Resumo
O cerne do artigo é entender como o pronunciamento de Truth, feito em 1851 na Convenção dos Direitos das Mulheres, —“e eu não sou uma mulher?” —, repercutena construção de sentidos históricos sobre as mulheres e na historicidade das lutas étnico-raciais, de classe e de gênero. A pergunta norteadora busca analisar as condições de produção que moldaram a luta de mulheres negras pela igualdade no século XIX, empregando a Análise de Discurso Materialista (ADM) baseada em Pêcheux (França) e Orlandi (Brasil). A referência a Judith Butler ilumina o debate sobre sexo e gênero como construções sociais. No período pré-abolição, mulheres negras precisavam reafirmar-se como mulheres diante de humilhações que as reduziam a animais ou não humanas; hoje, as mulheres trans também enfrentam a necessidade de afirmação de identidades, mesmo quando seus corpos desafiam categorias femininas tradicionais. Butler enfatiza a ideia de que o “sexo” é historicizado e contestado, não determinado ao nascer; a identidade de gênero é performativa e socialmente produzida. Dessa forma, as diferenças sexuais não são apenas biológicas, mas sustentadas por estruturas sociais que atribuem significados sobre gênero e sexualidade. A análise argumenta que as identidades de gênero são performativas, moldadas por práticas discursivas e relações de poder. O discurso de Truth funciona como um marco que desafia as hierarquias de gênero e raça, abrindo espaço para compreender como as lutas das mulheres negras nos séculos XIX e XX se conectam às lutas interseccionais de classe e de sexualidade. Para tanto, serão adotados os pressupostos teórico metodológicos da Análise de Discurso Materialista, a partir dos trabalhos de Pêcheux, na França, e Orlandi, no Brasil. Isso significa dizer que nos inscrevemos numa perspectiva de entremeio, fluida (não positivista) e aberta. Ao tratar das condições de produção Orlandi (2017, p. 17) assinala que “o sujeito e a situação (...) contam fundamentalmente para a análise de discurso (...) na medida em que são redefinidos discursivamente como parte das condições de produção do discurso”. Conclui-se que o sexo nunca funciona de forma absolutamente separada do gênero; as diferenças sexuais são, de fato, construídas socialmente como gênero. Essas diferenças operam, discursivamente, por meio da invocação performativa do gênero, atribuindo-lhe, assim, um sentido presumido.
Palavras-chave: Discurso; Feminismo negro; Identidade de gênero; Raça.
Abstract
The core of this article is to understand how Truth’s 1851 speech at the Women's Rights Convention—"Ain't I a Woman?"—reverberates in the construction of historical meanings regarding women and the historicity of ethnic-racial, class, and gender struggles. The guiding question seeks to analyze the conditions of production that shaped Black women’s struggle for equality in the 19th century, employing Materialist Discourse Analysis (MDA) based on Pêcheux (France) and Orlandi (Brazil). References to Judith Butler illuminate the debate on sex and gender as social constructions. In the pre-abolition period, Black women had to reaffirm themselves as women in the face of humiliations that reduced them to animals or non-humans; today, trans women also face the need to affirm their identities, even when their bodies challenge traditional feminine categories. Butler emphasizes the idea that "sex" is historicized and contested, rather than determined at birth; gender identity is performative and socially produced. Thus, sexual differences are not merely biological but are sustained by social structures that assign meanings to gender and sexuality. The analysis argues that gender identities are performative, shaped by discursive practices and power relations. Truth’s discourse functions as a milestone that challenges gender and racial hierarchies, opening space to understand how the struggles of Black women in the 19th and 20th centuries connect to intersectional struggles of class and sexuality. To this end, the theoretical-methodological assumptions of Materialist Discourse Analysis will be adopted, drawing from the works of Pêcheux in France and Orlandi in Brazil. This implies that we are inscribed within an "in-between," fluid (non-positivist), and open perspective. Regarding the conditions of production, Orlandi (2017, p. 17) points out that "the subject and the situation (...) are fundamental to discourse analysis (...) insofar as they are discursively redefined as part of the conditions of discourse production." It is concluded that sex never functions entirely separately from gender; sexual differences are, in fact, socially constructed as gender. These differences operate discursively through the performative invocation of gender, thereby assigning it a presumed meaning.
