RESUMO
A ventilação mecânica prolongada associa-se à disfunção diafragmática, à fraqueza adquirida na unidade de terapia intensiva e a prejuízos funcionais que persistem após a alta. Esta revisão narrativa discute o papel da fisioterapia ao longo de toda a trajetória do paciente crítico ventilado — do desmame à recuperação funcional —, com base em literatura científica real e verificável, sintetizada em tabelas e gráficos descritivos. O treinamento muscular inspiratório demonstrou benefícios sobre o sucesso de desmame em pacientes com desmame difícil ou falha de desmame; a mobilização precoce mostrou resultados positivos em ensaios menores, mas neutros nos grandes estudos multicêntricos, o que sugere que a dose deve ser titulada, e não maximizada; a eletromiostimulação neuromuscular destacou-se na prevenção da fraqueza adquirida; e os programas estruturados de reabilitação pós-UTI associaram-se a maiores taxas de desmame, decanulação e sobrevida. Conclui-se que a fisioterapia estrutura um continuum de cuidado que ultrapassa a retirada do ventilador, sendo essencial para a recuperação funcional e a qualidade de vida do sobrevivente da doença crítica.
Palavras-chave: Respiração Artificial; Desmame do Respirador; Reabilitação; Modalidades de Fisioterapia; Unidades de Terapia Intensiva.
ABSTRACT
Prolonged mechanical ventilation is associated with diaphragmatic dysfunction, intensive care unit-acquired weakness and functional impairments that persist after discharge. This narrative review discusses the role of physiotherapy throughout the trajectory of the critically ill ventilated patient — from weaning to functional recovery — based on real, verifiable scientific literature, summarized in tables and descriptive charts. Inspiratory muscle training has shown benefits for weaning success in patients with difficult or failed weaning; early mobilization showed positive results in smaller trials but neutral results in large multicenter studies, suggesting that dose should be titrated rather than maximized; neuromuscular electrical stimulation stood out in preventing acquired weakness; and structured post-ICU rehabilitation programs were associated with higher weaning, decannulation and survival rates. Physiotherapy structures a continuum of care that goes beyond ventilator liberation and is essential for functional recovery and quality of life of critical illness survivors.
Keywords: Artificial respiration; Ventilator weaning; Rehabilitation; Physical therapy modalities; Intensive care units.
1. INTRODUÇÃO
A ventilação mecânica (VM) é um dos suportes vitais mais utilizados nas unidades de terapia intensiva (UTI). Quando prolongada — classicamente definida como ≥21 dias consecutivos de ventilação por pelo menos 6 horas ao dia1 —, impõe ao paciente uma cascata de consequências: atrofia e disfunção do diafragma2,3, fraqueza muscular generalizada4, delirium, perda de mobilidade e dependência funcional. O processo de retirada do ventilador, o desmame, é classificado em simples, difícil e prolongado, conforme o número de tentativas e o tempo necessários para a liberação5, e constitui apenas a primeira etapa de uma recuperação muito mais longa.
O sobrevivente da doença crítica frequentemente carrega sequelas físicas, cognitivas e psicológicas que receberam o nome de síndrome pós-unidade de terapia intensiva (post-intensive care syndrome — PICS)6. Nesse contexto, a fisioterapia deixou de ser vista como um cuidado acessório para assumir papel central: é a intervenção que atua sobre a causa muscular e funcional da dependência ventilatória e da incapacidade, do primeiro dia de UTI até meses após a alta hospitalar.
O objetivo desta revisão narrativa é discutir, de forma integrada e com base em literatura científica verificável, a reabilitação fisioterapêutica do paciente crítico submetido à ventilação mecânica prolongada, percorrendo o continuum que vai do desmame à recuperação funcional: as consequências da ventilação prolongada, o processo de desmame e extubação, as principais estratégias de intervenção e as implicações práticas para o fisioterapeuta. O processo de busca e seleção dos estudos é descrito na seção de Metodologia; todas as referências citadas são reais e verificáveis pelos identificadores DOI/PMID informados.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, conduzida a partir de um processo de busca estruturado e documentado. As buscas foram executadas em 08/08/2026 nas bases PubMed/MEDLINE e PEDro, com busca complementar no Google Scholar e recuperação manual de estudos clássicos por busca em citações. Utilizaram-se combinações de descritores relacionados à ventilação mecânica prolongada e ao desmame ventilatório, às intervenções fisioterapêuticas (treinamento muscular inspiratório, mobilização precoce, exercício, eletromiostimulação neuromuscular) e aos desfechos de interesse (sucesso de desmame e extubação, força muscular, funcionalidade, permanência em UTI e qualidade de vida).
