RESUMO
Nas últimas décadas, as plataformas digitais se tornaram espaços centrais de circulação de discursos sobre saúde mental, destacando o Instagram, onde cresce a presença de psicólogos e psicanalistas produzindo conteúdos voltados ao grande público. Este artigo analisa algumas implicações éticas, políticas e epistemológicas a respeito da presença do psicanalista no Instagram, interrogando de que modo essa atuação reinscreve e tensiona elementos históricos da constituição da psicanálise. A partir de um ensaio analítico, este estudo articula a passagem freudiana da hipnose e da sugestão ao conceito de transferência, utilizando autores como o próprio Freud, Figueira, Zaretsky, Illouz, dentre outros. Argumenta-se que, embora a psicanalise midiatizada amplie o acesso ao discurso psicanalítico e contribua para difusão de reflexões sobre o sofrimento psíquico, ela também pode reativas dinâmicas de sugestão direta e formas de autoridade terapêutica baseadas na identificação e no engajamento. Conclui-se que a figura do psicanalista tido como celebridade pode emergir como um sintoma da cultura digital atual, necessitando que haja uma reflexão crítica sobre os limites e possibilidades da presença da psicanálise nas redes sociais, especialmente no que diz respeito a questão ética e do manejo da transferência.
Palavras-chave: Psicanálise; Instagram; Autoridade terapêutica; cultura digital; transferência.
ABSTRACT
In recent decades, digital platforms have become central spaces for the circulation of mental health discourses, with Instagram standing out due to the growing presence of psychologists and psychoanalysts producing content for the general public. This article analyzes some of the ethical, political, and epistemological implications regarding the psychoanalyst's presence on Instagram, questioning how this practice reinscribes and strains historical elements of the constitution of psychoanalysis. Based on an analytical essay, this study articulates the Freudian transition from hypnosis and suggestion to the concept of transference, utilizing authors such as Freud himself, Figueira, Zaretsky, Illouz, among others. It is argued that, although mediatized psychoanalysis expands access to psychoanalytic discourse and contributes to the dissemination of reflections on psychic suffering, it can also reactivate dynamics of direct suggestion and forms of therapeutic authority based on identification and engagement. The study concludes that the figure of the psychoanalyst viewed as a celebrity may emerge as a symptom of contemporary digital culture, requiring critical reflection on the limits and possibilities of psychoanalysis's presence on social media, especially regarding ethical issues and the management of transference.
Keywords: Psychoanalysis; Instagram; Therapeutic authority; Digital culture; Transference.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas o ambiente digital tornou-se espaço privilegiado de circulação de discursos sobre saúde mental, especialmente no Brasil, onde o Instagram se consolidou como uma das plataformas mais utilizadas pela população. Nesse contexto, emerge a presença cada vez mais intensa de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas produzindo conteúdos que articulam elementos clínicos, conceituais e de aconselhamento cotidiano. Tal fenômeno suscita questões importantes sobre a autoridade terapêutica e a possível transformação da psicanálise em um produto cultural midiatizado.
A partir da leitura de Eva Illouz (2012) verifica-se que a consolidação de um ethos terapêutico nas sociedades contemporâneas faz com que categorias oriundas da Psicologia e da Psicanálise passassem a ocupar um lugar central na organização da vida social, oferecendo vocabulários, técnicas e modelos de compreensão voltados para a gestão das emoções e para a construção da identidade. Nesse contexto, a busca pelo autoconhecimento, pelo bem-estar emocional e pelo desenvolvimento pessoal converteu-se em um imperativo cultural amplamente difundido, acompanhado pela crescente legitimação social atribuída aos especialistas em subjetividade. A autoridade desses profissionais ultrapassou os limites dos consultórios e instituições, alcançando a esfera pública por meio da circulação de discursos terapêuticos em diferentes meios de comunicação.
