RESUMO
A profissão docente no Brasil tem enfrentado, nas últimas décadas, processos de desvalorização profissional, intensificação do trabalho e adoecimento físico e emocional, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida dos professores e a qualidade da educação. Nesse contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar os impactos da desvalorização salarial, da sobrecarga de trabalho e das exigências emocionais sobre a saúde mental dos docentes da educação básica no cenário educacional contemporâneo. A pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter reflexivo, desenvolvido a partir da análise de produções científicas, documentos legais e discussões teóricas relacionadas ao trabalho docente, à precarização profissional e à saúde mental.As reflexões evidenciam que o professor contemporâneo enfrenta múltiplas demandas que ultrapassam o ato de ensinar, assumindo responsabilidades administrativas, emocionais e sociais, frequentemente sem o devido reconhecimento institucional e salarial. Constatou-se, ainda, que as condições precárias de trabalho, associadas à pressão por resultados e à ausência de suporte emocional, contribuem significativamente para o aumento de casos de ansiedade, estresse, depressão e Burnout entre os profissionais da educação. O estudo também analisa os impactos da precarização docente na qualidade da educação, destacando que o adoecimento dos professores compromete as relações pedagógicas, a continuidade do ensino e a aprendizagem dos estudantes. Conclui-se que a valorização docente e o cuidado com a saúde mental dos educadores constituem elementos fundamentais para a construção de uma educação mais humana, democrática e comprometida com o desenvolvimento integral dos sujeitos envolvidos no processo educativo.
Palavras-chave: trabalho docente; saúde mental; valorização profissional; precarização do trabalho; adoecimento docente.
ABSTRACT
The teaching profession in Brazil has experienced, over recent decades, processes of professional devaluation, work intensification, and physical and emotional illness, factors that directly affect teachers' quality of life and the quality of education. In this context, this article aims to analyze the impacts of low salaries, work overload, and emotional demands on the mental health of basic education teachers in the contemporary educational context. The study is characterized as qualitative research of a bibliographic and reflective nature, based on the analysis of scientific publications, legal documents, and theoretical discussions related to teaching, professional precariousness, and mental health. The findings indicate that contemporary teachers face multiple demands that extend beyond the act of teaching, assuming administrative, emotional, and social responsibilities, often without adequate institutional or financial recognition. Furthermore, precarious working conditions, combined with pressure for results and the lack of emotional support, significantly contribute to the increasing incidence of anxiety, stress, depression, and burnout among education professionals. The study also examines the effects of the precarization of the teaching profession on the quality of education, highlighting that teachers' illness compromises pedagogical relationships, the continuity of teaching, and students' learning. It is concluded that valuing the teaching profession and promoting teachers' mental health are essential elements for building a more humane, democratic, and inclusive educational system committed to the holistic development of all individuals involved in the educational process.
Keywords: teaching profession; mental health; professional recognition; labor precarization; teacher illness.
1. INTRODUÇÃO
A profissão docente tem atravessado, nas últimas décadas, um cenário marcado por intensas transformações sociais, econômicas e educacionais, que têm impactado diretamente as condições de trabalho e a saúde mental dos professores. Em meio às constantes exigências impostas ao contexto escolar, o docente passou a assumir múltiplas funções que ultrapassam o ato de ensinar, envolvendo responsabilidades emocionais, administrativas e sociais, muitas vezes sem o devido reconhecimento profissional e salarial.
Nesse contexto, a profissão docente vem sendo marcada por processos de desvalorização, sobrecarga e adoecimento, tornando cada vez mais evidente a crise que atravessa o trabalho educacional contemporâneo. Informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) demonstram crescimento significativo dos casos de adoecimento emocional, afastamentos profissionais e sobrecarga laboral entre docentes da educação básica brasileira nos últimos anos.
Diante dessa realidade, o presente artigo tem como objetivo analisar os impactos da desvalorização salarial, da intensificação do trabalho e das exigências emocionais sobre a saúde mental e a qualidade de vida dos professores da educação básica no contexto educacional brasileiro. A pesquisa busca refletir sobre como as condições precárias de trabalho têm contribuído para o adoecimento físico e emocional dos docentes, comprometendo não apenas sua qualidade de vida, mas também o desenvolvimento do processo educativo.
Nesse sentido, o estudo parte da seguinte pergunta norteadora: como a desvalorização salarial, a sobrecarga de trabalho e as exigências emocionais têm impactado a saúde mental dos professores no contexto educacional contemporâneo? A partir dessa problemática, busca-se compreender os desafios enfrentados pelos profissionais da educação diante das transformações e pressões presentes no cotidiano escolar.
A justificativa deste estudo fundamenta-se na relevância social e educacional da temática, considerando o crescente número de discussões relacionadas ao adoecimento docente, à precarização do trabalho e à necessidade de valorização profissional. Discutir a saúde mental dos professores torna-se essencial, uma vez que o bem-estar docente está diretamente relacionado à qualidade da educação, às relações estabelecidas no ambiente escolar e ao processo de ensino e aprendizagem. Além disso, a pesquisa pretende contribuir para reflexões acerca da necessidade de políticas públicas voltadas ao cuidado, reconhecimento e valorização dos profissionais da educação.
Para o desenvolvimento das discussões teóricas, o artigo será fundamentado em autores que abordam trabalho docente, valorização profissional e educação crítica, como Freire (1996), Nóvoa (1995), Tardif (2002), Arroyo (2000) e Saviani (2009), os quais contribuem significativamente para compreender os desafios da profissão docente diante das desigualdades, da precarização do trabalho e das exigências presentes no cenário educacional contemporâneo.
No que se refere aos procedimentos metodológicos, este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter reflexivo, desenvolvida a partir da análise de livros, artigos científicos, produções acadêmicas e documentos legais relacionados à valorização docente, saúde mental, precarização do trabalho e educação contemporânea.
