RESUMO
Atendimentos a urgências. emergências estão cada vez mais comuns nas UBS, por isso reconhecer e saber manejar essas possíveis urgências e emergências no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) deve ser considerada uma competência de todos os profissionais que atuam na APS. Assim, objetivou-se apontar as principais emergências observadas na APS, identificando o perfil epidemiológico e discutindo as competências dos profissionais necessários. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com buscas em bases como SciELO e PubMed, com estudos publicados em bases de com acesso gratuito. A literatura reforça as vivências práticas da rotina de uma UBS, que vem com atendimentos cada vez mais complexos e exigindo cada vez mais habilidades para não somente promover saúde como também prestar atendimentos cruciais para estabilizar e manter cuidados fundamentais à vida, pois a APS atende casos potencialmente graves. Dentre as principais condições ameaçadoras da vida, as hipertensivas são as ocorrências mais frequentes (25-30%), seguidas pelas síndromes gripais (15-20%) e pelas descompensações glicêmicas (8-12%), compondo as três principais situações emergenciais na APS e que exigem mais de todas as equipes da Estratégia de Saúde da Família eSF. Outras condições também figuram como quadros emergenciais na APS, como os desconforto respiratórios (principalmente asma e DPOC e mais comuns após pandemia de COVID-19), dor em vários sítios e em diversas faixas etárias, traumas (principalmente traumas domésticos e laborais), descompensações glicêmicas, lesões cortocontusas entre outras. Essas condições emergenciais, requerem instituição de ações imediatas com influências diretas no desfecho e nas sequelas, por isso a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) de 2017 estabeleceu o arcabouço legal para o atendimento dessas demandas espontâneas emergências, enfatizando que uma das competências fundamentais das eESF envolve saber agir em situações de emergência na APS. Desta forma, a previsão de atendimentos emergenciais na APS é uma realidade, mas persistem desafios estruturais e humanos que demandam estratégias de educação permanente e investimento em insumos críticos para garantir a segurança do paciente e a resolutividade do cuidado, característicos dos princípios fundamentais da APS brasileira.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde. Emergências. Estratégia Saúde da Família. Perfil Epidemiológico.
ABSTRACT
Handling urgent and emergency cases is becoming increasingly common in Basic Health Units (UBS); therefore, recognizing and managing these potential situations within the scope of Primary Health Care (PHC) must be considered a core competency for all professionals working in the field. This study aimed to identify the main emergencies observed in PHC, outline the epidemiological profile, and discuss the necessary professional competencies. It is an integrative literature review involving searches in databases such as SciELO and PubMed, focusing on studies available via open access. The literature reflects the practical realities of daily life in a UBS, where cases are becoming increasingly complex, demanding skills not only for health promotion but also for providing critical care to stabilize patients and maintain life-sustaining measures, given that PHC deals with potentially severe cases. Among life-threatening conditions, hypertensive crises are the most frequent (25–30%), followed by influenza-like illnesses (15–20%) and glycemic decompensation (8–12%); these constitute the three main emergency situations in PHC and place the greatest demands on Family Health Strategy (ESF) teams. Other conditions also present as emergencies in PHC, such as respiratory distress (particularly asthma and COPD, which have become more common following the COVID-19 pandemic), pain in various body sites across different age groups, trauma (mainly domestic and occupational), glycemic decompensation, and lacerations/contusions, among others. These emergency conditions require immediate action, as interventions directly influence outcomes and potential sequelae; consequently, the 2017 National Primary Care Policy (PNAB) established the legal framework for addressing these unscheduled emergency demands, emphasizing that the ability to act in PHC emergency situations is a fundamental competency for ESF teams. Thus, the provision of emergency care within Primary Health Care (PHC) is a reality; however, structural and workforce-related challenges persist. These challenges require continuing education strategies and investment in critical supplies to ensure patient safety and effective care resolution—aspects that are central to the fundamental principles of the Brazilian PHC system.
Keywords: Primary Health Care. Emergencies. Family Health Strategy. Epidemiological Profile.
