Riscos ocupacionais da exposição a drogas ilícitas em pó durante  apreensões policiais: uma revisão narrativa com aplicação à  Polícia Militar do Pará
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Resumo

A exposição ocupacional de policiais militares a drogas ilícitas em pó durante operações de apreensão de entorpecentes constitui um tema ainda pouco explorado na literatura científica brasileira, apesar do aumento expressivo das apreensões e da crescente complexidade química das substâncias ilícitas. Este estudo teve como objetivo analisar os riscos ocupacionais relacionados à exposição acidental de policiais militares a drogas em pó durante operações de apreensão de entorpecentes, identificando medidas preventivas aplicáveis à realidade da Polícia Militar do Pará. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza aplicada, com objetivos descritivos e exploratórios, desenvolvida por meio de revisão narrativa da literatura e pesquisa documental. O levantamento bibliográfico contemplou 31 referências, sendo 22 internacionais e 9 nacionais, incluindo artigos científicos, revisões sistemáticas, documentos técnicos e normativos, além de dados oficiais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. A síntese das evidências permitiu identificar que a inalação de partículas aerossolizadas constitui a principal via potencial de exposição ocupacional, especialmente durante a abertura de embalagens, o fracionamento de drogas e as buscas em ambientes confinados. Também foram identificados riscos decorrentes da variabilidade da composição química das substâncias apreendidas, frequentemente adulteradas e associadas a novas substâncias psicoativas. Como principal contribuição do estudo, foi elaborada uma matriz de risco ocupacional aplicável às operações de apreensão de drogas da Polícia Militar do Pará, reunindo situações operacionais, vias de exposição, níveis de risco, possíveis efeitos à saúde, medidas preventivas e fundamentação científica. Conclui-se que a adoção de protocolos institucionais de biossegurança, aliada ao uso adequado de equipamentos de proteção individual, à

1 2º Sargento da Polícia Militar do Pará, Licenciado em Pedagogia e Especialista em Gestão Escolar – Adminstração, Orientação e Supervisão.

*Autor correspondente:rayorgemsantos@gmail.com

2 3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Graduado em Educação Física e Especialista em Segurança Pública. ORCID: 0009-0001-4856-920x. E-mail: pauloaguiarlindolfo@gmail.com.

3 3º Sargento da Polícia Militar do Pará, , Bacharel em Sistemas de Informação e Especialista em Segurança da Informação. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-7341-8199

4 3º Sargento da Polícia Militar do Pará, Bacharel em Direito e Especialista em Metodologia do Ensino da Matemática e Física.

capacitação continuada e ao monitoramento das exposições ocupacionais, poderá fortalecer a proteção da saúde do efetivo e contribuir para maior segurança nas atividades policiais.

Palavras-Chave: drogas ilícitas; saúde ocupacional; biossegurança; Polícia Militar do Pará; exposição ocupacional; equipamentos de proteção individual.

Abstract

Occupational exposure of military police officers to powdered illicit drugs during drug seizure operations remains an underexplored topic in Brazilian scientific literature despite the increasing number of drug seizures and the growing chemical complexity of illicit substances. This study aimed to analyze the occupational risks associated with accidental exposure to powdered illicit drugs during seizure operations and to identify preventive measures applicable to the operational context of the Military Police of the State of Pará, Brazil. A qualitative, applied, descriptive, and exploratory approach was adopted through a narrative literature review combined with documentary research. The review included 31 references, comprising 22 international and 9 Brazilian publications, including original studies, systematic reviews, technical reports, regulatory documents, and official data from the 2025 Brazilian Public Security Yearbook. The synthesis of the available evidence indicated that inhalation of airborne particles represents the primary potential route of occupational exposure, particularly during the opening of drug packages, drug handling, and searches conducted in confined environments. The findings also highlight the toxicological challenges posed by the unpredictable composition of seized drugs, frequently adulterated and increasingly associated with novel psychoactive substances. As the main contribution of this study, an occupational risk matrix was developed to support drug seizure operations within the Military Police of Pará by integrating operational scenarios, exposure routes, risk levels, potential health effects, preventive measures, and supporting scientific evidence. The study concludes that implementing institutional biosafety protocols, combined with appropriate personal protective equipment, continuous professional training, and systematic monitoring of occupational exposures, may strengthen officers' health protection and enhance operational safety.

