RESUMO
O avanço das tecnologias digitais têm promovido transformações significativas no ensino de línguas estrangeiras. Nesse contexto, o Programa GoEnglish, implementado na rede estadual de Goiás, constitui uma iniciativa voltada ao desenvolvimento das competências linguísticas em língua inglesa por meio de recursos digitais. Considerando os princípios da educação inclusiva, este estudo analisa as possibilidades de adaptação do programa para estudantes com deficiência auditiva e seus impactos no desenvolvimento das habilidades linguísticas, com ênfase em recursos visuais e interativos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter bibliográfico, fundamentada em estudos sobre educação inclusiva, ensino de línguas e tecnologias digitais, além de documentos da Secretaria de Estado da Educação de Goiás referentes ao programa. Os resultados indicam que a plataforma, quando associada a práticas pedagógicas inclusivas, recursos em Libras e metodologias ativas, pode favorecer o engajamento, a participação e a aprendizagem significativa dos estudantes surdos. Entretanto, persistem desafios relacionados à acessibilidade, à infraestrutura tecnológica, à formação continuada dos docentes e à oferta de recursos plenamente acessíveis. Conclui-se que o GoEnglish apresenta potencial para contribuir com a democratização do ensino de língua inglesa, desde que sejam consideradas as especificidades linguísticas e comunicacionais dos estudantes surdos, assegurando não apenas o acesso, mas também sua participação efetiva no processo de ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Ensino de inglês; Educação digital; GoEnglish; Educação inclusiva; Estudantes surdos.
ABSTRACT
The advancement of digital technologies has promoted significant changes in foreign language teaching. In this context, the GoEnglish Program, implemented in the public school system of Goiás, Brazil, is an initiative aimed at developing English language skills through digital resources. Considering the principles of inclusive education, this study analyzes the possibilities of adapting the program for students with hearing impairments and its impacts on language development, with an emphasis on visual and interactive resources. This qualitative bibliographic research is based on studies on inclusive education, language teaching, and digital technologies, as well as official documents from the Goiás State Department of Education regarding the program. The results indicate that the platform, when combined with inclusive pedagogical practices, Brazilian Sign Language (Libras) resources, and active learning methodologies, can promote engagement, participation, and meaningful learning for deaf students. However, challenges remain regarding accessibility, technological infrastructure, continuous teacher training, and the availability of fully accessible resources. It is concluded that GoEnglish has the potential to contribute to the democratization of English language teaching, provided that the linguistic and communicative specificities of deaf students are considered, ensuring not only access but also their effective participation in the teaching-learning process.
Keywords: English language teaching; Digital education; GoEnglish; Inclusive education; Deaf students.
RESUMEN
El avance de las tecnologías digitales ha promovido importantes transformaciones en la enseñanza de lenguas extranjeras. En este contexto, el Programa GoEnglish, implementado en la red pública de educación del estado de Goiás, Brasil, constituye una iniciativa orientada al desarrollo de competencias en lengua inglesa mediante recursos digitales. Considerando los principios de la educación inclusiva, este estudio analiza las posibilidades de adaptación del programa para estudiantes con discapacidad auditiva y sus impactos en el desarrollo de habilidades lingüísticas, con énfasis en recursos visuales e interactivos. Se trata de una investigación cualitativa de carácter bibliográfico, fundamentada en estudios sobre educación inclusiva, enseñanza de lenguas y tecnologías digitales, así como en documentos oficiales de la Secretaría de Educación del Estado de Goiás relacionados con el programa. Los resultados indican que la plataforma, cuando se articula con prácticas pedagógicas inclusivas, recursos en Lengua de Señas Brasileña (Libras) y metodologías activas, puede favorecer el compromiso, la participación y el aprendizaje significativo de los estudiantes sordos. Sin embargo, persisten desafíos relacionados con la accesibilidad, la infraestructura tecnológica, la formación continua de los docentes y la disponibilidad de recursos plenamente accesibles. Se concluye que GoEnglish tiene potencial para contribuir a la democratización de la enseñanza del inglés, siempre que se consideren las particularidades lingüísticas y comunicativas de los estudiantes sordos, garantizando no solo el acceso, sino también su participación efectiva en el proceso de enseñanza-aprendizaje.