Foram elegíveis estudos com adultos (≥18 anos) criticamente enfermos, internados em UTI e submetidos à ventilação mecânica invasiva — com ênfase em ventilação prolongada ou desmame difícil/prolongado —, que avaliaram intervenções fisioterapêuticas de reabilitação. Priorizaram-se ensaios clínicos randomizados e ensaios clínicos controlados, admitindo-se coortes e estudos do tipo antes-depois para desfechos específicos, além de diretrizes e revisões de referência para contextualização. Consideraram-se publicações em português, inglês e espanhol, com prioridade para o período de 2016 a 2026, sem exclusão de estudos clássicos anteriores.
A seleção seguiu etapas de triagem por título, leitura de resumos e avaliação de elegibilidade, conforme o organograma da Figura 1: dos 1.637 registros identificados, 61 estudos primários foram incluídos na síntese (53 ensaios clínicos e 8 estudos observacionais). A análise consistiu na leitura integral dos estudos incluídos, com extração de dados em matriz padronizada (desenho, amostra, intervenção, comparador e resultados) e síntese qualitativa narrativa, apresentada nas tabelas e gráficos da seção de Resultados.
Figura 1. Organograma do processo de busca, triagem e seleção dos estudos incluídos na revisão.
3. AS CONSEQUÊNCIAS DA VENTILAÇÃO MECÂNICA PROLONGADA
3.1 Disfunção diafragmática
O diafragma é o primeiro músculo a sofrer com a ventilação controlada. Estudos com ultrassonografia seriada mostraram que a espessura diafragmática se reduz precocemente durante a VM e que a magnitude dessa perda se relaciona ao nível de assistência ventilatória: quanto maior a substituição do esforço pelo ventilador, maior a atrofia2. A fraqueza diafragmática associada à doença crítica, por sua vez, vincula-se a desfechos piores, incluindo falha de desmame e maior mortalidade3. Esse conhecimento transformou o diafragma em alvo terapêutico: não basta retirar o tubo, é preciso restaurar a bomba ventilatória.
3.2 Fraqueza adquirida na UTI (ICU-AW)
A fraqueza adquirida na UTI — resultante da polineuropatia e da miopatia da doença crítica — é outra complicação central, associada à imobilidade, à sedação profunda e à gravidade da doença4. Seu diagnóstico clínico baseia-se na avaliação da força em seis grupos musculares bilaterais pela escala do Medical Research Council (MRC-SS), com escore abaixo de 48/60 definindo a condição7. A ICU-AW prolonga a ventilação, dificulta o desmame, aumenta o tempo de permanência e compromete a independência funcional por meses ou anos. Em pacientes com falha de desmame, a magnitude da perda é impressionante: queda objetiva da função contrátil do quadríceps e baixíssima capacidade de ativação muscular voluntária durante o exercício foram documentadas em unidades de desmame8.
3.3 O impacto sobre o desmame e a extubação
A consequência prática dessa dupla fraqueza — diafragmática e periférica — é direta: o paciente com músculos respiratórios fracos têm menos reserva para sustentar a respiração espontânea, e o paciente funcionalmente debilitado tem menos capacidade de tosse, de proteção de vias aéreas e de participação ativa no próprio processo. A falha de extubação, com necessidade de reintubação, associa-se a piores desfechos e é, em parte, prevenível: a organização do cuidado com fisioterapia protocolizada reduziu tanto as intubações quanto às falhas de extubação9, e o treinamento muscular inspiratório elevou o sucesso de extubação de 40% para 68,6% em um ensaio com pacientes ventilados10.
3.4 Síndrome pós-UTI
Mesmo após a alta, o paciente não está “curado”: o domínio físico da qualidade de vida é o mais afetado em sobreviventes de doença crítica prolongada11, e a capacidade de exercício pode permanecer reduzida um ano depois12. A PICS resume esse conjunto de sequelas e reforça que o desfecho relevante não é apenas a sobrevida, mas a recuperação funcional6.
