Apontamentos sobre o uso da análise crítica do discurso de Norman Fairclough nos estudos organizacionais
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo: O objetivo deste ensaio teórico é propor algumas reflexões acerca do uso que tem sido feito da análise crítica do discurso (ACD) de Norman Fairclough pelos Estudos Organizacionais (EO). Para tanto, com base em uma literatura da linguística, buscamos demonstrar as tensões epistemológicas existentes no âmbito da teoria social do discurso que embasa a ACD, e que nem sempre são levadas em conta pelos pesquisadores da área de Administração, conforme verificamos a partir de artigos do campo dos EO que fazem uma avaliação do uso da ACD por trabalhos anteriores. A partir de considerações feitas pelo próprio Fairclough sobre o uso da ACD no campo dos EO, argumentamos que as pesquisas que se orientem pela teoria social do discurso devem buscar depreender a obra do autor como um todo, e, preferencialmente, adotar as bases epistemológicas que ele preceitua, orientadas pelo realismo crítico, indo além da obra Discourse and Social Change, de 1992, na qual a maioria dos estudos se baseia exclusivamente.

Palavras-chave: Análise do discurso; Métodos qualitativos; Estudos Organizacionais; Epistemologia; Teoria social do discurso.

Abstract: The aim of this theoretical essay is to reflect on how Norman Fairclough’s Critical Discourse Analysis (CDA) has been utilized within Organizational Studies (OS). Drawing on linguistics literature, we seek to demonstrate the epistemological tensions inherent in the social theory of discourse that underpins CDA—tensions that are not always acknowledged by management researchers, as evidenced by OS articles evaluating the use of CDA in prior studies. Based on Fairclough’s own observations regarding the application of CDA in OS, we argue that research guided by the social theory of discourse should approach the author’s body of work holistically. Furthermore, such research should ideally adopt the epistemological foundations he advocates—grounded in critical realism—and move beyond the 1992 book Discourse and Social Change, upon which the majority of studies rely exclusively.

Keywords: Discourse analysis; Qualitative methods; Organizational Studies; Epistemology; Social theory of discourse.

Introdução

O papel da linguagem na realidade teve seu entendimento profundamente alterado nas teorias sociais do século XX (CRUZ, 2019). De acordo com Souza e Carrieri (2014), de mero elemento reflexivo do real, a linguagem passou a ser entendida como seu elemento constitutivo. Essa transformação em relação ao papel da linguagem na realidade social ficou conhecida como “virada linguística”, movimento a partir do qual surge a análise do discurso (SOUZA e CARRIEI, 2014).

A análise do discurso interessa-se pelo discurso e sua forma de produção de sentido. Segundo Rodrigues e Dellagnelo (2013) é a partir do pensamento dos filósofos e linguistas Ferdinand de Saussure e Mikhail Bakhtin que a fala deixa de ser vista como mero instrumento de comunicação e surge a noção de discurso, que passa a ser analisado considerando-se os aspectos ideológicos e históricos que permeiam o interlocutor. Ainda conforme esses autores, o termo discurso é utilizado de diversas formas, de modo que cada corrente da análise do discurso o define de uma forma, mas em comum, todas as definições consideram, explícita ou implicitamente, questões relacionadas à poder, ideologia e linguagem.

Rodrigues e Dellagnelo (2013) explicam que a análise do discurso, enquanto estratégia de pesquisa, é de difícil caracterização, pois a depender de cada abordagem, ora o objeto - o discurso - é tomado linguisticamente, ora ideologicamente. Pode-se afirmar, contudo, que de maneira geral o que as diferentes linhas buscam é a construção de procedimentos capazes de conduzir o leitor a compreensões menos óbvias e mais profundas do texto.

A análise do discurso pode ser dividida em duas grandes correntes: a francesa, comumente denominada análise do discurso (AD), e a anglo-saxônica, da qual se originou a chamada análise crítica do discurso (ACD). Em síntese, enquanto a abordagem francesa se ocupa da análise do sujeito enquanto reprodutor de formações discursivas, clivado por ideologias, a linha inglesa está interessada na investigação das consequências sociais e políticas que se originam dessa reprodução discursiva (RODRIGUES e DELLAGNELO, 2013).

