Uso de tecnologias digitais no engajamento e permanência de estudantes na educação de jovens e adultos
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO: O presente artigo analisa o uso de tecnologias digitais como estratégia de engajamento e permanência de estudantes na Educação de Jovens e Adultos (EJA), a partir de uma pesquisa realizada com 20 estudantes e 2 professores do Colégio Municipal Ministro Apolônio Sales, localizado em São Lourenço da Mata – PE. Fundamentado em uma abordagem crítica da educação, especialmente nas contribuições de Freire (1967), o estudo compreende os sujeitos da EJA como protagonistas do processo educativo, portadores de saberes construídos ao longo de suas trajetórias de vida. A pesquisa é de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica, documental e de campo, utilizando questionários e observação como instrumentos de coleta de dados. Os resultados evidenciam que, mesmo na ausência de infraestrutura tecnológica institucional, os smartphones desempenham papel central no processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para o aumento do interesse, da participação e da permanência dos estudantes. Contudo, também foram identificadas limitações relacionadas ao acesso à internet e à formação docente. Conclui-se que o uso das tecnologias digitais, quando articulado a práticas pedagógicas inclusivas, constitui um importante caminho para o fortalecimento da EJA.

Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Tecnologias Digitais. Permanência Escolar. Inclusão Educacional. Prática Pedagógica.

ABSTRACT: This article analyzes the use of digital technologies as a strategy for engagement and retention of students in Youth and Adult Education (EJA), based on a study conducted with 20 students and 2 teachers from the Colégio Municipal Ministro Apolônio Sales, located in São Lourenço da Mata – PE. Grounded in a critical approach to education, especially in the contributions of Paulo Freire (1967), the study understands EJA students as protagonists of the educational process, carrying knowledge built throughout their life trajectories. The research is qualitative in nature, with a bibliographic, documentary, and field-based approach, using questionnaires and observation as data collection instruments. The results show that, even in the absence of institutional technological infrastructure, smartphones play a central role in the teaching-learning process, contributing to increased interest, participation, and student retention. However, limitations related to internet access and teacher training were also identified. It is concluded that the use of digital technologies, when articulated with inclusive pedagogical practices, constitutes an important path toward strengthening Youth and Adult Education (EJA).

Keywords: Youth and Adult Education. Digital Technologies. School Retention. Educational Inclusion. Pedagogical Practice.

INTRODUÇÃO

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui-se como uma modalidade essencial para a garantia do direito à educação, especialmente para aqueles que, por diferentes razões sociais, econômicas e culturais, não tiveram acesso ou continuidade aos estudos na idade considerada regular. No contexto brasileiro contemporâneo, essa modalidade enfrenta desafios históricos, entre os quais se destacam a evasão escolar, a desmotivação dos estudantes e a necessidade de práticas pedagógicas mais inclusivas, contextualizadas e significativas.

Os estudantes da EJA apresentam trajetórias marcadas por experiências de exclusão educacional e social, mas também por saberes construídos ao longo da vida, que precisam ser reconhecidos e valorizados no processo educativo. Nesse sentido, a prática pedagógica deve ultrapassar modelos tradicionais centrados na transmissão de conteúdos, assumindo uma perspectiva dialógica, crítica e inclusiva, capaz de promover o protagonismo dos educandos e a construção coletiva do conhecimento.

Com o avanço das tecnologias digitais, surgem novas possibilidades de transformação do processo de ensino-aprendizagem. O uso de dispositivos móveis, especialmente smartphones, torna-se cada vez mais presente no cotidiano dos estudantes, abrindo espaço para novas formas de interação, acesso à informação e construção do conhecimento. No entanto, a inserção dessas tecnologias no contexto educacional ainda ocorre de forma desigual, sendo limitada, em muitos casos, pela ausência de infraestrutura adequada e pela falta de formação docente específica para seu uso pedagógico.

A relevância deste estudo justifica-se pela necessidade de compreender como as tecnologias digitais podem contribuir para o engajamento e a permanência dos estudantes da EJA, especialmente em contextos escolares marcados por restrições estruturais. Considerando que muitos estudantes conciliam estudo, trabalho e responsabilidades familiares, torna-se fundamental pensar em estratégias pedagógicas que dialoguem com suas realidades e favoreçam a aprendizagem significativa.

Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar o uso das tecnologias digitais como estratégia de engajamento e permanência dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos, a partir de uma experiência desenvolvida no Colégio Municipal Ministro Apolônio Sales, localizado em São Lourenço da Mata, PE. Destaca-se que a instituição não dispõe de laboratório de informática ou infraestrutura tecnológica institucional, sendo os dispositivos móveis pessoais dos estudantes e professores os principais recursos utilizados nas práticas pedagógicas.

Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica, documental e de campo, realizada com 20 estudantes da EJA, com idades entre 18 e 70 anos, e 2 professores da modalidade. A coleta de dados foi realizada por meio de questionários semiestruturados e observação das práticas pedagógicas, sendo os dados analisados à luz da técnica de análise de conteúdo que permitiu a organização e interpretação dos dados

Assim, este estudo busca contribuir para o debate acadêmico e educacional acerca da Educação de Jovens e Adultos, evidenciando o potencial das tecnologias digitais como instrumento de inclusão, aprendizagem significativa e permanência escolar, ao mesmo tempo em que problematiza os desafios estruturais e pedagógicos presentes no contexto investigado.

A incorporação das tecnologias digitais no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta-se como uma estratégia relevante para o fortalecimento do engajamento e da permanência escolar, especialmente diante dos desafios históricos enfrentados por essa modalidade. Em um cenário marcado pela ampliação do acesso a dispositivos móveis e à internet, ainda que de forma desigual, o uso pedagógico das tecnologias pode contribuir para a construção de práticas educativas mais dinâmicas, interativas e significativas para os estudantes.

Os sujeitos da EJA, embora frequentemente associados à exclusão digital, têm demonstrado crescente familiaridade com recursos tecnológicos, sobretudo com o uso de smartphones, redes sociais e aplicativos de comunicação. Esse contexto abre possibilidades para que o professor utilize tais ferramentas como mediadoras do processo de ensino-aprendizagem, aproximando o conteúdo escolar das práticas cotidianas dos educandos. Nesse sentido, o uso das tecnologias não deve ser compreendido apenas como recurso instrumental, mas como elemento integrante de uma proposta pedagógica crítica e contextualizada.

A literatura aponta que ambientes virtuais de aprendizagem, aplicativos educacionais, vídeos, podcasts e plataformas digitais podem favorecer diferentes formas de acesso ao conhecimento, respeitando os ritmos e estilos de aprendizagem dos estudantes. Além disso, o uso de tecnologias possibilita a flexibilização do tempo e do espaço educativo, o que se mostra particularmente relevante para estudantes da EJA que conciliam estudo, trabalho e responsabilidades familiares.

Entretanto, a inserção das tecnologias digitais na EJA também revela desafios significativos. A desigualdade no acesso à internet de qualidade, a limitação de equipamentos adequados e o baixo nível de letramento digital de parte dos estudantes podem dificultar a efetivação de práticas pedagógicas mediadas por tecnologias. Nesse sentido, há o risco de que a tecnologia, ao invés de promover inclusão, acentue as desigualdades já existentes.

Diante disso, torna-se fundamental que o uso das tecnologias esteja articulado a uma proposta pedagógica inclusiva, que considere as condições reais dos educandos e promova o desenvolvimento de competências digitais de forma gradual e contextualizada. O papel do professor é central nesse processo, exigindo formação continuada que contemple o uso crítico e pedagógico das tecnologias digitais.

Sob a perspectiva da educação crítica, conforme defendido por Freire (1967), a tecnologia deve ser utilizada como instrumento de mediação para o diálogo, a problematização da realidade e a construção coletiva do conhecimento, e não como mera ferramenta de transmissão de conteúdos. Quando bem planejadas, as práticas pedagógicas mediadas por tecnologias podem fortalecer o protagonismo dos estudantes, ampliar sua autonomia e contribuir para a permanência na escola.

Assim, conclui-se que o uso das tecnologias digitais na Educação de Jovens e Adultos possui potencial significativo para promover o engajamento e reduzir a evasão escolar, desde que seja acompanhado de políticas públicas que garantam acesso, formação docente e condições estruturais adequadas. A integração entre tecnologia e prática pedagógica, quando orientada por princípios inclusivos e críticos, constitui um caminho promissor para o fortalecimento da EJA no contexto contemporâneo.

