RESUMO
Este artigo apresenta um relato de experiência pedagógica desenvolvido em uma escola pública de Educação Infantil do município de Bariri, no estado de São Paulo, com crianças da Pré-escola I, com idades entre quatro e cinco anos. A proposta teve como eixo a musicalização infantil articulada ao reaproveitamento de materiais. Foram construídos e explorados chocalhos com garrafas PET, recipientes preenchidos com diferentes grãos e botões, objetos sonoros elaborados com CDs reutilizados e representações de animais confeccionadas com EVA. As crianças participaram de atividades de exploração sonora, associação entre representações visuais e sons, dramatizações e jogos musicais. O objetivo foi proporcionar experiências envolvendo escuta, ritmo, expressão corporal, oralidade, criatividade, interação e participação, articuladas à educação ambiental e a uma perspectiva inclusiva. O trabalho caracteriza-se como relato de experiência pedagógica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, elaborado a partir da sistematização de um Projeto Integrador do curso de Pedagogia. A análise considerou as atividades realizadas, os materiais utilizados e os objetivos pedagógicos registrados no projeto, sem nova coleta de dados, aplicação de testes ou utilização de instrumentos formais de mensuração. Os resultados são discutidos como possibilidades e potencialidades pedagógicas, sem estabelecer efeitos causais ou generalizações sobre o desenvolvimento infantil. Conclui-se que a articulação entre musicalização, ludicidade, reaproveitamento de materiais e participação pode constituir uma prática pedagógica acessível, interdisciplinar e inclusiva na Educação Infantil.
Palavras-chave: Musicalização infantil; Educação Infantil; Materiais reutilizáveis; Educação ambiental; Práticas pedagógicas inclusivas; Área do conhecimento: Ciências Humanas.
ABSTRACT
This article presents a pedagogical experience report developed at a public early childhood education school in the municipality of Bariri, São Paulo, Brazil, with children in Preschool I, aged between four and five years. The proposal focused on children’s musical education combined with the reuse of materials. The activities involved the construction and exploration of shakers made from PET bottles and filled with different grains and buttons, sound objects made with reused CDs, and animal representations made of EVA foam. The children participated in sound exploration activities, associations between visual representations and sounds, dramatizations, and musical games. The objective was to provide experiences involving listening, rhythm, bodily expression, oral language, creativity, interaction, and participation, articulated with environmental education and an inclusive perspective. The study is characterized as a pedagogical experience report with a qualitative and descriptive approach, based on the systematization of an Integrative Project developed in the Pedagogy program. The analysis considered the activities carried out, the materials used, and the pedagogical objectives recorded in the project, without new data collection, testing, or formal measurement instruments. The results are discussed as pedagogical possibilities and potentialities, without establishing causal effects or generalizations about child development. It is concluded that the articulation between music education, playfulness, material reuse, and participation can constitute an accessible, interdisciplinary, and inclusive pedagogical practice in Early Childhood Education.
Keywords: Early childhood music education; Early Childhood Education; Reusable materials; Environmental education; Inclusive pedagogical practices; Area of knowledge: Human Sciences.
1 INTRODUÇÃO
A Educação Infantil constitui a primeira etapa da Educação Básica e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até cinco anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade (Brasil, 1996).
Nesse período, as experiências proporcionadas no ambiente escolar desempenham papel relevante na construção de conhecimentos, na expressão das emoções, na interação social e na ampliação das possibilidades de comunicação. As crianças aprendem e se desenvolvem por meio das interações e das brincadeiras, explorando pessoas, objetos, espaços, sons, movimentos, cores, formas e diferentes materiais.
Nesse sentido, as práticas pedagógicas destinadas à Educação Infantil precisam considerar a criança como sujeito ativo do processo educativo, proporcionando experiências que valorizem sua curiosidade, participação e capacidade de criação.
Entre as diferentes linguagens presentes na infância, a música ocupa lugar significativo por possibilitar experiências envolvendo escuta, ritmo, movimento, criação e expressão. O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil compreende a música como uma linguagem e uma forma de conhecimento que pode ser vivenciada pelas crianças por meio da exploração, da escuta, da produção sonora e do movimento (Brasil, 1998).
A Lei nº 13.278/2016, por sua vez, reconhece a música, juntamente com as artes visuais, a dança e o teatro, como linguagem que integra o componente curricular da Arte (Brasil, 2016).