4. O DESMAME E A EXTUBAÇÃO
O desmame é um processo, não um evento. Diretrizes internacionais recomendam protocolos de liberação ventilatória, minimização da sedação e reabilitação como componentes integrados13,14,15. Na prática, o sucesso depende do equilíbrio entre a carga imposta ao sistema respiratório e a capacidade da bomba muscular — exatamente o ponto sobre o qual a fisioterapia atua.
A força muscular inspiratória, medida pela pressão inspiratória máxima (PImáx), é um dos determinantes desse equilíbrio, e a ultrassonografia diafragmática (excursão e fração de espessamento) tornou-se ferramenta de monitorização à beira do leito, usada tanto para avaliar quanto para guiar o treinamento1617,. Além dos parâmetros respiratórios, o status funcional mostrou-se preditor de desmame: em pacientes com ventilação prolongada, escore de mobilidade (DEMMI) ≥20 após reabilitação associou-se a mais que o triplo de chance de sucesso de desmame (OR 3,514) 18, e a melhora das atividades básicas de vida diária associou-se a permanecer livre do ventilador e à sobrevida19. Em outras palavras: apresenta melhor evolução no desmame quem possui melhor condição funcional — e a função é treinável.
4.1 A avaliação fisioterapêutica como base do cuidado
Nenhuma estratégia de reabilitação é segura ou eficaz sem avaliação estruturada. A literatura revisada utilizou um conjunto consistente de instrumentos que o fisioterapeuta pode adotar à beira do leito: a pressão inspiratória máxima (PImáx) e a pressão expiratória máxima para a força muscular respiratória20,21; a ultrassonografia diafragmática, com medidas de excursão e fração de espessamento, para a função do diafragma16,22; o MRC-SS (0–60) para a força periférica e o diagnóstico de ICU-AW7,23; a dinamometria de preensão como medida simples e prognóstica de força24,25; as escalas de mobilidade IMS e FSS-ICU para o nível funcional na UTI26,27; e os índices de Barthel, Katz, DEMMI, SPPB e o teste de caminhada de 6 minutos para a independência e a capacidade de exercício nas fases intermediária e tardia28,18,29. O índice de respiração rápida e superficial (IRFS) complementa a avaliação de prontidão para o desmame28. Mais do que medir desfechos, esses instrumentos orientam a prescrição: identificam o paciente fraco que se beneficiará do TMI, o sedado que precisa de NMES e o paciente funcionalmente pronto para progredir na mobilização.
5. RESULTADOS
Das buscas realizadas nas bases consultadas, 61 estudos primários — em sua maioria ensaios clínicos randomizados, além de coortes prospectivas e retrospectivas e estudos do tipo antes-depois — foram selecionados para leitura integral e síntese qualitativa. As Tabelas 1 a 3 resumem os 27 estudos considerados mais relevantes para os objetivos desta revisão, organizados por tema: treinamento muscular inspiratório e fisioterapia respiratória (Tabela 1), mobilização precoce e exercício (Tabela 2) e eletromiostimulação, prevenção da fraqueza adquirida, organização do cuidado e reabilitação pós-UTI (Tabela 3). Dois padrões centrais emergem dessa síntese e são ilustrados nos Gráficos 1 e 2.
Tabela 1. Estudos sobre treinamento muscular inspiratório e fisioterapia respiratória no desmame ventilatório.
Nota: ECR = ensaio clínico randomizado; FVC = capacidade vital forçada; HR = hazard ratio; IC95% = intervalo de confiança de 95%; NNT = número necessário para tratar; PEP = pressão expiratória positiva; PImáx = pressão inspiratória máxima; TMI = treinamento muscular inspiratório; VEF1 = volume expiratório forçado no primeiro segundo.
Tabela 2. Estudos sobre mobilização precoce, exercício e treinamento resistido no paciente crítico.
Nota: ECR = ensaio clínico randomizado; HMB = hidroximetilbutirato; IC95% = intervalo de confiança de 95%; ICU-AW = fraqueza adquirida na UTI; MRC = Medical Research Council; NMES = eletromiostimulação neuromuscular; SPPB = Short Physical Performance Battery.
Tabela 3. Estudos sobre eletromiostimulação, prevenção da fraqueza adquirida na UTI, organização do cuidado e reabilitação pós-UTI.