REFERENCIAL TEÓRICO

Educação de Jovens e Adultos: concepções e sujeitos

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) configura-se como uma modalidade de ensino que visa garantir o direito à educação a sujeitos que, por diferentes motivos, não tiveram acesso ou permanência no sistema educacional na idade regular. No Brasil, essa modalidade está historicamente associada a processos de exclusão social, econômica e educacional, sendo composta por indivíduos que carregam trajetórias marcadas por desigualdades, mas também por experiências e saberes construídos ao longo da vida.

Nesse sentido, compreender a EJA implica reconhecer a especificidade de seus sujeitos. Conforme destaca Arroyo (2017), os estudantes da EJA são sujeitos históricos, cujas vivências devem ser consideradas no processo educativo, rompendo com práticas escolares que desconsideram suas realidades. Essa perspectiva exige uma abordagem pedagógica que valorize os saberes prévios dos educandos, promovendo uma educação que dialogue com suas experiências e contextos sociais.

Corroborando essa visão, Freire (1967), defende que a educação deve partir da realidade concreta dos sujeitos, sendo construída a partir do diálogo e da problematização. Para o autor, o processo educativo deve possibilitar a conscientização crítica dos educandos, promovendo sua autonomia e participação ativa na sociedade. Assim, a EJA deve ser compreendida não apenas como uma modalidade compensatória, mas como um espaço de transformação social e emancipação.

Evasão e permanência na Educação de Jovens e Adultos

A evasão escolar constitui um dos principais desafios enfrentados pela Educação de Jovens e Adultos. Diversos fatores contribuem para esse fenômeno, entre os quais se destacam as condições socioeconômicas dos estudantes, a necessidade de conciliar estudo e trabalho, responsabilidades familiares e, muitas vezes, a falta de identificação com as práticas pedagógicas desenvolvidas na escola.

De acordo com Arroyo (2017), a evasão na EJA não pode ser compreendida como responsabilidade exclusiva do estudante, mas sim como resultado de um conjunto de fatores estruturais e institucionais que dificultam sua permanência na escola. Nesse contexto, torna-se fundamental repensar as práticas pedagógicas e as políticas educacionais, de modo a atender às necessidades específicas desse público.

Nesse sentido, Libâneo (2013), ressalta que a qualidade do ensino está diretamente relacionada à organização do trabalho pedagógico e à intencionalidade das práticas docentes. Para o autor, o ensino deve ser planejado de forma a promover a aprendizagem significativa, considerando os interesses, as experiências e as condições dos alunos. Assim, práticas pedagógicas descontextualizadas e pouco atrativas tendem a contribuir para o abandono escolar.

Dessa forma, a permanência dos estudantes na EJA está diretamente vinculada à capacidade da escola em oferecer um ensino que dialogue com a realidade dos educandos, promovendo sentido e relevância no processo de aprendizagem.

Prática pedagógica na EJA: desafios e possibilidades

A prática pedagógica na Educação de Jovens e Adultos deve ser orientada por princípios que valorizem a diversidade, a inclusão e o respeito às trajetórias de vida dos educandos. Nesse contexto, torna-se fundamental superar modelos tradicionais de ensino, centrados na transmissão de conteúdos, e adotar abordagens que promovam o protagonismo dos estudantes.

Segundo Freire (1967), o processo educativo deve ser dialógico, permitindo a construção coletiva do conhecimento a partir da interação entre educador e educando. Para o autor, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção, considerando a realidade dos sujeitos envolvidos.

Complementando essa perspectiva, Libâneo (2013), destaca que a prática pedagógica deve ser intencional e organizada, articulando teoria e prática de forma a promover a aprendizagem efetiva. No contexto da EJA, isso implica desenvolver estratégias que considerem o ritmo, as experiências e as necessidades dos estudantes, tornando o processo educativo mais significativo.

Assim, a construção de práticas pedagógicas inclusivas e contextualizadas apresenta-se como um elemento fundamental para o fortalecimento da EJA, contribuindo para o engajamento e a permanência dos estudantes.

Tecnologias digitais na educação contemporânea

A presença das tecnologias digitais na sociedade contemporânea tem provocado transformações significativas nas formas de comunicação, acesso à informação e produção do conhecimento. No campo educacional, essas mudanças exigem a ressignificação das práticas pedagógicas, de modo a incorporar os recursos tecnológicos de forma crítica e significativa.