A pesquisa fundamenta-se em discussões teóricas acerca das condições de trabalho dos professores da educação básica, bem como em legislações e normativas educacionais que atravessam a carreira docente, incluindo aspectos relacionados à valorização profissional, direitos trabalhistas e gratificações vinculadas ao exercício da regência de classe. Dessa forma, o estudo busca promover reflexões críticas sobre os impactos das condições de trabalho na saúde física, emocional e profissional dos educadores.
A seleção das produções bibliográficas considerou autores clássicos e contemporâneos que discutem trabalho docente, precarização profissional, saúde mental e valorização da carreira educacional, priorizando obras reconhecidas no campo da educação crítica e da sociologia da educação. A análise ocorreu de forma interpretativa e reflexiva, buscando compreender as relações entre condições de trabalho, adoecimento docente e impactos no processo educativo
2. REFERENCIAL TEÓRICO
No desenvolvimento deste artigo, inicialmente será discutida a desvalorização histórica da profissão docente no Brasil, buscando compreender como fatores sociais, políticos e econômicos contribuíram para a construção de uma realidade marcada pela precarização do trabalho, baixos salários e ausência de reconhecimento profissional. Nesse momento, serão apresentadas reflexões sobre o papel social do professor e as contradições existentes entre a importância atribuída à educação e a forma como os profissionais da área têm sido historicamente tratados no cenário educacional brasileiro.
Em seguida, o estudo abordará a intensificação e a sobrecarga do trabalho docente, considerando as múltiplas demandas que passaram a fazer parte da rotina dos professores contemporaneamente. Além do ensino, os docentes assumem responsabilidades relacionadas ao planejamento, preenchimento de documentos, mediação de conflitos, acompanhamento emocional dos estudantes e adaptação constante às exigências institucionais e sociais. Dessa forma, serão discutidos os impactos da ampliação das funções docentes e da responsabilização excessiva atribuída aos profissionais da educação.
Posteriormente, serão apresentadas discussões voltadas à saúde mental e ao adoecimento docente, analisando como a pressão cotidiana, as exigências emocionais e as condições precárias de trabalho têm contribuído para o aumento de casos de ansiedade, estresse, exaustão emocional e Burnout entre professores da educação básica. Nesse contexto, também serão refletidas questões relacionadas ao sofrimento psíquico, ao desgaste emocional e aos impactos provocados pelo adoecimento na vida pessoal e profissional dos docentes.
O artigo também discutirá como a precarização do trabalho docente interfere diretamente no processo de ensino e aprendizagem, nas relações estabelecidas no ambiente escolar e na qualidade da educação oferecida aos estudantes. A partir dessa análise, busca-se compreender que o adoecimento e a desvalorização profissional não afetam apenas os professores individualmente, mas repercutem em toda a dinâmica educacional e no desenvolvimento do trabalho pedagógico.
Além disso, serão apresentados possíveis caminhos para a valorização da profissão docente, enfatizando a necessidade de políticas públicas voltadas ao reconhecimento profissional, à melhoria salarial, à redução da sobrecarga de trabalho e à promoção de ações de cuidado com a saúde mental dos professores. Também será destacada a importância da formação continuada, do apoio institucional e da construção de ambientes escolares mais acolhedores, humanos e colaborativos.
Por fim, as considerações finais retomarão os principais aspectos discutidos ao longo do estudo, reforçando a necessidade de refletir sobre a urgência da valorização docente em uma sociedade que exige cada vez mais da escola e dos professores. Assim, o artigo pretende contribuir para debates relacionados à dignidade profissional, ao cuidado emocional dos educadores e à construção de uma educação mais justa, humana e comprometida com aqueles que sustentam diariamente o processo educativo.
2.1 A desvalorização histórica da profissão docente no Brasil
A profissão docente no Brasil tem sido marcada, historicamente, por processos de desvalorização social, econômica e profissional, refletindo diretamente nas condições de trabalho e na qualidade de vida dos professores. Embora a educação seja constantemente apontada como elemento fundamental para o desenvolvimento da sociedade, os profissionais responsáveis pelo processo educativo ainda enfrentam baixos salários, jornadas extensas, falta de reconhecimento e condições precárias de trabalho. Essa contradição evidencia uma realidade em que o discurso sobre a importância da educação nem sempre é acompanhado por ações concretas de valorização docente.
Além disso, a ausência de investimentos adequados na carreira docente contribui para o fortalecimento de um cenário de precarização profissional que atravessa diferentes etapas da educação básica. Em muitas instituições escolares, os professores convivem diariamente com salas superlotadas, falta de recursos pedagógicos, infraestrutura inadequada e excesso de demandas burocráticas, fatores que dificultam o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais significativas e humanizadas. Essa realidade demonstra que a desvalorização docente não se limita apenas à questão salarial, mas envolve também as condições concretas oferecidas para o exercício da profissão.
Historicamente, a docência, especialmente na Educação Básica, foi associada a uma profissão de caráter vocacional e afetivo, o que contribuiu para a naturalização da desvalorização salarial e profissional. Nesse contexto, muitos professores passaram a ser vistos como sujeitos movidos apenas pela dedicação e pelo compromisso moral com o ensino, invisibilizando a necessidade de melhores condições de trabalho, remuneração digna e reconhecimento social. Segundo Freire (1996), ensinar exige compromisso ético, responsabilidade e valorização humana, não podendo ser reduzido a uma prática mecânica ou desprovida de dignidade profissional.
Essa visão romantizada da docência fez com que, durante muitos anos, o sofrimento e as dificuldades enfrentadas pelos professores fossem compreendidos como parte natural da profissão. Dessa maneira, questões relacionadas ao adoecimento emocional, à sobrecarga de trabalho e à ausência de reconhecimento institucional acabaram sendo invisibilizadas dentro do contexto educacional. Muitos docentes passaram a exercer suas funções em condições marcadas pelo desgaste físico e emocional, sem receber o suporte necessário para enfrentar os desafios cotidianos presentes no ambiente escolar.
