A educação e os desafios da aprendizagem na era do século XXI: creches um lugar para refletir.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Este artigo apresenta uma reflexão crítica sobre o papel das creches integrais e noturnas no processo de desenvolvimento humano e formação das subjetividades na sociedade contemporânea. Parte-se da compreensão de que a expansão das políticas de educação infantil em tempo integral tem sido amplamente legitimada por discursos relacionados à garantia de direitos, à proteção social e à ampliação das oportunidades educacionais. Contudo, questiona-se quais interesses políticos, econômicos e sociais fundamentam a ampliação desses espaços institucionais e quais implicações decorrem da redução do tempo de convivência familiar e comunitária no desenvolvimento integral das crianças. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, fundamentada na perspectiva de Gil (2017), desenvolvida a partir da análise de obras clássicas e contemporâneas relacionadas à aprendizagem, ao desenvolvimento humano, à subjetividade e à organização social. As reflexões evidenciam que a constituição humana envolve dimensões biológicas, psicológicas, afetivas, sociais, culturais e históricas, sendo a família um espaço fundamental para a construção da identidade, da afetividade e das relações sociais. Conclui-se que a análise das creches integrais e noturnas exige a consideração dos múltiplos fatores que compõem o desenvolvimento humano, bem como a problematização dos interesses econômicos e políticos que permeiam a expansão dos processos de institucionalização da infância, reafirmando a necessidade de fortalecimento das relações entre família, comunidade e escola na formação integral da criança.

Palavras-chave: educação infantil; creches integrais; desenvolvimento humano; família; subjetividade; capitalismo.

ABSTRACT

This article presents a critical reflection on the role of full-time and night-care daycares in the process of human development and the formation of subjectivities in contemporary society. It begins with the understanding that the expansion of full-time early childhood education policies has been widely legitimized by discourses regarding the guarantee of rights, social protection, and the broadening of educational opportunities. However, it questions which political, economic, and social interests underpin the expansion of these institutional spaces and what implications arise from the reduction of time spent in family and community interaction regarding children's holistic development. Methodologically, this is a bibliographic study based on Gil’s (2017) perspective, developed through the analysis of classic and contemporary works related to learning, human development, subjectivity, and social organization. The reflections highlight that human constitution involves biological, psychological, affective, social, cultural, and historical dimensions, with the family serving as a fundamental space for the construction of identity, affectivity, and social relationships. The study concludes that analyzing full-time and night-care daycares requires considering the multiple factors that make up human development, as well as critically examining the economic and political interests permeating the expansion of childhood institutionalization, thereby reaffirming the need to strengthen the relationships between family, community, and school in the child's holistic development.

Keywords: early childhood education; full-time daycares; human development; family; subjectivity; capitalism.

INTRODUÇÃO

As transformações ocorridas nas políticas públicas educacionais brasileiras nas últimas décadas têm ampliado significativamente o debate sobre o papel das instituições de Educação Infantil no processo de formação e desenvolvimento humano. Nesse contexto, a expansão das creches de tempo integral e noturnas tem sido apresentada como estratégia de garantia de direitos sociais, promoção da equidade e ampliação das oportunidades educacionais para crianças pertencentes, sobretudo, às populações em situação de vulnerabilidade social. Entretanto, a ampliação desses espaços educativos suscita importantes reflexões acerca das concepções de infância, desenvolvimento humano, formação integral e das relações estabelecidas entre educação, família e sociedade.

