
Revista FT | ISSN 1678-0817 | v. 30, n. 161, 2026 | DOI:
Fatores geográficos e logísticos que influenciam o planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial: reflexões a partir da realidade operacional de Santarém-PA.
Geographical and logistical factors influencing the planning of ostensive policing in vast amazonian municipalities: insights from the operational reality of Santarém, Pará.
Jasson Bruno Ferreira da Mota
Weverton Freitas Silva
Willes de Lima Maia
Jandir Farias Braz
RESUMO
O planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos apresenta particularidades decorrentes da combinação entre grandes extensões territoriais, dispersão populacional, diversidade das vias de acesso e limitações de infraestrutura e logística. Nesse contexto, este artigo analisa os fatores geográficos e logísticos que influenciam o planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial, tomando como referência a realidade operacional de Santarém, no estado do Pará. O problema de pesquisa concentra-se na compreensão de como as características territoriais, as condições de mobilidade e a disponibilidade de recursos interferem na distribuição do efetivo, no deslocamento das equipes e na capacidade de resposta policial. O estudo tem como objetivo geral analisar a influência desses fatores sobre o planejamento operacional, identificando desafios e possibilidades de aprimoramento aplicáveis à Polícia Militar do Pará. Metodologicamente, trata-se de pesquisa de abordagem qualitativa, natureza aplicada e objetivos exploratório-descritivos, desenvolvida mediante pesquisa bibliográfica e documental. A literatura científica e os documentos selecionados são analisados a partir de categorias relacionadas à extensão territorial, distribuição populacional, acessibilidade, mobilidade, infraestrutura, recursos logísticos e planejamento policial. Os resultados da análise evidenciam que as particularidades territoriais amazônicas demandam estratégias diferenciadas de policiamento, considerando a integração entre informações geográficas, planejamento operacional, disponibilidade de efetivo, meios de transporte e conhecimento das dinâmicas locais. Conclui-se que a incorporação sistemática das variáveis territoriais e logísticas ao processo decisório pode contribuir para uma distribuição mais racional dos recursos e para o aperfeiçoamento da capacidade operacional da Polícia Militar do Pará em áreas de elevada complexidade territorial.
Palavras-chave: Policiamento ostensivo. Planejamento operacional. Logística policial. Amazônia. Santarém.
ABSTRACT
The planning of preventive and visible policing in Amazonian municipalities presents particular challenges resulting from the combination of vast territorial areas, dispersed populations, diverse access routes, and infrastructure and logistical limitations. In this context, this article analyzes the geographical and logistical factors that influence the planning of preventive and visible policing in large Amazonian municipalities, using the operational reality of Santarém, in the state of Pará, Brazil, as a reference. The research problem focuses on understanding how territorial characteristics, mobility conditions, and resource availability affect personnel deployment, police team displacement, and operational response capacity. The general objective is to analyze the influence of these factors on operational planning, identifying challenges and opportunities for improvement applicable to the Military Police of Pará. Methodologically, this is a qualitative, applied, exploratory, and descriptive study based on bibliographic and documentary research. The selected scientific literature and documents are analyzed according to categories related to territorial extension, population distribution, accessibility, mobility, infrastructure, logistical resources, and police planning. The findings indicate that Amazonian territorial particularities require differentiated policing strategies that integrate geographical information, operational planning, personnel availability, transportation resources, and knowledge of local dynamics. It is concluded that systematically incorporating territorial and logistical variables into decision-making can contribute to a more rational allocation of resources and improve the operational capacity of the Military Police of Pará in areas characterized by high territorial complexity.
Keywords: Preventive policing. Operational planning. Police logistics. Amazon. Santarém.
INTRODUÇÃO
A segurança pública constitui uma dimensão essencial da atuação estatal, envolvendo a articulação de recursos humanos, materiais, tecnológicos e informacionais destinados à preservação da ordem pública e à proteção da sociedade. No âmbito das Polícias Militares, o policiamento ostensivo assume papel estratégico por representar uma das formas mais perceptíveis de presença do Estado no território. Entretanto, sua efetividade não depende exclusivamente da quantidade de policiais disponíveis, mas também da capacidade institucional de planejar o emprego dos recursos de acordo com as características territoriais, a distribuição das demandas e as condições de mobilidade existentes.
O planejamento do policiamento ostensivo envolve decisões relacionadas à distribuição do efetivo, definição das modalidades de patrulhamento, delimitação de áreas prioritárias e utilização dos meios operacionais disponíveis. Pytlowanciv e Silva (2024) demonstram que práticas de inteligência organizacional aplicadas ao planejamento e à execução do policiamento podem favorecer a tomada de decisão e o emprego eficiente dos recursos. Dessa forma, informações produzidas no ambiente operacional constituem importantes subsídios para adequar as estratégias policiais às características concretas das áreas atendidas.
Essa necessidade adquire maior complexidade no contexto amazônico, marcado por grandes extensões territoriais, diversidade ambiental, dispersão populacional e diferentes condições de acesso. Em determinados municípios, deslocamentos terrestres coexistem com rotas fluviais, enquanto distâncias elevadas e limitações de infraestrutura podem interferir no tempo necessário para mobilização das equipes. Consequentemente, as características geográficas precisam ser incorporadas ao planejamento policial, pois podem repercutir na distribuição territorial do efetivo, na escolha dos meios de transporte e na capacidade de resposta.
