RESUMO
O presente artigo analisa, à luz da teoria da comunicação pública e dos fundamentos clássicos do policiamento comunitário, as estratégias e os desafios do uso do Instagram pela Polícia Militar do Pará (PMPA) como instrumento de comunicação preventiva e de aproximação comunitária. O referencial teórico articula a perspectiva habermasiana da esfera pública (HABERMAS, 1984) e os estudos sobre comunicação pública e organizacional (DUARTE, 2007; BRANDÃO, 2007; WOLTON, 2004; KUNSCH, 2003; BUENO, 2009) à teoria da sociedade em rede e das redes sociais digitais (CASTELLS, 1999; RECUERO, 2009, 2012; BOYD; ELLISON, 2007), bem como aos fundamentos clássicos do policiamento comunitário (TROJANOWICZ; BUCQUEROUX, 1990; GOLDSTEIN, 1990; WILSON; KELLING, 1982; BAYLEY, 2001). A pesquisa é de natureza bibliográfica e qualitativa, com levantamento sistemático de artigos, teses, dissertações e documentos institucionais publicados entre 2021 e 2026 no Google Acadêmico, na SciELO e em repositórios institucionais, complementado por amostragem teórica intencional de obras clássicas da área, independentemente do recorte temporal adotado para a literatura empírica. O diferencial deste artigo em relação à literatura prévia sobre a PMPA está em integrar os dados quantitativos disponíveis sobre o perfil institucional da PMPA no Instagram, seguidores, formatos de publicação e campanhas. Segundo Jacques et al. (2026), o perfil oficial da PMPA alcançou, no primeiro trimestre de 2026, mais de 102 mil seguidores no Instagram, ante 44,7 mil seguidores registrados por Ferreira et al. (2022) em levantamento de 2021, crescimento expressivo. Os mesmos autores identificam que a corporação já mantém presença técnica relativamente consistente na plataforma, ancorada em programas de policiamento comunitário como o PROERD, o PMZito e a Patrulha Maria da Penha, essa presença reproduz os princípios de parceria, coprodução da segurança e resolução de problemas preconizados pela literatura clássica sobre policiamento comunitário. À luz de Montesso Júnior e Campos (2022), este artigo também problematiza a tendência da literatura sobre Polícias Militares brasileiras de tratar crescimento de seguidores e engajamento como indicadores automáticos de comunicação pública efetiva, quando estudos em outros contextos institucionais apontam que altos volumes de curtidas e compartilhamentos podem coexistir com comunicação predominantemente unidirecional. A análise aponta para os desafios complexos no ecossistema midiático contemporâneo, que incluem a gestão da imagem institucional frente à tendência de visualização das ações de segurança pública e a necessidade de se posicionar diante de canais informais na região. Conclui-se que o uso do Instagram pela Polícia Militar do Pará constitui importante contribuição para a comunicação pública em segurança, ao ampliar a transparência, a visibilidade institucional e a aproximação com a sociedade paraense. Em um estado de vasta extensão territorial e diversidade operacional, a plataforma permite divulgar de forma ágil as ações ostensivas, preventivas e comunitárias da corporação, como demonstrado pelo crescimento de 44,7 mil para mais de 102 mil seguidores entre 2021 e 2026 (FERREIRA et al., 2022; JACQUES et al., 2026). Ao dar visibilidade a programas como PROERD, PMZito e Patrulha Maria da Penha (LIMA et al., 2026) e ao alinhar-se às diretrizes de policiamento comunitário da PMPA (PARÁ, 2014; 2018), o Instagram fortalece a legitimidade da instituição, humaniza sua imagem e promove o diálogo com a população, consolidando-se como ferramenta estratégica para a gestão da comunicação pública e para o fortalecimento da confiança social.
Palavras-chave: Instagram; comunicação pública; comunicação institucional; policiamento comunitário; Polícia Militar do Pará; visualização; indicadores de desempenho.
ABSTRACT
This article analyzes, in light of public communication theory and the classical foundations of community policing, the strategies and challenges associated with the use of Instagram by the Military Police of the State of Pará (PMPA) as a tool for preventive communication and community engagement. The theoretical framework integrates the Habermasian perspective of the public sphere (HABERMAS, 1984) with studies on public and organizational communication (DUARTE, 2007; BRANDÃO, 2007; WOLTON, 2004; KUNSCH, 2003; BUENO, 2009), the theory of the network society and digital social networks (CASTELLS, 1999; RECUERO, 2009, 2012; BOYD; ELLISON, 2007), and the classical foundations of community policing (TROJANOWICZ; BUCQUEROUX, 1990; GOLDSTEIN, 1990; WILSON; KELLING, 1982; BAYLEY, 2001). The study adopts a qualitative bibliographic approach, based on a systematic review of articles, theses, dissertations, and institutional documents published between 2021 and 2026 in Google Scholar, SciELO, and institutional repositories, complemented by a purposive theoretical sampling of classical works in the field, regardless of the temporal scope adopted for the empirical literature. The main contribution of this article to the existing literature on the PMPA lies in integrating quantitative data regarding the institution's official Instagram profile, including follower growth, publication formats, and communication campaigns. According to Jacques et al. (2026), the PMPA's official Instagram profile surpassed 102,000 followers during the first quarter of 2026, compared with the 44,700 followers recorded by Ferreira et al. (2022) based on 2021 data, representing substantial growth. The same authors argue that the corporation has developed a relatively consistent technical presence on the platform, supported by community policing initiatives such as PROERD, PMZito, and the Maria da Penha Patrol. This digital presence reflects the principles of partnership, co-production of public safety, and problem-solving advocated by the classical community policing literature. Drawing on Montesso Júnior and Campos (2022), this article also problematizes the tendency of the literature on Brazilian Military Police forces to interpret follower growth and engagement as automatic indicators of effective public communication, whereas studies conducted in other institutional contexts demonstrate that high numbers of likes and shares may coexist with predominantly one-way communication. The analysis highlights the complex challenges posed by the contemporary media ecosystem, including the management of institutional image in an environment characterized by the increasing visibility of public security actions and the need to position official communication in relation to informal communication channels operating within the region. It is concluded that the use of Instagram by the Military Police of Pará makes a significant contribution to public communication in public security by enhancing transparency, institutional visibility, and engagement with the population of Pará. In a state characterized by vast territorial extension and operational diversity, the platform enables the rapid dissemination of the corporation's preventive, community-oriented, and operational activities, as evidenced by the increase from 44,700 to more than 102,000 followers between 2021 and 2026 (FERREIRA et al., 2022; JACQUES et al., 2026). By giving visibility to programs such as PROERD, PMZito, and the Maria da Penha Patrol (LIMA et al., 2026), while aligning with the PMPA's community policing guidelines (PARÁ, 2014; 2018), Instagram strengthens the institution's legitimacy, humanizes its public image, and promotes dialogue with society, consolidating its role as a strategic tool for public communication management and for strengthening public trust.
