Reflexões sobre o ensino de Português como Língua Estrangeira: propostas didáticas potencialmente interculturais a partir do texto “Seu desejo é um algoritmo’’.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

O ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) tem demandado práticas pedagógicas que ultrapassem o ensino exclusivamente gramatical da língua, incorporando perspectivas voltadas à diversidade e ao diálogo. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo apresentar duas propostas didáticas elaboradas com base no texto “Seu desejo é um algoritmo” (2023), de Cláudia Tajes, presente no caderno de questões do exame CELPE-Bras de 2024 e, a partir delas, discutir a importância da leitura crítica e da interculturalidade para o desenvolvimento da competência comunicativa de aprendizes de PLE. Sob essa perspectiva, discute-se as possibilidades de ensino de PLE a partir do uso de textos autênticos e gêneros discursivos, considerando a língua como prática social e espaço de construção de sentidos (Bakhtin, 1997; Mendes, 2008; Moita Lopes, 2002). As atividades das propostas foram fundamentadas na abordagem comunicativa (Dell Hymes, Halliday e Canale e Swain), na perspectiva intercultural (Mendes, 2012) e na concepção de textos autênticos no ensino de línguas (Tomlinson, 2012). As reflexões realizadas evidenciam que o uso de textos autênticos e de temas contemporâneos, como tecnologia e comportamento social, estimula reflexões críticas. Além disso, as propostas evidenciam a importância de práticas pedagógicas mais significativas e contextualizadas.

Palavras-chave: Português como Língua Estrangeira; Interculturalidade; Leitura Crítica; Ensino de Línguas.

ABSTRACT

Teaching Portuguese as a Foreign Language (PFL) has required pedagogical practices that go beyond an exclusively grammar-based approach to the language, incorporating perspectives focused on diversity and dialogue. In this context, this article aims to present two instructional proposals developed based on the text “Seu desejo é um algoritmo” (2023) by Cláudia Tajes—featured in the test booklet of the 2024 CELPE-Bras examination—and, through them, discuss the importance of critical reading and interculturality in developing PFL learners’ communicative competence. From this perspective, we discuss the possibilities of teaching PFL through the use of authentic texts and discursive genres, considering language as a social practice and a locus for meaning-making (Bakhtin, 1997; Mendes, 2008; Moita Lopes, 2002). The proposed activities were grounded in the communicative approach (Dell Hymes, Halliday, Canale and Swain), the intercultural perspective (Mendes, 2012), and the conceptualization of authentic materials in language teaching (Tomlinson, 2012). The reflections highlight that the use of authentic texts addressing contemporary themes, such as technology and social behavior, fosters critical thinking. Furthermore, these proposals demonstrate the importance of more meaningful and contextualized pedagogical practices.

Keywords: Portuguese as a Foreign Language; Interculturality; Critical Reading; Language Teaching.

1. Primeiras considerações

As propostas didáticas apresentadas neste artigo foram elaboradas como produção final da disciplina LETB13 – A leitura no ensino de Português como Língua Estrangeira, ofertada pelo Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (ILUFBA), como disciplina obrigatória do currículo de Licenciatura em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira Moderna (PLE). Nesse contexto, a atividade teve como objetivo desenvolver práticas de ensino que articulassem leitura e reflexão intercultural a partir de textos autênticos que, segundo Tomlinson (2012), são aqueles produzidos com o objetivo de comunicar em contextos reais de uso da língua, diferentemente dos materiais criados exclusivamente para fins didáticos.

A partir dessa compreensão, o uso desses textos no ensino de línguas possibilita maior aproximação dos aprendizes com práticas sociais de linguagem e com aspectos culturais presentes nos contextos de circulação. Sob essa perspectiva, para a elaboração das propostas, foi selecionado o texto ‘‘Seu desejo é um algoritmo’’ (2023), da escritora Cláudia Tajes, presente no caderno de questões do exame CELPE-Bras de 2024, exame oficial de proficiência em português realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Quanto à sua temática, o texto aborda, de forma crítica, a influência das redes sociais e da publicidade digital sobre desejos e hábitos de consumo, possibilitando reflexões acerca das transformações tecnológicas e de seus impactos nas formas contemporâneas de interação social. Diante disso, a escolha desse material justifica-se por seu potencial para promover discussões acerca das transformações provocadas pelas tecnologias digitais nas formas de interação e nos modos de viver contemporâneos, temas que atravessam o cotidiano de alunos de diferentes contextos culturais.

