Panorama da profissão de cirurgião-dentista e dos cursos de graduação em Odontologia no Brasil.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Introdução: O cenário profissional da Odontologia brasileira tem passado por expressivas transformações, caracterizadas pela expansão do ensino superior, ampliação do número de cirurgiões-dentistas e diversificação dos espaços de atuação, superando o modelo centrado no consultório particular. Objetivo: Mapear o panorama atual da Odontologia no Brasil, analisando o arcabouço normativo do Sistema CFO/CRO, as modalidades de pós-graduação (especializações e residências) e a expansão do perfil profissional para novos cenários de prática e saúde coletiva. Metodologia: Estudo descritivo de caráter documental e epidemiológico, pautado na análise de dados secundários das bases administrativas do Conselho Federal de Odontologia (CFO), legislação vigente e literatura científica especializada. Resultados: Registram-se 469.295 cirurgiões-dentistas inscritos nos CROs, distribuídos entre as 27 unidades federativas, com 25 especialidades reconhecidas pelo CFO. Observa-se que a formação continuada, impulsionada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e pela regulamentação de residências (como a Resolução CFO-296/2026), tem capacitado o profissional para atuar na Atenção Primária à Saúde, vigilâncias em saúde, ambiente hospitalar e visitas domiciliares. Considerações Finais: A evolução regulatória e educacional redefiniu o papel do cirurgião-dentista, exigindo competências técnico-científicas, éticas e sociais para a consolidação da atenção integral à saúde da população.

Descritores: História da Odontologia; Ensino; Cenário Profissional.

ABSTRACT

Background: The professional landscape of Brazilian Dentistry has undergone significant transformations, characterized by the expansion of higher education, an increasing number of dental surgeons, and the diversification of practice settings beyond traditional private clinics. Objective: To map the current overview of Dentistry in Brazil, analyzing the regulatory framework of the CFO/CRO System, postgraduate education modalities (specializations and residencies), and the expansion of the professional profile toward new practice scenarios and public health. Methodology: A descriptive, document-based, and epidemiological study grounded in secondary data from the administrative databases of the Federal Council of Dentistry (CFO), current legislation, and specialized literature. Results: There are currently 469,295 dental surgeons registered across the Regional Councils of Dentistry (CROs) in all Brazilian states and the Federal District, with 25 specialties recognized by the CFO. Driven by National Curriculum Guidelines and residency regulations (such as CFO Resolution 296/2026), continuing education has enabled practitioners to operate in Primary Health Care, health surveillance, hospital settings, and home visits. Conclusion: Regulatory and educational developments have redefined the role of the dental surgeon, demanding technical, scientific, ethical, and social competencies to support comprehensive healthcare delivery to the population.

Keywords: History of Dentistry; Teaching; Professional Scenario.

INTRODUÇÃO

A Odontologia, profissão regulamentada pela Lei nº 5.081/1966, destina-se à atenção em saúde bucal, englobando ações de prevenção, proteção, promoção, diagnóstico, tratamento, cura, reabilitação, cuidados paliativos e vigilância em saúde. Essa atuação transcende o escopo meramente técnico, exigindo a compreensão dos fatores condicionantes e determinantes que moldam as condições de saúde bucal e influenciam a qualidade de vida do ser humano (Brasil, 1966; Celeste; Nadanovsky, 2024).

Nesse sentido, o cuidado do cirurgião-dentista deve ser direcionado à pessoa, considerando que o indivíduo traz consigo bagagens sociopolíticas, emocionais e culturais. Essa assistência deve compreender o ser humano inserido em sua coletividade e em um meio ambiente que, intrinsecamente, influenciam sua saúde (Ventura et al., 2024).

No século XXI, o cirurgião-dentista tem se desprendido das quatro paredes do consultório, inserindo-se nos mais diversos nichos do mercado de trabalho (Ferreira; Ferreira; Freire, 2013). Essa transição é impulsionada por mudanças no eixo formador das universidades, que passaram a priorizar um modelo de atenção biopsicossocial em saúde bucal, pautado nas ações e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) (Brasil, 2021).

Diante desse cenário, fazem-se necessários estudos que estimulem o amadurecimento acadêmico e profissional em relação aos aspectos éticos e humanitários da Odontologia. Compreender o panorama atual da profissão no Brasil é premissa fundamental para que a área possa planejar e readequar suas práticas frente às constantes transformações sociais.

