Resistências no organizar das práticas cotidianas dos trabalhadores de aplicativo
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo: A partir de uma perspectiva micropolítica das práticas cotidianas, o objetivo deste artigo teórico é refletir sobre as formas de fazer resistência – frente ao controle algorítmico e a precarização das condições de trabalho – encontradas pelos trabalhadores de aplicativo no organizar de suas práticas cotidianas. Para tanto, nos valemos dos resultados de um estudo prévio realizados com trabalhadores de aplicativo e das informações constantes de uma matéria jornalística, os quais buscamos interpretar pela lente da prática articulada à noção de micropolíticas cotidianas. A análise evidencia que, a despeito da tendência à atomização e dispersão do trabalho características, da concorrência extremada promovidas pelas campanhas dos aplicativos, e do não entendimento da lógica algorítmica; e apesar da falta de mobilização propriamente política da maioria, os trabalhadores resistem através táticas cotidianas criativas calcadas no apoio mútuo.

Palavras-chave: cotidiano; micropolíticas; organizing; trabalho por aplicativo; gestão algorítmica.

Abstract: Adopting a micropolitical perspective on everyday practices, this theoretical article aims to reflect on the forms of resistance—against algorithmic control and the precarization of working conditions—devised by app-based workers as they organize their daily activities. To this end, we draw upon findings from a previous study involving app-based workers and information from a news report, interpreting them through the lens of practice linked to the concept of everyday micropolitics. The analysis reveals that, despite the inherent tendency toward work atomization and dispersion, the extreme competition fostered by app campaigns, and a lack of understanding regarding algorithmic logic—and notwithstanding the absence of explicit political mobilization among the majority—workers resist through creative everyday tactics rooted in mutual support.

Keywords: everyday life; micropolitics; organizing; app-based work; algorithmic management.

Introdução

Envolta na produção discursiva do empreendedorismo, a uberização do trabalho (termo derivado da forma de organização da empresa Uber) é uma tendência global que visa consolidar o trabalhador just-in-time, convertido num auto gerente subordinado, sempre à disposição, mas desprovido de garantias e direitos. Sob a aparência, as empresas passam a se apresentar como apenas mediadoras, e não mais contratantes, e os trabalhadores passam a ser considerados parceiros, não mais funcionários. Assim as empresas agora operam novas formas de subordinação e controle através do gerenciamento algorítmico do trabalho. (ABÍLIO, 2020).

Esse modelo de controle por algoritmos, ou algocracia, difere grandemente das formas de organização burocráticas já extensamente debatidas pelos Estudos Organizacionais. Trata-se, pois, de um modelo de poder com diversas peculiaridades, que operando através dos sistemas de tecnologia da informação, estabelecem formas totalmente novas, e antes impensadas, de gerenciamento, vigilância, coordenação, controle, disciplina, recompensa e punição. (ABÍLIO, 2020; NEVES; SUTIL, 2021; FRANCO; FERRAZ, 2018).

Hoje, no contexto de crise neoliberal, milhões de trabalhadores uberizados vendem sua força de trabalho por meio de aplicativos, sendo geridos por algoritmos. São os ditos trabalhadores de aplicativo. Aqui colocamos em foco as práticas cotidianas de motoristas e entregadores de aplicativo, os quais, ante o contexto de pandemia, tiveram suas atividades alçadas ao status de “serviço essencial”.

Considerando-se a necessidade e a relevância para o campo dos Estudos Organizacionais de se compreender mais a fundo todas as implicações que envolvem essas novas tecnologias de poder; e partindo-se do pressuposto foucaultiano de que onde há poder, há sempre a possibilidade de resistir, intentamos neste artigo interrogar: Como os trabalhadores de aplicativo encontram formas de fazer resistência, no organizar de suas práticas cotidianas, frente ao controle algorítmico e a precarização das condições de trabalho?

Conforme Bretas e Carrieri (2017), inúmeras pesquisas nos Estudos Organizacionais, a partir de diferentes abordagens, buscam compreender a resistência. Há então vários e plurais entendimentos sobre resistência. Em nossas pesquisas, verificamos uma série de estudos os quais abordam trabalho uberizado e resistência (SANTOS; ROSI, 2021; FRANCO; FERRAZ, 2018; BESEN, 2020). Todos estes, contudo, limitam sua compreensão de resistência aos movimentos políticos organizados.