Na perspectiva de Brito (2003), a música na Educação Infantil deve contemplar experiências de escuta, exploração, criação e participação, considerando a criança como sujeito capaz de produzir e atribuir significados aos sons. Dessa forma, o trabalho musical não precisa estar restrito à reprodução de canções, podendo envolver o corpo, objetos cotidianos e diferentes materiais.
A Base Nacional Comum Curricular estabelece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes da Educação Infantil e assegura às crianças os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se (Brasil, 2018). No campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”, o objetivo de aprendizagem e desenvolvimento EI03TS01 relaciona-se à utilização de sons produzidos por materiais, objetos e instrumentos musicais em situações de criação e brincadeira (Brasil, 2018).
Nesse contexto, a utilização de materiais reutilizáveis para a construção de objetos sonoros apresenta possibilidades pedagógicas que articulam música, criatividade, ludicidade e educação ambiental. Garrafas PET, tampinhas, CDs e outros materiais que poderiam ser descartados podem adquirir novas funções e tornar-se recursos para experiências de exploração sonora.
A educação ambiental encontra respaldo na Lei nº 9.795/1999, que estabelece essa dimensão como componente essencial e permanente da educação nacional. A legislação também prevê sua presença articulada nos diferentes níveis e modalidades de ensino. Posteriormente, a Lei nº 14.926/2024 acrescentou à Política Nacional de Educação Ambiental aspectos relacionados às mudanças climáticas, à proteção da biodiversidade e aos riscos e vulnerabilidades a desastres socioambientais (Brasil, 1999, 2024).
Assim, o reaproveitamento de materiais pode ser abordado de maneira concreta e adequada à faixa etária, permitindo que as crianças vivenciem práticas relacionadas ao cuidado com o ambiente e percebam novas possibilidades de utilização de objetos presentes em seu cotidiano.
A proposta apresentada neste artigo foi desenvolvida no contexto de um Projeto Integrador do curso de Pedagogia e posteriormente reorganizada para este relato, preservando as atividades realizadas e ampliando a discussão sobre sustentabilidade, inclusão e participação.
Diante desse contexto, o presente artigo apresenta um relato de experiência pedagógica que articula musicalização infantil, reaproveitamento de materiais, ludicidade, participação e educação ambiental.
A questão norteadora é: como a musicalização, associada ao reaproveitamento de materiais, pode favorecer experiências de expressão, exploração sonora, interação e participação na Educação Infantil?
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Musicalização e linguagem musical na Educação Infantil
A música constitui uma forma de expressão que possibilita à criança explorar sons, ritmos, movimentos e diferentes maneiras de comunicar experiências. Na Educação Infantil, sua utilização pode favorecer situações de escuta, criação e interação, sem que o trabalho esteja condicionado ao domínio de conhecimentos musicais formais.
O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil destaca que a música pode ser vivenciada por meio da exploração de diferentes sons, da produção musical, do movimento e da escuta. Essa compreensão afasta a ideia de que a música deve ser utilizada apenas como recurso para organizar a rotina ou acompanhar atividades, reconhecendo-a como linguagem que possibilita experiências sensíveis, expressivas e culturais (Brasil, 1998).
Brito (2003) destaca a importância de proporcionar às crianças experiências musicais que envolvam escuta, exploração e criação. Sob essa perspectiva, o ambiente educativo pode oferecer diferentes objetos e materiais para que as crianças percebam suas características sonoras e estabeleçam relações entre movimento e produção de sons.
A proposta desenvolvida neste trabalho enfatizou a escuta atenta, o senso rítmico, a expressão corporal, a oralidade, a criatividade, a socialização e a valorização da diversidade cultural, em articulação com a exploração de materiais reutilizáveis e de sons de animais.
A exploração de objetos sonoros pode proporcionar experiências relacionadas à percepção auditiva e à coordenação motora. Ao movimentar um chocalho, observar alterações nos sons produzidos por diferentes materiais ou acompanhar determinado ritmo, a criança estabelece relações entre suas ações e os efeitos sonoros obtidos.
A música também pode favorecer experiências coletivas. Em atividades realizadas em grupo, as crianças têm oportunidades de ouvir os colegas, compartilhar materiais, acompanhar ritmos e participar de produções comuns, ampliando as possibilidades de interação.
