Alfabetização e fluência leitora na educação infantil a partir das lendas amazônicas: cultura, identidade e território.
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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RESUMO

Este artigo analisa as possibilidades pedagógicas do uso de lendas amazônicas nas experiências de leitura na Educação Infantil, considerando suas contribuições para a formação do leitor, a construção de bases para o desenvolvimento da fluência leitora e o fortalecimento da cultura, da identidade e do vínculo com o território. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida por meio de uma revisão de literatura, realizada a partir de produções científicas e documentos relacionados à alfabetização, letramento, literatura infantil, fluência leitora, Educação Infantil, cultura, identidade e território. A análise da literatura evidencia que as experiências de leitura desenvolvidas na infância, por meio da contação de histórias, leitura mediada e compartilhada, reconto e dramatização, podem ampliar o repertório linguístico e favorecer a compreensão narrativa, constituindo bases importantes para a formação leitora e para aprendizagens posteriores relacionadas à fluência. Nesse contexto, as lendas amazônicas apresentam potencial pedagógico por articularem oralidade, literatura, imaginação, cultura e território, possibilitando práticas de leitura contextualizadas e culturalmente significativas. Conclui-se que a inserção dessas narrativas no cotidiano escolar pode contribuir para aproximar a escola das experiências socioculturais das crianças, fortalecendo vínculos de pertencimento e valorizando conhecimentos e manifestações culturais amazônicas. Ressalta-se, contudo, a necessidade de que essas narrativas sejam trabalhadas de maneira contextualizada, evitando abordagens folclorizadas e reconhecendo a diversidade cultural e as diferentes formas de transmissão dos saberes presentes nos territórios amazônicos.

Palavras-chave: Educação Infantil. Fluência leitora. Literatura infantil. Lendas amazônicas. Cultura e território.

ABSTRACT

This article analyzes the pedagogical possibilities of using Amazonian legends in reading experiences in Early Childhood Education, considering their contributions to reader development, the construction of foundations for reading fluency, and the strengthening of culture, identity, and connections with the territory. This is a qualitative study developed through a literature review based on scientific publications and documents related to literacy, reading and writing practices, children's literature, reading fluency, Early Childhood Education, culture, identity, and territory. The literature analysis indicates that reading experiences developed during childhood, through storytelling, mediated and shared reading, retelling, and dramatization, can expand children's linguistic repertoire and foster narrative comprehension, providing important foundations for reader development and subsequent learning related to reading fluency. In this context, Amazonian legends have pedagogical potential because they bring together orality, literature, imagination, culture, and territory, enabling contextualized and culturally meaningful reading practices. It is concluded that incorporating these narratives into everyday school practices can help bring schools closer to children's sociocultural experiences, strengthening their sense of belonging and valuing Amazonian cultural knowledge and expressions. However, these narratives should be approached in a contextualized manner, avoiding folklorized perspectives and recognizing cultural diversity and the different ways in which knowledge is transmitted across Amazonian territories.

Keywords: Early Childhood Education. Reading fluency. Children's literature. Amazonian legends. Culture and territory.

RESUMEN

Este artículo analiza las posibilidades pedagógicas del uso de leyendas amazónicas en las experiencias de lectura en la Educación Infantil, considerando sus contribuciones a la formación del lector, a la construcción de bases para el desarrollo de la fluidez lectora y al fortalecimiento de la cultura, la identidad y el vínculo con el territorio. Se trata de una investigación cualitativa, desarrollada mediante una revisión de literatura, a partir de producciones científicas y documentos relacionados con la alfabetización, la literacidad, la literatura infantil, la fluidez lectora, la Educación Infantil, la cultura, la identidad y el territorio. El análisis de la literatura evidencia que las experiencias de lectura desarrolladas durante la infancia, mediante la narración de historias, la lectura mediada y compartida, la reconstrucción oral de narrativas y la dramatización, pueden ampliar el repertorio lingüístico y favorecer la comprensión narrativa, constituyendo bases importantes para la formación lectora y para aprendizajes posteriores relacionados con la fluidez lectora. En este contexto, las leyendas amazónicas presentan un potencial pedagógico al articular oralidad, literatura, imaginación, cultura y territorio, posibilitando prácticas de lectura contextualizadas y culturalmente significativas. Se concluye que la incorporación de estas narrativas en las prácticas escolares puede contribuir a aproximar la escuela de las experiencias socioculturales de los niños, fortaleciendo los vínculos de pertenencia y valorando los conocimientos y las manifestaciones culturales amazónicas. Sin embargo, estas narrativas deben ser trabajadas de manera contextualizada, evitando enfoques folclorizados y reconociendo la diversidad cultural y las diferentes formas de transmisión de los saberes presentes en los territorios amazónicos.

Palabras clave: Educación Infantil. Fluidez lectora. Literatura infantil. Leyendas amazónicas. Cultura y territorio.

INTRODUÇÃO

A formação do leitor constitui um processo iniciado desde a infância, a partir das experiências da criança com a linguagem, as narrativas e as diferentes práticas sociais de leitura. Na Educação Infantil, o contato com histórias e textos literários contribui para ampliar o repertório linguístico e cultural, estimular a imaginação e favorecer a construção de sentidos sobre o mundo. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a importância das experiências de escuta, fala, pensamento e imaginação, destacando o contato das crianças com diferentes gêneros textuais e manifestações culturais como parte de seu desenvolvimento integral (BRASIL, 2018). Nessa perspectiva, a literatura infantil não se reduz a um recurso didático, mas constitui uma experiência cultural e formativa capaz de aproximar a criança da linguagem e da leitura.