A partir dessas considerações, as atividades foram construídas com base em uma perspectiva de ensino que compreende a língua(gem) como prática social e que reconhece a importância de práticas contextualizadas no processo de aprendizagem. Nessa direção, buscou-se elaborar propostas que favorecessem o desenvolvimento da competência linguística dos estudantes e, além disso, a ampliação da competência comunicativa deles, reconhecendo a importância da reflexão crítica sobre discursos e práticas sociais.

2. Fundamentação teórica

O ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) tem ampliado suas discussões nas últimas décadas, especialmente no que se refere à necessidade de compreender a língua para além de sua dimensão estrutural e gramatical. Sob essa ótica, diferentes estudos têm defendido a importância de práticas de ensino que considerem a língua(gem) como prática social, valorizando seus usos reais e os processos de construção de sentidos em contextos de interação (Bakhtin, 1997; Moita Lopes, 1996). Assim, o ensino de línguas passa a envolver não apenas o desenvolvimento de competências linguísticas, mas também a formação crítica dos aprendizes. Sob essa perspectiva, o trabalho com textos autênticos e gêneros discursivos possibilita o contato dos estudantes com práticas sociais concretas da língua. Além disso, o uso de gêneros que dialogam com questões contemporâneas favorece reflexões sobre discursos que atravessam diferentes sociedades. Entre esses temas, destacam-se as transformações provocadas pelas tecnologias digitais e pelos algoritmos no consumo e nas formas de interação social, aspectos cada vez mais presentes no cotidiano dos estudantes. O texto “Seu desejo é um algoritmo”, de Cláudia Tajes, apresenta-se como um material significativo para esse tipo de discussão, pois aborda a influência das redes sociais e da publicidade digital sobre desejos e escolhas no cotidiano das pessoas. Partindo desse pressuposto, ao explorar questões relacionadas às práticas de consumo contemporâneas, o texto possibilita o desenvolvimento de atividades voltadas tanto à ampliação da competência comunicativa quanto à leitura crítica e intercultural dos aprendizes de PLE.

A compreensão de língua adotada neste trabalho parte da perspectiva de que a língua não se restringe a um conjunto de estruturas gramaticais, mas constitui-se como prática social e discursiva (Mendes, 2008). Nessa perspectiva, os sujeitos utilizam a língua para produzir sentidos e construir posicionamentos diante do mundo, compreendendo então a língua como espaço de produção cultural e de interação entre sujeitos socialmente situados. Para a autora, o

ensino de línguas deve considerar os aspectos interculturais envolvidos nos processos de aprendizagem, entendendo a língua como prática viva, atravessada por experiências e relações sociais.

Nesse contexto, Moita Lopes (2002) destaca que o ensino de línguas deve possibilitar ao aprendiz o desenvolvimento de uma postura crítica diante dos discursos que circulam socialmente, favorecendo a construção de identidades e a ampliação das formas de participação social. Nesse sentido, a leitura deixa de ser compreendida apenas como decodificação textual e passa a ser entendida como prática de construção de sentidos (Kleiman, 1995). Assim, práticas de leituras críticas possibilitam que os aprendizes reflitam sobre questões sociais presentes nos textos, desenvolvendo maior consciência acerca dos discursos que permeiam a sociedade.

2.1 A leitura crítica no processo de aprendizagem

A compreensão da leitura adotada no trabalho afasta-se de perspectivas que a reduzem à simples decodificação de informações presentes no texto. Ao contrário, entende-se a leitura como uma prática social e interativa de construção de sentidos, na qual os sujeitos mobilizam seus conhecimentos e experiências para interpretar os discursos que circulam socialmente (Kleiman, 1995). Assim, formar leitores implica possibilitar que os alunos desenvolvam uma postura crítica diante dos textos e dos contextos em que eles são produzidos e consumidos. Nesse processo, os gêneros discursivos assumem papel fundamental, pois constituem formas relativamente estáveis de enunciados que emergem das diferentes esferas da atividade humana (Bakhtin, 1997). O trabalho com gêneros discursivos no ensino de línguas permite que os estudantes compreendam tanto os aspectos linguísticos quanto as finalidades comunicativas.. Além disso, o uso de textos autênticos favorece a aproximação entre a sala de aula e as práticas sociais reais, ampliando as possibilidades de reflexão sobre temas contemporâneos, promovendo o desenvolvimento da competência comunicativa dos aprendizes.