Keywords: illicit drugs; occupational health; biosafety; Military Police of Pará; occupational exposure; personal protective equipment

1 Introdução

O avanço do tráfico de drogas no Brasil nas últimas décadas trouxe consigo um problema pouco visível, mas cada vez mais presente no dia a dia das forças de segurança: a exposição, cada vez mais frequente, dos agentes à substâncias químicas com potencial tóxico elevado. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (FBSP, 2025), o país registrou, em 2024, 173.830 casos de tráfico de drogas e 221.862 registros de apreensão de entorpecentes. No mesmo período, as forças de segurança apreenderam cerca de 1.416.943 kg de maconha e 128.886 kg de cocaína, aumentos de 21,5% e 10,1%, respectivamente, em relação ao ano anterior.

A Região Norte, onde se localiza o Pará, funciona como um corredor estratégico do narcotráfico internacional, pois as rotas fluviais amazônicas são amplamente utilizadas para o escoamento da cocaína produzida nos países andinos (NETTO et al., 2025). Esse cenário coloca a Polícia Militar do Pará (PMPA) na linha de frente do enfrentamento ao tráfico local, em operações de abordagem, busca e apreensão (LAGES et al., 2026) que implicam, quase sempre, o contato direto com substâncias ilícitas nas mais variadas formas físicas.

Apesar do aumento expressivo no volume e na diversidade das apreensões, os riscos que o manuseio dessas substâncias representa para a saúde dos policiais ainda recebem pouca atenção na literatura. Entre as diferentes apresentações das drogas, o pó é justamente a de maior risco ocupacional: por dispersar-se facilmente no ar, favorece a inalação de partículas, o contato com as mucosas e a contaminação de superfícies, mãos e uniformes (HOWARD; HORNSBY-MYERS, 2018).

A saúde ocupacional do policial militar é um tema de relevância crescente, mas ainda pouco explorado pela literatura científica brasileira, em especial no que diz respeito à exposição química durante as operações de combate às drogas. Estudos internacionais, sobretudo os conduzidos pelo NIOSH (National Institute for Occupational Safety and Health), nos Estados Unidos, já documentaram sintomas agudos em agentes de segurança após o contato com pós de drogas ilícitas, como tontura, náusea, palpitações e prejuízo cognitivo temporário (CHIU et al., 2019; HORNSBY MYERS, 2018).

No Brasil, a questão se torna ainda mais complexa diante da adulteração sistemática da cocaína apreendida com substâncias como levamisol, lidocaína, fenacetina e cafeína (DI TRANA et al., 2022), bem como da identificação crescente de novas substâncias psicoativas (NSP), entre elas canabinoides sintéticos, catinonas e fentanyl, em materiais apreendidos em diversos estados (DE SOUZA BOFF et al., 2019; CUNHA et al., 2023). Essa diversidade química torna imprevisível o perfil toxicológico do que se encontra nas ocorrências e exige protocolos de biossegurança abrangentes.

A relevância desta investigação ultrapassa a dimensão individual e alcança o campo da defesa social, uma vez que a capacidade operacional das corporações depende diretamente da integridade física e cognitiva de seus agentes. A literatura demonstra que os agravos ocupacionais no trabalho policial militar comprometem a atenção, o julgamento crítico e o tempo de resposta, elevando o risco de decisões equivocadas em operações e afetando não apenas o desempenho

individual, mas também a segurança da equipe, da população e da própria instituição (SANTOS et al., 2026). Não por acaso, a Lei nº 13.675/2018, que institui a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, passou a prever, com as alterações da Lei nº 14.531/2023, o programa Pró-Vida, voltado à saúde ocupacional e segurança do trabalho dos profissionais de segurança pública e defesa social (BRASIL, 2018).

Diante da ausência de estudos específicos e da necessidade de fundamentar políticas de proteção ao efetivo da PMPA, este trabalho justifica-se pela relevância social e sanitária do tema, contribuindo para a construção de bases científicas capazes de orientar a formulação de protocolos institucionais de segurança. Neste contexto, o estudo orienta-se pelo seguinte problema de pesquisa: quais são os riscos à saúde dos policiais militares decorrentes da exposição acidental a drogas em pó durante as ocorrências de apreensão de entorpecentes e que medidas preventivas podem ser adotadas pela Polícia Militar do Pará?