A compreensão da leitura como prática social também permite superar uma perspectiva restrita à decodificação do código escrito. Para Soares (2020), alfabetização e letramento constituem processos distintos, porém indissociáveis, uma vez que a apropriação da escrita precisa ocorrer articulada às práticas sociais de leitura e produção de textos. Nesse percurso, as experiências vivenciadas na Educação Infantil assumem relevância para a formação de comportamentos leitores e para a construção de conhecimentos que favorecerão aprendizagens posteriores relacionadas à leitura autônoma e fluente. A leitura mediada pelo professor, a escuta de histórias, o reconto e a exploração de diferentes narrativas possibilitam à criança interagir com a linguagem e desenvolver progressivamente interesse e familiaridade com o universo literário.

Essa formação leitora torna-se ainda mais significativa quando considera o contexto sociocultural em que a criança está inserida. Freire (1989) destaca que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, evidenciando que a compreensão dos textos está relacionada às experiências e aos conhecimentos construídos pelos sujeitos em sua realidade. No contexto amazônico, essa perspectiva assume particular importância diante da diversidade cultural e territorial da região, marcada por diferentes modos de vida, saberes e formas de expressão transmitidos entre gerações. Para Loureiro (2015), a cultura amazônica apresenta forte dimensão simbólica e imaginária, expressa nas narrativas, nos mitos e nas lendas que integram a memória e o patrimônio cultural de seus povos.

Nesse cenário, as lendas amazônicas podem constituir importantes possibilidades pedagógicas para aproximar a literatura das experiências culturais das crianças. Narrativas como as do Curupira, da Iara, do Boto e da Vitória-Régia integram o imaginário regional e podem ser exploradas por meio de práticas de escuta, oralidade, leitura compartilhada, reconto e dramatização. Ao inserir essas narrativas no cotidiano escolar, a escola pode favorecer não apenas o contato com a literatura, mas também o reconhecimento da cultura e do território como espaços de produção de conhecimentos e identidades. Conforme Candau (2020), uma educação comprometida com a diversidade cultural precisa reconhecer os diferentes sujeitos, saberes e experiências que constituem os contextos educativos, promovendo práticas que dialoguem com as realidades socioculturais dos estudantes.

Embora a fluência leitora esteja mais diretamente relacionada ao processo de alfabetização e às etapas iniciais do Ensino Fundamental, sua construção integra um percurso de formação que se inicia nas primeiras experiências da criança com a linguagem e a literatura. Nesse sentido, práticas de leitura desenvolvidas na Educação Infantil podem contribuir para ampliar o vocabulário, a compreensão oral, a familiaridade com narrativas e o interesse pelos textos, constituindo bases importantes para o desenvolvimento posterior da leitura fluente. A utilização de textos culturalmente significativos, portanto, pode favorecer experiências mais próximas da realidade infantil, fortalecendo a relação entre aprendizagem, cultura e pertencimento.

Diante desse contexto, este estudo parte da seguinte problemática: de que maneira a utilização pedagógica de lendas amazônicas nas experiências de leitura da Educação Infantil pode contribuir para a formação do leitor e para a construção de bases favoráveis ao desenvolvimento da fluência leitora, fortalecendo simultaneamente os vínculos das crianças com sua cultura, identidade e território? A partir dessa questão, o artigo tem como objetivo analisar, por meio de uma revisão de literatura, as possibilidades pedagógicas do uso de lendas amazônicas nas experiências de leitura da Educação Infantil, considerando suas contribuições para a formação do leitor, para o desenvolvimento de bases relacionadas à fluência leitora e para o fortalecimento da cultura, da identidade e do vínculo da criança com o território amazônico.

METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de uma revisão de literatura, com o objetivo de analisar as possibilidades pedagógicas do uso de lendas amazônicas nas experiências de leitura na Educação Infantil, considerando suas relações com a formação do leitor, as bases para o desenvolvimento da fluência leitora e o fortalecimento da cultura, da identidade e do vínculo com o território.

O levantamento bibliográfico foi realizado a partir de produções científicas disponíveis em bases e repositórios acadêmicos, como SciELO, Portal de Periódicos da CAPES, Google Scholar e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), além de documentos oficiais relacionados à Educação Infantil e à alfabetização. Foram utilizados como descritores os termos: "fluência leitora", "formação do leitor", "literatura infantil", "Educação Infantil", "alfabetização", "letramento", "cultura amazônica", "lendas amazônicas", "identidade cultural" e "território".

Foram selecionadas produções que apresentassem relação com os objetivos da pesquisa, priorizando estudos publicados entre 2018 e 2025, sem excluir obras clássicas consideradas relevantes para a fundamentação teórica. Após o levantamento, realizou-se a leitura dos títulos, resumos e, posteriormente, dos textos selecionados, organizando-se as contribuições encontradas em três eixos: formação do leitor e práticas de leitura na Educação Infantil; fluência leitora e desenvolvimento da leitura; e cultura amazônica, identidade, território e lendas como possibilidades educativas.

A análise foi realizada de forma interpretativa, buscando estabelecer relações entre os diferentes referenciais e identificar possibilidades de articulação entre literatura, leitura e cultura amazônica. Dessa forma, a revisão não pretende estabelecer uma relação causal entre o uso de lendas e o desenvolvimento da fluência leitora, mas discutir seu potencial como recurso cultural e literário para ampliar as experiências de leitura das crianças e fortalecer os vínculos entre escola, cultura, identidade e território.