Dessa forma, o uso do texto escolhido permite explorar aspectos linguísticos e culturais de forma integrada, favorecendo práticas pedagógicas que estimulam a participação ativa dos aprendizes e a reflexão crítica sobre temas socialmente relevantes.

2.2 Abordagem comunicativa no ensino de PLE

A abordagem comunicativa consolidou-se como uma das principais perspectivas no ensino de línguas ao priorizar o uso significativo da linguagem em situações reais de comunicação. Essa concepção ganhou força a partir das contribuições de estudiosos como Dell Hymes, Michael Halliday e Canale e Swain, que passaram a compreender a língua como um meio de interação social, afastando-se da visão que a restringia a um conjunto de regras gramaticais. Nessa perspectiva, o objetivo do ensino deixa de ser apenas o domínio das estruturas linguísticas e passa a contemplar a capacidade de mobilizar conhecimentos linguísticos, discursivos e socioculturais em diferentes situações comunicativas. Segundo Hymes (1972), a competência comunicativa envolve não apenas o conhecimento da língua, mas também a compreensão das normas sociais que orientam seu uso, permitindo ao falante produzir enunciados adequados aos diferentes contextos de interação.

Considerando essas contribuições, a abordagem comunicativa pode favorecer o ensino de Português como Língua Estrangeira ao criar condições para que os aprendizes utilizem a língua em práticas sociais significativas, nas quais aspectos linguísticos e culturais são mobilizados de forma integrada. Desse modo, aprender português não se restringe à apropriação de estruturas gramaticais, mas envolve também a compreensão dos sentidos construídos nas interações e dos diferentes modos de uso da língua em contextos específicos. Assim, o desenvolvimento da competência comunicativa, favorecido pela abordagem comunicativa e articulado à abordagem intercultural, amplia as possibilidades de participação dos aprendizes em situações reais de comunicação, promovendo uma aprendizagem mais contextualizada e socialmente situada. Nesse contexto, as propostas produzidas neste trabalho procuram incorporar princípios da abordagem comunicativa por meio de atividades que estimulam o uso da língua em situações de interação. Inicialmente, as discussões em grupo e as atividades de interação oral criam oportunidades para que os estudantes expressem opiniões e negociem sentidos durante a comunicação. Além disso, as perguntas abertas incentivam a construção de respostas autorais, exigindo que os aprendizes mobilizem recursos linguísticos para atender a diferentes propósitos comunicativos. Dessa forma, as produções colaborativas promovem a construção conjunta de conhecimentos e ampliam as possibilidades de interação entre os participantes. Por fim, essas atividades contribuem para o desenvolvimento da competência comunicativa ao aproximarem o processo de aprendizagem das demandas reais de uso do português, articulando elementos linguísticos e socioculturais.

3. Metodologia

Este artigo apresenta duas propostas didáticas elaboradas para o ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE), voltadas a aprendizes de níveis básico e intermediário. As atividades foram desenvolvidas pelo presente autor como trabalho final da disciplina LETB13 – A Leitura no Ensino de Português como Língua Estrangeira, ofertada pelo Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (ILUFBA), no contexto de formação docente em PLE.

Para a elaboração das propostas, selecionei o texto ‘‘Seu desejo é um algoritmo’’ (2023), (figura 1) de Cláudia Tajes, presente no caderno de questões do exame CELPE-Bras de 2024. A escolha do texto ocorreu em razão de seu potencial para promover discussões sobre temas contemporâneos, como a influência das redes sociais nas escolhas individuais dos sujeitos. O processo de construção das atividades envolveu, inicialmente, a leitura e análise do texto, buscando identificar os principais pontos, estruturais e reflexivos. Em seguida, foram definidos os objetivos pedagógicos e as habilidades a serem desenvolvidas, tendo em vista a reflexão intercultural que poderia ser feita a partir do texto. A partir disso, foram elaboradas atividades diversificadas, organizadas em etapas que buscam estimular a participação ativa dos aprendizes e o uso significativo da língua em diferentes situações comunicativas.