O objetivo geral desta pesquisa é analisar os riscos ocupacionais relacionados à exposição de policiais militares a drogas em pó durante as operações de apreensão de entorpecentes, identificando medidas de prevenção aplicáveis à realidade da Polícia Militar do Pará. Como objetivos específicos têm-se os seguintes: (i) caracterizar as principais drogas apreendidas em pó na Região Norte e no Pará, incluindo adulterantes e novas substâncias psicoativas; (ii) identificar as vias e os riscos toxicológicos associados à exposição ocupacional a pós de drogas ilícitas; (iii) analisar protocolos nacionais e internacionais de biossegurança aplicáveis à atividade policial e; (iv) apresentar medidas preventivas baseadas em evidências para a redução da exposição durante as ocorrências.

2 Referencial teórico

2.1 Panorama das apreensões de drogas no Brasil e no Pará

Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelam uma trajetória de crescimento nas apreensões de entorpecentes em todo o território nacional. Em 2024, o Brasil registrou 173.830 ocorrências de tráfico de drogas (taxa de 81,8 por 100 mil habitantes) e 221.862 registros de apreensão. A quantidade física apreendida alcançou patamares históricos: 1.416.943 kg de maconha (alta de 21,5% em relação a 2023) e 128.886 kg de cocaína (alta de 10,1%) (FBSP, 2025).

Na Região Norte foram registradas cerca de 12 mil ocorrências de tráfico em 2024, com destaque para o Pará, responsável por 5.332 casos, o maior número da região. Quanto às apreensões físicas, o Norte respondeu por 44.907 kg de maconha e 21.727 kg de cocaína no mesmo ano, o que evidencia a importância do corredor amazônico para o narcotráfico nacional (FBSP, 2025).

Na prática policial, esses números se traduzem em um volume expressivo de situações em que, potencialmente, os agentes entraram em contato direto com substâncias tóxicas, durante abordagens em via pública, incursões em áreas de tráfico, buscas domiciliares e operações fluviais. Tabela 1 - Apreensões de drogas no Brasil e na Região Norte (2023-2024)

Fonte: FBSP, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.

2.2 Principais drogas em pó encontradas nas ocorrências policiais

A cocaína (cloridrato de cocaína) é o entorpecente mais frequentemente encontrado em forma de pó nas apreensões realizadas no Brasil. Estudos forenses nacionais demonstram que praticamente todas as amostras apreendidas contêm adulterantes, sendo os mais comuns o levamisol (anti-helmíntico veterinário), a lidocaína, a fenacetina, a cafeína e o talco (DI TRANA et al., 2022; LAPACHINSKE et al., 2015). A presença do levamisol é especialmente preocupante do ponto de vista toxicológico, pois o composto está associado à agranulocitose (a supressão dos granulócitos), com potenciais efeitos sobre indivíduos cronicamente expostos.

A lidocaína e a fenacetina, além de imitarem os efeitos anestésicos da cocaína, têm toxicidade própria: a fenacetina é nefrotóxica e foi classificada pela IARC (1987) como provavelmente carcinogênica para humanos (Grupo 2A). Quando dispersas em pó durante o manuseio, essas substâncias ampliam o espectro de risco para muito além do alcaloide principal.

O crack, base livre da cocaína normalmente comercializada em pedras, pode apresentar-se parcialmente pulverizado em razão do acondicionamento, do transporte ou do fracionamento. Nos ambientes fechados onde o material é armazenado, os policiais que realizam buscas ficam sujeitos à inalação de resíduos de drogas em suspensão, já documentados no ar e em superfícies de locais de guarda de entorpecentes (DORAN et al., 2017).

A identificação de novas substâncias psicoativas (NSP) nas apreensões brasileiras tem crescido de forma significativa. Diferentes estudos registraram a presença de feniletilaminas

NBOMe e NBOH, catinonas, canabinoides sintéticos, fentanil em papéis e análogos da triptamina em vários estados (DE SOUZA BOFF et al., 2019; CUNHA et al., 2023). O fentanil e seus análogos merecem atenção especial: são opioides sintéticos com potência de 50 a 100 vezes superior à da morfina, de modo que doses minúsculas, da ordem de microgramas, já são biologicamente ativas. A contaminação de lotes de cocaína com fentanil tem sido documentada internacionalmente, com prevalência de 12% a 15% em amostras de cocaína em pó (WAGNER et al., 2023).