ALFABETIZAÇÃO E FORMAÇÃO DO LEITOR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A alfabetização constitui um processo fundamental na formação dos sujeitos, envolvendo a apropriação do sistema de escrita e sua utilização nas diferentes práticas sociais. No entanto, compreender a alfabetização apenas como aquisição de habilidades relacionadas à codificação e decodificação da escrita limita a complexidade desse processo. Soares (2020) destaca que alfabetização e letramento são processos distintos, porém indissociáveis, uma vez que a aprendizagem do sistema de escrita precisa estar articulada às práticas sociais de leitura e escrita. Essa compreensão implica reconhecer que a criança, desde os primeiros anos de vida, participa de situações nas quais a linguagem escrita e oral está presente, construindo conhecimentos e desenvolvendo hipóteses sobre seus usos e funções.

Na Educação Infantil, essa perspectiva exige que as experiências relacionadas à linguagem sejam organizadas de maneira significativa, respeitando as especificidades do desenvolvimento infantil. A Base Nacional Comum Curricular estabelece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes dessa etapa e reconhece, entre os direitos de aprendizagem e desenvolvimento, o direito de "escutar, falar, pensar e imaginar" (BRASIL, 2018). As práticas pedagógicas, portanto, devem possibilitar que as crianças participem de situações de comunicação e interação nas quais possam ouvir histórias, conversar, narrar acontecimentos, interpretar imagens, brincar com palavras e explorar diferentes gêneros textuais. Essas experiências favorecem o desenvolvimento da linguagem e contribuem para a aproximação progressiva da criança com a cultura escrita.

A formação do leitor, nesse contexto, não ocorre de forma repentina com o domínio do código alfabético. Ela é construída gradualmente a partir das relações que a criança estabelece com os textos e com os sujeitos que medeiam suas experiências de leitura. Freire (1989) compreende a leitura como uma prática relacionada à interpretação da realidade, defendendo que a leitura do mundo antecede a leitura da palavra. Essa concepção permite compreender que, antes mesmo de ler convencionalmente, a criança já interpreta imagens, situações, gestos, acontecimentos e experiências presentes em seu cotidiano. A escola, ao reconhecer esses conhecimentos, pode ampliar as possibilidades de interação da criança com diferentes formas de linguagem e favorecer a construção de sentidos.

Nesse processo, a literatura infantil ocupa um lugar privilegiado. Para Abramovich (1997), ouvir histórias é uma experiência fundamental para a criança, pois permite conhecer diferentes realidades, desenvolver a imaginação, vivenciar emoções e ampliar sua capacidade de compreensão do mundo. A narrativa literária oferece à criança a oportunidade de entrar em contato com personagens, conflitos e situações que podem ser relacionadas às suas próprias experiências. Por essa razão, o trabalho com literatura na Educação Infantil deve ultrapassar a utilização da história como simples instrumento para ensinar conteúdos ou transmitir comportamentos, valorizando também sua dimensão estética, imaginativa e cultural.

Cosson (2014), ao discutir a formação do leitor, destaca a importância da experiência literária como prática de construção de sentidos e de inserção do sujeito no mundo. A literatura possibilita ao leitor estabelecer relações entre o texto e suas experiências, ampliando sua capacidade de compreender a si mesmo, aos outros e à realidade. Na infância, esse processo ocorre inicialmente por meio da mediação de adultos, especialmente professores e familiares, que possibilitam o contato das crianças com histórias e diferentes manifestações da linguagem. A mediação da leitura, portanto, constitui uma prática relevante para a formação de sujeitos que desenvolvam uma relação positiva e significativa com os textos.

Essa questão assume particular relevância em contextos culturalmente diversos, como o amazônico. A escola está inserida em territórios que possuem histórias, conhecimentos e manifestações culturais próprias, os quais podem constituir importantes referências para o trabalho pedagógico. Candau (2020) defende a necessidade de uma educação intercultural que reconheça a diversidade e valorize os diferentes saberes presentes nos espaços educativos. Nessa perspectiva, a formação do leitor também pode ser compreendida como uma oportunidade de aproximar a criança de sua cultura e de ampliar sua percepção sobre o território em que vive.

No contexto amazônico, as narrativas orais, os mitos e as lendas constituem manifestações culturais que podem integrar as experiências literárias das crianças. Ao ouvir histórias relacionadas ao seu território, a criança tem a possibilidade de reconhecer elementos presentes no imaginário coletivo e estabelecer relações entre a narrativa e suas próprias experiências. Loureiro (2015) destaca a dimensão simbólica e imaginária da cultura amazônica, marcada pela presença de narrativas que expressam diferentes formas de compreender as relações entre sociedade, natureza e território. A inserção dessas manifestações no espaço escolar pode contribuir, portanto, para uma formação leitora que articule linguagem, literatura e cultura.