Santarém constitui um cenário relevante para essa discussão. Localizado no oeste do Pará, o município possui 17.900,01 km² de área territorial e registrou 331.942 habitantes no Censo Demográfico de 2022, apresentando densidade demográfica de 18,55 habitantes por quilômetro quadrado (IBGE, 2025). Além de sua expressiva extensão, o território compreende áreas com diferentes formas de ocupação e acessibilidade, incluindo espaços urbanos, rurais e comunidades ribeirinhas.
Nesse contexto, a distância geográfica não representa, isoladamente, a dificuldade operacional necessária para alcançar determinada localidade. Condições das vias, modalidades de transporte disponíveis, acessibilidade e características ambientais podem modificar o tempo e os recursos necessários ao deslocamento das equipes. Dessa maneira, o território não constitui apenas o espaço físico no qual o policiamento acontece, mas uma variável capaz de interferir no próprio planejamento operacional.
A logística apresenta relação direta com essa problemática. Para que determinada estratégia seja executada, é necessário compatibilizar objetivos operacionais com efetivo, veículos, embarcações quando aplicáveis, equipamentos, comunicação, abastecimento e estruturas de apoio. Em territórios extensos, eventual inadequação entre os recursos disponíveis e as características geográficas pode aumentar os tempos de deslocamento e
dificultar a manutenção simultânea da cobertura policial em diferentes áreas.
Além dos recursos materiais, o planejamento contemporâneo demanda utilização adequada das informações disponíveis. Dados relacionados às ocorrências, características territoriais, horários de maior demanda, distribuição populacional e capacidade logística podem fornecer subsídios para decisões mais ajustadas às necessidades de cada área. Conforme Pytlowanciv e Silva (2024), a produção e o compartilhamento de conhecimento dentro das organizações policiais apresentam potencial para aperfeiçoar o planejamento e a execução das atividades ostensivas.
A escolha de Santarém como referência para esta pesquisa justifica-se, portanto, pela possibilidade de analisar o policiamento em um território no qual coexistem diferentes condições de ocupação, circulação e acesso. A investigação mostra-se pertinente para a Polícia Militar do Pará ao discutir fatores capazes de subsidiar o planejamento operacional em realidades territorialmente complexas, nas quais a distribuição racional dos recursos depende não apenas das demandas criminais, mas também das condições necessárias para alcançar as áreas atendidas.
A relevância do estudo reside na possibilidade de aproximar a discussão teórica das necessidades concretas da atividade policial. Não se pretende estabelecer um modelo único de policiamento para os municípios amazônicos, mas identificar fatores geográficos e logísticos que possam subsidiar decisões mais compatíveis com as especificidades territoriais e contribuir para o emprego racional dos recursos disponíveis.
Diante desse contexto, estabelece-se como problema de pesquisa: de que maneira os fatores geográficos e logísticos influenciam o planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial, considerando particularmente a realidade operacional de Santarém-PA?
O objetivo geral consiste em analisar a influência dos fatores geográficos e logísticos sobre o planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial, tomando como referência a realidade operacional de Santarém-PA.
Como objetivos específicos, busca-se: a) identificar características geográficas de Santarém capazes de interferir na organização e execução do policiamento ostensivo; b) discutir a influência das condições logísticas, de mobilidade e infraestrutura sobre o emprego dos recursos policiais; c) analisar a relação entre planejamento operacional, informação e
distribuição racional de efetivo e meios; e d) apontar possibilidades de aprimoramento do planejamento do policiamento ostensivo aplicáveis à realidade da Polícia Militar do Pará.
Para responder ao problema proposto, adota-se pesquisa de abordagem qualitativa, natureza aplicada e caráter exploratório-descritivo, desenvolvida mediante procedimentos bibliográficos e documentais. São consideradas produções científicas relacionadas ao planejamento operacional, logística, mobilidade e gestão da informação, além de documentos e dados oficiais pertinentes à Polícia Militar do Pará e à realidade territorial de Santarém.
Além desta introdução, o artigo apresenta a fundamentação teórica sobre planejamento, logística e particularidades territoriais; a metodologia utilizada; os resultados e sua discussão; e, por fim, a conclusão, na qual são retomados os principais achados, limitações e possibilidades de aplicação institucional.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Policiamento ostensivo e planejamento operacional
O policiamento ostensivo constitui uma das atribuições fundamentais das Polícias Militares brasileiras, estando diretamente relacionado à preservação da ordem pública e à presença preventiva do Estado. A Constituição Federal estabelece, em seu art. 144, que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, atribuindo às Polícias Militares a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública (BRASIL, 1988). O exercício dessa competência pressupõe planejamento capaz de compatibilizar demandas territoriais com os recursos humanos e materiais disponíveis.
A atividade ostensiva não se resume à circulação de policiais e viaturas. Sua execução envolve decisões relacionadas à distribuição do efetivo, definição das áreas prioritárias, escolha das modalidades de patrulhamento e disponibilidade dos meios necessários. Nesse sentido, Pytlowanciv e Silva (2024) demonstram que práticas de inteligência organizacional podem contribuir para o planejamento e a execução do policiamento ostensivo ao favorecerem a obtenção, análise e utilização de informações relevantes à tomada de decisão.