De acordo com Lévy (1999), as tecnologias digitais possibilitam a construção de novos espaços de aprendizagem, caracterizados pela interatividade, colaboração e compartilhamento de saberes. Nesse contexto, a educação passa a ser compreendida como um processo dinâmico, mediado por diferentes linguagens e recursos.

Nessa mesma direção, Castells (1999), afirma que vivemos em uma sociedade em rede, na qual o acesso à informação e à comunicação digital se torna um elemento central para a participação social. Assim, a inclusão digital passa a ser um fator determinante para a inclusão social e educacional.

No entanto, é importante destacar que o uso das tecnologias na educação não deve ser reduzido a uma perspectiva instrumental. Conforme ressalta Freire (1967), a tecnologia deve ser utilizada como meio para promover o diálogo, a reflexão crítica e a construção do conhecimento, e não apenas como ferramenta de transmissão de conteúdos.

Tecnologias digitais na EJA: inclusão, desafios e possibilidades

No contexto da Educação de Jovens e Adultos, o uso das tecnologias digitais apresenta-se como uma possibilidade significativa para a promoção da inclusão educacional e o fortalecimento da permanência escolar. Embora muitos estudantes dessa modalidade tenham sido historicamente excluídos do acesso às tecnologias, observa-se, na contemporaneidade, um aumento no uso de dispositivos móveis, especialmente smartphones.

Esse cenário abre espaço para o desenvolvimento de práticas pedagógicas que integrem as tecnologias ao processo de ensino-aprendizagem, tornando as aulas mais dinâmicas, interativas e conectadas à realidade dos educandos. O uso de vídeos, aplicativos, redes sociais e pesquisas online pode favorecer diferentes formas de aprendizagem, respeitando os ritmos e estilos dos estudantes.

No entanto, a inserção das tecnologias digitais na EJA também evidencia desafios importantes, como a desigualdade no acesso à internet, a ausência de infraestrutura tecnológica nas escolas e a necessidade de formação docente para o uso pedagógico desses recursos. Esses fatores podem limitar o potencial das tecnologias, reforçando desigualdades já existentes.

Dessa forma, torna-se fundamental que o uso das tecnologias na EJA esteja articulado a uma proposta pedagógica inclusiva e crítica, que considere as condições reais dos estudantes e promova o desenvolvimento de competências digitais. Quando utilizadas de forma planejada e contextualizada, as tecnologias digitais podem contribuir significativamente para o engajamento, a aprendizagem e a permanência dos estudantes na escola.

METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica, documental e de campo, tendo como objetivo compreender o uso das tecnologias digitais como estratégia de engajamento e permanência dos estudantes na Educação de Jovens e Adultos (EJA). A abordagem qualitativa justifica-se pela necessidade de analisar as percepções, experiências e práticas dos sujeitos envolvidos no processo educativo, permitindo uma compreensão mais aprofundada da realidade investigada.

Inicialmente, foi realizada uma revisão bibliográfica com base em produções acadêmicas recentes, incluindo artigos científicos, livros e documentos oficiais que tratam da EJA, das práticas pedagógicas e do uso de tecnologias digitais na educação. Paralelamente, desenvolveu-se uma pesquisa documental, considerando legislações e diretrizes educacionais brasileiras que orientam essa modalidade de ensino, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96).

Caracterização do campo de pesquisa

A pesquisa de campo foi realizada no Colégio Municipal Ministro Apolônio Sales, localizado no município de São Lourenço da Mata, integrante da Região Metropolitana do Recife,PE. A instituição atende estudantes da Educação de Jovens e Adultos em um contexto marcado por vulnerabilidades sociais, no qual muitos educandos conciliam estudo, trabalho e responsabilidades familiares.

Destaca-se que a escola não dispõe de laboratório de informática ou infraestrutura tecnológica institucional adequada, sendo os dispositivos móveis pessoais, como smartphones, os principais recursos utilizados nas práticas pedagógicas mediadas por tecnologia. Esse aspecto constitui elemento central para a análise proposta neste estudo, uma vez que evidencia os desafios e as possibilidades do uso de tecnologias digitais em contextos educacionais com recursos limitados.

