RESUMO
O presente estudo tem como objectivo analisar os principais factores associados à hipertensão arterial em mulheres gestantes no Hospital Municipal do Cuima. A hipertensão arterial durante a gestação constitui um dos principais problemas de saúde pública, sendo responsável por diversas complicações maternas e perinatais em diferentes contextos sociais. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa de natureza descritiva e exploratória, com abordagem quantitativa, realizada a partir da aplicação de questionários dirigidos às gestantes, à comunidade e aos profissionais de saúde da maior unidade sanitária local. Os resultados indicam que factores como gravidez na adolescência, idade materna avançada, baixo nível de escolaridade, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e conhecimento limitado da comunidade sobre eclâmpsia podem contribuir para o aumento do risco de hipertensão gestacional. Verificou-se também que parte significativa da comunidade relata casos de mortes relacionadas à gravidez ou ao período pós-parto, o que evidencia a necessidade de fortalecer os serviços de saúde materna. Conclui-se que a melhoria do acompanhamento pré-natal, o reforço das acções de educação em saúde e a ampliação do acesso aos serviços médicos são medidas fundamentais para prevenir a hipertensão arterial em gestantes.
Palavras-chave: hipertensão gestacional; saúde materna; e pré-natal.
ABSTRACT
The aim of this study is to analyse the main factors associated with high blood pressure in pregnant women in Cuima Municipal Hospital. High blood pressure during pregnancy is one of the main public health problems, responsible for several maternal and perinatal complications in different social contexts. From a methodological point of view, this is a descriptive and exploratory study with a quantitative approach, based on questionnaires administered to pregnant women, the community, and health professionals at the largest local health facility. The results indicate that factors such as teenage pregnancy, advanced maternal age, low level of education, difficulties in accessing health services and limited community knowledge about eclampsia may contribute to an increased risk of gestational hypertension. It was also found that a significant part of the community reports cases of deaths related to pregnancy or the postpartum period, which highlights the need to strengthen maternal health services. It is concluded that improving prenatal care, strengthening health education actions, and expanding access to medical services are fundamental measures to prevent high blood pressure in pregnant women.
Keywords: gestational hypertension; maternal health; prenatal care.
INTRODUÇÃO
A gravidez constitui um período marcado por diversas transformações fisiológicas, emocionais e sociais na vida da mulher. Durante esse processo, algumas condições clínicas podem surgir e comprometer a saúde materna e fetal. Entre essas condições, destaca-se a hipertensão arterial gestacional, considerada uma das principais causas de morbidade e mortalidade materna em diferentes regiões do mundo, principalmente em países em desenvolvimento.
As doenças hipertensivas da gestação permanecem sendo uma das principais causas de morbimortalidade para as gestantes e os fetos. Essas doenças caracterizam-se pela elevação dos níveis de pressão arterial após a vigésima semana de gestação, podendo evoluir para complicações graves como pré-eclâmpsia e eclâmpsia.
Diversos factores podem contribuir para o desenvolvimento da hipertensão durante a gestação. De acordo com Araújo et al. (2017), a obesidade e o histórico familiar de hipertensão são considerados determinantes importantes para o desenvolvimento da doença. Esses factores contribuem para alterações metabólicas e inflamatórias que aumentam a probabilidade de disfunções vasculares durante a gravidez.
Estudos indicam ainda que mulheres com doenças crónicas, como diabetes e distúrbios endócrinos, apresentam maior predisposição para desenvolver hipertensão gestacional (SILVA et al., 2024; MAGEE et al., 2022). Além disso, factores sociais, como baixo nível de escolaridade e dificuldades de acesso ao sistema de saúde, podem agravar o risco da doença.
No município do Cuima, entre os mais frequentes destacam-se a idade materna precoce ou avançada, obesidade, histórico familiar de hipertensão, doenças crónicas, baixo nível de escolaridade e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Além disso, a falta de acompanhamento pré-natal adequado pode dificultar o diagnóstico precoce da doença, aumentando o risco de complicações maternas e fetais.
Desse modo, o presente estudo tem como objectivo analisar os principais factores da hipertensão arterial em mulheres gestantes no Hospital Municipal do Cuima.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1. A Hipertensão Arterial na Gestação
A compreensão da hipertensão arterial na gestação constitui um passo essencial para a análise dos seus factores e consequências. Ao reconhecer a complexidade desta condição clínica, torna-se possível compreender a sua natureza multifactorial e a necessidade de abordagens preventivas baseadas em evidências teóricas e empíricas.