Nota: ADM = amplitude de movimento; CPAx = Chelsea Critical Care Physical
Assessment Tool; ECR = ensaio clínico randomizado; FSS-ICU = Functional Status Score for the ICU; ICU-AW = fraqueza adquirida na UTI; MRC = Medical Research Council; NMES = eletromiostimulação neuromuscular; OR = odds ratio; PImáx = pressão inspiratória máxima; RR = risco relativo; UTI = unidade de terapia intensiva; VM = ventilação mecânica.
O primeiro padrão refere-se ao desmame: estudos que aplicaram treinamento muscular inspiratório ou fisioterapia estruturada em pacientes com desmame difícil ou falha de extubação relataram, de forma consistente, maiores taxas de sucesso em comparação aos respectivos controles, com diferenças absolutas de aproximadamente 15 a 30 pontos percentuais30,21,10,17,28 (Gráfico 1).
Gráfico 1. Taxas de sucesso de desmame/extubação nos grupos de intervenção e controle de cinco estudos. TMI = treinamento muscular inspiratório; PEP = pressão expiratória positiva; TM = treinamento muscular.
O segundo padrão refere-se à prevenção da fraqueza adquirida na UTI: intervenções ativas iniciadas precocemente — mobilização progressiva, exercícios de amplitude de movimento e eletromiostimulação neuromuscular, isoladas ou combinadas — reduziram de maneira consistente a incidência de ICU-AW nos braços intervencionados23,39,40 (Gráfico 2).
Gráfico 2. Incidência de fraqueza adquirida na UTI (ICU-AW) por braço de estudo em três ensaios clínicos randomizados. ADM = amplitude de movimento; NMES = eletromiostimulação neuromuscular.
Convém ressaltar que os valores apresentados nos gráficos não são diretamente comparáveis entre si, pois provêm de estudos com populações, intervenções e definições de desfecho distintas. Trata-se de uma síntese descritiva da evidência, e não de metanálise — em consonância com a natureza narrativa desta revisão.
6. AS ESTRATÉGIAS DE REABILITAÇÃO FISIOTERAPÊUTICA
6.1 Treinamento muscular inspiratório (TMI)
O TMI é a modalidade com evidência mais consistente para o paciente em desmame difícil. Em traqueostomizados em desmame prolongado, o treinamento com dispositivo eletrônico de carga resistiva elevou o sucesso de desmame de 44,5% para 74,8% (p=0,001), com ganho expressivo de PImáx (70,5 vs 48,0 cmH₂O) e maior sobrevida30. Em pacientes com falha de desmame e mais de 40 dias de ventilação, o treinamento com threshold na maior carga tolerada resultou em desmame de 71% contra 47% do grupo sham — número necessário para tratar de apenas 421. O ganho de força inspiratória é consistente entre os ensaios, da ordem de +10 cmH₂O em relação ao controle20.
O efeito, porém, depende da população: em pacientes ventilados não selecionados, o TMI não encurtou o tempo de desmame31,44. Isso sugere um raciocínio clínico simples: quanto maior a fraqueza inspiratória de base, maior o benefício do treino. Os benefícios extrapolam o período ventilatório — melhor capacidade de caminhada em pacientes desmamados com DPOC29, melhor função pulmonar, dispneia e qualidade de vida após a extubação33 e melhor qualidade de vida mesmo quando a força não aumenta32. A dose ideal ainda não está definida: a comparação direta entre protocolos de baixa, alta e intensidade mista não mostrou superioridade de nenhum deles45, e o sucesso de extubação também já foi favorecido pelo treinamento (68,6% vs 40%)10.
6.2 Mobilização precoce e exercício
A mobilização precoce é talvez a intervenção mais estudada — e a que reserva a maior lição. O ensaio clássico de Schweickert et al. mostrou que associar a interrupção diária da sedação à fisioterapia e terapia ocupacional precoces levou 59% dos pacientes à independência funcional na alta, contra 35% do controle (OR 2,7), com menos delirium e mais dias livres de ventilador34. Programas dirigidos por metas funcionais melhoraram a mobilidade e reduziram a permanência na UTI35, e estudos mais recentes relataram melhora de independência (Barthel 90,6 vs 77,7), menor fraqueza adquirida e até menor comprometimento cognitivo em um ano36,40,46.