2.2 Ludicidade e aprendizagem
O brincar constitui uma dimensão fundamental da infância e integra as práticas pedagógicas da Educação Infantil. Por meio de situações lúdicas, as crianças exploram o ambiente, estabelecem relações, experimentam diferentes possibilidades e atribuem significado às suas experiências.
Kishimoto (2011) discute a relevância do jogo, do brinquedo e da brincadeira para o desenvolvimento e a aprendizagem infantil. A ludicidade pode contribuir para que a criança participe de experiências educativas de maneira ativa e significativa.
A construção de objetos sonoros com materiais reutilizáveis aproxima a atividade pedagógica da experiência cotidiana da criança. Materiais que poderiam ser descartados são transformados em objetos destinados à exploração e à criação, permitindo que a criança participe de diferentes etapas do processo.
Nesse contexto, o caráter lúdico não está apenas no uso posterior dos objetos, mas também na possibilidade de experimentar materiais, escolher cores, realizar pinturas, observar transformações e descobrir diferentes sons.
As dramatizações, os jogos musicais e a associação entre os sons e as imagens de animais ampliam esse caráter lúdico, favorecendo situações nas quais a criança pode utilizar o corpo, a imaginação e diferentes formas de expressão.
2.3 Interação social e desenvolvimento infantil
Vigotski (1998) compreende o desenvolvimento humano a partir das relações sociais e culturais estabelecidas ao longo da experiência. A interação com adultos, outras crianças e elementos do ambiente participa da construção dos conhecimentos e das formas de expressão.
Nas experiências musicais coletivas, as crianças podem compartilhar materiais, observar produções, ouvir diferentes sons e participar de situações que exigem atenção às ações dos colegas. Essas experiências podem favorecer a comunicação e a convivência.
Nesse processo, o professor desempenha função mediadora, organizando o ambiente, apresentando possibilidades de exploração, orientando as ações e realizando adaptações necessárias para favorecer a participação das crianças.
Na proposta desenvolvida, a professora atuou como mediadora das descobertas sonoras e da socialização das produções, buscando valorizar a expressão individual dentro da experiência coletiva.
Dessa maneira, diferentes formas de envolvimento puderam coexistir, respeitando as características e as possibilidades de cada criança.
2.4 Educação inclusiva e participação
A educação inclusiva pressupõe a construção de práticas que reconheçam a diversidade presente no ambiente escolar e favoreçam a participação de todas as crianças.
Mantoan (2003) defende uma perspectiva educacional baseada no reconhecimento das diferenças e na garantia do direito à aprendizagem. Nessa direção, as práticas pedagógicas devem considerar diferentes formas de participação e expressão.
As atividades de musicalização oferecem possibilidades diversificadas de envolvimento. Uma criança pode demonstrar maior interesse pela pintura e pela decoração dos objetos; outra pode concentrar sua participação na exploração dos sons; outra pode preferir observar, ouvir ou acompanhar os movimentos realizados pelo grupo.
Essa diversidade não deve ser entendida como obstáculo à atividade, mas como característica própria do processo educativo. A organização das propostas pode permitir que as crianças participem de diferentes maneiras, favorecendo o sentimento de pertencimento e a convivência.
Essa perspectiva também contempla o respeito ao corpo, ao espaço do outro, à individualidade e à construção de vínculos afetivos.
2.5 Educação ambiental e reaproveitamento de materiais
A educação ambiental constitui dimensão importante da formação das crianças e pode ser desenvolvida por meio de experiências concretas relacionadas ao cotidiano.
A Lei nº 9.795/1999 estabelece a educação ambiental como componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente de forma articulada nos diferentes níveis e modalidades de ensino. A legislação foi atualizada pela Lei nº 14.926/2024, que passou a contemplar também a atenção às mudanças climáticas, à proteção da biodiversidade e aos riscos e vulnerabilidades a desastres socioambientais (Brasil, 1999, 2024).
O reaproveitamento de materiais constitui uma possibilidade de abordar essa temática de forma concreta. Em vez de apenas apresentar informações sobre descarte e preservação, a escola pode proporcionar situações em que as crianças percebam que determinados materiais podem adquirir novas funções.
No projeto desenvolvido, garrafas PET, tampinhas, CDs, grãos, botões e outros elementos foram utilizados na construção de objetos sonoros e recursos pedagógicos.
Essa escolha possibilitou aproximar a educação ambiental de uma experiência prática, relacionando sustentabilidade, criatividade e aprendizagem.