Partindo dessa perspectiva, este artigo propõe discutir o processo de educação escolar e desenvolvimento integral do indivíduo humano, tomando como referência contribuições teóricas de pesquisadores que desenvolveram estudos sobre aprendizagem, desenvolvimento humano, subjetividade e organização social. Busca-se compreender o espaço da creche em sua amplitude pedagógica, social e política, considerando as diretrizes estabelecidas pela Constituição Federal de 1988, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A problemática que orienta esta investigação consiste em compreender quais interesses sociais, políticos, econômicos e educacionais estão envolvidos na expansão das creches integrais e noturnas e de que forma esses espaços influenciam a constituição da subjetividade, o desenvolvimento integral e as relações familiares das crianças. Nesse sentido, questiona-se: para quem e para quais finalidades são construídos os modelos contemporâneos de educação infantil integral? Quais concepções de desenvolvimento humano fundamentam esses projetos? E de que maneira a ampliação do tempo institucionalizado da infância pode impactar os processos de formação afetiva, social, cultural e política dos indivíduos?

Diante dessas questões, o objetivo deste artigo é refletir criticamente sobre o papel das creches integrais e noturnas na formação do indivíduo contemporâneo, analisando suas relações com os processos de aprendizagem, desenvolvimento humano, organização social e interesses econômicos presentes na sociedade capitalista. Para tanto, são mobilizadas contribuições teóricas de autores como Robert Gagné, Karl Marx, Michel Foucault, Sigmund Freud, Lev Vygotsky e Henri Wallon, cujas produções possibilitam compreender as múltiplas dimensões envolvidas na constituição humana.

Metodologicamente, este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, desenvolvida a partir da análise e interpretação de obras científicas, livros, artigos e documentos normativos relacionados ao tema investigado. Conforme Gil (2017), a pesquisa bibliográfica é elaborada com base em material já publicado, possibilitando ao pesquisador o contato direto com diferentes perspectivas teóricas e contribuindo para a construção de análises críticas e reflexivas sobre determinado fenômeno social. Assim, a investigação fundamenta-se na revisão e problematização da literatura especializada, buscando compreender as relações entre educação infantil, desenvolvimento humano, família e sociedade contemporânea.

Teorias da Aprendizagem e o desenvolvimento da Criança

Iniciaremos este trabalho sob a perspectiva de Robert Gagné, (1985) referente aos níveis de aprendizagem. A escolha por iniciar esse tema com as reflexões de Gagné, se dá pelo fato de que este autor, apresenta uma das contribuições mais relevantes da Psicologia Educacional do século XX, principalmente na área  do planejamento instrucional.

Ressalta-se que ele segue uma perspectiva cognitivista, é sua teoria busca compreender os diferentes tipos de aprendizagem como também as condições necessárias para que ela aconteça de maneira eficaz. Gagné (1985), percebe que a aprendizagem não é um processo único e homogêneo, mas que é um processo constituído por diferentes níveis ou tipos, em que cada um exige condições específicas de ensino.

Salienta-se que Gagné (1985) desenvolveu sua teoria fazendo a integração de pressupostos behavioristas e cognitivistas, em que reconheceu a importância dos estímulos externos quanto dos processos internos dos indivíduos que estão no processo de aprendizagem. Deste modo o autor, define que a aprendizagem refere-se a uma mudança relativamente permanente na capacidade humana, que não se deve atribuí- la apenas ao desenvolvimento biológico.

Ao colocar em sua teoria que diferentes resultados de aprendizagem exigem diferentes condições internas que estão de fato relacionadas ao indivíduo como ainda as condições externas que são relacionadas ao ambiente e também as instruções recebidas pelo indivíduo. O que permite a reflexão de que o ensino deve ser planejado de acordo com o tipo de aprendizagem que se deseja alcançar.

A partir desta perspectiva levanta-se algumas questões, para quem, como, onde e porque cada dia mais se constrói a narrativa positiva sobre as creches? Quem interessa promover a formação dos indivíduos que são usuários desses espaços integrais? Qual o planejamento de aprendizagem e desenvolvimento integral das crianças está sendo construído? Qual a formação da equipe que vai elaborar esse planejamento e quem são esses profissionais? e por fim fica a questão que tem incomodado, que tipo de indivíduo o sistema capitalista está querendo criar diante dos contextos de uma ampliação das relações virtuais e desconexões sociais?