Essa perspectiva reforça a necessidade de utilizar informações sobre ocorrências, localização, horários, concentração populacional e capacidade de deslocamento como subsídios à tomada de decisão. A experiência profissional continua relevante, mas pode ser fortalecida pela análise sistemática das informações produzidas durante o serviço. Pytlowanciv e Silva (2024) ressaltam, inclusive, a importância do compartilhamento do conhecimento dentro das organizações policiais, permitindo que informações provenientes da execução operacional sejam incorporadas aos processos posteriores de planejamento.
Na Polícia Militar do Pará, a articulação entre diferentes dimensões do planejamento está presente na própria organização institucional. O Estado-Maior Geral desenvolve atividades relacionadas ao planejamento e à elaboração de estudos voltados à tomada de decisão em áreas como operações, inteligência, logística e tecnologia, demonstrando que a capacidade operacional depende da integração entre diferentes setores da Corporação (PARÁ, 2024).
No caso de Santarém, essa questão adquire relevância em razão da extensão territorial e da coexistência de áreas com diferentes características de ocupação e acessibilidade. A utilização de informações territorializadas permite relacionar os registros de ocorrências aos locais e períodos nos quais se concentram as demandas, contribuindo para a definição das áreas e dos horários prioritários de atuação.
O planejamento precisa, ainda, apresentar flexibilidade para responder a modificações temporárias da dinâmica territorial. Eventos culturais, períodos festivos e atividades turísticas podem gerar concentração excepcional de pessoas e demandar redistribuição temporária do efetivo. Durante o Sairé de 2025, em Alter do Chão, por exemplo, a Polícia Militar do Pará mobilizou mais de 600 policiais e utilizou diferentes modalidades de policiamento, com emprego de equipes a pé, policiamento montado e motorizado, viaturas e recursos tecnológicos (PARÁ, 2025). Esse exemplo demonstra que a definição das estratégias depende das características da missão e do território.
Assim, o planejamento do policiamento ostensivo deve ser compreendido como processo dinâmico, fundamentado na integração entre informações, demandas territoriais e capacidade operacional. Em municípios amazônicos de grande extensão, essa relação torna-se ainda mais importante, uma vez que distância, acessibilidade e disponibilidade dos recursos podem condicionar a execução das estratégias estabelecidas. Nesse contexto, a logística constitui elemento indispensável para transformar o planejamento em atuação concreta.
Logística e desafios territoriais do policiamento na Amazônia
A logística policial corresponde ao conjunto de condições materiais e organizacionais necessárias à execução das atividades de segurança pública. Efetivo, veículos, embarcações, equipamentos, abastecimento, manutenção, comunicação e estruturas de apoio constituem recursos que interferem diretamente na capacidade de atuação das equipes. Por essa razão, planejamento operacional e logística precisam ser considerados de maneira integrada.
Em municípios territorialmente extensos, a disponibilidade e a localização desses recursos assumem especial importância. Dewinter et al. (2024), ao analisarem estratégias de patrulhamento mediante técnicas de otimização e simulação, demonstram que o posicionamento das equipes pode influenciar o tempo de resposta e que uma distribuição espacial mais eficiente dos recursos pode produzir ganhos operacionais. O estudo reforça que a capacidade policial não depende apenas da quantidade de meios disponíveis, mas também da maneira como são posicionados e utilizados.
Na Amazônia, essa discussão apresenta características específicas. Grandes distâncias, presença de rios, áreas de difícil acesso e diferentes condições de infraestrutura fazem com que a mobilidade policial não possa ser planejada exclusivamente a partir de uma lógica terrestre. O reconhecimento institucional dessas particularidades está presente no Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Plano Amas), instituído pelo Decreto nº 11.614/2023 para fortalecer a atuação dos órgãos de segurança pública na Amazônia Legal (BRASIL, 2023).
Entre as medidas previstas pelo Plano Amas encontram-se a implantação e modernização de bases fluviais e terrestres, o fortalecimento da mobilidade das forças de segurança e o aprimoramento de equipamentos e estruturas operacionais. A política demonstra que as características territoriais da Amazônia exigem meios específicos para ampliar a presença estatal e a capacidade de atuação em localidades distantes (BRASIL, 2023).
O projeto destinado à implementação do Plano Amas, apoiado pelo Fundo Amazônia, também prevê o fortalecimento da capacidade operacional e da mobilidade das forças estaduais de segurança nas extensas áreas de rios navegáveis da Amazônia Legal (FUNDO AMAZÔNIA, 2024). Essa diretriz é especialmente relevante para municípios nos quais os cursos d'água constituem importantes vias de circulação, demonstrando que embarcações e estruturas fluviais podem integrar a logística da segurança pública.
Outro elemento relevante é a disponibilidade efetiva dos recursos. A existência patrimonial de determinada quantidade de viaturas ou equipamentos não significa que todos estejam permanentemente aptos ao emprego. Manutenção, abastecimento e condições de funcionamento interferem diretamente na capacidade operacional. Em 2024, Santarém recebeu 44 viaturas destinadas ao reforço da segurança pública local, demonstrando a importância dos investimentos em mobilidade para ampliar a capacidade das forças de segurança (SANTARÉM, 2024). Contudo, a efetividade desses recursos também depende de planejamento de emprego, manutenção e distribuição.
Dessa forma, a logística policial na Amazônia precisa ser compreendida a partir de uma perspectiva territorial e multimodal. Viaturas, embarcações, comunicação, abastecimento, manutenção, estruturas de apoio e recursos humanos precisam ser organizados de acordo com as características das áreas atendidas. Em Santarém, essa integração é especialmente importante diante da diversidade de acessos e das distâncias existentes no interior do município.
