Impactos do SAEB no trabalho docente: entrevista com uma professora bióloga
Impacts of SAEB on Teaching Work: An Interview with a Biology Teacher
Hytalo Gabriel Silva Carvalho de Aguiar [1]
Alexsandro Costa Damascena [2]
Gabriel Dias de Sousa [3]
Kairon Breno Marinho da Silva Abreu [4]
Kátia Maria de Moura Evêncio [5]
Resumo
Este relato, de natureza qualitativa, consiste na análise de uma entrevista realizada durante uma pesquisa de campo, atividade vinculada a disciplina de Didática (2026), no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, da Universidade Estadual do Piauí, cujo tema abordou como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) impacta o cotidiano escolar e o planejamento do trabalho docente. A entrevista teve como questão norteadora a seguinte problemática: qual a influência das avaliações externas nas práticas pedagógicas e na pressão institucional sobre os professores, especificamente para compreender os desafios da aprendizagem na área de Ciências da Natureza? Assim, o objetivo central foi compreender como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) influencia as práticas escolares e o trabalho docente no Ensino Fundamental.
Palavras-Chave: SAEB; trabalho docente; ciências.
Abstract
This qualitative report presents an analysis of an interview conducted during fieldwork—an activity linked to the Didactics course (2026) within the Biological Sciences Teacher Training Program at the State University of Piauí. The study addressed how the Basic Education Assessment System (SAEB) impacts daily school life and the planning of teaching activities. The interview was guided by the following central question: what influence do external assessments have on pedagogical practices and institutional pressure on teachers—specifically regarding the challenges of learning in the Natural Sciences? Thus, the primary objective was to understand how the Basic Education Assessment System (SAEB) influences school practices and teaching work at the elementary and middle school levels (Ensino Fundamental).
Keywords: SAEB; teaching practice; science.
1 Introdução
O presente trabalho constitui um relatório de entrevista realizada durante uma pesquisa de campo, atividade vinculada a disciplina de Didática (2026), no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, da Universidade Estadual do Piauí. O tema central aborda como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) impacta o cotidiano escolar e o planejamento do trabalho docente.
O problema da pesquisa consistiu na seguinte questão: qual a influência das avaliações externas nas práticas pedagógicas e na pressão institucional sobre os professores, especificamente para compreender os desafios da aprendizagem na área de Ciências da Natureza? Para contextualizar essa realidade de forma empírica, os dados foram coletados por meio de uma entrevista realizada com a professora (Pessoa 1), a partir de sua vivência prática no Ensino Fundamental de uma escola municipal, em uma cidade do interior do Piauí situada a aproximadamente 415 km da capital Teresina.
O principal objetivo da pesquisa foi compreender como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) influencia as práticas escolares e o trabalho docente no Ensino Fundamental. Para isso, dividimos a pesquisa em etapas, com os seguintes objetivos específicos: Investigar a influência do SAEB na escolha de conteúdos e metodologias nas aulas de Ciências; compreender como a pressão institucional por resultados nas avaliações externas afeta a rotina escolar e os índices do município e identificar os desafios estruturais enfrentados pelos docentes para alinhar o letramento e a interpretação exigidos pelo SAEB à disciplina de Ciências.
Diante de tais objetivos, procedemos com o delineamento metodológico, como apresentado a seguir.
Metodologia
A etapa inicial deste estudo consistiu, prioritariamente, na leitura e compreensão dos documentos norteadores acerca do SAEB. Posteriormente, fizemos leituras específicas sobre práticas de Ensino de Ciências, considerando tanto a BNCC, quanto o Sistema de avaliações externas. Essa análise documental e bibliográfica visou entender como a BNCC orienta o ensino de Ciências/Biologia nos anos finais do Ensino Fundamental, bem como subsidiar o planejamento da segunda etapa do estudo, qual seja, a pesquisa de campo deste escrito.
Assim posto, realizado por meio de entrevista(s) com professores formados e atuantes na área de CiÊncias e Biologia, na pesquisa de campo, investigou-se as implicações no planejamento docente, nas práticas pedagógicas e na relação com as avaliações externas, especialmente o SAEB, como descrito a seguir.
A pesquisa de campo teve caráter qualitativo e exploratório. Para produção de dados qualitativos, utilizou-se a entrevista (Silva, 2024). A participante da pesquisa foi a professora (Pessoa 1), profissional com experiência na área e atuante em uma escola municipal, localizada em uma cidade do interior do Piauí situada a aproximadamente 415 km da capital Teresina.