Keywords: Instagram; public communication; institutional communication; community policing; Military Police of Pará; visualization; performance indicators.
1 INTRODUÇÃO
A expansão das redes sociais digitais transformou substancialmente as práticas de comunicação das instituições públicas, ampliando a circulação de informações, a interação com o cidadão e a visibilidade das ações estatais. Habermas (1984) descreve a esfera pública como o espaço de mediação entre o Estado e a sociedade civil no qual a opinião pública se forma por meio do debate racional e da circulação de informação de interesse coletivo. Embora formulado a partir da imprensa burguesa do século XVIII, esse conceito permanece produtivo para pensar as redes sociais digitais como novos espaços de interlocução entre instituições estatais e cidadãos, ainda que estruturalmente distintos, por serem mediados por plataformas privadas orientadas a métricas de engajamento.
No campo da administração pública brasileira, a publicidade e a prestação de contas constituem dimensões essenciais da legitimidade institucional, de modo que a presença digital dos órgãos públicos deve orientar-se por interesse público, utilidade social e responsabilização perante a sociedade (BRASIL, 2014). Duarte (2007) e Brandão (2007) sistematizam esse campo ao definirem a comunicação pública como o processo comunicativo que ocorre no espaço de fluxos entre agentes estatais, mercado e sociedade civil, tendo como finalidade normativa a construção da cidadania, e não a mera promoção institucional.
Estudos sobre governança eletrônica e policiamento comunitário, por sua vez, compreendem as redes sociais online como instrumentos de participação cidadã, visibilidade institucional e fortalecimento da relação entre Estado e sociedade (FERREIRA et al., 2022). Segundo Ferreira et al. (2022), em levantamento realizado em 2021, o perfil da PMPA no Instagram somava 44,7 mil seguidores e 1.310 publicações desde sua criação em 2013, contrasta com o volume mais recente identificado por Jacques et al. (2026) e sinaliza crescimento expressivo da presença digital da corporação nos anos seguintes.
1.1 Comunicação pública, comunicação institucional e redes sociais digitais
Do ponto de vista organizacional, Kunsch (2003) e Bueno (2009) descrevem a comunicação institucional como dimensão estratégica da comunicação organizacional integrada, voltada à construção e à preservação da imagem, da identidade e da credibilidade de uma organização perante seus públicos de interesse.
A compreensão contemporânea dessas dinâmicas apoia-se ainda na teoria da sociedade em rede de Castells (1999), para quem as tecnologias digitais reconfiguraram a estrutura social em torno de fluxos de informação que atravessam fronteiras geográficas e hierárquicas, alterando também a relação entre instituições e cidadãos. Recuero (2009, 2012) especifica esse arcabouço ao analisar as redes sociais na internet a partir de atores, conexões e capital social, e ao descrever a conversação em rede como processo coletivo de construção de sentido mediado pelo computador, conceitos úteis para interpretar comentários, respostas e engajamento nas publicações institucionais.
Boyd e Ellison (2007), em artigo seminal do campo, definem os sites de redes sociais pela combinação de perfis públicos ou semipúblicos, listas articuladas de conexões e possibilidade de percorrer essas conexões. Essas características moldam estruturalmente o modo como uma corporação como a PMPA pode ou não controlar a circulação e a interpretação de seu conteúdo institucional.
No campo específico da segurança pública, o Instagram assumiu posição estratégica entre as Polícias Militares brasileiras por combinar linguagem visual, alcance ampliado e recursos de interação adequados à divulgação de campanhas educativas, orientações preventivas e ao fortalecimento do policiamento comunitário. Cunha e Lima (2022) demonstram que as mídias sociais passaram a ser empregadas no policiamento tanto como fonte aberta de dados quanto como canal de comunicação institucional, reduzindo distâncias geográficas e hierárquicas entre a corporação e a população, conclusão que dialoga diretamente com a noção castellsiana de fluxos em rede substituindo distâncias físicas.
Estudos sobre a Polícia Militar do Paraná (VALADARES; DELAI, 2025; MARMACZUK; BEIGER, 2024) relatam, respectivamente, 145 mil seguidores com crescimento de 65% desde 2021 e o uso combinado de Instagram, YouTube e Facebook para fortalecer a imagem institucional. Estudos sobre a Polícia Militar de Goiás (PEREIRA; MARTINS, 2024; COELHO; SILVA, 2025) associam o Instagram ao fortalecimento da transparência e ao uso de recursos interativos. Já os estudos sobre a Polícia Militar do Amazonas (LIMA; AGUIAR; POLARI, 2025; OLIVEIRA et al., 2026) relatam mais de 104 mil seguidores e cerca de 70 perfis institucionais vinculados. Em conjunto, esses estudos convergem na conclusão de que o Instagram fortalece a transparência, a proximidade e a legitimidade institucional das corporações analisadas.
1.2 Policiamento comunitário: fundamentos teóricos
O conceito de policiamento comunitário que orienta este artigo remete à formulação clássica de Trojanowicz e Bucqueroux (1990), para quem essa filosofia consiste em uma parceria proativa e personalizada entre polícia e comunidade, orientada à resolução conjunta de problemas e à prevenção do crime, e não apenas à resposta reativa a ocorrências.
Essa perspectiva é complementada pelo policiamento orientado a problemas de Goldstein (1990), que propõe que a atuação policial deveria identificar, analisar e enfrentar as causas subjacentes dos problemas de segurança de uma comunidade. Wilson e Kelling (1982), por sua vez, formulam a teoria das "janelas quebradas", segundo a qual pequenos sinais de desordem urbana, quando ignorados, sinalizam abandono institucional e favorecem o aumento da criminalidade, argumento historicamente usado para justificar a presença policial de proximidade, ainda que sujeito a críticas quanto a seus efeitos sobre a seletividade penal e a estigmatização territorial.