Os distúrbios hipertensivos da gravidez são muito comuns na população mundial, acometendo cerca de 5 a 10% das gestantes, além de serem a principal causa de mortalidade materna na América Latina e a segunda principal causa nos países desenvolvidos. Esses distúrbios podem ser classificados em quatro tipos: pré-eclâmpsia (PE) e eclâmpsia; hipertensão crônica de qualquer etiologia; pré-eclâmpsia sobreposta à hipertensão crônica; hipertensão gestacional (MESSEDER, 2023).
A hipertensão arterial na gravidez é caracterizada pela elevação da pressão arterial acima de 140/90 mmHg após a vigésima semana de gestação em mulheres previamente normotensas. Esta condição pode evoluir para complicações graves, como pré-eclâmpsia e eclâmpsia, sendo considerada uma das principais causas de mortalidade materna em vários países (SIBAI, 2019; CUNNINGHAM et al., 2020).
A expressão “hipertensão na gravidez” recebe a designação geral de síndromes hipertensivas gestacionais (SHG). Estas são caracterizadas por níveis pressóricos iguais ou acima de 140 mmHg para a pressão sistólica e igual ou acima de 90 mmHg para pressão diastólica, sendo esta identificada na fase V de Korotkoff. (FRANCISCO, 2015).
Segundo Cunningham et al. (2020), as síndromes hipertensivas da gestação correspondem a um conjunto de distúrbios clínicos associados a alterações vasculares e inflamatórias que comprometem a circulação uteroplacentária. Para Sibai (2019), tais alterações decorrem de disfunções endoteliais que dificultam a adaptação fisiológica do organismo materno às mudanças hemodinâmicas da gravidez.
Autores como Magee et al. (2022) e Brown et al. (2018) destacam que a hipertensão gestacional é uma condição complexa cuja etiologia envolve factores genéticos, metabólicos e ambientais.
2.2. Principais Factores de Risco da Hipertensão Gestacional
Os factores de risco associados à hipertensão durante a gestação são amplamente discutidos por especialistas preocupados com a saúde pública. Entre os principais destacam-se idade materna superior a 35 anos, obesidade, histórico familiar de hipertensão, diabetes gestacional, múltiplas gestações e condições socioeconómicas desfavoráveis das famílias.
Nas mulheres em idade fértil, a prevalência de hipertensão arterial varia de 0,6 a 2,0%, na faixa etária de 18 a 29 anos, e de 4,6 a 22,3%, na faixa etária de 30 a 39 anos. Diferentemente dos países desenvolvidos, a hipertensão arterial na gestação permanece a primeira causa de morte materna direta no Brasil (37%), sendo a proporção maior nas regiões Norte e Nordeste em relação ao Sudeste, Sul e Centro-Oeste, (FRANCISCO, 2015).
2.3. Consequências da Hipertensão Arterial para a Mãe e o Feto
As consequências da hipertensão arterial gestacional podem afectar significativamente tanto a mãe quanto o feto. Entre as principais complicações maternas destacam-se insuficiência renal, hemorragia cerebral, descolamento prematuro da placenta e síndrome HELLP.Dessa forma, a compreensão das consequências da hipertensão arterial na gravidez é fundamental para evidenciar a gravidade desta condição e reforçar a importância das estratégias preventivas no contexto da saúde materna.
3. METODOLOGIA
3.1. Local de Estudo
O estudo foi realizado no Município do Cuima, situado a 70 Km da sede da província do Huambo, partilhando fronteiras a norte com o município da Caála, asul com o município do Chipindo, província da Huila, a este com a comuna da Calima, município do Huambo.
O município possui uma população estimada em mais de 86.300 mil habitantes, dos quais 41.426 mil do género masculino e 44.879 do feminino. Conta com um centro de saúde, 6 postos médicos públicos e 2 postos médicos privados e 12 farmácias.
3.2. Tipo de Pesquisa
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, exploratória e de abordagem quali-quantitativa.
3.3. Métodos de Pesquisa
A pesquisa baseou-se nos métodos empíricos e teóricos. Os métodos empíricos utilizados foram: questionário, aplicado aos profissionais de saúde, comunidade local, às mulheres gestantes, no sentido de compreender os factores do problema em estudo, bem como facilitar na identificação das principais necessidades da elaboração deste trabalho; a observação, utilizada para observar o público alvo da investigação, com a finalidade de identificar os problemas que não foram possíveis colher através do questionário.Os métodos teóricos aplicados incluem: análise-síntese e estatístico-matemático, utilizados para fazer uma análise dos dados numéricos, utilizando a estatística descritiva para a obtenção dos resultados percentuais e a determinação das suas frequências, e deste modo, serem utilizados nas tabelas e gráficos para uma melhor interpretação.