Keywords: Discourse; Black Feminism; Gender Identity; Race.
Palavras iniciais
Os debates em torno da orientação sexual e da identidade de gênero, nos últimos anos, têm ganhado cada vez mais espaço no cotidiano das pessoas. O modo como temos constituído comportamentos e subjetividades perpassa o que Judith Butler (2003) denomina como dispositivo binário de gênero. Os gêneros são definidos – majoritariamente, masculino e feminino – a partir de uma concepção binária e com argumentação sobre percepções corporais.
Este artigo tem como objetivo analisarmos os discursos jornalísticos esportivos sobre as atletas que foram questionadas sobre suas identidades de gênero e sexualidade em jornais online no Brasil. Para tanto, serão adotados os pressupostos teórico metodológicos da Análise de Discurso Materialista, a partir dos trabalhos de Pêcheux, na França, e Orlandi, no Brasil.
Metodologicamente, para desenvolver este estudo, buscamos estabelecer um diálogo constante entre teoria/método/procedimento analítico e objeto, tal como se espera de uma pesquisa que se inscreve na análise de discurso materialista. O objeto de estudo escolhido nesse artigo foi o discurso jornalístico em jornais esportivos online onde vamos interrogar, questionar e problematizar o processo de significação e o funcionamento dos sentidos em relação ao que é ser ou não mulher.
Em 1851 na Convenção dos Direitos das Mulheres Sojourner Truth fez um pronunciamento que se tornou conhecido pelo questionamento central formulado pela autora, “e eu não sou uma mulher?”, de extensão relativamente curta, marcou as atividades por questionar os sentidos historicamente constituídos em torno das mulheres. Tal exposição, de acordo com Massmann e Bernardo (2023: p 363), em meados do Século XIX, se inscreve na história do movimento feminista negro como um marco inaugural das críticas em torno da invisibilidade da mulher negra no movimento feminista da época que reivindicava, entre outras pautas direitos iguais entre homens e mulheres.
O livro de Simone de Beauvoir de 1967, O segundo sexo, foi e ainda é bastante controverso, nele contém uma de suas frases mais famosas, não se nasce mulher, mas torna-se. O motivo é evidente, na perspectiva da autora. Para ser mulher não basta a materialidade, órgãos genitais e sistemas periféricos femininos. Beauvoir se destaca na história da filosofia como a primeira pensadora a apontar que não há um caminho pré-estabelecido para ser mulher. Butler (2019: s/p) também contribui com a questão.
O mais crucial é que o “sexo” é desde o começo resultado de uma situação histórica. O “sexo” não está sendo negado, mas está em disputa: nada sobre o que é ser mulher está determinado desde o nascimento, nem o tipo de vida que uma mulher vai levar ou o que ser mulher significa. De fato, muitas pessoas trans são designadas com um sexo no nascimento e vão reivindicar outro ao longo de suas vidas. E se nós pensarmos com base na lógica existencialista da construção social de Beauvoir, alguém pode nascer mulher, mas tornar-se homem.
De acordo com Garcia e Pereira (2020) dentro do sistema-mundo, as categorias de gênero e sexualidade são construídas levando em consideração a ideia coerente entre sexo de nascimento, gênero social e orientação afetivo-sexual que, em suma, se traduzem no regime conhecido como cisheteronormatividade. Conforme afirmam os referidos autores Garcia e Pereira 2020: p. 03)
As pessoas trans não encontram guarida, tampouco respaldo, para se inserirem e permanecerem nas práticas esportivas cistêmicas, a não ser que renunciem sua identificação pessoal subordinada ao cistema esportivo, adotando e fixando compulsoriamente uma identidade cissocial, isto é, que lhe garanta a passabilidade de gênero cis (SIC).