A proposta também está relacionada ao caráter interdisciplinar da Educação Infantil, uma vez que uma mesma experiência pode envolver sons, movimentos, cores, formas, linguagem, interação e conhecimentos relacionados ao cuidado com o ambiente.
2.6 Articulação entre música, sustentabilidade e participação
A proposta analisada articula três dimensões que adquirem maior sentido quando vivenciadas de forma integrada na Educação Infantil: a linguagem musical, o reaproveitamento de materiais e a participação das crianças.
A música oferece possibilidades de escutar, produzir, comparar e organizar sons; os materiais reutilizáveis ampliam as oportunidades de exploração; e a participação permite que cada criança se envolva de acordo com suas características e possibilidades.
A construção de chocalhos, objetos sonoros e figuras de animais não foi compreendida apenas como uma atividade manual. O processo envolveu escolhas, experimentações, conversas, movimentos, observação e atribuição de sentidos aos objetos.
Ao acompanhar a transformação de garrafas PET, CDs, tampinhas, grãos e EVA em recursos pedagógicos, as crianças puderam relacionar criação, uso dos materiais e produção sonora.
A associação entre as figuras de animais confeccionadas em EVA e seus respectivos sons acrescentou uma dimensão de linguagem e representação à proposta. A criança podia observar a imagem, ouvir ou produzir o som correspondente, movimentar-se e participar de dramatizações.
Essa combinação entre imagem, som e movimento amplia as formas de expressão e pode favorecer diferentes modos de participação.
Do ponto de vista ambiental, a reutilização não deve ser apresentada como solução isolada para os problemas de descarte, mas como uma prática educativa que favorece atitudes de cuidado e responsabilidade.
Na experiência descrita, o reaproveitamento esteve relacionado à criação de recursos para aprender, brincar e conviver, aproximando a sustentabilidade do cotidiano infantil.
A integração dessas dimensões também exige mediação pedagógica. Cabe ao professor organizar materiais seguros, estabelecer combinados, oferecer tempo para a exploração e acolher diferentes respostas.
Desse modo, a proposta não depende de que todas as crianças produzam os mesmos sons ou realizem as mesmas ações, mas de que tenham oportunidades reais de participação.
3 OBJETIVOS
3.1 Objetivo geral
Promover experiências de musicalização infantil por meio da construção e da exploração de objetos sonoros confeccionados com materiais reutilizáveis, favorecendo oportunidades de expressão corporal, escuta, oralidade, criatividade, interação, participação e valorização da diversidade, em articulação com a educação ambiental e uma perspectiva inclusiva.
3.2 Objetivos específicos
- Explorar diferentes sons, ritmos e possibilidades de expressão corporal.
- Identificar e expressar emoções por meio de músicas, jogos, dramatizações e movimentos.
- Favorecer experiências relacionadas à percepção auditiva, à coordenação motora e ao senso rítmico.
- Incentivar a oralidade, a escuta atenta e a interação entre as crianças.
- Promover experiências de participação, cooperação e construção de vínculos em atividades coletivas.
- Estimular a criatividade por meio da construção, da pintura e da decoração de objetos sonoros.
- Desenvolver práticas de reaproveitamento de materiais no contexto educativo.
- Relacionar sons de animais às respectivas representações visuais.
- Respeitar o corpo, o espaço, a individualidade e as diferentes formas de participação das crianças.
- Valorizar a diversidade cultural por meio de repertórios musicais e experiências variadas.
4 JUSTIFICATIVA E QUESTÃO NORTEADORA
A proposta foi concebida para oferecer experiências envolvendo sons, movimentos, cores, materiais diversos e interação, considerando diferentes possibilidades de participação.
As atividades foram planejadas de modo que as crianças pudessem envolver-se por meio da escuta, da observação, da pintura, da exploração dos objetos, dos movimentos corporais, das dramatizações e da produção sonora.
A escolha de materiais reutilizáveis acrescentou à proposta uma dimensão ambiental, possibilitando trabalhar o reaproveitamento de objetos de maneira concreta e adequada à faixa etária. A transformação de materiais cotidianos em recursos pedagógicos também ampliou as possibilidades de criação e exploração.
A proposta justifica-se pela possibilidade de articular musicalização, ludicidade, educação ambiental e participação inclusiva em uma experiência pedagógica acessível e vinculada ao cotidiano das crianças.
