RESUMO
Objetivo: Analisar as evidências científicas acerca da educação em saúde desenvolvida pela enfermagem na atenção às pessoas com Diabetes Mellitus, fundamentada na Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem. Método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e PubMed/MEDLINE. Foram incluídos artigos originais publicados entre 2016 e 2025, disponíveis gratuitamente em texto completo e relacionados às ações educativas desenvolvidas pela enfermagem para pessoas com Diabetes Mellitus. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados dez estudos para compor a amostra final. Resultados: As evidências demonstraram que as intervenções educativas conduzidas por enfermeiros promovem aumento do conhecimento sobre a doença, fortalecimento do autocuidado, melhora da adesão ao tratamento, desenvolvimento do letramento em saúde e melhor controle glicêmico. Destacaram-se como estratégias educativas eficazes as consultas de enfermagem, grupos operativos, atividades coletivas, visitas domiciliares e acompanhamento telefônico. Também foram identificados desafios relacionados à qualificação profissional e às limitações estruturais dos serviços de saúde. Conclusão: A educação em saúde realizada pela enfermagem constitui estratégia essencial para o desenvolvimento da autonomia e do autocuidado das pessoas com Diabetes Mellitus, contribuindo para a prevenção de complicações e melhoria da qualidade de vida. A Teoria de Orem mostrou-se adequada para fundamentar a prática educativa da enfermagem nesse contexto.
Palavras-chave: Diabetes Mellitus; Educação em Saúde; Enfermagem; Autocuidado; Atenção Primária à Saúde.
ABSTRACT
Objective: To analyze the scientific evidence regarding health education developed by nursing professionals in the care of people with Diabetes Mellitus, based on Dorothea Orem's Self-Care Deficit Theory. Method: This integrative literature review was conducted using the Virtual Health Library (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), and PubMed/MEDLINE databases. Original articles published between 2016 and 2025, available in full text and related to nursing educational interventions for people with Diabetes Mellitus, were included. After applying the inclusion and exclusion criteria, ten studies were selected for the final sample. Results: The findings demonstrated that educational interventions conducted by nurses contribute to increased knowledge about the disease, improved self-care practices, better treatment adherence, enhanced health literacy, and improved glycemic control. Nursing consultations, educational groups, collective activities, home visits, and telephone follow-up were identified as effective educational strategies. Challenges related to professional qualification and structural limitations of health services were also identified. Conclusion: Health education developed by nursing professionals is an essential strategy for promoting autonomy and selfcare among people with Diabetes Mellitus, contributing to the prevention of complications and improvement of quality of life. Orem's theory proved to be an appropriate theoretical framework to support nursing educational practices in this context.
Keywords: Diabetes Mellitus; Health Education; Nursing; Self-Care; Primary Health Care.
INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus (DM) constitui um dos principais problemas de saúde pública da atualidade, apresentando elevada prevalência mundial e significativo impacto na morbimortalidade da população. Trata-se de uma doença crônica caracterizada por alterações metabólicas que resultam em hiperglicemia persistente decorrente de defeitos na secreção e/ou ação da insulina. O crescimento do número de pessoas diagnosticadas com diabetes tem sido associado ao envelhecimento populacional, urbanização, sedentarismo, obesidade e hábitos alimentares inadequados, configurando um importante desafio para os sistemas de saúde.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o diabetes constitui uma das principais Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) da atualidade. Em 2022, aproximadamente 14% dos adultos em todo o mundo viviam com diabetes, percentual que representa o dobro da prevalência observada em 1990. Além disso, em 2021, a doença foi responsável diretamente por 1,6 milhão de mortes, evidenciando seu importante impacto sobre a morbimortalidade global.
No Brasil, a situação também é preocupante. Dados recentes indicam que cerca de 16,6 milhões de brasileiros convivem com diabetes, colocando o país na sexta posição mundial em número de casos. Observa-se ainda um crescimento expressivo da doença nas últimas décadas, com aumento da prevalência de 5,5% para 12,9% entre 2006 e 2024, representa uma das principais causas de internações hospitalares, amputações não traumáticas, insuficiência renal crônica, doenças cardiovasculares e redução da qualidade de vida. Diante desse cenário, torna-se indispensável o desenvolvimento de estratégias de prevenção, promoção da saúde e educação em saúde voltada para o autocuidado e para o manejo adequado da doença. A Atenção Primária à Saúde (APS) ocupa posição estratégica nesse processo, uma vez que constitui a principal porta de entrada do usuário no Sistema Único de Saúde (SUS) e possibilita o acompanhamento longitudinal das pessoas com condições crônicas.