Neste artigo Garcia e Pereira substituem o S pelo C fazendo referência a Vergueiro (2015: p. 15), em alusão ao trabalho “Descolonizar as esquerdas ocidentalizadas: para além das esquerdas eurocêntrica rumo a uma esquerda transmoderna descolonial” (2012), do sociólogo porto-riquenho Ramón Grosfoguel, situa-nos quanto à estruturação do sistema-mundo. Neste, a genealogia da cisgeneridade e seus correlatos são construídos, caracterizando-o como “[...] “[c]istemamundo ocidentalizado/cristianocêntrico moderno/colonial capitalista/patriarcal” que produz “hierarquias epistêmicas” em que [...] perspectivas não cisgêneras são excluídas, minimizadas ou silenciadas. A corruptela ‘cistema’, entre outras corruptelas do tipo, têm o objetivo de enfatizar o caráter estrutural e institucional – ‘cistêmico’ – de perspectivas cis+sexistas, para além do paradigma individualizante do conceito de ‘transfobia’” (Garcia e Pereira, 2020: p. 02 apud Vergueiro 2015: p. 15).
Retomando a Butler percebemos que no período pré abolicionista as mulheres negras tinham que se reafirmarem mulheres por serem vistas como animais, não humanas e que hoje as mulheres trans precisam dessa afirmação por possuírem órgão considerados femininos. É o outro que nos define: “como seres sexuais, somos dependentes de um mundo de outros, vulneráveis à necessidade, à violência, à traição, à compulsão, à fantasia; projetando o desejo e ele é projetado sobre nós” (Butler 2022: p. 62).
O esporte se constitui como um dos fenômenos culturais mais relevantes da atualidade, devido à sua ampla abrangência e diversidade, sua prática se mostra um espaço rico para a formação de corpos e identidades. Entre os esportes tidos como masculinos que nasceram no Brasil, o MMA (Artes Marciais Mistas) destaca-se como um dos que mais cresce globalmente, principalmente devido ao uso de ferramentas da cibercultura, como sites e redes sociais, para promover os eventos e atrair um público consumidor de produtos e serviços relacionados.
O MMA é uma modalidade esportiva contemporânea que se distingue pelo uso de técnicas provenientes de várias artes marciais e esportes de combate, incluindo capoeira, jiu jitsu, muay thai, kickboxing, taekwondo, karatê, judô, wrestling, boxe, luta livre e kung fu. O boxe olímpico, também conhecido como boxe amador, é uma modalidade esportiva de combate entre dois/duas atletas que utilizam apenas os punhos protegidos com luvas específicas para se defender e também para golpear o/a adversário/a. Essa modalidade se difere do boxe profissional por não ter a finalidade de nocaute.
Em 2013, foi a oficialização da primeira luta de boxe entre mulheres no Ultimate Fighting Championship (UFC) a disputa pelo cinturão do Peso Galo entre as americanas Ronda Rousey e Liz Carmouche. Foi um marco e uma conquista importante para as atletas, mas o ano também foi palco de outra grande novidade: a luta de MMA entre a atleta transexual Fallon Fox e Allanna Jones, que ocorreu em 24 de março, nas semifinais do Championship Fighting Alliance, conforme afirmam Grespan e Goellner (2014: p.1268):
[...] a participação oficial de Fallon Fox no MMA desencadeou discussões relacionadas à legitimidade de sua presença nesse esporte. Vários dos argumentos convocados para atestar a arbitrariedade do acontecimento tinham como fundamentação o discurso biológico e o saber médico que, ao enfatizarem a transexualidade da atleta, colocavam como questão a pertinência de que um homem biológico, anatomicamente transformado em uma mulher, pudesse lutar contra outras mulheres.
De acordo com o Jornal Extra (2021) em 1714, James Figg fundou uma academia de Boxe na Inglaterra, onde Elizabeth Wilkinson se tornou a primeira campeã registrada ao vencer um torneio interno. Contudo, o Boxe feminino caiu em esquecimento até reaparecer como uma demonstração nas Olimpíadas de 1904, nos Estados Unidos. Em 1997, foi realizado o primeiro campeonato de Boxe feminino dos Estados Unidos. E, em 2012, a modalidade foi incluída finalmente nas Olimpíadas.