Além disso, contempla experiências relacionadas à expressão corporal, à oralidade, à escuta atenta, à criatividade, à socialização e ao respeito à diversidade.
A questão norteadora deste trabalho é: como a musicalização, associada ao reaproveitamento de materiais, pode favorecer experiências de expressão, exploração sonora, interação e participação na Educação Infantil?
4.1 Delimitação e origem do trabalho
O trabalho foi desenvolvido inicialmente como Projeto Integrador por oito integrantes do curso de Pedagogia. Posteriormente, o grupo decidiu dar continuidade à proposta e reorganizar o material em formato de artigo científico, ampliando a fundamentação teórica, sistematizando as atividades e discutindo suas possibilidades pedagógicas.
Essa continuidade não correspondeu a uma nova aplicação do projeto nem a uma nova etapa de coleta de dados.
A orientação acadêmica recebida durante o Projeto Integrador contribuiu para o desenvolvimento da proposta, mas a elaboração do presente manuscrito foi realizada pelos oito autores.
A composição da autoria corresponde, portanto, aos integrantes que participaram do desenvolvimento do projeto e da redação e revisão do artigo.
O artigo não apresenta nomes da escola, nomes de crianças, imagens, falas ou informações que permitam a identificação dos participantes.
Também não são apresentados número de crianças, datas, quantidade de encontros ou duração das atividades, porque esses dados não foram registrados no Projeto Integrador.
A ausência dessas informações é assumida como limitação do trabalho, e nenhum dado foi estimado ou inventado.
5 METODOLOGIA
O trabalho caracteriza-se como um relato de experiência pedagógica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, elaborado a partir da sistematização de uma experiência previamente desenvolvida no contexto de um Projeto Integrador do curso de Pedagogia.
A escolha desse delineamento decorre do caráter retrospectivo e descritivo do trabalho, que tem como objeto a organização e a reflexão sobre uma experiência pedagógica já realizada, e não a produção de novos dados por meio de pesquisa de campo, testes ou instrumentos de mensuração.
A experiência foi desenvolvida em uma escola pública de Educação Infantil do município de Bariri, no estado de São Paulo, com crianças da Pré-escola I, com idades entre quatro e cinco anos.
O registro pedagógico não informa o número exato de participantes, o período de realização nem a duração dos encontros; por isso, esses dados não são estimados neste artigo.
A proposta foi organizada em etapas articuladas de sensibilização sonora, construção de objetos, exploração musical e socialização.
As atividades envolveram rodas de conversa, escuta de sons do universo animal, dramatizações, jogos musicais, construção e decoração de objetos sonoros, exploração de ritmos e socialização das produções.
A análise da experiência baseou-se na leitura e na sistematização do Projeto Integrador, considerando as atividades realizadas, os materiais utilizados e os objetivos pedagógicos descritos no documento.
Não foram produzidos registros sistemáticos especificamente para este artigo, nem utilizados questionários, testes ou instrumentos formais de mensuração. Dessa forma, a análise não pretende medir aprendizagens, comparar desempenhos ou estabelecer relações causais entre as atividades e o desenvolvimento infantil.
Os materiais utilizados foram previamente selecionados, higienizados e preparados para utilização pedagógica, observando-se os cuidados necessários à faixa etária.
Foram empregados garrafas PET pequenas, tampinhas plásticas, CDs reutilizados, EVA colorido, barbante, arroz, feijão, milho, soja, botões, tinta guache, pincéis, fita adesiva e tesoura sem ponta.
A cola quente foi manuseada exclusivamente pelos adultos responsáveis, assim como os procedimentos que envolviam corte, perfuração, fixação ou fechamento dos objetos.
5.1 Sensibilização sonora
A primeira etapa teve como foco a exploração de sons presentes no cotidiano.
Foram realizadas conversas com as crianças sobre sons de animais, sons da natureza, sons produzidos pelo corpo e sons provenientes de diferentes objetos.
As crianças foram incentivadas a ouvir, identificar e comparar os sons apresentados.
Para complementar a atividade, foram utilizadas representações de animais confeccionadas em EVA, permitindo estabelecer relações entre as imagens e os respectivos sons.
Também foram desenvolvidas dramatizações e jogos musicais relacionados ao universo animal, conforme previsto no planejamento da experiência.
As crianças participaram da escolha das cores e da decoração das figuras.