Nessa perspectiva, verificamos que muitos são os estudos que, por exemplo, debruçando-se sobre o chamado breque dos apps (movimentos grevistas formulados pelos entregadores de aplicativo durante a pandemia de Covid-19) abordaram a resistência dos trabalhadores à uberização. Neste artigo, diferentemente, adotamos uma concepção fundamentalmente distinta e mais ampla. A partir das formulações de Michel de Certeau (1998), compreendemos a resistência como a maneira criativa pela qual os sujeitos podem subverter relações de poder no cotidiano. São essas microrresistências que trataremos em nossa análise.

De acordo com Faria e Leite-da-Silva (2017) e Machado et al (2018), vários são, no âmbito dos Estudos Organizacionais, nacional e internacionalmente, os trabalhos ancorados no pensamento certeauniano os quais investigam a temática da resistência. Dentre estes, destacamos o estudo de Oliveira e Cavedon (2012), no qual as autoras, ao analisarem as práticas de gestão numa organização circense, evidenciam micro práticas de resistência e contestação cotidiana às normatizações enfrentadas pelos sujeitos, num contexto de mercantilização da cultura do circo. Nesta mesma esteira teórica, outro trabalho que merece relevo é o de Teixeira (2015), que investiga as práticas cotidianas de resistência de trabalhadoras domésticas.

Este artigo então, com vistas a alcançar o objetivo de refletir sobre as formas de fazer resistência encontradas pelos trabalhadores de aplicativo no organizar de suas práticas cotidianas, e ao adotar Michel de Certeau como teórico principal, fundamenta-se na perspectiva dos Estudos Baseados em Práticas. A perspectiva das práticas, de acordo com Reckwitz (2002), é uma, dentre diversas outras teorias sociais (tais quais o mentalismo, o culturalismo, o textualismo e o intersubjetivismo), que analisam os simbolismos nas organizações.

Morgan, Frost e Pondy (1983), já expunham as muitas possibilidades abertas ao pesquisador interessado em valer-se da perspectiva do simbolismo para investigar as organizações. Além de Certeau (1998), outros autores, como Gherardi (2009), Orlikowski (2000) e Schatzki (2001), analisam as manifestações simbólicas através da teoria das práticas.

Feldman e Orlikowski (2011) asseveram que a teoria da prática nos conduz ao conhecimento do que as pessoas realmente fazem no contexto organizacional, o que é nossa finalidade neste trabalho. Consideramos assim ser necessário compreender aqui o organizar numa perspectiva processual, tal qual preconizado por Duarte e Alcadipani (2016), e Weick, Sutcliffe e Obstfeld (2005).

Expostos nosso objetivo e bases teóricas, neste artigo nos valemos dos resultados de um estudo prévio com trabalhadores de aplicativo (WEISS, 2019) e de informações de uma matéria jornalística (MESSIAS, 2017), os quais buscamos então interpretar pela lente da prática, adotando Michel de Certeau como principal teórico.

Para tanto, primeiramente discorremos acerca da realidade do trabalho por aplicativo. Posteriormente, apresentamos os pressupostos do cotidiano como um lugar de resistências, para em seguida adentrarmos a nossa discussão propriamente, na qual, à luz do pensamento de Michel de Certeau (1998), buscamos interpretar os resultados dos estudos prévios referenciados, a fim de refletirmos sobre as formas de fazer resistência encontradas pelos trabalhadores de aplicativo no organizar de suas práticas cotidianas. Por fim, nas reflexões finais, defendemos a potencialidade das perspectivas teóricas aqui adotadas para uma maior compreensão do trabalho por aplicativo e dos fenômenos atrelados à uberização, advogando que sejam procedidas pesquisas empíricas que investiguem tais temáticas a partir dos referenciais das teorias das práticas.

Trabalho por aplicativo: o controle algorítmico e a precarização do cotidiano de trabalho

Ao redor do mundo, ciclistas e motoqueiros carregando mochilas térmicas nas costas passaram a integrar a paisagem urbana. Faça sol ou faça chuva, lá estão eles. São os entregadores de aplicativo, trabalhadores precarizados que atuam informalmente no setor de serviços mediados por tecnologia da informação (ANTUNES, 2020).

No Brasil, um levantamento divulgado pela Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia em agosto de 2020 apontou que o perfil social do entregador de aplicativo é composto, em sua maioria, por homens (95%), jovens de até 30 anos de idade (56,5%) e negros (59,2%) (FILGUEIRAS et al., 2020).