3.4. População e Amostra
O estudo teve como população 90 elementos, dos quais, 35 gestantes, 25 profissionais de saúde e 30 elementos que fazem parte da comunidade em geral. Dessa população, extraiu-se uma amostra de 38 elementos, dos quais 15 gestantes, 10 profissionais de saúde e 13 elementos que fazem parte da comunidade em geral, conforme se observa no quadro abaixo:
Quadro nº1: População e amostras
Fonte: (Autora, 2026)
A amostra foi selecionada por meio de amostragem não probabilística, considerando gestantes que aceitaram participar da pesquisa mediante consentimento informado.
4.APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Abaixo apresentam-se e analisam-se os resultados obtidos através dos questionários aplicados às gestantes, à comunidade e aos profissionais de saúde do município do Cuima.
Questionário dirigido às gestantes
- Faixa etária
Os dados recolhidos indicam que a maioria das gestantes encontra-se em idade jovem. Observou-se que 5 gestantes (33%) têm entre 13 e 16 anos, 3 (20%) entre 17 e 20 anos, 3 (20%) entre 21 e 25 anos, 1 (7%) entre 26 e 35 anos e 3 (20%) possuem mais de 35 anos.
Gráfico 1: Faixa Etária das mulheres gestantes
Fonte: (Autora, 2026)
Esses resultados revelam uma elevada presença de gravidez na adolescência, fenómeno frequentemente associado a maiores riscos obstétricos. Estudos apontam que a gravidez precoce pode aumentar a probabilidade de complicações, incluindo hipertensão gestacional, devido à imaturidade fisiológica e à insuficiente preparação para a maternidade (FILHO&MONTENEGRO, 2017).
Por outro lado, a presença de gestantes com idade superior a 35 anos também merece atenção, pois, segundo Febrasgo (2021), a idade materna avançada constitui um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de hipertensão arterial na gravidez.
- Nível de escolaridade
Relactivamente ao nível de escolaridade, verificou-se que 3 gestantes (20%) não estudam, 3 (20%) possuem Ensino Primário, 8 (53%) frequentaram o Ensino Secundário e apenas 1 (7%) possui Ensino Superior.
Gráfico 2: Nível de escolaridade
Fonte: (Autora, 2026)
Os dados acima exposto demonstram que a maioria das gestantes possui nível de escolaridade médio, situação que pode influenciar directamente o conhecimento sobre cuidados de saúde durante a gravidez. De acordo com estudos sobre saúde materna, o nível de escolaridade constitui um importante determinante social da saúde, pois mulheres com maior instrução tendem a procurar mais cedo os serviços de saúde e a aderir melhor às recomendações médicas (BRASIL, 2013).
- Parto cesariana
Quanto ao tipo de parto, os resultados indicam que 7 gestantes (47%) relataram ter realizado parto por cesariana, enquanto 8 (53%) afirmaram não ter passado por esse procedimento.
Gráfico 3: Sobre o parto cesariana
Fonte: (Autora, 2026)
A ocorrência relactivamente elevada de cesarianas pode estar associada a complicações obstétricas, entre as quais se destacam as síndromes hipertensivas da gravidez. Segundo Freitas et al. (2017), a hipertensão gestacional pode levar à necessidade de intervenção obstétrica para evitar riscos à mãe e ao feto.
Questionário dirigido à comunidade
Em relação ao questionário dirigido à comunidade, trabalhou-se com um conjunto de 13 individualidades, que constituíram a amostra da população alvo.
Percepção da comunidade sobre a eclâmpsia e mortalidade materna
- Sobre a eclampsia
Os resultados indicam que 6 membros da comunidade (46%) afirmaram conhecer a eclâmpsia, enquanto 7 (54%) declararam não ter conhecimento sobre a doença.
Gráfico nº 4: Conhecimento sobre enfermidades hipertensivas
Fonte: (Autora, 2026)
Os dados revelam um nível relactivamente baixo de conhecimento comunitário sobre a eclâmpsia, condição grave associada à hipertensão gestacional. A falta de informação sobre essa doença pode dificultar o reconhecimento precoce dos sintomas e atrasar a procura por assistência médica.
Estudos sobre educação em saúde destacam que o conhecimento da população acerca das complicações da gravidez é fundamental para reduzir riscos maternos e neonatais (OMS, 2023).
- Relatos de mortes relacionadas a mulheres grávidas ou pós-parto
Quanto à ocorrência de mortes maternas no Hospital Municipal do Cuima, 8 participantes (62%) relataram conhecer casos de morte de mulheres durante a gravidez ou no período pós-parto, enquanto 5 (38%) afirmaram não ter conhecimento de tais casos.