Os procedimentos que envolviam corte e utilização de cola quente foram realizados exclusivamente pelos adultos, considerando os cuidados necessários à faixa etária.
5.2 Construção dos objetos sonoros
Na segunda etapa, foram produzidos objetos destinados à exploração sonora.
As crianças participaram das escolhas relacionadas às cores, às pinturas e aos elementos decorativos, enquanto os procedimentos que exigiam ferramentas ou materiais que oferecessem riscos foram realizados pelos adultos.
A atividade possibilitou que as crianças acompanhassem a transformação de materiais cotidianos em objetos destinados à produção de sons, relacionando criação, ludicidade, sustentabilidade e exploração sonora.
5.2.1 Chocalhos com garrafas PET
Garrafas PET pequenas foram utilizadas para a construção de chocalhos.
Em seu interior foram colocados diferentes materiais, entre eles arroz, feijão, milho, soja e botões. A utilização de conteúdos distintos possibilitou comparar os sons produzidos durante a movimentação dos recipientes.
Após o fechamento seguro das garrafas pelos adultos, as crianças participaram da decoração dos objetos utilizando tinta guache e EVA.
Os chocalhos foram posteriormente utilizados em atividades de exploração sonora, acompanhamento de ritmos, jogos musicais e movimentos corporais.
5.2.2 Objetos sonoros com CDs reutilizados
CDs reutilizados foram empregados como base para a construção de objetos sonoros semelhantes a pandeiros.
Tampinhas plásticas foram fixadas ao redor dos CDs pelos adultos, utilizando barbante e cola quente.
As crianças participaram da pintura e da decoração dos objetos com tinta guache e EVA.
Posteriormente, os objetos foram utilizados para a exploração dos sons produzidos pelo movimento das tampinhas e para atividades musicais coletivas.
5.2.3 Animais confeccionados com EVA
Foram produzidas figuras de animais utilizando EVA colorido.
A atividade possibilitou trabalhar aspectos relacionados às cores, às formas, ao reconhecimento visual e à associação entre imagens e sons.
As crianças participaram da escolha das cores e da decoração das figuras.
Os procedimentos de recorte e de utilização da cola quente foram realizados exclusivamente pelos adultos.
5.3 Exploração musical e socialização
Após a construção dos objetos, foram realizadas atividades de exploração musical coletiva.
As propostas envolveram rodas musicais, brincadeiras rítmicas, identificação de sons de animais, dramatizações, jogos musicais, exploração dos objetos construídos e movimentos corporais.
As crianças puderam experimentar diferentes possibilidades sonoras, comparar os sons produzidos pelos materiais e participar de experiências compartilhadas.
A socialização das produções e das vivências musicais possibilitou situações de comunicação, compartilhamento de descobertas e ampliação do repertório cultural do grupo.
A mediação do professor foi fundamental para organizar as ações, apresentar possibilidades de exploração e favorecer diferentes formas de envolvimento.
6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A sistematização do Projeto Integrador permite identificar que a experiência foi organizada em torno da exploração de materiais, dos objetos construídos e das possibilidades de produção sonora.
A proposta criou condições para que as crianças participassem de situações de investigação e criação. Entretanto, como não foram produzidos registros sistemáticos para este artigo, não é possível afirmar a frequência ou a intensidade de determinadas respostas do grupo.
A proposta previa a comparação entre sons produzidos por materiais distintos e a relação entre as ações das crianças e os resultados sonoros obtidos. Essa organização aproxima-se da perspectiva apresentada por Brito (2003), segundo a qual a educação musical na infância deve proporcionar oportunidades de escuta, experimentação e criação.
No projeto, os objetos foram concebidos não apenas como recursos prontos, mas também como elementos de investigação sonora. As atividades de pintura, decoração e manuseio dos objetos foram planejadas para envolver expressão, exploração e experiências relacionadas à coordenação motora.
As rodas de conversa, os jogos, as dramatizações e a identificação dos sons de animais também articularam oralidade, escuta e expressão corporal.
Esses aspectos são discutidos como possibilidades pedagógicas da proposta, e não como resultados mensurados por instrumentos específicos.
A proposta apresentou relação com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil e com a BNCC, especialmente com o campo de experiências “Traços, sons, cores e formas”. O objetivo EI03TS01 relaciona-se à utilização de sons produzidos por materiais, objetos e instrumentos musicais em brincadeiras, encenações e criações musicais (Brasil, 1998, 2018).