A análise aqui apresentada busca refletir sobre as potencialidades pedagógicas dessas propostas e suas contribuições para o ensino de Português como Língua Estrangeira, especialmente no que se refere ao desenvolvimento da competência comunicativa e da capacidade crítica dos aprendizes.

Figura 1 - Texto "Seu desejo é um algoritmo" utilizado na Tarefa 4 do Celpe-Bras 2024/1

Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), Celpe-Bras 2024/1, Tarefa 4.

4. Propostas didáticas

Proposta 1

Nível básico: Quem somos e o que consumimos?

Tema: Consumo, tecnologia e influência dos algoritmos

Texto base: Seu desejo é um algoritmo, Cláudia Tajes (Zero Hora, maio de 2023)

Nível: Básico (PLE)

Público-alvo: Estudantes estrangeiros aprendendo português como língua estrangeira

Duração: 1 aula de 50 minutos

Objetivos de ensino:

Promover uma discussão sobre como as redes sociais influenciam nossos desejos e hábitos de consumo, incentivando uma reflexão crítica e o desenvolvimento da leitura e da produção textual em nível básico. Além disso, trabalhar a compreensão global de textos curtos e o uso de expressões simples de opinião no contexto comunicativo.

Objetivos de aprendizagem:

  1. Compreender textos curtos sobre temas do cotidiano;
  2. Identificar o vocabulário e as ideias principais relacionadas a consumo e tecnologia;
  3. Expressar opiniões simples, orais e escritas, sobre experiências pessoais;
  4. Reconhecer como as redes sociais influenciam escolhas e desejos.

Aspectos linguísticos

  1. Vocabulário sobre consumo, tecnologia e redes sociais (comprar, aplicativo, propaganda, querer, gostar);
  2. Uso de expressões de opinião e gosto (eu gosto de..., eu quero..., eu acho que...);
  3. Formação de frases simples afirmativas e negativas em situações comunicativas do cotidiano;
  4. Prática de pronúncia e entonação em perguntas e respostas curtas.

Avaliação

A avaliação será contínua e integrada às atividades, considerando a compreensão global do texto, a participação nas discussões e o uso adequado do vocabulário e dos conectivos em produções orais e escritas.

Desenvolvimento da aula

O desenvolvimento da proposta inicia-se com a apresentação de imagens de anúncios e publicações de redes sociais (figuras 2, 3 e 4), buscando ativar os conhecimentos prévios dos aprendizes e promover um primeiro contato com o tema da aula. Nesse momento, são realizadas perguntas problematizadoras, como “Vocês acham que as propagandas sabem o que a gente quer?” e “O que vocês já compraram por causa de uma propaganda?”, incentivando a participação oral e o compartilhamento de experiências pessoais relacionadas ao consumo e à tecnologia. Essa etapa inicial dialoga com a abordagem comunicativa ao favorecer a interação e a construção coletiva de sentidos a partir de situações próximas da realidade dos estudantes.

Em seguida, realiza-se a leitura coletiva da crônica “Seu desejo é um algoritmo”, de Cláudia Tajes. Durante a atividade, são feitas pausas para explicar vocabulário essencial e verificar a compreensão global do texto, utilizando estratégias de apoio à leitura, especialmente importantes para aprendizes de nível básico. Após a leitura, são propostas perguntas de interpretação que incentivam os estudantes a identificarem o tema central do texto, compreender a crítica apresentada pela autora e expressar opiniões sobre o assunto, promovendo uma leitura mais reflexiva e significativa.

Na sequência, desenvolvem-se atividades voltadas à ampliação lexical e à produção oral. Os aprendizes realizam associações entre palavras, imagens e significados relacionados ao campo semântico do consumo e da tecnologia, além de construírem frases simples utilizando expressões de opinião e gosto. Posteriormente, organizados em duplas, os estudantes discutem questões relacionadas às compras on-line e à influência das redes sociais em seus desejos e hábitos de consumo. Essa interação favorece o uso significativo da língua em situações comunicativas reais e amplia as possibilidades de troca intercultural entre os participantes.