Sob essa perspectiva, o presente artigo propõe reflexões críticas acerca da realidade da profissão e dos cursos de graduação em Odontologia no país, tendo como objetivo geral analisar o cenário atual da formação e da atuação do cirurgião-dentista no Brasil.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter crítico-reflexivo. A escolha por essa modalidade justifica-se por permitir uma análise ampla e interpretativa sobre a evolução e a conjuntura da Odontologia, transcendendo a mera síntese descritiva de dados e viabilizando uma reflexão aprofundada sobre o cenário contemporâneo da profissão e do ensino odontológico no Brasil.

A coleta de dados e o levantamento bibliográfico foram conduzidos entre maio e agosto de 2026, estruturados em três eixos fundamentais:

  1. Revisão Bibliográfica: Realizou-se a busca de artigos científicos, livros e capítulos de livros que abordassem a formação acadêmica, o mercado de trabalho e as diretrizes curriculares na Odontologia. A pesquisa foi efetuada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS/LILACS) e PubMed/MEDLINE, utilizando os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH): "Odontologia", "Formação Profissional", "Educação em Odontologia" e "Mercado de Trabalho".
  2. Análise Documental e Institucional: Foram consultados documentos oficiais de órgãos reguladores e formuladores de políticas públicas, especificamente do Conselho Federal de Odontologia (CFO) e do Ministério da Educação (MEC), além de legislações vigentes, como a Lei nº 5.081/1966 e a Resolução CNE/CES nº 3/2021.
  3. Critérios de Seleção e Elegibilidade: A inclusão das fontes pautou-se na relevância temática, consistência conceitual e atualidade das publicações, priorizando referenciais que permitissem uma análise crítica sobre os desafios e as transformações da Odontologia no século XXI.

O material obtido foi sistematizado e analisado sob uma perspectiva comparativa e integrada, buscando correlacionar o arcabouço normativo-legal com as novas demandas do mercado de trabalho e do sistema de saúde brasileiro.

DESENVOLVIMENTO

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA ODONTOLOGIA

A compreensão da evolução da Odontologia está intrinsecamente relacionada à própria história da Medicina e ao desenvolvimento das ciências da saúde. Durante séculos, antes da consolidação do pensamento científico moderno, as práticas de cuidado eram fortemente influenciadas por concepções religiosas, filosóficas e culturais. Nesse período, a saúde e a doença eram interpretadas como manifestações da vontade divina, sendo as enfermidades frequentemente compreendidas como punições decorrentes de transgressões morais ou espirituais. Em consequência, as intervenções eram exercidas de forma empírica por curandeiros, sacerdotes e outros agentes que fundamentavam suas práticas em conhecimentos tradicionais e crenças místicas (Teixeira et al., 1995; Botazzo, 2000).

Na ausência de uma compreensão biológica dos processos patológicos, o corpo humano era concebido como um elemento subordinado à dimensão espiritual da existência. O sofrimento físico assumia significado moral e religioso, sendo entendido como instrumento de purificação da alma. Dessa forma, as práticas assistenciais apresentavam caráter holístico e empírico, contemplando simultaneamente aspectos físicos, espirituais e sociais, ainda que desprovidas de fundamentação científica (Botazzo, 2000).

A partir do Renascimento e, sobretudo, com o advento da Revolução Científica e o desenvolvimento do método experimental, ocorreu uma profunda transformação na compreensão do processo saúde-doença. As explicações místicas passaram, gradativamente, a ser substituídas por interpretações fundamentadas na observação, na experimentação e na produção sistemática do conhecimento. A doença passou a ser reconhecida como um fenômeno decorrente de causas naturais, tornando-se suscetível à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. Esse movimento possibilitou a consolidação da Medicina como profissão científica, estruturada sobre bases técnicas, éticas e institucionais sólidas (Botazzo, 2000; Narvai, 2002).

A ampliação do conhecimento biomédico e a crescente complexidade das práticas assistenciais favoreceram, posteriormente, a especialização dos saberes em saúde. A divisão técnica do trabalho impulsionou o surgimento de novas profissões, entre as quais a Odontologia, que inicialmente permaneceu vinculada à Medicina, mas gradativamente desenvolveu corpo doutrinário próprio, identidade científica e autonomia profissional. Assim, embora compartilhe raízes históricas com a Medicina, a Odontologia construiu um percurso singular de institucionalização, regulamentação e consolidação social (Narvai, 2002; Botazzo, 2024).