Além disso, a feminização da docência também se apresenta como um fator importante na compreensão da desvalorização histórica da profissão. Durante muitos anos, o trabalho docente foi associado ao cuidado, à maternidade e à afetividade, características culturalmente atribuídas às mulheres, principalmente na Educação Infantil e nos anos iniciais. Essa construção histórica contribuiu para que a profissão fosse socialmente compreendida como extensão do cuidado doméstico, fortalecendo processos de invisibilidade e precarização do trabalho docente.
Nesse contexto, muitas professoras passaram a enfrentar uma dupla jornada de trabalho, conciliando as responsabilidades profissionais com as tarefas domésticas e familiares. Essa realidade evidencia como as desigualdades de gênero também atravessam a profissão docente, contribuindo para o aumento da sobrecarga física e emocional das educadoras. Além disso, a associação entre docência e cuidado reforçou a ideia de que o trabalho realizado pelos professores deveria ocorrer por dedicação e afeto, minimizando a necessidade de reconhecimento financeiro e valorização profissional.
De acordo com Arroyo (2000), os professores convivem constantemente com processos de desumanização profissional, sendo submetidos a condições que fragilizam sua identidade, autonomia e reconhecimento social. Nesse sentido, a desvalorização docente não se restringe apenas à questão salarial, mas envolve também aspectos relacionados ao respeito profissional, às condições estruturais das instituições escolares e à ausência de políticas públicas efetivas voltadas à valorização da carreira.
Outro aspecto relevante refere-se às desigualdades presentes entre diferentes regiões do país e entre redes públicas e privadas de ensino. Muitos docentes precisam atuar em mais de uma instituição para complementar renda, enfrentando jornadas exaustivas e dificuldades para conciliar vida profissional e pessoal. Essa realidade contribui para o desgaste físico e emocional dos professores, afetando diretamente sua saúde mental e sua atuação pedagógica.
Além disso, as diferenças estruturais existentes entre as instituições educacionais revelam profundas desigualdades no acesso a recursos pedagógicos, formação continuada e apoio institucional. Enquanto algumas escolas apresentam melhores condições de funcionamento, muitas outras enfrentam dificuldades relacionadas à falta de materiais básicos, ausência de suporte pedagógico e precariedade dos espaços físicos. Tais fatores interferem diretamente na prática docente e aumentam os desafios enfrentados pelos profissionais da educação no cotidiano escolar.
Segundo Saviani (2009), discutir educação implica necessariamente refletir sobre as condições concretas de trabalho dos professores e sobre a necessidade de políticas educacionais comprometidas com a valorização profissional. Dessa forma, compreender a desvalorização histórica da docência torna-se essencial para analisar os desafios enfrentados pelos profissionais da educação na contemporaneidade e refletir sobre caminhos possíveis para a construção de uma educação mais justa, humana e democrática.
Diante desse cenário, torna-se fundamental ampliar as discussões relacionadas à valorização docente, compreendendo que a qualidade da educação está diretamente ligada às condições de trabalho oferecidas aos professores. Valorizar o docente significa reconhecer sua importância social, garantir melhores condições salariais, promover cuidado com sua saúde física e emocional e fortalecer políticas públicas comprometidas com a dignidade profissional. Assim, refletir sobre a desvalorização histórica da profissão docente representa também defender uma educação mais humana, inclusiva e comprometida com a transformação social.
2.2 Intensificação e sobrecarga do trabalho docente
Nas últimas décadas, o trabalho docente passou por profundas transformações, tornando-se cada vez mais complexo diante das múltiplas demandas atribuídas aos professores. Além das atividades relacionadas ao ensino, os profissionais da educação passaram a assumir funções administrativas, burocráticas, sociais e pedagógicas que ampliam significativamente as responsabilidades presentes no cotidiano escolar. Dessa forma, a docência deixou de se restringir à sala de aula, exigindo constante adaptação frente às mudanças educacionais e institucionais.
O cotidiano escolar contemporâneo envolve planejamento de aulas, elaboração de relatórios, participação em reuniões, acompanhamento das aprendizagens, atendimento às famílias e adaptação de atividades voltadas à inclusão escolar. Muitas dessas tarefas ultrapassam a carga horária contratual, fazendo com que os docentes levem trabalho para casa e tenham redução do tempo destinado ao descanso, à convivência familiar e ao lazer.
Além das atribuições pedagógicas, os professores convivem com cobranças relacionadas ao desempenho escolar e às metas institucionais. Em muitos contextos, o docente é responsabilizado pelos resultados educacionais dos estudantes, desconsiderando fatores sociais, econômicos e estruturais que também interferem diretamente no processo de ensino e aprendizagem. Essa lógica intensifica as exigências sobre os profissionais da educação e amplia os desafios enfrentados no ambiente escolar.
Segundo Tardif (2002), o trabalho docente é constituído por múltiplos saberes e relações construídas em meio às experiências vividas no cotidiano escolar. Nesse sentido, a profissão exige não apenas domínio pedagógico, mas também capacidade de lidar com situações sociais, institucionais e humanas cada vez mais complexas.
Outro aspecto relevante refere-se às demandas relacionadas à inclusão e à diversidade presentes nas escolas contemporâneas. Muitos professores precisam desenvolver estratégias diferenciadas e adaptar práticas pedagógicas sem receber formação continuada ou suporte institucional suficiente. Embora a educação inclusiva represente importante avanço social e educacional, a ausência de investimentos adequados contribui para ampliar os desafios do trabalho docente.
De acordo com Nóvoa (1995), a profissão docente atravessa um período de intensas transformações, exigindo constante reinvenção diante das mudanças sociais e educacionais. Nesse cenário, os professores enfrentam crescente ampliação de responsabilidades e necessidade permanente de atualização profissional.