Nesse contexto, a educação em saúde emerge como uma ferramenta fundamental para a promoção da autonomia dos indivíduos, possibilitando a aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para o controle da doença. As ações educativas contribuem para a compreensão dos fatores relacionados ao diabetes, favorecem a adesão ao tratamento medicamentoso e não medicamentoso, estimulam mudanças comportamentais e fortalecem a capacidade de tomada de decisão dos usuários frente às demandas do autocuidado.
A literatura científica demonstra que intervenções educativas realizadas por enfermeiros promovem melhorias significativas no conhecimento sobre a doença, no letramento em saúde, na adesão ao tratamento e no controle glicêmico. Estudos evidenciam que programas educativos desenvolvidos por meio de consultas de enfermagem, grupos operativos, atividades coletivas, visitas domiciliares e acompanhamento telefônico contribuem para a redução dos fatores de risco, prevenção de complicações e fortalecimento do autocuidado entre pessoas com diabetes.
O enfermeiro desempenha papel central nesse processo, sendo responsável pela realização da consulta de enfermagem, elaboração do plano de cuidados, monitoramento clínico, identificação de necessidades individuais e desenvolvimento de ações educativas voltadas para a promoção da saúde. Além disso, esse profissional atua como facilitador da aprendizagem, promovendo o empoderamento do usuário para que este participe ativamente do controle da doença e da prevenção de complicações.
Entretanto, apesar dos avanços observados nas políticas públicas e nas estratégias de cuidado voltadas às pessoas com Diabetes Mellitus, ainda são identificadas dificuldades relacionadas ao acesso à informação, à adesão ao tratamento, à continuidade do acompanhamento e à implementação sistemática de ações educativas. Muitos usuários apresentam limitações no conhecimento acerca da doença, dificuldades para compreender orientações terapêuticas e fragilidades no desenvolvimento de práticas de autocuidado, fatores que podem comprometer o controle metabólico e favorecer o surgimento de complicações crônicas.
Dessa forma, torna-se relevante investigar as evidências científicas disponíveis acerca da educação em saúde direcionada às pessoas com Diabetes Mellitus, especialmente no que se refere às intervenções conduzidas por profissionais de enfermagem e aos seus impactos sobre o conhecimento, autocuidado e qualidade de vida dos usuários.
A presente revisão integrativa foi conduzida a partir da seguinte questão norteadora:
"Quais são as evidências científicas acerca da educação em saúde realizada pela enfermagem na atenção aos pacientes com Diabetes Mellitus?"
- JUSTIFICATIVA
A escolha do tema fundamenta-se na crescente incidência do Diabetes Mellitus no Brasil e no mundo, bem como na necessidade de fortalecimento das ações educativas desenvolvidas pelos profissionais de enfermagem no âmbito da Atenção Primária à Saúde.
Considerando que o sucesso do tratamento do diabetes depende diretamente da participação ativa do usuário, torna-se imprescindível compreender como as estratégias educativas influenciam o conhecimento sobre a doença, o autocuidado, a adesão terapêutica e a prevenção de complicações.
Além disso, a revisão das evidências científicas poderá contribuir para a qualificação da prática profissional dos enfermeiros, subsidiando o planejamento de intervenções educativas mais efetivas e centradas nas necessidades dos usuários.
- REFERENCIAL TEÓRICO
5.1. Diabetes Mellitus como Problema de Saúde Pública
O Diabetes Mellitus é considerado uma das principais Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), representando importante desafio para os sistemas de saúde devido à sua elevada prevalência, impacto econômico e potencial para desencadear complicações incapacitantes. O controle inadequado da glicemia está associado ao desenvolvimento de retinopatia, nefropatia, neuropatia, doenças cardiovasculares e pé diabético, aumentando significativamente os custos assistenciais e comprometendo a qualidade de vida dos indivíduos.