RESUMEN
La atención de casos de urgencia y emergencia es cada vez más frecuente en las Unidades Básicas de Salud (UBS); por ello, reconocer y gestionar estas situaciones potenciales en el ámbito de la Atención Primaria de Salud (APS) debe considerarse una competencia esencial para todos los profesionales del sector. Este estudio tuvo como objetivo identificar las principales emergencias observadas en la APS, describir el perfil epidemiológico y analizar las competencias profesionales necesarias. Se trata de una revisión integradora de la literatura que incluyó búsquedas en bases de datos como SciELO y PubMed, centrándose en estudios disponibles en acceso abierto. La literatura refleja la realidad cotidiana de las UBS, donde los casos son cada vez más complejos y exigen habilidades no solo para la promoción de la salud, sino también para brindar atención crítica destinada a estabilizar a los pacientes y mantener medidas de soporte vital, dado que la APS aborda casos potencialmente graves. Entre las afecciones que ponen en riesgo la vida, las crisis hipertensivas son las más frecuentes (25–30%), seguidas de los cuadros gripales (15–20%) y la descompensación glucémica (8–12%); estas constituyen las tres principales situaciones de emergencia en la APS y representan la mayor exigencia para los equipos de la Estrategia de Salud de la Familia (ESF). Otras afecciones también se presentan como emergencias en la APS, tales como la dificultad respiratoria (particularmente asma y EPOC, cuya incidencia aumentó tras la pandemia de COVID-19), el dolor en diversas partes del cuerpo en distintos grupos de edad, los traumatismos (principalmente domésticos y laborales), la descompensación glucémica y las laceraciones o contusiones, entre otras. Estas situaciones de emergencia requieren una actuación inmediata, ya que las intervenciones influyen directamente en los resultados y en las posibles secuelas; en consecuencia, la Política Nacional de Atención Básica (PNAB) de 2017 estableció el marco legal para abordar estas demandas de emergencia no programadas, subrayando que la capacidad de actuar ante emergencias en la APS es una competencia fundamental para los equipos de la ESF. Así, la prestación de atención de urgencia en la APS es una realidad; no obstante, persisten desafíos estructurales y relacionados con el personal. Estos retos requieren estrategias de educación continua e inversión en insumos críticos para garantizar la seguridad del paciente y una resolución eficaz de la atención, aspectos centrales para los principios fundamentales del sistema de APS brasileño.
Palabras clave: Atención Primaria de Salud. Emergencias. Estrategia de Salud de la Familia. Perfil Epidemiológico.
INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) foi definida pela Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) como a assistência sanitária essencial baseada em métodos e tecnologias práticas, cientificamente fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias na comunidade, a um custo que o país possa manter (Mendes; Melo; Carnut, 2022).
Tamanha importância da APS que Organização Mundial de Saúde (OMS) a destaca como o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com os sistemas nacionais de saúde de uma país, tendo por objetivos levar a atenção à saúde de forma mais universal, acessível e integrada (Da Silva et al., 2023).
De forma geral, a APS expressa seus atributos essenciais, na forma do primeiro contato (mostrando acessibilidade e uso do serviço como porta de entrada), pois tem na Estratégia da Saúde da Família (ESF) dentro das Unidades Básicas de Saúde (UBS) o primeiro recurso a ser buscado. A partir desse primeiro contato, inicia um seguimento sistemático através da longitudinalidade (cuidando ao longo do tempo) estabelecendo vínculos com a equipe e a comunidade, com os membros da equipe conhecendo bem a população que compõe a comunidade (Starfield, 2006).
Assim, atinge-se a integralidade (com a prática da promoção, prevenção, cura, reabilitação), incluindo o manejo de situações agudas e crônicas agudizadas (emergências). E o ápice dessa forma organizacional da APS vem com a coordenação do cuidado (articulação entre os diferentes níveis de atenção), pois com uma rede coordenada e articulada a integralidade prevista no Sistema Único Único de Saúde (SUS) é estabelecida (Brasil, 2017).
Reforçado esses atributos essenciais, destacamos outros derivados que perfazem a orientação familiar, avaliando o contexto familiar em cada uma de suas vertentes e necessidades, a orientação comunitária que reconhece as necessidades de saúde da população de uma comunidade, e não despreza a competência cultural, que promove adaptação às características culturais da população atendida (Starfield, 2006).
Desta forma, no Brasil, a APS vem ganhando notoriedade e vem evoluindo para atender as necessidades populacionais, e na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), atualizada pela Portaria nº 2.436 de 2017, reafirma-se que a APS é a porta de entrada principal e a coordenadora de toda a Rede de Atenção à Saúde (RAS). E é na PNAB (2017) que se estabelece a competência para atendimentos de casos de emergências, pois dentro do conjunto de ações de saúde da APS, temos a promoção, a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos, a manutenção da saúde e atendimentos a situações de emergência (Brasil, 2017).