Além disso, o avanço das tecnologias e das novas exigências educacionais ampliou a necessidade de formação contínua e adaptação metodológica. Em muitos casos, os docentes precisaram reorganizar suas práticas pedagógicas sem receber suporte adequado, realidade que evidencia a fragilidade das políticas de valorização e apoio aos profissionais da educação.
Dessa forma, compreender a intensificação do trabalho docente implica reconhecer que as condições concretas de atuação dos professores influenciam diretamente sua prática pedagógica, sua qualidade de vida e o desenvolvimento do processo educativo. Mais do que discutir excesso de tarefas, trata-se de refletir sobre os desafios estruturais que atravessam a profissão docente na contemporaneidade.
2.3. Saúde mental e adoecimento docente
A saúde mental dos professores tem se tornado uma das discussões mais urgentes no campo educacional contemporâneo, especialmente diante do aumento das exigências profissionais, da intensificação do trabalho docente e da precarização das condições de atuação nas instituições escolares. O cotidiano vivido por muitos professores é marcado por pressões constantes, cobranças excessivas, desgaste emocional e ausência de suporte adequado, fatores que têm contribuído significativamente para o crescimento dos casos de adoecimento físico e psíquico entre os profissionais da educação.
O trabalho docente envolve não apenas aspectos pedagógicos, mas também intensas demandas emocionais. O professor lida diariamente com diferentes realidades sociais, conflitos escolares, dificuldades de aprendizagem, inclusão educacional, questões familiares dos estudantes e exigências institucionais que, muitas vezes, ultrapassam sua função pedagógica. Nesse contexto, a sobrecarga emocional torna-se frequente, afetando diretamente o equilíbrio psicológico e a qualidade de vida desses profissionais.
Além das demandas relacionadas ao ensino, muitos docentes convivem constantemente com sentimento de pressão, insegurança e desvalorização profissional. A necessidade de atender às expectativas institucionais, responder às cobranças familiares e alcançar metas educacionais têm contribuído para o aumento do desgaste emocional no ambiente escolar. Em muitos casos, os professores acabam silenciando seu sofrimento psicológico por receio de julgamentos, afastamentos ou perda de reconhecimento profissional.
Entre os principais problemas relacionados à saúde mental docente destacam-se a ansiedade, o estresse, a exaustão emocional, a depressão e a Burnout, considerada atualmente uma das principais síndromes associadas ao trabalho. Caracterizada pelo esgotamento físico e emocional causado por situações prolongadas de estresse ocupacional, a Burnout tem afetado cada vez mais professores da educação básica, comprometendo sua motivação, produtividade e bem-estar emocional. Em muitos casos, o adoecimento leva ao afastamento profissional, ao desânimo com a carreira e à perda do sentido do trabalho docente.
Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que os transtornos relacionados à ansiedade, ao estresse e à depressão têm crescido significativamente nos ambientes de trabalho nas últimas décadas, afetando diretamente profissões marcadas por elevada demanda emocional, como a docência. No contexto educacional brasileiro, estudos e levantamentos realizados por entidades educacionais evidenciam o aumento do adoecimento psicológico entre professores da educação básica, especialmente após a intensificação das exigências profissionais e das transformações ocorridas no cenário educacional contemporâneo.
Estudos desenvolvidos após o período pandêmico evidenciaram aumento significativo dos níveis de ansiedade, exaustão emocional e sofrimento psíquico entre professores da educação básica, especialmente em decorrência da intensificação das demandas pedagógicas e das transformações ocorridas nas dinâmicas escolares.
Além do sofrimento físico e emocional provocado pelo adoecimento docente, muitos professores também enfrentam impactos financeiros decorrentes do afastamento de suas funções. Em alguns estados e municípios brasileiros, determinadas gratificações vinculadas à regência de classe deixam de ser pagas quando o profissional precisa se afastar por motivos de saúde, o que evidencia uma contradição no contexto educacional: o professor adoece em decorrência das condições de trabalho e, ao mesmo tempo, pode sofrer perdas salariais justamente no período em que mais necessita de estabilidade e cuidado. Essa realidade contribui para o agravamento do sofrimento emocional e para sentimento de insegurança e desvalorização profissional.
No estado de Goiás, por exemplo, a legislação relacionada à Gratificação de Estímulo à Efetiva Regência de Classe (GEERC), prevista na Lei nº 13.909/2001 e alterada pela Lei nº 21.793/2023, estabelece critérios para o recebimento da gratificação vinculada ao exercício efetivo da regência em sala de aula. Tal situação evidencia como o adoecimento docente, além de afetar a saúde mental e física dos profissionais, pode também gerar impactos diretos na remuneração e na estabilidade financeira dos educadores, reforçando debates acerca da proteção trabalhista e da valorização da carreira docente.
Entretanto, decisões judiciais têm problematizado essa questão ao reconhecer que determinadas gratificações vinculadas à atividade docente não podem ser automaticamente retiradas durante afastamentos médicos, especialmente quando estão incorporadas à rotina funcional do servidor. Esse debate demonstra a complexidade das relações entre valorização profissional, legislação educacional e saúde do trabalhador docente, revelando que o adoecimento dos professores ultrapassa a dimensão individual e envolve questões institucionais, sociais e políticas.
De acordo com Dejours (1992), o sofrimento relacionado ao trabalho surge quando o indivíduo encontra dificuldades para transformar as pressões e exigências laborais em experiências reconhecidas e valorizadas socialmente. Nesse contexto, o ambiente de trabalho pode tornar-se espaço de desgaste emocional, sofrimento psíquico e adoecimento, especialmente quando marcado pela sobrecarga, pela desvalorização profissional e pela ausência de reconhecimento humano.
Além das exigências relacionadas ao ensino, muitos professores convivem com sentimento de desvalorização e invisibilidade profissional, o que contribui para o sofrimento psíquico e para a fragilização emocional. A ausência de reconhecimento social, os baixos salários, a sobrecarga de tarefas e as dificuldades enfrentadas no ambiente escolar fazem com que inúmeros docentes se sintam desmotivados e emocionalmente esgotados. Essa realidade evidencia que o adoecimento docente não ocorre de maneira isolada, mas está diretamente relacionado às condições estruturais e organizacionais do trabalho educacional.