O estudo revelou ainda que quase um terço dos entregadores iniciou a ocupação durante a pandemia de Covid-19, e que a grande maioria tem o aplicativo como única ocupação, além de cumprir uma longa jornada de, em média, 64,5 horas por semana a fim de conseguir um rendimento mensal líquido que, em 85% dos casos, não chega a dois salários mínimos (FILGUEIRAS et al., 2020).

A despeito do movimento nacional de paralisação promovido pelos entregadores em julho de 2020 por melhores condições de trabalho, que ficou conhecido como breque dos apps (MACHADO, 2020), uma pesquisa divulgada pelo IBOPE no final daquele mês indicou que 70% deles prefere o modelo de trabalho atual, dito na pesquisa como flexível, a ter o vínculo reconhecido com as empresas (SENA, 2020). Para as lideranças do movimento, a baixa adesão e os resultados dessa pesquisa devem-se à falta de informação sobre os direitos trabalhistas e a ideia de empreendedorismo propagada pelas empresas (SENA, 2020; SOPRANA, 2020).

A uberização do trabalho está fundamentada nas produções discursivas do empreendedorismo (ABÍLIO, 2020). Segundo Costa e Saraiva (2015) o neoliberalismo sugere que todos sejam empreendedores. O empreendedor deixa então de apresentar um perfil raro de indivíduo que inicia a mudança, como havia sido caracterizado por Schumpeter.

O que os discursos do empreendedorismo apregoam é um fenômeno de massa, que deve traduzir simultaneamente a atitude de um povo que busca o desenvolvimento socioeconômico de seu país e uma nova ética empresarial do trabalho, que deve abranger desde consultores altamente qualificados até trabalhadores em atividades precárias, como ambulantes, camelôs e outros (COSTA e SARAIVA, 2015).

Neste sentido, Oliveira (2020, p. 116), identifica o empreendedorismo como “uma demanda específica, instrumento de regulação e condução do trabalho, dos trabalhadores e, ao fim e ao cabo, da vida em sociedade”. Segundo a autora, o empreendedorismo é usado como um instrumento para governamentalizar as várias formas de trabalhar, que passam a ser reunidas sob esse único título. Assim, “a viração”, o “bico”, o “freelance”, tudo passa a ser ressignificado como empreendedorismo.

Franco e Ferraz (2019, p. 852) explicam que as propagandas das empresas que operam através das plataformas digitais “trazem estratégias discursivas que reforçam valores sociais voltados às características usualmente atribuídas a empreendedores, como ausência de chefe, liberdade de horário, ganhos progressivos e aventuras no desbravamento das cidades”.

A uberização, intrinsecamente relacionado à novas e inovadoras formas de gestão, intensifica a precarização do trabalho. Sem qualquer vínculo empregatício, motoristas e entregadores de aplicativo trabalham como profissionais autônomos, assumindo diversos riscos e detendo quase a totalidade dos meios de produção necessários à execução dos serviços. E se a “admissão” do trabalhador uberizado é pouco criteriosa, sua manutenção na prestação do serviço não o é, pois todos os seus atos são permanentemente controlados e avaliados por um algoritmo (FRANCO; FERRAZ, 2019).

Abílio (2020), explica que, com o gerenciamento algorítmico, a informalidade é cada vez mais administrável. Essa tecnologia de poder eleva a novos patamares a possibilidade de incorporar como elemento central da gestão a ausência de regras formalmente definidas do trabalho. Apesar de se apresentar como simples mediadora entre o cliente e o prestador de serviço, a empresa detém o poder de estabelecer todas as regras do jogo, de distribuir o trabalho e determinar seu valor.

O gerenciamento dos algoritmos mira na intensificação e extensão do tempo de trabalho, regulando de forma soberana a oferta e procura, por meio de regras permanentemente cambiantes que se retroalimentam das atividades da multidão (ABÍLIO, 2020). Assim, essa prática expande o escopo, a escala e propósito da vigilância e do controle dos trabalhadores a ela subordinados, a partir da sua contínua coleta e tratamento de dados automatizados e não neutros (NEVES, 2022).

Segundo Kellog et al (2020), citado por Neves (2022), o uso de algoritmos na gestão consiste leva à ausência de intermediação de gestores humanos, o que implica na impossibilidade de os trabalhadores apelarem para a empatia dos líderes ou solicitarem exceções às regras, além de não ocorrer ponderação de contexto nas decisões. O controle algorítmico é muito mais abrangente, instantâneo, interativo e não transparente em relação às formas anteriores de controle racional, resultando em assimetria informacional e conduzindo à estratégias que inibem a organização coletiva, incentivando a competição extrema entre os pares em seu benefício.