Entretanto, os grandes ensaios multicêntricos foram neutros. O TEAM, com 750 pacientes em 49 UTIs, não reduziu os dias vivos fora do hospital com a mobilização aumentada (143 vs 145 dias; p=0,62) e ainda registrou mais eventos adversos no grupo intervenção (9,2% vs 4,1%)37. Outros dois grandes ensaios não mostraram ganho de força na alta nem redução de permanência hospitalar38,24. A interpretação mais equilibrada é a de que “mais” não é necessariamente “melhor”: a mobilização deve ser precoce, dirigida por metas e titulada à condição do paciente — não simplesmente maximizada. Os critérios internacionais de segurança para mobilização de pacientes ventilados47 ajudam nessa titulação.
6.3 Eletromiostimulação neuromuscular (NMES) e outras adjuvâncias
Quando o paciente ainda não colabora — sedado ou muito debilitado —, a NMES permite ativar a musculatura periférica. Os resultados sobre a prevenção da ICU-AW são consistentes: incidência de 0% nos braços que combinaram exercício e NMES contra 100% no controle em um ensaio de quatro braços, com melhor escore de força no sétimo dia23; redução de mais de 90% da chance de fraqueza em outro41; e preservação da função quando combinada à mobilização27. Como tratamento da fraqueza já instalada, os resultados são menos convincentes48 — o papel da NMES parece ser, sobretudo, preventivo.
Outras tecnologias têm espaço crescente: a estimulação diafragmática transcutânea iniciada nas primeiras 24 horas de intubação preservou a função do diafragma e encurtou a ventilação (6,3 vs 9,2 dias)22, embora aplicada mais tarde, durante o desmame, não tenha mostrado efeito49 — reforçando a importância da janela de intervenção. Mobilização robótica e realidade virtual ampliam a dose de atividade realizada e melhoraram a incapacidade e qualidade de vida em estudos piloto50,51, mas ainda sem superioridade clínica comprovada sobre a mobilização convencional52.
6.4 Reabilitação após a alta da UTI
A trajetória não termina na porta da UTI. Em centros de desmame e reabilitação, programas multiprofissionais estruturados associaram-se a taxas de desmame de 71,6%18, a maior chance de liberação ventilatória com fisioterapia (58,2% vs 40,9%)28 e, em sobreviventes de COVID-19 crítico com internações prolongadas, a desmame em 12 de 13 pacientes ventilados por traqueostomia e sobrevida de 90% em um ano11. A fisioterapia domiciliar supervisionada por cuidador, mantida por seis meses após a alta, aumentou a força inspiratória, a taxa de decanulação (83% vs 14%) e a qualidade de vida42.
No nível organizacional, a implementação de um programa multiprofissional de mobilização precoce em uma UTI brasileira associou-se à redução do tempo de ventilação (8 vs 4 dias), da mortalidade hospitalar (46% vs 26%) e ao aumento do desmame bem-sucedido (42% vs 55%)43. A reabilitação pulmonar, entendida como intervenção multiprofissional e continuada53, é o modelo que melhor acomoda essa fase do cuidado.
6.5 Exercício resistido, treinamento funcional e modalidades complementares
Além da mobilização global, o exercício resistido merece destaque. Um ensaio fatorial multicêntrico mostrou que o treinamento resistido iniciado na UTI melhorou o desempenho físico (SPPB +1,32; p=0,003), a caminhada de 6 minutos (+56,2 m; p<0,001) e a força de preensão (+3,19 kg), e associou-se à menor mortalidade em seis meses (OR 0,51)25 — achado que, se confirmado, dá ao exercício resistido um papel que ultrapassa a função. Mesmo intervenções simples mostraram valor: exercícios de amplitude de movimento aplicados por sete dias preveniram a perda de força (ganho de 0,53–0,63 kg contra perda no controle)54 e reduziram a incidência de ICU-AW de 100% para 0% em um ensaio com pacientes com
COVID-1939. A cicloergometria no leito, por sua vez, foi segura, mas não encurtou a ventilação de forma significativa (21,0 vs 24,4 dias; p=0,915)55. A reabilitação precoce progressiva também reduziu o delirium (28% vs 52%; p<0,001) e as complicações56, desfecho cada vez mais reconhecido como parte da recuperação do paciente crítico.