Segundo Freire (1996), ensinar exige compromisso humano, afetividade e responsabilidade social, o que torna a prática docente profundamente ligada às dimensões emocionais e subjetivas do indivíduo. Dessa forma, quando o professor atua em condições marcadas pela pressão constante, pela falta de apoio e pela desvalorização profissional, sua saúde emocional tende a ser diretamente impactada.
De acordo com Nóvoa (1995), a profissão docente vive uma crise relacionada não apenas às condições materiais de trabalho, mas também à identidade e ao reconhecimento profissional dos professores. Nesse cenário, o adoecimento docente revela a necessidade de repensar as políticas educacionais e as formas de organização do trabalho nas instituições escolares.
Outro aspecto importante refere-se ao fato de que muitos professores não encontram espaços de escuta, acolhimento ou acompanhamento psicológico dentro das instituições em que atuam. Em diversas situações, o sofrimento emocional é silenciosamente naturalizado, como se o desgaste e o cansaço fossem elementos inevitáveis da profissão docente. Essa lógica contribui para a invisibilização da saúde mental dos professores e dificulta a construção de práticas institucionais voltadas ao cuidado emocional dos educadores.
Além disso, a ausência de políticas públicas voltadas especificamente à promoção da saúde mental docente evidencia a necessidade de ampliação de debates sobre cuidado institucional, prevenção ao adoecimento e qualidade de vida no trabalho educacional. Em muitos casos, os professores somente recebem atenção quando o adoecimento já se encontra em estágio avançado, o que demonstra a fragilidade das ações preventivas dentro das redes de ensino.
Bauman (2001) afirma que a contemporaneidade é marcada por relações instáveis, insegurança constante e fragilidade dos vínculos sociais, elementos que também atravessam o trabalho docente. Nesse cenário, os professores convivem com pressões permanentes, exigências múltiplas e sentimentos de incerteza que impactam diretamente sua saúde emocional e sua identidade profissional.
Diante disso, discutir saúde mental e adoecimento docente torna-se fundamental para compreender os desafios enfrentados pelos professores na contemporaneidade. Mais do que reconhecer o sofrimento existente, é necessário refletir sobre a urgência de políticas públicas, ações institucionais e estratégias de valorização profissional que promovam melhores condições de trabalho e cuidado integral aos profissionais da educação. Assim, pensar na saúde mental dos professores significa também defender uma educação mais humana, democrática e comprometida com o cuidado daqueles que sustentam diariamente o processo educativo.
2.4. Os impactos da precarização do trabalho docente no processo educativo
A precarização do trabalho docente tem provocado impactos significativos não apenas na vida pessoal e profissional dos professores, mas também na qualidade do processo educativo desenvolvido nas instituições escolares. As condições inadequadas de trabalho, associadas à sobrecarga, à desvalorização profissional e ao adoecimento emocional, interferem diretamente na prática pedagógica, nas relações estabelecidas no ambiente escolar e no desenvolvimento da aprendizagem dos estudantes.
O trabalho do professor exige planejamento, dedicação, equilíbrio emocional e condições adequadas para que o processo de ensino e aprendizagem aconteça de maneira significativa. No entanto, muitos docentes atuam em contextos marcados por salas superlotadas, falta de recursos pedagógicos, infraestrutura insuficiente, excesso de demandas burocráticas e jornadas exaustivas. Essas dificuldades comprometem não apenas o desempenho profissional dos educadores, mas também a construção de um ambiente escolar mais acolhedor, humano e favorável à aprendizagem.
Segundo dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, grande parte dos professores brasileiros enfrenta jornadas extensas de trabalho, necessidade de atuação em mais de uma instituição de ensino e dificuldades relacionadas às condições estruturais das escolas públicas. Esses fatores contribuem diretamente para a intensificação do trabalho docente e para o aumento do desgaste físico e emocional dos profissionais da educação.
Além das dificuldades estruturais, muitos professores convivem diariamente com a ausência de suporte pedagógico e institucional para enfrentar os desafios presentes no cotidiano escolar. Em diversas situações, o docente precisa lidar sozinho com questões relacionadas à indisciplina, inclusão escolar, dificuldades de aprendizagem e demandas emocionais dos estudantes, sem receber acompanhamento adequado ou apoio multiprofissional. Essa realidade intensifica o sentimento de sobrecarga e fragiliza o desenvolvimento do trabalho pedagógico.
Segundo Tardif (2002), o trabalho docente é constituído por múltiplas relações e saberes construídos no cotidiano escolar, sendo diretamente influenciado pelas condições concretas em que o professor exerce sua profissão. Dessa forma, quando o docente atua em situações de precarização e desgaste constante, seu trabalho tende a ser afetado emocionalmente, pedagogicamente e socialmente.
Além disso, o adoecimento físico e emocional dos professores interfere diretamente nas relações estabelecidas com os estudantes. O excesso de cansaço, o estresse contínuo e a exaustão emocional podem dificultar a mediação pedagógica, o acompanhamento individual das crianças e a construção de vínculos afetivos no ambiente escolar. Em muitos casos, o professor passa a desenvolver sentimentos de desmotivação e esgotamento, comprometendo sua participação ativa no processo educativo.
Segundo Antunes (2009), as transformações do mundo do trabalho contemporâneo têm ampliado processos de precarização e intensificação laboral, produzindo formas cada vez mais complexas de desgaste físico e emocional dos trabalhadores. No contexto educacional, essa realidade se manifesta na ampliação das demandas atribuídas aos professores, na sobrecarga profissional e na fragilidade das condições de trabalho
Outro aspecto relevante refere-se ao impacto da rotatividade e dos afastamentos docentes provocados pelo adoecimento profissional. Quando os professores precisam se afastar frequentemente por questões relacionadas à saúde física ou mental, o processo de aprendizagem dos estudantes também sofre consequências, especialmente na Educação Infantil e nos anos iniciais, etapas em que o vínculo afetivo e a continuidade pedagógica possuem grande importância para o desenvolvimento das crianças.