Ao discutir os efeitos da difusão da psicanálise, Figueira (1989) propõe a noção
de “cultura psicanalítica” para designar o processo pelo qual a psicanálise ultrapassou os limites da clínica e passou a compor o repertório simbólico mais amplo da cultura. Nesse contexto, conceitos, valores, modos de interpretar a subjetividade e formas de compreender o sofrimento psíquico passam a circular socialmente, constituindo uma espécie de visão de mundo compartilhada. A psicanálise deixa de ser apenas uma prática clínica especializada e passa a operar como um conjunto de referências culturais disponíveis para a interpretação da experiência cotidiana.
A partir dessa problemática, este artigo busca analisar como a presença do psicanalista no Instagram reinscreve e tensiona elementos históricos da constituição da própria psicanálise, desde suas origens vinculadas às práticas da hipnose até a ruptura freudiana que situa a transferência como sendo o fundamento ético do método psicanalítico.
A construção da psicanálise, conforme apontam Silva e Pinheiro (2022), foi marcada por um processo de distanciamento progressivo das técnicas de sugestão direta, amplamente utilizadas no final do século XIX e derivadas do magnetismo animal de Mesmer. Freud inicialmente compartilhou tais métodos, mas os superou ao perceber seus limites e ao conceber a transferência como operação central do tratamento psicanalítico. Essa passagem da hipnose à transferência inaugurou uma nova ética, baseada não no poder e na autoridade do analista, mas na escuta e na simbolização, constituindo até hoje um diferencial da psicanálise frente a outras práticas terapêuticas. No entanto, no ambiente digital, marcado pela lógica da visibilidade, da performance e da influência, essa fronteira ética pode voltar a ser tensionada, visto que o psicanalista, ao assumir uma posição de comunicador, pode correr diversos riscos, como: a transformação de sua autoridade clínica em autoridade midiática; a produção de relações de identificação que antecedem e, por vezes, interferem na constituição da transferência; a simplificação dos conceitos psicanalíticos complexos em conteúdos de rápida circulação, e também de retornar a regimes que funcionam a partir de mecanismo unicamente de sugestão direta. Este último risco é o foco deste artigo.
Assim, esse estudo busca indicar implicações éticas, políticas e epistemológicas
da presença de psicanalistas nas redes de plataformas digitais. Especificamente busca-se: articular a história da constituição da psicanálise com conceitos contemporâneos sobre poder, visibilidade e influência; investigar como a psicanálise midiatizada se torna mais acessível a diferentes públicos e identificar como essa acessibilidade pode produzir novas formas de identificação, sugestão e autoridade terapêutica.
METODOLOGIA
Este estudo adota a metodologia do ensaio teórico, modalidade de investigação teórico-conceitual que busca articular diferentes campos de saber por meio da interpretação crítica, sem depender de procedimentos empíricos de caráter estatístico ou de observação sistemática. Conforme argumenta Meneghetti (2011), o ensaio teórico possibilita explorar problemas complexos a partir da reflexão, do diálogo entre autores e da construção gradual de uma posição teórica, permitindo que o pensamento avance por meio de deslocamentos, comparações e interpretações.
A escolha por essa abordagem se justifica pela natureza do objeto: a presença de psicanalistas no Instagram e as formas como, nesse ambiente, são produzidas novas modalidades de influência, visibilidade e autoridade terapêutica. Trata-se de um fenômeno contemporâneo, situado na interseção entre história da psicanálise, estudos de mídia, psicologia social crítica e teorias do poder. O ensaio teórico permite, assim, articular temporalidades distintas (da sugestão e hipnose no século XIX à comunicação digital atual), bem como confrontar conceitos clássicos da psicanálise (como transferência, identificação e sugestão) com teorias contemporâneas.
Dessa forma, a metodologia aqui adotada organiza-se em três eixos complementares. O primeiro examina a constituição histórica da psicanálise, enfatizando o papel inicial da sugestão e da hipnose e sua posterior crítica freudiana, com base em estudos como os de Silva e Pinheiro (2022) e Ferreira e Carrijo, (2016). O segundo eixo versa sobre a cultura psicanalítica e a produção de autoridade terapêutica. Por fim, o terceiro eixo discute a psicanálise na cultura digital: da autoridade clínica à autoridade midiática, buscando compreender como sua disseminação no Instagram amplia o acesso e, simultaneamente, produz novas formas de identificação, autoridade e legitimação terapêutica.
