Resumo
A doença renal crônica representa um importante desafio para a saúde pública, sobretudo entre a população idosa, em razão do crescimento do envelhecimento populacional e da elevada incidência de comorbidades associadas. O tratamento hemodialítico, embora essencial para a manutenção da vida, impõe limitações físicas, emocionais e sociais que repercutem diretamente na qualidade de vida dos pacientes. Este estudo teve como objetivo desenvolver uma proposta de assistência multiprofissional voltada à promoção da qualidade de vida de idosos submetidos à hemodiálise. Trata-se de uma pesquisa aplicada, de natureza descritiva, com abordagem quantitativa, desenvolvida no setor de hemodiálise do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. Participaram idosos em tratamento dialítico que atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos na pesquisa. Os dados foram obtidos por meio de questionário estruturado e analisados por estatística descritiva. Os resultados evidenciaram que as limitações impostas pela doença e pelo tratamento afetam diferentes dimensões da vida dos participantes, destacando a importância da atuação integrada de profissionais de enfermagem, medicina, nutrição, psicologia, assistência social e demais áreas da saúde. Conclui-se que estratégias educativas e o acompanhamento multiprofissional contribuem para maior adesão ao tratamento, fortalecimento do autocuidado e melhoria da qualidade de vida dos idosos em hemodiálise.
Palavras-chave: Doença renal crônica; Hemodiálise; Idoso; Qualidade de vida; Assistência multiprofissional.
Abstract
Chronic kidney disease represents a major public health challenge, particularly among the elderly population, due to population aging and the high incidence of associated comorbidities. Although hemodialysis treatment is essential for life maintenance, it imposes physical, emotional, and social limitations that directly affect patients' quality of life. This study aimed to develop a proposal for multidisciplinary care focused on promoting the quality of life of elderly patients undergoing hemodialysis. This is an applied, descriptive research with a quantitative approach, conducted in the hemodialysis department of the Clinical Hospital of the Federal University of Uberlândia. The participants were elderly patients undergoing dialysis treatment who met the inclusion criteria established for the study. Data were collected through a structured questionnaire and analyzed using descriptive statistics. The results showed that the limitations imposed by the disease and treatment affect different dimensions of the participants' lives, highlighting the importance of integrated actions by nursing, medical, nutrition, psychology, social work, and other healthcare professionals. It is concluded that educational strategies and multidisciplinary monitoring contribute to greater treatment adherence, strengthened self-care, and improved quality of life for elderly individuals on hemodialysis.
Keywords: Chronic kidney disease; Hemodialysis; Elderly; Quality of life; Multidisciplinary care.
1. Introdução
O envelhecimento populacional tem provocado importantes mudanças no perfil epidemiológico das doenças crônicas, aumentando a demanda por serviços especializados destinados ao cuidado da pessoa idosa. Entre essas condições, a doença renal crônica destaca-se pelo seu caráter progressivo, elevada morbimortalidade e necessidade de acompanhamento contínuo, especialmente quando evolui para a terapia renal substitutiva. A hemodiálise constitui uma das principais modalidades terapêuticas para esses pacientes, porém sua realização frequente interfere significativamente nas atividades diárias, nas relações sociais e no bem-estar físico e emocional dos indivíduos. Essas características justificam a necessidade de estratégias assistenciais voltadas para a promoção da qualidade de vida desse grupo. A dissertação que fundamenta este artigo parte desse contexto e propõe um programa de suporte multiprofissional para idosos em tratamento hemodialítico.
A qualidade de vida de pessoas idosas submetidas à hemodiálise é influenciada por múltiplos fatores, incluindo condições clínicas, estado nutricional, suporte familiar, aspectos emocionais e acesso aos serviços de saúde. Dessa forma, o cuidado não deve restringir-se ao tratamento da doença, mas contemplar intervenções capazes de favorecer autonomia, adesão terapêutica e enfrentamento das limitações impostas pela insuficiência renal crônica.
Nesse cenário, a atuação integrada da equipe multiprofissional torna-se indispensável para identificar necessidades individuais, desenvolver ações educativas e fortalecer o autocuidado. Além da assistência clínica, práticas voltadas à educação em saúde, ao acompanhamento psicológico, ao suporte nutricional e à orientação familiar contribuem para minimizar complicações, reduzir impactos psicossociais e promover melhores resultados terapêuticos.
Assim, este artigo tem como objetivo apresentar e discutir uma proposta de assistência multiprofissional direcionada à melhoria da qualidade de vida de idosos em tratamento hemodialítico, fundamentada nos resultados obtidos durante a pesquisa realizada no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia.
