamento pedagógico das instituições de Educação Infantil, contribuindo para a formação de crianças mais autônomas, empáticas e socialmente competentes.
Referências
BEE, Helen. A criança em desenvolvimento. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2011.
MENDONÇA, L. S. et al. O ambiente escolar como fator determinante no desenvolvimento socioemocional de crianças, 2026.
MUTO, J. H. D.; GALVANI, M. D. O ensino das habilidades socioemocionais na escola: uma revisão de literatura, 2023.
PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento Humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.
RODRIGUES, C. M. S.; LISBOA, E. J. Neuroeducação e desenvolvimento socioemocional na Educação Infantil, 2025.
SILVA, Maria de Lourdes Ferreira da Educação socioemocional na Educação Infantil: contribuições para o desenvolvimento integral da criança, 2026.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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