Assim, os fatores logísticos e geográficos não constituem aspectos secundários do policiamento ostensivo. Eles influenciam a distribuição das equipes, a seleção dos meios, o tempo de deslocamento e a capacidade de manutenção da cobertura territorial. A compreensão dessas variáveis fornece a base necessária para analisar, de forma mais específica, como as características de Santarém interferem no planejamento e na execução da atividade policial.
Caracterização territorial de Santarém-PA e implicações para o policiamento
A compreensão do planejamento do policiamento ostensivo em Santarém exige considerar as características territoriais do município. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025), Santarém possui área territorial de 17.900,01 km². No Censo Demográfico de 2022, foram contabilizados 331.942 habitantes, correspondendo a uma densidade demográfica de 18,55 habitantes por quilômetro quadrado. Esses dados demonstram a coexistência entre população expressiva e território municipal de grandes dimensões, condição relevante para a organização espacial dos serviços públicos.
A extensão territorial, entretanto, não representa isoladamente a complexidade do município. Santarém apresenta diferentes formas de ocupação, abrangendo espaços urbanos, rurais e comunidades situadas nas regiões de rios. O próprio processo de planejamento municipal reconhece essa diversidade territorial. A revisão do Plano Diretor de Santarém envolveu discussões com representantes da zona urbana, zona rural, comunidades de Alter do Chão e outros segmentos sociais, evidenciando a existência de diferentes realidades dentro do território municipal (SANTARÉM, 2017).
A presença de comunidades ribeirinhas constitui elemento particularmente importante para compreender a mobilidade regional. A dinâmica de prestação de outros serviços públicos demonstra concretamente essa característica. Em 2025, por exemplo, unidades de saúde fluviais do município realizaram atendimentos em comunidades situadas nas regiões dos rios Tapajós, Arapiuns, Arapixuna, Urucurituba e Aritapera, incluindo localidades classificadas pelo próprio poder público como áreas de difícil acesso (SANTARÉM, 2026). Essa configuração evidencia que, em determinadas partes do município, os rios exercem função fundamental como vias de circulação.
Para o planejamento policial, essa diversidade produz implicações importantes. A existência de áreas atendidas predominantemente por vias terrestres e de outras dependentes de deslocamentos fluviais significa que o conceito de distância precisa ser interpretado juntamente com as condições de acessibilidade. Uma localidade geograficamente mais próxima pode demandar maior tempo de deslocamento do que outra mais distante quando existem diferenças nas rotas, nos meios de transporte disponíveis ou nas condições de circulação.
A baixa densidade demográfica média também precisa ser interpretada com cautela. O indicador de 18,55 habitantes por quilômetro quadrado não significa distribuição homogênea da população por todo o município (IBGE, 2025). Ao contrário, a existência de áreas com maior concentração populacional e de comunidades distribuídas por um território amplo cria demandas distintas para a organização dos serviços. Para o policiamento ostensivo, isso significa que a distribuição dos recursos não pode ser estabelecida somente a partir da extensão territorial ou do número total de habitantes.
Essa configuração territorial interfere diretamente na possibilidade de manutenção da presença policial. Em áreas urbanas mais concentradas, uma mesma equipe pode alcançar diferentes pontos por meio da rede viária em intervalos relativamente menores. Em localidades afastadas ou com acesso predominantemente fluvial, o deslocamento pode exigir maior tempo e utilização de meios específicos. Consequentemente, uma equipe mobilizada para atendimento distante pode permanecer indisponível para outras demandas durante período superior ao observado em setores mais compactos.
As características territoriais também indicam a necessidade de planejamento diferenciado dos pontos de apoio e dos meios empregados. Viaturas terrestres, motocicletas, embarcações, sistemas de comunicação e outros recursos não apresentam a mesma aplicabilidade em todas as áreas. A escolha deve considerar as condições concretas de acesso e a finalidade da missão, reforçando a relação entre território e logística discutida anteriormente.
Outro aspecto relevante é a ocorrência de variações temporárias na circulação de pessoas. Santarém possui localidades turísticas e recebe eventos capazes de alterar significativamente a demanda por policiamento em determinados períodos. Alter do Chão constitui exemplo dessa dinâmica, especialmente durante eventos como o Sairé. Nessas circunstâncias, características relativamente permanentes do território se combinam com modificações temporárias no fluxo populacional, exigindo redistribuição de efetivo e meios.
Dessa forma, a realidade territorial de Santarém demonstra que o planejamento do policiamento ostensivo precisa considerar simultaneamente extensão territorial, distribuição populacional, acessibilidade, modalidades de deslocamento e variações da demanda. Esses elementos não atuam isoladamente; sua combinação define diferentes graus de complexidade operacional dentro de um mesmo município.
Assim, Santarém constitui referência pertinente para analisar os desafios do policiamento em municípios amazônicos de grande extensão territorial. A diversidade entre áreas urbanas, rurais e ribeirinhas evidencia que estratégias uniformes podem apresentar limitações quando aplicadas a espaços com condições distintas de mobilidade e ocupação. A incorporação das características geográficas ao planejamento pode, portanto, contribuir para decisões mais compatíveis com a capacidade operacional e com as necessidades específicas das áreas atendidas.
METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e objetivos exploratórios e descritivos, desenvolvida por meio de procedimentos bibliográficos e documentais. A escolha dessa abordagem decorre da finalidade de compreender como fatores geográficos e logísticos interferem no planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial, tomando a realidade de Santarém, no estado do Pará, como referência para a análise.