Os critérios incluídos nos processos algorítmicos refletem esquemas de avaliação, crenças e padrões éticos não compreendidos por todos os atores, em especial, pelos trabalhadores. Nesse modelo, todas as tomadas de decisões são realizadas por computadores, o que nos conduz à vários questionamentos éticos, sobre questões como responsabilidade, transparência e justiça algorítmica (NEVES, 2022).

Como nos lembram Franco e Ferraz (2019), a venda de força de trabalho via aplicativos deve ser considerada não como mera opção do trabalhador, mas como resultado do contexto socioeconômico que condiciona essas opções. Em busca de compreendermos então a realidade cotidiana dos trabalhadores, passamos a tratar no próximo tópico sobre o estudo das abordagens do cotidiano.

O cotidiano como lugar de resistências

A partir das abordagens do cotidiano podemos, no campo dos Estudos Organizacionais, dar espaço às investigações que privilegiam compreender aspectos relacionados à vida daqueles que são ignorados pelas perspectivas hegemônicas da área (GOUVÊA et al, 2018). De acordo com Teixeira (2015), o que se propõe com as abordagens do cotidiano é o estudo das ações diárias que fazem parte da realidade do indivíduo, mesmo aquelas não consideradas centrais para a história. Assim, se buscamos conhecer a realidade, o cotidiano não pode ser ignorado.

Roberts (2006), explica que o cotidiano é um conceito filosófico extremamente rico, já trabalhado por diversas tradições intelectuais. Assim, vários são os autores que pensam o cotidiano. Numa tradição marxista, podemos citar como importantes expoentes, dentre outros, o filósofo francês Henri Lefebvre e a filósofa húngara Agnes Heller, discípula de Lukács, um dos primeiros autores das teorias do cotidiano. Já numa linha mais heterodoxa, temos a obra paradigmática de Michel de Certeau, a qual adotamos em nossa análise.

Uma questão fundamental que se coloca entre essas diferentes abordagens é então se o cotidiano seria fonte de alienação, ou se seria justamente o lugar que nos possibilitaria fazer resistência. Gouvêa et al (2018) explicam que para os autores ligados à tradição marxista, o cotidiano é precipuamente fonte de alienação, com apenas pequenos espaços de escape; já em Michel de Certeau, em contraponto, o cotidiano é o lugar das possibilidades de resistência.

Na perspectiva de Henri Lefebvre, de acordo com Teixeira (2015), ao tratar do cotidiano não há um foco nas possibilidades de resistência, pois o pensamento do autor está centrado na supressão da alienação e na promoção de uma efetiva liberação das estruturas de opressão. Para Gouvêa et al (2018), Lefebvre vislumbrou a riqueza do cotidiano, como sendo o lugar da criação, da renovação, e da autenticidade; e também sua miséria, enquanto lugar da repetição. Lefebvre ainda foi um autor com importantes contribuições para o desenvolvimento de noções de tempo e espaço, tão atreladas ao estudo do cotidiano. É da teoria espacial de Lefebvre, as noções por exemplo de espaço concebido, espaço vivido e espaço percebido, nos ocorrem quais diferentes formas de controle organizacional (WASSERMAN; FRENKEL, 2011).

Para Heller (2016), a qual dá continuidade às noções de cotidianidade de Lucáks, a vida cotidiana é a própria vida do indivíduo, o qual é sempre, ao mesmo tempo, um ser particular e um ser genérico, de modo que a vida do cotidiano é a vida do homem inteiro. Para a autora, é na cotidianidade, na qual já nascemos inseridos, que nossas relações com os outros são produzidas e nossa individualidade se desenvolve a partir das atividades diárias. Heller, embora reconheça possibilidades de mudanças lentas no cotidiano das pessoas, não dá ênfase a formas de resistência, visto que em sua concepção o cotidiano é precipuamente fonte de alienação, assim como o trabalho (TEIXEIRA, 2015).

Em contraposição a esses autores marxistas, Michel de Certeau identifica no cotidiano não só alienação dos indivíduos, mas resistências (TEIXEIRA, 2015; GOUVÊA et al, 2018). Portanto, é por este foco do autor nas possibilidades de resistências cotidianas dos indivíduos, que aqui o adotamos como teórico principal a fim de refletirmos sobre a resistência, mesmo que micro, como uma prática social presente no cotidiano dos trabalhadores de aplicativo.