A materialização dessas ações da APS se expressa prioritariamente através da ESF, operada em UBS com equipes de Estratégia de Saúde da Família (eESF) em diversas áreas do território brasileiro, configurando como equipes multiprofissionais compostas por pelo menos médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde (ACS), que atuam sobre um território adscrito, garantindo cuidados diversos em saúde (da promoção a emergência) aqueles que procuram (Kanno et al., 2023).
E nesse cenário, sendo a APS acessível e universal, não deve ser interpretada apenas como um local de consultas agendadas, mas também em um local para atendimentos em demanda espontânea, com muitas situações de iminente risco à saúde ou mesma a vida de uma pessoa, pois sabidamente a APS brasileira também atende emergências, assumindo um componente na Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE) conforme previsto na PNAB (Brasil, 2017).
Quando se remete a RUE, alguns conceitos de urgência e emergência, afloram pois conforme a Portaria nº 2.048/2002 e a Política Nacional de Atenção às Urgências (PNAU), a urgência/emergência é caracterizada pela constatação de condições imprevistas de agravos à saúde que impliquem em risco iminente de vida ou sofrimento intenso, exigindo, portanto, tratamento imediato (Brasil, 2002).
Reforçando a competência dos atendimentos de urgência/emergência na APS, a PNAU, instituída pela Portaria GM/MS nº 2.048/2002, regulamenta o funcionamento dos serviços de urgência e emergência no Brasil já alertando que as UBS devem estar preparadas para atendimentos imediatos (Brasil, 2006).
Com a expansão da APS no país, a Portaria nº 1.600/2011 reformulou a Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE), trazendo o conceito de que a UBS seria um componente pré-hospitalar fixo devendo ser capaz de prestar os primeiros socorros e referenciamento adequado (Brasil, 2011).
Portanto, como as urgências e as emergências necessitam de atuação rápida e precisa, pois o atraso no atendimento inicial pode comprometer o prognóstico do paciente. Utilizando-se desses conceitos, no escopo da APS como porta de entrada acessível, que deve ser capaz de resolver a grande maioria dos problemas de saúde da população, inclusive as agudizações de condições crônicas (Dos Santos et al., 2025).
Assim, o presente estudo objetivou apontar as emergências mais comuns na APS demonstrando a importância do estímulo à competência de atendimentos de emergência para os profissionais que compõem as equipes de eESF. Pois a partir do conhecimento dessas urgências/emergências, poder-se-á elaborar estratégias eficazes com um planejamento alicerçando as competências necessárias para o manejo adequado de acordo com a estrutura física e humana disponível em cada realidade da APS.
PRIMEIROS SOCORROS, CUIDADOS BÁSICOS QUE SALVAM VIDAS
O termo "Primeiros Socorros" é definido como sendo intervenções simples capazes de reconhecer uma situação de risco e agir imediatamente evitando novos danos e diminuindo maiores riscos de óbitos potencialmente evitáveis, com ações simples e reproduzíveis (Lima; Ferreira Lima, 2026).
Muito diferente da verificação de sinais vitais, a prática de primeiros socorros exige habilidades triviais (como reconhecer, pedir ajuda e manter ambiente seguro) diante de uma situação que envolva algum tipo de emergência. Sendo que o início desses primeiros socorros devem ser realizados no menor espaço de tempo possível e da forma correta, reduzindo as condições de danos que possam gerar uma emergência (De Oliveira Ventorini et al., 2012).
Portanto, pensou em primeiros socorros, vem a necessidade da rapidez no início da assistência, pois a implementação de ações de socorros é o limiar em muitas situações entre a vida e a morte, podendo reduzir as sequelas e o custo final do tratamento. De forma que todos os serviços de saúde, entre eles a atenção básica, prestada na APS, devem realizar acolhimento e atendimento das urgências tanto de baixa como de alta complexidade, de forma capacitada por meio de uma prática humanizada, tornando-se resolutivo (Nóbrega; Bezerra; De Sousa, 2015).