2. Metodologia
Trata-se de uma pesquisa aplicada, de caráter descritivo e abordagem quantitativa, desenvolvida com o propósito de analisar aspectos relacionados à qualidade de vida de idosos diagnosticados com doença renal crônica e submetidos à terapia hemodialítica. O estudo utilizou revisão bibliográfica, pesquisa documental e estudo de caso como procedimentos metodológicos, permitindo integrar evidências científicas com dados obtidos diretamente no cenário investigado.
A investigação foi conduzida no setor de hemodiálise do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HCU-UFU), instituição pública de ensino vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), localizada no município de Uberlândia, Minas Gerais. O serviço presta assistência especializada a pacientes renais crônicos provenientes do próprio município e de cidades da região.
Participaram da pesquisa idosos com idade igual ou superior a 60 anos, em tratamento hemodialítico há pelo menos seis meses, atendidos regularmente na unidade de hemodiálise. Foram excluídos indivíduos hospitalizados, pacientes com tempo inferior ao estabelecido para tratamento dialítico e aqueles que não concordaram em participar do estudo. Dos 45 pacientes elegíveis, 40 atenderam aos critérios e aceitaram participar voluntariamente da pesquisa.
A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de um questionário estruturado composto por 22 perguntas fechadas, aplicado individualmente em ambiente reservado, preservando a privacidade dos participantes. O tempo médio de aplicação foi de aproximadamente dez minutos por entrevistado. Os procedimentos obedeceram aos princípios éticos estabelecidos para pesquisas envolvendo seres humanos, mediante aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido por todos os participantes.
Os dados obtidos foram organizados em planilhas eletrônicas e submetidos à análise estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas para caracterização da amostra e interpretação dos resultados. Essa estratégia permitiu identificar características sociodemográficas e aspectos relacionados à qualidade de vida dos idosos, fornecendo subsídios para a elaboração de uma proposta de assistência multiprofissional voltada ao fortalecimento do cuidado integral.
3. Resultados
A amostra final foi constituída por 40 idosos em tratamento hemodialítico.
Inicialmente, 45 pacientes eram elegíveis, porém cinco não participaram do estudo por recusarem a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, apesar de demonstrarem interesse inicial na pesquisa.
Perfil sociodemográfico
Observou-se predominância do sexo masculino (60%), enquanto as mulheres representaram 40% da amostra. Em relação ao estado civil, verificou-se maior frequência de participantes casados (37,5%), seguidos por viúvos (22,5%), divorciados (22,5%) e solteiros (17,5%). Esses resultados sugerem que parte significativa dos participantes possuía algum tipo de rede familiar de apoio, fator reconhecido como importante para favorecer a adesão ao tratamento e o enfrentamento das limitações decorrentes da doença renal crônica.
Quanto à faixa etária, predominou o grupo entre 60 e 64 anos (32,5%), seguido pelos participantes com idade entre 70 e 74 anos (30%), entre 65 e 69 anos (25%) e entre 75 e 79 anos (12,5%). Esse perfil demonstra que a maior parte dos pacientes encontrava-se no início do processo de envelhecimento, embora já apresentasse necessidade de terapia renal substitutiva contínua.
Aspectos relacionados ao tratamento
Os resultados evidenciaram que a hemodiálise interfere diretamente na rotina dos idosos, exigindo comparecimento periódico ao serviço de saúde, restrições alimentares, controle rigoroso da ingestão hídrica e adaptações nas atividades diárias. Tais condições repercutem não apenas na saúde física, mas também nos aspectos emocionais, sociais e familiares, reforçando a necessidade de assistência integral durante todo o processo terapêutico.
Os dados também indicaram que os participantes reconhecem a importância do acompanhamento multiprofissional como estratégia para ampliar o conhecimento sobre a doença, melhorar a adesão ao tratamento e favorecer o autocuidado. Entre as necessidades apontadas destacam-se orientações sobre alimentação, uso correto de medicamentos, cuidados com o acesso vascular, apoio psicológico e maior participação da família durante o tratamento, aspectos que fundamentaram a proposta de elaboração de um programa educativo voltado aos pacientes idosos em hemodiálise. Esses objetivos estão alinhados ao propósito central da pesquisa de desenvolver um programa de assistência e conscientização para melhoria da qualidade de vida dessa população.