Assim, essa metodologia permite alcançar os objetivos do estudo ao operar uma articulação crítica entre história, teoria e cultura digital. O foco não está em validar hipóteses, mas em interpretar como a presença dos psicanalistas nas plataformas digitais engendra implicações éticas, políticas e epistemológicas, ao mesmo tempo em que amplia o alcance da psicanálise e ressignifica seus modos de circulação na sociedade contemporânea.
DESENVOLVIMENTO
1) Sugestão e a transferência em Freud
A partir de uma leitura histórico-conceitual, Silva e Pinheiro (2022) evidenciam que a constituição da psicanálise freudiana está diretamente relacionada às práticas de hipnose e sugestão, amplamente difundidas no final do século XIX. Inicialmente, tais práticas encontram suas raízes no magnetismo animal, formulado pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer no século XVIII. Segundo essa concepção, haveria um fluido universal que atravessaria os corpos, cujo desequilíbrio estaria na origem das doenças. A intervenção terapêutica consistiria, portanto, na restauração desse fluxo por meio da ação de um magnetizador.
As sessões conduzidas por Mesmer envolviam gestos, toques e uso de instrumentos metálicos, produzindo efeitos corporais intensos nos pacientes, frequentemente associados a estados de transe. Embora essas práticas posteriormente foram desacreditadas por comissões científicas, que atribuíram esses fenômenos à imaginação e à sugestão, estas inauguraram um deslocamento importante: a ideia de que o tratamento poderia operar por vias psíquicas, antecipando o papel da palavra e da influência simbólica na cura.
No século XIX, o médico escocês James Braid promove uma reformulação significativa dessas práticas ao rejeitar a hipótese do fluido magnético. Responsável pela introdução do termo hipnotismo, Braid propõe uma explicação de base neurofisiológica, segundo a qual o estado hipnótico decorreria de uma intensa concentração da atenção e de uma modulação da consciência, frequentemente induzida pela fixação do olhar. Sua contribuição foi decisiva para a inserção da hipnose no campo médico e experimental, possibilitando o desenvolvimento de abordagens clínicas mais sistemáticas. (Silva e
Pinheiro, 2022)
Na França, a hipnose passa a ser interpretada a partir de duas vertentes principais, representadas por Jean-Martin Charcot e Hippolyte Bernheim. Charcot compreendia a hipnose como um fenômeno patológico, típico da histeria, sendo o transe uma reprodução dos sintomas histéricos sob condições controladas. Em contraste, Bernheim, vinculado à Escola de Nancy, defendia que a hipnose constituía um estado psicológico ordinário, acessível a diferentes sujeitos, e atribuía centralidade à sugestão como mecanismo fundamental. Nessa perspectiva há o deslocamento do foco da neurologia para a dimensão psicológica e intersubjetiva, ao destacar o papel das ideias, expectativas e da palavra na modulação do comportamento.
Sigmund Freud, ao transitar entre essas tradições, inicialmente aproxima-se das formulações de Charcot, sobretudo no que se refere às neuroses histéricas, e posteriormente incorpora os aportes de Bernheim, reconhecendo a relevância da sugestão e da palavra. A partir dessa articulação, Freud passa a conceber que o efeito terapêutico não depende necessariamente do estado hipnótico, mas da relação estabelecida entre médico e paciente (Ferreira e Carrijo, 2016).