2.3 Vias de exposição ocupacional

As investigações do NIOSH identificam quatro vias principais de exposição ocupacional a drogas ilícitas em pó: inalação, exposição percutânea, contato com as mucosas (olhos, boca e nariz) e ingestão acidental (CHIU; HORNSBY-MYERS; TROUT, 2018; HORNSBY-MYERS, 2018). A hierarquia de risco varia conforme a substância, a quantidade envolvida e as circunstâncias da ocorrência.

A inalação é a via que mais preocupa nas situações de manuseio ou perturbação de pós, ações como abrir embalagens, fracionar material apreendido, realizar buscas em ambientes confinados (viaturas, compartimentos de embarcações, residências com janelas fechadas) e varrer locais de acondicionamento, são ações capazes de gerar nuvens de partículas finas. Partículas menores que 10 micrômetros penetram nas vias aéreas inferiores e são absorvidas diretamente pela circulação sistêmica. Análises ambientais em delegacias já detectaram resíduos de drogas no ar e em superfícies, com concentrações mais elevadas nas áreas de registro, balanças e cofres (DORAN et al., 2017).

O contato cutâneo direto com pós de drogas é frequente durante buscas pessoais, no manuseio de embalagens e no transporte do material apreendido. Estudos experimentais mostram que a absorção transdérmica do fentanil depende fortemente da dose, da área de pele exposta e do grau de hidratação (suor), de modo que exposições breves sobre a pele íntegra são consideradas de baixo risco (CHIU; HORNSBY-MYERS; TROUT, 2018; TAPP et al., 2017). Contudo, alerta-se que álcool em gel pode aumentar a absorção cutânea do fentanil ao alterar a barreira lipídica da pele; por isso, a água e o sabão são recomendados como método de descontaminação de eleição (MAGNANO et al., 2021).

Partículas em suspensão podem depositar-se diretamente sobre a conjuntiva ocular ou sobre as mucosas nasal e oral durante as operações, sobretudo quando o policial toca o rosto com as mãos contaminadas. A mucosa nasal, muito vascularizada, absorve alcaloides com rapidez. Incidentes investigados pelo NIOSH relatam que esfregar os olhos ou tocar os lábios após o contato com superfícies contaminadas esteve associado ao surgimento de sintomas nos agentes (CHIU et al., 2019).

Ambientes fechados, como viaturas, cabines de embarcações e cômodos onde as drogas são guardadas ou consumidas, concentram mais resíduos em suspensão. Investigações em salas de consumo de drogas documentaram contaminação moderada a intensa de superfícies e do ar, ainda que com baixa absorção sistêmica entre os trabalhadores que utilizavam EPIs básicos (CUFFARO et al., 2024). A exposição a reagentes empregados em laboratórios clandestinos representa um risco adicional, com irritação química aguda das mucosas, da pele e das vias aéreas (KOPPEN et al., 2022).

2.4 Possíveis efeitos à saúde do policial militar

As investigações de caso conduzidas pelo NIOSH documentaram, em policiais expostos a pós de misturas de opioides e estimulantes, sintomas como tontura, sensação de cabeça leve, visão turva, sudorese, náusea, palpitações, confusão mental e desorientação. Ainda que esses sintomas comprometessem o desempenho operacional, os sinais vitais e os exames toxicológicos foram inconsistentes com intoxicação opioide grave (CHIU et al., 2019). Uma revisão sistemática que analisou 27 socorristas sintomáticos não encontrou casos de depressão respiratória severa, internação hospitalar ou óbito atribuíveis à exposição ambiental ao fentanil (ADAMS et al., 2023).

As evidências de efeitos crônicos atribuíveis especificamente à exposição incidental ainda são limitadas. Para os policiais em campo, distúrbios neurológicos ou respiratórios crônicos decorrentes exclusivamente da exposição a pós de drogas não foram documentados nas revisões disponíveis (ADAMS et al., 2023). Ainda assim, a falta de estudos longitudinais voltados ao contexto brasileiro, somada à complexidade das misturas encontradas, impede qualquer conclusão definitiva sobre o risco crônico.