Nesse contexto, a APS assume papel fundamental na coordenação do cuidado e no acompanhamento longitudinal das pessoas com diabetes, possibilitando a implementação de estratégias voltadas para prevenção, monitoramento e educação em saúde.
5.2. Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem
Para fundamentar a presente revisão integrativa, adotou-se a Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem.
Segundo Orem, o autocuidado consiste nas atividades realizadas pelos indivíduos para manter a vida, a saúde e o bem-estar. Quando a pessoa apresenta limitações para desempenhar essas atividades, surge o déficit de autocuidado, tornando necessária a intervenção da enfermagem.
A teoria destaca que a função do enfermeiro não se restringe à execução de procedimentos técnicos, mas inclui a educação, orientação, apoio e desenvolvimento da capacidade do indivíduo para assumir o controle de sua própria saúde.
No caso das pessoas com Diabetes Mellitus, o autocuidado envolve:
- Monitoramento glicêmico;
- Uso correto de medicamentos;
- Administração de insulina;
- Alimentação saudável;
- Prática de atividade física;
- Cuidados com os pés;
- Reconhecimento de sinais de complicações.
Assim, a educação em saúde constitui uma das principais estratégias utilizadas pela enfermagem para reduzir déficits de autocuidado e promover a autonomia dos indivíduos.
5.3. Educação em Saúde no Cuidado às Pessoas com Diabetes Mellitus
A educação em saúde é definida como um processo contínuo que visa desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes que favoreçam a promoção da saúde e a prevenção de doenças.
Diversos estudos demonstram que intervenções educativas realizadas por enfermeiros promovem aumento significativo do conhecimento sobre diabetes, melhoram o letramento em saúde e favorecem a autogestão da doença.
Além disso, programas educativos voltados ao autocuidado com os pés têm demonstrado resultados positivos na prevenção do pé diabético, reduzindo fatores de risco e fortalecendo comportamentos preventivos.
Intervenções relacionadas ao uso correto da insulina também apresentaram impacto significativo no conhecimento dos usuários e na execução adequada da insulinoterapia domiciliar.
6. METODOLOGIA
6.1. Tipo de Estudo
Trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura, método que possibilita reunir, analisar e sintetizar resultados de pesquisas sobre um determinado tema, contribuindo para a prática baseada em evidências na enfermagem e em saúde.
A revisão integrativa permite a inclusão de estudos com diferentes delineamentos metodológicos, favorecendo uma compreensão abrangente do fenômeno investigado e possibilitando identificar lacunas do conhecimento científico.
O estudo foi desenvolvido em seis etapas:
- Elaboração da questão norteadora;
- Definição dos critérios de inclusão e exclusão;
- Busca nas bases de dados;
- Seleção dos artigos;
- Extração e organização dos dados;
- Análise, síntese e apresentação dos resultados.
6.2. Questão Norteadora
A pesquisa foi conduzida a partir da seguinte questão norteadora:
"Quais são as evidências científicas disponíveis acerca da educação em saúde realizada pela enfermagem na atenção aos pacientes com Diabetes Mellitus?"
A construção da questão norteadora baseou-se na estratégia PICo:
Elemento | Descrição |
|---|---|
P (População) | Pacientes com Diabetes Mellitus |
I (Interesse) | Educação em Saúde |
Co (Contexto) | Assistência de Enfermagem |
6.3. Estratégia de Busca
A busca bibliográfica foi realizada nas seguintes bases de dados:
- Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); Scientific Electronic Library Online (SciELO); PubMed/MEDLINE.
Foram utilizados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH):
- Diabetes Mellitus;
- Educação em Saúde;
- Enfermagem;
- Saúde Pública.
Os descritores foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.
