Atuação da terapia ocupacional no desenvolvimento das atividades de vida diária em crianças com transtorno do espectro autista
ISSN 1678-0817 Qualis/DOI Revista Científica de Alto Impacto.
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Atuação da terapia ocupacional no desenvolvimento das atividades de vida diária em crianças com transtorno do espectro autista

Occupational therapy in the development of activities of daily living in children with autism spectrum disorder

Peterson Pereira de Carvalho

RESUMO

Objetivo: Analisar a atuação da Terapia Ocupacional no desenvolvimento das Atividades de Vida Diária (AVDs) em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), identificando as principais intervenções utilizadas e seus impactos na autonomia, independência funcional e participação ocupacional. Método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada por meio de artigos científicos publicados entre 2020 e 2026, selecionados nas bases SciELO, LILACS, PubMed e PEDro. Foram utilizados descritores relacionados à Terapia Ocupacional, Transtorno do Espectro Autista e Atividades de Vida Diária, considerando critérios de inclusão e exclusão previamente definidos. Resultados: Os estudos analisados demonstraram que a Terapia Ocupacional favorece significativamente o desempenho das AVDs em crianças com TEA, especialmente nas atividades de alimentação, higiene, vestir-se, uso do banheiro e organização da rotina. As intervenções baseadas em integração sensorial, treinamento de habilidades, adaptação do ambiente, uso de recursos visuais, orientação aos familiares e práticas centradas na ocupação apresentaram resultados positivos na independência funcional e na participação social. Conclusão: A Terapia Ocupacional desempenha papel essencial na promoção da autonomia e da funcionalidade de crianças com TEA, contribuindo para o desenvolvimento das AVDs e para a melhoria da qualidade de vida da criança e de sua família. A ampliação de pesquisas com delineamentos metodológicos robustos poderá fortalecer as evidências científicas sobre a efetividade das intervenções terapêutico-ocupacionais.

Palavras-chaves: Terapia Ocupacional; Transtorno do Espectro Autista; Atividades de Vida Diária.

ABSTRACT
Objective:
To analyze the role of Occupational Therapy in the development of Activities of Daily Living (ADLs) in children with Autism Spectrum Disorder (ASD), identifying the main interventions used and their impacts on autonomy, functional independence, and occupational participation. Method: This is an integrative literature review with a qualitative and descriptive approach, conducted through scientific articles published between 2020 and 2026, selected from the SciELO, LILACS, PubMed, and PEDro databases. Descriptors related to Occupational Therapy, Autism Spectrum Disorder, and Activities of Daily Living were used, considering previously defined inclusion and exclusion criteria. Results: The analyzed studies demonstrated that Occupational Therapy significantly favors ADL performance in children with ASD, especially in feeding, hygiene, dressing, toileting, and routine organization. Interventions based on sensory integration, skills training, environmental adaptation, the use of visual supports, family guidance, and occupation-centered practices showed positive outcomes in functional independence and social participation. Conclusion: Occupational Therapy plays an essential role in promoting autonomy and functionality in children with ASD, contributing to the development of ADLs and improving the quality of life of both the child and their family. Expanding research with robust methodological designs will further strengthen scientific evidence regarding the effectiveness of occupational therapy interventions.


Keywords: Occupational Therapy; Autism Spectrum Disorder; Activities of Daily Livin.

INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição complexa do neurodesenvolvimento de manifestação precoce, caracterizada por déficits persistentes na comunicação social e na interação, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e atividades. A prevalência do transtorno tem apresentado um crescimento exponencial, com dados epidemiológicos recentes indicando que cerca de 1 em cada 36 crianças é diagnosticada no espectro, o que amplia significativamente a demanda por suporte especializado, intervenções precoces e políticas públicas voltadas à inclusão.

Essa condição impacta de forma direta e profunda o desempenho ocupacional da criança, estimando-se que mais de 50% das crianças com TEA enfrentem dificuldades significativas para realizar Atividades de Vida Diária (AVD) de forma independente. As barreiras para o alcance da autonomia estão frequentemente atreladas a desafios na integração sensório-motora, à hiper-reatividade ou hiporreatividade sensorial e a disfunções nas funções executivas. Esses fatores comprometem a execução de rotinas fundamentais, como alimentar-se, vestir-se, banhar-se e realizar a higiene pessoal. Ademais, evidências científicas destacam que atrasos no desenvolvimento motor — tanto amplo quanto fino — atuar como preditores consistentes de baixa independência em AVDs, limitando a funcionalidade global e a participação do indivíduo em seu contexto.