Ao longo dos séculos XIX e XX — marcados pela criação das primeiras escolas odontológicas, pelo fortalecimento das entidades de classe e pela regulamentação do exercício profissional —, a Odontologia consolidou-se como um campo científico independente. O desenvolvimento de tecnologias diagnósticas, materiais restauradores, biomateriais, técnicas cirúrgicas, recursos digitais e pesquisas em diferentes especialidades ampliou significativamente sua capacidade de promover saúde, prevenir doenças e reabilitar funções do sistema estomatognático. Paralelamente, a expansão da pesquisa científica e do ensino universitário conferiu à profissão elevado grau de reconhecimento acadêmico e social (Botazzo, 2024).

Na contemporaneidade, a Odontologia ultrapassa a concepção tradicional centrada exclusivamente no tratamento das afecções bucais. Seu campo de atuação integra ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, diagnóstico precoce, reabilitação funcional e estética, vigilância em saúde, pesquisa, docência, gestão, perícia e formulação de políticas públicas. Ademais, a crescente integração entre saúde bucal e saúde sistêmica evidencia o papel estratégico do cirurgião-dentista na atenção integral ao indivíduo (Botazzo, 2024).

Dessa forma, a Odontologia afirmou-se como uma profissão científica, autônoma e socialmente indispensável. Fundamentada em evidências científicas, princípios éticos e constante inovação tecnológica, desempenha papel essencial na promoção da qualidade de vida, na prevenção de doenças, na reabilitação das funções orais e na melhoria das condições gerais de saúde da população. Mais do que uma área especializada, constitui atualmente um dos pilares da assistência em saúde, contribuindo de maneira decisiva para o bem-estar e o desenvolvimento humano (Botazzo, 2024).

FORMAÇÃO ACADÊMICA EM ODONTOLOGIA

A formação acadêmica em Odontologia no Brasil passou por profundas transformações ao longo de sua trajetória histórica. Durante grande parte do século XX, o ensino odontológico foi estruturado sob um modelo predominantemente tecnicista, caracterizado pela fragmentação do conhecimento, pela organização curricular em disciplinas isoladas e pela valorização do desenvolvimento de habilidades operatórias. Nesse contexto, o processo formativo priorizava a aquisição de competências técnicas específicas para a execução de procedimentos clínicos, conferindo menor ênfase à compreensão integral do processo saúde-doença, às dimensões sociais da atenção e ao trabalho colaborativo interprofissional.

Essa organização curricular refletia o próprio processo de constituição da Odontologia como profissão autônoma. Conforme discutem Warmling, Marzola e Botazzo (2012), a consolidação do ensino odontológico brasileiro esteve intimamente relacionada à construção da identidade profissional do cirurgião-dentista. A institucionalização dos cursos superiores, a definição de conteúdos específicos e a organização das práticas clínicas contribuíram para diferenciar a Odontologia da Medicina e estabelecer um campo científico próprio. Nesse período, a formação buscava fortalecer a autonomia profissional por meio da especialização técnica e da delimitação de um núcleo exclusivo de conhecimentos e práticas.

Entretanto, as transformações demográficas, epidemiológicas, sociais e tecnológicas das últimas décadas evidenciaram as limitações desse modelo. A crescente complexidade das necessidades de saúde da população passou a exigir profissionais capazes de atuar para além da mera execução de procedimentos, compreendendo os determinantes sociais da saúde, desenvolvendo pensamento crítico, exercendo liderança, comunicando-se de forma efetiva e trabalhando de maneira integrada com as demais áreas da saúde.

Em resposta a esse cenário, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do Curso de Graduação em Odontologia vêm promovendo uma importante reorientação da formação profissional. A Resolução CNE/CES nº 3/2021 estabeleceu um currículo centrado no desenvolvimento de competências gerais e específicas, articulando conhecimentos técnicos, científicos, éticos, humanísticos e sociais aos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa normativa consolida a transição para a formação de um cirurgião-dentista generalista, humanista, crítico e reflexivo, rompendo com a lógica estritamente disciplinar e estimulando metodologias ativas de aprendizagem, a integração ensino-serviço-comunidade e a Educação Interprofissional em Saúde (Brasil, 2021).

Essa evolução paradigmática entre o modelo tradicional e as diretrizes contemporâneas do ensino odontológico está sintetizada no Quadro 1.