Por fim, a aula é encerrada com uma discussão coletiva sobre a pergunta “Será que os algoritmos conhecem nossos desejos?”, retomando as reflexões desenvolvidas ao longo das atividades. Esse momento final busca integrar os conhecimentos construídos durante a aula, revisar o vocabulário trabalhado e estimular posicionamentos críticos acerca das relações entre tecnologia, consumo e comportamento social.

Figura 2 - Notícia sobre a campanha "Seleções do Méqui".

Fonte: Publicitários Criativos (2026).

Figura 3 - Campanha publicitária da Volkswagen inspirada na série La Casa de Papel.

Fonte: Volkswagen Brasil (2025).

Figura 4 - Campanha publicitária "Compartilhe uma Coca-Cola", em parceria com Fábio Porchat.

Fonte: Coca-Cola Brasil (2025).

4.1 Reflexões acerca da proposta ‘‘Quem somos e o que consumimos?’’

A primeira proposta didática, intitulada ‘‘Quem somos e o que consumimos?’’, evidencia a importância de adequar as atividades às especificidades linguísticas dos aprendizes sem abrir mão de discussões socialmente relevantes. Em muitos contextos de ensino de PLE, conteúdos considerados socialmente relevantes acabam sendo reservados para níveis mais avançados, sob a justificativa de que exigiriam um domínio linguístico maior. Entretanto, essa lógica tende a limitar as possibilidades de formação crítica dos estudantes, como se a capacidade de refletir dependesse exclusivamente do domínio da língua. A proposta apresentada parte de um entendimento diferente: ainda que com recursos linguísticos mais restritos, aprendizes iniciantes são capazes de estabelecer relações com suas experiências e participar de discussões sobre questões que atravessam seu cotidiano.

Tendo em vista essa discussão, a opção por utilizar imagens e perguntas abertas procura justamente criar condições para que o foco da aula permaneça na construção de sentidos e não apenas na compreensão lexical. Nessa perspectiva, o texto deixa de funcionar como um pretexto para o ensino de vocabulário e passa a constituir um espaço de problematização sobre a influência dos algoritmos e das plataformas digitais na organização da vida contemporânea. Ademais, outro aspecto relevante refere-se à dimensão intercultural da proposta. Nesse sentido, ao compartilhar experiências de consumo e comparar diferentes formas de circulação da publicidade em seus países de origem, os aprendizes passam a compreender que práticas aparentemente individuais estão inseridas em contextos sociais específicos.

A interculturalidade, nesse caso, não se reduz ao contato entre culturas distintas, mas favorece a negociação de sentidos e o questionamento de naturalizações sobre tecnologia e consumo. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que propostas dessa natureza apresentam desafios. A discussão sobre algoritmos pressupõe conhecimentos prévios que nem sempre são compartilhados pelos estudantes, o que exige do professor sensibilidade para adaptar materiais e criar diferentes formas de mediação. Isso evidencia que o potencial crítico de uma atividade não está garantido apenas pela escolha do tema, mas pela forma como as interações são conduzidas em sala de aula.

Proposta 2

Nível intermediário: Quem decide o que você deseja?

Tema: Consumo, tecnologia e influência dos algoritmos

Texto base: Seu desejo é um algoritmo, Cláudia Tajes (Zero Hora, maio de 2023)

Nível: Intermediário (PLE)

Público-alvo: Estudantes estrangeiros aprendendo português como língua estrangeira

Duração: 2 aulas de 50 minutos

Objetivos de ensino:

Compreender e discutir criticamente como os algoritmos influenciam o consumo e os desejos individuais, a partir da leitura e análise do texto ‘‘Seu desejo é um algoritmo’’, de Cláudia Tajes.