Palabras clave: Enseñanza del inglés; Educación digital; GoEnglish; Educación inclusiva; Estudiantes sordos.
1 INTRODUÇÃO
A globalização e a crescente necessidade de comunicação internacional reiteram a centralidade do domínio da língua inglesa no panorama educacional brasileiro, notadamente em uma sociedade estruturada pela intensa circulação de informações e pela ampliação das interações transnacionais. Face a esse cenário, as políticas públicas setoriais têm envidado esforços para integrar as tecnologias digitais ao ensino de idiomas, com o objetivo de tornar o processo de aprendizagem mais dinâmico, acessível e alinhado às demandas contemporâneas.
No âmbito dessas transformações, as ações institucionais voltadas ao ensino de línguas estrangeiras granjeiam relevo na esfera da educação pública, sobretudo mediante a incorporação de plataformas digitais interativas. No estado de Goiás, o Programa GoEnglish, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc/GO), configura-se como uma política educacional direcionada a proficiência em língua inglesa por meio de suporte digital. O programa oferece acesso gratuito a discentes do 9º ano do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e a professores da rede estadual, provendo subsídios pedagógicos multimodais que podem ser acessados tanto no ambiente escolar quanto em contextos extraescolares, via dispositivos móveis ou computadores (GOIÁS, 2023; REPORTER GOIÁS, 2023).
A engenharia pedagógica do GoEnglish articula recursos interativos, trilhas de aprendizagem individualizadas e matrizes de monitoramento, chancelando uma experiência formativa flexível e contínua. Busca-se, por essa via, fomentar o desenvolvimento de competências linguísticas sob o signo da autônoma e da aprendizagem significativa, alinhando a práxis de ensino às metamorfoses tecnológicas correntes (DIÁRIO DE GOIÁS, 2023).
Todavia, à semelhança de outras políticas correlatas de inclusão digital, a efetividade do programa subordina-se a condicionantes estruturais e pedagógicos complexos. Entre estes, sobressaem a qualidade da infraestrutura tecnológica alocada nas unidades escolares, a formação docente para o uso das ferramentas digitais e o nível de engajamento dos estudantes. Além disso, cumpri discernir, outrossim, que o mero aporte tecnológico não assegura a consolidação do conhecimento, especialmente em contextos que demandam ações pedagógicas intencionalmente inclusivas.
Sob esse prisma, a análise do GoEnglish possibilita problematizar não apenas as potencialidades das ferramentas educacionais digitais na ampliação das competências linguísticas, mas também as suas fraturas e limites no tecido da escola pública, em especial quando confrontada com à necessidade de acolhimento à diversidade. Emergem, com isso, as premências de se arquitetar estratégias metodológicas que abarquem educandos com necessidades específicas, a exemplo dos discentes com deficiência auditiva, assegurando-lhes não apenas a acessibilidade técnica, senão as condições substantivas de participação e qualidade formativa.
Frente a esse horizonte problemático, delineia-se a seguinte questão norteadora: em que medida o Programa GoEnglish coadjuva no desenvolvimento das competências linguísticas de estudantes surdos no âmbito da educação pública inclusiva? Quais os nós críticos intrínsecos à implementação dessa modalidade de aprendizagem digital e quais as possibilidades pedagógicas emergentes para potencializar seus resultados nesse quadrante educacional?