O instrumento de coleta de dados baseou-se em um roteiro de perguntas direcionado a compreender os impactos do SAEB no trabalho docente. O registro das respostas ocorreu com fidelidade à fala da entrevistada, garantindo uma postura ética e respeitosa, possibilitando a produção de conhecimentos. Os dados constituíram-se de elementos envolvendo o ensino e aprendizagem de ciências da natureza no contexto do SAEB, organizados e analisados com base nos documentos norteados curriculares e do SAEB (INEP, 2025) e, posteriormente, apresentados no decorrer da disciplina de Didática (curso de Lic. em Ciências Biológicas – UESPI).
DESENVOLVIMENTO E RESULTADOS
A análise dos resultados coletados abrange seis aspectos centrais abordados na entrevista, que exploram desde o planejamento pedagógico até a percepção crítica sobre a eficácia da avaliação.
PERFIL DA ENTREVISTADA
A professora entrevistada é uma profissional dedicada à educação, atuando na área desde 2002. Sua formação acadêmica inclui Graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI), concluída em 2002; especialização em Docência do Ensino Superior pela Universidade Cândido Mendes (UCAM) em convênio com o Instituto A Vez do Mestre (IAVM), concluída em 2007 e, atualmente, ela desempenha a função de professora de ciências da natureza na rede municipal de ensino.
ENTREVISTA:
1. Influência do Saeb no Planejamento Pedagógico:
Pergunta: De que maneira os resultados do SAEB influenciam o planejamento pedagógico da escola?
Resposta: Os resultados do SAEB influenciam no planejamento pedagógico da escola porque, a partir deles, a equipe busca melhorar as dificuldades apresentadas pelos alunos. Mesmo que na nossa escola o Saeb ainda não cobre Ciências, toda a escola se envolve nesse processo, principalmente por questões relacionadas à aprendizagem, reprovação, distorção idade-série e frequência dos estudantes.
Análise: A partir deste relato, chegamos a conclusão de que o SAEB atua como um termômetro estrutural. A professora evidencia que o impacto dessa avaliação no trabalho docente vai além da disciplina de Ciências. O planejamento do professor de Biologia precisa ser adaptado para combater problemas crônicos revelados pela prova, como a reprovação e a distorção idade-série, transformando o trabalho pedagógico em um esforço coletivo da escola.
2. Pressão Institucional por Resultados
Pergunta: Você sente pressão em relação aos resultados das avaliações externas? Como isso acontece?
Resposta: Sim. Existe uma pressão em relação aos resultados das avaliações externas, porque eles refletem diretamente nos índices da escola e do município. Durante muito tempo nossa escola teve notas baixas no Saeb, mas recentemente houve melhora, mesmo sem atingir totalmente a meta, e isso já foi visto como um avanço importante.
Análise: Essa resposta evidencia que a quantificação da qualidade do ensino gera cobrança institucional. A fala literal da professora conecta-se ao tema demonstrando que o trabalho docente sofre pressão direta das secretarias de educação. O peso dos resultados do SAEB transforma o ambiente escolar, fazendo com que o professor de Ciências também sinta a responsabilidade de elevar os índices do município.
3. Impacto nas Metodologias e Escolha de Conteúdos
Pergunta: O Saeb influencia a escolha dos conteúdos e metodologias utilizados nas aulas? De que forma?
Resposta: Mesmo o SAEB da nossa escola sendo voltado mais para Português e Matemática, ele acaba influenciando o trabalho de todos os professores. Em Ciências, por exemplo, buscamos trabalhar mais interpretação, leitura, compreensão e raciocínio dos alunos, porque essas habilidades também ajudam no desempenho geral deles.
Análise: Essa prática revela uma interdisciplinaridade forçada pelas avaliações externas. O tema do Saeb afeta a metodologia da Biologia porque obriga o professor a utilizar o ensino de Ciências como ferramenta de letramento. A resposta mostra que o docente precisa adaptar seu conteúdo para treinar a leitura e a interpretação do aluno, que são habilidades primordiais cobradas na avaliação.
4. Desafios na Preparação para as Avaliações Externas
Pergunta: Quais são os principais desafios para preparar os estudantes para avaliações externas em Ciências da Natureza?
Resposta: Um dos principais desafios é a defasagem de aprendizagem de muitos estudantes, principalmente na leitura e interpretação. As faltas frequentes e a distorção idade-série também dificultam bastante o processo de preparação dos alunos.