2.5 Biossegurança aplicada à atividade policial

As recomendações do NIOSH e das revisões sistemáticas convergem na indicação dos seguintes EPIs para policiais em ocorrências com drogas em pó: luvas nitrílicas (trocadas após cada tarefa com material contaminado), manga longa, respiradores PFF2/N95 quando os pós podem se transformar em aerossol e óculos de proteção quando há risco de dispersão de partículas (CHIU; HORNSBY-MYERS; TROUT, 2018; BASHAM et al., 2021). Vale notar que o uso de equipamentos de nível HAZMAT não encontra respaldo nas evidências para ocorrências típicas e pode, inclusive, atrasar a prestação do socorro (HERMAN et al., 2020; ADAMS et al., 2023). A descontaminação precoce com água corrente e sabão é o procedimento mais consistentemente recomendado após a exposição a pós de drogas. O álcool em gel deve ser evitado quando há contaminação visível por fentanil ou outros opioides lipofílicos, pois pode aumentar a absorção transdérmica (MAGNANO et al., 2021). As peças de uniforme contaminadas devem ser ensacadas separadamente e encaminhadas à lavagem institucional. Em ambientes internos com histórico de armazenamento de drogas, recomendam-se a limpeza das superfícies e a renovação do ar (DORAN et al., 2017).

O acondicionamento seguro do material apreendido caminha lado a lado com a preservação da cadeia de custódia e a proteção do efetivo. Recomenda-se que o pó seja manipulado o mínimo possível no local da apreensão e acondicionado em recipientes resistentes e hermeticamente fechados antes do transporte. Os procedimentos operacionais padronizados (POPs) devem prever a identificação de substâncias desconhecidas, a comunicação imediata sempre que houver exposição acidental, o registro formal do episódio e o encaminhamento para avaliação médica diante de qualquer sintoma.

3 Metodologia

A pesquisa é de natureza qualitativa e caráter aplicado, com objetivos descritivos e exploratórios (GIL, 2008), apoiada em dados quantitativos secundários de fontes oficiais, utilizados de forma complementar para dimensionar o fenômeno estudado. O método adotado foi a revisão narrativa da literatura (ROTHER, 2007), aliada à pesquisa documental (MARCONI; LAKATOS, 2003) sobre dados secundários provenientes de publicações oficiais do setor de segurança pública.

O levantamento bibliográfico foi realizado nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, Google Acadêmico e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/BIREME), com os descritores: "occupational exposure illicit drugs law enforcement", "drug powder police health effects", "biosafety policing", "fentanyl first responders", "exposição ocupacional drogas policiais" e suas combinações. Foram adotados como critérios de inclusão: (a) publicações entre 2013 e 2026; (b) estudos que tratassem de exposição ocupacional a drogas ilícitas, biossegurança policial ou toxicologia de adulterantes; e (c) textos em português ou inglês. Foram excluídos trabalhos sem relação direta com o contexto de segurança pública, editoriais e materiais de divulgação sem revisão. Ao final da triagem, foram analisadas 31 referências, sendo 22 internacionais e 9 nacionais, incluindo artigos científicos, documentos técnicos e normativos.

Foram priorizadas publicações do período de 2013 a 2026, entre artigos originais, revisões sistemáticas, avaliações de risco do NIOSH e publicações forenses. Como referências regionais para a caracterização das apreensões e do perfil do tráfico no oeste do Pará, foram utilizados, respectivamente, os estudos de Soares e Silva (2023) e de Lages et al. (2026), este último referente à atuação da PMPA na Base Integrada Fluvial Candiru, em Óbidos. Os dados quantitativos sobre tráfico e apreensões foram extraídos do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (FBSP, 2025).