Os espaços escolares integrais, tem se tornado aprisionamento das subjetividades das novas gerações, o que de fato o sistema econômico neoliberal deseja para o futuro utilizando o sistema educacional como ferramenta para atender seus interesses, sem dúvida a intenção está encoberta pelas narrativas de construção de novas políticas públicas para a população vulnerável, como sendo caminho para a ascensão.

Outro sim, a captura violenta do tempo de convívio das famílias, que tem seu tempo roubado pelo sistema que manipula a prática reflexiva dos indivíduos que vivem nas periferias ou às margens da sociedade. Primeiro se dissemina o discurso depois legitima pela aceitação alienante da sociedade que considera a superficialidade das intenções positivas e não elabora uma visão crítica e política dos projetos.

A captura barata do tempo de trabalho dos adultos no século XXI, está entrelaçada pelos interesses do capital. O processo de criação de Creches integrais e noturnas, são legitimadas pela manipulação por meio de narrativas de oportunidade, muito antes da construção desses espaços fechados, o sistema dominante e lucrativo constrói um discurso de possibilidades para ascensão.

O que é bem apresentado por Marx (2010-2013) sobre o valor das mercadorias ser determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-las. Para o autor no capitalismo, a força de trabalho também se transforma em uma mercadoria, sendo vendida pelo trabalhador ao capitalista em troca de um salário.

Mas, deve-se compreender que, o valor pago ao trabalhador em forma de  salário, refere-se somente ao tempo necessário para sua reprodução em outras palavras para garantir a subsistência do sujeito. A partir de uma formação crítica e política o indivíduo perceberá que durante a jornada de trabalho, o trabalhador produz um valor superior ao equivalente ao seu salário.

O que se refere a essa diferença é apropriada pelo capitalista. Outrossim, deve-se analisar os formatos estruturais e organizacionais dos espaços creches, em que desde sua primeira formação o indivíduo é condicionado a viver vinte e quatro horas trancafiadas em ambientes como supermercados, lojas, empresas, fábricas, frigoríficos entre outros lugares de trabalho. 

 A intenção e os interesses destes projetos alinhados à execução da construção de Creches integrais e noturnas, parecem levar em sua base fundamental as perspectivas de Watson (1930, p. 104) 

Dê-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem formadas, e meu próprio mundo específico para criá-las, e eu garanto escolher qualquer uma ao acaso e treiná-la para se tornar qualquer tipo de especialista que eu possa selecionar, médico, advogado, artista, comerciante e até mesmo mendigo ou ladrão, independentemente de seus talentos, inclinações, tendências, habilidades, vocações e raça de seus antepassados.

Mas, o que de fato o sistema neoliberal intenciona é a efetivação da mais-valia que é justamente o valor excedente produzido pelo trabalhador além do necessário para remunerar sua força de trabalho. Deste modo trata-se da parcela do trabalho não pago que é apropriada pelo capitalista como lucro. Se existe a possibilidade de construir uma vida humana sem senso crítico e político, logo se torna interessante construir espaços de condicionamento integral do sujeito, a final qual a real condição das populações vulneráveis,diante do sistema capitalista. Logo, ler as obras de Marx, Nietzsche, Foucault entre outros pensadores que questionam e problematizam o sistema capitalista, religioso, político,econômico e vulnerabilidades, é proibido. Isso porque o sistema que domina cria a narrativa negativa desses estudos críticos, fomentando o medo coletivo nas populações vulneráveis de conhecer as obras desses autores.

Compreende-se que a construção desses espaços de aprisionamento dos corpos infantis possibilita a fragmentação dos vínculos familiares sendo desta forma menos coletivos e mais individualista acreditando na ilusão da meritocracia. O ser humano aprende a viver com sua condição de aprendizagem, segundo Gagné (1980) existem oito níveis hierárquicos de aprendizagem, iniciando com a aprendizagem de sinais que é semelhante ao condicionamento clássico, ocorre quando um indivíduo aprende a responder a um estímulo específico. No contexto das creches deve-se questionar quais são esses estímulos condicionantes que as crianças são submetidas? 