Aprofundando sua prática clínica, Freud identifica limites importantes na hipnose e na sugestão direta: seus efeitos tendiam a ser transitórios e estavam fortemente ligados a autoridade do médico, podendo reforçar relações de dependência, Diante disso, volta-se à investigação dos processos psíquicos implicados na produção dos sintomas, desenvolvendo conceitos fundamentais como resistência, defesa e conflito inconsciente, Nesse movimento, o sintoma deixa de ser percebido como algo a ser eliminado e passa a ser compreendido como expressão simbólica de um conflito psíquico. Há então uma inflexão decisiva que marca o afastamento da sugestão enquanto técnica de imposição e inaugura um método centrado na escuta e na interpretação (Silva e Pinheiro, 2022). Entretanto, Freud não abandona a sugestão enquanto fenômeno, mas a reinscreve teoricamente por meio do conceito de transferência, que se torna eixo estruturante da clínica psicanalítica. A transferência diz respeito ao deslocamento de afetos e expectativas inconscientes para a figura do analista, reatualizando, na relação terapêutica, vínculos afetivos anteriores. Ao invés de mobilizar essa influência como forma de persuasão, o analista deve interpretá-la convertendo-a em via de acesso ao inconsciente. A originalidade da psicanálise reside justamente nesse deslocamento: transformar a sugestão em objeto de análise, fundando uma prática que se apoia na escuta e na elaboração simbólica, e não na autoridade direta da palavra (Silva e Pinheiro, 2022).
Essa reformulação é particularmente relevante para pensar a psicanálise em contextos de midiatização, onde a palavra do analista circula em espaços atravessados por novas formas de visibilidade e autoridade. Se, historicamente, a sugestão colocava em evidência o poder da palavra médica sobre o paciente, no ambiente digital observam-se dinâmicas que, embora distintas, também operam por meio da influência. Nesse cenário, a transferência pode ultrapassar os limites do setting clínico", deslocando-se para a esfera pública, onde seguidores podem investir afetivamente nas figuras dos analistas.
Como apontam Ferreira e Carrijo (2016), a transferência constitui em Freud, um ponto de inflexão entre influência e interpretação, delimitando o horizonte ético da prática analítica. Enquanto a sugestão opera pela imposição de um saber externo e pela submissão à autoridade, o manejo da transferência implica a suspensão desse lugar de saber, permitindo que o sujeito se confronte com o inconsciente. O analista, nesse sentido, não ocupa a posição de quem prescreve, mas sim de quem sustenta um espaço de escuta. Ë justamente esse reposicionamento que distingue a psicanálise das práticas terapêuticas meramente sugestivas.
No contexto da psicanálise midiatizada, contudo, essa distinção tende a se tornar mais complexa. A figura do psicanalista-celebridade, investida de visibilidade e de capital simbólico, pode favorecer formas ampliadas de identificação por parte do público. Nessa configuração, o desafio ético de não reduzir a transferência à sugestão reaparece sob novas condições. A questão que está posta é a seguinte: em que medida os psicanalistas que atuam nas redes conseguem sustentar uma posição de escuta, ainda que deslocada sem que seu discurso se reduza a formas de influência direta? Esse questionamento é central para compreender os limites e possibilidades da psicanálise no ambiente digital. Nesse sentido, é importante também compreender as transformações mais amplas nas formas de autoridade e influência ao longo da modernidade. Portanto, torna-se necessário situar historicamente como essas categorias se reorganizam no campo social, especialmente diante das reconfigurações contemporâneas da comunicação de visibilidade.
2) A cultura psicanalítica e a produção de autoridade terapêutica:
Figueira (1989), ao discutir os efeitos da difusão da psicanálise, propõe a noção de cultura psicanalítica para designar o processo pelo qual a psicanálise ultrapassa os limites da clínica e passa a compor o repertório simbólico mais amplo da cultura. Nesse contexto, os conceitos, valores, modos de interpretação da subjetividade e formas de compreender o sofrimento psíquico passam a circular socialmente, constituindo uma espécie de visão do mundo que é compartilhada. A psicanálise deixa de ser apenas uma prática clínica especializada e passa a operar como um conjunto de referências culturais disponíveis para interpretar a experiência cotidiana.