A construção e a exploração dos chocalhos, dos objetos produzidos com CDs e das figuras de animais aproximaram-se dessas orientações curriculares ao possibilitar experiências envolvendo som, movimento, criação e expressão.
As situações coletivas foram planejadas para envolver compartilhamento de materiais, acompanhamento das ações dos colegas e participação em experiências comuns. Essa organização dialoga com a compreensão de Vigotski (1998) acerca da importância das relações sociais e da mediação no desenvolvimento e na aprendizagem.
A dimensão lúdica esteve presente durante o processo. A transformação de materiais cotidianos em objetos sonoros possibilitou que as crianças acompanhassem a criação dos recursos que seriam posteriormente utilizados nas atividades musicais.
Essa característica aproxima-se das contribuições de Kishimoto (2011) sobre o papel das experiências lúdicas na infância.
No que se refere à inclusão, a proposta contemplou diferentes possibilidades de envolvimento previstas no planejamento. Uma criança poderia participar pela pintura e pela decoração; outra, pela exploração sonora, pelos movimentos ou pela observação das imagens.
Como não houve registro sistemático dessas formas de participação, essa análise deve ser compreendida como uma possibilidade pedagógica da proposta, e não como resultado mensurado.
A existência de diferentes formas de participação está de acordo com uma perspectiva inclusiva, na qual a diversidade das crianças é considerada parte do processo educativo, conforme a discussão de Mantoan (2003).
Outro aspecto relevante foi a relação estabelecida entre musicalização e educação ambiental. Os materiais utilizados, que poderiam ser descartados, foram ressignificados como recursos pedagógicos.
Essa experiência permitiu abordar o reaproveitamento de maneira prática, aproximando a temática da sustentabilidade do cotidiano infantil e mostrando que materiais simples podem adquirir novas funções quando inseridos em uma proposta pedagógica planejada.
A articulação entre música e sustentabilidade também possibilitou trabalhar a percepção das características dos materiais. Ao comparar diferentes conteúdos colocados nos chocalhos, por exemplo, as crianças tiveram a oportunidade de perceber que materiais distintos podem produzir sons diferentes.
A associação entre as figuras de animais e seus respectivos sons acrescentou elementos de linguagem, imaginação e representação, ampliando as possibilidades de exploração da proposta.
Aspectos como o desenvolvimento da empatia, da autoestima, da consciência corporal, da socialização e da valorização da diversidade cultural são tratados como possibilidades e potencialidades da experiência, e não como efeitos comprovados, pois não foram utilizados instrumentos formais para avaliá-los.
De maneira geral, o Projeto Integrador descreve uma proposta que articula criatividade, exploração sonora, interação e diferentes formas de participação.
O artigo sistematiza essas dimensões como potencialidades pedagógicas, sem convertê-las em resultados quantitativos ou efeitos comprovados.
A análise corresponde, contudo, à sistematização de uma experiência específica. Por não haver registros sistemáticos nem instrumentos formais de avaliação, não é possível quantificar mudanças ou afirmar que a proposta tenha produzido, isoladamente, determinados efeitos sobre o desenvolvimento infantil.
A discussão deve, portanto, ser compreendida como uma reflexão sobre as possibilidades educativas da articulação entre musicalização, ludicidade, reaproveitamento de materiais e participação inclusiva.
7 IMPLICAÇÕES PEDAGÓGICAS E LIMITAÇÕES
A experiência descrita permite indicar algumas implicações para o planejamento pedagógico.
Uma delas é a possibilidade de utilizar materiais de baixo custo para ampliar o repertório sonoro da turma, desde que os objetos sejam previamente higienizados, preparados e utilizados com segurança.
Outra implicação refere-se à importância de integrar a produção dos materiais às atividades musicais, evitando que a confecção se torne uma tarefa desvinculada da exploração, da escuta e da criação.
Também se destaca a necessidade de organizar propostas que ofereçam diferentes formas de participação. A criança pode envolver-se escolhendo cores, decorando uma figura, ouvindo os sons, movimentando um chocalho, acompanhando um ritmo, associando uma imagem ao som correspondente ou observando a ação dos colegas.
Essa variedade não diminui a intencionalidade pedagógica; ao contrário, pode favorecer o reconhecimento de diferentes formas de expressão e participação.