Objetivos de aprendizagem:

  1. Ampliar o vocabulário relacionado a tecnologia, consumo e comportamento digital.
  2. Identificar os principais recursos linguísticos e discursivos da crônica.
  3. Reconhecer a ironia e a crítica social no texto.
  4. Refletir sobre o impacto cultural e pessoal dos algoritmos nas práticas de consumo.
  5. Expressar opinião e experiências pessoais sobre o tem

Aspectos linguísticos:

  1. Vocabulário do campo da tecnologia e do consumo;
  2. Uso do presente e do imperativo;
  3. Conectivos que marcam contraste e continuidade;
  4. Expressões de persuasão típicas da publicidade (aproveite, adquira, promoção, frete grátis).

DESENVOLVIMENTO DAS AULAS

Na proposta voltada ao nível intermediário, a primeira aula inicia-se com uma conversa introdutória sobre a influência das redes sociais e da publicidade digital no cotidiano contemporâneo. A partir da apresentação de imagens e exemplos de anúncios on-line (os mesmos utilizados na proposta 1), os aprendizes são convidados a refletir sobre como os algoritmos parecem antecipar desejos e interesses pessoais, promovendo um momento inicial de interação oral e ativação de conhecimentos prévios. Em seguida, realiza-se a leitura coletiva da crônica “Seu desejo é um algoritmo”, de Cláudia Tajes, seguida de uma discussão sobre a compreensão global do texto, considerando aspectos como o tom irônico e a crítica social construída pela autora.

Após a leitura, desenvolve-se uma análise linguística e discursiva do texto. Expressões relacionadas ao universo digital e publicitário, como “ocultar anúncios”, “frete grátis” e “Aproveite!”, são exploradas a partir de campos semânticos ligados à tecnologia, ao consumo e à persuasão. Também são discutidos recursos linguísticos presentes na crônica, como o uso do presente do indicativo, do modo imperativo e de conectivos argumentativos, observando os efeitos de sentido produzidos por esses elementos na construção da crítica social e da linguagem publicitária. Além disso, os aprendizes são incentivados a reescrever pequenos trechos do texto, substituindo conectivos e expressões, de modo a perceber alterações de sentido e de posicionamento discursivo.

Na segunda aula, retoma-se a discussão sobre os impactos da publicidade digital e dos algoritmos nos comportamentos de consumo, ampliando a reflexão para uma perspectiva intercultural. Os estudantes são convidados a comparar as estratégias publicitárias presentes no contexto brasileiro com aquelas observadas em seus países de origem, discutindo semelhanças, diferenças culturais e formas de influência exercidas pelas mídias digitais em diferentes contextos sociais.

Posteriormente, realiza-se a atividade “Meu anúncio perfeito”, na qual os aprendizes, organizados em duplas ou trios, elaboram um anúncio fictício inspirado em produtos populares de seus países. Durante a produção, os estudantes mobilizam recursos persuasivos observados na crônica, como o uso de adjetivos, verbos no imperativo e estratégias de convencimento típicas da publicidade. Após a elaboração dos anúncios, os grupos apresentam suas produções para a turma, favorecendo a interação oral, a criatividade e a reflexão crítica sobre os mecanismos discursivos utilizados pela publicidade para influenciar desejos e comportamentos.

O encerramento da proposta ocorre por meio de uma discussão coletiva acerca das estratégias de persuasão presentes nos anúncios produzidos e de como os algoritmos digitais utilizam essas práticas para direcionar o consumo contemporâneo. Dessa forma, a proposta busca articular leitura crítica, análise linguística, interação comunicativa e reflexão intercultural no ensino de Português como Língua Não Materna.

AVALIAÇÃO

A avaliação ocorrerá de forma contínua e qualitativa, considerando a participação dos aprendizes nas discussões, nas atividades colaborativas e nas interações orais realizadas ao longo das aulas. Serão observadas a capacidade de compreensão da crônica, a mobilização do vocabulário relacionado à tecnologia e ao consumo, bem como a habilidade de relacionar as discussões propostas às experiências pessoais e aos contextos socioculturais dos estudantes.

Na atividade final “Meu anúncio perfeito”, serão considerados aspectos como a criatividade na elaboração do anúncio, a clareza e a coesão do texto produzido, o uso adequado das estruturas linguísticas trabalhadas durante as aulas e a utilização de recursos persuasivos característicos da linguagem publicitária. Além disso, a proposta de avaliação busca contemplar uma dimensão reflexiva e intercultural, valorizando a capacidade dos aprendizes de analisar criticamente os efeitos da publicidade digital e dos algoritmos sobre desejos, comportamentos e práticas de consumo na sociedade contemporânea.