FLUÊNCIA LEITORA E PRÁTICAS DE LEITURA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA

A fluência leitora constitui uma dimensão importante do desenvolvimento da competência leitora, especialmente no processo de alfabetização e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Entretanto, sua construção não deve ser compreendida como um fenômeno isolado ou restrito ao domínio mecânico da leitura. A fluência envolve a capacidade de ler com precisão, automaticidade, ritmo e expressividade, articulando o reconhecimento das palavras à construção de sentidos. Rasinski (2012) destaca que a fluência representa uma ponte entre a decodificação e a compreensão, uma vez que a leitura excessivamente lenta e fragmentada pode comprometer a atenção do leitor para a construção do significado do texto. Dessa forma, desenvolver a fluência significa favorecer uma leitura que articule aspectos linguísticos, cognitivos e interpretativos.

A relação entre fluência e compreensão também é discutida por Kuhn, Schwanenflugel e Meisinger (2010), que compreendem a fluência como uma habilidade multidimensional, envolvendo não apenas a precisão e a velocidade, mas também a prosódia, entendida como a capacidade de utilizar adequadamente ritmo, entonação e expressão durante a leitura oral. Essa dimensão é particularmente relevante no trabalho com textos narrativos, pois a expressividade contribui para a construção dos sentidos e para a compreensão das características dos personagens, dos acontecimentos e das situações apresentadas. Assim, a fluência não deve ser reduzida à rapidez com que um texto é lido, mas compreendida como uma leitura que ocorre de maneira suficientemente automática e expressiva para permitir que o leitor concentre sua atenção na compreensão.

No contexto brasileiro, a discussão sobre fluência leitora tem adquirido maior destaque nas políticas educacionais voltadas à alfabetização. A Política Nacional de Alfabetização reconheceu a fluência como uma das habilidades relacionadas à alfabetização, juntamente com a consciência fonêmica, o conhecimento das relações entre grafemas e fonemas, a decodificação e a compreensão de textos (BRASIL, 2019). Embora tais habilidades estejam diretamente relacionadas ao processo de alfabetização, é importante compreender que sua consolidação ocorre dentro de um percurso de desenvolvimento da linguagem iniciado anteriormente. As experiências vivenciadas pela criança antes e durante o processo de alfabetização contribuem para ampliar seu repertório linguístico, sua compreensão oral e seu conhecimento sobre os textos, constituindo condições favoráveis para aprendizagens posteriores.

As práticas de leitura compartilhada também desempenham papel importante nesse processo. Nelas, professor e crianças participam conjuntamente da construção de sentidos, estabelecendo diálogos sobre os acontecimentos, personagens e significados do texto. A criança pode antecipar acontecimentos, formular perguntas, relacionar informações e expressar suas interpretações. Essa participação ativa contribui para o desenvolvimento da compreensão e permite que a leitura seja vivenciada como uma prática de interação. Para Solé (1998), a compreensão leitora envolve processos de construção de significado nos quais o leitor mobiliza conhecimentos prévios, formula hipóteses e estabelece relações com as informações apresentadas pelo texto. Embora sua abordagem esteja voltada à compreensão leitora em sentido amplo, seus pressupostos reforçam a importância de práticas que envolvam o leitor de maneira ativa diante do texto.

Essa perspectiva encontra aproximação com a concepção de Freire (1989), para quem a leitura da palavra está relacionada à leitura do mundo. Ao considerar os conhecimentos e as experiências que as crianças trazem de seus contextos, a escola pode promover situações de leitura nas quais os textos sejam compreendidos em diálogo com a realidade. No contexto amazônico, essa articulação torna-se especialmente significativa, uma vez que as crianças estão inseridas em territórios caracterizados por diferentes formas de relação com a natureza, pela diversidade cultural e pela presença de narrativas transmitidas oralmente entre gerações.

Dessa maneira, o desenvolvimento da fluência leitora deve ser compreendido como parte de um processo mais amplo de formação de leitores, no qual as experiências de linguagem, literatura e cultura se articulam. Na Educação Infantil, a escuta de histórias, a leitura mediada, a leitura compartilhada, o reconto e a dramatização constituem práticas que favorecem o desenvolvimento da linguagem e da compreensão, preparando condições para aprendizagens posteriores relacionadas à leitura fluente. Quando essas práticas são construídas a partir de narrativas culturalmente significativas, como as lendas amazônicas, podem ainda ampliar a relação da criança com sua identidade e seu território. Assim, a fluência leitora pode ser pensada não apenas como uma habilidade técnica, mas como parte de uma trajetória de formação leitora que envolve linguagem, compreensão, cultura e pertencimento.

CULTURA AMAZÔNICA, IDENTIDADE E TERRITÓRIO: AS LENDAS COMO PATRIMÔNIO CULTURAL E EDUCATIVO

A cultura constitui uma dimensão fundamental na formação dos sujeitos, uma vez que envolve conhecimentos, valores, práticas, modos de vida e formas de interpretar a realidade construídas socialmente ao longo do tempo. No contexto educativo, reconhecer essa dimensão significa compreender que as crianças chegam à escola trazendo experiências e conhecimentos produzidos em suas famílias, comunidades e territórios. Candau (2020) defende uma perspectiva intercultural de educação que reconheça a diversidade cultural e valorize os diferentes sujeitos e saberes presentes no espaço escolar. Nessa compreensão, a escola não deve atuar como espaço de apagamento das diferenças, mas como lugar de diálogo entre conhecimentos e culturas, possibilitando que os estudantes reconheçam suas próprias referências culturais e conheçam outras formas de compreender o mundo.