Metodologicamente, este estudo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico e documental, pautada na análise descritiva e interpretativa de matrizes teóricas e normativas. O corpus documental mediante o inventário de diretrizes pedagógicas, portarias e materiais oficiais de divulgação chancelados pela Seduc/GO concernentes à execução do Programa GoEnglish. Para a sustentação teórica, procedeu-se a um levantamento sistemático de produções acadêmicas — artigos, dissertações e teses — indexadas no Portal de Periódicos da Capes, SciELO e Google Acadêmico. Os critérios de inclusão delimitaram a seleção de trabalhos que tensionassem a interseção entre o ensino de línguas estrangeiras e a inclusão escolar. Foram utilizados descritores combinados com base nos operadores booleanos AND e OR, a saber: "GoEnglish" AND "Goiás"; "Ensino de Língua Inglesa" AND "Estudantes Surdos"; e "Educação Inclusiva" AND "Tecnologias Digitais". A análise do material baseou-se na técnica de análise de conteúdo, permitindo categorizar as potencialidades e os nós críticos da plataforma digital frente às especificidades linguísticas e comunicacionais da comunidade surda no ecossistema da escola pública goiana.
2. O ENSINO DE LÍNGUAS MEDIADO POR TECNOLOGIAS DIGITAIS
A aprendizagem digital consolidou-se como uma vertente estratégica e premente no ensino de línguas estrangeiras. Sua relevância fundamenta-se na viabilização do acesso a conteúdo multimodais, na personalização das trajetórias formativas e na ampliação da exposição ao idioma alvo em cenários diversificados. Desse modo, a incorporação de tecnologias educacionais expande as modalidades de interação linguística, impulsionando a construção de saberes dinâmicos, significativos e sintonizados com as demandas da contemporaneidade. No contexto das transformações educacionais contemporâneas, as tecnologias digitais assumem papel relevante na construção de ambientes de aprendizagem mais dinâmicos, colaborativos e centrados no estudante. Segundo Moran (2022), a integração das tecnologias ao processo educativo amplia as possibilidades de personalização da aprendizagem, favorecendo a autonomia discente e a construção ativa do conhecimento. Nessa perspectiva, os recursos digitais não devem ser compreendidos apenas como instrumentos tecnológicos, mas como mediadores de práticas pedagógicas inovadoras e significativas.
Complementando essa discussão, Santaella (2020) destaca que a cultura digital modificou profundamente as formas de acesso à informação, de comunicação e de produção do conhecimento. Para a autora, os ambientes digitais possibilitam experiências de aprendizagem multimodais, capazes de integrar diferentes linguagens e favorecer a participação ativa dos estudantes em contextos educacionais diversos.
Quando analisadas sob a ótica da educação inclusiva, essas potencialidades exigem atenção às especificidades linguísticas e comunicacionais dos estudantes surdos. Quadros (2019) ressalta que a Libras constitui a primeira língua de grande parte da comunidade surda brasileira, sendo fundamental que os processos educacionais respeitem essa condição linguística. Dessa forma, o ensino de línguas estrangeiras deve considerar abordagens visuais e bilíngues que favoreçam a construção de significados e a ampliação das competências comunicativas.
Nessa mesma direção, Skliar (2016) argumenta que a educação de surdos deve superar perspectivas centradas na deficiência e reconhecer as diferenças linguísticas e culturais como elementos constitutivos da identidade surda. Assim, práticas pedagógicas inclusivas demandam recursos acessíveis, metodologias diferenciadas e ambientes de aprendizagem que valorizem a visualidade como eixo central do processo educativo.
Além disso, a UNESCO (2021) enfatiza que as tecnologias digitais podem contribuir significativamente para a inclusão educacional quando associadas a políticas públicas que garantam acessibilidade, equidade e formação docente. Entretanto, a organização alerta que a simples disponibilização de recursos tecnológicos não assegura a participação efetiva dos estudantes, tornando indispensável a implementação de estratégias pedagógicas inclusivas e o investimento contínuo em infraestrutura e capacitação profissional.
No âmbito da educação inclusiva, torna-se imperativo problematizar o escopo dessas tecnologias na mediação de práticas pedagógicas acessíveis, com especial atenção aos discentes com deficiência auditiva. Para esse público, cuja comunicação ordinariamente se estrutura por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras), o aprendizado de uma língua estrangeira impõe desafios adicionais. Esse panorama exige o delineamento de estratégias que privilegiem subsídios visuais, interativos e multimodais no processo de apropriação do conhecimento.