Em Certeau (1998), o cotidiano é tomado como um campo de lutas simbólicas, de modo que é no cotidiano que devemos analisar as relações de poder, que estão atreladas à dimensão política das práticas cotidianas. As práticas cotidianas o autor descreve como as “maneiras de fazer”, que se constituem das estratégias e das táticas cotidianas e que se utilizam de criatividade e astúcia para se estabelecerem em campos desiguais (CERTEAU, 1998).

Debruçando-se sobre o pensamento certeauniano, Oliveira e Cavedon (2013) explicam que, em meio à esfera de normatividade social, as ações dos sujeitos podem, até mesmo sob a aparência de reprodução, transgredir ou estabelecer outros processos de organização social imbricados nas condições de existência vigentes. Nisso as autoras identificam a dimensão micropolítica das práticas no cotidiano, perspectiva que também adotamos aqui para basear nossa análise.

Da obra de Michel de Certeau, de diversos conceitos formulados pelo autor, dois são fundamentais para a articulação de nossa análise das resistências cotidianas dos trabalhadores de aplicativo, sejam eles o de tática e o de estratégia. Táticas e estratégias são o que constituem as práticas, que Certeau entende como “artes de fazer”, pois ao mesmo tempo em que através das práticas ordem são exercidas, podem ser também burladas. Daí o caráter de resistência das práticas sociais. Desse modo, para o autor até o simples silêncio pode significar uma resistência (CERTEAU, 1998).

Para Certeau (1998), os sujeitos comuns estão sempre se valendo de táticas, ligadas à resistência, para fazer frente às estratégias, ligadas ao controle exercido pelos dominantes. Por estratégia o autor entende a manipulação das relações de forças, possibilitada quando um sujeito é excluído de um contexto. As práticas cotidianas assumem o caráter de estratégia quando estabelecem relações de poder que postulam o controle dos lugares de tomada de decisão. As estratégias são intencionais e podem dissimular a realidade dos fatos (CERTEAU, 1998).

Já as táticas, para Certeau (1998), ocorrem fora das posições de poder, na ausência de um próprio. A tática não representa um projeto de poder, mas é sim, para o autor, a arte dos fracos, operada de modo a, furtiva e sorrateiramente, golpe a golpe, subverter e tirar algum proveito da ordem dominante. A tática ocorre nas brechas do sistema, depende de uma oportunidade, está pautada na astúcia necessária à resistência dos sujeitos comuns, que envolvidos em relações de poder, conseguem transgredir as regras (CERTEAU, 1998). As táticas são movimentos raros, que podem passar despercebidos, e por não terem a intenção de tomar o exercício do poder, constituem microrresistências. É desses movimentos táticos, desses pequenos golpes no sistema, que trataremos em nossa análise.

Outro conceito certauniano importante aqui é o de bricolagem. Para Certeau (1998), bricolagem é um modo criativo de articular fragmentos a fim de transgredir a ordem. Trata-se de articular dispositivos e protocolos para elementos diversos ao que se destinam, subvertendo a ordem e fazendo resistência.

Roberts (2006), é um crítico ferrenho dessas formulações certaunianas sobre o cotidiano. Para o autor, defensor do resgate das análises marxistas do cotidiano, Michel de Certeau, ao teorizar em termos de "práticas de resistência" subculturais, restringe-se a editar o consumo com as memórias populares, contra conhecimentos e histórias que se encontram no funcionamento da ideologia. Assim, aponta que a obra de Certeau prende-se a um modelo “redentor”, que negocia com as próprias condições produtoras da alienação, e ignora a riqueza e complexidade da história inicial do conceito de cotidiano, confundindo a função social de “contar histórias de baixo” com o próprio trabalho de emancipação.

Neste artigo coadunamos com a argumentação de Faria e Leite-da-Silva (2017), segundo os quais é uma característica da abordagem certeauniana a crítica à suposta tendência de submissão à manutenção do status quo e ao que está estabelecido como verdade pelos que detêm o poder.