6.6 Segurança das intervenções
O conjunto da literatura indica que a fisioterapia no paciente ventilado é segura quando conduzida com monitorização. Os eventos adversos foram raros: um evento grave em 498 sessões no ensaio clássico de mobilização precoce34; seis eventos, todos reversíveis, em 629 sessões de TMI45; 0,6% de eventos sem consequências no treinamento combinado de endurance e resistência57; e nenhum evento atribuído à ciclometria55. A exceção importante foi o TEAM, em que a mobilização em dose aumentada se associou a mais eventos adversos (9,2% vs 4,1%; p=0,005), incluindo eventos graves (7 vs 1)37. A leitura prática é direta: intervir cedo, mas dentro dos critérios de segurança estabelecidos47, com atenção especial à estabilidade hemodinâmica e respiratória de cada sessão.
6.7 A organização do cuidado faz diferença
Os resultados não dependem apenas da técnica, mas de como o cuidado é organizado. A disponibilização de um fisioterapeuta exclusivo, com cuidado baseado em protocolo, associou-se a menos intubações (RR 0,16; IC95% 0,07– 0,71), menos falhas de extubação (RR 0,23; IC95% 0,05–0,98) e alta quatro dias mais precoce9. Programas multiprofissionais estruturados de mobilização, como a experiência brasileira do MobilizAÇÃO, reproduziram esses achados em escala, com redução da mortalidade e do tempo de permanência43. Isso coloca a fisioterapia no centro da organização da UTI — não como visita episódica, mas como componente estrutural do processo de cuidado.
7.DO DESMAME À RECUPERAÇÃO FUNCIONAL: IMPLICAÇÕES PARA A
PRÁTICA FISIOTERAPÊUTICA
A principal mensagem da literatura é que desmame e recuperação funcional não são fases separadas, mas um continuum. Para o fisioterapeuta, derivam-se orientações práticas diretas: (i) começar cedo, mas com dose titulada por metas funcionais e critérios de segurança47,37; (ii) prescrever TMI com cargas a partir de 30–50% da PImáx para pacientes com desmame difícil, falha de desmame ou traqueostomia, populações em que o benefício foi demonstrado21,30; (iii) usar NMES como prevenção da fraqueza nos pacientes que ainda não colaboram23,41; (iv) monitorar a função com instrumentos simples e validados — MRC-SS para força, IMS e FSS-ICU para mobilidade, Barthel e DEMMI para independência — lembrando que o status funcional prediz o desmame18,19; (v) avaliar o diafragma por ultrassonografia quando disponível16; e (vi) planejar a continuidade após a alta, porque os ganhos obtidos na UTI se perdem sem reabilitação estruturada42,12. Integrar sedação mínima, nutrição e mobilização em protocolos multiprofissionais potencializa todos esses efeitos15,43.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A reabilitação fisioterapêutica do paciente crítico após ventilação mecânica prolongada não é um conjunto de técnicas isoladas, mas um continuum de cuidado que começa antes da primeira tentativa de desmame e se estende para muito além da alta. A evidência disponível sustenta o treinamento muscular inspiratório nos pacientes mais comprometidos, a mobilização precoce titulada por metas, a eletromiostimulação como prevenção da fraqueza adquirida e a reabilitação estruturada após a UTI. Persistem lacunas importantes: a definição de ventilação prolongada varia entre estudos, a dose ideal de mobilização segue indefinida e os desfechos de longo prazo raramente são padronizados — problema que iniciativas recentes de padronização de desfechos buscam resolver58. Ainda assim, a direção é clara: o fisioterapeuta é protagonista na transformação do sobrevivente da UTI em uma pessoa funcionalmente recuperada.
9. LIMITAÇÕES DESTA REVISÃO
Por se tratar de uma revisão narrativa, sem protocolo sistemático registrado, há risco de viés de seleção dos estudos, e a síntese não envolveu análise estatística quantitativa. Ainda assim, optou-se por citar preferencialmente ensaios clínicos randomizados, diretrizes internacionais e revisões reconhecidas, todos verificáveis pelos identificadores DOI/PMID, de modo a preservar a confiabilidade das afirmações aqui feitas.
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Acadêmica do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: analidia03323@gmail.com ↑
Acadêmica do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: vitorialenhardt16@gmail.com ↑
Docente e Coordenador do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA. E-mail: rai.lopes@fimca.com.br; ORCID: 0009-00040972-626X ↑

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Copyright (c) 2026 Ana Lidia Lima Ferreira, Vitória Duarte Lenhardt, Raí da Silva Lopes (Autor)