Procedida essa muito breve contextualização, o nosso objetivo neste ensaio teórico é realizar alguns apontamentos acerca do uso, nos Estudos Organizacionais (EO), da análise crítica do discurso (ACD) de Norman Fairclough, principal expoente da corrente inglesa. Sendo a ACD uma abordagem extremamente ampla, não pretendemos aqui exaurir os conceitos constituintes desta, tampouco resumi-los, ou tratar da operacionalização do método, pois a esses objetivos muitos artigos já se prestaram, inclusive dentre nossas referências.

O que se pretende, mais especificamente, é destacar as tensões epistemológicas existentes no seio da teoria social do discurso, as quais, conforme indicam alguns autores, nem sempre são consideradas pelos pesquisadores da área de Administração. A partir do desvelamento de tais tensões, objetivamos evidenciar alguns aspectos que carecem ser levados em conta na condução de pesquisas que adotem a ACD.

Com esses intuitos, primeiramente abordamos, no próximo tópico, os pressupostos teóricos da ACD, destacando as tensões epistemológicas existentes. Em seguida, traçamos um panorama do uso da ACD nos EO, a partir de análises produzidas por autores do próprio campo. Nas reflexões finais retomamos nossos argumentos para defendermos que a ACD seja utilizada com mais critério pelos pesquisadores do campo de EO, de modo a levarem em conta as considerações expostas pelo próprio Fairclough com relação a utilização de seu arcabouço teórico.

Pressupostos teóricos da análise crítica do discurso – tensões epistemológicas e o giro da ACD ao realismo crítico

A análise crítica do discurso (ACD), pode ser resumida como uma forma de análise social crítica. A contribuição da ACD está em “elucidar como o discurso está relacionado a outros elementos sociais (poder, ideologias, instituições etc.), e oferecer a crítica ao discurso como caminho para uma crítica mais ampla da realidade social” (FAIRCLOGH e AGUIAR, 2019).

Chouliaraki e Fairclough (1999) elucidam que a ACD é produto de três influências principais, quais sejam: o Marxismo, o qual compreende as relações de dominação e exploração como determinadas e perpetuadas ideológica e culturalmente; Michel Foucault, responsável por definir o discurso como um sistema de conhecimento que tem como objetivo o controle da sociedade por meio do exercício do poder e da regulação do saber; e Mikhail Bakhtin, para quem a linguagem é inerentemente ideológica.

A ACD, segundo Chouliaraki e Fairclough (1999), é resultado de uma junção entre teoria e método. Como explica Onuma (2020), a proposta da ACD faircloughiana se coloca enquanto teoria social do discurso, e não apenas como método. Tal teoria social do discurso, de acordo com Cruz (2019), se desenvolveu sob premissas epistemológicas que podem ser consideradas conflitantes entre si, notadamente o marxismo e o pós-estruturalismo, diante das quais, a princípio, Fairclough buscou empreender uma abordagem conciliatória.

Analisando a trajetória intelectual de Fairclough, Cruz (2019), observa que em Discourse and Social Change, de 1992 (única obra do autor integralmente traduzida para o português, sendo também a mais difundida no Brasil e a mais referenciada), o pós-estruturalismo de Foucault aparece como uma das principais referências, de modo que a questão da luta de classes perde a centralidade observada na obra anterior, Language and Power, de 1989.

Ainda de acordo com Cruz (2019), em 1995 Fairclough retorna ao marxismo, com a publicação de Critical discourse analysis, no qual aborda diretamente a polêmica entre pós-estruturalismo e marxismo, e expõe sua filiação à autores marxistas, mas ainda buscando uma postura bastante conciliatória. Nessa obra o autor trata de diversas relações de poder, não apenas referentes à classe, mas explicita seu posicionamento de que todas devem ser tratadas sob à égide da crítica ao capitalismo.