Para Beauvoir os homens carregam um prestígio sustentado pela tradição e pela educação infantil, que perpetua essa desigualdade: o presente está impregnado pelo passado, e, ao longo da história, foram os homens que moldaram o mundo. Embora as mulheres comecem a participar da construção desse novo cenário, o mundo ainda pertence aos homens. E no esporte percebemos a forte presença dos homens como símbolo de força, competitividade e resistência. Ele tem dominado, historicamente, a maior parte das modalidades esportivas, recebendo maior visibilidade, patrocínio e recursos. A esse aspecto Pereira (2016: p. 97) assim se posiciona:
O esporte constitui e representa hoje uma das práticas corporais mais significativas das sociedades contemporâneas. Todavia, mesmo estando indicada como fator importante de cidadania social, por parte do Estado, tem sido alvo fácil dos negócios econômicos e políticos, deixando a sociedade cada vez mais distantes do acesso, e mais próximos da lógica da exclusão.
Seguindo esse raciocínio, o esporte se apresenta como mais um campo onde as performatividades de gênero se manifestam, funcionando como um espaço binário de experimentação tanto corporal quanto política. Ele reforça as hierarquias sociais de gênero, acentuando as desigualdades entre o masculino e o feminino (Grespan e Goellner, 2014). Como dito no Jornal Gazeta do Povo que a maioria das competições esportivas de alto nível é organizada com as categorias masculina e feminina competindo separadamente.
Neste artigo, conforme já foi mencionado, interessa-nos analisarmos os discursos jornalísticos esportivos sobre as atletas que foram questionadas sobre suas identidades de gênero e sexualidade em jornais online no Brasil nas Olimpíadas de 2024.
Análise de Discurso e a mídia jornalística esportiva
A análise de discurso pode ser descrita como uma teoria que busca compreender a linguagem e seus processos de significação funcionando na sociedade e na história. O discurso, seu objeto de estudo, é assim “o lugar em que se pode observar a relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para sujeitos (Orlandi, 2002:
p. 17). Para Ramires, “os sentidos das palavras são resultado das relações sociais estabelecidas pelos sujeitos, no processo sócio-histórico, em que a ideologia fornece evidências para o entendimento de que as palavras têm sentidos determinados” (Ramires, 2017: p. 34).
Na citação de Ramires identificamos uma das principais categorias da Análise de Discurso: as condições de produção. “As condições de produção implicam o que é material (a língua sujeita a equívoco e historicidade), o que é institucional (a formação social, em sua ordem) e o mecanismo imaginário” (Orlandi, 2015: p.38).
Pêcheux resume dizendo:
As palavras, expressões, proposições etc., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que a empregam, o que quer dizer que elas adquirem seu sentido em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas (no sentido definido mais acima) nas quais essas posições se inscrevem. (Pêcheux, 2014: p. 146, grifo do autor).
A partir dessa ótica, os discursos materializados nos jornais esportivos online sobre o que é ser ou não ser mulher estabelecerão sentidos em relação a uma ideologia de gênero. “O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer (Orlandi, 2015:
p. 44). Para Silva Sobrinho e Ramires (2022, p. 6) “a mídia jornalística atua de modo determinante na subjetivação da sociedade, como espaço em que se materializam e circulam sentidos”.
Percebemos que, desde antes de 1851, já se questionava o que define ser mulher. Quando abordamos o tema das mulheres transgênero, ainda ouvimos expressões como 'não é uma mulher de verdade', ‘virou mulher’, ‘parece um homem vestido de mulher’, ‘nunca poderá ser mãe de verdade’, ‘mulher não entende de política/tecnologia/esporte’.
Esses dizeres que são expressões materializadas em discursos mostram o quanto nossa sociedade está estruturada no patriarcado, no binarismo de sexos e no sexismo. Passaremos, a seguir, a analisar o discurso materializado em declarações públicas acerca de questões de gênero na olimpíadas de 2024.
Resultados e discussão
Em novembro de 2021, o Comitê Olímpico Internacional (COI) divulgou novas diretrizes para orientar as regras das federações internacionais sobre a participação de atletas transexuais e intersexuais. Foi acordado que cada esporte será responsável por estabelecer seus próprios critérios de elegibilidade, que seriam aplicados também nos Jogos Olímpicos de 2024.