Bayley (2001), em estudo comparado internacional, situa essas filosofias no contexto mais amplo da relação entre a polícia e a vida política de cada sociedade, alertando que reformas de aproximação comunitária tendem a produzir resultados distintos conforme a cultura organizacional e o grau de controle democrático de cada corporação. No Brasil, o próprio Estado incorporou esses fundamentos ao currículo oficial de formação policial por meio do Curso Nacional de Promotor de Polícia Comunitária (BRASIL, 2007), que consolidou princípios como mobilização social, descentralização decisória e constituição de conselhos comunitários de segurança.
É relevante notar que esse corpo teórico foi formulado, majoritariamente, em um contexto de interação presencial entre polícia e comunidade, anterior à consolidação das redes sociais digitais como canal de comunicação institucional.
Esses desafios assumem contornos particulares no estado do Pará, cuja extensão territorial, dispersão populacional e presença de áreas ribeirinhas impõem desafios específicos à comunicação institucional da Polícia Militar do Pará (PMPA). A corporação sustenta sua atuação comunitária em programas consolidados, como o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD), PMZito e a Patrulha Maria da Penha (LIMA et al., 2026; FERNANDES et al., 2026), além de diretrizes normativas de policiamento comunitário vigentes desde 2018 (PARÁ, 2018).
A literatura acadêmica mais recente já identifica o Instagram oficial da PMPA como espaço de apresentação das atividades operacionais da corporação ao cidadão paraense. Segundo Jacques et al. (2026), esse espaço se caracteriza por esforço de humanização institucional e uso de formatos audiovisuais curtos.
Entretanto, a visibilidade digital produz tanto oportunidades quanto riscos para as instituições policiais. Se, por um lado, o Instagram amplia o alcance das mensagens institucionais e fortalece a percepção de presença estatal, por outro lado ele expõe a corporação a críticas, pressão algorítmica e as dinâmicas de alta visibilidade e exposição na cobertura de ações de segurança pública (OLIVEIRA et al., 2026).
Diante desse cenário, o problema de pesquisa que orienta este artigo consiste em compreender, a partir da literatura científica recente, de fundamentos teóricos clássicos e de documentos institucionais, quais são as estratégias e os desafios do uso do Instagram pela PMPA como instrumento de comunicação preventiva e de aproximação comunitária.
Parte-se da hipótese de que, embora a plataforma favoreça a visibilidade institucional e a divulgação de programas comunitários consolidados, sua efetividade preventiva, compreendida à luz dos princípios de parceria e coprodução do policiamento comunitário clássico, depende do equilíbrio entre conteúdo operacional e conteúdo educativo, da contínua evolução normativa sobre o uso de redes digitais no âmbito pessoal e do fortalecimento da comunicação oficial para consolidar sua presença estratégica diante da pluralidade de canais informais e das dinâmicas de alta visibilidade midiática já documentadas na literatura sobre a região paraense.
O objetivo geral deste artigo é analisar, por meio da literatura científica recente, de fundamentos teóricos consolidados e de documentos institucionais, as estratégias e os desafios do uso do Instagram pela Polícia Militar do Pará (PMPA) como instrumento de comunicação preventiva e aproximação comunitária. Distintamente de estudos anteriores sobre a PMPA que, isoladamente, analisam apenas o conteúdo publicado (JACQUES et al., 2026), apenas os programas comunitários presenciais (LIMA et al., 2026; SOARES et al., 2026), este artigo busca a análise e discussão sobre indicadores de desempenho.
Para tanto, definem-se três objetivos específicos:
i) mapear o panorama teórico-empírico das pesquisas sobre mídias sociais na segurança pública, identificando as principais práticas de comunicação preventiva e educativa aplicáveis à realidade da PMPA;
ii) discutir, à luz da teoria clássica do policiamento comunitário, como as diretrizes institucionais de comunicação da PMPA conversam com a proposta de policiamento comunitário digital na plataforma do Instagram; e
iii) identificar os desafios conceituais e práticos apontados na literatura para a gestão da visibilidade e da imagem institucional, contextualizando as dinâmicas de alta exposição mediática e a pluralidade de canais informais no cenário da comunicação da segurança pública paraense.
O artigo está estruturado em quatro seções, além desta introdução. A segunda seção apresenta os procedimentos metodológicos adotados na revisão bibliográfica. A terceira seção desenvolve a discussão em subseções, correspondentes a cada um dos objetivos específicos, e apresenta um quadro-síntese dos principais estudos analisados. A quarta seção apresenta as considerações finais, seguidas das referências utilizadas.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O presente artigo caracteriza-se como uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, com o propósito de sistematizar e analisar criticamente a produção científica e institucional disponível sobre o uso do Instagram por Polícias Militares brasileiras, com ênfase na Polícia Militar do Pará, articulando-a a um referencial teórico consolidado sobre comunicação pública, comunicação institucional, redes sociais digitais e policiamento comunitário.
O corpus da revisão foi composto por duas frentes complementares de levantamento. A primeira, de caráter sistemático, delimitou o recorte temporal de 2021 a 2026 e adotou como fontes de busca o Google Acadêmico, a Scientific Electronic Library Online (SciELO) e repositórios institucionais, incluindo a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), repositórios digitais de universidades federais (a exemplo da Universidade Federal do Pará) e repositórios institucionais (DSpace) de corporações de Polícia Militar de outros estados.
A segunda frente, de amostragem teórica intencional, selecionou obras clássicas e consolidadas, independentemente da data de publicação nas áreas de comunicação pública (HABERMAS, 1984; WOLTON, 2004; DUARTE, 2007; BRANDÃO, 2007), comunicação organizacional (KUNSCH, 2003; BUENO, 2009), redes sociais digitais (CASTELLS, 1999; RECUERO, 2009, 2012; BOYD; ELLISON, 2007) e policiamento comunitário (TROJANOWICZ; BUCQUEROUX, 1990; GOLDSTEIN, 1990; WILSON; KELLING, 1982; BAYLEY, 2001; BRASIL, 2007), com o objetivo de fundamentar teoricamente a análise da literatura empírica recente.
Documentos normativos institucionais anteriores ao recorte de 2021-2026 também foram mantidos quando constituem marco vigente e sem substituto mais recente, como as Diretrizes de Polícia Comunitária e de Emprego Operacional da PMPA, de 2018 e 2014, respectivamente, e o Manual de Orientação para Atuação em Mídias Sociais do Governo Federal, de 2014, sendo devidamente identificados como fontes de contextualização normativa e não como literatura empírica recente.