Os Processos de Aprendizagem e a Formação das Subjetividades na Infância

Sendo que o segundo nível refere-se a aprendizagem de estímulo-resposta a qual envolve a associação entre um estímulo e uma resposta específica. O que se deseja como resposta e quem quer a resposta a partir do estímulo ofertado? Como terceiro nível, o autor apresenta o encadeamento que refere-se à aprendizagem de uma sequência de ações.

O que parece bem óbvio, que as ações sequenciadas estão inteiramente ligadas aos comportamentos comerciais para criação de indivíduos mecanizados para função específica do mercado de trabalho. O quanto nível fala da associação verbal que diz respeito a aprendizagem de cadeias verbais, como memorizar conceitos ou definições. Se nesses espaços sequestra das crianças a oportunidade de experimentar o meio social e ambiente, aprendendo por meio das relações estabelecidas pelo próprio indivíduo. O quinto nível versa sobre a discriminação múltipla, que destaca a capacidade de diferenciar estímulos semelhantes.

 A aprendizagem de comportamentos ensinados na creche e o próprio ambiente e suas estruturas em que viveram por toda infância, são semelhantes aos espaços comerciais que serão reconhecidos e naturalizados como forma de viver. Como sexto nível o autor apresenta a aprendizagem de conceitos, neste encontra-se a habilidade do sujeito na identificação de características comuns entre objetos ou ideias. As ideias superficiais e simplistas sobre as questões sociais e políticas, conteúdo sem problematização tornam-se copiadas de ações a serem reproduzidas no mercado de trabalho. Como sétimo, Gagné assinala a aprendizagem de princípios, o que seria a compreensão de relações entre conceitos. Quais relações estão sendo estabelecidas e incentivadas, quais conceitos estão sendo criados nessas subjetividades.

 Por fim, o autor coloca a resolução de problemas o que seria o nível mais complexo, que exige a combinação de princípios previamente aprendidos. Neste, não há dúvidas os espaços escolares integrais para crianças, tem princípios ensinados bem definidos pois são diretamente ligados a aceitação da meritocracia, do individualismo, da ausência dos afetos, do vínculo comunitário o que fragmenta os movimentos sociais das massas.

Diante das estruturas e organização das creches integrais na contemporaneidade, é necessário recorrer aos pensamentos analíticos sobre o sistema se encontra na obra Vigiar e Punir, 2014 do pesquisador Foucault, escrita onde demonstra que a prisão não surgiu somente como alternativa humanitária da mortificação corporal do Antigo Regime, mas se institui como caminho de uma nova tecnologia de poder, que é o poder disciplinar. Deve-se assinalar que esse poder não tem sua atuação apenas com punição, mas com a intenção clara de organizar, controlar e normalizar os indivíduos.

A partir de Foucault (2014) compreende-se que a prisão não tem como principal função somente punir o crime, mas produzir sujeitos disciplinados. É lógico pensar que o encarceramento tem o poder de organizar o tempo, distribuindo os corpos nos espaços, impondo vigilância constante e estabelecendo sistemas de avaliação e correção. O mais óbvio a criação e organização desses espaços trata-se de um mecanismo que visa transformar o indivíduo através da disciplina.

Foucault (2024), expandiu sua análise pontuando que outras instituições modernas, entre elas as escolas, também fazem parte desse sistema de controle dos corpos. A escola moderna em especial, compartilha com a prisão os mesmos princípios organizacionais com a: vigilância, hierarquização, exame e normalização. A educação não tem um princípio neutro, visto que seu funcionamento se dá pelo mecanismo de produção de subjetividades. Necessita apenas que seja observado como ocorre a organização das salas de aula, a divisão por séries/anos, além do controle do tempo por meio de horários rígidos, encontra-se ainda a aplicação de exames, que são exemplos de práticas disciplinares que moldam comportamentos e internalizam normas.