Sob essa ótica, as plataformas digitais educacionais configuram-se como ferramentas promissoras, haja vista que articulam diferentes sistemas semióticos — tais como imagens, vídeos, animações e atividades interativas. Essa convergência de mídias não apenas democratiza o acesso ao componente curricular, mas também respeita os ritmos idiossincráticos dos estudantes. Ademais, tais ecossistemas digitais fomentam o desenvolvimento da autonomia discente, facultando ao aluno a prerrogativa de progredir e revisar os conteúdos programáticos conforme suas demandas cognitivas específicas.
No contexto da rede pública estadual de Goiás, destaca-se o Programa GoEnglish, instituído pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc/GO). Trata-se de uma política pública voltada à integração entre a tecnologia digital e o ensino de língua inglesa. A iniciativa consiste na oferta de uma plataforma educacional interativa, gratuita e acessível, direcionada a estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e ao corpo docente da rede estadual. O desenho do programa permite à ubiquidade da aprendizagem, viabilizando o acesso aos constructos pedagógicos tanto no espaço escolar quanto no ambiente domiciliar, por intermédio de dispositivos móveis ou computadores (GOIÁS, 2023; REPÓRTER GOIÁS, 2023).
A arquitetura da plataforma abarca atividades interativas, trilhas de aprendizagem personalizadas e sistemas de monitoramento de desempenho, o que propicia uma experiência formativa flexível e contínua. Esse arranjo metodológico possui o potencial de diversificar a práxis pedagógica e robustecer a autonomia do estudante. No que tange aos alunos com deficiência auditiva, o emprego de insumos visuais, a possibilidade de refração/repetição das tarefas e a progressão sistemática dos conteúdos podem coadjuvar na compreensão e na consolidação da proficiência linguística, desde que tais recursos estejam intrinsecamente articulados a diretrizes pedagógicas inclusivas.
Não obstante, cumpre sublinhar que o mero emprego de tecnologias digitais não resguarda, per se, a efetivação da inclusão educacional. A resolutividade dessas ferramentas está adstrita a condicionantes estruturais e formativas, tais como a universalização do acesso à internet, a formação continuada de professores para o uso pedagógico das mídias digitais e, fundamentalmente, a intencionalidade inclusiva do planejamento docente. Torna-se imperioso, portanto, conceber adaptações metodológicas que afiancem a acessibilidade aos conteúdos, a participação equânime nas atividades e o desenvolvimento das competências linguísticas por todos os discentes.
Em suma, a análise do ensino de línguas mediado por tecnologias digitais, sob o prisma do Programa GoEnglish, descortina tanto as potencialidades quanto às limitações dessa abordagem no ecossistema da escola pública. Essa reflexão teórica e pragmática adquire centralidade ao convergir com o compromisso ético-político de uma educação inclusiva, apta a responder às especificidades de estudantes com deficiência auditiva, assegurando-lhes condições reais de permanência, participação e êxito no processo de escolarização.
3 DIRETRIZES METODOLÓGICAS PARA INCLUSÃO DE ESTUDANTES SURDOS NO ECOSSISTEMA DO GOENGLISH
A condução da práxis pedagógica junto aos discentes surdos demanda do corpo docente um planejamento intencional e metodologicamente orientado, fundado no reconhecimento das singularidades linguísticas, comunicacionais e socioculturais que circunscrevem este público. Torna-se basilar que expressiva parcela desses educandos adota a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua (L1), situando a língua portuguesa (modalidade escrita) e língua inglesa na condição de línguas subsequente. Por conseguinte, os processos de apropriação do saber linguístico exigem abordagens nitidamente visuais e bilíngues.