Síntese dos achados
De forma geral, os resultados demonstram que a qualidade de vida dos idosos submetidos à hemodiálise é influenciada por fatores clínicos, emocionais e
sociais. Embora o tratamento seja indispensável para a manutenção da vida, ele impõe limitações que podem comprometer a autonomia e o bem-estar dos pacientes. Nesse contexto, ações educativas permanentes e a atuação integrada da equipe multiprofissional surgem como estratégias relevantes para reduzir impactos negativos e fortalecer o cuidado centrado no paciente.
4. Discussão
Os resultados deste estudo evidenciam que a doença renal crônica, associada à necessidade de hemodiálise contínua, repercute em diferentes dimensões da vida da pessoa idosa. As limitações impostas pelo tratamento ultrapassam os aspectos clínicos, afetando a autonomia, a convivência familiar, o estado emocional e a participação social. Esses achados corroboram o objetivo da pesquisa de desenvolver estratégias capazes de promover uma assistência integral voltada à melhoria da qualidade de vida dos pacientes idosos em tratamento dialítico.
Observou-se predominância de participantes do sexo masculino e maior concentração de idosos entre 60 e 74 anos. Esse perfil reforça a necessidade de políticas públicas direcionadas ao envelhecimento saudável e ao diagnóstico precoce da doença renal crônica, uma vez que o envelhecimento populacional tem aumentado a demanda por serviços especializados de nefrologia.
Outro aspecto relevante identificado refere-se ao papel do suporte familiar. Os dados indicam que a presença de familiares ou cuidadores favorece a adaptação ao tratamento, fortalece a adesão às recomendações terapêuticas e reduz o impacto das limitações impostas pela hemodiálise. Esse resultado demonstra que o cuidado ao paciente renal deve contemplar também ações voltadas aos familiares, considerando-os parceiros fundamentais no processo terapêutico.
Os achados também evidenciam que a atuação multiprofissional representa um dos principais fatores para promoção da qualidade de vida. A participação integrada de enfermeiros, médicos, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais permite identificar precocemente dificuldades relacionadas à alimentação, saúde mental, autocuidado, adesão ao tratamento e aspectos sociais que interferem na evolução clínica dos pacientes. Essa perspectiva amplia a assistência além do controle da doença, priorizando o cuidado centrado na pessoa.
Nesse contexto, destaca-se o papel da enfermagem como profissional que mantém contato contínuo com o paciente durante as sessões de hemodiálise. Além da execução dos cuidados técnicos, o enfermeiro atua na educação em saúde, no acolhimento, na identificação precoce de complicações e no fortalecimento do vínculo terapêutico, contribuindo diretamente para maior segurança e adesão ao tratamento.
A proposta de elaboração de um programa educativo e de assistência multiprofissional mostrou-se coerente com as necessidades identificadas durante a pesquisa. A implementação de atividades educativas, orientação nutricional, acompanhamento psicológico, incentivo ao autocuidado e fortalecimento do suporte familiar constitui uma estratégia viável para reduzir os impactos físicos e emocionais da terapia renal substitutiva, favorecendo melhores indicadores de qualidade de vida.
5. Conclusão
A presente pesquisa permitiu compreender que a qualidade de vida de idosos submetidos à hemodiálise depende de fatores clínicos, psicológicos, sociais e familiares que exigem abordagem integrada por parte dos serviços de saúde. Embora a terapia renal substitutiva seja indispensável para a manutenção da vida, suas repercussões evidenciam a necessidade de intervenções que ultrapassem o tratamento exclusivamente biológico.
Os resultados demonstraram que a assistência multiprofissional desempenha papel essencial na promoção do autocuidado, na adesão terapêutica e na redução dos impactos decorrentes da doença renal crônica. A integração entre enfermagem, medicina, nutrição, psicologia, assistência social e demais profissionais favorece um cuidado mais humanizado e direcionado às necessidades individuais dos pacientes.
Como produto da pesquisa, propõe-se a implantação de um programa permanente de educação em saúde destinado aos idosos em tratamento hemodialítico, contemplando orientações sobre a doença renal crônica, alimentação, uso de medicamentos, cuidados com o acesso vascular, atividade física compatível com as condições clínicas, saúde mental e participação da família no tratamento. Essa estratégia poderá contribuir para o fortalecimento do autocuidado, melhoria da adesão ao tratamento e promoção da qualidade de vida.
Por fim, recomenda-se que novas pesquisas ampliem a investigação para diferentes instituições de saúde e utilizem delineamentos multicêntricos, permitindo comparar realidades distintas e produzir evidências que subsidiem políticas públicas voltadas ao cuidado integral da pessoa idosa com doença renal crônica.
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