Essa perspectiva é especialmente relevante quando se considera a realidade amazônica, marcada pela diversidade de povos, comunidades e modos de vida. A Amazônia constitui um território plural, no qual diferentes grupos sociais estabelecem relações particulares com a natureza, os rios, as florestas e os espaços de convivência. Essas relações produzem conhecimentos e práticas culturais transmitidos entre gerações, muitas vezes por meio da oralidade. Para Loureiro (2015), a cultura amazônica apresenta uma forte dimensão simbólica e imaginária, construída a partir das relações entre o ser humano e o ambiente, sendo expressa por meio de narrativas, mitos, lendas e outras manifestações culturais. Dessa forma, compreender a cultura amazônica implica reconhecer a diversidade de experiências e conhecimentos que constituem os territórios da região.

O território, nessa perspectiva, ultrapassa a dimensão física e geográfica. Ele representa também um espaço de construção de identidades, memórias e relações sociais. Haesbaert (2004) compreende o território a partir de uma perspectiva que articula dimensões materiais e simbólicas, destacando que os sujeitos estabelecem vínculos de pertencimento e identificação com os espaços que ocupam e vivenciam. Essa compreensão permite pensar o território amazônico como espaço de produção de conhecimentos e significados, no qual as experiências cotidianas das crianças estão relacionadas às histórias, às práticas culturais e às narrativas que circulam em suas comunidades.

A identidade, por sua vez, é construída nas relações sociais e culturais estabelecidas pelos sujeitos ao longo de suas experiências. Hall (2006) compreende a identidade como um processo dinâmico, relacionado às representações culturais e às experiências históricas e sociais dos indivíduos. Nessa perspectiva, a construção da identidade infantil também ocorre a partir das relações que a criança estabelece com sua família, sua comunidade, sua cultura e seu território. A escola, como espaço de socialização e formação, participa desse processo ao selecionar os conhecimentos e as referências culturais que são valorizados em suas práticas pedagógicas. Quando a cultura local é reconhecida e incorporada ao cotidiano escolar, cria-se a possibilidade de fortalecer o sentimento de pertencimento e valorização das experiências dos estudantes.

No contexto amazônico, as narrativas orais ocupam um lugar significativo na transmissão de conhecimentos e na preservação da memória coletiva. Antes de serem registradas em livros ou outros suportes escritos, muitas histórias circularam entre gerações por meio da palavra falada, constituindo formas de compartilhar valores, crenças, explicações sobre fenômenos naturais e modos de compreender o mundo. As lendas integram esse universo narrativo e podem ser compreendidas como manifestações culturais que articulam imaginação, memória e território. Loureiro (2015) destaca a importância do imaginário na cultura amazônica, evidenciando a presença de elementos simbólicos que ajudam a compreender a relação dos sujeitos com a natureza e com o espaço em que vivem.

Essa concepção dialoga com Freire (1996), ao defender uma educação fundada no respeito aos saberes dos educandos e na compreensão de que ensinar exige considerar os conhecimentos construídos pelos sujeitos em suas experiências sociais. No contexto amazônico, valorizar as narrativas locais significa reconhecer que as crianças possuem repertórios culturais que podem enriquecer o processo educativo. A utilização das lendas como textos para leitura, escuta e interpretação permite que a escola estabeleça um diálogo entre os conhecimentos sistematizados e os saberes presentes no território.

Assim, a relação entre cultura amazônica, identidade e território oferece fundamentos para compreender o potencial das lendas no processo de formação leitora. Ao serem incorporadas às práticas pedagógicas, essas narrativas podem favorecer experiências de oralidade, leitura, interpretação e produção de sentidos, ao mesmo tempo em que fortalecem o reconhecimento da cultura e das identidades presentes no território. A leitura de lendas amazônicas, nessa perspectiva, constitui uma possibilidade de aproximar a escola da realidade sociocultural das crianças, estabelecendo vínculos entre o desenvolvimento da linguagem e a valorização de suas experiências e pertencimentos.

AS LENDAS AMAZÔNICAS COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA PARA A FORMAÇÃO LEITORA

A utilização de narrativas literárias no processo educativo constitui uma possibilidade de ampliar as experiências das crianças com a linguagem e favorecer sua participação em diferentes práticas de leitura. Na Educação Infantil, o trabalho com histórias possibilita desenvolver a oralidade, a imaginação, a capacidade de escuta e a compreensão de narrativas, além de promover situações de interação e construção coletiva de sentidos. Quando essas narrativas estão relacionadas ao contexto cultural das crianças, podem favorecer uma aproximação mais significativa entre os conhecimentos escolares e as experiências vivenciadas no território.

As lendas amazônicas apresentam características que favorecem sua utilização em práticas pedagógicas voltadas à formação leitora. Por serem narrativas marcadas pela oralidade, pelo imaginário e pela presença de elementos relacionados à natureza e à cultura regional, possibilitam diferentes formas de interação com a linguagem. A contação de histórias, a leitura compartilhada, o reconto e a dramatização podem ser utilizados como estratégias para estimular a participação infantil e ampliar o contato das crianças com diferentes estruturas narrativas. Essas práticas contribuem para que a criança desenvolva progressivamente a capacidade de acompanhar acontecimentos, identificar personagens, compreender relações de causa e consequência e reconstruir sequências narrativas.