A pesquisa bibliográfica foi realizada mediante levantamento de produções científicas relacionadas aos eixos centrais do estudo, especialmente policiamento ostensivo, planejamento operacional, logística policial, distribuição territorial dos recursos, mobilidade, tempo de resposta, gestão da informação e segurança pública em territórios extensos. Foram priorizados trabalhos publicados entre 2021 e 2026, com a inclusão de publicações anteriores somente quando necessárias à fundamentação normativa ou conceitual do estudo.
Para a localização das produções científicas, foram consideradas fontes acadêmicas como Google Scholar, Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), além de periódicos científicos identificados a partir das buscas. Foram utilizados, isoladamente e de forma combinada, descritores em português e inglês relacionados a “policiamento ostensivo”, “planejamento policial”, “logística policial”, “patrulhamento policial”, “tempo de resposta”, “alocação de recursos policiais”, “segurança pública”, “Amazônia”, “Santarém”, police patrol, police planning, police resource allocation e police response time.
Como critérios de inclusão, foram selecionadas publicações com texto integral disponível e relação direta com pelo menos um dos eixos temáticos da pesquisa, priorizando artigos científicos recentes e estudos capazes de contribuir para a compreensão do planejamento, da distribuição de recursos e das particularidades territoriais da atividade policial. Também foram admitidos estudos internacionais quando seus resultados apresentavam princípios aplicáveis à discussão sobre posicionamento de equipes, cobertura territorial, patrulhamento ou tempo de resposta.
Foram excluídas publicações duplicadas, materiais sem identificação adequada de autoria ou procedência, trabalhos sem relação direta com o problema investigado e documentos cuja contribuição se restringisse a aspectos da segurança pública sem conexão com planejamento, logística ou território. A seleção priorizou a pertinência temática e a confiabilidade das fontes, evitando a inclusão de referências apenas para ampliação quantitativa da revisão.
Paralelamente, realizou-se pesquisa documental em legislação e documentos institucionais e governamentais. Foram considerados, entre outros, a Constituição da República Federativa do Brasil, documentos da Polícia Militar do Pará, informações disponibilizadas pelo Governo do Estado do Pará, pelo Município de Santarém, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Governo Federal. Também foram analisadas informações relacionadas ao Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Plano Amas), instituído pelo Decreto nº 11.614/2023, por apresentar diretrizes relacionadas ao fortalecimento da capacidade operacional e da mobilidade das forças de segurança na Amazônia Legal (BRASIL, 2023).
Os documentos oficiais referentes a Santarém foram empregados principalmente para caracterizar o território e contextualizar situações concretas relacionadas à atuação das forças de segurança. Dados populacionais, extensão territorial, condições de acesso e informações sobre áreas urbanas, rurais e ribeirinhas foram relacionados aos achados provenientes da literatura científica. A utilização dessas fontes possibilitou aproximar a discussão teórica das características concretas do município analisado.
Após a identificação e seleção das fontes, realizou-se leitura exploratória e analítica, buscando identificar convergências entre os estudos científicos, documentos oficiais e características territoriais de Santarém. O material foi organizado em categorias temáticas definidas de acordo com os objetivos da pesquisa: a) características geográficas e acessibilidade; b) logística, mobilidade e disponibilidade de recursos; c) planejamento operacional, informação e distribuição do policiamento; e d) possibilidades de aprimoramento aplicáveis à realidade da Polícia Militar do Pará.
A análise foi realizada de maneira qualitativa e interpretativa, estabelecendo relações entre os achados identificados nas fontes e o problema proposto. Não se buscou realizar mensuração estatística da eficiência operacional da Polícia Militar em Santarém nem estabelecer relações causais entre quantitativo de recursos e índices de criminalidade. O objetivo consistiu em identificar, a partir das evidências disponíveis, fatores capazes de influenciar o planejamento do policiamento ostensivo em um território amazônico de elevada extensão e diversidade de acessos.
Por utilizar exclusivamente literatura científica, legislação, dados agregados e documentos de acesso público, sem participação direta de seres humanos, aplicação de questionários, entrevistas ou acesso a dados pessoais individualizados, a pesquisa possui caráter bibliográfico e documental. Essa delimitação também constitui uma limitação metodológica, pois as conclusões decorrem das fontes disponíveis e não substituem avaliações operacionais realizadas diretamente pelas unidades policiais.
A partir desses procedimentos, os resultados foram organizados e discutidos considerando as relações entre território, logística e planejamento policial, buscando identificar não apenas as dificuldades associadas à realidade de Santarém, mas também possibilidades de aprimoramento compatíveis com as atribuições e necessidades operacionais da Polícia Militar do Pará.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise conjunta da literatura científica e dos documentos selecionados permitiu identificar quatro dimensões diretamente relacionadas ao planejamento do policiamento ostensivo em Santarém: extensão e heterogeneidade territorial; mobilidade e capacidade logística; distribuição dos recursos e tempo de resposta; e integração entre informação, planejamento e capacidade operacional. Os resultados indicam que esses elementos atuam de maneira interdependente e precisam ser considerados na definição das estratégias de policiamento em municípios amazônicos de grande extensão.
Território, acessibilidade e cobertura policial
O primeiro aspecto identificado corresponde à influência das características geográficas sobre a capacidade de cobertura policial. Santarém possui área territorial de aproximadamente 17,9 mil km² e apresenta espaços urbanos, rurais e ribeirinhos com diferentes condições de acesso. Essa configuração demonstra que a dimensão territorial não pode ser tratada apenas como dado administrativo, pois interfere concretamente na organização e execução dos serviços públicos.