A mediação docente assume centralidade nesse processo, porquanto o agenciamento de práticas inclusivas estruturadas atua diretamente na mitigação das barreiras comunicativas, e ampliam as possibilidades de participação. Sob essa perspectiva, a inserção de ambientes digitais de aprendizagem, a exemplo Programa GoEnglish, pode atuar como elemento catalisador de experiências didáticas mais dinâmicas e acessíveis, desde que subordinada a uma rigorosa intencionalidade pedagógica.
Delineiam-se, a seguir, três vertentes estratégias operacionais voltadas ao trabalho com discentes surdos no ensino de língua inglesa, mediados pela referida plataforma.
3.1 Mobilização de Subsídios Visuais e Mediação em Libras
Uma das principais balizas epistemológicas no ensino de discentes surdos reside na centralidade da experiência visual como principal via de acesso ao conhecimento. Desse modo, o recurso a imagens correlatas, fluxogramas, vídeos e animações gráficas opera como ancoragem semiótica fundamental para decodificação dos conteúdos em língua inglesa.
No contexto do GoEnglish, cabe ao professor mapear e explorar exaustivamente as tarefas de natureza predominante visual oferecidas pela plataforma. Como a ferramenta digital carece de recursos internos de acessibilidade bilíngue, faz-se indispensável que o professor, com o suporte complementar do Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais (TILS), proceda à mediação externa Libras sobre os conteúdos textuais da tela.
A introdução de glossários imagéticos e a associação direta entre o léxico em inglês e representações visuais unívocos evitam o fonocentrismo e secundariza a dependência do português escrito, permitindo ao estudante surdo inferir o significado a partir de sua própria organização mental e cultural.
3.2 Adaptação Curricular das Atividades com Foco na Semiótica Visual
Os designers instrucionais tradicionais de softwares de idiomas tendem a supervalorizar as competências de compreensão e produção fonológica (listening e speaking), dinâmica que impõe barreiras de acessibilidade severas ao educando surdo. Impõe-se, assim, a necessidade de flexibilização curricular dessas tarefas, transpondo as demandas fonocentricas para o campo da leitura e da interpretação visual.
Na operacionalização do GoEnglish, o docente deve reorganizar os roteiros propostos da plataforma, substituindo atividades exclusivamente sonoras por exercícios de associação, grafofônica-visual, leitura de enunciados textuais curtos e interpretação semiótica de imagens. Exercícios como correlacionar lexemas a fotografias, preenchimentos de lacunas textuais contextualizadas e ordenação de narrativas visuais revelam-se na consolidação do repertório vocabular.
Paralelamente, a existência de trilhas de aprendizagem permite que o estudante avance em seu próprio ritmo, revisando conteúdos conforme suas necessidades específicas. Essa flexibilização contribui para a construção gradual do conhecimento e para o fortalecimento da autonomia do aluno, elemento essencial no processo linguístico peculiar da surdez.
3.3 A Plataforma Digital como Vetor de Autonomia e Aprendizagem Ubíqua
A incorporação de plataformas digitais interativas assume relevo na educação inclusiva ao descortinar caminhos para o desenvolvimento da aprendizagem autodirigida. Para os educandos surdos, a maleabilidade espaço-tempo assegurada pelos ambientes virtuais permite que a apropriação dos constructos linguísticos ocorra sem a pressão cronológica das salas de aula convencionais.
No âmbito do GoEnglish, a possibilidade de refração e repetição sistemática das atividades assíncronas atua como um fator de estabilização cognitiva. Esse movimento contínuo de revisitação dos módulos é crucial para os discentes que necessitam realizar o cotejo entre três sistemas linguísticos distintos (Libras, Português e Inglês).
Ademais, a portabilidade da plataforma estende os horizontes da sala de aula, franqueando a continuidade dos estudos em contextos extraescolares. Essa ubiquidade expande o tempo de exposição à Língua Três (L3), estimulando a autoconfiança e convertendo o artefato tecnológico em um instrumento de emancipação e inclusão social na rede pública.