A interrupção frequente da presença do professor em sala de aula pode provocar insegurança, dificuldades de adaptação e prejuízos emocionais e pedagógicos aos estudantes, principalmente às crianças pequenas, que necessitam de estabilidade afetiva e continuidade nas relações escolares. Além disso, a substituição constante de profissionais dificulta a organização das práticas pedagógicas e compromete a construção de um processo educativo mais significativo e acolhedor.
De acordo com Arroyo (2000), compreender o trabalho docente implica reconhecer os sujeitos que atuam na educação e as condições humanas, sociais e profissionais que atravessam suas práticas. Nesse sentido, a precarização do trabalho docente não pode ser analisada apenas como um problema individual, mas como uma questão estrutural que afeta toda a organização educacional e o direito à educação de qualidade.
Além disso, a pressão constante por resultados e desempenho escolar tem intensificado ainda mais os desafios enfrentados pelos professores. Muitas vezes, os docentes são responsabilizados isoladamente pelos índices educacionais, sem que sejam consideradas as desigualdades sociais, a falta de investimento público e as limitações estruturais existentes nas instituições escolares. Essa lógica contribui para o aumento da pressão emocional e para o fortalecimento de sentimento de impotência e frustração profissional.
Outro ponto importante refere-se ao impacto da precarização docente sobre a inclusão educacional. Em muitas escolas, os professores são desafiados a desenvolver práticas inclusivas sem formação adequada, sem recursos pedagógicos específicos e sem apoio especializado suficiente. Embora a inclusão represente um avanço fundamental na garantia de direitos, a ausência de investimentos e suporte institucional faz com que muitos docentes se sintam despreparados e emocionalmente sobrecarregados diante das demandas presentes em sala de aula.
Além disso, a precarização do trabalho docente também afeta a motivação profissional e o sentido atribuído à docência. Quando o professor atua em ambientes marcados pela falta de reconhecimento, excesso de cobranças e ausência de condições adequadas de trabalho, sua relação com a profissão tende a ser atravessada por sentimento de frustração, desgaste e desânimo. Esse cenário contribui para o enfraquecimento da identidade profissional docente e para o aumento do sofrimento emocional no ambiente escolar.
Nesse contexto, torna-se fundamental compreender que a valorização docente está diretamente relacionada à qualidade da educação. Não é possível pensar em práticas pedagógicas significativas, inclusão educacional e desenvolvimento humano sem considerar as condições de trabalho dos professores e o cuidado com sua saúde física e emocional. Assim, discutir os impactos da precarização do trabalho docente no processo educativo representa também refletir sobre a construção de uma escola mais justa, democrática e comprometida com o bem-estar de educadores e estudantes.
Dessa forma, pensar na melhoria da educação implica necessariamente reconhecer a importância de políticas públicas voltadas à valorização docente, à redução da sobrecarga de trabalho e à promoção de melhores condições de atuação profissional. Investir na qualidade de vida dos professores significa também investir na construção de relações pedagógicas mais humanas, no fortalecimento do ambiente escolar e no desenvolvimento integral dos estudantes.
2.5. Caminhos para a valorização e o cuidado docente
Diante dos desafios enfrentados pela profissão docente na contemporaneidade, torna-se indispensável refletir sobre a necessidade de valorização profissional e de construção de políticas e práticas voltadas ao cuidado integral dos professores. Em um contexto marcado pela desvalorização salarial, sobrecarga de trabalho e adoecimento emocional, discutir caminhos para a valorização docente significa reconhecer que o bem-estar dos educadores está diretamente relacionado à qualidade da educação e ao desenvolvimento humano dos estudantes.
A valorização docente envolve diferentes dimensões que ultrapassam a questão salarial, embora a remuneração digna represente um dos principais desafios da educação brasileira. Garantir salários adequados, planos de carreira estruturados e melhores condições de trabalho constitui um passo essencial para fortalecer a profissão e reconhecer a importância social dos professores. Muitos docentes ainda enfrentam jornadas excessivas e precisam atuar em mais de uma instituição para complementar a renda, realidade que intensifica o desgaste físico e emocional e compromete sua qualidade de vida.
Para Santos (2020), as crises sociais contemporâneas evidenciam profundas desigualdades estruturais e reforçam a necessidade de valorização das dimensões humanas e coletivas nas relações sociais e institucionais. No campo educacional, essa reflexão torna-se essencial para compreender os desafios enfrentados pelos professores diante da precarização do trabalho e da fragilidade das políticas de valorização docente.
Além da valorização financeira, é necessário promover condições de trabalho mais humanas e acolhedoras dentro das instituições escolares. Espaços de escuta, apoio emocional, redução da sobrecarga burocrática e fortalecimento das relações interpessoais no ambiente escolar são aspectos fundamentais para o cuidado com a saúde mental dos professores. Em muitas situações, os docentes convivem diariamente com pressões e responsabilidades emocionais sem receber suporte institucional adequado, o que contribui para processos de sofrimento psíquico e adoecimento profissional.
Nesse contexto, torna-se fundamental compreender que cuidar da saúde mental dos professores não deve ser visto como uma ação secundária, mas como parte essencial das políticas educacionais e da organização institucional das escolas. O ambiente escolar precisa ser pensado também como espaço de acolhimento, respeito e cuidado humano, no qual os professores possam exercer sua profissão de maneira mais equilibrada e saudável. A ausência de suporte emocional e psicológico dentro das instituições contribui para a naturalização do sofrimento docente e para o agravamento dos casos de ansiedade, estresse e exaustão emocional.