A contação de histórias constitui uma das práticas mais significativas para a aproximação da criança com a literatura. Abramovich (1997) destaca que ouvir histórias possibilita à criança conhecer diferentes realidades, experimentar emoções e desenvolver a imaginação. No contexto amazônico, a contação de lendas pode ainda aproximar a experiência escolar das narrativas presentes no cotidiano das comunidades. O professor pode atuar como mediador, utilizando recursos de expressão corporal e vocal para envolver as crianças e estimular sua participação. A entonação, o ritmo e as pausas utilizadas durante a narrativa podem contribuir para que as crianças percebam diferentes possibilidades de expressão da linguagem oral.

A leitura compartilhada constitui outra possibilidade relevante. Nessa prática, o professor realiza a leitura do texto enquanto as crianças acompanham a narrativa e participam da construção de significados. Durante a atividade, podem ser realizadas perguntas sobre os personagens, antecipações sobre os acontecimentos e discussões sobre as situações apresentadas. A interação entre professor e crianças possibilita que diferentes interpretações sejam compartilhadas e que os conhecimentos prévios sejam mobilizados para a compreensão da narrativa. Para Solé (1998), a compreensão leitora envolve a participação ativa do leitor na construção de sentidos, mobilizando conhecimentos prévios, formulando hipóteses e estabelecendo relações com as informações presentes no texto.

A dramatização constitui outra estratégia que pode contribuir para a formação leitora. Ao representar personagens e situações presentes nas lendas, as crianças precisam compreender características, ações e relações estabelecidas na narrativa. A dramatização possibilita explorar diferentes formas de expressão, envolvendo corpo, voz e movimento. Além disso, pode favorecer a percepção da dimensão prosódica da linguagem, uma vez que as crianças experimentam diferentes entonações, ritmos e intensidades na representação dos personagens. Essas experiências podem contribuir para o desenvolvimento da oralidade e para a construção de conhecimentos relacionados à expressividade, que posteriormente estarão presentes na leitura oral fluente.

A dimensão cultural das lendas também amplia suas possibilidades educativas. Ao trabalhar narrativas relacionadas ao território amazônico, o professor pode promover situações nas quais as crianças compartilhem histórias conhecidas por suas famílias e comunidades. Essa prática possibilita estabelecer uma relação entre os conhecimentos que circulam no espaço escolar e aqueles construídos em outros espaços sociais. Freire (1996) destaca a importância de respeitar os saberes dos educandos e reconhecer que a educação ocorre em diálogo com suas experiências. Nesse sentido, ouvir as versões das crianças sobre as lendas pode constituir uma forma de valorizar seus conhecimentos e fortalecer sua participação no processo educativo.

Dessa maneira, as lendas amazônicas podem constituir uma estratégia pedagógica significativa para a formação leitora, desde que sejam trabalhadas de forma intencional, contextualizada e culturalmente sensível. Sua utilização permite que a escola desenvolva práticas de leitura que ultrapassem a dimensão técnica e valorizem a construção de sentidos, a oralidade, a imaginação e a identidade. Ao aproximar as crianças de narrativas presentes em seu território, a escola pode fortalecer a relação entre cultura e aprendizagem, criando experiências nas quais a formação do leitor ocorre simultaneamente à valorização dos conhecimentos e das identidades amazônicas.

DISCUSSÃO: LENDAS AMAZÔNICAS, FORMAÇÃO LEITORA E VÍNCULO COM O TERRITÓRIO

A análise da literatura evidencia que a formação leitora na infância ocorre por meio de experiências contínuas de interação com a linguagem, a literatura e diferentes práticas sociais de leitura. Nesse processo, as experiências desenvolvidas na Educação Infantil desempenham papel relevante, pois possibilitam às crianças ampliar seu repertório linguístico, desenvolver a compreensão oral e estabelecer vínculos com as narrativas e os textos. A leitura mediada pelo professor, a contação de histórias, o reconto e a dramatização constituem práticas que favorecem a participação infantil e podem contribuir para a construção de bases importantes para o desenvolvimento posterior da leitura autônoma e fluente.

A partir dos estudos analisados, observa-se que a literatura infantil apresenta maior potencial formativo quando é trabalhada como experiência de construção de sentidos e não apenas como instrumento para o desenvolvimento de habilidades técnicas. Abramovich (1997) destaca a importância das histórias para a formação da criança, enquanto Cosson (2014) compreende a experiência literária como possibilidade de ampliação da relação do sujeito consigo mesmo e com o mundo. Essa perspectiva permite compreender que o trabalho com narrativas na Educação Infantil pode contribuir simultaneamente para o desenvolvimento da linguagem, da imaginação e da capacidade de interpretação.

Nesse contexto, as lendas amazônicas apresentam potencial particular por articularem literatura, oralidade, cultura e território. Narrativas como as do Curupira, da Iara, do Boto e da Vitória-Régia fazem parte do imaginário cultural amazônico e podem constituir textos significativos para as crianças que vivem na região. Ao entrarem em contato com essas narrativas no espaço escolar, as crianças podem reconhecer elementos relacionados à sua cultura e às experiências construídas em seus territórios. Essa aproximação contribui para superar uma concepção de ensino que utiliza exclusivamente referências culturais externas à realidade dos estudantes.

A utilização de narrativas locais, entretanto, não significa restringir o acesso das crianças a outras culturas e formas de conhecimento. Ao contrário, a valorização da cultura amazônica pode constituir um ponto de partida para ampliar o repertório cultural infantil. Candau (2020) destaca a importância de uma perspectiva intercultural que reconheça a diversidade e estabeleça diálogos entre diferentes conhecimentos e culturas. Dessa forma, as lendas amazônicas podem ser incorporadas ao trabalho pedagógico não como substitutas de outras narrativas, mas como parte de um repertório diversificado que reconhece a cultura local como conhecimento legítimo.