4 O ENSINO DE LÍNGUA INGLESA MEDIADO POR TECNOLOGIAS DIGITAIS PARA ESTUDANTES SURDOS: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NO USO DO GOENGLISH
A inserção de plataformas de aprendizagem digital no ensino de línguas estrangeiras ressignifica a organização do trabalho pedagógico, mas impõe reflexões críticas quando transposta para o campo da educação inclusiva. No caso específico do estudante surdo, a análise do Programa GoEnglish exige deslocar o olhar da mera inovação tecnológica para focar na adequação semiótica da ferramenta, uma vez que a apropriação do conhecimento por esse público ocorre prioritariamente pela via visual-espacial (QUADROS, 2019; SKLIAR, 2016).
Sob a ótica das possibilidades, a arquitetura do GoEnglish oferece subsídios que, se bem mediados, potencializam a aprendizagem. A flexibilização das trilhas formativas e o caráter assíncrono da plataforma permitem que o aluno gerencie seu tempo de estudo e revise os conteúdos de acordo com suas demandas cognitivas. Para o estudante surdo, que frequentemente precisa realizar um processo de triangulação linguística — associando o signo em inglês ao português escrito e à sua primeira língua, a Libras —, a possibilidade de repetir exercícios e avançar em ritmo próprio constitui um importante fator de autonomia (SOUZA; RIBEIRO, 2023). Ademais, a presença de componentes multimodais estáticos, como tabelas, infográficos e associação de vocabulário a imagens, atua como um facilitador na ancoragem de conceitos e na expansão do repertório lexical na Língua Três (L3).
Por outro lado, a transposição de uma plataforma digital projetada para ouvintes para o contexto da surdez evidencia desafios estruturais complexos. O principal limite reside na centralidade fonocêntrica que historicamente caracteriza os softwares de ensino de idiomas. Softwares dessa natureza costumam ancorar sua progressão pedagógica em atividades de compreensão auditiva (listening) e produção oral (speaking). Sem uma adaptação prévia, esses recursos criam barreiras de acessibilidade intransponíveis para os discentes surdos, esvaziando o potencial inclusivo da tecnologia.
Outro desafio premente diz respeito à carência de recursos de acessibilidade nativos na interface do GoEnglish, tais como tradução sistemática para a Libras por meio de avatares ou intérpretes virtuais, e sistemas de legenda em tempo real que considerem a estrutura sintática da Língua de Sinais. Na ausência desses mecanismos, a plataforma acaba por demandar do estudante um domínio consolidado do português escrito como segunda língua (L2), desconsiderando que muitos alunos surdos ainda estão em processo de alfabetização ou consolidação dessa modalidade textual (BRASIL, 2005).
Essa assimetria técnica transfere para o corpo docente uma sobrecarga de mediação. Para que o GoEnglish não se torne um instrumento de exclusão digital na sala de aula, o professor é compelido a atuar como um designer instrucional improvisado, sendo obrigado a garimpar, adaptar e complementar visualmente as atividades propostas pela plataforma. Contudo, essa exigência esbarra na lacuna histórica da formação docente — tanto inicial quanto continuada —, que raramente instrumentaliza o professor de língua inglesa para o manejo de ambientes virtuais sob a perspectiva do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e da educação bilíngue (ALVES; DIAS; BARBOZA, 2025).
Por fim, as limitações materiais da escola pública, como conexões de internet instáveis e escassez de dispositivos eletrônicos adequados, agravam esse cenário, podendo acentuar as desigualdades em contextos de maior vulnerabilidade social. Conclui-se, portanto, que embora o GoEnglish se apresente como uma ferramenta promissora para a democratização linguística na rede estadual de Goiás, sua efetividade em ambientes inclusivos não é intrínseca à tecnologia. Ela depende diretamente de investimentos públicos na sofisticação da acessibilidade do software e em programas de formação continuada que capacitem os professores a transformarem o artefato digital em uma práxis pedagógica efetivamente bilíngue e visual.