Tomaremos aqui o item 5.1 das diretrizes do COI, segundo Vecchioli (2021)
"Nenhum atleta deve ser impedido de competir ou deve ser excluído da competição com base em uma vantagem competitiva injusta não verificada, alegada ou percebida devido a suas variações de sexo, aparência física e/ou status de transgênero".
Desde 2015, quando o tema da inclusão de pessoas transexuais foi discutido pela primeira vez, após a solicitação de um primeiro homem transgênero do triatlo, o COI aplicava uma regra geral para todo o movimento olímpico. Essa regra determinou que as mulheres trans deveriam passar por um ano de tratamento hormonal, mantendo o nível de testosterona no sangue em até 10 nmol/L, e continuar com esse nível abaixo desse limite permanentemente.
Khelif foi desclassificada do Mundial de 2023 pela Associação Internacional de Boxe (IBA). A organização disse em uma entrevista coletiva durante os Jogos de Paris que um teste de gênero as havia considerado inelegíveis. O documento com as diretrizes do COI, também ressalta, que as atletas não devem ser forçadas a tomar medicação desnecessária para se tornarem elegíveis e nem devem ser submetidas a exames ginecológicos. “Possuir genitália masculina ou feminina não faz qualquer diferença na decisão sobre a elegibilidade de alguém” (Vecchioli, 2021).
Mesmo após essa decisão nas Olimpíadas de 2024 logo após ganhar sua primeira medalha de ouro, Imane Khelif, da Argélia, sendo a primeira mulher argelina a conquistar um título olímpico no boxe, teve que reafirmar seu gênero.
SD1 - “Sou uma mulher como qualquer outra mulher. Nasci mulher e vivi como mulher, mas há inimigos do sucesso e não conseguem digerir o meu”, disse Khelif, de 25 anos, em entrevista coletiva. (CNN Brasil Esportes, 10/08/2024).
O que nos chama a atenção é o fato de Khelif ter nascido e crescido como mulher cisgênero e após esses testes de 2023 ela ter sempre que reafirmar que é mulher. Na infância, inclusive, criada em uma vila rural, não pôde participar de esportes porque o pai "não aprovava boxe para meninas. Em nossa análise, as condições de produção que possibilitam a construção de sentidos, não é por acaso que Khelif precisa constantemente reafirmar seu gênero. Ela foi alvo de notícias falsas: devido à sua aparência “masculina”, e não demorou para sair rumores de que ela era uma mulher trans.
Segundo Orlandi:
O dizer não é propriamente particular. As palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua. O que é dito em outro lugar também significa em “nossas” palavras. O sujeito diz, pensa que sabe o que diz, mas não tem acesso ou controle sobre o modo pelo qual os sentidos se constituem nele. (Orlandi, 2015: p. 30).
Para Souza (2018) “desde muito pequenos, somos criados em padrões hegemônicos da cis-heterossexualidade. Ainda em casa a decoração de nossos quartos são instituídas em valores binários do menino e da menina. Retomando Khelif quando afirma que nasceu mulher, ela está se referindo a esses padrões estabelecidos socialmente.
O questionamento só acontece quando ela ganha uma competição de boxe, que é um esporte tradicionalmente masculino. Será que é por isso ela ser vista como “homem” e só ao ganhar é que é questionada?
Na declaração da ministra italiana Eugenia Roccella, Ministra da Família, Natalidade e Igualdade de Oportunidades, reforça essa ideologia de preconceito com as pessoas trans, mesmo não sendo confirmado a participação desses atletas nas olimpíadas 2024.
SD2 - “É muito preocupante saber que, durante os Jogos Olímpicos de Paris, duas pessoas trans foram admitidas nas competições de boxe feminino, [que são] homens que se identificam como mulheres, e que, em competições recentes, foram excluídos.” (UOL, 2024).
Para quem é preocupante e porquê? É preocupante para uma parcela da sociedade que continua acreditando que sexo biológico é binário e decidido ao nascer, qualquer pensamento ou atitude contraria se torna “MUITO” preocupante com a família e os bons costumes.