Com práticas básicas de primeiros socorros, realizadas ainda no âmbito da APS, muitos traumas e sequelas podem ser minimizadas e até mesmo vidas podem ser salvas por causas evitáveis. Bastando para isso, perceber que prestar socorro significa avaliar uma situação de risco, o local onde ocorreu, solicitar ajuda e agir conforme conhecimentos e limites de segurança (Tavares; Saltarelli; Bernades, 2016)
Mesmo promovendo ações básicas, mas fundamentais para a saúde e bem estar de uma população, "primeiros socorros" não representa um comportamento estimulado no Brasil. E na APS ainda não é uma rotina comum, sendo comum encontrar indivíduos que ouviram falar ou leram algo sobre o assunto, mas é difícil encontrar pessoas que conhecem, entendam e estejam aptas para efetivar primeiros socorros (De Maria et al., 2020)
Desta forma, com a expansão da APS e a orientação em atendimentos emergências previstos pela PNAB (2017), traz uma constatação de que os profissionais da APS necessitam conhecer e ter domínio para as situações de emergência que exijam ações em primeiros socorros, para desmistificar as constantes percepções de uma possível incapacidade das equipe da ESF em situações de urgência (Terrazas Filho, et al., 2025).
Neste cenário, ressalta-se que conforme o artigo 135, do Código Penal Brasileiro, a omissão de socorro é considerada crime no Brasil, sendo que a falta de atendimento de primeiros socorros eficiente são consideradas omissão e respondem pelos principais motivos de mortes e danos irreversíveis nas vítimas (Brasil, 2017).
Portanto, considera-se que primeiros socorros promovem avanços na PNAB com maior formação das eESF diante das ocorrências, tornando essas eESF mais aptas para lidarem com situações de urgência e emergência, realizando intervenções seguras e eficientes de acordo com cada necessidade.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas principais bases de dados dentre os principais periódicos disponíveis e os mais atuais possíveis. Nas pesquisas, utilizou-se os descritores em português, combinados por meio dos operadores booleanos "AND" e "OR": “primeiros socorros”, “urgência”, “emergência”, “APS”, “Sistema Único de Saúde” e “atenção às urgências”.
Para a revisão de literatura, foram consultados artigos científicos e publicações oficiais no período compreendido entre 2020 e 2026. As bases de dados utilizadas incluíram SciELO, PubMed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, além de documentos normativos do Ministério da Saúde do Brasil. Os critérios de inclusão foram: artigos em português e inglês que abordassem especificamente urgências e emergências no cenário da atenção básica.
A análise dos dados seguiu uma abordagem temática, sintetizando as evidências sobre perfil epidemiológico, estrutura e competências profissionais. Com os resultados subsidiando as discussões que construíram a discussão à luz da ciência.
PRINCIPAIS EMERGÊNCIAS OBSERVADAS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
A PNAB (2017) estabelece que a APS está preparada para realizar atendimentos de demanda espontânea, realizando acolhimento com classificação de risco. Estabelecendo que o atendimento a situações agudas é parte das atribuições legais por parte das eESF, com o parágrafo XV do Art. 2º da PNAB definindo explicitamente que compete às equipes da ESF realizarem atendimentos de urgência/emergência por causas sensíveis à Atenção Básica (Brasil, 2017).
Além disso, todos os atendimentos realizados na APS seguem uma classificação de risco (muito semelhante às adotadas em Unidade de Pronto Atendimentos e Hospitais) baseada em prioridades de saúde. A maior ferramenta de registros dos atendimentos na APS, o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) traz a possibilidade de atendimentos de urgência, com uma caixa voltada para os eventuais registros. Bem como na área destinada às condutas, também percebe-se a possibilidade de transferência a outras unidades de atendimento.
E mesmo diante de tantas limitações estruturais e humanas nas diversas UBS distribuídas em todo o Brasil, a PNAB define que as equipes de ESF devem estar preparadas e adaptadas para estabilizar uma urgência/emergência e indicar a transferência ao serviço adequado de referência, mostrando competência, habilidades e resolutividade para atender as principais emergências sensíveis a APS (De Melo et al., 2024).
As emergências sensíveis a APS são situações comuns nas agendas das UBS, pois são agudizações de comorbidades (patologias já tratadas nas UBS) e por isso a atuação da APS na no atendimento inicial e mesmo na condução dessas situações emergências, pois conhece bem o passado prévio e as possíveis alergias e limitações (Antunes et al., 2025).
De acordo com as informações do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) a Hipertensão Arterial Sistêmica é a condição mais comum nas UBS brasileiras. E consequentemente suas complicações, sejam crises hipertensivas ou crises hipotensivas representam as emergências mais comuns na APS, respondendo por 25-30% de todas as emergências relatadas nas UBS brasileiras (Camapum, 2025).