Quadro 1. Comparativo entre o modelo tradicional de ensino e o modelo orientado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais em Odontologia.

Quesito Analisado

Modelo Tradicional de Formação

Modelo Atual (DCNs 2021)

Concepção de Ensino

Predominantemente tecnicista e centrada na transmissão de conteúdo.

Formação integral, generalista, crítica, reflexiva e humanística.

Estrutura Curricular

Fragmentada em disciplinas e áreas especializadas isoladas.

Curricularmente integrado, articulando conhecimentos, habilidades e atitudes.

Papel do Professor

Principal fonte e transmissor do conhecimento.

Mediador e facilitador do processo de ensino-aprendizagem.

Papel do Estudante

Receptor passivo de conteúdo.

Sujeito ativo e protagonista da própria aprendizagem.

Formação Clínica

Ênfase no domínio técnico e procedimental.

Integração entre competências técnicas, científicas, éticas e sociais.

Concepção do Paciente

Frequentemente visto como objeto da intervenção clínica.

Sujeito do cuidado, considerado em sua integralidade e contexto de vida.

Conceito de Saúde

Foco na doença, no dano e no tratamento restaurador.

Promoção da saúde, prevenção de agravos, cuidado integral e qualidade de vida.

Cenário de Aprendizagem

Predominância do ambiente universitário e da clínica-escola.

Diversificação de cenários, incluindo a Atenção Primária, serviços e comunidade.

Trabalho em Saúde

Predominantemente individual e uniprofissional.

Valorização da interdisciplinaridade e da educação interprofissional.

Inserção no SUS

Presença pontual ou menos estruturante na formação.

Eixo estruturante e aproximação direta com as necessidades da população.

Aferição de Competência

Ênfase na contagem de procedimentos e habilidades específicas.

Desenvolvimento progressivo de competências gerais e profissionais.

Perfil Profissional

Cirurgião-dentista centrado na execução técnica.

Profissional generalista, ético e capaz de atuar em múltiplos contextos.

Processo Avaliativo

Somativo, focado na memorização e reprodução de conteúdo.

Formativo e progressivo, orientado ao desenvolvimento de competências.

Relação com a Sociedade

Formação voltada prioritariamente à prática clínica privada.

Formação ampliada articulando clínica, serviço, gestão e comunidade.

(Fonte: Brasil, 2021).

Essa mudança representa uma transformação paradigmática no ensino odontológico brasileiro. O foco da formação desloca-se de um modelo centrado na técnica e na especialização precoce para uma proposta curricular integrada, que articula conhecimentos biológicos, clínicos, sociais, éticos e humanísticos ao longo de todo o processo formativo. Dessa maneira, o estudante deixa de ser preparado apenas para executar procedimentos e passa a desenvolver competências para atuar nos diferentes níveis de atenção à saúde, considerando a complexidade do cuidado, a promoção da saúde e a atuação em equipes multiprofissionais.

Assim, o currículo contemporâneo da Odontologia busca formar profissionais tecnicamente competentes, mas também socialmente comprometidos, eticamente responsáveis e preparados para responder aos desafios atuais dos sistemas de saúde. A integração curricular, associada à educação interprofissional, representa um dos principais avanços da formação odontológica no país, contribuindo para o fortalecimento de um modelo de atenção centrado nas pessoas e na oferta de um cuidado integral e de qualidade (Brasil, 2021).

CENÁRIO PROFISSIONAL DE CIRURGIÕES-DENTISTA NO BRASIL

O cenário profissional da Odontologia brasileira caracteriza-se pela expansão da oferta de formação superior, pela presença de um contingente expressivo de cirurgiões-dentistas e pela diversificação dos espaços de atuação profissional. Paralelamente, a crescente competitividade do mercado e a ampliação das demandas sociais e sanitárias têm impulsionado a busca por qualificação e especialização, tornando a educação continuada um componente relevante da trajetória profissional. Nesse contexto, a formação do cirurgião-dentista deixa de estar restrita ao domínio técnico-procedimental e passa a exigir competências que permitam a atuação em diferentes cenários de cuidado, gestão, educação, pesquisa e produção de saúde (Brasil, 2021; Conselho Federal de Odontologia, 2026).