Com base nos pensamentos contidos nas produções psicanalíticas de Freud, a família ocupa posição central na constituição psíquica do indivíduo. Para este autor as primeiras relações estabelecidas na infância são determinantes na formação da personalidade, na organização do aparelho psíquico e na estruturação da vida emocional. Sendo portanto o convívio familiar um espaço primordial onde a criança vivencia experiências afetivas fundamentais, internalizando normas e construindo as bases de sua subjetividade.

Observa-se que desde 1905 quando Freud produziu sua obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, que os estudiosos se preocupavam com a formação do sujeito. Freud (2016) afirma que a vida psíquica se inicia na infância, que é marcada por fases do desenvolvimento psicossexual, a qual refere-se a fase oral, anal, fálica, latência e genital. É válido destacar que cada fase descrita por Freud, está diretamente relacionada às interações da criança com seus cuidadores, que geralmente são representados pelas figuras parentais.

Desenvolvimento Infantil, Vínculos Familiares e Educação na Primeira Infância

Com fundamentação nesta abordagem considera-se que o convívio familiar tem o poder de fornecer os primeiros objetos de amor e identificação. É através dessas relações que a criança aprende a enfrentar as frustrações, os desejos e limites. Não se deve descartar a importância das experiências vividas nesse contexto familiar que influencia a forma como o sujeito organizará seus afetos e estabelecerá suas relações sociais e vínculos no decorrer da vida.

As produções deste autor, tem grande relevância no campo da educação visto que Freud (2011), traz em seus trabalhos a importância da família ao abordar sobre o Complexo de Édipo. O autor assinala que, na fase fálica, a criança desenvolve desejos amorosos em relação ao genitor do sexo oposto  experimentando assim, sentimentos ambivalentes que é marcado pelo amor e pela rivalidade em relação ao genitor que tem o mesmo sexo.

Conforme Freud (2011) a resolução do Complexo de Édipo é fundamental para a constituição do superego, da criança, visto que esta é a instância psíquica responsável pela internalização das normas e da autoridade parental. Assim, torna-se imprescindível que o convívio familiar não apenas forneça afeto e proteção, mas também introduza a criança no universo das regras sociais e da moralidade.

Freud (2011), destaca ainda que a identificação com as figuras parentais desempenha papel primordial na formação do ego. É no convívio com os familiares que a criança incorpora características, valores e modelos de comportamento observados no ambiente familiar. Esse processo de identificação é fundamental para a construção da identidade, o modo como os pais exercem autoridade e oferecem cuidado direto com as crianças, isso influencia diretamente o desenvolvimento emocional. 

Encontra-se na obra O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud (2010) a ampliação de análise de Freud, ao afirmar que a família é a primeira instância de mediação entre o indivíduo e a cultura. Alertando que é no ambiente familiar que a criança aprende a renunciar à satisfação imediata de seus impulsos em nome da convivência social. Assim, o convívio familiar é simultaneamente o lugar em que acontece proteção, imposição de limites, colaborando na formação integral do sujeito.

Neste contexto, compreende-se que as creches de tempo integral e noturnas, tem em sua forma de existir os interesses únicos do capitalismo, que coloca os espaços de escolarização como um laboratório que de forma prática já seleciona as peças para cada setor da engrenagem do sistema empresarial. 

Segundo a Constituição Federal (1988), no Art. 205, define que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, sendo promovida com colaboração da sociedade. Na Lei de Diretrizes e Base (LDB) em seu Artigo 2º, traz definição de que a educação, é dever da família e do Estado, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do aluno. O Artigo 29 da LDB, é claro ao estabelecer que a Educação Infantil que se refere a creche e pré-escola, possui a finalidade de promover o desenvolvimento integral da criança até seis anos, complementando a ação da família e da comunidade.