Estratégias utilizadas:
BVS: ("Diabetes Mellitus") AND ("Educação em Saúde") AND
("Enfermagem")
SciELO: Diabetes Mellitus AND Educação em Saúde AND Enfermagem
PubMed: ("Diabetes Mellitus"[Mesh]) AND ("Health Education"[Mesh]) AND ("Nursing"[Mesh])
6.4. Critérios de Inclusão
Foram incluídos estudos que atenderam aos seguintes critérios:
- Artigos originais;
- Disponíveis gratuitamente em texto completo;
- Publicados em português;
- Publicados entre 01 de janeiro de 2016 e 01 de janeiro de 2025;
- Estudos relacionados à educação em saúde desenvolvida pela enfermagem para pessoas com Diabetes Mellitus;
- Estudos encontrados nas bases BVS, SciELO e PubMed.
6.5. Critérios de Exclusão
Foram excluídos:
- Revisões de literatura;
- Editorial;
- Cartas ao editor;
- Resumos de eventos;
- Teses e dissertações;
- Estudos duplicados;
- Artigos que não respondiam à questão norteadora.
6.6. Processo de Seleção dos Estudos
Inicialmente foi realizada leitura dos títulos e resumos dos estudos identificados nas bases de dados.
Posteriormente procedeu-se à leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis.
Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão foram selecionados dez estudos para compor a amostra final desta revisão integrativa.
6.7. Fuxograma Prisma 2020
7. RESULTADOS
7.1. Caracterização dos Estudos Selecionados
Foram selecionados dez artigos científicos publicados entre 2017 e 2024, predominando estudos quantitativos, quase-experimentais, ensaios clínicos randomizados e pesquisas qualitativas.
A maioria das pesquisas foi desenvolvida na Atenção Primária à Saúde, evidenciando o protagonismo da enfermagem na educação em saúde para pessoas com Diabetes Mellitus.
Autor/Ano | Objetivo | Método | Principais Resultados | |
|---|---|---|---|---|
Silva et al., 2018 | Consulta enfermagem DM | de em | Relato de experiência | Qualificou o cuidado e fortaleceu o processo educativo. |
Moreira et al., 2020 | Autocuidado os pés | com | Ensaio clínico randomizado | Redução do risco de pé diabético. |
Paes et al., 2022 | Letramento saúde | em | Quase experimental | Aumento significativo do conhecimento sobre diabetes. |
Coêlho et al., 2018 | Formação educação diabetes | em em | Qualitativo | Necessidade de qualificação profissional. |
Reis et al., 2020 | Manejo de insulina | Antes e depois | Melhora significativa do conhecimento. | |
Figueira et al., 2017 | Adesão ao tratamento | Antes e depois | Melhor controle glicêmico. | |
Andrade et al., 2024 | Autocuidado com os pés | Qualitativo | Educação fortalece o autocuidado. | |
Teston et al., 2018 | Educação em saúde na APS | Qualitativo | Enfermeiros reconhecem impacto positivo das ações educativas. | |
Cunha et al., 2020 | Insulinoterapia | Transversal | Identificou falhas no manejo da insulina. | |
Draeger et al., 2022 | Monitoramento das DCNT | Estudo de caso | Educação em saúde aparece como prática central do enfermeiro. | |
7.2. Categorias Temáticas Emergentes
Após análise dos artigos selecionados, emergiram quatro categorias temáticas:
Categoria 1 – Educação em saúde como instrumento para o autocuidado
Categoria 2 – Consulta de enfermagem como estratégia educativa
Categoria 3 – Intervenções educativas e adesão ao tratamento
Categoria 4 – Desafios enfrentados pelos enfermeiros na educação em diabetes
8. DISCUSSÃO
A presente revisão integrativa teve como objetivo analisar as evidências científicas relacionadas à educação em saúde desenvolvida pela enfermagem na atenção aos pacientes com Diabetes Mellitus. A análise dos estudos selecionados evidenciou que as intervenções educativas realizadas por enfermeiros promovem benefícios significativos no conhecimento sobre a doença, no desenvolvimento do autocuidado, na adesão ao tratamento e no controle clínico dos usuários.
Os resultados encontrados reforçam a importância da educação em saúde como ferramenta estratégica para o enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis, especialmente o Diabetes Mellitus, cuja evolução e controle dependem diretamente da participação ativa do indivíduo em seu próprio cuidado. Nesse sentido, a Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem mostrou-se adequada para sustentar a discussão dos achados, uma vez que considera a capacidade do indivíduo de realizar ações voltadas à manutenção da vida, saúde e bem-estar.