As AVDs constituem ações direcionadas ao cuidado e à manutenção do próprio corpo, configurando-se como marcos cruciais do desenvolvimento infantil. Mais do que garantir a sobrevivência e os cuidados físicos básicos, a independência nessas tarefas estimula o bem-estar emocional, fortalece a autoestima e auxilia na formação da identidade da criança. Em contrapartida, a dependência excessiva nessas rotinas gera expressiva sobrecarga física e estresse em pais e cuidadores, além de restringir a participação da criança em contextos sociais e escolares. Nesse sentido, o desenvolvimento de habilidades de autocuidado passa a ser uma prioridade central para as famílias e para as equipes interdisciplinares.

Diante desse cenário, a Terapia Ocupacional (TO) assume um papel de protagonismo e indispensabilidade, tendo como foco primordial promover o engajamento e a independência nas ocupações diárias. O terapeuta ocupacional é o profissional capacitado para avaliar minuciosamente e treinar as AVDs, estruturando planos terapêuticos personalizados que contemplem tanto as capacidades intrínsecas do sujeito quanto os facilitadores e barreiras presentes no ambiente. A práxis da Terapia Ocupacional busca transcender o restabelecimento de componentes motores isolados, almejando a autonomia real por meio do ensino de novas estratégias, do treino funcional e da modificação do meio físico e social.

Diversas abordagens e recursos baseados em evidências têm demonstrado alta eficácia na reabilitação e no ganho funcional. A Integração Sensorial de Ayres (OT/SI) é amplamente reconhecida por atuar nas bases neurosensoriais do indivíduo, resultando na redução da necessidade de assistência dos cuidadores em tarefas diárias. Adicionalmente, estratégias como a vídeo-modelagem, o encadeamento de tarefas (chaining) e o treinamento de pais (coaching) potencializam a aprendizagem e viabilizam a generalização das competências adquiridas para o ambiente natural da criança. O uso emergente de tecnologias assistivas, como jogos digitais em tablets e robótica, soma-se a esse arcabouço como ferramenta facilitadora de transições e elemento motivacional para a aquisição de rotinas complexas.

Considerando a complexidade do desenvolvimento funcional no autismo, emerge a seguinte questão norteadora: De que maneira as intervenções da Terapia Ocupacional e o uso de estratégias terapêuticas baseadas em evidências contribuem para o desenvolvimento da autonomia e independência nas Atividades de Vida Diária em crianças com Transtorno do Espectro Autista?

Objetivo Geral: Analisar a atuação da Terapia Ocupacional no desenvolvimento das Atividades de Vida Diária em crianças com Transtorno do Espectro Autista, identificando as principais abordagens terapêuticas baseadas em evidências e discutindo a inter-relação entre o desempenho motor, o processamento sensorial e o ganho de autonomia funcional nessas ocupações.

Objetivos Específicos: Mapear as principais dificuldades sensório-motoras, perceptivas e executivas que impactam o desempenho das AVDs em crianças no espectro autista; Investigar a eficácia de abordagens científicas da Terapia Ocupacional (como a Integração Sensorial de Ayres, vídeo-modelagem, chaining e coaching parental) na promoção do autocuidado e na redução da dependência dos cuidadores; Discutir a contribuição das adaptações ambientais e das tecnologias assistivas como facilitadoras da generalização da independência para o contexto doméstico e escolar.

Justificativa: A justificativa para este estudo fundamenta-se na expressiva e crescente prevalência do TEA e no fato de que os déficits de independência nas tarefas de autocuidado acometem a maioria das crianças no espectro, impactando severamente sua participação social e seu rendimento escolar. Visto que os atrasos no desenvolvimento motor e as reatividades sensoriais atípicas são fatores determinantes no prejuízo de atividades essenciais, a sistematização do conhecimento acerca das intervenções de Terapia Ocupacional torna-se imperativa para guiar a prática clínica e atenuar a sobrecarga dos cuidadores. A relevância desta pesquisa reside, portanto, em evidenciar condutas e estratégias eficazes que alinhem as capacidades da criança às demandas do ambiente, consolidando a Terapia Ocupacional como um pilar indispensável na intervenção precoce, no desenvolvimento humano e na inclusão efetiva de indivíduos com autismo.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida com o objetivo de reunir e sintetizar evidências científicas sobre a atuação da Terapia Ocupacional no desenvolvimento das AVDs em crianças com TEA.