Os descritores utilizados na frente sistemática combinaram termos como "Instagram", "Polícia Militar", "comunicação preventiva", "policiamento comunitário", "redes sociais", "segurança pública", "visibilidade midiática", "indicadores de engajamento" e "Pará", em português, isolados e combinados por operadores booleanos (AND/OR).
Foram incluídas na revisão fontes que tratassem diretamente do uso institucional de redes sociais por corporações policiais, de diretrizes de policiamento comunitário, de gestão da imagem institucional e visibilidade digital, de indicadores de desempenho em comunicação pública digital, de canais informais de comunicação sobre segurança pública. Foram excluídas fontes sem relação direta com os eixos temáticos da pesquisa, conteúdos não verificáveis quanto à autoria e à data de publicação, e materiais de divulgação sem qualquer mediação editorial ou institucional.
Todas as referências selecionadas foram verificadas individualmente quanto à autoria, ao ano de publicação e à disponibilidade do link ou DOI de acesso, processo que resultou na correção de dados incorretos identificados em fontes previamente citadas em versões preliminares deste trabalho, a exemplo da autoria e do ano de publicação de estudos institucionais sobre comunicação em mídias sociais, cujos dados corrigidos constam na lista de referências.
O corpus final da revisão é composto por referências, as quais constituem o marco teórico clássico da comunicação pública, da comunicação organizacional, das redes sociais digitais e do policiamento comunitário; correspondem à produção acadêmica e documental específica sobre o uso de redes sociais por corporações policiais brasileiras, publicada majoritariamente entre 2021 e 2026. A análise organizou-se em três eixos temáticos, correspondentes aos objetivos específicos do artigo: (1) panorama teórico-empírico das pesquisas sobre mídias sociais e segurança pública; (2) diretrizes institucionais da Polícia Militar do Pará e sua relação com o policiamento comunitário digital; e (3) gestão da visibilidade, da imagem institucional, dos riscos de projeção pública e dos canais informais de comunicação sobre segurança pública no contexto paraense.
3 DESENVOLVIMENTO
3.1 A Polícia Militar do Pará no contexto da segurança pública paraense
A Polícia Militar do Pará (PMPA) é uma entidade constante que faz parte do sistema de segurança pública do Brasil, estruturada com base na hierarquia e disciplina e com a responsabilidade legal de realizar ações de policiamento ostensivo e garantir a ordem pública. No cenário nacional, o artigo 144, § 5º da Constituição declara que as Polícias Militares atuam como forças complementares e reserva do Exército, sendo responsáveis pela vigilância e manutenção da ordem pública (BRASIL, 1988). Em nível estadual, a Constituição do Pará reforça essas funções e destaca a corporação como um elemento crucial da segurança pública do estado, subordinada administrativamente ao Poder Executivo (PARÁ, 1989).
A estrutura organizacional da PMPA é regulamentada pela Lei Complementar Estadual nº 053, datada de 7 de fevereiro de 2006, também chamada de Lei de Organização Básica da Polícia Militar do Pará, que delineia a missão institucional, a estrutura administrativa e operacional, além das responsabilidades dos órgãos de direção, de suporte e de execução da corporação (PARÁ, 2006). De acordo com essa legislação, a principal finalidade da Polícia Militar é manter a ordem pública, proteger cidadãos e bens, prevenir crimes e assegurar o exercício dos direitos fundamentais, operando em colaboração com as outras instituições que formam o Sistema Estadual de Segurança Pública e Defesa Social.
A atuação da PMPA acontece em um ambiente territorial único no Brasil. O Pará abrange cerca de 1,25 milhão de quilômetros quadrados, tornando-se a segunda maior unidade federativa do país em termos de área, dividida em 144 municípios e caracterizada por uma grande diversidade geográfica, ambiental, econômica e sociocultural (IBGE, 2024a). Esta configuração inclui áreas metropolitanas densamente povoadas, vastas zonas rurais, comunidades ribeirinhas, regiões indígenas, áreas de conservação e locais onde o acesso depende, em grande parte, de transporte fluvial, apresentando desafios logísticos contínuos para a realização do policiamento ostensivo.
Dentro desse panorama, a ação da Polícia Militar não se limita ao patrulhamento urbano convencional, exigindo abordagens de policiamento que sejam adaptadas às características específicas da região. A diversidade do território paraense requer a aplicação simultânea de diferentes formas de policiamento, incluindo urbano, rural, fluvial, ambiental, rodoviário e comunitário, além da execução de operações conjuntas focadas no combate ao crime organizado, na proteção do meio ambiente, na segurança de grandes eventos e no gerenciamento de situações de emergência e defesa civil. Essa complexidade revela que a missão institucional da corporação vai além da repressão ao crime, abrangendo uma ampla gama de ações preventivas, educativas e de interação social, alinhadas aos princípios modernos do policiamento comunitário.
Nesse contexto, entender a estrutura organizacional da PMPA e sua extensão territorial é crucial para compreender sua comunicação institucional nas redes sociais. A variedade de atividades da corporação influencia diretamente a natureza das informações que são compartilhadas com o público, tornando os canais disponíveis de comunicação, especialmente o Instagram, essenciais para divulgar operações policiais, iniciativas educativas, programas sociais e ações de policiamento comunitário que ocorrem em diferentes áreas do estado. Portanto, antes de analisar detalhadamente o uso das redes sociais digitais, é fundamental compreender a organização institucional que é responsável por implementar essas ações e por estabelecer a imagem pública da corporação.
A estrutura territorial da Polícia Militar no Pará foi planejada para levar em conta as características geográficas, demográficas e socioeconômicas de um dos maiores estados do Brasil. Levando em consideração a vastidão do território paraense e a variedade de seus municípios, a instituição implementa um modelo de descentralização tanto administrativa quanto operacional, organizado por meio dos Comandos de Policiamento Regional (CPRs), Comandos de Policiamento da Capital (CPCs) e unidades especializadas, o que permite uma coordenação e execução mais eficazes das atividades de policiamento e manutenção da ordem pública (PARÁ, 2006). Conforme destacado, a complexidade geográfica e territorial do estado do Pará exige que a Polícia Militar adote um modelo de descentralização administrativa e operacional capaz de atender às diferentes realidades regionais. Nesse contexto, a instituição organiza sua estrutura por meio dos Comandos de Policiamento Regional (CPRs), dos Comandos de Policiamento da Capital (CPCs) e de unidades especializadas, permitindo que o planejamento e a execução das ações policiais considerem as especificidades locais e proporcionem respostas mais eficazes às demandas da população (PARÁ, 2006; IBGE, 2024b).