Essa difusão produz efeitos significativos sobre a própria experiência analítica. Em uma cultura na qual a psicanálise se tornou valorizada socialmente, os sujeitos não chegam à análise como pessoas que desconhecem totalmente sobre o discurso psicanalítico. Pelo contrário, chegam munidos de expectativas, conhecimentos prévios e representações sobre o que é um processo analítico. Chegam também, muitas vezes, sabendo o que esperar do analista e quais transformações são consideradas desejáveis ou não. Com tudo isso, a experiência clínica passa a ser cada vez mais atravessada por elementos produzidos fora do setting (Figueira, 1989).
Embora o autor desenvolva sua análise a partir do contexto brasileiro das décadas de 1970 e 1980, essas formulações se revelam fecundas para compreender também o cenário contemporâneo das redes sociais digitais. Se a cultura psicanalítica descrita por Figueira (1989) era produzida por livros, revistas, cursos e pela circulação informal de discursos sobre a psicanálise, atualmente plataformas como o Instagram ampliam exponencialmente essa dinâmica. Nelas, os próprios psicanalistas ocupam espaços de visibilidade pública, compartilhando interpretações, reflexões e comentários sobre os fenômenos sociais e conteúdos voltados para saúde mental.
Essa ampliação da presença da psicanálise na esfera pública pode ser compreendida à luz da análise histórica desenvolvida por Eli Zaretsky (2006). Para o autor, a psicanálise não deve ser entendida apenas como um método terapêutico ou uma teoria sobre o funcionamento psíquico, mas como um fenômeno cultural que emerge das profundas transformações sociais da modernidade. Ao acompanhar a constituição de uma nova esfera da vida privada, que é marcada pela valorização da interioridade, da individualidade e do autoconhecimento, a psicanálise passou a oferecer um vocabulário privilegiado para interpretar a experiência subjetiva. Com isso, sua influência extrapolou os muros da clínica, tornando-se uma referência importante para compreender os modos pelos quais os indivíduos pensam em relação a si e organizam suas relações sociais.
A perspectiva de Zaretsky (2006) amplia essa discussão ao compreender a psicanálise como um produto histórico inseparável das transformações da modernidade. Para o autor, a emergência da psicanálise acompanha a constituição de uma nova esfera da vida privada, marcada pela crescente valorização da interioridade, dos conflitos subjetivos e da busca por autoconhecimento. Nesse contexto, a psicanálise não se restringe ao consultório, mas oferece uma nova linguagem para interpretar a experiência humana, tornando-se uma das principais formas de compreensão do sujeito no século XX. Sua difusão acompanha, portanto, um processo histórico mais amplo onde o sofrimento psíquico deixa de ser entendido a partir de uma visão moral ou simplesmente médica e para a ocupar um lugar central na organização da vida social.
Esse pensamento converge com a noção de cultura psicanalítica de Figueira (1989). Se Zaretsky demonstra como a psicanálise participa da constituição histórica da subjetividade moderna, Figueira evidencia como esse saber ultrapassa os limites da prática clínica e passa a integrar o repertório simbólico da cultura, oferecendo categorias para nomear emoções, interpretar relações afetivas e compreender conflitos cotidianos. Em outras palavras, a psicanálise deixa de circular exclusivamente entre especialistas para tornar-se um recurso cultural amplamente compartilhado, influenciando modos de pensar, sentir e falar sobre si.
3) A psicanálise na cultura digital: da autoridade clínica à autoridade midiática
Levando em consideração que ao longo do século XX a psicanálise se consolidou como parte da cultura, conforme demonstram Zaretsky (2006) e Figueira (1989), o Instagram pode ser compreendido como uma nova etapa desse processo de circulação social do discurso psicanalítico. Diferentemente dos livros, revistas, entrevistas ou programas de televisão, que durante décadas constituíram os principais meios de difusão desse saber, as plataformas digitais introduzem novas formas de produção, circulação e consumo do conhecimento. O psicanalista deixa apenas de ocupar o lugar de especialista que de forma ocasional intervém no espaço público e passa a atuar de maneira contínua em ambientes orientados por algoritmos, métricas de engajamento e de visibilidade. Nesses espaços, conceitos psicanalíticos são condensados em vídeos curtos, publicações e comentários que circulam rapidamente, alcançando públicos cada vez mais amplos e diversificados.