4.2 Reflexões acerca da proposta ‘‘Quem decide o que você deseja?’’

A proposta elaborada para o nível intermediário amplia as possibilidades de exploração do texto ao deslocar parte da atenção dos estudantes para os recursos discursivos mobilizados pela autora na construção da crítica social. Mais do que compreender o conteúdo do texto, os alunos são convidados a observar como determinados efeitos de sentido são produzidos por escolhas linguísticas e por estratégias próprias do discurso publicitário.

Essa perspectiva aproxima o ensino de PLE de uma concepção de leitura que compreende os textos como práticas sociais atravessadas por disputas de sentidos. Nesse contexto, a aula tenta se aproximar da perspectiva de que desenvolver a competência comunicativa implica também formar leitores capazes de reconhecer mecanismos de persuasão e produzir respostas críticas diante dos discursos que circulam na sociedade. Em consonância com essa ideia, a atividade "Meu anúncio perfeito" procura materializar essa proposta ao deslocar os estudantes da posição de consumidores para a de produtores de discursos. A partir dessa experiência, os aprendizes passam a refletir sobre as estratégias utilizadas para convencer e direcionar escolhas. Como consequência, essa prática favorece uma compreensão mais ampla do funcionamento da linguagem, ao mesmo tempo em que cria oportunidades para a circulação de diferentes referências culturais dentro da sala de aula.

Ainda assim, a proposta pode ser aprofundada em aplicações futuras. A incorporação de materiais multimodais, como publicações de influenciadores digitais ou até vídeos produzidos para plataformas digitais, permitiria aproximar ainda mais a discussão das práticas efetivamente vivenciadas pelos estudantes. Essa ampliação reforçaria o caráter situado do ensino de línguas e possibilitaria problematizar novas formas de circulação dos discursos na cultura digital.

5. Considerações Finais

A elaboração das propostas didáticas possibilitou a reflexão sobre o potencial dos textos autênticos como recurso para o ensino de Português como Língua Estrangeira, sobretudo quando articulados a questões que fazem parte da experiência cotidiana dos aprendizes. Nesse sentido, o texto ‘‘Seu desejo é um algoritmo’’ mostrou-se um material importante para promover discussões que extrapolam a dimensão linguística e colocam em evidência aspectos culturais presentes nas práticas contemporâneas de consumo e no uso das tecnologias digitais.

Sob essa perspectiva, as propostas apresentadas foram construídas a partir da compreensão de que o ensino de línguas não deve restringir-se à aprendizagem de estruturas gramaticais, mas favorecer a formação de sujeitos capazes de questionar e posicionar-se diante dos discursos que circulam socialmente. Isso implica compreender a leitura como uma prática de produção de sentidos e reconhecer que o desenvolvimento da competência comunicativa envolve, igualmente, a capacidade de atuar de maneira crítica em diferentes contextos de interação.

Entretanto, é importante reconhecer que o potencial crítico de uma proposta didática não está garantido apenas pela escolha de um texto autêntico ou de uma temática contemporânea. A simples presença desses elementos não assegura o desenvolvimento da competência intercultural nem da leitura crítica. Esses processos dependem, sobretudo, da mediação realizada pelo professor, das perguntas formuladas, das interações construídas em sala de aula e das possibilidades de problematização abertas ao longo das atividades. Um texto socialmente relevante pode ser reduzido a um exercício de compreensão literal caso não seja explorado de forma a provocar o diálogo, a reflexão e a construção coletiva de sentidos.

Da mesma forma, embora a perspectiva intercultural esteja presente nas propostas, entende-se que ela não se limita à comparação entre hábitos ou costumes de diferentes países. Uma abordagem intercultural pressupõe colocar em diálogo diferentes formas de compreender o mundo, permitindo que os educandos reflitam sobre os valores e relações de poder que atravessam suas próprias experiências e as do contexto brasileiro. Nesse sentido, mais do que identificar diferenças culturais, interessa compreender como elas são produzidas e ressignificadas nas interações.