3.1.1 Organização territorial e especificidades da atuação da PMPA no estado do Pará
Os Comandos de Policiamento Regional desempenham uma função crucial na administração das operações da corporação, supervisionando os batalhões e outras unidades subordinadas dentro de suas áreas específicas. Ao mesmo tempo, a Polícia Militar do Pará também possui unidades especializadas que focam em diversas modalidades de policiamento, incluindo ambiental, rodoviário, montado, de choque, operações especiais, policiamento fluvial e suporte a grandes eventos, permitindo a alocação de recursos humanos e materiais de acordo com as particularidades de cada situação e região do estado (PARÁ, 2006).
No Oeste do Pará, o Comando de Policiamento Regional I (CPR-I), situado em Santarém, se destaca como responsável pela coordenação das atividades policiais em uma parte significativa da região amazônica do estado. Sua área abrange municípios com extensas florestas, comunidades ribeirinhas, pontos turísticos, estradas federais, rotas fluviais e áreas de interesse ambiental, características que exigem abordagens diferenciadas em termos de policiamento ostensivo, preventivo, comunitário e ambiental. Por outro lado, a Região Metropolitana de Belém possui uma alta densidade populacional, com grande movimentação de pessoas, concentração de serviços públicos e a realização de importantes eventos religiosos, culturais e esportivos, o que requer um planejamento específico para garantir a segurança urbana e gerir grandes públicos.
Essa diversidade territorial evidencia que a atuação da Polícia Militar do Pará vai além do modelo convencional de policiamento urbano, abrangendo uma variedade de modalidades de ação operacional que se ajustam às particularidades geográficas, sociais e econômicas de cada região. Portanto, entender a estrutura territorial da corporação é fundamental para analisar sua comunicação institucional em plataformas digitais, dado que as iniciativas divulgadas em seus canais oficiais espelham a vasta gama de atividades realizadas em todo o estado do Pará. Assim, as redes sociais institucionais, especialmente o Instagram, configuram-se com ferramentas estratégicas para a divulgação de operações policiais, programas preventivos, ações comunitárias e aproximações com a sociedade, aumentando a transparência institucional.
A atuação da Polícia Militar no estado do Pará é marcada pela variedade de métodos de policiamento utilizados para atender as especificidades territoriais, sociais e ambientais da região. Além do policiamento ostensivo nas áreas urbanas, a corporação implementa ações focadas em regiões rurais, áreas fluviais e locais de difícil acesso, ajustando suas táticas às características da Amazônia. Essa realidade demanda um alto nível de planejamento operacional, colaboração entre diferentes unidades e um treinamento contínuo do pessoal, visando garantir uma maior eficácia na prevenção de crimes e na manutenção da ordem pública (FONSECA et al., 2026; BITTENCOURT et al., 2026).
Nesse quadro, a modernização das instituições tem promovido o uso de práticas guiadas pela gestão da informação e pela análise de dados como suporte ao planejamento operacional. O policiamento baseado em evidências permite reconhecer padrões de criminalidade, estabelecer áreas prioritárias para a atuação policial e otimizar a distribuição dos recursos disponíveis, ajudando a reforçar as iniciativas preventivas e a melhorar a qualidade do serviço público de segurança. Essa abordagem reforça o papel da Polícia Militar não apenas como uma reação a incidentes, mas como uma entidade dedicada ao planejamento estratégico e à geração de resultados sustentados por dados confiáveis (DINIZ NETO et al., 2026).
A abrangência dessas responsabilidades demonstra que a ação da Polícia Militar do Pará vai além da abordagem repressiva convencional, englobando atividades de prevenção, planejamento, gestão e engajamento com a comunidade. Dentro desse panorama, a divulgação das iniciativas institucionais se torna importante para aumentar a conscientização da população sobre as diversas funções desempenhadas pela corporação. Dessa forma, os canais de comunicação oficiais, especialmente as redes sociais, assumem um papel complementar na promoção da transparência, na prestação de contas à sociedade e na construção da confiança nas instituições, aspectos que serão abordados nas seções seguintes.
3.1.2 A atuação operacional e os desafios do policiamento em contextos fluviais e rurais
A regulamentação das funções exercidas pela Polícia Militar do Pará é determinada pela Lei Complementar nº 053, datada de 7 de fevereiro de 2006, que dispõe sobre a organização básica e fixa o efetivo da Corporação. Essa legislação especifica que a PMPA é organizada em órgãos responsáveis pela direção, suporte e execução, incumbindo às unidades operacionais a tarefa de planejar, coordenar e executar atividades de policiamento ostensivo e de garantia da ordem pública em todo o território estadual (PARÁ, 2006). Essa estrutura foi posteriormente detalhada pelo Decreto Estadual nº 1.625, publicado em 18 de outubro de 2016, que esclarece as funções dos diversos órgãos que compõem a estrutura administrativa e operacional da corporação, além das atribuições dos comandos e unidades subordinadas.
No aspecto operacional, a Polícia Militar desenvolve suas ações através dos Comandos Operacionais Intermediários, que incluem os Comandos de Policiamento Regional (CPRs), Comandos de Policiamento da Capital (CPCs), Comando de Policiamento da Região Metropolitana (CPRM) e Comandos Especializados. Essas estruturas têm a responsabilidade de planejar, coordenar, supervisionar, controlar e fiscalizar as ações de policiamento ostensivo e de preservação da ordem pública em suas respectivas áreas, assegurando maior eficiência administrativa e operacional frente às diversas realidades do Estado do Pará (PARÁ, 2014).
Sob a supervisão dos comandos operacionais, estão as Unidades Operacionais de Polícia Ostensiva, que são representadas pelos Batalhões de Polícia Militar (BPMs), Companhias Independentes de Polícia Militar (CIPMs), companhias orgânicas, pelotões e destacamentos de polícia. Além dessas unidades territoriais, a estrutura básica da PMPA inclui órgãos especializados que têm como foco a realização de atividades específicas como policiamento ambiental, policiamento rodoviário, policiamento de choque, operações especiais e outras modalidades previstas na organização da Corporação (PARÁ, 2006; PARÁ, 2014).
A descentralização das operações promovida pela Polícia Militar do Pará possibilita que a alocação de efetivos policiais seja ajustada às particularidades geográficas, demográficas e socioeconômicas de cada região do Estado.