No policiamento ostensivo, a principal implicação dessa característica corresponde à impossibilidade de interpretar a distância exclusivamente em quilômetros. O tempo necessário para alcançar determinada localidade depende das condições das vias, da modalidade de transporte utilizada e da disponibilidade dos recursos. Em áreas ribeirinhas, por exemplo, a mobilidade pode depender de embarcações e das condições de navegação, enquanto áreas urbanas permitem maior utilização da malha viária.
Essa constatação reforça a necessidade de substituir uma perspectiva uniforme de cobertura por uma abordagem territorialmente diferenciada. Uma equipe posicionada em determinado ponto urbano pode cobrir diferentes setores em intervalos relativamente curtos, enquanto o atendimento de uma comunidade distante pode exigir deslocamento prolongado e manter a equipe indisponível para outras ocorrências durante período maior.
A literatura sobre patrulhamento oferece respaldo para essa relação. Dewinter et al. (2024) demonstraram que o posicionamento espacial das equipes e as estratégias utilizadas no patrulhamento influenciam os tempos de resposta. Embora o estudo tenha sido realizado em contexto distinto da Amazônia brasileira, seus resultados reforçam um princípio relevante para Santarém: a capacidade de atendimento depende não apenas da quantidade de recursos, mas também da sua localização em relação às demandas.
Nesse sentido, os achados indicam que a extensão territorial deve ser analisada juntamente com a acessibilidade. Para fins de planejamento, uma divisão baseada apenas em área geográfica ou população pode não representar adequadamente a carga operacional. Áreas com menor população podem demandar maior disponibilidade logística quando apresentam acesso complexo ou elevado tempo de deslocamento.
Mobilidade e capacidade logística
A segunda dimensão identificada corresponde à logística necessária para sustentar a presença policial. Os resultados demonstram que a atuação em território amazônico exige uma compreensão multimodal da mobilidade. Viaturas terrestres são fundamentais, mas não representam necessariamente solução suficiente para todas as localidades.
Essa constatação encontra respaldo nas próprias políticas federais direcionadas à segurança na Amazônia. O Plano Amazônia: Segurança e Soberania foi instituído para desenvolver ações que observem as necessidades e especificidades dos estados da Amazônia Legal (BRASIL, 2023). O projeto de implementação do Plano Amas prevê, especificamente para as forças policiais estaduais, ampliação da presença territorial e maior mobilidade nas extensas áreas de rios navegáveis da região (FUNDO AMAZÔNIA, 2024).
Esse direcionamento institucional confirma que a mobilidade fluvial constitui variável estratégica da segurança pública amazônica. No caso de Santarém, a existência de comunidades distribuídas pelas regiões de rios torna particularmente relevante a disponibilidade de meios adequados às características de cada missão.
Os resultados também indicam que a capacidade logística não pode ser avaliada exclusivamente pelo quantitativo patrimonial de equipamentos. Para o planejamento operacional, importa conhecer quais recursos encontram-se efetivamente disponíveis, onde estão posicionados e em quais condições podem ser utilizados. Viaturas ou embarcações temporariamente indisponíveis por manutenção, por exemplo, não representam capacidade operacional imediata.
logística envolve ainda abastecimento, manutenção, comunicação, equipamentos e estruturas de apoio. Quanto maior a distância em relação às bases principais, maior pode ser o impacto da indisponibilidade de determinado recurso. Por essa razão, a existência de pontos de apoio estrategicamente distribuídos pode contribuir para reduzir deslocamentos e ampliar a capacidade de permanência das equipes em áreas afastadas.
O próprio Plano Amas contempla investimentos destinados ao aumento da capacidade operacional e da presença territorial das forças de segurança na Amazônia Legal. O projeto possui valor superior a R$ 318 milhões e inclui ações destinadas às forças policiais dos nove estados amazônicos, entre elas o aprimoramento da mobilidade em áreas de rios navegáveis (FUNDO AMAZÔNIA, 2024).
Dessa forma, os achados demonstram que a logística não constitui função meramente auxiliar. No contexto analisado, ela representa condição para a execução do policiamento. A estratégia operacional somente pode ser materializada quando existem recursos adequados para alcançar o território no qual a ação foi planejada.
Distribuição dos recursos e capacidade de resposta
A terceira dimensão corresponde à relação entre distribuição territorial dos recursos e capacidade de resposta. O policiamento ostensivo precisa conciliar duas necessidades permanentes: manter presença preventiva e preservar capacidade para atender ocorrências emergenciais. A dificuldade aumenta quando as equipes precisam cobrir territórios extensos.
Dewinter et al. (2024), em estudo publicado no periódico Networks, analisaram estratégias de patrulhamento policial por meio de otimização e simulação e verificaram que mudanças na organização das patrulhas podem contribuir para redução dos tempos de resposta. O estudo demonstra que a localização e o reposicionamento das equipes constituem variáveis relevantes para a eficiência operacional.
Aplicado à realidade de Santarém, esse resultado permite compreender que a simples ampliação do número de viaturas ou equipes não resolve isoladamente os desafios de cobertura. Os recursos precisam estar distribuídos de maneira compatível com as demandas e com os tempos necessários para alcançar diferentes setores.