Resistências no organizar das práticas cotidianas dos trabalhadores de aplicativo

Nesta sessão, a fim de refletirmos sobre as resistências presentes no organizar das práticas cotidianas dos trabalhadores de aplicativo, apresentamos partes dos resultados de um estudo prévio realizado com trabalhadores de aplicativos (WEISS, 2020), e informações de uma matéria Jornalística (MESSIAS, 2017), que nos proporcionaram alguns insights à respeito das táticas de resistência, nos termos do que define Michel de Certeau (1998), e buscamos interpretá-los à luz das formulações que esse autor desenvolve sobre o cotidiano.

Neves e Sutil (2020), apontam que o fenômeno da resistência da “classe empreendedora” está cada vez mais real, ao que Kellogg et al. (2020) definem como algo ativismo a manifestação de resistência individual e coletiva ao controle algorítmico. Estes autores, contudo, entendem a resistência no sentido de ativismo político. Aqui focaremos em examinar as microrresistências, que subvertem a ordem dominante no cotidiano através de brechas.

Como elucida Abílio (2018), a uberização do trabalho e a gestão algorítmica são fenômenos calcados nas produções discursivas do empreendedorismo. Como também explicam Franco e Ferraz (2019, p. 852) as propagandas das empresas que operam através das plataformas digitais trazem estratégias discursivas que reforçam valores sociais voltados às características usualmente atribuídas a empreendedores.

Argumentamos que os discursos do empreendedorismo, que legitimam os pressupostos da gestão algorítmica, como a ausência de uma chefia in loco e a “liberdade” de horários, podem ser entendidos então como estratégias, nos termos definidos por Certeau (1998), das quais as empresas do capitalismo de plataforma lançam mão para dissimular a realidade dos fatos, manipular as relações de poder e exercer maior controle, abrindo caminhos para o aumento da informalidade e a intensificação da precariedade das relações de trabalho.

Muitos estudiosos dessa sociedade uberizada de empreendedores de si mesmos, dentre eles os filósofos Dardot e Laval (2016), tendem a concordar que este modelo de organização conduz à atomização dos trabalhadores, e ao fim da solidariedade entre esses. Na visão desses autores, na sociedade neoliberal a concorrência generalizada é regra.

Weiss (2020), contudo, ao entrevistar entregadores de aplicativo para verificar em suas práticas os pressupostos da obra de Dardot e Laval (2016) – segundo os quais a racionalidade neoliberal tem como principal característica a generalização da concorrência como norma de conduta – evidencia a cooperação mútua existente no cotidiano desses trabalhadores.

Compreendemos que esse apoio mútuo entre os trabalhadores evidenciado por essa pesquisa de Weiss (2020) no contexto brasileiro, vai contra os interesses da ordem dominante, que está interessada no acirramento da competitividade entre seus “parceiros”, que devem buscar bater metas estabelecidas pelo algoritmo do aplicativo. Desse modo, esse apoio, que acontece sobretudo através da criação de grupos de WhatsApp nos quais os entregadores trocam informações diversas, de modo a se ajudarem, constitui táticas no sentido certauniano, que produzem um tipo de resistência. Os trabalhadores, ao resistirem taticamente desse modo à atomização produzida pela precariedade do trabalho, produzem uma micro resistência à lógica algorítmica e à racionalidade neoliberal que tentam discipliná-los.

Continuamos nossa reflexão a partir de informações contidas em matéria Jornalística produzida por Messias (2017) para a revista Veja, na qual o repórter, ao trabalhar um mês como motorista de aplicativo, investiga os percalços da profissão e as trapaças para se aumentar o rendimento.

Ao integrar-se aos grupos dos motoristas de aplicativo, Messias (2017) descreve que alguns deram-lhe a dica de aceitar a corrida no aplicativo, mas estacionar a alguns quarteirões do endereço de partida, induzindo o cliente a desistir da corrida por impaciência. Pelo cancelamento da corrida, o motorista embolsaria a taxa de R$ 7,00, cobrada do cliente. É claro que essa prática tem seus riscos para o motorista se o algoritmo conseguir detectar sua recorrência, mas entendemos que se constitui claramente numa tática, no sentido atribuído por Certeau (1998), pois trata-se de um modo de burlar o sistema e o poder dominante (a gestão do algoritmo), de maneira sorrateira, através de brechas.

Outra tática dos motoristas relatada por Messias (2017) advém da criação de verdadeiras bases de apoio, com até mesmo barracas de lanche e entregadores de marmita, que os motoristas criaram nas proximidades do aeroporto de Guarulhos. No local, enquanto aguardam longamente na disputa para que o algoritmo lhes atribua uma concorridíssima e muito mais lucrativa corrida à Capital São Paulo, ou quem sabe até o interior do estado, os motoristas batem papo, comem, e até jogam cartas.