Sob a ótica operacional, essa vasta extensão territorial e a diversidade de ambientes (urbanos, rurais e ribeirinhos) condicionam diretamente a aplicação da Lei Complementar nº 053/2006. Nesse sentido, a distribuição dos comandos regionais proporciona uma maior capacidade de planejamento e resposta às demandas locais, levando em consideração as características operacionais de cada área (IBGE, 2024; PARÁ, 2014).
Assim, pode-se perceber que a atuação prática da Polícia Militar do Pará é organizada em um modelo que combina descentralização administrativa, especialização funcional e distribuição territorial das unidades operacionais. Essa configuração permite que as atividades constitucionais da Corporação sejam desenvolvidas em diversos contextos sociais e geográficos, constituindo a base institucional das ações que são divulgadas posteriormente em seus canais oficiais de comunicação, especialmente nas plataformas digitais utilizadas para interação com a sociedade.
3.1.3 Mídias sociais, comunicação pública e policiamento comunitário: panorama teórico-empírico das pesquisas
A literatura acadêmica produzida entre 2021 e 2026 sobre o uso de redes sociais por Polícias Militares brasileiras converge na constatação de que o Instagram se tornou o principal canal de comunicação institucional dessas corporações, superando, em regularidade de uso, outras plataformas como Facebook e YouTube.
Ao examinar a comunicação institucional da Polícia Militar do Amazonas, Lima, Aguiar e Polari (2025) descrevem como a corporação utiliza o Instagram, o YouTube e o Facebook, por meio de sua Diretoria de Comunicação Social, para levar à sociedade informações de interesse coletivo. Os autores registram que a corporação mantinha, em 2025, mais de 104 mil seguidores no Instagram e cerca de setenta perfis institucionais vinculados, números que evidenciam tanto o alcance da plataforma quanto o desafio de padronização entre múltiplos perfis oficiais.
Esse desafio, na perspectiva de Kunsch (2003), é precisamente o que a comunicação organizacional integrada busca equacionar por meio de planejamento centralizado. A comparação com a PMPA é instrutiva: segundo Jacques et al. (2026), o perfil oficial da corporação alcançou mais de 102 mil seguidores no primeiro trimestre de 2026, volume próximo ao da PMAM, mas concentrado em um único perfil institucional, ao contrário da rede de aproximadamente setenta perfis vinculados relatada por Lima, Aguiar e Polari (2025) para a PMAM.
Padrão semelhante é observado na Polícia Militar do Paraná. Valadares e Delai (2025) analisam o desempenho da conta oficial da corporação no Instagram e relatam 145 mil seguidores, com crescimento de 65% na base de seguidores desde 2021. Os autores concluem que a plataforma constitui ferramenta estratégica para a transparência e o engajamento com a comunidade, embora ressaltem que o alinhamento das postagens aos valores institucionais e a gestão de interações exigem atenção contínua.
Na mesma linha, Marmaczuk e Beiger (2024) discutem como o Instagram, o YouTube e o Facebook transformaram a comunicação institucional da Polícia Militar do Paraná, com ênfase na melhoria da imagem institucional e na promoção de campanhas preventivas, apontando ainda a expansão recente para plataformas como o TikTok.
Um exemplo mais especializado dessa mesma corporação é o Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Paraná (BPMA/PMPR): segundo Gazola Kevetiki e Moura (2026), o perfil da unidade somava apenas 12.674 seguidores em janeiro de 2026, volume muito inferior ao da conta institucional geral da PMPR e ao da PMPA, o que sugere que perfis temáticos ou de unidades especializadas tendem a alcançar públicos mais restritos do que perfis institucionais centrais, ainda que possam ser mais consistentes metodologicamente.
Investigações sobre a Polícia Militar de Goiás acrescentam à discussão a dimensão do policiamento comunitário propriamente dito. Pereira e Martins (2024), ao analisarem o perfil institucional da corporação no Instagram, identificam alto engajamento da comunidade e o uso de recursos interativos, como quizzes em stories, para promover participação cidadã e educação da população. Os autores concluem que a plataforma constitui ferramenta valiosa para fortalecer o relacionamento entre polícia e sociedade e para promover os princípios do policiamento comunitário. Coelho e Silva (2025), em estudo de método misto com policiais militares goianos, confirmam o Instagram como canal principal de comunicação institucional, associado a maior transparência e confiança comunitária.
Do ponto de vista metodológico, a literatura oferece ainda contribuições relevantes sobre como analisar cientificamente perfis institucionais no Instagram. Castro (2024), em dissertação sobre o gerenciamento de mídias sociais em instituições de segurança pública, com foco na Polícia Militar de Santa Catarina, propõe um framework de gestão estruturado em etapas de planejamento, implementação e avaliação, com códigos prioritários voltados à gestão de crises e ao fortalecimento da imagem institucional. Esse framework oferece uma base metodológica aplicável à realidade de outras corporações.
De modo complementar, Ghisleni, Rezer e Knoll (2022), ao analisarem o conteúdo de publicações da marca C&A no Instagram, sistematizam procedimentos de análise de conteúdo aplicáveis a perfis institucionais de qualquer natureza, formatos, tipologias e estratégias de comunicação. Isso fornece instrumental metodológico transponível para investigações sobre perfis institucionais policiais, ainda que se trate originalmente de um objeto de comunicação de marca comercial.
Cunha e Lima (2022), por fim, oferecem marco conceitual mais amplo ao descrever o emprego das mídias sociais no policiamento como fenômeno que combina uso investigativo (fonte aberta de dados) e uso comunicacional (fortalecimento da imagem institucional e redução de distâncias entre corporação e cidadão).
Do conjunto dessas pesquisas, emergem práticas de comunicação preventiva e educativa diretamente aplicáveis à realidade da PMPA: (i) a diversificação de formatos de publicação, feed, reels e stories, para ampliar o alcance e o engajamento; (ii) o uso de recursos interativos, como quizzes e enquetes, para fomentar a participação cidadã, ainda que sua efetividade comunitária real dependa de validação além da simples métrica de engajamento; (iii) a padronização editorial entre múltiplos perfis institucionais vinculados a uma mesma corporação, alinhada à noção de comunicação organizacional integrada de Kunsch (2003); (iv) a distinção clara entre conteúdo operacional e conteúdo preventivo-educativo; e (v) a adoção de protocolos formais de gestão de crise e de avaliação de resultados, nos termos propostos por Castro (2024).