Essa análise possui implicação importante para o planejamento. Uma equipe deslocada para uma ocorrência distante deixa temporariamente de integrar a capacidade de resposta imediata da área na qual estava posicionada. Quanto maior o tempo total de deslocamento e atendimento, maior tende a ser esse impacto. Por essa razão, ocorrências em localidades afastadas podem produzir repercussões operacionais que ultrapassam o atendimento individual.
A adoção de critérios que combinem concentração de ocorrências, população atendida, distância e acessibilidade apresenta-se, portanto, mais adequada do que uma distribuição baseada em uma única variável. O planejamento pode considerar áreas de maior incidência criminal sem desconsiderar localidades cuja dificuldade de acesso exija capacidade logística diferenciada.
Também se evidencia a importância de preservar a flexibilidade. O posicionamento das equipes não deve ser completamente estático, pois demandas temporárias podem alterar significativamente as necessidades. Eventos turísticos, festividades e operações especiais constituem exemplos de situações que exigem redistribuição temporária de recursos.
Informação e possibilidades de aprimoramento do planejamento
A quarta dimensão identificada refere-se à utilização das informações como instrumento de integração entre território, logística e planejamento. Pytlowanciv e Silva (2024) demonstram que práticas de inteligência organizacional podem contribuir para o planejamento e a execução do policiamento ostensivo, especialmente por meio da produção, compartilhamento e utilização do conhecimento no processo decisório.
Para Santarém, essa perspectiva sugere que informações criminais podem ser associadas a dados territoriais e logísticos. Localização das ocorrências, horários de maior demanda, condições de acesso, posição das equipes e disponibilidade dos meios representam informações que, analisadas conjuntamente, podem fornecer quadro mais completo da capacidade operacional.
A principal contribuição dessa integração consiste em permitir que o planejamento seja continuamente atualizado. Em vez de estabelecer uma distribuição rígida baseada apenas em dados históricos, torna-se possível avaliar alterações nas demandas e reorganizar os recursos de acordo com as condições identificadas.
A utilização de ferramentas de georreferenciamento apresenta potencial especialmente relevante. A representação espacial das ocorrências pode auxiliar na identificação de áreas de concentração e, quando associada às informações de acessibilidade e localização dos recursos, favorecer decisões sobre posicionamento das equipes e modalidades de patrulhamento. Entretanto, o emprego dessas tecnologias deve permanecer associado ao conhecimento produzido pelos policiais que atuam diretamente no território.
A análise também aponta para a importância da integração institucional. O Plano Amas estabelece como um de seus pilares a cooperação e integração entre órgãos de segurança pública atuantes na Amazônia Legal (BRASIL, 2023). Embora o plano possua forte direcionamento ao enfrentamento dos crimes ambientais e conexos, a lógica de integração, mobilidade e fortalecimento da capacidade operacional oferece referências relevantes para a gestão da segurança em territórios amazônicos.
A partir dos resultados analisados, podem ser identificadas algumas possibilidades de aprimoramento aplicáveis ao planejamento da Polícia Militar do Pará em Santarém: utilização integrada de informações criminais e geográficas; consideração dos tempos reais de deslocamento na definição das áreas de cobertura; acompanhamento da disponibilidade operacional dos meios; adequação das modalidades de transporte às características territoriais; fortalecimento da comunicação entre equipes operacionais e setores responsáveis pelo planejamento; e avaliação periódica da distribuição territorial dos recursos.
Essas medidas não pressupõem necessariamente ampliação permanente do efetivo ou aquisição indiscriminada de equipamentos. Parte dos ganhos operacionais pode decorrer da utilização mais racional dos recursos existentes. Dewinter et al. (2024) demonstram justamente que estratégias de posicionamento e organização do patrulhamento podem influenciar os tempos de resposta, indicando que decisões de gestão também constituem componente relevante da capacidade operacional.
Ao mesmo tempo, a realidade amazônica impõe limites à aplicação direta de modelos desenvolvidos para ambientes urbanos compactos. A diversidade de acessos, a presença dos rios e as grandes distâncias exigem adaptação das estratégias às características locais. O objetivo não deve ser reproduzir um modelo externo, mas utilizar evidências científicas e informações territoriais para aperfeiçoar decisões compatíveis com a realidade operacional de Santarém.
Os resultados permitem, portanto, responder ao problema de pesquisa ao indicar que os fatores geográficos e logísticos influenciam o planejamento do policiamento ostensivo principalmente por condicionarem a mobilidade, o posicionamento das equipes, os tempos de deslocamento, a disponibilidade dos recursos e a capacidade de manutenção da cobertura territorial. Em municípios amazônicos extensos, território e logística não constituem elementos periféricos do planejamento, mas variáveis que interferem diretamente na viabilidade das estratégias policiais.
No caso de Santarém, a combinação entre grande extensão territorial, diferentes formas de acesso e distribuição heterogênea da população exige planejamento capaz de integrar informação, mobilidade e disponibilidade operacional. A incorporação sistemática dessas variáveis pode favorecer decisões mais ajustadas às condições locais e contribuir para o emprego mais racional dos recursos da Polícia Militar do Pará.
CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar a influência dos fatores geográficos e logísticos sobre o planejamento do policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial, tomando como referência a realidade operacional de Santarém-PA. A análise realizada permitiu compreender que as características do território não constituem apenas o espaço físico no qual a atividade policial é desenvolvida, mas representam variáveis capazes de interferir diretamente na mobilidade, na distribuição dos recursos, no tempo de deslocamento e na capacidade de manutenção da cobertura policial.