4 Resultados e Discussão

4.1 Vulnerabilidade dos policiais militares durante as apreensões

Por se tratar de uma revisão narrativa da literatura, os resultados apresentados consistem na síntese crítica e interpretativa das evidências científicas identificadas, buscando integrar os principais achados disponíveis sobre a temática. A análise conjunta de estudos epidemiológicos, investigações de casos, revisões sistemáticas e documentos técnicos possibilitou delinear um perfil de vulnerabilidade ocupacional aplicável aos policiais militares do Estado do Pará durante operações de enfrentamento ao tráfico de drogas. As evidências indicam que a elevada frequência de apreensões, a variabilidade da composição química das substâncias ilícitas, com predominância de cocaína adulterada e crescente identificação de novas substâncias psicoativas (NSP), a realização de buscas em ambientes frequentemente confinados e a inexistência de protocolos institucionais específicos de biossegurança constituem fatores que potencializam o risco ocupacional enfrentado pelo efetivo policial.

A falta de EPIs adequados e de treinamento específico é um fator de vulnerabilidade documentado tanto nas investigações internacionais quanto inferido a partir da realidade estrutural das polícias militares brasileiras. Uma revisão sistemática sobre riscos ocupacionais em policiais, em escala global, destaca que as exposições químicas, biológicas e ergonômicas costumam ser subestimadas nas políticas institucionais de saúde do trabalhador (MONA et al., 2019).

Além dos efeitos físicos, a dimensão psicossocial mostra-se relevante, em estudo recente 80% dos primeiros-socorristas relataram preocupação com os efeitos da exposição a drogas em pó sobre a própria saúde (WINOGRAD et al., 2020), o que evidencia um impacto sobre o bem-estar profissional independentemente da ocorrência de intoxicação clínica confirmada.

No caso particular do Pará, as rotas fluviais do narcotráfico fazem com que o policial atue, muitas vezes, em ambientes ainda mais confinados (porões de embarcações e depósitos ribeirinhos) nos quais a concentração de partículas tende a ser mais alta e as possibilidades de ventilação, mínimas. De acordo com Lages et al. (2026), a atuação da PMPA na Base Integrada Fluvial Candiru, em Óbidos, envolvem fiscalização e abordagem de embarcações que trafegam pelos rios Amazonas e Tapajós, atividade que expõe o policial a contato direto com expressivo volume de drogas apreendido nessas operações, reforçando a frequência com que o efetivo paraense entra em contato direto com o material ilícito.

4.2 Perfil toxicológico das substâncias apreendidas no Pará

Os dados revisados sugerem que a cocaína adulterada é a principal substância de risco, tanto pelo volume apreendido (FBSP, 2025; SOARES; SILVA, 2023) quanto pela imprevisibilidade de sua composição (DI TRANA et al., 2022; LAPACHINSKE et al., 2015). A presença de levamisol em parcela significativa das amostras brasileiras representa um risco específico de hematotoxicidade em exposições crônicas, uma vez que o composto está associado à agranulocitose (LAROCQUE; HOFFMAN, 2012). A fenacetina, além de nefrotóxica, é classificada pela IARC como provavelmente carcinogênica (Grupo 2A) (IARC, 1987), o que confere relevância adicional ao controle da exposição ocupacional.

A identificação crescente de NSP nas apreensões do Norte e do Nordeste, incluindo fentanil em blotters, catinonas e canabinoides sintéticos, reforça a necessidade de que os protocolos de biossegurança sejam elaborados considerando cenários de maior complexidade toxicológica. A contaminação cruzada de lotes de cocaína com fentanil, já documentada em contextos internacionais, pode não ser percebida visualmente pelo policial em campo, o que representa risco de exposição inadvertida a um opioide de altíssima potência.

4.3 Matriz de risco ocupacional da exposição a drogas em pó durante apreensões

A síntese das evidências identificadas na literatura permitiu elaborar uma matriz de risco ocupacional aplicável às operações de apreensão de drogas realizadas pela Polícia Militar do Pará. A matriz (Tabela 2) integra as principais situações operacionais, as vias de exposição, o nível de risco, os possíveis efeitos à saúde, as medidas preventivas recomendadas e a fundamentação científica correspondente, constituindo um instrumento de apoio à gestão da biossegurança institucional.