Gráfico nº 5: Morte por enfermidades hipertensivas
Fonte: (Autora, 2026)
Esse resultado demonstra que a mortalidade materna ainda é uma realidade percebida pela comunidade, evidenciando a necessidade de fortalecer os serviços de saúde materna e as estratégias de prevenção de complicações gestacionais. Segundo Brasil (2012), às síndromes hipertensivas da gestação estão entre as principais causas de morte materna em diversos países em desenvolvimento.
- Dificuldades na procura pelos serviços médicos
No que se refere às dificuldades no acesso aos serviços de saúde, 10 participantes (77%) afirmaram enfrentar dificuldades, enquanto 3 (23%) disseram não ter dificuldades.
Gráfico nº 6: Dificuldade na procura pelos serviços
Fonte: (Autora, 2026)
O resultado revela a existência de barreiras no acesso aos serviços médicos no município do Cuima. Essas dificuldades podem estar relacionadas a factores como distância das unidades de saúde, limitações económicas, falta de transporte ou insuficiência de recursos hospitalares.Segundo Vettore e Dias (2019), as dificuldades de acesso aos serviços de saúde constituem um dos principais factores que contribuem para o agravamento das complicações gestacionais, incluindo a hipertensão arterial.
Questionário dirigido aos profissionais de saúde
- Especialidade dos profissionais na instituição
Relactivamente à especialidade dos profissionais que actuam na instituição, observou-se que 8 (80%) são enfermeiros e 2 (20%) são analistas clínicos.
Gráfico nº 07: Especialidade dos técnicos de saúde
Fonte: (Autora, 2026)
Esse resultado indica que a assistência às gestantes é predominantemente realizada por enfermeiros, profissionais que desempenham papel fundamental no acompanhamento pré-natal, na educação em saúde e na identificação precoce de complicações gestacionais.
- Frequência das mulheres grávidas no centro
Quanto à frequência das gestantes no hospital, 4 profissionais (40%) afirmaram que o atendimento ocorre diariamente, 5 (50%) indicaram frequência semanal e 1 (10%) mencionou atendimento mensal.
Gráfico nº 08: Frequência das utentes
Fonte: (Autora, 2026)
Os dados sugerem que existe uma procura relactivamente frequente pelos serviços de saúde por parte das gestantes. Contudo, a irregularidade na frequência pode indicar dificuldades no acompanhamento contínuo da gravidez.
De acordo com as recomendações da OMS (2023), o acompanhamento pré-natal regular é essencial para a identificação precoce de doenças como a hipertensão gestacional e para a prevenção de complicações maternas e fetais.
CONCLUSÃO
A hipertensão arterial durante a gestação constitui uma condição clínica que representa sérios riscos para a saúde da mãe e do feto, sendo considerada uma das principais causas de complicações obstétricas e mortalidade materna. A presente investigação permitiu identificar diversos factores associados à ocorrência dessa condição entre mulheres gestantes no Hospital Municipal do Cuima.
Os resultados evidenciaram que a gravidez em idade precoce, o nível de escolaridade relactivamente baixo, o conhecimento limitado da comunidade sobre eclâmpsia e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde constituem elementos que podem contribuir para o agravamento da hipertensão gestacional. Além disso, a percepção da comunidade acerca de casos de mortes relacionadas à gravidez reforça a necessidade de fortalecer as estratégias de prevenção e assistência materna.
Outro aspecto relevante observado no estudo refere-se ao papel dos profissionais de saúde no acompanhamento das gestantes, destacando-se a importância do pré-natal regular para a identificação precoce de complicações durante a gravidez. O acompanhamento adequado permite orientar as gestantes sobre cuidados preventivos e garantir intervenções oportunas quando surgem sinais de risco.
Diante disso, torna-se fundamental fortalecer os programas de acompanhamento pré-natal, promover acções educativas e ampliar o acesso aos serviços de saúde para as gestantes, especialmente em contextos com maior vulnerabilidade social, como é o caso das gestantes do município do Cuima.
REFERÊNCIAS
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Licenciado em enfermagem Geral, pela universidade Cuito Cuanavale, Docente do instituto superior Privado do Wako-Cungo. ↑
Licenciada em Ciências Farmacêuticas especialidade-Análises Clínicas pelo Instituto Superior Politécnico Caála, Docente do Instituto Superior Politécnico Waco Cungo ↑
Licenciado em Psicologia da Educação pelo Instituto Superior Politécnico de Humanidades e Tecnologias EKUIKUI-II , Huambo , Angola ↑
Docente Universidade do Instituto Superior Privado do Waku-Kungo ( Polo de Menongue) , na disciplina de Psicomotricidade ( curso de Psicologia) ↑

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