A associação entre animais confeccionados em EVA e seus respectivos sons também demonstra que uma mesma atividade pode mobilizar linguagem visual, oralidade, escuta, movimento e imaginação.
Para que essa integração seja significativa, o professor precisa propor perguntas, acolher hipóteses, incentivar comparações e permitir que as crianças estabeleçam novas relações entre imagens, sons e movimentos.
É necessário, entretanto, interpretar as possibilidades da experiência com cautela.
O Projeto Integrador não contou com registros sistemáticos, instrumentos formais de avaliação ou informações completas sobre o número de participantes e a duração das atividades. Por esse motivo, o artigo não permite medir aprendizagens, comparar desempenhos ou estabelecer efeitos causais.
Seu valor está na sistematização reflexiva de uma experiência realizada e na discussão de possibilidades que podem orientar futuros planejamentos ou estudos com procedimentos próprios de coleta e análise.
Como continuidade, recomenda-se que futuras aplicações registrem o período, a quantidade de encontros, a duração das atividades, o número de participantes, os objetivos de cada encontro e as formas de participação observadas.
Também é recomendável que sejam definidos previamente os procedimentos de autorização institucional e, quando necessário, de consentimento dos responsáveis.
Esses cuidados podem fortalecer a documentação da prática e possibilitar análises posteriores mais sistemáticas, sem reduzir a espontaneidade própria das experiências musicais na infância.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência apresentada permitiu refletir sobre as possibilidades pedagógicas da musicalização infantil articulada ao reaproveitamento de materiais no contexto da Educação Infantil.
A construção e a exploração de objetos sonoros proporcionaram situações envolvendo sons, movimentos, cores e formas, inseridas em atividades individuais e coletivas.
A proposta também possibilitou integrar elementos musicais, artísticos, ambientais e relacionais em uma mesma experiência, aproximando diferentes linguagens presentes no cotidiano da criança.
As atividades inicialmente organizadas no Projeto Integrador foram ampliadas, neste artigo, com discussões sobre educação ambiental, participação e inclusão, mantendo a relação com os objetivos originais de favorecer experiências de expressão corporal, oralidade, escuta atenta, criatividade, socialização e respeito à diversidade.
A utilização de materiais reutilizáveis apresentou-se como uma alternativa acessível para a elaboração de recursos pedagógicos e possibilitou uma abordagem concreta sobre reaproveitamento e cuidado com o ambiente. Nesse sentido, a experiência estabeleceu relação com os princípios da educação ambiental e com as orientações curriculares da Educação Infantil.
A musicalização também ofereceu diferentes possibilidades de expressão e participação. As crianças puderam envolver-se por meio da escuta, da observação, da pintura, da exploração dos objetos, dos movimentos corporais, das dramatizações e da produção sonora.
Os limites metodológicos do relato precisam ser considerados. Não foram produzidos registros sistemáticos especificamente para o artigo nem utilizados instrumentos formais de avaliação; portanto, não é possível estabelecer medidas quantitativas ou afirmar relações causais entre as atividades desenvolvidas e mudanças específicas no desenvolvimento infantil.
Dessa forma, a discussão deve ser compreendida como uma sistematização reflexiva de uma experiência pedagógica situada em determinado contexto escolar.
Ainda assim, a experiência evidencia possibilidades de utilização da musicalização como prática de exploração, expressão e convivência, associada ao reaproveitamento de materiais e à valorização da participação das crianças.
Conclui-se que propostas que articulam música, ludicidade, criatividade, educação ambiental e inclusão podem ampliar as oportunidades de experiências significativas na Educação Infantil.
A prática desenvolvida também demonstra que recursos simples e acessíveis podem ser transformados em instrumentos pedagógicos quando inseridos em uma proposta planejada, segura e mediada pelo professor.
Como possibilidade de continuidade, futuras experiências poderão aprofundar o registro das atividades e analisar de forma mais sistemática as diferentes formas de participação das crianças, contribuindo para a produção de conhecimentos sobre práticas musicais sustentáveis na Educação Infantil.
REFERÊNCIAS
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Copyright (c) 2026 Ana Paula Cruz Ferreira de Souza, Andréia Santos Diogo Silva, Fabiano Bianchi, Isabela Estela Bianchi, Josiane Aparecida do Nascimento Ozeliero, Natália Maria Gusmão, Vanilda Carvalho Ramos, Walquíria Maria Ramos da Silva (Autor)