Sob essa perspectiva, é preciso também considerar que as transformações constantes da cultura digital impõem desafios permanentes ao ensino de línguas, pois as formas de circulação dos discursos e os próprios algoritmos modificam-se continuamente. Com isso, é importante um movimento constante do professor de atualização dos materiais e das práticas pedagógicas. Assim, propostas como as apresentadas neste trabalho não devem ser entendidas como modelos prontos, mas como possibilidades de intervenção que podem, e devem, ser adaptadas às especificidades dos diferentes contextos de ensino e aos perfis dos aprendizes.

Por fim, espera-se que este artigo contribua para ampliar as discussões sobre o ensino de Português como Língua Estrangeira, reforçando a importância de práticas pedagógicas que aproximem a sala de aula das experiências sociais dos estudantes e que compreendam a língua como espaço de interação e produção de sentidos, permitindo a construção crítica da realidade. Nesse contexto, o professor de PLE assume um importante papel de tentar criar condições para que os aprendizes possam participar de forma significativa das práticas sociais mediadas pela língua, posicionando-se diante dos discursos que produzem e organizam a vida contemporânea.

6. REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. HYMES, Dell et al. On communicative competence. sociolinguistics, v. 269293, p. 269-293, 1972.

KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas. SP: Pontes, Ed. Da Universidade Estadual de Campinas, 1995.

MENDES, Edleise. Aprender a ser e a viver com o outro: materiais didáticos interculturais para o ensino de português LE/L2. Materiais didáticos para o ensino de línguas na contemporaneidade: contestações e proposições. Salvador: EDUFBA, p. 355-378, 2012.

MENDES, Edleise; CASTRO, Maria Lúcia Souza. Língua, cultura e formação de professores: por uma abordagem de ensino intercultural. Saberes em português: ensino e formação docente. Campinas: Pontes, p. 57-77, 2008.

DA MOITA LOPES, Luiz Paulo. Oficina de lingüística aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino/aprendizagem de línguas. Mercado de Letras, 1996. TOMLINSON, Brian. Materials development for language learning and teaching. Language teaching, v. 45, n. 2, p. 143-179, 2012.

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Celpe-Bras 2024/1: caderno de questões da parte escrita. Brasília, DF: Inep, 2024. Disponível em:

https://www.ufrgs.br/acervocelpebras/wp-content/uploads/2025/06/Caderno-de-Questoes-2024-1 .pdf. Acesso em: 3 maio 2026.

COCA-COLA BRASIL. Coca-Cola Shoes & Fábio Porchat | Compartilhe uma Coca-Cola. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7mthcS-ZE3U. Acesso em: 27 maio 2026.

PUBLICITÁRIOS CRIATIVOS. McDonald 's lança "Seleções do Méqui" e abre pré-venda do Combo Brasil para a Copa 2026. 2026. Disponível em:

https://www.publicitarioscriativos.com/mcdonalds-lanca-selecoes-do-mequi-e-abre-pre-venda-do -combo-brasil-para-a-copa-2026/. Acesso em: 27 maio 2026.

VOLKSWAGEN DO BRASIL. Volkswagen promove ação inspirada em La Casa de Papel para divulgar o Novo Tera. Newsroom Volkswagen, 2025. Disponível em: https://newsroom-br.itd.vw.com.br/news/2476. Acesso em: 27 maio 2026.

  1. A escolha da expressão potencialmente interculturais decorre de uma reflexão iniciada durante as aulas do componente Estágio Supervisionado I, ministrado pela Prof.ª Dr.ª Edleise Mendes, na graduação em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira Moderna (PLE) da Universidade Federal da Bahia. Na ocasião, ao discutir sobre elaboração de materiais didáticos para o ensino de Português como Língua Estrangeira, a docente problematizou a ideia de que nenhuma proposta didática é, por si só, intercultural; ela apenas possui um potencial intercultural, cuja concretização depende das interações construídas em sala de aula, das escolhas do professor e dos sujeitos envolvidos no processo. Essa compreensão, desenvolvida por Mendes (2012), fundamenta a opção pelo termo no título deste trabalho.

  2. Licenciado em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira Moderna pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e especialista em Psicologia da Educação.

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Copyright (c) 2026 Alisson Nascimento dos Santos (Autor)

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