No Brasil, existem atualmente 469.295 cirurgiões-dentistas inscritos e habilitados nos Conselhos Regionais de Odontologia (CROs), distribuídos em cada estado e no Distrito Federal, no âmbito do Sistema Conselho Federal de Odontologia (CFO)/CROs (Brasil, 1964), como mostra o Quadro 2.

Quadro 2. Distribuição absoluta de cirurgiões-dentistas (CD) inscritos segundo CRO por estado brasileiro e Distrito Federal, 2026.

(Fonte: CFO, 2026.).

O Sistema CFO/CRO é formado por um Conselho Federal, com atuação em âmbito nacional, e pelos Conselhos Regionais, presentes em cada estado e no Distrito Federal. Sua principal finalidade é garantir que o exercício da Odontologia ocorra de forma ética, legal e em benefício da sociedade (Brasil, 1964).

O objetivo central do Sistema é proteger a população, assegurando que a Odontologia seja praticada por profissionais habilitados, competentes e comprometidos com os preceitos éticos e legais da profissão. Embora preste orientação aos inscritos, sua função primordial não é a defesa de interesses corporativos da categoria, mas sim zelar pela qualidade da assistência prestada e pelo interesse público (Brasil, 1964).

Dessa forma, o cirurgião-dentista só está legalmente apto a exercer a profissão mediante a diplomação em instituição de ensino superior reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC) e a devida inscrição no CRO de sua jurisdição (Brasil, 1966; Conselho Federal de Odontologia, 2012).

As especialidades odontológicas desempenham papel fundamental na trajetória do cirurgião-dentista, proporcionando aprofundamento técnico e científico em áreas específicas reconhecidas pelo CFO. Atualmente, o Conselho reconhece 25 especialidades odontológicas, conforme apresentado no Quadro 3.

Quadro 3. Distribuição absoluta de cirurgiões-dentistas (CD) inscritos por sexo segundo especialidade odontológica, 2026.

Especialidade odontológica

Feminino (n)

Masculino (n)

Total (n)

Acupuntura

350

166

516

Cirurgia e Traumatologia BucoMaxiloFaciais

2.545

6.115

8.660

Cirurgia Estética Orofacial

40

97

137

Dentística

5.170

2.328

7.498

Disfunção Temporomandibular E Dor Orofacial

983

804

1.787

Endodontia

14.265

6.515

20.780

Estomatologia

735

464

1.199

Harmonização Orofacial

5.167

1.272

6.439

Homeopatia

173

53

226

Implantodontia

7.852

15.816

23.668

Odontogeriatria

170

114

284

Odontologia do Esporte

27

41

68

Odontologia do Trabalho

747

382

1.129

Odontologia Hospitalar

2.124

1.113

3.237

Odontologia Legal

628

392

1.020

Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais

867

222

1.089

Odontopediatria

9.680

909

10.589

Ortodontia

21.594

12.572

34.166

Ortopedia Funcional dos Maxilares

1.137

599

1.736

Patologia Oral e MaxiloFacial

257

209

466

Periodontia

6.254

4.932

11.186

Prótese BucoMaxiloFacial

37

41

78

Prótese Dentária

8.110

7.025

15.135

Radiologia Odontológica e Imaginologia

3.310

2.796

6.106

Saúde Coletiva

1.924

738

2.662

TOTAL

94.146

65.715

159.861

(Fonte: CFO, 2026.).

A formação continuada do cirurgião-dentista abrange diferentes modalidades de pós-graduação, destacando-se os cursos de especialização e os programas de residência na área profissional da saúde. Os cursos de especialização constituem uma modalidade de pós-graduação lato sensu voltada ao aprofundamento teórico e prático em uma área específica da Odontologia, possibilitando a qualificação profissional e o registro do título de especialista, desde que atendidos os requisitos estabelecidos pelo CFO (Brasil, 2005; Brasil, 2014).

Por sua vez, os programas de residência odontológica caracterizam-se como uma modalidade de formação em serviço, fundamentada na integração entre ensino e prática assistencial. Nessa modalidade, o profissional é inserido em cenários reais de cuidado, como os serviços da Atenção Primária à Saúde (APS), hospitais e redes multiprofissionais. Regulamentadas no âmbito das Residências em Área Profissional da Saúde e pelas normativas do Sistema CFO/CRO, essas vias formativas evidenciam a ampliação do perfil do cirurgião-dentista, que passa a desenvolver competências para atuar em múltiplos contextos sociais, institucionais e assistenciais, superando o modelo tradicional voltado exclusivamente ao exercício clínico individual em consultório (Brasil, 2005; Brasil, 2014; Conselho Federal de Odontologia, 2026).

