Burnout e qualidade de vida na enfermagem oncológica: desafios para a saúde do trabalhador e para a assistência humanizada
Burnout and quality of life in oncology nursing: challenges for occupational health and humanized care
Josefa Maria Oliveira Xavier[1]
Neidejane Trajano do Nascimento[2]
Rosilene Vila Nova Feliciano[3]
Aurinéa Santos da Rocha[4]
Avanize Maria Gomes[5]
Solange Matilde Cordeiro de Souza[6]
Wedja da Silva Lima[7]
RESUMO
A enfermagem oncológica caracteriza-se pela elevada complexidade técnica e emocional, envolvendo cuidados especializados, acompanhamento contínuo e contato frequente com situações de sofrimento, dor, incerteza terapêutica e terminalidade. Essas características podem favorecer o desenvolvimento da Síndrome de Burnout e repercutir negativamente na qualidade de vida dos profissionais. O objetivo deste estudo foi analisar as evidências científicas disponíveis sobre Burnout e qualidade de vida de profissionais de enfermagem atuantes em serviços de oncologia. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada por meio da busca e análise de estudos científicos nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS, BDENF e SciELO. Foram utilizados termos relacionados à Síndrome de Burnout, enfermagem oncológica, qualidade de vida, saúde do trabalhador e estresse ocupacional. Os estudos analisados evidenciam que a sobrecarga de trabalho, a exposição contínua ao sofrimento dos pacientes, as demandas emocionais, a elevada responsabilidade assistencial e as fragilidades organizacionais estão associadas à maior vulnerabilidade ao Burnout. A exaustão emocional destaca-se entre as dimensões mais comprometidas. Também foram identificados impactos relacionados à satisfação profissional, ao bem-estar dos trabalhadores e à qualidade e segurança da assistência. Conclui-se que a prevenção do Burnout na enfermagem oncológica requer ações institucionais permanentes, com promoção da saúde mental, fortalecimento das equipes, melhoria das condições de trabalho, educação permanente e valorização profissional.
Palavras-chave: Burnout; Enfermagem Oncológica; Qualidade de Vida; Saúde do Trabalhador; Estresse Ocupacional; Ciências da Saúde.
ABSTRACT
Oncology nursing is characterized by high technical and emotional complexity, involving specialized care, continuous monitoring, and frequent exposure to suffering, pain, therapeutic uncertainty, and end-of-life situations. These characteristics may contribute to the development of Burnout Syndrome and negatively affect professionals' quality of life. This study aimed to analyze the available scientific evidence on Burnout and quality of life among nursing professionals working in oncology services. This is an integrative literature review conducted through the search and analysis of scientific studies in PubMed/MEDLINE, Virtual Health Library (VHL), LILACS, BDENF, and SciELO. Terms related to Burnout Syndrome, oncology nursing, quality of life, occupational health, and occupational stress were used. The analyzed studies indicate that work overload, continuous exposure to patient suffering, emotional demands, high professional responsibility, and organizational weaknesses are associated with greater vulnerability to Burnout. Emotional exhaustion was one of the most affected dimensions. Impacts on professional satisfaction, workers' well-being, and the quality and safety of care were also identified. It is concluded that preventing Burnout in oncology nursing requires permanent institutional actions focused on mental health promotion, team strengthening, improved working conditions, continuing education, and professional appreciation.
Keywords: Burnout; Oncology Nursing; Quality of Life; Occupational Health; Occupational Stress; Health Sciences.
1 INTRODUÇÃO
O câncer constitui importante desafio para os sistemas de saúde, demandando assistência especializada, contínua e multiprofissional. Nesse contexto, a enfermagem desempenha papel fundamental no acompanhamento dos pacientes em diferentes fases do tratamento, desde o diagnóstico e terapias antineoplásicas até os cuidados paliativos. A assistência de enfermagem em oncologia envolve atividades de elevada responsabilidade, como administração de terapias antineoplásicas, monitoramento clínico, controle de sintomas, educação em saúde e suporte aos pacientes e familiares. A complexidade desse cuidado, associada à convivência frequente com sofrimento, dor, agravamento da doença e morte, pode gerar importante desgaste físico e psicológico nos profissionais.
A Síndrome de Burnout constitui fenômeno relacionado ao estresse crônico no ambiente de trabalho e caracteriza-se por dimensões como exaustão emocional, distanciamento ou despersonalização e redução da realização profissional. Na enfermagem, suas repercussões ultrapassam a dimensão individual, podendo comprometer a satisfação profissional, o bem-estar dos trabalhadores e a qualidade e segurança da assistência. Esse estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas disponíveis sobre Burnout e qualidade de vida de profissionais de enfermagem atuantes em serviços de oncologia
Nesse sentido, compreender os fatores relacionados ao Burnout na enfermagem oncológica é fundamental para subsidiar estratégias institucionais de proteção à saúde dos trabalhadores e qualificação dos serviços de saúde.
2 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita reunir, analisar e sintetizar conhecimentos científicos produzidos sobre determinada temática, permitindo uma compreensão ampliada do fenômeno investigado. A revisão foi organizada considerando as etapas de identificação do problema, busca na literatura, avaliação dos estudos, análise dos dados e apresentação dos resultados. A questão norteadora foi elaborada com base na estratégia PICo e definida da seguinte forma: Quais são as evidências científicas disponíveis sobre Burnout e qualidade de vida dos profissionais de enfermagem que atuam em serviços de oncologia?