Segundo Orem, quando a pessoa não possui conhecimentos, habilidades ou motivação suficientes para executar o autocuidado, torna-se necessária a atuação da enfermagem como sistema de apoio-educação. Esse conceito está diretamente relacionado ao cuidado prestado aos pacientes com Diabetes Mellitus, pois o sucesso terapêutico depende da compreensão da doença, da adesão às orientações recebidas e da adoção de comportamentos saudáveis.
8.1. Educação em Saúde como Ferramenta para o Desenvolvimento do Autocuidado
Os estudos analisados demonstraram que a educação em saúde constitui um dos principais instrumentos utilizados pela enfermagem para promover a autonomia e o autocuidado dos usuários com Diabetes Mellitus.
A pesquisa de Moreira et al. (2020) evidenciou que a utilização de grupos operativos para orientação sobre cuidados com os pés resultou em melhorias significativas nos comportamentos de autocuidado e redução dos fatores de risco para o desenvolvimento do pé diabético.
De maneira semelhante, Andrade et al. (2024) verificaram que os usuários reconhecem a educação em saúde como elemento essencial para a prevenção de complicações relacionadas ao pé diabético. Os participantes destacaram que os recursos audiovisuais facilitaram a compreensão das orientações e contribuíram para a adoção de práticas preventivas no cotidiano.
Esses resultados corroboram a teoria de Orem ao demonstrar que a educação fornecida pelos profissionais de enfermagem fortalece a capacidade dos indivíduos para executar atividades de autocuidado e assumir maior responsabilidade sobre sua condição de saúde.
Além disso, o estudo de Silva et al. (2021) identificou associação positiva entre o tempo de participação em intervenções educativas e a melhoria dos escores de autocuidado entre pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2. Os autores observaram aumento significativo das práticas de autocuidado após a participação dos usuários nas atividades educativas desenvolvidas na Estratégia Saúde da Família.
Esses achados demonstram que a educação em saúde deve ser entendida como um processo contínuo e permanente, e não como uma ação isolada. Quanto maior a exposição dos usuários às estratégias educativas, maiores tendem a ser os ganhos relacionados ao autocuidado e à prevenção de complicações.
8.2. Consulta de Enfermagem como Estratégia Educativa
A consulta de enfermagem destacou-se como uma das principais estratégias para implementação de ações educativas voltadas às pessoas com Diabetes
Mellitus.
O estudo de Silva et al. (2018) evidenciou que a consulta de enfermagem possibilita a identificação das necessidades individuais dos usuários, favorece a sistematização da assistência e fortalece o processo de ensino-aprendizagem. Além disso, a utilização de metodologias ativas contribuiu para a integração entre profissionais, usuários e serviços de saúde.
Da mesma forma, Paes et al. (2022) verificaram que intervenções educativas realizadas durante consultas de enfermagem, associadas a atividades em grupo e acompanhamento telefônico, promoveram aumento significativo do letramento em saúde e do conhecimento sobre diabetes.
O letramento em saúde refere-se à capacidade do indivíduo de acessar, compreender e utilizar informações relacionadas à saúde para tomada de decisões adequadas. Pacientes com maior letramento apresentam melhores condições de compreender orientações profissionais, interpretar prescrições e adotar comportamentos favoráveis ao controle da doença.
Nesse sentido, a consulta de enfermagem constitui espaço privilegiado para educação, acolhimento, escuta qualificada e construção compartilhada do plano terapêutico.
8.3. Intervenções Educativas e Adesão ao Tratamento
Outro aspecto amplamente abordado nos estudos refere-se à influência das ações educativas sobre a adesão ao tratamento.
Figueira et al. (2017) identificaram melhora significativa do conhecimento sobre a doença, da adesão ao tratamento medicamentoso e dos níveis de hemoglobina glicada após a realização de intervenções educativas mediadas por Mapas de Conversação em Diabetes.
Os resultados demonstram que o conhecimento adequado sobre a doença favorece comportamentos relacionados à adesão terapêutica e ao controle metabólico.