Após a conclusão da graduação e a obtenção da inscrição no CRO, o cirurgião-dentista está habilitado a ingressar nesses programas de pós-graduação para o aprofundamento de competências específicas e obtenção do título de especialista. No caso das residências odontológicas, o registro da especialidade pelo Sistema CFO/CRO deve observar as normas da Resolução CFO-296, de 10 de julho de 2026, que regulamenta o reconhecimento de especialidades obtidas por meio de programas de residência uniprofissional e multiprofissional em Odontologia (Brasil, 2005; Brasil, 2014; Conselho Federal de Odontologia, 2026).

A atuação do cirurgião-dentista tem passado por expressiva expansão nas últimas décadas, incorporando novos cenários de prática profissional. As mudanças nas políticas públicas, especialmente com o fortalecimento da APS e da Estratégia Saúde da Família (ESF), ampliaram o escopo de atuação do profissional. Esse passou a desenvolver ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, educação em saúde, vigilância, planejamento e cuidado em ambientes comunitários e domiciliares.

Nesse contexto, as visitas domiciliares representam um exemplo concreto dessa transformação, evidenciando que o cuidado odontológico pode ser ofertado a indivíduos com limitações de acesso aos serviços, o que contribui para a integralidade da atenção e para a redução das iniquidades em saúde. A experiência descrita por Bizerril et al. (2015) demonstra que, durante essas visitas, o cirurgião-dentista desenvolve atividades que extrapolam a assistência clínica, assumindo papel ativo na construção do cuidado longitudinal e interdisciplinar.

Além disso, esse profissional participa ativamente de ações de Vigilância em Saúde, contribuindo para a produção e análise de indicadores epidemiológicos, identificação de fatores de risco, monitoramento do perfil de saúde bucal da população, planejamento de ações coletivas e formulação de políticas públicas. Na APS, sua atuação articula-se às vigilâncias epidemiológica, sanitária, ambiental e em saúde do trabalhador, reforçando o papel estratégico da Odontologia (Goes, 2009; Roncalli et al., 2009).

O cirurgião-dentista contemporâneo, portanto, assume funções em hospitais, Unidades de Terapia Intensiva (UTI), gestão em saúde, auditoria, docência, pesquisa, perícia odontológica, saúde coletiva e vigilâncias em saúde. Essa diversificação exige que a formação universitária prepare o futuro profissional para trabalhar em equipe, comunicar-se de forma eficaz, compreender os determinantes sociais da saúde e priorizar a integralidade do cuidado, contemplando competências sociais e institucionais que vão além do domínio técnico-operatório.

Quanto aos limites e alcances metodológicos, o presente estudo apoia-se em um recorte documental e epidemiológico de caráter descritivo, fundamentado nos dados secundários disponibilizados pelo Sistema CFO/CRO e na literatura normativa vigente. Se, por um lado, essa abordagem possibilita o mapeamento abrangente do perfil demográfico, da distribuição geográfica e do arcabouço regulatório da Odontologia no país, por outro, apresenta limitações inerentes ao uso de bases administrativas, como a impossibilidade de aferir com precisão a taxa de atuação efetiva dos profissionais inscritos ou a migração interregional não notificada.

Diante dessas lacunas, abrem-se perspectivas promissoras para a continuidade desta linha de pesquisa por meio de investigações de campo prospectivas, estudos qualitativos sobre a inserção dos egressos de residências nos serviços públicos e análises georreferenciadas de razão cirurgião-dentista/habitante, que aprofundem o impacto real da expansão profissional na atenção à saúde da população.

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  1. Docente do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza, Ceará, Brasil. ORCID https://orcid.org/0000-0003-4547-4130

  2. Docente do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza, Ceará, Brasil. ORCID https://orcid.org/0000-0002-3668-7372

  3. Docente do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza, Ceará, Brasil. ORCID https://orcid.org/0000-0002-3797-906X

  4. Docente do curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza, Ceará, Brasil. ORCID https://orcid.org/0000-0001-8570-4119

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Copyright (c) 2026 Davi Oliveira Bizerril, Caroline Ferreira Martins, Dulce Maria de Lucena Aguiar, Sandra Helena de Carvalho Albuquerque (Autor)

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