A análise também indica que o potencial das lendas para a formação leitora está relacionado às possibilidades metodológicas que essas narrativas oferecem. Uma mesma história pode desencadear diferentes experiências: contação oral, leitura compartilhada, exploração de imagens, reconto, dramatização, identificação de personagens, reconstrução da sequência narrativa e produção de novas versões. Essas atividades possibilitam que as crianças interajam com a linguagem de diferentes maneiras e desenvolvam habilidades relacionadas à compreensão e à expressão oral.

No que se refere à fluência leitora, a literatura analisada permite compreender que seu desenvolvimento envolve mais do que a velocidade de leitura. Rasinski (2012) destaca a relação entre fluência e compreensão, enquanto Kuhn, Schwanenflugel e Meisinger (2010) ressaltam a importância da precisão, automaticidade e prosódia. Considerando que as crianças da Educação Infantil ainda estão, em grande parte, em processo de construção das habilidades relacionadas à leitura convencional, as práticas desenvolvidas nessa etapa devem priorizar experiências que ampliem a linguagem oral, a compreensão e a familiaridade com diferentes estruturas textuais.

Nesse sentido, a leitura expressiva realizada pelo professor apresenta uma possibilidade relevante. Ao ouvir histórias narradas com ritmo, entonação e expressividade, a criança tem contato com diferentes formas de organização da linguagem oral e percebe como a voz pode contribuir para a construção de sentidos. Quando a leitura é acompanhada de conversas sobre a narrativa e de atividades de reconto e dramatização, ampliam-se as oportunidades de participação e compreensão. Essas experiências não constituem, isoladamente, garantia de desenvolvimento da fluência leitora, mas podem contribuir para a construção de condições favoráveis à formação de leitores.

Outro aspecto evidenciado pela análise refere-se à relação entre leitura e identidade cultural. Freire (1989) compreende a leitura como processo relacionado à interpretação do mundo, o que reforça a importância de considerar os conhecimentos e as experiências dos sujeitos no processo educativo. Quando uma criança encontra na escola histórias relacionadas ao seu universo cultural, estabelece uma relação entre o conhecimento escolar e os saberes que circulam em sua família e comunidade. Essa aproximação pode favorecer o reconhecimento de sua identidade e ampliar seu sentimento de pertencimento.

No contexto amazônico, essa relação entre leitura, identidade e território apresenta particular relevância. Conforme Loureiro (2015), o imaginário amazônico é constituído por uma forte dimensão simbólica, na qual as relações com a natureza e o território estão presentes em diferentes manifestações culturais. As lendas, nesse cenário, representam narrativas que ajudam a preservar memórias e formas de interpretar o mundo. Sua presença na escola possibilita que essas manifestações sejam conhecidas, discutidas e ressignificadas pelas novas gerações.

A análise dos estudos permite ainda destacar que a escola pode funcionar como espaço de diálogo entre diferentes formas de conhecimento. As crianças podem trazer para a sala de aula versões de lendas conhecidas em suas comunidades, comparar narrativas, compartilhar histórias contadas por familiares e produzir novas interpretações. Essa dinâmica rompe com uma perspectiva em que o conhecimento circula apenas do professor para o estudante e cria possibilidades de participação ativa das crianças. Freire (1996) ressalta a importância de considerar os saberes dos educandos como parte do processo educativo, aspecto que ganha significado quando as experiências culturais das crianças são incorporadas às práticas pedagógicas.

Outro resultado relevante refere-se ao potencial interdisciplinar das lendas. Essas narrativas podem constituir pontos de partida para experiências que integrem diferentes áreas do conhecimento. A partir de uma história sobre o Curupira, por exemplo, podem ser desenvolvidas atividades relacionadas à preservação das florestas; narrativas sobre a Iara e o Boto podem estimular conversas sobre os rios e os ambientes aquáticos; enquanto a lenda da Vitória-Régia pode possibilitar experiências relacionadas às plantas e aos ecossistemas amazônicos. Dessa forma, a literatura pode funcionar como elemento articulador entre linguagem, cultura, natureza e território.

Entretanto, a utilização pedagógica das lendas amazônicas exige atenção para que essas narrativas não sejam tratadas de maneira superficial ou reduzidas a atividades comemorativas. A valorização da cultura regional implica reconhecer sua complexidade e diversidade, considerando que uma mesma narrativa pode apresentar diferentes versões e significados. O trabalho pedagógico precisa evitar a cristalização de uma visão única sobre a cultura amazônica, permitindo que as crianças conheçam, questionem e ressignifiquem as narrativas a partir de suas próprias experiências.

Diante dos aspectos analisados, compreende-se que as lendas amazônicas apresentam potencial para fortalecer a relação entre escola e território por meio da formação leitora. Ao possibilitar o encontro entre as crianças, a literatura e as manifestações culturais de seu contexto, essas narrativas contribuem para aproximar o conhecimento escolar das experiências vivenciadas fora da escola. A leitura passa, assim, a constituir uma prática que articula aprendizagem, cultura e pertencimento.