A atuação da Polícia Militar do Pará está condicionada por características geográficas, sociais e ambientais do Estado, que possui uma vasta extensão territorial, uma extensa rede de rios e uma variedade de contextos urbanos, rurais e ribeirinhos, exigindo abordagens distintas para a polícia. Nesse contexto, a Corporação organiza suas atividades através dos Comandos de Policiamento Regional (CPR), que têm a responsabilidade de coordenar a operação das unidades sob sua supervisão com base nas exigências locais, permitindo uma maior presença policial e respostas mais adequadas às demandas regionais. Essa organização favorece uma maior autonomia administrativa e operacional, permitindo que as ações de manutenção da ordem pública levem em conta as particularidades de cada área e de suas comunidades (PARÁ, 2014).
Além disso, os anuários da instituição mostram que a atuação da PMPA está em consonância com o planejamento estratégico da instituição, integrando operações visíveis, iniciativas preventivas, melhoria na gestão e fortalecimento da comunicação institucional como pilares para aprimorar os serviços à população (PARÁ, 2021; PARÁ, 2022; PARÁ, 2024). No oeste do Pará, principalmente na jurisdição do Comando de Policiamento Regional I (CPR-I), com sede em Santarém, as operações têm características singulares devido à extensa rede hídrica, à presença de comunidades ribeirinhas e à relevância econômica e turística da região do Baixo Amazonas. O planejamento das operações leva em consideração aspectos como a navegação, o policiamento em áreas de difícil acesso e a necessidade de colaboração entre batalhões e companhias independentes em diferentes municípios.
De acordo com o Anuário PMPA 2019/2020, o Comando de Policiamento Regional I (CPR-I), com sede em Santarém, possui responsabilidade territorial sobre diversos municípios do oeste paraense, contando com unidades subordinadas responsáveis pelo policiamento ostensivo e pela resposta às demandas locais, evidenciando a complexidade logística e operacional da prestação de serviços de segurança pública na região (PARÁ, 2021). Essa dinâmica operacional evidencia que a atuação da Polícia Militar do Pará vai além da reação a incidentes criminais, incorporando planejamento territorial, colaboração entre unidades, gestão estratégica e presença constante em ambientes urbanos, rurais e fluviais. Ao mesmo tempo, a variedade de atividades realizadas pela Corporação aumenta a necessidade de mecanismos que permitam à população entender essas ações, ampliando a compreensão social sobre as ações desenvolvidas e fortalecendo o vínculo entre a Corporação e a comunidade. Nesse sentido, os canais oficiais de comunicação desempenham um papel adicional à ação operacional, divulgando informações sobre operações, iniciativas preventivas e serviços prestados pela PMPA, um aspecto que será explorado na próxima seção ao examinar o Instagram como uma ferramenta de comunicação institucional.
3.1.4 Diretrizes institucionais da PMPA e a proposta de policiamento comunitário digital no Instagram
A Polícia Militar do Pará sustenta sua atuação comunitária em marco normativo próprio, consolidado desde 2018 por meio da Diretriz de Polícia Comunitária, que estabelece como política de comando a proximidade com o cidadão, a prevenção do crime e o diálogo interinstitucional (PARÁ, 2018). Essa diretriz é complementada pela Diretriz Geral para Emprego Operacional da corporação, de 2014, que reserva seção específica à polícia comunitária, reforçando o caráter estrutural e não apenas discursivo da proposta de aproximação social da PMPA (PARÁ, 2014).
Lidas à luz da definição clássica de Trojanowicz e Bucqueroux (1990), essas diretrizes incorporam formalmente a lógica de parceria proativa entre polícia e comunidade. Entretanto, ambas antecedem a consolidação do Instagram como canal prioritário de comunicação institucional, o que suscita a questão central desta subseção: como uma plataforma digital estruturalmente assimétrica na qual a corporação pública e o público majoritariamente reagem se articula com diretrizes originalmente concebidas para a interação presencial e para a coprodução comunitária da segurança?
A produção acadêmica mais recente sobre a PMPA permite responder parcialmente a essa questão, com base em dados do perfil. Segundo Jacques et al. (2026), em análise qualitativa de 127 conteúdos publicados no Instagram oficial da corporação entre janeiro e 15 de abril de 2026, o perfil somava mais de 102 mil seguidores nesse período, ante os 44,7 mil seguidores registrados por Ferreira et al. (2022) em levantamento de 2021, crescimento expressivo.
Do total de 127 conteúdos identificados por Jacques et al. (2026), 89 foram publicados no feed, média de 22,25 publicações por mês, com pico de 28 em março de 2026 e 32 foram reels (25,2% do total), com duração predominante entre 22 e 45 segundos. Os autores registram ainda uma média de 14,3 stories por semana, com maior recorrência às segundas e sextas-feiras, e observam que 84% dos posts foram publicados entre 16h e 20h, horário indicado pelos "Insights do Instagram" como de maior engajamento.
Entre os conteúdos analisados por Jacques et al. (2026), destaca-se um vídeo do 24º Batalhão da PMPA sobre apoio a famílias atingidas por enchentes na área do Tapanã, em Belém, que reuniu 4.709 reações, 228 comentários e 414 compartilhamentos. Os autores também identificam campanhas nominalmente divulgadas no perfil, como ações de combate ao bullying, de combate à violência contra a mulher com divulgação do telefone 180 para denúncias e a "Operação Semana Santa 2026".
Segundo Jacques et al. (2026), esse conjunto de achados indica que a PMPA já mantém presença técnica relativamente consistente na plataforma, caracterizada pelo uso predominante de formatos audiovisuais curtos e por um esforço deliberado de humanização institucional na apresentação das atividades operacionais ao cidadão paraense.
A literatura documenta uma estrutura robusta de programas de policiamento comunitário que fundamentam, de modo mais sistemático, o conteúdo preventivo-educativo divulgado no Instagram institucional. Lima et al. (2026) detalham o funcionamento do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD), institucionalizado na PMPA desde 2011 e responsável por mais de 400 mil certificados emitidos em vinte anos de atuação em 101 municípios paraenses, além do PMZito, criado em 2018 e presente, em 2025, em quinze municípios com mais de 1,4 mil participantes. Os mesmos autores documentam ainda a Patrulha Maria da Penha e a Ronda Escolar como iniciativas de proteção especializada.