Análise: Essa observação dialoga diretamente com a exigência de letramento científico no SAEB de Ciências da Natureza, que avalia a capacidade do aluno de ler e interpretar textos, gráficos e tabelas para resolver problemas, e não apenas a memorização de termos complexos. O absenteísmo e o atraso escolar geram lacunas cumulativas. Sem a constância em sala de aula, o estudante acumula dúvidas estruturais que prejudicam seu desempenho cognitivo no momento da avaliação.
5. Estratégias para uma Aprendizagem Significativa
Pergunta: Que estratégias podem contribuir para melhorar a aprendizagem dos estudantes sem reduzir o ensino apenas ao treinamento para provas?
Resposta: Acredito que trabalhar aulas mais dinâmicas, atividades investigativas, projetos, debates e conteúdos ligados ao cotidiano dos alunos contribui muito para a aprendizagem, sem deixar o ensino focado apenas em treinamento para provas.
Análise: Essa estratégia é eficaz porque o Saeb valoriza a investigação e o raciocínio lógico. Atividades como essas ensinam o aluno a pensar como um cientista, formulando hipóteses e analisando evidências, o que gera autonomia. Trazer a Biologia para o dia a dia, abordando temas como saúde pública e ecologia local, dá sentido ao conteúdo e prepara o estudante para os itens do Saeb, que são montados exatamente em cima de situações reais.
6. Contribuições e Limitações das Avaliações Externas
Pergunta: Na sua percepção, as avaliações externas contribuem para melhorar a qualidade da educação? Explique.
Resposta: Na minha percepção, as avaliações externas ajudam a identificar as dificuldades da escola e permitem acompanhar o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. Porém, elas não conseguem mostrar toda a realidade da educação, porque existem muitos fatores que influenciam o desempenho dos estudantes dentro e fora da escola.
Análise: O relato demonstra que as avaliações servem como um termômetro diagnóstico essencial para intervenções pedagógicas precisas, mas não mostram toda a realidade da educação. O Saeb funciona como uma foto de um momento específico, mas o rendimento escolar é atravessado por realidades socioeconômicas, estruturas familiares e fatores emocionais, como o nervosismo. A conclusão aponta para a necessidade de valorizar os indicadores sem reduzir a instituição escolar a uma única nota.
CONCLUSÃO
A pesquisa de campo permitiu concluir que o SAEB transcende a sua função de mero instrumento avaliativo, atuando como um elemento central na organização do trabalho docente nas escolas públicas.
A entrevista com a professora (Pessoa 1) evidenciou que a pressão pelos índices municipais molda não apenas o planejamento macro da escola, mas também as metodologias em sala de aula. Fica claro que o professor de Ciências da Natureza precisa adaptar sua prática docente constantemente, aliando o ensino investigativo ao letramento científico e, preparar o aluno para essas avaliações exige contextualizar a Biologia com a realidade local, ensinando-o a pensar de forma crítica.
Este processo representa um dos maiores desafios do professor, pois muitas vezes, se depara com a falta de espaço físico, recursos metodológicos necessários, tempo satisfatório para desenvolver sua aula, dentre outros fatores que afetam diretamente nessa prática.
Diante dos dados e compreensão acerca do tema, observamos que o Sistema culpabiliza e responsabiliza o docente, sobretudo, por competências que cabe ao Sistema suprir, acarretando riscos de precarização do trabalho docente, além de adoecimento desse profissional.
Por fim, compreende-se que as avaliações externas são fundamentais para o diagnóstico escolar, mas devem ser analisadas com cautela, exigindo clareza das responsabilidades e deveres de cada envolvido, pois não capturam por completo os desafios socioeconômicos, estruturais e pedagógicos que afetam a aprendizagem no cotidiano.
REFERÊNCIAS
ANDRE, Marli E. D. A. Pesquisas sobre a escola e pesquisas no cotidiano da escola EccoS Revista Científica, vol. 10, julho, 2008, pp. 133-145 Universidade Nove de Julho São Paulo, Brasil
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Sistema de Avaliação da Educação Básica: resultados e indicadores. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br. Acesso em: 23 jun. 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/ Acesso em: 15 jun. 2026.
LIMA DA SILVA, .; ALMEIDA BARROS, . Pesquisa Qualitativa em Educação e o uso de entrevistas semiestruturadas. REVISTA ELETRÔNICA PESQUISEDUCA, Santos, SP, Brasil, v. 16, n. 43, p. 170–191, 2024. DOI: 10.58422/repesq.2024.e1698. Disponível em: https://periodicos.unisantos.br/pesquiseduca/article/view/1698. Acesso em: 23 jun. 2026.

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