A mesma tendência foi observada por Reis et al. (2020), que avaliaram o impacto de uma intervenção educativa sobre o conhecimento e manejo da insulina no domicílio. Os autores verificaram melhora significativa na compreensão dos participantes acerca do armazenamento, preparo e administração correta da insulina.
Esses achados são particularmente relevantes, considerando que erros relacionados à insulinoterapia podem comprometer o controle glicêmico e aumentar o risco de complicações agudas e crônicas.
Complementando essa discussão, Cunha et al. (2020) identificaram que a maioria dos usuários realizava inadequadamente diversas etapas da insulinoterapia, principalmente relacionadas ao armazenamento e descarte dos materiais utilizados.
Esses resultados reforçam a necessidade de intervenções educativas contínuas e individualizadas, conduzidas por enfermeiros capacitados para identificar fragilidades e desenvolver estratégias direcionadas às necessidades específicas dos usuários.
8.4. O Papel do Enfermeiro na Educação em Diabetes
Os estudos selecionados evidenciaram que o enfermeiro ocupa posição central na coordenação das ações educativas voltadas às pessoas com Diabetes
Mellitus.
Segundo Draeger et al. (2022), entre as principais práticas desenvolvidas pelos enfermeiros destacam-se os grupos educativos, consultas de enfermagem, visitas domiciliares, telemonitoramento, elaboração de planos de cuidados e ações de educação em saúde.
Essas atividades permitem monitorar continuamente os usuários e promover intervenções precoces diante de dificuldades relacionadas ao controle da doença.
Além disso, Teston et al. (2018) observaram que os enfermeiros reconhecem a educação em saúde como elemento central do cuidado às pessoas com Diabetes Mellitus, embora relatem desafios relacionados à estrutura dos serviços, sobrecarga de trabalho e insuficiência de recursos materiais.
A percepção dos profissionais evidencia que o fortalecimento das ações educativas depende não apenas da qualificação individual dos enfermeiros, mas também do suporte institucional e da organização dos serviços de saúde.
8.5. Desafios para a Educação em Saúde no Diabetes Mellitus
Apesar dos benefícios demonstrados, os estudos revelaram importantes desafios para a efetivação das práticas educativas.
Coêlho et al. (2018) identificaram que muitos enfermeiros consideram insuficiente sua formação em educação em diabetes, relatando limitações para desenvolver ações educativas abrangentes e inovadoras.
Os participantes destacaram a necessidade de capacitação permanente, atualização científica e desenvolvimento de metodologias mais participativas para o trabalho com usuários diabéticos.
Outro desafio identificado refere-se às limitações estruturais dos serviços de saúde, incluindo falta de espaços adequados, escassez de materiais educativos, excesso de demanda assistencial e dificuldades para realização de atividades coletivas.
Além disso, aspectos relacionados ao baixo nível de escolaridade, dificuldades socioeconômicas e limitações no letramento em saúde podem comprometer a efetividade das orientações fornecidas aos usuários.
Diante desse cenário, torna-se necessário investir em estratégias educativas acessíveis, participativas e culturalmente adequadas, capazes de favorecer a compreensão das informações e estimular o protagonismo dos indivíduos no cuidado com sua própria saúde.
8.6. Síntese dos Achados
De forma geral, os estudos analisados demonstraram que:
- A educação em saúde melhora o conhecimento sobre Diabetes Mellitus;
- As intervenções educativas fortalecem o autocuidado;
- A consulta de enfermagem constitui importante estratégia educativa;
- O acompanhamento contínuo favorece a adesão ao tratamento;
- As ações educativas contribuem para o controle glicêmico;
- O enfermeiro exerce papel fundamental no processo educativo;
- Existem desafios relacionados à qualificação profissional e à estrutura dos serviços de saúde;
- A Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem oferece sustentação teórica consistente para compreensão da atuação da enfermagem na educação em diabetes.
9. CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas relacionadas à educação em saúde desenvolvida pela enfermagem na atenção às pessoas com Diabetes Mellitus, buscando compreender sua contribuição para o conhecimento, autocuidado, adesão ao tratamento e controle da doença.