Em relação ao problema de pesquisa, conclui-se que os fatores geográficos e logísticos influenciam o planejamento do policiamento ostensivo principalmente porque condicionam as possibilidades concretas de emprego das equipes e dos meios disponíveis. Em municípios territorialmente extensos, a distância entre as unidades policiais e os locais de atendimento precisa ser analisada juntamente com as condições de acesso, as modalidades de transporte disponíveis, a distribuição populacional e o tempo necessário para mobilização dos recursos. Dessa forma, a extensão territorial, isoladamente, não é suficiente para representar a complexidade operacional.
No caso de Santarém, a coexistência de áreas urbanas, rurais e ribeirinhas evidencia a necessidade de estratégias adaptadas às diferentes características territoriais. A existência de localidades acessíveis predominantemente por vias terrestres e de outras cuja dinâmica de circulação possui forte relação com os rios demonstra que uma modalidade uniforme de policiamento pode apresentar limitações. O planejamento precisa considerar quais meios apresentam maior adequação a cada missão e quais condições de mobilidade estarão disponíveis para sua execução.
Quanto aos fatores logísticos, verificou-se que a capacidade operacional não depende somente da existência quantitativa de recursos. Viaturas, embarcações, equipamentos e
sistemas de comunicação precisam estar disponíveis, adequadamente posicionados e em condições efetivas de utilização. Manutenção, abastecimento, comunicação, estruturas de apoio e disponibilidade de profissionais capacitados integram, portanto, a capacidade logística e devem ser considerados na elaboração das estratégias de policiamento.
A análise também demonstrou que a distribuição territorial das equipes apresenta relação direta com a capacidade de resposta. O deslocamento prolongado de uma equipe para determinada ocorrência pode reduzir temporariamente a cobertura de outros setores, especialmente quando existem grandes distâncias ou dificuldades de acesso. Nesse sentido, o posicionamento dos recursos precisa considerar simultaneamente concentração das demandas, distribuição populacional, acessibilidade e tempos de deslocamento, evitando que uma única variável seja utilizada isoladamente como critério de decisão.
Outro resultado relevante corresponde à importância das informações no planejamento. A integração entre registros de ocorrências, dados geográficos, condições de acesso, localização das equipes e disponibilidade dos meios pode oferecer uma compreensão mais abrangente da realidade operacional. O uso de georreferenciamento e de sistemas de informação, associado ao conhecimento acumulado pelos policiais que atuam diretamente no território, apresenta potencial para subsidiar decisões mais ajustadas às particularidades locais.
Diante desses achados, considera-se que o aprimoramento do planejamento do policiamento ostensivo em Santarém pode envolver a utilização integrada de informações criminais, geográficas e logísticas; a consideração dos tempos reais de deslocamento na definição das áreas de cobertura; o acompanhamento permanente da disponibilidade operacional dos meios; a adequação das modalidades de transporte às condições territoriais; e o fortalecimento do fluxo de informações entre as equipes operacionais e os setores responsáveis pelo planejamento.
Essas medidas não significam necessariamente a adoção de um modelo único ou a ampliação indiscriminada dos recursos. A diversidade territorial amazônica exige soluções adaptáveis às condições de cada área. Nesse sentido, o uso mais racional dos meios existentes, associado ao planejamento baseado em informações atualizadas, pode contribuir para ampliar a eficiência operacional e orientar de maneira mais adequada futuros investimentos em efetivo, mobilidade, comunicação e estruturas de apoio.
Para a Polícia Militar do Pará, o estudo reforça a importância de incorporar sistematicamente variáveis territoriais e logísticas ao processo de planejamento operacional, sobretudo nas unidades responsáveis por municípios de elevada extensão territorial. A experiência de Santarém demonstra que decisões relacionadas à distribuição do policiamento precisam considerar não apenas onde se concentram as demandas, mas também quanto tempo e quais recursos são necessários para alcançar e permanecer nas diferentes áreas sob responsabilidade policial.
Como limitação, destaca-se o caráter bibliográfico e documental da pesquisa. Não foram realizadas entrevistas com policiais, observação direta das operações nem análise de dados internos sobre localização das equipes, tempos efetivos de resposta, disponibilidade diária de viaturas e embarcações ou custos operacionais. Dessa forma, os resultados representam uma análise das evidências científicas e documentais disponíveis e não uma avaliação quantitativa do desempenho operacional das unidades policiais de Santarém.
Essa limitação também indica possibilidades para pesquisas futuras. Recomenda-se a realização de estudos empíricos que relacionem registros georreferenciados de ocorrências, localização das unidades e equipes, tempos reais de deslocamento, condições sazonais de acesso e disponibilidade operacional dos meios. A utilização conjunta dessas informações poderá permitir a elaboração de diagnósticos territoriais mais precisos e a avaliação de diferentes cenários de distribuição dos recursos.
Conclui-se, portanto, que geografia, logística e planejamento operacional constituem dimensões indissociáveis para o policiamento ostensivo em municípios amazônicos de grande extensão territorial. Em Santarém, reconhecer as particularidades dos diferentes espaços e incorporá-las sistematicamente ao processo decisório pode contribuir para uma distribuição mais racional dos recursos, para o fortalecimento da capacidade de resposta e para o aperfeiçoamento da presença preventiva da Polícia Militar do Pará.
REFERÊNCIAS
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