Portanto, as eESF devem estar alertas para perceber sinais de lesão de órgão-alvo (AVC, IAM, edema pulmonar) e outros sinais de alerta (cefaleia intensa, turvação visual, dor torácica, déficit neurológico) e saber agir prontamente com medidas de primeiros socorros para evitar progressão de lesões e mesmo diminuir possibilidade de lesões de órgãos alvos (Lima; Ferreira Lima, 2026).
Apontada como a segunda mais comum das emergências na APS, surgem as síndromes gripais, respondendo por 15-20%. Descritos nos estudos como sendo quadros de febre, tosse e mialgia. Sendo oportuno ressaltar, que como os estudos avaliados foram a partir da pandemia de Covid-19 as repercussões das síndromes gripais ganharam bastante notoriedade na APS (Mendonça et al., 2026).
E nesse cenário, as eESF devem estar preparadas para reconhecer os sinais de alerta e de maior gravidade (dispneia, taquipneia, saturação O2 < 94%, cianose) para assim atuar de forma rápida e encaminhar o mais precocemente possível para uma unidade de referência para receber os atendimentos finais (Lima; Ferreira Lima, 2026).
Figurando como a terceira mais comum emergência atendida na APS, vem as crises de exacerbação de Asma respondendo por 10-15% dos atendimentos emergenciais na APS. Essas crises asmáticas são descritas como sendo exacerbações e/ou agudizações de uma asma previamente diagnosticada e que estava em acompanhamento na própria UBS, mas que por motivos diversos (Oliveira et al., 2026).
E essas crises asmáticas podem se manifestar por crises leves ou mesmo mais graves, sendo que as equipes devem estar capacitadas para reconhecer sinais clássicos como dispneia e sibilância. E mesmo sinais de alerta, que seriam o uso de musculatura acessória, impossibilidade de falar frases completas, SpO2 < 92% em ar ambiente, bem como saber agir com manejo que muda prognóstico seja por broncodilatadores, corticites e até mesmo suplementação de oxigênio (De Assis et al., 2026).
Assumindo a quarta mais frequente emergência atendida na APS, estão descritas as descompensações glicêmicas, respondendo por 8-12% das emergências atendidas pelas eESF. Essas emergências relacionadas a glicemia podem se apresentar por hipoglicemias (glicemias abaixo dos limiares da normalidade) ou hiperglicemias (glicemias muito elevadas) (Da Motta; Flório; Zanin, 2024).
Na APS, a Diabetes representa uma condição crônica prioritária, sendo que as equipes de ESF devem estar preparadas para o manejo e suas complicações, sendo que essas equipes são preparadas para testar glicemia capilar, avaliar estado de consciência e outros sinais de alerta, para iniciar primeiros socorros (Lima; Ferreira Lima, 2026).
Ocupando o quinto lugar dentre as emergências mais comuns na APS, são descritos os traumas, respondendo por 5-8% de todas as emergências que as eESF atendem. Esses traumas ocorrem principalmente por acidentes domésticos, acidente no ambiente laboral, ambiente escolar, com mecanismo de trauma leve e normalmente sem impor risco absoluto de vida (Alves et al., 2024).
Respeitando as orientações da mais recente PNAB, as UBS contam com uma sala de procedimentos, descrita como sendo um ambiente da UBS destinado a intervenções de menor complexidade, curativos, administração de medicamentos e coleta de exames. Nela, as equipes da ESF realizam ações focadas no acolhimento, na segurança e no acompanhamento, com capacidade de realizar limpezas, curativos, suturas, estabilização de fraturas e etc. (Brasil, 2017).
Algumas condições foram descritas como sendo menos frequentes na APS, mas que devido sua importância em diversos cenários de saúde, são relacionadas para enfatizar a necessidade de as eESF saberem reconhecerem e atuarem precocemente para evitar progressão e piores desfechos.
Essas condições são as crises convulsivas (3-5%), a maioria serão as crises de escape, mas até 1/4 dos casos serão primeiras crises. A dor torácica (3-5%), que pode decorrer de muitas causas e/ou mesmo complicações da HAS. As reações alérgicas (2-3%), que podem ocorrer de contatos domésticos, medicamentos de uso contínuo ou mesmo de medicações utilizadas no tratamento de condições agudas atendidas e prescritas na própria UBS (Pinto et al., 2022).