A revisão integrativa permite reunir estudos com diferentes delineamentos metodológicos, favorecendo uma compreensão ampla do fenômeno investigado. O processo foi conduzido em seis etapas: definição da questão norteadora; estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; busca nas bases de dados; seleção dos estudos; extração e organização das informações; análise e síntese dos resultados.

A busca foi realizada nas bases SciELO, LILACS, PubMed e PEDro, utilizando os descritores: Terapia Ocupacional, Transtorno do Espectro Autista, Atividades de Vida Diária, Occupational Therapy, Autism Spectrum Disorder e Activities of Daily Living, combinados pelos operadores booleanos AND e OR.

Foram incluídos artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, que abordassem intervenções da Terapia Ocupacional voltadas ao desenvolvimento das AVDs em crianças com TEA. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, dissertações, teses, estudos duplicados, revisões narrativas e pesquisas que não apresentassem relação direta com o tema.

Como se trata de uma pesquisa baseada exclusivamente em dados secundários de acesso público, não houve participação de seres humanos, sendo dispensada a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa foi conduzida de acordo com os princípios éticos da integridade científica e da correta atribuição das fontes consultadas.

RESULTADOS:

Tabela 1 – Síntese dos artigos analisados sobre a atuação da Terapia Ocupacional no desenvolvimento das AVDs em crianças com TEA

DISCUSSÃO

A análise e interpretação dos achados científicos reunidos evidenciam que a conquista da independência em Atividades de Vida Diária (AVDs) e Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs) por crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) não se desenvolve de maneira isolada, mas resulta da intrincada relação entre componentes neuromotores, processamento sensorial, estratégias de ensino especializadas, inovações tecnológicas e o suporte contextual fornecido pela família e pelo ambiente. A estreita relação entre o comprometimento neuromotor e a dependência funcional nas AVDs é um fenômeno central na literatura. Em pesquisa de campo transversal com 20 cuidadores de crianças com TEA (divididas entre 0–6 e 7–12 anos), Gondeq e Almohalha (2023) identificaram uma relação direta entre o desempenho motor e a independência nas AVDs, evidenciando que atrasos nas habilidades motoras impactam negativamente as rotinas de comer e vestir. Essa premissa é ratificada pelos achados de Travers et al. (2022), que, ao avaliarem 101 crianças com e sem TEA, demonstraram que as habilidades motoras atuam como preditores consistentes de independência em múltiplos domínios funcionais, incluindo o vestir, o banho, a preparação de refeições e noções de segurança.

No âmbito das habilidades motoras finas e práxias, a coordenação para o autocuidado exige uma forte integração perceptiva. Chi e Lin (2021) observaram que a capacidade de percepção visual está significativamente relacionada ao desempenho no autocuidado em crianças pequenas com TEA. Essa demanda por planejamento motor complexo torna certas rotinas especialmente desafiadoras, como corroborado pela revisão sistemática de Silva e Alves (2026), composta por 13 estudos, a qual destaca a atividade de vestir e despir como um dos maiores gargalos funcionais, indicando que estratégias como a prática repetitiva, a fragmentação da tarefa e o uso de tecnologias assistivas são as mais eficazes para promover a autonomia nessa ocupação. Paralelamente aos fatores motores, o processamento sensorial configura-se como um determinante crítico da funcionalidade. No estudo descritivo e comparativo de Katz Zetler et al. (2023), realizado com 79 crianças (39 com TEA e 40 com desenvolvimento típico) por meio do instrumento Do-Eat, constatou-se que crianças com TEA apresentam dificuldades significativas em AIVDs, sendo a comunicação social e a hiper-reatividade sensorial os principais preditores de desempenho.