Cabe destacar, ainda, que este estudo apresenta limitações inerentes à sua natureza bibliográfica e documental. A pesquisa não contemplou a observação direta da utilização da plataforma GoEnglish por estudantes surdos, tampouco a realização de entrevistas ou aplicação de instrumentos de coleta de dados junto a professores e alunos da rede estadual. Dessa forma, as análises e reflexões aqui apresentadas fundamentam-se na literatura especializada e nos documentos institucionais consultados. Recomenda-se, portanto, a realização de estudos empíricos futuros que investiguem, em contextos reais de uso, os impactos da plataforma no desenvolvimento das competências linguísticas, na participação escolar e nos processos de inclusão de estudantes surdos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste estudo, foi possível compreender que a incorporação das tecnologias digitais no contexto educacional representa uma importante transformação no ensino de línguas estrangeiras, especialmente no âmbito da educação pública. Nesse cenário, o Programa GoEnglish configura-se como uma iniciativa relevante ao ampliar o acesso ao ensino de língua inglesa por meio de uma plataforma digital interativa, contribuindo para a diversificação das práticas pedagógicas e para a construção de aprendizagens mais dinâmicas e significativas.
Ao considerar a perspectiva da educação inclusiva, com foco em estudantes surdos, evidencia-se que o processo de ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira envolve desafios específicos, relacionados às diferenças linguísticas, comunicacionais e culturais desses estudantes. A aprendizagem do inglês, nesse contexto, exige abordagens que valorizem a visualidade, o uso de recursos multimodais e a mediação em Libras, reconhecendo que esses alunos constroem o conhecimento predominantemente por meio de experiências visuais.
Os dados analisados indicam que o uso de plataformas digitais como o GoEnglish pode contribuir significativamente para o desenvolvimento das competências linguísticas, especialmente quando associado a práticas pedagógicas inclusivas. A presença de conteúdos interativos, a possibilidade de acesso contínuo e a organização progressiva das atividades favorecem a autonomia do estudante, permitindo que ele avance em seu próprio ritmo e estabeleça uma relação mais ativa com o aprendizado da língua inglesa.
Entretanto, o estudo também evidencia que a simples utilização da tecnologia não garante, por si só, uma aprendizagem efetiva e inclusiva. Persistem desafios importantes, como a ausência de recursos plenamente acessíveis nas plataformas, incluindo a tradução em Libras e a adequação dos conteúdos à realidade dos estudantes surdos. Além disso, a formação docente emerge como um elemento central, uma vez que o professor desempenha papel fundamental na mediação do processo educativo e na adaptação das estratégias pedagógicas às necessidades dos alunos.
Outro aspecto relevante refere-se às condições estruturais das escolas, como o acesso à internet e a disponibilidade de equipamentos tecnológicos, que podem limitar ou potencializar o uso dessas ferramentas no cotidiano escolar. Esses fatores reforçam a necessidade de investimentos em políticas públicas que garantam equidade e acesso às tecnologias educacionais.
Dessa forma, conclui-se que o Programa GoEnglish, enquanto recurso tecnológico, apresenta potencial para contribuir com o ensino de língua inglesa na rede pública, inclusive no contexto da educação inclusiva. No entanto, sua efetividade depende da articulação entre tecnologia, prática pedagógica e compromisso com a acessibilidade, garantindo que estudantes surdos tenham condições reais de participação e aprendizagem.
Por fim, destaca-se a importância de ampliar o debate acadêmico e pedagógico sobre o uso de tecnologias digitais no ensino de línguas, especialmente no que se refere à inclusão de estudantes com deficiência auditiva. Recomenda-se a realização de novas pesquisas, particularmente de natureza empírica, que investiguem o impacto dessas ferramentas no desenvolvimento linguístico e na participação escolar, contribuindo para o fortalecimento de práticas educacionais mais inclusivas, equitativas e comprometidas com o direito à aprendizagem de todos.
REFERÊNCIAS
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Mestranda do Curso de Ciências da Educação da Ivy Enber Christian University. E-mail:
paty.jramos@hotmail.com

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