Diante destas considerações das leis, as creches de tempo integral e noturna, promovem que tipo de educação infantil com a colaboração dos pais, sendo que as crianças passam a maior parte do tempo nesses espaços educativos. Como tem acontecido a participação da família no processo de formação integral das crianças, visto que tanto as leis quanto os autores, trazem a relevância desta vivência familiar e social para o desenvolvimento integral da criança. Conforme os princípios contidos no Art. 3º, da LDB, a gestão democrática e a valorização da experiência extraescolar valorizam a participação comunitária. Por qual motivo esses projetos de criação dos espaços de educação integral não levam em consideração o que se estabelece na lei como o Art. 12 da LDB, que trata sobre a responsabilidade das instituições de ensino que devem articular-se com as famílias, criando processos de integração da sociedade com a escola. Brasil (2018. p. 34) afirma que:

Nesse contexto,  as creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à educação familiar – especialmente quando se trata da educação dos bebês e das crianças bem pequenas, que envolve aprendizagens muito próximas aos dois contextos (familiar e escolar), como a socialização, a autonomia e a comunicação. 

Esta ideia pode ser compreendida a partir da perspectiva de Lev Vygotsky em nas obras, A Formação Social da Mente (1998) e Pensamento e Linguagem (2001.) o qual afirma que o desenvolvimento infantil tem o papel central das interações sociais e no que se refere a formação das funções psicológicas superiores. De modo que o desenvolvimento da criança não acontece de forma reclusa ou puramente biológica, este está diretamente ligado ao resultado da mediação cultural realizada por pessoas mais experientes, entre elas, a família ocupa um lugar primordial.

Através da teoria histórico-cultural criada pelo pesquisador Vygotsky, compreende-se que o aprendizado precede e impulsiona o desenvolvimento. Nesse contexto, o entendimento sobre o que é colocado por Vygotsky (1998-2001), é de que a família representa o primeiro e mais significativo ambiente de aprendizagem da criança. E de que é no convívio familiar que a criança tem contato inicial com a linguagem, os valores, as normas sociais e os significados culturais que vão estruturar e estabelecer seu pensamento. Destaca-se que para o referido autor a linguagem, é o principal instrumento de mediação cognitiva, que de início é internalizada a partir das interações com pais, responsáveis e/ou outros membros da família.

Um outro conceito importante e central da teoria vygotskiana é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que é definida como a distância entre aquilo que a criança consegue realizar sozinha e aquilo que ela consegue realizar com a mediação de um adulto ou de um par mais experiente. A família, nesse sentido, atua como mediadora essencial, oferecendo apoio, orientação e estímulos que possibilitam à criança a progredir em suas capacidades cognitivas, emocionais e sociais. Observa-se que todos os estudiosos do desenvolvimento humano defendem a relevância da participação efetiva dos familiares, no processo de orientar, dialogar, explicar e incentivar, criando oportunidades para que a criança internalize conhecimentos e desenvolva autonomia progressivamente.

A perspectiva de Vygotsky, além de abordar sobre o desenvolvimento cognitivo, permite compreender a importância da família na formação afetiva e social da criança. Considera-se que as relações estabelecidas no seio familiar contribuem para a formação da identidade, da autoestima e da capacidade de regulação emocional. Destaca-se ainda que é neste ambiente familiar que a criança aprende a trabalhar com sentimentos, frustrações e conflitos através das interações cotidianas, internalizando modos de agir e pensar que são culturalmente compartilhados.

Salienta-se que um dos aspectos relevantes da teoria de Vygotsky, é de que o desenvolvimento do indivíduo é inseparável do contexto histórico e cultural. Observa-se nesta perspectiva teórica que a família não compartilha apenas conteúdos, mas suas práticas, crenças e formas de organização social que remetem a cultura em que se encontra inserida. Portanto fica entendido que o ambiente familiar influencia diretamente a maneira como a criança interpreta o mundo e participa dele.