Em suas obras seguintes, Discourse in Late Modernity, de 1999, e Analysing Discourse, de 2003, segundo Cruz (2019), Fairclough segue neste movimento de aproximação do marxismo; para posicionar-se de maneira mais explícita a partir da publicação de Marx as Critical Discourse Analyst, em 2002, o que se observa até CDA as dialectical reasoning, de 2018. Cruz (2019), considera que essas obras, ao congregar a visão foucaultiana e a marxista - essa de forma cada vez mais intensa - refletem o giro de Fairclough e da ACD à abordagem do realismo crítico, que de acordo com Paula (2012), emerge em oposição ao construcionismo social, buscando reparar aos excessos discursivos da “virada linguística”, mas mantendo proposições dessa.

A recapitulação desse percurso teórico de Fairclough, procedida por Cruz (2019), é importante para a construção de nossa argumentação, que pretende evidenciar as possibilidades que se abrem ao campo dos EO a partir do pensamento do autor. O que observamos ao compulsar estudos da área que se utilizam da ACD como método (e que os artigos que já analisaram o uso da ACD em EO ratificam, mas sem destacar) é que muitos dos elementos contidos nas obras seguintes à Discourse and Social Change (a obra de 1992, que mais dialoga com o pós-estruturalismo) são completamente desconsiderados.

Em 2005, Fairclough publica o artigo Discourse analysis in organization studies: The case for critical realism, na conceituada revista Organization Studies. Nesse texto, voltado especificamente à pesquisadores da área de EO e Administração, o autor condena o exacerbado construcionismo social observado no campo e a tendência proeminente de compromisso com o pós-modernismo, questões que considera como limitações para as pesquisas sobre discurso organizacional. Defende então uma abordagem da ACD alinhada à uma ontologia social realista crítica, e que prime pela lógica dialética entre discurso e materialidade, a qual, em sua perspectiva, possui um maior valor potencial para a pesquisa em EO.

O uso da ACD nos Estudos Organizacionais

Como aponta Misoczky (2005), a ACD está presente nos estudos organizacionais críticos pelo menos desde o início dos anos 90. De acordo com essa mesma autora, e também com Fairclough e Aguiar (2019), a ACD está vinculada a um projeto mais amplo de crítica ao capitalismo, servindo assim à pesquisas em EO interessadas em desvelar relações estruturais de dominação, discriminação, controle e poder, através de suas manifestações na linguagem. Com o passar do tempo surgem então duas grandes linhas que se utilizam da ACD em EO, uma ligada à análise das funções ideológicas dos discursos gerencialistas, e outra ligada às questões de diversidade e subjetividades (MISOCZKY, 2005).

Salles e Dellagnelo (2019), explicam que a ACD é uma alternativa teórico-metodológica robusta para pesquisas empíricas no campo dos estudos organizacionais críticos, visto seu potencial em contribuir para o exame de questões sociais do mundo contemporâneo e busca por desnaturalizar crenças que servem de suporte às estruturas de dominação. Contudo, ainda segundo essas autoras, embora a adoção da ACD na Administração não seja nova, seu uso ainda é restrito e em certos aspectos deficiente, principalmente no que tange à análise da dimensão propriamente textual, que nem sempre tem sido bem explorada.

Nesse sentido, Salles e Dellagnelo (2019), destacam que na ACD a análise textual é um momento imprescindível, de modo que uma análise do discurso não resguardada por evidências textuais não passa de uma mera opinião. É o texto que confere cientificidade às argumentações. O texto então deve ser analisado sob muitos aspectos, e não apenas no que tange às práticas sociais verificadas. Ao analisarem 21 trabalhos de EO que se valem da ACD como método, as autoras ainda apontam que o quadro analítico da teoria social do discurso é pouco explorado no campo, que a operacionalização metodológica carece de ser melhor descrita e que as categorias analíticas propostas pela abordagem não costumam ser bem enfatizadas.

Já Santos et al. (2014), ao procederem análise de cinco artigos empíricos do campo de EO que utilizam a ACD, avaliam que, embora estes cumpram o propósito de desvelar ideologias e relações de poder, não há uma conformidade na forma de utilização do método na área. Os autores consideram que os trabalhos tendem a evidenciar a análise do discurso apenas enquanto prática discursiva e social, sendo a dimensão textual considerada apenas muito timidamente, de modo que concluem que os EO tendem a realizar a ACD ao seu próprio modo, não considerando necessariamente todas as três dimensões faircloughianas do discurso.