Participantes da pesquisa

Participaram da pesquisa 20 estudantes matriculados na EJA, com idades entre 18 e 70 anos, e 2 professores que atuam diretamente na modalidade. A escolha dos participantes ocorreu de forma intencional, considerando sua participação ativa nas atividades escolares e sua disponibilidade para colaborar com a pesquisa.

A diversidade etária dos estudantes permitiu compreender diferentes níveis de familiaridade com as tecnologias digitais, bem como distintas experiências educacionais, contribuindo para uma análise mais abrangente do fenômeno investigado.

Instrumentos de coleta de dados

Para a coleta de dados, foram utilizados questionários semiestruturados, compostos por questões abertas e fechadas, aplicados tanto aos estudantes quanto aos professores. Esse instrumento possibilitou a obtenção de informações sobre o acesso às tecnologias digitais, as formas de uso no contexto escolar e as percepções dos participantes quanto ao impacto dessas ferramentas no processo de ensino-aprendizagem.

Além dos questionários, foi realizada a observação das práticas pedagógicas em sala de aula, com o objetivo de identificar como as tecnologias digitais são utilizadas no cotidiano escolar, bem como sua contribuição para o engajamento dos estudantes.

Os questionários utilizados na pesquisa encontram-se nos Apêndices A e B.

Procedimentos de análise dos dados

Os dados coletados foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016), que permite a organização e interpretação das informações a partir de categorias temáticas. O processo de análise envolveu etapas de leitura flutuante, categorização e interpretação dos dados, buscando identificar padrões, relações e significados presentes nas respostas dos participantes.

As categorias de análise foram definidas a partir dos objetivos da pesquisa, contemplando aspectos como: acesso às tecnologias digitais, uso pedagógico dos dispositivos móveis, engajamento dos estudantes e fatores relacionados à permanência escolar.

Ressalta-se que a pesquisa respeitou os princípios éticos, garantindo o anonimato dos participantes e a utilização dos dados exclusivamente para fins acadêmicos.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise dos dados foi realizada a partir dos questionários aplicados aos 20 estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e aos 2 professores participantes da pesquisa, bem como das observações realizadas no contexto das práticas pedagógicas. Os dados foram organizados em categorias temáticas, permitindo uma compreensão mais aprofundada das relações entre o uso das tecnologias digitais, o engajamento dos estudantes e sua permanência na escola.

Perfil dos estudantes e diversidade geracional

Os resultados evidenciam que os estudantes apresentam uma ampla faixa etária, variando entre 18 e 70 anos, o que caracteriza a heterogeneidade da EJA. Essa diversidade geracional implica diferentes experiências de vida, trajetórias escolares e níveis de familiaridade com as tecnologias digitais.

Os estudantes mais jovens demonstram maior facilidade no uso de recursos tecnológicos, enquanto os mais velhos, embora utilizem smartphones, apresentam, em alguns casos, dificuldades relacionadas ao letramento digital. Essa realidade exige práticas pedagógicas diferenciadas, capazes de atender às especificidades de cada grupo.

Tal constatação dialoga com as contribuições de Arroyo (2017), ao afirmar que os sujeitos da EJA são marcados por trajetórias diversas, o que demanda uma educação sensível às suas realidades e necessidades.

Acesso às tecnologias digitais

Os dados indicam que todos os estudantes possuem smartphones, configurando-se como o principal recurso tecnológico disponível. No entanto, o acesso à internet apresenta-se de forma desigual, sendo limitado para parte dos participantes, o que impacta diretamente o uso pedagógico dessas tecnologias.

Essa situação evidencia uma contradição: embora haja acesso aos dispositivos, as condições para seu uso educacional ainda são restritas. Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas que garantam não apenas o acesso aos equipamentos, mas também condições adequadas de conectividade.

Uso pedagógico das tecnologias

A análise dos dados revela que o uso das tecnologias digitais ocorre de forma pontual e, em muitos casos, depende da iniciativa individual dos professores. As práticas mais comuns envolvem pesquisas na internet, utilização de vídeos e interação por meio de aplicativos de comunicação.

Durante a pesquisa, estudantes destacaram:

“Quando a professora usa o celular, a gente entende melhor.”
“Os vídeos ajudam muito na aprendizagem.”