Essa relação entre reatividade sensorial e prejuízo ocupacional é reforçada por Yela-González et al. (2021), que, ao utilizarem os instrumentos PEDI, ToP e SPM em 40 crianças (20 com TEA e 20 com desenvolvimento típico), concluíram que a reatividade sensorial se correlaciona negativamente tanto com o nível de independência nas AVDs quanto com o brincar (playfulness). Para mensurar esse impacto com precisão nas rotinas diárias, Levy-Dayan et al. (2023) validaram ferramenta de observação estruturada Do-Eat Washy — focada na tarefa de lavar as mãos — em 53 crianças, demonstrando que o instrumento é confiável, válido e sensível para discriminar diferentes níveis de severidade no autismo. Diante dessas limitações, os dados da literatura confirmam a superioridade de programas de Terapia Ocupacional (TO) estruturados em relação a orientações passivas. Na revisão sistemática de Ghannam e Alsaykhan (2025), que reuniu 6 estudos abrangendo 97 crianças de 2 a 10 anos, a TO — incorporando abordagens lúdicas, Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e integração sensorial — provou sua eficácia na melhora do funcionamento diário, nas habilidades de autocuidado (higiene e vestir) e na interação social.

De forma complementar, Antonova e Hindina (2024) demonstraram que um programa de reabilitação integrada combinando TO e Fisioterapia (com duração de 6 meses e frequência de 3 vezes por semana) em 20 meninos com TEA (3 a 7 anos) gerou pontuações significativamente superiores em autocuidado e funcionalidade social no grupo principal quando comparado ao grupo que recebeu apenas recomendações. Além disso, o estudo quase-experimental de Badejo e Sanni (2025), realizado com 10 crianças com TEA leve (3 a 11 anos), evidenciou que um programa de TO de 8 semanas focado em comunicação, habilidades motoras e autoajuda promoveu competências de AVD significativamente superiores no grupo experimental, confirmando a viabilidade da reabilitação mesmo em cenários de parcos recursos. No campo das metodologias pedagógicas e da tecnologia assistiva, a modulação de estímulos visuais e digitais amplia consideravelmente os resultados terapêuticos. A scoping review de Ismail et al. (2024), contendo 9 estudos com crianças menores de 14 anos, concluiu que as Intervenções Baseadas em Vídeo (VBI) — como vídeo modelação e automodelação — são altamente benéficas para o ensino de sequências de AVDs (lavar mãos, preparar lanches e vestir-se), especialmente quando potencializadas por reforçamento.

Na vanguarda tecnológica, Paengkumhag et al. (2025) conduziram um estudo piloto quase-experimental pré e pós-teste com 16 crianças (6 a 13 anos) utilizando um jogo de tablet baseado em lógica fuzzy durante 4 semanas; os resultados mostraram melhora estatisticamente significativa nos escores totais de AVD, com destaque para a alimentação no contexto da cantina escolar. Na área de robótica e dispositivos vestíveis, Beaudoin et al. (2021) aplicaram um design de reversão (ABA) com 2 crianças e demonstraram a viabilidade do uso do robô humanoide NAO e de pulseiras vibratórias hápticas durante sessões de TO, auxiliando na melhora dos tempos de transição e na redução de comportamentos negativos. A adequação dos ambientes escolares e terapêuticos também sobressai como um requisito essencial para o aprendizado funcional, conforme demonstrado por Bacaro e Mori (2020) em intervenção pedagógica com 5 crianças em fase de alfabetização, na qual a modulação e a redução da carga sensorial no ambiente escolar, somadas ao uso de recursos visuais (fichas silábicas), favoreceram diretamente o engajamento e a aprendizagem.

No âmbito das intervenções complementares, o estudo piloto longitudinal de Ávila-Álvarez et al. (2020) com 19 crianças (média de 46,2 meses) submetidas à intervenção precoce assistida por cães de terapia revelou melhorias significativas na comunicação, na interação social e no contato visual com o cão e o terapeuta, criando um ambiente facilitador para novas aprendizagens. Por fim, o suporte ao núcleo familiar é o pilar que consolida os ganhos de autonomia na rotina diária da criança. A revisão sistemática breve de Baker et al. (2023), baseada em 6 artigos, identificou evidência moderada para a eficácia do coaching de pais na alimentação, além de destacar que a Integração Sensorial (OT/SI) atua diretamente na redução da necessidade de assistência física prestada pelo cuidador nas tarefas de autocuidado. A síntese desses achados demonstra que a articulação entre intervenções precoces, tecnologias acessíveis, adaptação sensorial do meio e capacitação parental figura como o caminho mais efetivo para promover a independência funcional da criança com TEA e melhorar a qualidade de vida do núcleo familiar.