Podemos supor que essa transformação não implica apenas uma ampliação quantitativa da difusão da psicanálise, mas uma reconfiguração qualitativa das relações entre o saber psicanalítico, seus enunciadores e seu público. Essa lógica das plataformas favorece de forma contundente a construção de figuras públicas cuja autoridade é produzida simultaneamente pela formação profissional e também pela visibilidade conquistada junto aos seguidores. Assim, a legitimidade do psicanalista passa a ser atravessada por elementos característicos da cultura digital, como popularidade, engajamento e capacidade de influência, deslocando parcialmente os critérios tradicionais de reconhecimento presentes no campo psicanalítico. O discurso analítico passa a circular em um ambiente no qual a autoridade é continuamente negociada entre o prestígio científico e a performance comunicacional.
Com isso, o Instagram não representa uma ruptura com o processo histórico de expansão da psicanálise, mas representa uma reconfiguração em um novo regime comunicacional. Se a cultura psicanalítica possibilitou que categorias como inconsciente, trauma, narcisismo e desejo passassem a integrar o vocabulário cotidiano, as plataformas digitais vêm intensificando essa circulação transformando o psicanalista em um produtor permanente de conteúdos sobre subjetividade. A partir desse cenário que se torna pertinente retomar a distinção freudiana entre transferência e sugestão, visto que as formas contemporâneas de visibilidade podem favorecer formas específicas de identificação e autoridade terapêutica que recolocam, juntamente a novas condições históricas, questões presentes desde a constituição da própria psicanálise.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As contribuições desenvolvidas neste ensaio evidenciam que a presença dos psicanalistas no Instagram constitui um fenômeno complexo e ambivalente, situado no cruzamento entre história, ética, cultura digital e políticas da subjetividade. Por um lado, a psicanálise midiatizada amplia o acesso ao conhecimento psicanalítico, alcançando públicos historicamente excluídos do espaço clínico tradicional e ampliando o discurso sobre sofrimento, cuidado e subjetividade. Por outro, essa mesma exposição pode colocar em risco os fundamentos éticos que diferenciam a psicanálise, especialmente sua ruptura com a sugestão direta, ao inserir o analista numa lógica de visibilidade, identificação e influência que tende a reaproximá-lo das práticas que Freud buscou superar.
Ao revisitar o percurso que vai do magnetismo e da hipnose à transferência, compreende-se que a autoridade do analista não se funda em seu poder sobre o outro, mas na posição ética de escuta e manejo da transferência. Quando esse lugar é transposto para o ambiente digital, marcado pela performatividade, pela busca de engajamento e pelo consumo de personalidades, a autoridade terapêutica pode deslizar para a autoridade sugestiva ou prescritiva, transformando o analista em influenciador e o discurso psicanalítico em mercadoria emocional.
É possível argumentar que essa transformação não ocorre de forma isolada, mas faz parte de um movimento maior de reconfiguração das tecnologias de poder e das formas de subjetivação na contemporaneidade. O “psicanalista-celebridade” surge como figura emblemática desse processo, articulando saber clínico e capital simbólico digital, e ocupando um espaço híbrido entre autoridade terapêutica e líder de opinião. Esse hibridismo exige reflexão crítica e ética, especialmente no que concerne à manutenção do enquadre psicanalítico em tempos de psicopolítica e economia da atenção.
Por fim, conclui-se que a psicanálise midiatizada não deve ser vista apenas como ameaça ou como solução: ela é um sintoma de seu tempo e oferece tanto riscos quanto possibilidades. Cabe aos psicanalistas, pesquisadores e instituições refletir sobre seus usos e limites, buscando formas de presença digital que preservem a ética da escuta, da transferência e da singularidade. O desafio contemporâneo é, portanto, compreender como a psicanálise pode habitar o espaço virtual sem renunciar às condições que a constituem como saber e prática clínica.
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