Podemos dizer aqui que a formulação dos discursos é influenciada por suas vivências e pelo contexto sócio-histórico em que estão inseridos, refletindo os valores que fazem parte de suas identidades. “O fato de que há um já-dito que sustenta a possibilidade mesma de todo dizer” (Orlandi, 2015).
Para Butler (2015), o que sentimos é condicionado pelo modo como interpretamos o mundo, ou seja, condicionado pelos enquadramentos postos e pelos dados. Nascemos e somos criados de forma binária, menino ou menina, e heteronormativo, esse mundo cisheteronormativo que padroniza as expressões de identidade que impõe a cisheterossexualidade.
De acordo com Souza:
Não há gênero ou sexualidade que estejam isentos dos preconceitos, discriminações, opressões, subordinações e submissões da imposição desse padrão social construído nas práticas socioculturais na história da humanidade. Com o reforço progressivo dessa imposição, diversas formas de reduzir a diversidade e a diferença em padrões de desigualdade vão sendo impostas à sociedade. Homofobia, lesbofobia, bifobia, transfobia, dentre tantas outras formas perversas, assumem postos que interferem diretamente na vida de um contingente massivo de nossa população, todavia, não só os “desviantes” do padrão cis-heteronormativo sofrem com isso. Essa disseminação gratuita de ódio é tão cega que até mesmo as pessoas que se identificam com a cisheterossexualidade sofrem com tais perversidades. (Souza, 2018).
Nas duas últimas sequências discursivas, de Ángeles Álvarez, encontramos esse discurso de preconceito mais evidente ainda. Ángeles Álvarez é porta-voz de organizações espanholas agrupadas sob a liderança da Aliança contra o Apagamento das Mulheres (Aliança CBM).
SD3 - “Quem se autodenomina trans não pode usurpar os pódios que as mulheres conquistam legitimamente. Eles quebram as expectativas e esperanças de meninas e adolescentes que esperam ou aspiram competir de forma justa”. (O Antagonista, 2024).
SD4 - As marcas desportivas alcançadas pelas pessoas transfemininas não são marcas de mulheres e, portanto, estes recordes e esses prêmios não podem ser reconhecidos como prêmios alcançados no âmbito dessas categorias desportivas”. (O Antagonista, 2024).
Muitas vezes, ouvimos que essa propagação de ódio é vista apenas como uma opinião, sendo justificada pela liberdade de expressão dentro dos princípios democráticos. São “processos discursivos que, em sua materialidade significante, reproduz “saberes” preconceituosos e tem implicações na ordem material da formação social brasileira, pois sustentam um imaginário” (Silva Sobrinho e Ramires, 2022) de que mulheres trans na verdade são homens.
Em SD1 e SD3 encontramos a palavra “sucesso” e “usurpar os pódios” que demonstram o quanto essas mulheres ao defenderem suas posições contra o machismo não veem as mulheres trans como iguais. Para Ramires “o silenciamento sobre as condições materiais de existência dos indivíduos e a interpelação ideológica que fornece evidências de que é unicamente do sujeito a responsabilidade por seu desenvolvimento pessoal” (Ramires, 2017: p. 24).
Considerações Finais
Este artigo teve como objetivo analisarmos os discursos jornalísticos esportivos sobre as atletas que foram questionadas sobre suas identidades de gênero e sexualidade em jornais online no Brasil. Percebemos que os discursos foram em maioria, contrário a essa inserção e atuação de mulheres trans nas olimpíadas 2024, mesmo não sendo confirmado a participação desses atletas nas olimpíadas.
No discurso analisado, há uma significação do que é ser ou não mulher. As mulheres trans são constantemente comparadas com homens devido ao binarismo e por terem nascido com pênis.
Devemos compreender que essa luta não trará resultados a curto prazo, e que de forma alguma ela será fácil – como nunca foi. Diversas estratégias e táticas foram criadas para que a hegemonia desse padrão se consolidasse da forma que se apresenta hoje. Logo, não estamos falando de teorias, técnicas ou práxis, e sim de um “cistema”. (Souza, 2018).
Ainda é possível imaginar um futuro diferente, com relações mais justas, igualdade de direitos e uma história que possa ser narrada de outra forma. Embora já tenhamos avançado muito, temos ainda um longo caminho a percorrer.
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