Assim, esse artigo propõe uma reflexão sobre as formas como são elaboradas e construídas as ideias, narrativas, discursos e estruturas. Como acontece essa engenharia ideológica do capital, que manipula e convence as massas com suas intenções lucrativas. Queremos aqui voltar a reflexão de algo que é tão óbvio e as populações de trabalhadores não conseguem ver, com base em que teoria esses projetos são realizados, tendo uma certa urgência em sua efetivação, rápido se tem recurso para construir uma creche com funcionamento integral que se estende pela noite. Para quem são criados esses espaços, para as famílias, crianças? A grande maioria dirá para colaborar e criar possibilidades para as mães solos e outras mulheres poderem trabalhar. Outra parte dirá para que as futuras gerações tenham acesso às políticas públicas mais cedo. Poucas pessoas dirão, que este projeto é arquitetado e construído para o sistema econômico, a fim de atender a longo prazo o  mercado de trabalho.

Um outro autor que tem importante relevância para refletirmos sobre as questões trabalhadas neste artigo é Wallon (1995-2007) no qual sua teoria contribui grandemente com o campo da educação, visto que este pesquisador atribui papel central às dimensões afetiva, social e motora na constituição da criança. Possibilitando a compreensão do desenvolvimento como um processo dialético, assinalado pela integração entre indivíduo e meio. Nesse contexto, nota-se que a família assume posição essencial, visto que refere-se ao primeiro grupo social no qual a criança faz parte, sendo o lugar onde estabelecem as bases de sua formação integral.

Ressalta-se que para este autor, o desenvolvimento infantil acontece no forma alternância funcional entre afetividade e inteligência, em que nos primeiros anos de vida a afetividade  a afetividade é predominante. Pode-se observar nesta perspectiva que no estágio impulsivo-emocional, encontra-se caracterizado o início do desenvolvimento, momento em que a criança estabelece sua relação com o mundo principalmente através das emoções. É notório que é no ambiente familiar que essas primeiras manifestações afetivas recebem acolhimento e significado. A teoria walloniana permite compreender que as interações das crianças com os pais possibilitam à criança construir vínculos, desenvolver a confiança básica e iniciar o processo de constituição do eu.

Para compreender o quanto é preocupante a existência de instituições infantis integrais e noturnas, deve-se considerar que estas são construídas sem levar em consideração o que também é abordado por Wallon (1995-2007) ao defender que a emoção possui função organizadora do psiquismo, a qual é a  mediadora das relações sociais. De maneira que a qualidade das interações familiares influencia diretamente no processo de desenvolvimento emocional e cognitivo da criança. É no espaço familiar, onde se oferece segurança, estímulo e reconhecimento, contribuindo assim, com a formação da identidade e da personalidade da criança.

 Além disso, a teoria walloniana enfatiza a integração entre motricidade, afetividade e cognição. Sendo o contexto familiar, as experiências corporais, os cuidados físicos e o compartilhamento dos afetivos, elementos indissociáveis que estruturam o desenvolvimento global. Portanto, nesta perspectiva  a família não somente atende às necessidades biológicas, mas também desenvolvem funções estruturantes na organização psíquica e social da criança.

Considera-se neste trabalho que várias são as problemáticas que merecem ser revistas, na construção de creches que prestam serviços integrais e noturnos. Avaliar de forma teórica e coerente, compreender os diversos aspectos que é constituinte do indivíduo, visto que este é biopsicossocial e espiritual. Sendo as instituições de ensino brasileiro laicas, como ocorre a formação de valores culturais, religiosos e os vínculos familiares, se a função dessas instituições é ofertar formação crítica, ética, política e de cidadania. 