A consolidação das diretrizes de policiamento comunitário aumentou a necessidade de melhorar a comunicação institucional da Polícia Militar do Pará. Com a evolução da atuação policial para incluir estratégias focadas na prevenção, resolução de problemas e no fortalecimento da conexão com a comunidade, tornou-se essencial expandir os métodos de divulgação das atividades realizadas pela Corporação. Nesse quadro, a comunicação pública desempenha um papel crucial ao promover uma maior clareza sobre as atividades institucionais, facilitar a prestação de contas para a sociedade e reforçar a legitimidade das instituições encarregadas da segurança pública (FONSECA et al., 2026).
Quando a comunicação institucional é guiada pelos princípios da administração pública e comunicação governamental, ela ajuda a conectar os cidadãos com as políticas públicas que os órgãos do estado implementam, favorecendo a criação de relações fundamentadas em confiança, diálogo e participação social. No contexto da Polícia Militar do Pará, essa abordagem permite uma maior visibilidade não apenas das operações policiais, mas também das iniciativas preventivas, educacionais, comunitárias e de auxílio à população que a Corporação realiza diariamente. Dessa maneira, a comunicação deixa de ser apenas informativa e se transforma em um instrumento para o fortalecimento institucional e para a valorização do serviço público prestado (BITTENCOURT et al., 2026; DINIZ NETO et al., 2026).
O avanço das tecnologias digitais intensificou esse processo ao fornecer novas maneiras de interação entre as instituições públicas e a sociedade. As redes sociais digitais agora permitem uma divulgação mais ágil de informações, um alcance maior das comunicações institucionais e oportunidades de interação direta com diferentes públicos (CASTELLS, 1999; RECUERO, 2009). Pesquisas sobre comunicação governamental e segurança pública mostram que esses ambientes digitais não apenas facilitam a disseminação de informações de interesse coletivo, mas também promovem a transparência, a responsabilidade e a confiança institucional, desde que sejam utilizados de maneira planejada, ética e alinhada com os objetivos da comunicação pública.
Nesse contexto, o Instagram se destaca como uma ferramenta de comunicação institucional para a Polícia Militar do Pará. Mais do que um meio para relatar ocorrências policiais, a plataforma possibilita mostrar à sociedade a variedade de atividades realizadas pela Corporação, incluindo operações ostensivas, programas preventivos, campanhas educativas, ações comunitárias e atividades de interesse público. Assim, o uso estratégico dessa rede social ajuda a ampliar o conhecimento da sociedade sobre as atividades desenvolvidas pela instituição.
3.2 Gestão de visibilidade, e canais informais na comunicação da segurança pública paraense
A comunicação institucional da PMPA nas plataformas digitais opera em um ecossistema informacional dinâmico, caracterizado pela interface e concorrência com narrativas de forte apelo popular, comercial e de canais informais. Essas características, historicamente consolidadas no ambiente midiático do estado, constituem um panorama complexo que antecede e transcende as próprias redes sociais.
A visibilidade institucional da PMPA no Instagram se desenvolve sob um aspecto estratégico e complementar da consolidação da comunicação oficial como referência informativa primordial perante um ecossistema midiático regional historicamente caracterizado por uma expressiva pluralidade de canais informais e por narrativas jornalísticas de alta visibilidade e apelo popular.
Dessa forma, a gestão da visibilidade da PMPA no ambiente digital não se resume apenas à produção de conteúdo para o Instagram, mas a uma disputa simbólica por legitimidade informativa. Nesse ecossistema marcado pela força dos canais informais e por narrativas populares de alto alcance, a comunicação institucional precisa atuar de forma estratégica, profissional e contínua para se afirmar como fonte oficial e confiável, equilibrando a linguagem institucional com as dinâmicas da plataformização (RECUERO, 2009).
3.3 Principais Estudos analisados em redes sociais
Em síntese, a leitura conjunta desses achados sugere que a literatura sobre comunicação digital de Polícias Militares brasileiras, inclusive a literatura específica sobre a PMPA, demonstra a efetividade comunicativa dessas plataformas.
Quadro 1 – Síntese dos principais estudos analisados
Fonte: elaborado pelos autores (2026), com base nos estudos citados.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que o uso do Instagram pela Polícia Militar do Pará representa uma contribuição estratégica e positiva para o fortalecimento da segurança pública e da relação entre a corporação e a sociedade paraense. Em um estado de dimensões continentais e com realidades operacionais tão diversas, a plataforma digital tem se mostrado um canal eficaz para ampliar a presença institucional, dar visibilidade às ações da corporação e aproximar a PMPA dos cidadãos, inclusive nas regiões de difícil acesso como as áreas ribeirinhas coordenadas pelo CPR-I em Santarém (PARÁ, 2014).
A principal contribuição do Instagram está na capacidade de tornar pública, de forma ágil e transparente, a multiplicidade de atividades desenvolvidas pela PMPA. Os dados apresentados por Jacques et al. (2026) evidenciam esse avanço: o perfil oficial passou de 44,7 mil seguidores em 2021 (FERREIRA et al., 2022) para mais de 102 mil seguidores no primeiro trimestre de 2026. Essa expansão, aliada a uma média de 22,25 publicações mensais no feed, ao uso de reels e stories em horários de elevado engajamento, e à divulgação de conteúdos audiovisuais curtos, demonstra maturidade técnica e compromisso com a comunicação institucional (JACQUES et al., 2026).
Além disso, o Instagram potencializa a efetivação das diretrizes de policiamento comunitário da PMPA (PARÁ, 2014; PARÁ, 2018). Ao divulgar programas consolidados como o PROERD, o PMZito e a Patrulha Maria da Penha (LIMA et al., 2026), a corporação não apenas informa, mas também educa e aproxima a população das iniciativas preventivas. Essa prática está alinhada ao que Pereira e Martins (2024) identificaram na PMGO e Valadares e Delai (2025) na PMPR: as redes sociais fortalecem a confiança, a transparência e o diálogo entre polícia e comunidade.
Dessa forma, o Instagram deixa de ser apenas um meio de divulgação de ocorrências e passa a cumprir uma função social relevante: humanizar a imagem da instituição, valorizar o trabalho policial e promover a prestação de contas. A comunicação digital, quando planejada e alinhada aos princípios da administração pública, contribui diretamente para a legitimidade da PMPA e para a construção de uma cultura de segurança colaborativa.
Portanto, o uso institucional do Instagram pela PMPA deve ser compreendido como um avanço na gestão da comunicação pública em segurança. Ele amplia o alcance das ações da corporação, reforça a transparência e consolida a imagem de uma polícia presente, moderna e comprometida com o interesse público no estado do Pará.
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