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS, BDENF e SciELO. Foram empregados descritores e termos livres relacionados a Burnout, Síndrome de Burnout, Enfermagem Oncológica, Enfermeiros, Qualidade de Vida, Saúde do Trabalhador e Estresse Ocupacional, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.
Foram considerados elegíveis estudos publicados em português, inglês ou espanhol, disponíveis integralmente, realizados com profissionais de enfermagem, desenvolvidos em serviços relacionados à assistência oncológica e que abordassem Burnout, qualidade de vida profissional ou sofrimento ocupacional. Foram excluídos estudos duplicados, editoriais, cartas ao editor, revisões sem dados originais e pesquisas sem participação de profissionais de enfermagem.
A seleção e análise dos estudos foram realizadas de acordo com os critérios definidos para a revisão. Como os registros quantitativos da busca bibliográfica original não foram preservados, não foram atribuídos números posteriormente à identificação, triagem ou exclusão dos estudos. Dessa forma, optou-se por não apresentar um fluxograma PRISMA preenchido com dados estimados, preservando a fidedignidade metodológica do estudo. Os dados foram analisados de forma descritiva e organizados segundo os principais aspectos relacionados à ocorrência do Burnout, fatores estressores, qualidade de vida e estratégias de enfrentamento na enfermagem oncológica.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Burnout e vulnerabilidade na enfermagem oncológica
Os estudos analisados demonstram que profissionais de enfermagem atuantes na oncologia apresentam vulnerabilidade ao Burnout em razão da combinação de fatores emocionais, assistenciais e organizacionais. A natureza do trabalho exige contato contínuo com pacientes em condições clínicas complexas, tratamentos prolongados e situações de sofrimento e terminalidade. A exaustão emocional aparece como importante manifestação do desgaste profissional, refletindo o impacto da exposição contínua às demandas do cuidado. Condições organizacionais inadequadas, sobrecarga profissional, déficit de trabalhadores e baixa autonomia podem intensificar esse processo.
3.2 Estressores e qualidade de vida
Entre os principais fatores associados ao sofrimento ocupacional encontram-se o processo de morte e morrer, os conflitos interpessoais, as dificuldades de comunicação e as condições de trabalho. A exposição constante ao sofrimento dos pacientes pode produzir repercussões emocionais importantes, especialmente quando os profissionais não dispõem de preparo adequado para lidar com o luto e com situações de terminalidade. Nesse contexto, a qualidade de vida profissional está diretamente relacionada às condições de trabalho e ao suporte oferecido pelas instituições. A ausência de estratégias institucionais de cuidado ao trabalhador pode favorecer a manutenção do estresse e ampliar os impactos sobre a saúde física e mental.
3.3 Estratégias de enfrentamento
Os estudos analisados indicam a utilização de diferentes estratégias de enfrentamento. Entre as estratégias consideradas mais adaptativas destacam-se a resolução de problemas e a reavaliação positiva. Entretanto, profissionais com maior exaustão emocional podem recorrer a mecanismos de fuga e esquiva, considerados menos efetivos para o enfrentamento do estresse.
A literatura também aponta diferenças relacionadas ao contexto de trabalho. Equipes inseridas em cuidados paliativos podem apresentar maior satisfação por compaixão e menor desligamento do trabalho quando comparadas a profissionais atuantes em determinados setores de emergência e terapia intensiva. Dessa forma, as estratégias individuais são importantes, mas não devem ser consideradas suficientes. A prevenção do Burnout demanda intervenções organizacionais capazes de modificar condições que contribuem para o sofrimento ocupacional. 3.4 Implicações para a assistência e para a saúde do trabalhador
O Burnout apresenta implicações que ultrapassam a saúde individual dos profissionais. O desgaste físico e emocional pode interferir na satisfação profissional, na relação com pacientes e colegas e na qualidade da assistência. Por isso, a saúde mental dos trabalhadores deve ser compreendida como componente da segurança e da qualidade dos serviços. A prevenção deve envolver dimensionamento adequado das equipes, fortalecimento das relações profissionais, apoio psicossocial, educação permanente, preparação para o manejo do luto, melhoria da comunicação e valorização profissional. Nesse sentido, instituições de saúde possuem papel fundamental na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, especialmente nos serviços de oncologia, nos quais os profissionais enfrentam demandas técnicas e emocionais particularmente intensas.
4 CONCLUSÃO
A Síndrome de Burnout constitui importante desafio para os profissionais de enfermagem que atuam na oncologia, considerando a complexidade técnica da assistência, a exposição frequente ao sofrimento e à terminalidade e a influência das condições organizacionais de trabalho. As evidências analisadas indicam que a exaustão emocional, os conflitos interpessoais, a sobrecarga profissional e a exposição contínua a situações de sofrimento estão entre os fatores relacionados ao desgaste ocupacional. As repercussões podem atingir tanto a qualidade de vida dos trabalhadores quanto a qualidade e a segurança da assistência prestada.
O enfrentamento desse problema requer ações permanentes e articuladas, que ultrapassem estratégias exclusivamente individuais. Recomenda-se o fortalecimento das equipes, a melhoria das condições laborais, a promoção da saúde mental, o apoio psicossocial, a educação permanente, o preparo para o manejo do luto e a valorização dos profissionais de enfermagem. Cuidar da saúde dos profissionais responsáveis pelo cuidado constitui estratégia fundamental para a construção de uma assistência oncológica segura, humanizada e qualificada.
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