Essas falas evidenciam que o uso das tecnologias contribui para tornar as aulas mais atrativas e facilitar a compreensão dos conteúdos.

Nesse sentido, as contribuições de Freire (1967), tornam-se fundamentais, ao defender que o processo educativo deve partir da realidade dos educandos. O uso dos smartphones, presentes no cotidiano dos estudantes, configura-se como uma estratégia pedagógica que aproxima o ensino da vida prática.

Engajamento e permanência escolar

Os resultados apontam que o uso das tecnologias digitais está diretamente relacionado ao aumento do interesse e da participação dos estudantes nas atividades escolares. A maioria dos participantes relatou que as aulas que utilizam recursos digitais são mais dinâmicas e motivadoras.

Além disso, observou-se que o uso dessas tecnologias contribui para a permanência dos estudantes na escola, ao tornar o processo de aprendizagem mais significativo e acessível. Essa constatação reforça a importância de práticas pedagógicas que dialoguem com a realidade dos educandos.

De acordo com Libâneo (2013), o ensino deve ser intencional e significativo, promovendo a aprendizagem a partir das experiências dos alunos. Nesse sentido, as tecnologias digitais podem atuar como mediadoras desse processo.

Desafios para a integração das tecnologias

Apesar dos resultados positivos, a pesquisa evidenciou desafios importantes, como:

  • ausência de infraestrutura tecnológica escolar;
  • acesso limitado à internet;
  • falta de formação docente específica.

Esses fatores demonstram que o uso das tecnologias digitais na EJA ainda ocorre de forma limitada, sendo necessário o desenvolvimento de políticas públicas que garantam melhores condições para sua implementação.

Conforme aponta Saviani (2018), a qualidade da educação está diretamente relacionada às condições objetivas de ensino, sendo responsabilidade do Estado garantir os recursos necessários para o desenvolvimento das práticas educativas.

Síntese analítica

De modo geral, os resultados indicam que as tecnologias digitais, especialmente os smartphones, possuem potencial significativo para promover o engajamento e a permanência dos estudantes da EJA. No entanto, sua efetividade depende de uma articulação entre prática pedagógica, formação docente e condições estruturais adequadas.

Assim, a integração das tecnologias no contexto da EJA deve ser compreendida como um processo que envolve não apenas o uso de ferramentas, mas a construção de práticas pedagógicas críticas, inclusivas e contextualizadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa teve como objetivo analisar o uso das tecnologias digitais como estratégia de engajamento e permanência dos estudantes na Educação de Jovens e Adultos. A partir dos dados coletados, foi possível compreender que, mesmo em contextos marcados pela ausência de infraestrutura tecnológica institucional, os dispositivos móveis, especialmente os smartphones, assumem papel central no processo de ensino-aprendizagem.

Os resultados evidenciam que o uso das tecnologias digitais contribui significativamente para o aumento do interesse, da participação e da permanência dos estudantes na escola, tornando as aulas mais dinâmicas e alinhadas à realidade dos educandos. No entanto, também foram identificados desafios relacionados ao acesso à internet, à falta de recursos institucionais e à necessidade de formação docente.

Dessa forma, conclui-se que o uso das tecnologias digitais na EJA apresenta grande potencial, desde que esteja articulado a práticas pedagógicas inclusivas e a políticas públicas que garantam condições adequadas para sua implementação.

Destaca-se, ainda, a importância de investir na formação continuada dos professores, possibilitando o desenvolvimento de competências para o uso pedagógico das tecnologias digitais de forma crítica e significativa.

Por fim, sugere-se a realização de novas pesquisas que aprofundem a relação entre tecnologias digitais e Educação de Jovens e Adultos, especialmente no que se refere à integração entre ensino, inclusão digital e políticas educacionais.

REFERÊNCIAS

ARROYO, Miguel Gonzales. Educação de jovens e adultos: um campo de direitos e de responsabilidade pública. Petrópolis: Vozes, 2017.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Ministério da Educação, 1996.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GADOTTI, Moacir. Educação de jovens e adultos: teoria, prática e proposta. São Paulo: Cortez, 2011.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 2013.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. Campinas: Autores Associados, 2018.

APÊNDICE A – Questionário aplicado aos estudantes da EJA

Objetivo: Compreender o uso das tecnologias digitais e sua relação com o engajamento e permanência dos estudantes na Educação de Jovens e Adultos.