Portanto, a principal contribuição identificada na literatura está na possibilidade de compreender as lendas amazônicas como recursos culturais e literários capazes de ampliar as experiências de leitura na Educação Infantil. Seu potencial não reside apenas na utilização das histórias para desenvolver habilidades linguísticas, mas na capacidade de promover uma formação leitora contextualizada, na qual linguagem, imaginação, cultura e identidade estejam articuladas. Nesse sentido, a leitura de lendas pode contribuir para que a criança desenvolva uma relação significativa com os textos e, simultaneamente, reconheça o território amazônico como espaço de produção de conhecimentos, memórias e identidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise desenvolvida neste estudo permitiu compreender que a formação do leitor na Educação Infantil constitui um processo que se inicia por meio de experiências significativas com a linguagem, a literatura e as diferentes formas de interação com os textos. Nesse percurso, as práticas de leitura mediada, contação de histórias, reconto e dramatização podem contribuir para ampliar o repertório linguístico das crianças e favorecer a construção de bases importantes para o desenvolvimento posterior da leitura autônoma e fluente.

A revisão de literatura evidenciou que as lendas amazônicas apresentam potencial pedagógico para integrar experiências de leitura e valorização cultural. Por constituírem narrativas relacionadas à oralidade, ao imaginário e ao território, essas histórias possibilitam aproximar a criança da literatura a partir de referências culturais que fazem parte de seu contexto social. Dessa maneira, seu uso pedagógico pode favorecer experiências de leitura mais significativas, nas quais a criança estabelece relações entre o texto, suas vivências e os conhecimentos presentes em sua comunidade.

No que se refere à fluência leitora, compreende-se que as experiências desenvolvidas na Educação Infantil não devem ser orientadas pela antecipação do ensino formal da leitura, mas pela ampliação das oportunidades de contato com a linguagem e a literatura. A escuta de histórias, a leitura expressiva realizada pelo professor, as práticas de leitura compartilhada, o reconto e a dramatização podem contribuir para o desenvolvimento da oralidade, da compreensão e da familiaridade com diferentes estruturas narrativas, constituindo experiências que favorecem a trajetória de formação do leitor e criam bases para aprendizagens posteriores relacionadas à fluência.

A análise também permitiu evidenciar que o trabalho com lendas amazônicas ultrapassa a dimensão pedagógica relacionada ao desenvolvimento da linguagem. Essas narrativas podem contribuir para fortalecer vínculos entre escola, cultura, identidade e território, possibilitando que as crianças reconheçam no espaço escolar elementos de suas próprias experiências e referências culturais. Ao valorizar os conhecimentos presentes nas comunidades e estabelecer diálogos entre esses saberes e os conhecimentos escolares, a escola amplia as possibilidades de uma educação contextualizada e culturalmente significativa.

Nesse sentido, a problemática que orientou este estudo pode ser respondida pela compreensão de que as lendas amazônicas, quando trabalhadas de maneira intencional, contextualizada e culturalmente sensível, podem contribuir para a formação leitora das crianças e, simultaneamente, fortalecer sua relação com a cultura e o território. Seu potencial está na possibilidade de articular experiências de leitura, oralidade, imaginação e construção de sentidos com conhecimentos e manifestações culturais presentes no cotidiano infantil.

Conclui-se, portanto, que a leitura de lendas amazônicas pode constituir uma estratégia relevante para aproximar a escola do território e favorecer uma formação leitora culturalmente situada. Entretanto, é necessário que essas narrativas não sejam utilizadas apenas como instrumentos didáticos ou como representações folclorizadas da Amazônia. Seu trabalho pedagógico deve reconhecer sua dimensão cultural, histórica e simbólica, valorizando a diversidade de versões, os conhecimentos tradicionais e as diferentes formas de transmissão dessas narrativas pelos povos e comunidades da região.

Como possibilidade para pesquisas futuras, recomenda-se a realização de estudos empíricos que investiguem a aplicação de sequências didáticas e projetos de leitura fundamentados em lendas amazônicas em instituições de Educação Infantil, analisando suas contribuições para o desenvolvimento da linguagem oral, da compreensão narrativa, do interesse pela leitura e das habilidades que constituem bases para a fluência leitora. Também se mostram relevantes pesquisas de natureza qualitativa que acompanhem as interações entre professores e crianças durante práticas de contação, leitura compartilhada, reconto e dramatização de narrativas amazônicas.

Estudos futuros podem, ainda, investigar a percepção de professores, famílias e comunidades sobre a inserção dessas narrativas no currículo, bem como desenvolver pesquisas que envolvam a participação de idosos, contadores de histórias e detentores de saberes tradicionais na preservação e transmissão das lendas. Outra possibilidade consiste na realização de estudos comparativos entre diferentes territórios amazônicos, considerando a diversidade de narrativas e manifestações culturais existentes na região. Tais investigações poderão ampliar a compreensão sobre as relações entre literatura, formação leitora, identidade e território, contribuindo para o desenvolvimento de práticas pedagógicas culturalmente contextualizadas e para a valorização das culturas amazônicas no espaço escolar.

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  1. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguai. E-mail: leoguineia@gmail.com

  2. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: ynyoliver@gmail.com

  3. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. Email: cristina.nogueira.paz.de.lima@hotmail.com

  4. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. Email: glaceane.santos@semed.manaus.am.gov.br

  5. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: neucymarques@gmail.com

  6. Mestranda em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: ritalucia739@gmail.com

  7. Doutora em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail:fatimafreire148@gmail.com

  8. Doutor em Ciências da Educação, Universidad de la Integración de Las Américas (UNIDA), Asunción, Paraguay. E-mail: atilabio@hotmail.com

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