Inovações tecnológicas e abordagens baseadas em evidências têm surgido como facilitadores cruciais. Ismail et al. (2024) defendem o uso de Intervenções Baseadas em Vídeo (VBI), que utilizam modelagem visual para decompor tarefas complexas em etapas digeríveis, favorecendo a generalização de competências para contextos reais. Paralelamente, Paengkumhag et al. (2025) exploraram o potencial de jogos em tablets baseados em lógica nebulosa (fuzzy logic), que ajustam o nível de desafio em tempo real com base no desempenho individual, promovendo trajetórias de crescimento positivo mesmo em casos de severidade moderada.

O papel do terapeuta ocupacional é, portanto, multidimensional e essencial. Ghannam e Alsaykhan (2025) destacam que a TO, através de abordagens baseadas no brincar e na integração sensorial, é a intervenção padrão-ouro para melhorar o funcionamento diário e a participação social. Intervenções complementares, como a terapia assistida por animais, também demonstram benefícios significativos: Ávila-Álvarez et al. (2020) observaram que a presença de cães de terapia melhora a comunicação e reduz o estresse, criando um ambiente facilitador para o treino de novas rotinas.

Por fim, a literatura enfatiza o impacto da sobrecarga dos cuidadores. Bacaro e Mori (2020) e Baker et al. (2023) sublinham que a redução da carga sensorial e o treinamento parental focado em rotinas não apenas beneficiam a criança, mas são vitais para a saúde mental materna. A conclusão convergente entre os autores é que a intervenção precoce, a adaptação ambiental e o apoio multidisciplinar contínuo são os determinantes fundamentais para transformar o potencial motor residual das crianças com TEA em independência funcional efetiva, promovendo qualidade de vida para todo o núcleo familiar

CONCLUSÃO

A realização deste estudo permitiu compreender de forma aprofundada o papel determinante da Terapia Ocupacional no desenvolvimento e no ganho de autonomia nas Atividades de Vida Diária (AVDs) e Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs) em crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). A análise integrada da literatura evidenciou que a independência funcional não é um processo isolado, mas sim o resultado da complexa articulação entre a integridade dos componentes neuromotores, a regulação do processamento sensorial, a aplicação de metodologias terapêuticas baseadas em evidências, a incorporação de inovações tecnológicas e o suporte contextual e familiar.

Os achados demonstram que as limitações neuromotoras e as atipicidades de processamento sensorial constituem barreiras primárias centrais que impactam diretamente a execução de rotinas essenciais como vestir-se, banhar-se, alimentar-se e realizar a higiene pessoal. Em particular, a hiper-reatividade sensorial, as disfunções na integração visual-motora e os atrasos nas práxias e na coordenação motora atuam como preditores significativos de dependência funcional. Nesse cenário, intervenções especializadas de Terapia Ocupacional — tais como a Integração Sensorial de Ayres (OT/SI), o treino de tarefas fragmentadas (chaining), a prática repetitiva e a combinação com abordagens comportamentais e lúdicas — comprovam sua eficácia ao reduzir a necessidade de assistência física dos cuidadores e aprimorar as competências de autocuidado da criança.

Ademais, a incorporação de tecnologias assistivas e estratégias pedagógicas visuais — incluindo intervenções baseadas em vídeo (VBI), jogos em tablet com lógica adaptativa, robótica humanoide e dispositivos hápticos — revelou-se um facilitador promissor para o ensino de sequências de AVDs e para a redução de comportamentos desadaptativos durante momentos de transição entre rotinas. Do mesmo modo, recursos ambientais e abordagens complementares, como a intervenção assistida por cães de terapia e a modulação de estímulos sensoriais nos espaços escolares e domésticos, proporcionam um contexto seguro e motivador para a aprendizagem e engajamento ocupacional.

Por fim, o estudo ressalta a centralidade da família como pilar sustentador dos ganhos de autonomia. A implementação do coaching parental e a capacitação dos cuidadores mostram-se fundamentais para garantir que as habilidades desenvolvidas em contexto terapêutico sejam efetivamente generalizadas para o ambiente natural da criança, promovendo a sustentabilidade dos avanços e atenuando o estresse e a sobrecarga do núcleo familiar. Conclui-se, portanto, que a Terapia Ocupacional se consolida como uma disciplina indispensável na intervenção precoce do TEA, oferecendo um olhar holístico e centrado na pessoa que alinha as capacidades individuais às demandas do ambiente, viabilizando trajetórias de maior independência, inclusão e qualidade de vida para a criança e sua família.

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