Perfil do participante (opcional):
Idade: ________
Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino ( ) Outro
Trabalha atualmente? ( ) Sim ( ) Não

1. Acesso às tecnologias

  1. Você possui celular (smartphone)?
    ( ) Sim ( ) Não
  2. Você tem acesso à internet?
    ( ) Sim ( ) Não
    ( ) Às vezes
  3. Onde você mais utiliza a internet?
    ( ) Em casa
    ( ) No trabalho
    ( ) Na escola
    ( ) Dados móveis

2. Uso das tecnologias

  1. Você utiliza o celular para estudar?
    ( ) Sim ( ) Não
  2. Com que frequência você usa o celular para estudar?
    ( ) Sempre
    ( ) Às vezes
    ( ) Raramente
  3. Quais recursos você utiliza para aprender?
    ( ) Vídeos
    ( ) Google/pesquisas
    ( ) WhatsApp
    ( ) Aplicativos educativos
    ( ) Outros: __________

3. Tecnologias na escola

  1. Os professores utilizam celular ou internet nas aulas?
    ( ) Sim ( ) Não
    ( ) Às vezes
  2. Quando as tecnologias são usadas, você aprende melhor?
    ( ) Sim
    ( ) Não
    ( ) Às vezes
  3. As aulas com tecnologia são mais interessantes?
    ( ) Sim
    ( ) Não

4. Engajamento e permanência

  1. O uso do celular nas aulas te motiva a estudar mais?
    ( ) Sim
    ( ) Não
    ( ) Às vezes
  2. Você acredita que as tecnologias ajudam a continuar na escola?
    ( ) Sim
    ( ) Não
  3. Você já pensou em desistir dos estudos?
    ( ) Sim
    ( ) Não
  4. Se sim, por quê? ________________________________________________________________________________________________________________

5. Percepções

  1. Qual a maior dificuldade para usar tecnologia nos estudos?

______________________________________________________________________________________________________________________

  1. Como o uso do celular poderia melhorar suas aulas?

______________________________________________________________________________________________________________________

APÊNDICE B – Questionário aplicado aos professores da EJA

Objetivo: Compreender o uso pedagógico das tecnologias digitais e seus impactos no engajamento e permanência dos estudantes.

1. Perfil profissional

  1. Formação acadêmica: __________________________
  2. Tempo de atuação na EJA: ______________________

2. Uso de tecnologias

  1. Você utiliza tecnologias digitais em suas aulas?
    ( ) Sim ( ) Não
  2. Com que frequência?
    ( ) Sempre
    ( ) Às vezes
    ( ) Raramente
  3. Quais recursos você utiliza?
    ( ) Celular
    ( ) Vídeos
    ( ) Internet
    ( ) Aplicativos
    ( ) Outros: __________

3. Condições de trabalho

  1. A escola possui laboratório de informática?
    ( ) Sim ( ) Não
  2. Os alunos possuem acesso ao celular?
    ( ) Sim ( ) Não
    ( ) A maioria
  3. Há acesso à internet suficiente para uso pedagógico?
    ( ) Sim
    ( ) Não
    ( ) Parcialmente

4. Percepções pedagógicas

  1. As tecnologias contribuem para o aprendizado dos alunos?
    ( ) Sim
    ( ) Não
    ( ) Em parte
  2. O uso das tecnologias aumenta o interesse dos estudantes?
    ( ) Sim
    ( ) Não
  3. As tecnologias ajudam na permanência dos alunos na escola?
    ( ) Sim
    ( ) Não

5. Desafios e formação

  1. Quais dificuldades você encontra no uso das tecnologias?

______________________________________________________________________________________________________________________

  1. Doutoranda da Christian Business School. maria.dutra@educ.rec.br

  2. Doutoranda da Christian Business School. andrea.clm@hotmail.com

  3. Ph.D. Doutora em Ciências da Educação, Mestra em Ciências da Educação pela Universidade Federal de Alagoas-UFAL, Psicopedagoga, Pedagoga, Analista do Comportamento Aplicada, Especialista em Escrita Acadêmica Avançada, Professora do Ensino Superior e professora orientadora da Christian Business School-CBS. E-mail: rozineide.pereira1975@gmail.com. https://orcid.org/0009-0000-6863-7874

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