A reflexão apontada neste artigo, não se refere à não existência das creches, mas sim como os serviços são ofertados. Desde que esses espaços funcionem de forma regular em que permite às crianças terem outras vivências e experiências com o mundo externo. Que possam criar vínculos afetivos com seus familiares e seu grupo social, aprendendo sobre sua cultura e sua religiosidade, experimentando os primeiros ensinamentos e construindo suas primeiras afetividades no ambiente familiar. O que considera-se neste trabalho é que esses espaços de creches integrais e noturnas, não são criados para atender as necessidades familiares ou das crianças, eles intencionam atender as exigências do sistema capitalista e fornecer mão de obra barata que possa aumentar seus lucros. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considera-se que os projetos desenvolvidos e efetivados no campo educacional no que se refere às creches, cabe uma reflexão sobre a formação da sociedade moderna. Refletir sobre a necessidade das famílias em “encarcerar” cada vez mais cedo seus filhos(as) é pensar sobre as exigências económicas e a exploração do trabalhador para o crescimento produtivo das empresas que exportam e importam em grande quantidade, roubando dos trabalhadores o direito de criar vínculos com seus filhos (as) e vice e versa.

As intenções do sistema econômico é promover uma indústria de pessoas formadas para servir e não a criação de estabelecimentos de ensino que forme cidadãos críticos, políticos e participativos. Refletir que o projeto das creches integrais e noturnas é intencional e bem elaborado, visa a escravização moderna globalizante com requinte de crueldade virtual.

Desde os primórdios é assinalado a importância do desenvolvimento humano de forma integral ou seja, em seus aspectos biopsicossocial, cultural, religioso e espiritual, sendo a família responsável pela formação moral, ética, cultural, emocional e religiosa. Em que estas vivências são primordiais para formação da empatia e do vínculo do indivíduo com a natureza/meio e que seja capaz de estabelecer bons relacionamentos.

É relevante retomar a leitura de autores como os que foram usados neste artigo para que seja possível perceber o caminho perigoso que a educação brasileira está elaborando e efetivando para as futuras gerações. Considera-se extremamente importante compreender a formação humana na sua integralidade e não confundir educação de tempo integral (corpos infantis dentro de um espaço educacional fechado integralmente) enquanto a formação integral do indivíduo, refere-se a amplitude do desenvolvimento do indivíduo deste a capacidade de relacionar-se como o meio e consigo mesmo aprendendo com o meio externo.

 Está compreensão é fundamental, visto que  o sistema capitalista tem usado das ferramentas da educação para criar seus próprios discursos e confundir os conceitos criados pelos teóricos do desenvolvimento humano. Neste sentido, este trabalho tem como objetivo propor uma reflexão sobre a utilização da educação como ferramenta de controle dos corpos infantis e exploração da mão de obra moderna.

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  1. Graduado em História pela UFT, Psicologa pela FACDO, Licenciada em Pedagogia pela UNicesumar e Mestre em Cultura e Território pela UFT, Doutora em Psicologia pela UFPA Professora substituta na Universidade Federal do Norte do Tocantins. E-mail: suelimarquespsicologaarg@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3635-5412

  2. Graduada em Nutrição pela UNOPAR licenciada em Geografia pela UFNT mestre em cultura e território pela UFNT. E-mail: thamiresferraz324@gmail.com Orcd: https://orcid.org/0009-0001-4054-1704://orcid.org/0009-0001-4054-170

  3. Graduado em História pela UFT, Licenciado em Pedagogia, Mestre em Cultura e Território Doutor em Psicologia pela UFPA. E-mail: elipreparamestrado@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6819-0969. Professor da rede pública municipal de Porto Franco MA

  4. Graduada em História pela UFT, Licenciada em Artes pela UFT, Graduada em Estética pela UNOPAR. E-mail. damrysestética@outlook.com Orcid: https://orcid.org/0009-0006-5202-1294.

  5. Graduada em Psicologia, Mestrado em psicologia pela UFPA, Doutorado pela UFPA, Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0184-6668.

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Copyright (c) 2026 Suelí Marques Ferraz, Thamires Marques Ferraz Saraiva, Eli da Silva Duarte, Damarys Marques Ferraz Saraiva, Fernanda Cristine dos Santos Bengio (Autor)

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