Segundo Nóvoa (1995), é necessário reconstruir o reconhecimento social da profissão docente, fortalecendo a identidade profissional e valorizando os saberes construídos pelos professores em sua prática cotidiana. Nesse sentido, pensar na valorização docente implica também reconhecer o professor como sujeito fundamental na construção do processo educativo e no desenvolvimento da sociedade.
Outro aspecto importante refere-se à formação continuada dos profissionais da educação. Em um cenário marcado por constantes transformações sociais, tecnológicas e pedagógicas, os professores necessitam de oportunidades formativas que contribuam para o aprimoramento de suas práticas e para o fortalecimento de sua atuação profissional. Entretanto, a formação continuada não deve ser compreendida apenas como exigência institucional, mas como espaço de reflexão, troca de experiências e construção coletiva de saberes.
Além disso, a formação docente precisa considerar não apenas aspectos técnicos e metodológicos, mas também dimensões humanas, emocionais e sociais da prática educativa. O professor contemporâneo enfrenta desafios complexos relacionados à inclusão, às desigualdades sociais, às transformações familiares e às demandas emocionais presentes no ambiente escolar. Dessa forma, investir em formações que promovam diálogo, escuta e apoio ao educador torna-se fundamental para fortalecer sua atuação profissional e reduzir os impactos da sobrecarga cotidiana.
De acordo com Freire (1996), a prática docente exige reflexão permanente, diálogo e compromisso com a transformação social. Dessa forma, investir na formação e no cuidado dos professores representa também investir em uma educação mais crítica, democrática e humanizada.
Além disso, torna-se fundamental ampliar as políticas públicas voltadas à saúde mental docente, considerando o crescente número de casos de ansiedade, estresse, depressão e Burnout entre profissionais da educação. O desenvolvimento de programas institucionais de acolhimento psicológico, prevenção ao adoecimento e promoção da qualidade de vida pode contribuir significativamente para a redução do sofrimento emocional presente no cotidiano escolar.
Outro ponto importante refere-se à necessidade de redução da burocratização excessiva do trabalho docente. Muitos professores encontram-se sobrecarregados por demandas administrativas, preenchimento de relatórios e cobranças institucionais que ultrapassam as funções pedagógicas e limitam o tempo destinado ao planejamento e às relações educativas. A reorganização dessas demandas representa uma estratégia importante para diminuir a sobrecarga profissional e melhorar as condições de trabalho no ambiente escolar.
Outro caminho importante para a valorização docente consiste no fortalecimento da participação dos professores nas decisões educacionais e na construção das políticas públicas. Muitas vezes, os profissionais da educação são excluídos dos processos de formulação das propostas pedagógicas e administrativas que impactam diretamente seu trabalho. Garantir voz, escuta e participação ativa aos docentes representa reconhecer sua experiência, seus saberes e sua importância no contexto educacional.
Além disso, pensar em valorização docente implica também promover maior reconhecimento social da profissão. Em muitos contextos, o trabalho do professor ainda é invisibilizado ou reduzido a uma função meramente técnica, desconsiderando a complexidade humana, pedagógica e social presente na docência. Reconhecer a importância do professor significa compreender que a educação depende diretamente das condições oferecidas aos profissionais responsáveis pela formação das novas gerações.
Outro aspecto relevante refere-se à necessidade de construção de políticas educacionais mais comprometidas com a realidade das escolas públicas e com as necessidades dos professores. Investimentos em infraestrutura, recursos pedagógicos, equipes multiprofissionais e suporte institucional representam medidas fundamentais para fortalecer o trabalho docente e promover ambientes escolares mais saudáveis e inclusivos.
Dessa forma, pensar em caminhos para a valorização e o cuidado docente significa compreender que a educação de qualidade depende, necessariamente, de profissionais respeitados, acolhidos e valorizados em sua dimensão humana, profissional e social. Mais do que discutir melhorias isoladas, trata-se de defender a construção de uma cultura educacional comprometida com o cuidado, a dignidade e o reconhecimento daqueles que desempenham papel fundamental na formação das novas gerações.
Nesse sentido, valorizar o professor representa também valorizar a própria educação e reconhecer que não é possível construir uma sociedade mais justa, democrática e humanizada sem investimento, cuidado e respeito aos profissionais que sustentam diariamente o processo educativo.
3. ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise desenvolvida ao longo deste estudo evidencia que a profissão docente no Brasil atravessa um cenário marcado por profundas contradições entre a importância social atribuída à educação e as condições concretas vivenciadas pelos professores no cotidiano escolar. Embora os discursos educacionais frequentemente apontem os docentes como sujeitos fundamentais para o desenvolvimento humano e social, a realidade apresentada demonstra a permanência de processos históricos de desvalorização profissional, intensificação do trabalho e adoecimento físico e emocional.
Os resultados das discussões teóricas realizadas permitem compreender que a precarização do trabalho docente não se limita apenas às questões salariais, mas envolve também fatores relacionados às condições estruturais das instituições escolares, à sobrecarga de funções, à ausência de suporte emocional e à fragilidade das políticas públicas voltadas à valorização profissional. Nesse sentido, os estudos de Freire (1996), Arroyo (2000), Tardif (2002) e Nóvoa (1995) contribuíram para compreender que o trabalho docente é atravessado por dimensões humanas, sociais, emocionais e políticas que influenciam diretamente a qualidade da educação e a saúde dos profissionais.
Observa-se que, embora discursos institucionais enfatizem a importância da educação para o desenvolvimento social, as políticas de valorização docente ainda se mostram insuficientes diante das demandas concretas vivenciadas pelos professores no cotidiano escolar. Essa contradição evidencia um distanciamento entre o reconhecimento simbólico da profissão e as condições reais oferecidas aos educadores.