Somando-se ao grupo das emergências que merecem destaque na APS, temos as Síncopes (2-3%), que podem ocorrer até mesmo em atendimentos ou menos naqueles que vem apenas para vacinação e ainda em acompanhantes que presenciam procedimentos de saúde e que por não estarem habituados a ver ativam um desbanco parassimpático levando a manifestações de síncope ou síncope símile (Ruas et al., 2024).
A lista das condições emergenciais mais frequentes na APS, não se pode deixar de destacar os déficits neurológicos focais/Acidente Vascular Cerebral (1-2%), as hemorragias (1-2%), as Obstruções de Vias Aéreas por Corpo Estranho (OVACE) (1-2%). Condições que mesmo sendo menos frequentes, exigem reconhecimento precoce e condutas imediatas das eESF pois compõem a porta de entrada dos serviços de saúde e por isso não devendo ser esquecidas (Pinto et al., 2022).
Quando se trata de situações imediatas, vale lembrar que faz parte da rotina da APS, o acompanhamento do pré-natal. Sendo que as condições emergenciais de primeira metade de gravidez mais comuns, mas exigindo menos das eESF, pois uma vez reconhecidas, devem ser encaminhadas ao pré-natal de risco aumentado. Já ao fim da gestação, na segunda metade da gestação, as eESF devem estar preparadas para reconhecer e atuar em um possível trabalho de parto, pois mesmo infrequente, menos de 1% das gestantes iniciam o trabalho de parto na UBS, as eESF devem reconhecer para prevenir danos e minimizar riscos até que ocorra o parto ou até que a ajuda obstétrica chegue (Lima; Ferreira Lima, 2026).
Portanto, as principais emergências relatadas na APS, listadas de acordo com seus percentuais na tabela 1, são condições comuns da rotina de atendimentos das eESF dentro das UBS brasileiras. Desta forma, a APS deve conhecer para se preparar para tais atendimentos garantindo aplicação dos primeiros socorros nos usuários que necessitem de atendimento em situações emergenciais.
Tabela 1: Principais situações emergenciais na APS
Tipo de Emergência/Urgência | Frequência Estimada (%) |
|---|---|
Alterações de Pressão Arterial | 25% - 30% |
Síndromes Gripais | 15% - 20% |
Crises Asmáticas | 10% - 15% |
Descompensação Glicêmica | 8% - 12% |
Traumas Leves | 5% - 8% |
Crises Convulsivas | 3% - 5% |
Dor Torácica (Suspeita de IAM) | 3% - 5% |
Reações Alérgicas / Anafilaxia | 2% - 3% |
AVC e Outros | 1% - 2% |
Fonte: Literatura pesquisada
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os atendimentos emergenciais no âmbito da Atenção Primária à Saúde vem se mostrando cada vez mais comuns dentre os atendimentos realizados pelas eESF dentro das UBS. Representando uma realidade cotidiana que exige das equipes uma preparação que vai além do cuidado preventivo, pois exige reconhecimento e tomada de decisões bem como conhecimentos em primeiros socorros.
Por ser a porta de entrada dos serviços de saúde no Brasil, a APS recebe usuários com as mais variadas queixas e situações complexas de saúde, exigindo muito das eESF, que estão cada vez mais organizadas para atender às tantas competências que surgem com a evolução e expansão da Atenção Básica.
Desta forma, a APS assume a coordenação da Rede de Saúde, ao atender as principais complicações da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e todos os seus eventuais desfechos (IAM, AVC, Síncope e etc.). Além disso, estar atento a todas as eventuais situações de risco como as descompensações respiratórias e metabólicas, aos traumas e tantas outras situações.
Portanto, com a implementação da PNAB (2017) houve avanços normativos, com estímulos a melhorias estruturais e reforço da educação permanente em saúde para melhorar as estratégias e aumentar a segurança do paciente e a confiança da equipe em situações de emergências que são cada vez mais comuns na APS.
Conhecendo as principais emergências que estão presentes na APS, os profissionais poderão atuar de forma mais direcionada, com padronização de condutas, bem como para gestores que poderão planejar melhores formas de prestação de serviços emergenciais que são tão necessários ao papel resolutivo da APS.
Portanto conhecer as principais emergências da APS é o primeiro passo para um diagnóstico situacional, que desencadeará um plano de ação, levando em consideração todas as lacunas estruturais, temporais e de formação profissional no preparo das equipes, que estão em progressivo processo evolutivo e cada vez mais preparadas para lidar com situações críticas cada vez mais comuns nas UBS brasileiras.
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