Alguns, ainda segundo descreve Messias (2017), enquanto aguardam por essa suculenta corrida no local da base, aproveitam o tempo livre para realizar corridas paralelas, utilizando celulares extras, cadastrados em nome de parentes. O macete para a realização de tal tática (ou a astúcia, em termos certaunianos), está em desativar o sistema de localização do smartphone através do qual se entrou na “fila” por uma corrida no local da base próxima ao aeroporto, de modo que se possa deixar o local à vontade sem perder a vez. Eis aqui a bricolagem certauniana. Ao furtivamente aplicar pequenos golpes táticos no sistema e se valerem das regras em benefício próprio, os motoristas resistem à vigilância algorítmica.

Messias (2017), ainda narra a prática, possibilitada por meio da comunicação via grupos de WhatsApp, na qual em locais com grande concentração de pessoas, como na saída de grandes eventos, os trabalhadores ficam offline no perfil de motorista que possuem no aplicativo e, simultaneamente, solicitam corridas como se fossem passageiros. Assim, ao reduzirem a oferta e aumentarem a demanda de modo artificial, os motoristas forçam a elevação da tarifa pelo algoritmo. Mais uma astuta tática clandestina de resistência à gestão algorítmica.

É claro que, não conhecendo-se o funcionamento dos algoritmos, há sempre um risco envolvido nessas táticas, sobretudo em razão de que a inteligência artificial, conforme acumula mais informações, torna-se mais sofisticada para combater tais práticas, que a princípio podem passar despercebidas. Como assevera Certeau (1998), há sempre o risco de que, ao tomar conhecimento das táticas, o poder dominante estabelecido as incorporem em suas estratégias.

Reflexões finais

Acreditamos que as reflexões traçadas a partir de nossas análises sobre o organizar dos trabalhadores de aplicativo tenham cumprido seu objetivo, e evidenciaram os pressupostos certaunianos segundo os quais o cotidiano, para além de um lugar de alienação, é também um lugar de resistência, ainda que micro. Resta claro que onde há poder, há resistência, e que a partir das astúcias desenvolvidas no fazer cotidiano, os fracos sempre encontram brechas no sistema.

A análise evidencia que, a despeito da tendência à atomização e dispersão do trabalho características, da concorrência extremada promovidas pelas campanhas dos aplicativos, e do não entendimento da lógica algorítmica; e apesar da falta de mobilização propriamente política da maioria, os trabalhadores resistem através táticas cotidianas criativas calcadas no apoio mútuo.

É claro que este trabalho, por basear-se em informações de investigações prévias, possui muitas limitações. Em nossas pesquisas não encontramos trabalhos no campo dos estudos organizacionais que abordam, a partir da perspectiva das práticas, as temáticas aqui tratadas. Esperamos que a partir de nossas reflexões seja despertado o interesse em se investigar mais a fundo as resistências à gestão algorítmica.

A partir das reflexões que aqui fizemos, temos a intuição de que futuras pesquisas empíricas poderão evidenciar muito mais. Nossa sugestão é que, assumindo uma postura etnográfica, e munido dos aportes teóricos aqui utilizados, o pesquisador vá a campo investigar, pois nesse jogo de poder desigual, certamente novas táticas de resistência frente aos algoritmos surgem a cada dia, e muito há que se desnudar ainda das novidades trazidas pela uberização, sendo estes temas de extrema relevância para os Estudos Organizacionais.

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  1. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-3911-5263

  2. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0630-5843

  3. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5890-0118

  4. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7736-9776

  5. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-3262-4878

  6. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-1412-4780

  7. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-4073-6820

  8. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-9910-257X

  9. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-6887-5370

  10. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8190-2015

  11. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-4722-8305

  12. Vitória – Espírito Santo – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-9387-7144

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Copyright (c) 2026 Geovani Felix Cordeiro, Suedina Penha Stofel, Gabriela Repke Novelli, Joicy Meri Felix da Silva, Pauliane de Carvalho Paviotti, Kássio Félix Cordeiro, Fernando Hideki Kabasawa, Meyriane Vieira Muzi, Leonardo Bizzo de Pinho Borges, Victória Lacerda, Debora Cristina da Silva Pereira Ferri, Ronielson Xavier de Jesus (Autor)

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