Consideramos que um bom exemplo de uso da ACD, que abarca os preceitos da obra de Fairclough como um todo, orientando-se epistemologicamente pelo realismo crítico inclusive, é o trabalho de Fernandes (2019), intitulado Análise crítica do discurso de apoio às MPMES e de fomento ao empreendedorismo no Brasil pós-redemocratização. Nesse trabalho o autor analisa a interação dialética entre o discurso e a realidade material, relativizando assim o papel do discurso na construção da realidade, de maneira oposta ao que preconiza o pensamento pós-estruturalista, o qual segundo Cruz (2019) passa a ser criticado por Fairclough em seus últimos trabalhos; o que também se nota nos artigos do próprio autor aqui diretamente referenciados.

Não queremos evidentemente dizer que pesquisas epistemologicamente orientadas pelo pensamento pós-estruturalista não possam adotar a ACD de Fairclough como opção metodológica. A maioria das pesquisas em EO que adotam a ACD são, inclusive, lastreadas no pós-estruturalismo (como fica evidenciado a partir dos trabalhos empíricos de ACD analisados em Souza e Carrieri, 2014; Santos et al., 2014; e Salles e Dellagnelo, 2019). O que arguimos é que pesquisas que adotem a ACD como método, mas que não coadunem com todos os pressupostos teóricos da teoria social do discurso, devem salientar suas discordâncias e bricolagens teóricas entre abordagens que então deve ser realizada, no capítulo de metodologia; assim como também devem, como alertam Salles e Dellagnelo (2019), descrever em detalhes a operacionalização metodológica, e não focar apenas nos resultados.

Consideramos que um ótimo exemplo de pesquisa fundada no pós-estruturalismo que adota a ACD de Fairclough como método, mas não foge de evidenciar e resolver as dissonâncias teóricas existentes, é a de Teixeira (2015), intitulada As artes e práticas cotidianas de viver, cuidar, resistir e fazer das empregadas domésticas. Ao tratar do método a autora demonstra de forma consistente estar ciente das tensões epistemológicas existentes, fazendo consignar claramente em sua tese que, em que pesem as contribuições extraídas da teoria social do discurso de Fairclough, que tem sua escolha devidamente justificada; as noções de dominação e pensamento dialético serão epistemologicamente desconsideradas, por serem incompatíveis com o pensamento pós-estruturalista que embasa a pesquisa. Já quanto ao conceito de ideologia, embora não exista no pós-estruturalismo, a autora o adota em suas análises, pois está presente na teoria social do discurso, que é a base da ACD. A autora procede assim a bricolagens teóricas e metodológicas, devidamente fundamentadas; coisa que não observamos em outros trabalhos, que se utilizam da ACD apenas com base na obra Discourse and Social Change, de 1992 (mais alinhada às abordagens pós-modernas) e ignoram todo o restante do pensamento de Fairclough.

Reflexões finais

Conforme a argumentação que buscamos traçar ao longo deste texto, para que uma pesquisa que opte pela ACD como método possa ser considera teoricamente coesa e contundente, é imprescindível que o pesquisador esteja ciente das tensões epistemológicas existentes no âmbito da teoria social do discurso de Fairclough.

Sobretudo se a pesquisa não se orienta epistemologicamente pelo realismo crítico, abordagem preconizada pela teoria social do discurso, formulada ao longo de toda a obra de Fairclough, o pesquisador deve se preocupar em promover as devidas conciliações entre as vertentes teóricas adotadas no trabalho. Diante disso, concordamos com Fairclough em relação ao uso da ACD dentro de uma perspectiva realista crítica, que considera o discurso em sua dialética com os demais componentes da vida social.

Referências

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  1. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-3911-5263

  2. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0630-5843

  3. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5890-0118

  4. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7736-9776

  5. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-3262-4878

  6. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-1412-4780

  7. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-4073-6820

  8. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-9910-257X

  9. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-6887-5370

  10. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8190-2015

  11. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-4722-8305

  12. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-3389-3575

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