A partir da análise dos estudos selecionados, foi possível constatar que a educação em saúde constitui uma das principais ferramentas utilizadas pela enfermagem para promover a autonomia dos indivíduos, fortalecer o autocuidado e favorecer a participação ativa dos usuários no gerenciamento de sua condição crônica. Os resultados evidenciaram que as intervenções educativas desenvolvidas por enfermeiros contribuem significativamente para o aumento do conhecimento sobre o Diabetes Mellitus, melhoria do letramento em saúde, aperfeiçoamento das práticas de autocuidado e fortalecimento da adesão ao tratamento.
Verificou-se que diferentes estratégias educativas podem produzir resultados positivos, incluindo consultas de enfermagem, grupos operativos, atividades coletivas, visitas domiciliares, acompanhamento telefônico, utilização de tecnologias educacionais e intervenções individuais. Essas abordagens mostraram-se eficazes para ampliar a compreensão dos usuários sobre a doença e reduzir fatores de risco relacionados ao desenvolvimento de complicações.
A consulta de enfermagem destacou-se como importante espaço para o desenvolvimento de ações educativas, permitindo a identificação das necessidades individuais, a elaboração de planos de cuidados e a construção de vínculos terapêuticos capazes de favorecer a continuidade do tratamento.
Os achados também demonstraram que o enfermeiro exerce papel central no cuidado às pessoas com Diabetes Mellitus, atuando não apenas na assistência clínica, mas também como educador, facilitador da aprendizagem e agente promotor da saúde. Entretanto, os estudos evidenciaram desafios relacionados à qualificação profissional, insuficiência de recursos materiais, limitações estruturais dos serviços de saúde e dificuldades de acesso dos usuários às informações necessárias para o autocuidado.
A utilização da Teoria do Déficit de Autocuidado de Dorothea Orem mostrou-se adequada para fundamentar a compreensão do fenômeno investigado, uma vez que seus pressupostos destacam a importância do desenvolvimento da autonomia dos indivíduos e da atuação educativa da enfermagem para suprir déficits de autocuidado.
Dessa forma, conclui-se que a educação em saúde realizada pela enfermagem representa estratégia essencial para a promoção da saúde e melhoria da qualidade de vida das pessoas com Diabetes Mellitus, devendo ser fortalecida por meio da capacitação permanente dos profissionais, ampliação de recursos educativos e implementação de práticas assistenciais centradas no usuário.
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados desta revisão integrativa permitiram compreender que a educação em saúde constitui elemento fundamental no cuidado às pessoas com Diabetes Mellitus e deve ser considerada uma das principais atribuições da enfermagem na Atenção Primária à Saúde.
Observou-se que usuários submetidos a intervenções educativas apresentam maior conhecimento sobre a doença, melhor adesão ao tratamento, maior desenvolvimento de habilidades para o autocuidado e redução de fatores associados às complicações crônicas do diabetes.
Nesse contexto, o enfermeiro destaca-se como profissional estratégico para o desenvolvimento de ações educativas, assumindo papel essencial na promoção da autonomia, empoderamento e corresponsabilização dos usuários pelo próprio cuidado.
Recomenda-se que os serviços de saúde ampliem investimentos em programas educativos permanentes, metodologias participativas, tecnologias educacionais e capacitação profissional voltadas para a educação em diabetes.
Além disso, sugere-se o desenvolvimento de novas pesquisas que avaliem os impactos de diferentes estratégias educativas sobre indicadores clínicos, qualidade de vida e autocuidado de pessoas com Diabetes Mellitus em diferentes contextos assistenciais.
- LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Entre as limitações desta revisão integrativa destacam-se:
- Restrição aos estudos publicados em língua portuguesa;
- Inclusão apenas de artigos disponíveis gratuitamente em texto completo;
- Limitação temporal entre 2016 e 2025;
- Possibilidade de exclusão de estudos relevantes não indexados nas bases selecionadas;
- Heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos.
Apesar dessas limitações, acredita-se que os resultados obtidos oferecem evidências importantes para subsidiar a prática da enfermagem e contribuir para o fortalecimento das ações educativas voltadas às pessoas com Diabetes Mellitus.
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