Tabela 2 - Matriz de risco ocupacional da exposição a drogas em pó

Fonte: Elaborado pelos autores

A síntese das evidências indica que atividades envolvendo abertura de embalagens, fracionamento e buscas em ambientes confinados tendem a apresentar maior potencial de exposição por inalação de partículas aerossolizadas, justificando a adoção prioritária de respiradores PFF2/N95, proteção ocular e procedimentos de ventilação dos ambientes. Em contrapartida, atividades como transporte e armazenamento apresentam risco predominantemente relacionado à contaminação indireta, exigindo maior ênfase na correta embalagem dos materiais e na descontaminação das superfícies.

4.4 Lacunas e recomendações para o contexto brasileiro

A comparação entre as recomendações internacionais e a realidade operacional revela lacunas estruturais importantes. Os protocolos do NIOSH preveem treinamento periódico no reconhecimento de substâncias desconhecidas, seleção de EPIs baseada em análise de risco por tarefa, descontaminação imediata com água e sabão, registro de todas as exposições suspeitas e disponibilização de naloxona para as equipes de resposta rápida (CHIU et al., 2019; BASHAM et al., 2021). A literatura permite inferir que a implantação de um programa de vigilância biológica poderá contribuir para o monitoramento sistemático da exposição ocupacional, pois permitiria quantificar o risco real a que o efetivo está exposto e formar uma base de dados para estudos

longitudinais. O arcabouço legal do Decreto nº 7.602/2011 (Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho) (BRASIL, 2011), aliado às NR-9 (riscos ambientais) (BRASIL, 2019) e NR-15 (atividades insalubres) (BRASIL, 2025), oferece fundamento jurídico para a exigência dessas proteções.

5 Considerações Finais

A presente revisão narrativa permitiu analisar as evidências científicas disponíveis acerca da exposição ocupacional de policiais militares a drogas ilícitas em pó durante operações de apreensão, evidenciando que esse risco permanece pouco investigado no contexto brasileiro, embora seja potencializado pelo crescimento das apreensões de entorpecentes e pela maior complexidade toxicológica das substâncias atualmente circulantes. A síntese da literatura indica que a inalação de partículas aerossolizadas constitui a principal via potencial de exposição, especialmente durante a abertura de embalagens, o fracionamento de drogas e a realização de buscas em ambientes confinados, sem desconsiderar os riscos relacionados ao contato com mucosas, superfícies contaminadas e pele.

A análise também evidenciou que a imprevisibilidade da composição química das drogas apreendidas, frequentemente adulteradas com substâncias de elevada toxicidade ou associadas a novas substâncias psicoativas, amplia os desafios para a proteção da saúde ocupacional dos policiais militares. Embora os estudos revisados indiquem predominância de efeitos agudos leves a moderados decorrentes de exposições incidentais, a escassez de pesquisas longitudinais impede conclusões definitivas sobre possíveis repercussões crônicas, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo dessas exposições.

Como contribuição do estudo, foi proposta uma matriz de risco ocupacional especificamente direcionada às operações de apreensão de drogas desenvolvidas pela Polícia Militar do Pará. Ao sintetizar as principais situações operacionais, vias de exposição, níveis de risco, medidas preventivas e respectivas fundamentações científicas, essa ferramenta poderá subsidiar a elaboração de protocolos institucionais de biossegurança, apoiar ações de capacitação e orientar decisões relacionadas à proteção do efetivo.

Sob a perspectiva institucional, os resultados reforçam a importância de incorporar medidas preventivas fundamentadas em evidências, como a utilização adequada de equipamentos de proteção individual, procedimentos operacionais padronizados, descontaminação imediata, registro sistemático das exposições e educação permanente dos policiais militares. Tais estratégias

apresentam potencial para reduzir a vulnerabilidade ocupacional sem comprometer a eficiência das ações de enfrentamento ao tráfico de drogas.

Por fim, recomenda-se que futuras pesquisas desenvolvam estudos de campo junto ao efetivo da Polícia Militar do Pará, com avaliação de exposições ocupacionais em situações reais de serviço. A produção dessas evidências poderá subsidiar políticas institucionais de saúde ocupacional, contribuindo para a proteção do policial militar e para o fortalecimento da capacidade operacional da Corporação.

Referências

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Copyright (c) 2026 Rayorgem Marlan dos Santos, Paulo Lindolfo Aguiar , João Alves Delgado Júnior, Francisco Alberto Ribeiro Machado (Autor)

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