A discussão apresentada revelou que a intensificação das demandas atribuídas aos professores tem provocado impactos significativos na saúde mental docente. O excesso de responsabilidades, associado às cobranças institucionais, às exigências burocráticas e à pressão por resultados educacionais, têm contribuído para o crescimento dos casos de ansiedade, estresse, depressão e Burnout entre os profissionais da educação. Essa realidade demonstra que o adoecimento docente não deve ser compreendido como fragilidade individual, mas como consequência de condições de trabalho marcadas pela sobrecarga e pela insuficiência de políticas de cuidado e valorização profissional.
Outro aspecto relevante identificado ao longo da análise refere-se aos impactos da precarização do trabalho docente sobre o processo educativo. Observou-se que o desgaste físico e emocional dos professores interfere diretamente na prática pedagógica, na construção de vínculos afetivos e na qualidade das relações estabelecidas no ambiente escolar. Além disso, afastamentos frequentes por adoecimento e rotatividade profissional comprometem a continuidade pedagógica e afetam o desenvolvimento da aprendizagem, especialmente na Educação Infantil e nos anos iniciais, etapas em que a presença afetiva do professor possui grande importância para o desenvolvimento integral das crianças.
A discussão também evidenciou uma problemática importante relacionada às questões legais e institucionais que atravessam o trabalho docente. Em determinadas situações, professores afastados por motivos de saúde podem sofrer perdas financeiras decorrentes da suspensão de gratificações vinculadas à regência de classe, realidade que reforça sentimento de insegurança e desvalorização profissional. Tal cenário revela uma contradição significativa: o professor adoece em consequência das condições de trabalho e, simultaneamente, pode ser penalizado financeiramente durante o período de afastamento.
Nesse contexto, os resultados discutidos reforçam a necessidade de construção de políticas públicas mais efetivas voltadas à valorização docente, à promoção da saúde mental e à melhoria das condições de trabalho nas instituições escolares. A valorização profissional deve ultrapassar discursos simbólicos e materializar-se em ações concretas que garantam salários dignos, suporte emocional, formação continuada, redução da sobrecarga burocrática e participação ativa dos professores nas decisões educacionais.
Dessa forma, a análise realizada permite compreender que a qualidade da educação está diretamente relacionada às condições oferecidas aos profissionais responsáveis pelo processo educativo. Não é possível pensar em uma educação democrática, inclusiva e humanizada sem considerar o cuidado com os professores e o reconhecimento de sua importância social, profissional e humana.
Assim, conclui-se que discutir valorização docente, saúde mental e precarização do trabalho educacional representa também defender uma educação mais justa, acolhedora e comprometida com a dignidade daqueles que sustentam diariamente o processo de ensino e aprendizagem nas instituições escolares.
4. CONCLUSÃO
As discussões desenvolvidas neste estudo permitiram compreender que a profissão docente no contexto educacional brasileiro continua atravessada por processos históricos de desvalorização profissional, intensificação do trabalho e fragilidade das condições de atuação nas instituições escolares. Embora a educação seja frequentemente reconhecida como elemento fundamental para o desenvolvimento social, os professores ainda convivem com sobrecarga de funções, exigências institucionais excessivas e insuficiência de políticas efetivas de valorização profissional e cuidado emocional.
A análise realizada evidenciou que o adoecimento docente não pode ser compreendido como questão individual ou isolada, mas como fenômeno relacionado às condições estruturais e organizacionais que atravessam o trabalho educacional contemporâneo. A ampliação das responsabilidades atribuídas aos professores, associada à pressão por resultados, às demandas burocráticas e à ausência de suporte institucional, tem contribuído significativamente para o crescimento de casos de ansiedade, estresse, exaustão emocional e Burnout entre profissionais da educação básica.
Além disso, observou-se que os impactos da precarização docente ultrapassam a dimensão profissional, interferindo diretamente nas relações pedagógicas, na continuidade do processo educativo e na qualidade da aprendizagem desenvolvida nas instituições escolares. Dessa forma, discutir saúde mental e valorização docente significa também refletir sobre os caminhos necessários para a construção de ambientes escolares mais humanos, acolhedores e comprometidos com o bem-estar coletivo.
Nesse sentido, torna-se indispensável fortalecer políticas públicas voltadas à valorização da carreira docente, à melhoria das condições de trabalho, à promoção da saúde mental e ao reconhecimento social dos profissionais da educação. Investir no cuidado aos professores representa não apenas garantir melhores condições profissionais, mas também fortalecer a qualidade da educação e das relações construídas no ambiente escolar.
Por fim, espera-se que este estudo contribua para ampliar as reflexões acerca da realidade vivenciada pelos docentes na contemporaneidade, incentivando novos debates sobre trabalho docente, dignidade profissional e cuidado emocional no campo educacional. Afinal, pensar na valorização dos professores significa reconhecer o papel essencial que esses profissionais desempenham na formação humana, social e educacional das novas gerações.
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Mestranda Educação e Tecnologias (PPGET). Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Estadual de Goiás. Especialista: TEA, psicopedagogia, dislexia, gestão educacional e orientação pedagógica.
E-mail: roberlyolive@gmail.com ↑
Profº Dr. (Ph.) Colaborador do curso de Mestrado da Universidade Estadual de Goiás (UEG) no Programa de Pós Graduação em Gestão, Educação e Tecnologias (PPGET). Professor da Faculdade Impacto– Porangatu (Goiás). E-mail: ronaldorsilva57@gmail.com ↑
Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Paulista - UNIP Especialista em psicopedagogia, orientação educacional e educação especial e inclusiva. E-mail: jessicaolopes2025@gmail.com ↑
Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Estadual de Goiás Psicopedagogia - Fabec. Email: rosaniacosta878@gmail.com ↑
Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Estadual de Goiás. E-mail: profa.ivanesilva@gmail.com ↑
Licenciatura em pedagogia- Faculdade de Ciências e tecnologia. Especialização em gestão educacional, orientação educacional e docência no ensino da matemática. E-mail nilza34@yahoo.com.br ↑

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